Por que bolsonarismo e lulismo convergem em opiniões pró-Rússia?

Sobre a guerra na Ucrânia, talvez o que mais me chamou a atenção até agora é o fato de que, no Brasil, tanto a extrema direita quanto a extrema esquerda, na contramão das democracias ocidentais que se solidarizam com a Ucrânia, tendem a opiniões pró-Rússia. Por um lado, Jair Bolsonaro, que acabara de retornar de visita diplomática ao presidente russo Vladimir Putin, afirmou em pronunciamento oficial que o Brasil se solidariza com a Rússia – isso sem mencionar as inúmeras vezes em que se esquivou de condenar a invasão russa. Por outro lado, através de um tweet que depois foi apagado, o PT no Senado defendeu a Rússia e culpou o imperialismo americano pela guerra. A pergunta que vem à tona é: por que tanto o bolsonarismo quanto o lulismo, em teoria oponentes ferrenhos, concordam entre si nesse ponto e têm em comum essa simpatia pela Rússia?

A resposta a essa questão parece convergir no autoritarismo. A extrema direita brasileira, que tem Bolsonaro como seu maior expoente hoje, é formada em sua base por saudosistas da ditadura militar, ultraconservadores nos costumes, fortemente nacionalistas e militaristas. A extrema esquerda, por sua vez, que atualmente aposta todas as suas fichas em Lula para as próximas eleições presidenciais, é formada em sua base por saudosistas da extinta União Soviética (URSS), radicalmente marxistas, comunistas, revolucionários e, peculiarmente, anti-imperialistas (leia-se “anti-EUA”). A atual Rússia, há décadas sob o comando de Putin, reúne todos os elementos que mais agradam tanto a extrema esquerda quanto a extrema direita brasileiras. Se, por um lado, esbanja militarismo, nacionalismo, patriotismo e tudo o que mais enche os olhos dos bolsonaristas, por outro lado carrega em sua história a marca da URSS e sua utopia comunista. Por isso, conquista simpatizantes de ambos os extremos do espectro político brasileiro.

Concurso de popularidade

É claro que não devemos generalizar, mas há algo na natureza humana que faz com que, via de regra, as pessoas mais brilhantes, inteligentes e competentes da sociedade sejam as menos populares. Parece enredo de comédia hollywoodiana, mas é real: desde sempre, o garoto mais estudioso e dedicado da classe sofre bullying, enquanto o mais fútil, cercado de bajuladores, é ovacionado por sua popularidade. Os CDFs são desprezados pela maioria enquanto os valentões e as patricinhas arrastam para si a admiração de toda a escola. Inteligência e popularidade parecem ser virtudes inversamente proporcionais. Esse traço no mínimo curioso da natureza humana se estende para além do contexto escolar e parece ser a regra em quase todas as áreas da sociedade, inclusive na política.

Concomitante a esse fato, a nossa democracia representativa é constituída de tal forma que toda eleição é, no fim das contas, nada mais do que um concurso de popularidade. E quanto maior a verba destinada ao fundo eleitoral, mais esse fato é inegável. Não é de se espantar, portanto, que sempre ou quase sempre os candidatos mais votados e no topo das pesquisas sejam justamente aqueles menos qualificados. Como a escolha é feita pela maioria, pela mediocridade, resta apenas, para o eleitor razoável e ponderado, por ser minoria, a ingrata tarefa de ter que escolher o menos pior em cenários eleitorais que sempre terão no topo das pesquisas lulas e bolsonaros.

Linguagem e racismo

O óbvio precisa ser dito: figuras de linguagem que usam a metáfora de luz e trevas, claro e escuro, branco e preto etc. não necessariamente fazem referência à cor da pele dos seres humanos. Usar a metáfora do preto e do escuro em expressões negativas e a metáfora do branco e do claro em expressões positivas não necessariamente reproduz hábitos linguísticos racistas. O uso dessas expressões com esse sentido (claro = bom, escuro = mau) remete a fenômenos naturais e estão presentes na quase totalidade das línguas humanas antes mesmo de qualquer traço de racismo moderno, baseado na cor da pele. Por causa da maneira como nosso olho e nossa visão evoluiu, antes mesmo de surgir a linguagem articulada, nossa espécie sempre lidou com a tranquilidade do dia e os perigos da noite. Dizer que o sentido originário dessas dicotomias tem alguma relação com a cor da pele dos humanos é, no mínimo, muito anacronismo. O mesmo vale para a dicotomia alto-baixo. Ninguém em sã consciência argumentaria que o uso das expressões “alta cultura”, “alta gastronomia”, “alto astral” etc. para coisas melhores (superiores), e as expressões “baixaria”, “baixo clero” etc. para coisas piores (inferiores) é sinal de preconceito contra pessoas de baixa estatura. A diferença é que, como pessoas baixinhas sofreram historicamente bem menos preconceito do que pessoas negras, ninguém acusa essas expressões de preconceituosas.

O que explica a ascensão dos humanos?

Essa inquietante pergunta foi o título de uma palestra do professor e historiador israelense Yuval Noah Harari para o TED Londres em 2015. Harari é autor dos best-sellersSapiens: uma breve história da humanidade“, “Homo Deus: uma breve história do amanhã” e “21 lições para o século 21“. Segue abaixo a palestra original e uma transcrição traduzida feita por Maricene Crus, com revisão de Maysa Alves Costa, para o portal Mundo Digital:

Há 70 mil anos, nossos ancestrais eram animais insignificantes. A coisa mais importante a saber sobre os humanos pré-históricos é que eles não tinham importância. O impacto deles no mundo não foi muito maior do que o das águas-vivas, dos vaga-lumes ou pica-paus. Hoje, em contraste, nós controlamos esse planeta. E a questão é: como viemos de lá até aqui? Como nos transformamos de primatas insignificantes, que cuidavam das suas vidinhas em algum canto na África, em soberanos do planeta Terra?

Normalmente, procuramos a diferença entre nós e todos os outros animais em um âmbito individual. Nós queremos acreditar, eu quero acreditar, que há algo de especial a meu respeito, sobre meu corpo e meu cérebro, que faz de mim superior a um cão, um porco ou um chimpanzé. Mas a verdade é que, no âmbito individual, sou vergonhosamente semelhante a um chimpanzé. E se eu e um chimpanzé fôssemos colocados juntos em alguma ilha deserta, e tivéssemos que lutar pela sobrevivência para ver quem se sairia melhor, eu definitivamente apostaria no chimpanzé, não em mim. Não que haja algo de errado comigo em particular. Acho que se quase qualquer um de vocês fosse deixado sozinho com um chimpanzé em alguma ilha, o chimpanzé se sairia muito melhor.

A verdadeira diferença entre seres humanos e outros animais não está no âmbito individual, e sim no âmbito coletivo. Seres humanos controlam o planeta porque são os únicos animais que podem cooperar com flexibilidade e em grandes grupos. Existem outros animais, como os insetos sociais: as abelhas, as formigas… que podem cooperar em grandes grupos, mas não o fazem com flexibilidade. A cooperação entre eles é muito rígida. Basicamente, existe apenas um modo no qual uma colmeia pode funcionar. E se existe uma nova oportunidade ou um novo perigo, as abelhas não podem reinventar um sistema social da noite para o dia. Elas não podem, por exemplo, executar a rainha e estabelecer uma república de abelhas, ou uma ditadura comunista de abelhas operárias.

Outros animais, como os mamíferos sociais: lobos, elefantes, golfinhos, chimpanzés… podem cooperar de modo bem mais flexível, mas o fazem apenas em pequenos grupos, porque a cooperação entre chimpanzés é baseada no conhecimento íntimo mútuo. Se eu sou um chimpanzé e você é um chimpanzé, eu quero cooperar com você. Eu preciso conhecer você pessoalmente. Que tipo de chimpanzé você é? Você é um chimpanzé amigável? É um chimpanzé diabólico? É confiável? Se não conheço você, como posso cooperar contigo?

O único animal que pode combinar as duas habilidades e cooperar com flexibilidade e ainda fazê-lo em grandes grupos somos nós, homo sapiens. Um contra um, ou mesmo dez contra dez, os chimpanzés podem se sair melhor do que nós. Mas, se confrontarmos mil seres humanos com mil chimpanzés, os humanos ganharão facilmente pela simples razão de que mil chimpanzés não conseguem cooperar de modo algum. E se tentarmos abarrotar 100 mil chimpanzés na Rua Oxford ou no Estádio Wembley, ou na Praça da Paz Celestial ou no Vaticano, teremos um caos total. Imaginem o Estádio Wembley com 100 mil chimpanzés. (Risos) Loucura total.

Em contraste, os humanos normalmente se reúnem lá aos milhares, e o que temos não é o caos, normalmente. O que temos são redes de cooperação extremamente sofisticadas e eficientes. Todas as enormes conquistas da humanidade por toda a história, seja a construção das pirâmides ou a viagem até a Lua, foram baseadas não em habilidades individuais, mas na habilidade de cooperar maleavelmente em grandes grupos.

Pensem até nessa palestra que estou dando: estou em frente a uma plateia de cerca de 300 a 400 pessoas, a maioria de vocês, totalmente estranhos para mim. Do mesmo modo, não conheço todas as pessoas que organizaram e trabalharam nesse evento. Não conheço o piloto e a tripulação do voo que me trouxe aqui ontem, até Londres. Não conheço as pessoas que inventaram e fabricaram esse microfone e essas câmeras, que estão gravando o que estou dizendo. Não conheço as pessoas que escreveram todos os livros e artigos que li ao me preparar para esta palestra. E certamente não conheço todas as pessoas que podem estar assistindo a essa palestra pela Internet, em algum lugar de Buenos Aires ou Nova Déli.

Mesmo assim, apesar de não nos conhecermos, podemos trabalhar juntos para criar esta troca de ideias global. Isto é algo que chimpanzés não conseguem fazer. Eles se comunicam, é claro, mas jamais veremos um chimpanzé viajando para um bando de semelhantes distante para dar uma palestra sobre bananas ou elefantes, ou qualquer outra coisa que possa interessar os chimpanzés. Agora, cooperação não é, naturalmente, sempre agradável; e as coisas horrorosas que os humanos têm feito ao longo da história, e temos feito coisas muito horríveis, todas essas coisas são também baseadas na cooperação em grande escala. Prisões são sistemas de cooperação; matadouros são sistemas de cooperação; assim como os campos de concentração. Chimpanzés não têm matadouros, nem prisões, nem campos de concentração.

Suponhamos que eu tenha convencido vocês talvez de que sim, controlamos o mundo porque cooperamos com flexibilidade em grandes grupos. A próxima questão que vem logo à mente de um ouvinte curioso é: “Como, exatamente, fazemos isso?” O que permite apenas a nós, entre todos os animais, cooperar dessa maneira? A resposta é a nossa imaginação. Nós podemos cooperar com flexibilidade com inúmeros grupos de estranhos, pois apenas nós, entre todos os animais do planeta, podemos criar e acreditar em ficções, histórias fictícias. E desde que todos acreditem na mesma ficção, que todos obedeçam e sigam as mesmas regras, as mesmas normas e os mesmos valores.

Todos os outros animais usam seu sistema de comunicação apenas para descrever a realidade. Um chimpanzé pode dizer: “Olha, lá vem um leão. Vamos fugir!” Ou: “Olha, tem uma bananeira ali. Vamos pegar bananas!” Humanos, em contraste, usam sua linguagem não apenas para descrever a realidade, mas também para criar novas realidades, realidades fictícias. Um humano pode dizer: “Vejam, há um Deus acima das nuvens! E se vocês não fizerem o que eu mandar, quando morrerem, Deus vai puni-los e mandá-los para o inferno”. E se todos acreditarem nessa história que eu inventei, vocês então seguirão as mesmas normas, leis e valores, e vocês podem cooperar. Isso é algo que apenas os humanos podem fazer. Não se pode convencer um chimpanzé a dar uma banana a você prometendo: “Depois que você morrer, irá para o paraíso dos chimpanzés e receberá uma infinidade de bananas pelas suas boas ações. Agora, me dê esta banana”. Nenhum chimpanzé jamais acreditaria numa história dessas. Só os humanos acreditam nessas histórias, e é por isso que controlamos o mundo, enquanto que chimpanzés estão presos em zoológicos e laboratórios de pesquisa.

Vocês podem achar aceitável que sim, no âmbito religioso, humanos cooperam acreditando nas mesmas ficções. Milhões de pessoas se reúnem para construir uma catedral ou mesquita, ou lutar numa cruzada ou jihad, pois todos acreditam nas mesmas histórias sobre Deus, paraíso e inferno. Mas o que quero enfatizar é que exatamente o mesmo mecanismo fundamenta todas as outras formas de cooperação humana em grande escala, não apenas no âmbito religioso.

Observemos, por exemplo, o âmbito jurídico. Muitos sistemas legais hoje no mundo são baseados numa crença dos direitos humanos. Mas o que são os direitos humanos? Direitos humanos, assim como Deus e o paraíso, são histórias que inventamos. Eles não são uma realidade objetiva; não são um efeito biológico sobre o homo sapiens. Pegue um ser humano, corte-o, observe seu interior: você encontrará o coração, os rins, neurônios, hormônios, DNA, mas não encontrará direitos. Apenas encontrará direitos nas histórias que inventamos e espalhamos ao longo desses últimos séculos. Elas podem ser histórias bem positivas e boas, mas serão sempre histórias fictícias que nós inventamos.

O mesmo se aplica ao âmbito político. Os fatores mais importantes na política moderna são estados e nações. Mas o que são estados e nações? Eles não são uma realidade objetiva. Uma montanha é uma realidade objetiva. Podemos vê-la, tocá-la, até mesmo sentir seu aroma. Mas uma nação ou um Estado são apenas uma história que inventamos e à qual ficamos extremamente apegados.

O mesmo se aplica ao âmbito econômico. Os principais protagonistas na economia global atual são companhias e corporações. Muitos de vocês hoje, talvez, trabalham para uma corporação, como Google, Toyota ou McDonald’s. O que exatamente são essas coisas? São o que advogados chamam de ficções jurídicas. Elas são histórias inventadas e mantidas pelos poderosos peritos que chamamos de advogados. E o que corporações fazem o dia todo? Em geral, elas tentam ganhar dinheiro. E o que é o dinheiro? De novo, dinheiro não é uma realidade objetiva; não tem valor objetivo. Observemos o pedaço de papel verde, a cédula do dólar. Olhem para ela, não há valor algum. Não se pode comê-la, bebê-la, não se pode vesti-la. Mas aí surgiram esses mestres contadores de histórias: os grandes banqueiros, os ministros das finanças, os primeiros-ministros, e eles nos contam uma história bem convincente: “Estão vendo esse pedaço de papel verde? Ele, na verdade, vale dez bananas”. E se eu e vocês acreditarmos nisso, se todo mundo acreditar, isso funciona! Posso pegar esse inútil pedaço de papel, ir ao supermercado, entregá-lo a um estranho que eu jamais vi antes, e obter, em troca, bananas de verdade que posso comer. Isso é algo incrível! Jamais poderia ser feito com chimpanzés. Chimpanzés comercializam, é claro: “Sim, você me dá um coco, eu lhe darei uma banana. Isso pode funcionar. Mas, você me dá um pedaço de papel inútil e espera que eu lhe dê uma banana? Nem pensar! O que pensa que sou, um humano?”.

Dinheiro, na verdade, é a história mais bem-sucedida já inventada e contada aos humanos, pois é a única história em que todos acreditam. Nem todo mundo acredita em Deus, nem todo mundo acredita em direitos humanos, ou no nacionalismo, mas todo mundo acredita no dinheiro, e nas cédulas do dólar. Até mesmo o Osama Bin Laden. Ele odiava a política, a religião americana e a cultura americana, mas ele não fazia nenhuma objeção aos dólares americanos. Ele gostava muito deles, na verdade.

Para concluir, então: nós humanos controlamos o mundo porque vivemos em uma realidade dupla. Todos os outros animais vivem em uma realidade objetiva. A realidade deles consiste em entidades objetivas, como rios, árvores, leões e elefantes. Nós humanos também vivemos em uma realidade objetiva. No nosso mundo, também, existem rios, árvores, leões e elefantes. Mas ao longo dos séculos, construímos em cima dessa realidade objetiva uma segunda camada de realidade fictícia, uma realidade feita de entidades fictícias, como nações, deuses, dinheiro e corporações. E o incrível é que, enquanto a história se desenvolvia, essa realidade fictícia tornou-se cada vez mais poderosa tanto que hoje, as forças mais poderosas do mundo são essas entidades fictícias. Hoje, a sobrevivência dos rios, árvores, leões e elefantes depende das decisões e desejos de entidades fictícias, como os Estados Unidos, o Google, o Banco Mundial… entidades que existem apenas na nossa imaginação.

O colonialismo cognitivo da comunidade brasileira de filosofia

Artigo de Murilo Seabra, Doutor em Filosofia pela La Trobe University, publicado originalmente no portal da ANPOF.


A comunidade acadêmica brasileira de filosofia tende a conferir, numa escala de 0 a 10, em média 0,96 ponto a mais para o mesmo texto quando ele é assinado por um autor fictício francês ao invés de um autor fictício brasileiro. A pesquisa foi realizada com professores e pós-graduandos de sete universidades brasileiras e está detalhada no capítulo “Colonialismo cognitivo”, do meu livro Oftalmopolítica: um problema com a visão da filosofia, que acabou de ser lançado pela editora Ape’Ku.

O método que utilizei na pesquisa não foi complexo. E não foi muito original. Já é bastante conhecida a tática de investigar o preconceito de gênero e de raça no mercado de trabalho por meio de currículos idênticos, com a única diferença de que um deles é atribuído a uma mulher ou uma pessoa negra e o outro é atribuído a um homem ou uma pessoa branca. A novidade da minha pesquisa foi que, ao invés de me debruçar sobre o problema do preconceito no mercado de trabalho (tema já bastante discutido), elaborei meu instrumento de coleta de dados para verificar se havia ou não preconceito de nacionalidade no universo acadêmico (mais especificamente, nos departamentos de filosofia brasileiros).

“De jeito nenhum!”, escreveu um professor de uma universidade federal, com letras garrafais, no item que perguntava se o texto assinado por um autor brasileiro deveria ser publicado. Nenhum dos respondentes fez uma avaliação tão severa quando o mesmo texto apareceu assinado por um autor francês. Apesar de sua hostilidade a Marcos Teixeira, o autor brasileiro fictício que criei para a pesquisa, ter atingido a estratosfera, o fato é que ela não saiu do padrão.

Quando estava desenhando o instrumento de coleta de dados, eu achava que Marc Thévenet, o meu autor francês fictício, seria mais bem avaliado do que Marcos Teixeira em praticamente todos aspectos; eu achava que ele seria considerado mais coerente, mais atual, mais original, e, claro, mais digno de ser publicado. Para minha surpresa, porém, em itens como coerência e atualidade, a diferença nas avaliações foi apenas marginal. Os grandes divisores de águas foram a “publicabilidade” e a originalidade. Marc Thévenet não foi julgado mais coerente nem mais atual do que Marcos Teixeira. Mas ele foi julgado mais digno de ser publicado e mais original.

Esses resultados aparentemente desbalanceados têm uma explicação. Todo mundo pode ser coerente (não é difícil). Todo mundo pode estar a par das últimas novidades (também não é difícil). Os predicados epistêmicos “coerência” e “atualidade” não destacam ninguém na esfera do saber. Não lemos os autores e as autoras que lemos simplesmente por serem coerentes ou atuais. Pelo contrário, lemos os autores e as autoras que lemos por terem dado contribuições substantivas ao nosso entendimento do mundo, isto é, por terem sido originais. Todo mundo pode ser coerente e estar atualizado. O difícil é ser original.

O item “publicabilidade” me foi sugerido por Rowan Ireland, sociólogo que fez uma série de pesquisas sobre o Brasil. Por que ele dividiu as águas de maneira tão forte? A resposta é relativamente simples. Duas pessoas podem julgar um texto como sendo de baixa ou alta qualidade por motivos diferentes. Apesar dessas diferenças, elas tenderão a convergir em sua rejeição ou em sua aprovação. Houve mais pessoas que acharam que Marc Thévenet merecia ser publicado do que pessoas que o acharam original. Houve mais pessoas que acharam que Marcos Teixeira não merecia ser publicado do que pessoas que acharam que ele só estava repetindo o que todo mundo já sabia.

A comunidade acadêmica brasileira de filosofia considera seus agentes epistêmicos suficientemente competentes para serem coerentes e atuais, mas não para serem originais. Eles podem, sim, escrever sobre Wittgenstein, Heidegger, Arendt ou Butler. Eles só não podem propor ideias novas e ser originais.

Talvez o resultado mais perturbador da pesquisa seja que a comunidade acadêmica brasileira de filosofia utiliza rotineiramente dois pesos e duas medidas. Quando um texto que escapa aos limites disciplinares da filosofia acadêmica é assinado por um francês, ele é percebido como original. Quando o mesmo texto é assinado por um brasileiro, ele já não é mais percebido como original. É como se uma mesma obra de arte fosse considerada bela quando atribuída a um artista europeu e feia quando atribuída a um artista latino-americano. Ou como se um juiz decidisse pela inocência do acusado quando ele é branco e pela sua culpa quando é negro.

O que surpreende é que a pesquisa não foi realizada com pessoas do público leigo, mas com professores e pós-graduandos, isto é, com pessoas altamente treinadas que um observador externo julgaria capazes de avaliar um texto apenas pelo seu conteúdo, desconsiderando a nacionalidade de quem o escreveu.

Na matemática, pode-se fazer um cálculo para saber se a soma “9.685 + 4.651 = 14.336” está certa. As proposições filosóficas, ao contrário, estão muito mais para propostas de como ver o mundo. Não existe um procedimento padrão para avaliar se Descartes estava certo ao dizer que “Penso, logo existo”. A filosofia se movimenta, em grande medida, no âmbito da incerteza. É possível que sua abertura a torne especialmente suscetível ao uso de dois pesos e duas medidas.

O mundo é assimétrico, por assim dizer. A sua assimetria permite que apliquemos regularmente dois pesos e duas medidas em nossas avaliações sem termos a menor consciência de que o estamos fazendo. É por isso que experimentos controlados – com currículos idênticos e textos pareados – são importantes. Porque todo mundo se acha imparcial e racional. Ninguém se acha preconceituoso. E até certo ponto, é perfeitamente compreensível que ninguém se ache preconceituoso. O preconceito, via de regra, não é acessível à introspecção. Mas ele é acessível. Ele transborda do mundo interno para o mundo externo. Aliás, sua força sociomorfológica pode ser observada por todos lados: vivemos em uma sociedade segregada onde as pessoas de pele escura (e as pessoas nascidas em países periféricos) têm menos oportunidades do que as pessoas de pele clara (e do que as pessoas nascidas nos países que estão no centro do capitalismo mundial). Com instrumentos adequados e suficientemente sensíveis, o preconceito pode ser detectado, pois ele deixa rastros na realidade.

A filosofia, ao contrário da matemática, é uma disciplina aberta. É de se esperar, portanto, que o mesmo texto suscite avaliações diferentes por parte de diferentes membros da comunidade acadêmica de filosofia. No entanto, essas diferenças, que existiram, não foram aleatórias. Elas seguiram um padrão específico: o autor fictício francês foi favorecido em detrimento do autor brasileiro. Então não sofremos apenas de colonialismo cultural, acadêmico ou epistêmico. Também sofremos de colonialismo cognitivo. Isto é, o eurocentrismo afeta nosso raciocínio. Como já havia antecipado no meu livro Metafilosofia, de 2014, tendemos a ser condescendentes demais com os europeus e críticos demais com nós mesmos.

É importante frisar que não utilizei, na minha pesquisa, currículos pareados e sim textos pareados. A diferença pode parecer pequena, mas ela tem uma consequência importante. A comunidade brasileira de filosofia não acha que os pensadores franceses simplesmente possuem um potencial maior do que os pensadores brasileiros. O que ela acha é que os pensadores brasileiros são inferiores aos franceses até mesmo quando apresentam exatamente o mesmo desempenho.

Infelizmente, não há como conciliar esse resultado com a visão otimista que os acadêmicos costumam ter das próprias capacidades cognitivas. Não é que não sejam inteligentes; é muito trabalhoso entender autores como Kant e Hegel. Mas em um determinado momento a inteligência se transforma no seu inverso, desembocando no que poderia ser chamado de “erosão cognitiva”. A erosão cognitiva não deve ser confundida com a racionalização. Tipicamente, a racionalização consiste em uma explicação plausível e aparentemente coerente que, não obstante, mascara uma pulsão inconsciente. A marca distintiva da erosão cognitiva, ao contrário, é a incoerência e a irracionalidade aparentes; é a paralização temporária das faculdades cognitivas.

Pode parecer deselegante colocar em questão o funcionamento do aparelho cognitivo de pessoas altamente treinadas. Mas se você calcula “9.685 + 4.651” e chega no primeiro dia a “14.336”, no segundo dia a “13.556” e no terceiro dia a “15.756”, o fato é que, apesar de seu semblante compenetrado e da sua certeza íntima de que sempre faz seus cálculos com rigor, alguma coisa muito estranha está acontecendo. A inteligência pressupõe um mínimo de imparcialidade.

O mistério pode ser desfeito quando analisado com cuidado. A sensação de que se está pensando com rigor não implica que se está pensando com rigor. E as coisas só pioram quando você diz que o francês está certo e o brasileiro está errado ao dizer que “9.685 + 4.651 = 14.336”. E quando o brasileiro diz “9.685 + 4.651 = 14.336” e mesmo assim você finca o pé no chão e até “demonstra” que ele está errado, temos uma ilustração perfeita da erosão cognitiva. Já passei por isso (mais de uma vez). Se você desafiar a divisão internacional do trabalho intelectual, você também será colocado de volta no seu lugar.

Veja também este artigo sobre o mesmo assunto publicado pelo Murilo Seabra, juntamente com Luke Prendergast, para a revista moçambicana de filosofia O Curandeiro: Colonialismo Cognitivo: As Preferências Implícitas da Comunidade Acadêmica Brasileira de Filosofia.

O filósofo árabe que formulou teoria da evolução mil anos antes de Darwin

A teoria da evolução, do biólogo inglês Charles Darwin, é uma das pedras angulares da ciência moderna. A ideia de que as espécies mudam gradualmente por meio de um mecanismo chamado de seleção natural revolucionou nossa compreensão do mundo vivo. Em seu livro A Origem das Espécies, de 1859, Darwin definiu a evolução como uma “descida com modificações”, demonstrando como as diferentes espécies surgiram de um ancestral comum. Mas parece que a própria teoria da evolução também tem um ancestral no mundo árabe.

Cerca de mil anos antes de Darwin, um filósofo árabe que vivia no Iraque, conhecido como Al-Jahiz, escreveu um livro sobre como os animais mudam através de um processo que também chamou de seleção natural. Seu nome real era Abu Usman Amr Bahr Alkanani al-Basri. Seu apelido, Al-Jahiz, significa alguém com olhos esbugalhados. Não é a forma mais amistosa de chamar alguém, mas a fama de al-Jahiz se deve mesmo a seu livro Kitab al-Hayawan (O livro dos animais, em tradução livre). Ele nasceu no ano 776 d.C. na cidade de Baçorá, sul do atual Iraque, numa época em que o movimento Mutazilah – uma escola de pensamento teológico que defendia o exercício da razão humana – estava crescendo na região, no auge do califado Abássida.

Obras acadêmicas eram traduzidas do grego para o árabe, e Baçorá sediava importantes debates sobre religião, ciência e filosofia que moldaram a mente de Al-Jahiz e o ajudaram a formular suas ideias. O papel havia sido introduzido no Iraque por comerciantes chineses, o que impulsionou a difusão de ideias, e o jovem Al-Jahiz começou a escrever sobre vários temas. Seus interesses envolviam muitas áreas, como ciência, geografia, filosofia, gramática árabe e literatura. Acredita-se que ele tenha publicado 200 livros durante a vida, mas só um terço sobreviveu até nossos dias.

Sua obra mais famosaO Livro dos Animais, foi concebida como uma enciclopédia que apresenta 350 espécies. Nela, Al-Jahiz postula ideias que se parecem muito com a teoria da evolução de Darwin. “Os animais estão envolvidos numa luta pela existência e pelos recursos, para evitar serem comidos e se reproduzirem”, escreve Al-Jahiz. “Os fatores ambientais influenciam nos organismos fazendo com que desenvolvam novas características para assegurar a sobrevivência, transformando-os assim em novas espécies. Os animais que sobrevivem para se reproduzir podem transmitir suas características exitosas a seus descendentes”.

Para sobreviver, os animais tinham de possuir características competitivas para achar comida, evitar virar comida de outros e se reproduzir. Isso os obrigava a mudar de geração em geração. As ideias de Al-Jahiz influenciaram outros pensadores árabes posteriores. Seu trabalho foi lido por homens como Al-Farabi, Al-Arabi, Al-Biruni e Ibn Khaldun. O “pai espiritual” do Paquistão, Muhammad Iqbal, também conhecido como Allama Iqbal, reconheceu a importância de Al-Jahiz em sua coleção de conferências, publicadas em 1930. Iqbal ressaltou que “foi Al-Jahiz quem assinalou as mudanças que se produzem na vida dos animais devido à migração e às mudanças no meio ambiente”.

A contribuição do mundo árabe à ideia da evolução não era um segredo para intelectuais europeus do século 19. De fato, um contemporâneo de Darwin, o cientista William Draper, falava da “teoria da evolução maometana” em 1878. No entanto, não há evidências de que Darwin conhecesse o trabalho de Al-Jahiz ou de que entendesse árabe. É merecida a reputação que o naturalista britânico ganhou como um cientista que passou anos viajando e observando o mundo natural. Ele elaborou sua teoria com detalhes e claridade sem precedentes, transformando a forma com que pensamos o mundo. Mas o jornalista científico Ehsan Masood, que realizou uma série para a BBC chamada Islam and Science (O Islã e a Ciência), diz que é importante recordar outros que contribuíram com a história do pensamento evolutivo. Ehsan Masood também destaca que o criacionismo não parecia existir como um movimento significativo no século 9 d.C. no Iraque, quando Bagdá e Baçorá eram os principais centros de ensino avançado na civilização árabe. “Os cientistas não passavam horas examinando passagens da Revelação para ver se eram comparáveis com o conhecimento observado no mundo natural”, escreveu Masood em artigo sobre Al-Jahiz no jornal britânico The Guardian.

Ao fim, foi também a busca pelo conhecimento que provocou a morte de Al-Jahiz. Conta-se que, aos 92 anos, ele tentou alcançar um livro em uma estante pesada, quando a estrutura desabou, matando-o.

Fonte: BBC News.

Videoaulas em animação bem curtinhas produzidas pelo canal Stated Clearly.
Se preferir, ative as legendas em português no canto inferior direito dos vídeos.

Discurso de posse de Jorge Amado na Academia Brasileira de Letras

Rio de Janeiro, 17 de julho de 1961.

Sr. Presidente, Senhores Acadêmicos,

Chego à vossa ilustre companhia com a tranquila satisfação de ter sido intransigente adversário dessa instituição, naquela fase da vida em que devemos ser, necessária e obrigatoriamente, contra o assentado e o definitivo, quando a nossa ânsia de construir encontra sua melhor aplicação na tentativa de liquidar, sem dó nem piedade, o que as gerações anteriores conceberam e construíram. Ai daquele jovem, ai daquele moço aprendiz de escritor, que no início do seu caminho, não venha quixotesco e sincero, arremeter contra as paredes e a glória desta Casa. Não seria ele digno de sua maravilhosa condição se, em lugar de bandeiras de guerra e violentas armas de combate aparecesse ante a Academia dobrando em curvaturas e sorrisos, em aplausos e elogios, e alma vestida com o fardão acadêmico. Ah, não seria um jovem, não estaria cumprindo com as inapeláveis obrigações de seu tempo interior, com as exigências da sua mocidade. Faltar-lhe-ia o sumo da agressividade, do não-conformismo, da necessidade de romper com o passado para caminhar na rota do futuro. Seria insosso como essas frutas colhidas ainda verdes e à força amadurecidas para o mercado.

Triste espetáculo, a meu ver, o de certos moços na flor de uma idade onde a rebeldia é a marca e a essência fundamentais, e que, abandonando seus deveres para com o entusiasmo e a imprudência cobrirem-se com o manto da aceitação passiva. Fecham-se num conservadorismo medroso e afivelam os rostos numa emprestada e falsa madureza. Pobre daquele jovem que assim agir: jamais chegará realmente a amadurecer, não guardará o fruto de sua obra o sumarento sabor da juventude, suas ânsias, suas revoltas, sua necessidade de destruir para firmar-se, não é traindo essa urgência e fome de viver, esse ardente e violento impulso, que o escritor levanta, na experiência viva, sua medida de homem, aprendendo aos poucos, numa longa marcha, a estimar e a compreender, amadurecendo em riqueza espiritual.

Quanto a mim, felizmente, muita pedra atirei contra vossas vidraças, muito objetivo grosso gastei contra vossa indiferença, muitas vezes gritei contra vossa compostura, muito combate travei contra vossas forças. Minha geração surgida na onda de um movimento armado e popular tinha sua palavra a dizer, feita de realidade áspera e de densa esperança. Chegávamos com o coração pesado de penas e dores ante a visão de nosso povo despojado de suas riquezas, pasto de apetites estrangeiros, humilhado em suas grandezas. Devíamos assim romper com todos os muros e impelir o eco da nossa palavra, nosso duro protesto. Tomamos de nossas armas ainda imperfeitas e partimos contra tudo quanto nos parecia representação daquele passado, inclusive a Academia Brasileira. Só o tempo e a vida podem ensinar ser a Academia em sua continuidade conjugação de passado, presente e futuro. Se um jovem, ao iniciar-se na vida e na literatura, disser compreender e aceitar tal verdade será quase certamente um oportunista, um carreirista, um pobre diabo.

Como igualmente triste é o espetáculo do homem maduro a afivelar a máscara da eterna juventude, a exibir-se em praça pública em atitudes perfeitas aos vinte anos e ridículas aos quarenta. Ai dele porque não soube amadurecer interiormente, e não saberá envelhecer sua pose de jovem e melancólica, desoladora caricatura – como aquelas frutas que não seguem seu ciclo e de verdes passam a pecas e nada existe de mais inútil que um fruto peco. Triste é o espetáculo do acadêmico de vinte anos, triste é o espetáculo do antiacadêmico de quarenta anos.

Procuro num milagre de imaginação, reviver no dia de hoje o adolescente magro, membro da Academia dos Rebeldes, na Bahia, nos anos de 1928 a 1930. Pequeno aprendiz de escritor em cerrada fita com outros de sua idade e condição, levantava-me em imprecações contra a Academia Brasileira e toda a literatura de então, disposto a arrasar quanto existia, convencido de que a literatura começava com a minha incipiente geração, nada devendo-se fizera antes do nosso aparecimento, nenhuma beleza fora criada,  nenhum resultado obtido. Que diria o jovem de dezesseis anos, assombrado ante a vida e o mundo, solto ao mistério da Bahia, ao ver o quase cinquentão de hoje, envergando fardão, espadim e colar acadêmico. Dentro de mim, senhores, neste coração que resiste a envelhecer, ouço o riso moleque do rebelde em busca de caminho. Rio-me com ele, não há entre nós oposição, não existem divergências fundamentais entre o menino de ontem e o homem de hoje, apenas um tempo intensamente vivido. São muitos homens em diversas idades a encontrarem-se nessa tribuna somados num homem maduro, mas ainda de experiência e vida vivida que de idade. Posso assim rir um riso bom com aquele velho companheiro, o adolescente que eu fui nas ruas e ladeiras da Bahia plenamente jovem e plenamente rebelde.

Aproveito este momento para falar-vos do perigo a pesar sobre esta Academia e vossa glória pelos idos de 1929. Perigo grave e sério não sei se esta instituição chegou a se dar conta de como esteve de morte ameaçada. Porque naquele ano num primeiro andar do Largo do Terreiro de Jesus, na cidade de Salvador, alguns jovens se reuniram e fundavam a Academia dos Rebeldes. Alguns desses moços são hoje nomes conhecidos e admirados: o poeta Sosígenes Costa, o contista Dias da Costa, mestre Edison Carneiro. Outros não puderam completar sua cara vocação de escritor, levados uns pela morte, como o romancista João Cordeiro, outros pela vida, como o poeta Alves Ribeiro.

Acolhera rebelde Academia num gesto talvez impensado, uma sala destinada a sessões espíritas, atmosfera mística e misteriosa, com um retrato de Alan Kardec e um obsessionante desenho de almas transmigradas a impressionar nossas desabrochadas imaginações. Nosso programa era simples, efetivo e imenso: arrasar definitiva e completamente o já existente e construir o monumento de nossa literatura. Meta primeira substituir a Academia Brasileira por nossa Academia de Rebeldes. Saímos de nossa primeira reunião eufóricos e convencidos: seria assunto de pouco tempo o fim da Academia inimiga e a pujança de literatura que transpirava por todos os poros.

Ainda hoje tenho minhas dúvidas e aqui as confesso: se não houvéssemos sido expulsos da sala do centro espírita, como teriam evoluído os acontecimentos? Nossa decisão era definitiva e inapelável, vossa sentença de morte fora ditada e confirmada. Fostes salvos pelos espíritos. Nos distantes círculos do universo onde vagavam, tomaram partido naquela batalha já de si desigual uns poucos estudantes sem eira nem beira contra os quarenta imortais. (…) Passou a Academia a funcionar no Café Bahia, no Bar das Meninas, em lugares suspeitos, nas madrugadas boêmias, e assim foi se dissolvendo com a idade e a literatura. É evidente que não podíamos lutar com êxito ao mesmo tempo contra vossa imortalidade e contra e a imensa legião dos espíritos. (…).

Senhores Acadêmicos: chego à vossa ilustre companhia sem ódios e sem rancores. A vida foi generosa para comigo, deu-me mais do que lhe pedi e mereci. Pobre de bens materiais, sou rico de muitas outras coisas, muitos bens possuo em meu surrão – nem sei como tanto pude merecer da vida. Esposa e filhos, que são alegria diária e incentivo maior para o trabalho, pais de toda dedicação, irmãos perfeitos na amizade. (…).

Tenho a alegria de ter conservado jovem o coração, por não ter rompido jamais a unidade entre minha vida e minha obra, e por ter a certeza de que jamais a romperei. E quando aqui chego, chegam a esta Casa, a esta tribuna, vestindo este fardão, pessoas simples do povo, aqueles meus personagens, pois é por suas mãos que aqui ingresso. Vêm mestres de saveiros e pescadores. Mestre Manuel, Maria Clara, Lívia e Guma, e sua ansiosa espera da morte no mar; vêm negros e mulatos, pai-de-santo Jubiabá e o negro Balduíno, Rosenha Rosedá e o Gordo, vêm as crianças abandonadas, os capitães da areia, trabalhadores dos campos de cacau e rudes coronéis de repetição em punho; vêm o rei das gafieiras da Bahia, Quincas Berro D’água, a mulata Gabriela feita de cravo e de canela, e o comandante Vasco Moscoso de Aragão, que amava sonhar e comandava os ventos. Gente simples do povo, não sou mais de que ele, e se os criei, eles me criaram também e aqui me trouxeram. Porque eles são o meu povo e a vida que tenho vivido ardentemente. (…).

Penso, assim , poder afirmar que chego à vossa ilustre companhia pela mão do povo, pela fidelidade conservada aos seus problemas, pela lealdade com que procurei servi-lo tentando fazer de minha obra arma de sua batalha contra a opressão e pela liberdade, contra a miséria e subdesenvolvimento e pelo progresso e pela fartura, contra a tristeza e o pessimismo, pela alegria e confiança no futuro. Segundo a lição da literatura baiana, fiz de minha vida e de minha obra uma coisa única, unidade do homem e do escritor, aprendida na estrela maior do céu baiano, o poeta Castro Alves, estrela matutina da liberdade, estrela vespertina dos ais de amor.

E chego para ocupar, pleno de humildade, uma cadeira cujo fundador foi Machado de Assis, alicerce e fundamento desta Casa e cujo patrono, por ele escolhido, é José de Alencar, viga mestra de nossa literatura. José de Alencar e Machado de Assis, o próprio romance brasileiro, o conjunto das qualidades de nossa prosa de criação. (…).

Fonte: ABL

PS: Publiquei aqui excertos do discurso original, que é bem maior. Aos interessados, leia o discurso completo aqui.

Podcasts de filosofia em Portugal

Alguns podcasts de conversas com filósofos portugueses que foram transmitidos no canal Antena 2, no programa À Luz da Razão, e estão disponíveis online:

  • Com Desidério Murcho, sobre o papel da filosofia : ouvir podcast.
  • Com João Rosas, sobre como decidir em quem votar: ouvir podcast.
  • Com André Campos, sobre as relações e a justiça entre gerações: ouvir podcast.
  • Com Bernhard Sylla, sobre o significado das palavras: ouvir podcast.
  • Com Domingos Faria, sobre a racionalidade da crença em Deus: ouvir podcast.
  • Com Luís Veríssimo, sobre o problema do livre-arbítrio: ouvir podcast.
  • Com Susana Cadilha, sobre a natureza dos valores morais: ouvir podcast.
  • Com António Lopes, sobre filosofia da música: ouvir podcast.
  • Com João Mendes, sobre filosofia da ciência e tecnologia: ouvir podcast.
  • Com Diogo Santos, sobre teorias da justiça distributiva: ouvir podcast.
  • Com Vítor Pereira, sobre filosofia da mente: ouvir podcast.
  • Com Vítor Moura, sobre estética e filosofia da arte: ouvir podcast.

Mãe explica por que excluiu redes sociais da filha com 2 milhões de seguidores

No mês passado, a médica paulistana Fernanda Rocha Kanner compartilhou em seu Instagram um longo texto no qual justificava a ausência da filha, Nina Rios, de 14 anos, da rede social e também do TikTok. A adolescente já era considerada uma digital influencer com seus quase 2 milhões de seguidores e tinha dezenas de fã-clubes. O texto de Fernanda ganhou força na internet entre pais e adultos, mas também gerou muita revolta entre crianças e adolescentes; e virou até matéria no Fantástico. Abaixo, compartilho com vocês o texto na íntegra para reflexão:


Turminha teen, eu vou escrever aqui porque recebi muitos directs de seguidores da Nina querendo saber o que aconteceu por ela ter sumido. Decidi apagar a conta do TikTok e do Instagram dela. Chata, eu sei, mas nossa função como mãe não é ser amiguinha de vocês e isso vocês só vão entender em retrospectiva. Papo de tia. O carinho que vocês têm por ela é a coisa mais fofa, mas eu não acho saudável nem para um adulto e muito menos para uma adolescente basear referências de autoconhecimento em feedback virtual. Isso é ilusão e ilusão mete uma neblina danada na estrada do se encontrar. Eram quase 2 milhões de seguidores e dezenas de fã-clubes, tudo muito doce, mas também prejudicial para qualquer adolescente em processo de descoberta e busca pela individualidade. Eu não quero que ela cresça acreditando que é esse personagem, divulgando roupas inflamáveis de poliéster made in China. Não quero minha filha brilhante se prestando a dancinhas diárias como um babuíno treinado. Triste geração em que isso justifica fama.

Li outro dia que a gente tem que voltar a ter vergonha de ser burro e é bem por aí. Saudade de quando precisava ter talento em alguma coisa para se destacar. Nascemos com vários dons que nos fazem únicos mas quando a gente copy paste a manada eles se diluem no processo e a gente cresce sendo só mais um na multidão. Não quero que ela se emocione com biscoitos (assim que fala?) e elogios. Nem que se abale com críticas de quem não conhece. Opiniões são só reflexos de quem está oferecendo e não de quem recebe. Você me acha linda porque você é linda ou está feliz. Você me acha feia porque você é feia ou teve um dia ruim. Eu não tenho nada a ver com isso. A fã número um dela sou eu e ela continuará dando as caras por aqui, se quiser. Quando ela tiver conteúdo interessante para dividir ela pode voltar a ter conta. Conforme os planos, ela vai pra Suíça junto com big bro no segundo semestre continuar os estudos por lá. Pular de paraquedas, estudar biologia na floresta, salvar umas vacas nos Alpes. A vida só presta quando se é feliz offline primeiro. Beijo da tia Fê.

Nativos digitais não sabem buscar conhecimento na internet, diz OCDE

A familiaridade dos adolescentes atuais com a tecnologia, que faz deles nativos digitais, não os torna automaticamente habilitados para compreender, distinguir e usar de modo eficiente o conhecimento disponível na internet. Pelo contrário, os dados sugerem que eles são, em grande parte, incapazes de compreender nuances ou ambiguidades em textos, localizar materiais confiáveis em buscas de internet ou em redes sociais, avaliar a credibilidade de fontes de informação ou mesmo distinguir fatos de opiniões.

As conclusões foram apresentadas pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em seminário virtual na última quarta-feira (26/05), com base no relatório “Leitores do Século 21 – Desenvolvendo Habilidades de Alfabetização em um Mundo Digital”. O relatório, divulgado no início do mês, mostra as habilidades de interpretação de texto dos alunos de 15 anos avaliados no Pisa, exame internacional aplicado pela OCDE em 2018 em estudantes de 79 países, inclusive no Brasil.

Os dados são preocupantes: no Brasil, apenas um terço (33%) dos estudantes foi capaz de distinguir fatos de opiniões em uma das perguntas aplicadas no Pisa. Na média, esse índice foi de 47%. O que mostra que, mesmo no grupo de países mais desenvolvidos, mais da metade dos estudantes de 15 anos não demonstrou capacidade de fazer distinção entre fato e opinião. Segundo o estudo, apenas metade dos estudantes disseram ser ensinados na escola a reconhecer se a informação que estão lendo é enviesada, e 40% dos alunos nesses países foram incapazes de reconhecer os perigos de clicar em links de e-mails de phishing, por exemplo. As habilidades de navegação foram consideradas altamente eficientes para apenas 24% dos estudantes, e para apenas 15% dos estudantes no Brasil.

As consequências disso são profundas para a inserção no mercado de trabalho e para o exercício da cidadania, uma vez que pessoas incapazes de compreender textos plenamente estarão, em teoria, menos aptas a ocupar empregos de alta complexidade. Ao mesmo tempo, serão presas fáceis para o ambiente de desinformação que floresce na internet e nas redes sociais. “Ter nascido na era digital e ser um nativo digital não significa que você vai ter habilidades digitais para usar a tecnologia de modo eficaz”, afirmou no seminário Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE.

Mais tecnologia não equivale a mais alfabetização midiática

Os resultados também mostram que, apesar da crescente familiaridade com a tecnologia, os jovens não necessariamente aprendem instintivamente as habilidades necessárias para usar essa tecnologia para obter informações confiáveis. De modo geral, o maior acesso à tecnologia entre os jovens nos últimos anos não se traduziu em mais educação midiática, disse Schleicher no seminário: os índices de alfabetização digital dos jovens evoluíram pouco nas avaliações do Pisa feitas entre 2000 e 2018, apesar das enormes mudanças sociais e digitais vividas nesse intervalo de tempo.

Mais do que contato constante com a tecnologia, Schleicher defendeu que são a “aprendizagem tradicional” e o engajamento de professores que farão a diferença em dar aos alunos a capacidade de entender diferentes perspectivas em um texto e serem capazes de identificar nuances e opiniões. O relatório mostra que, em sistemas educacionais nos quais essas habilidades digitais são ativamente ensinadas, estudantes pareceram mais capazes de distinguir fatos de opiniões. Mas Schleicher destacou que esse é um problema que ultrapassa os muros da escola e exaltou o trabalho de países que já têm uma cultura mais enraizada de leitura e alfabetização.

Ele ressalta, porém, que “ainda não temos a resposta de por que alguns países se saem melhor” em alfabetização digital. O que se sabe é que o educador tem um papel central nisso, à medida que mudam as habilidades exigidas dos estudantes: no século 20, esperava-se que um aluno obtivesse conhecimento de fontes pré-curadas, como enciclopédias. Hoje, ele precisa aprender a distinguir o que é relevante entre milhares de resultados de uma busca no Google; precisa ser capazes de construir conhecimento e validá-lo. “Os educadores precisarão ser grandes mentores, mobilizadores e guias” nesse processo, afirmou Schleicher.

O poder persistente dos livros

Embora a leitura esteja mais fragmentada e migrando cada vez mais ao ambiente virtual, o relatório da OCDE mostra que o papel dos livros e de textos aprofundados continua sendo primordial. Os estudantes que disseram ler livros com mais frequência em papel do que nos meios digitais tiveram melhores resultados em leitura em todos os países e territórios que participaram do Pisa 2018. Além disso, esses jovens também relataram ter mais prazer com a leitura. Na mesma linha, a leitura de livros de ficção e de textos longos também está positivamente associada a um melhor desempenho em leitura na maioria dos países avaliados. O problema é que quase a metade dos estudantes (49%) nos países da OCDE disseram, na pesquisa aplicada junto ao Pisa 2018, que só liam “se tivessem que ler”. E cerca de um terço dos estudantes pesquisados disseram que raramente ou nunca lia livros.

Nesse contexto, o incentivo a leituras de profundidade, que permitam aos alunos treinar a observação de nuances no texto, é uma estratégia capaz de melhorar as habilidades de compreensão textual. É algo a que tanto professores quanto pais podem contribuir. Segundo o estudo, os estudantes que disseram ter pais que gostam de ler também apresentaram índices mais altos de prazer com a leitura.

Fonte: BBC News