Nativos digitais não sabem buscar conhecimento na internet, diz OCDE

A familiaridade dos adolescentes atuais com a tecnologia, que faz deles nativos digitais, não os torna automaticamente habilitados para compreender, distinguir e usar de modo eficiente o conhecimento disponível na internet. Pelo contrário, os dados sugerem que eles são, em grande parte, incapazes de compreender nuances ou ambiguidades em textos online, localizar materiais confiáveis em buscas de internet ou em conteúdo de e-mails e redes sociais, avaliar a credibilidade de fontes de informação ou mesmo distinguir fatos de opiniões.

As conclusões foram apresentadas pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em seminário virtual na última quarta-feira (26/05), com base no relatório “Leitores do Século 21 – Desenvolvendo Habilidades de Alfabetização em um Mundo Digital”. O relatório, divulgado no início do mês, mostra as habilidades de interpretação de texto dos alunos de 15 anos avaliados no Pisa, exame internacional aplicado pela OCDE em 2018 em estudantes de 79 países ou territórios, inclusive no Brasil.

Os dados são preocupantes: no Brasil, apenas um terço (33%) dos estudantes foi capaz de distinguir fatos de opiniões em uma das perguntas aplicadas no Pisa. Na média dos países da OCDE, esse índice era de 47%. O que mostra que, mesmo no grupo de países mais desenvolvidos, mais da metade dos estudantes de 15 anos não demonstrou, em média, capacidade de fazer distinção entre fato e opinião. Segundo o estudo, apenas metade dos estudantes em países da OCDE disseram ser ensinados na escola para reconhecer se a informação que estão lendo é enviesada, e 40% dos alunos nesses países foram incapazes de reconhecer os perigos de se clicar em links de e-mails de phishing, por exemplo. As habilidades de navegação foram consideradas altamente eficientes para apenas 24% dos estudantes na média da OCDE, e para apenas 15% dos estudantes no Brasil.

As consequências disso são profundas para a inserção no mercado de trabalho e para o exercício da cidadania, uma vez que pessoas que não sejam capazes de compreender textos plenamente estarão, em teoria, menos aptas para ocupar empregos de alta complexidade. Ao mesmo tempo, serão presas mais fáceis para o ambiente de desinformação que floresce na internet e nas redes sociais. “Ter nascido na era digital e ser um nativo digital não significa que você vai ter habilidades digitais para usar a tecnologia de modo eficaz”, afirmou no seminário Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE.

Mais tecnologia não equivale a mais alfabetização midiática

Os resultados também mostram que, apesar de sua crescente familiaridade com a tecnologia, os jovens não necessariamente aprendem instintivamente as habilidades necessárias para usar essa tecnologia para obter informações confiáveis. De modo geral, o maior acesso a tecnologia entre os jovens nos últimos anos não se traduziu em mais educação midiática, disse Schleicher no seminário: os índices de alfabetização digital dos jovens evoluíram pouco nas avaliações do Pisa feitas entre 2000 e 2018, apesar das enormes mudanças sociais e digitais vividas pela comunidade global nesse intervalo de tempo.

Mais do que contato constante com a tecnologia, Schleicher defendeu que são a “aprendizagem tradicional” e o engajamento de professores que farão a diferença em dar aos alunos a capacidade de entender diferentes perspectivas em um texto e serem capazes de identificar nuances e opiniões. O relatório mostra que, em sistemas educacionais nos quais essas habilidades digitais são ativamente ensinadas, estudantes pareceram mais capazes de distinguir fatos de opiniões. Mas Schleicher destacou que é um problema que ultrapassa os muros da escola e exaltou o trabalho de países que já têm uma cultura mais enraizada de leitura e alfabetização, como Dinamarca, Finlândia, Estônia e Japão. Ele ressalta, porém, que o tema exige muito mais estudos e discussões na sociedade. “Ainda não temos a resposta de por que alguns países se saem melhor” em alfabetização digital, afirmou.

O que se sabe é que o educador tem um papel central nisso, à medida que mudam as habilidades exigidas dos estudantes: no século 20, esperava-se que um aluno obtivesse conhecimento de fontes pré-curadas, como enciclopédias. Hoje, ele precisa aprender a distinguir o que é relevante entre milhares de resultados de uma busca no Google; precisa ser capazes de construir conhecimento e validá-lo, opina a OCDE. “Os educadores precisarão ser grandes mentores, mobilizadores e guias” nesse processo, afirmou Schleicher.

O poder persistente dos livros

Embora a leitura esteja mais fragmentada e migrando cada vez mais ao ambiente virtual, o relatório da OCDE mostra que o papel dos livros e de textos aprofundados continua sendo primordial. Os estudantes que disseram ler livros com mais frequência em papel do que nos meios digitais tiveram melhores resultados em leitura em todos os países e territórios que participaram do Pisa 2018. Além disso, esses jovens também relataram ter mais prazer com a leitura.

Na mesma linha, a leitura de livros de ficção e de textos longos também está positivamente associada a um melhor desempenho em leitura na maioria dos países avaliados. O problema é que quase a metade dos estudantes (49%) nos países da OCDE disseram, na pesquisa aplicada junto ao Pisa 2018, que só liam “se tivessem que ler”. E cerca de um terço dos estudantes pesquisados disseram que raramente ou nunca lia livros.

Nesse contexto, o incentivo a leituras de profundidade, que permitam aos alunos treinar a observação de nuances no texto, é uma estratégia capaz de melhorar as habilidades de compreensão textual tão valiosas no século 21. É algo a que tanto professores quanto pais podem contribuir, diz a OCDE. Segundo o estudo, os estudantes que disseram ter pais que gostam de ler também apresentaram índices mais altos de prazer com a leitura.

Um ponto preocupante, disse Schleicher no seminário, é um aumento crescente no “abismo cultural” entre estudantes de classes sociais mais avantajadas e os mais pobres. Enquanto entre os estudantes mais ricos o número de livros em casa se manteve estável entre 2000 e 2018, esse número caiu consideravelmente entre os estudantes mais pobres.

Fonte: BBC News

Saudades de vovó Socorro

Veja também: Saudades do velho Chico

No último sábado sepultamos a matriarca da família Andrade, minha saudosa vovó Socorro, que vagarosamente desceu do alto dos seus 81 anos, deixando uma penca de filhos, netos e bisnetos espalhados por esse mundão. Reza a lenda que uma velha sertaneja raiz não morre: ela vai encolhendo, murchando e arqueando a corcunda até, um dia, sumir. Os últimos anos de voinha não foram muito diferentes disso. A bateria foi acabando, ela foi entrando em modo noturno, modo economia de bateria, modo avião, travou o sistema e finalmente desligou. Quem conviveu de perto sabe bem do que estou falando.

Em torno dela, mais ou menos a cada dois anos – mas sem tanta regularidade –, se reunia gente de João Pessoa, Natal e Brasília durante as férias de janeiro para confraternizar. O último registro desses encontros é esta fotografia de 2020, que nunca mais irá se repetir. É estranho como, no momento de juntar todo mundo para “bater um retrato”, a gente nunca imagina que aquele pode ser o último. Dessa vez foi.

Morei na casa dela os três primeiros anos da minha vida, e continuei convivendo lá com muita frequência durante toda a infância. Foi lá que aprendi a andar empurrando as cadeiras da cozinha. Foi lá que fiz muito serão e dei muito trabalho pra dormir a noite, revelando desde cedo a minha condição de notívago e vespertino. Foi lá meu primeiro emprego informal quando, nos idos dos anos 90, eu tomava conta do armarinho dela, que levou o meu nome: Charles Magazine (a semelhança com o nome deste blog não é mera coincidência, é inspiração mesmo: apenas juntei as palavras). Em época de carnaval, era para debaixo da cama dela que eu corria e me escondia toda vez que escutava o bater das latas na rua e sabia que era a “ala ursa” chegando.

Desde minhas primeiras lembranças da infância, “Socorro” nunca foi só um nome ou só um pedido de ajuda: sempre foi as duas coisas juntas, inseparáveis. Hoje, quando chamo por Socorro, minhas palavras se perdem no vento e só encontram destinatário na memória.

Não sei se isto aqui é uma despedida, um obituário, uma nota de pesar, uma homenagem póstuma ou sei lá o que; mas resolvi encerrar com uma das lembranças mais gostosas, confortantes e acalentadoras de vovó Socorro: a canção que ela cantava para eu dormir, de um artista cego lá de Mossoró, no sertão do Rio Grande do Norte, onde ela morou por uns anos quando minha mãe ainda era criança. Senhoras e senhores, com vocês, “Serenata nas Montanhas” de Elizeu Ventania.

Socorro, que saudade!

Como ser um estudante profissional

Veja também: Dicas de estudo

Todas as pessoas devem encontrar a sua vocação profissional e viver daquilo que mais sabem fazer – pelo menos esse é o ideal. A maioria delas, quando finalmente descobrem o que querem fazer da vida, estudam até conseguir se tornar um profissional na sua área. Quando conseguem, param de estudar e vão procurar um emprego, entrar no mercado de trabalho para exercer a profissão que aprenderam e colocar os conhecimentos adquiridos em prática. Algumas pessoas, porém, têm vocação para o próprio estudo: estudam muito para se tornar um estudante profissional e continuar estudando para o resto da vida. Esses optam por seguir a carreira acadêmica, continuam seus estudos na pós-graduação até o doutorado e se tornam pesquisadores, que são algo como estudantes profissionais.

Muita gente tem o hábito de preencher “estudante” na área destinada à profissão em formulários e documentos. Na grande maioria dos casos, isso é um erro. Um erro não porque a pessoa não seja de fato um estudante, mas porque isso quase sempre não é uma profissão. Profissão é aquilo que fazemos para sobreviver, é de onde tiramos nosso sustento, é a nossa principal fonte de renda. Qualquer atividade que eu pratique, por maior que seja a minha competência e excelência naquilo, não pode ser considerada a minha profissão se essa não for a minha principal fonte de renda. Portanto, mesmo que você só faça isso da vida, rigorosamente falando não pode dizer que estudar é a sua profissão. Estudar pode ser a sua principal atividade, mas profissão é outra coisa.

Isso não quer dizer, todavia, que não haja estudantes profissionais. Como eu já disse, em nossa sociedade costumamos dar o nome de “pesquisador” a quem faz da carreira acadêmica a sua profissão. Na maioria dos casos, esse tipo de profissional trabalha também como professor universitário – essas duas atribuições, estudar e ensinar, quase sempre andam juntas. Mas, rigorosamente, um pesquisador é alguém que ganha a vida estudando (ou pesquisando) e recebe um salário para estudar (ou pesquisar). Em geral, para ser um pesquisador, exige-se o título de doutor ou equivalente (PhD). No entanto, conquistar o título de doutor requer bastante tempo e esforço intelectual. Além disso, antes de se tornar um pesquisador, você em geral precisa ser aprovado em um concurso público para fazer parte do corpo docente de uma universidade pública.

Antes de ser pago para estudar, portanto, é preciso se dedicar bastante e investir muito tempo e esforço nos estudos de maneira, digamos, “amadora”, ou seja, não remunerada, até conseguir provar o seu valor e passar a receber um salário por isso. É claro que, uma vez recebendo um salário pago com dinheiro público, esses “estudantes profissionais” não podem simplesmente estudar de qualquer jeito, como bem entenderem. Além de planejar e dar aulas, corrigir provas e trabalhos, orientar alunos de graduação e pós-graduação, participar de bancas e eventos acadêmicos e desenvolver projetos de pesquisa e extensão, o professor universitário precisa produzir trabalhos acadêmicos relevantes para o avanço da ciência, publicá-los em periódicos e revistas especializadas para a apreciação da comunidade científica e julgar o mérito do trabalho de seus colegas.

Portanto, se você realmente gosta de estudar e quer fazer isso pelo resto da sua vida, se você acha que tem vocação para a carreira acadêmica, arregace as mangas e comece desde já a levar a sério os estudos, pois você tem muito trabalho pela frente.


O que é um professor universitário?

Trecho de um artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Há muita confusão sobre quais seriam as reais atribuições de um professor universitário. Como esse é o cargo mais importante na carreira acadêmica, vale a pena dedicar um post inteiro a esclarecer essa questão. É claro que, na prática, o que cada professor faz no dia a dia varia muito entre universidades. Na verdade, há uma enorme variação mesmo entre professores de uma mesma universidade. As atribuições também mudam conforme se progride verticalmente na carreira: substituto, assistente, adjunto, associado, titular.

Em outros idiomas e culturas, a diferença entre um professor universitário e outros tipos de professor fica clara já no vocabulário. Por exemplo, no inglês, o termo professor se aplica apenas ao professor universitário, teacher é o professor de escola e lecturer é o docente universitário, geralmente com doutorado, mas sem título de professor. Sim, nos EUA, Inglaterra e outros países, professor, mais do que um cargo, é um título.

Então o que diferenciaria o professor universitário dos outros? Simples: esse cargo foi inventado para ser ocupado por profissionais que associam pesquisa e ensino. Essas duas atividades são indissociáveis no conceito original de professor universitário. Espera-se que um professor universitário esteja sempre na vanguarda da sua área, atuando na formação de profissionais de nível superior, ensinando-lhes não apenas o conhecimento já sedimentado, mas também as novidades e macetes. Para se formar em uma profissão de nível superior, o aluno tem que ser apresentado tanto aos fundamentos quanto à vanguarda. Acima de tudo, espera-se que um professor universitário produza ele mesmo algumas novidades. Um professor universitário tem a obrigação não apenas de transmitir, mas também de produzir conhecimento. E a transmissão de conhecimento se dá principalmente em sala de aula, passando informações consolidadas para os “aspiras”, e também divulgando descobertas em revistas técnicas indexadas e revisadas por pares.

Pelas leis brasileiras, a carreia de professor universitário envolve, em geral, os cinco pilares listados a seguir. Dependendo da universidade e do seu regimento interno, espera-se que o professor universitário envolva-se com no mínimo dois ou três desses pilares:

Ensino: disciplinas de graduação e pós-graduação, presenciais ou à distância.

Pesquisa: investigação científica ou tecnológica para produção de conhecimento. Na verdade, a área da pesquisa envolve mais um monte de coisas além da investigação e publicação, como revisão de artigos, editoração de revistas científicas, organização de congressos, administração de sociedades científicas, consultoria para agências de fomento, assessoria à imprensa, assessoria política dentro da área em que é perito, etc.

Orientação: formação de novos cientistas através de estágios e projetos orientados de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado.

Extensão: assessoria e divulgação de conhecimento científico e técnico para o público externo à universidade através de consultoria, palestras, cursos, exposições, museus, etc.

Administração: cargos de chefia em geral, cargos em órgãos representativos da universidade (câmaras, conselhos, congregações), gerenciamento de projetos, captação de verbas externas, contabilidade, direção de laboratórios, etc.


O que é um doutorado?

O que faz um trabalho científico ser original?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Veja também:
Como falar muito sem dizer nada

Como a indústria dos artigos científicos é péssima para o avanço da ciência

A originalidade é a principal diferença entre uma monografia de graduação, uma dissertação de mestrado e uma tese de doutorado. Enquanto nos dois primeiros níveis não é necessário apresentar um trabalho original, no terceiro a originalidade é uma condição obrigatória. No geral, isso significa que, em uma monografia ou dissertação, não é necessário gerar conhecimento novo; basta resumir o conhecimento acumulado sobre um assunto de sua escolha, muitas vezes sem nem ao menos incluir uma opinião própria. Já no doutorado, o aluno é obrigado a apresentar uma novidade, senão seu trabalho de conclusão não pode ser chamado de tese. Mas o que garante a originalidade de um trabalho? Como diferenciar entre novidades e “mais do mesmo”? Essas perguntas não são fáceis de responder. Depende basicamente do nível de rigor do curso de pós-graduação, da postura do orientador e da ambição do próprio aluno. Na média, o rigor varia muito entre culturas, atingindo seu nível máximo nos países anglo-saxões.

Em muitos cursos de pós-graduação de países latinos, para uma tese ser considerada original é preciso muito pouco. Por exemplo, o doutorando pode simplesmente tomar como base um trabalho que ache interessante e aí mudar o táxon modelo ou a área de estudo, repetindo todo o resto da fórmula, e mesmo assim sua tese poderá ser aprovada. Obviamente, quem faz isso não está incorrendo em plágio. Mas também não está sendo treinado corretamente no método científico e nem aprendendo a fazer boa ciência. Está apenas aprendendo um trabalho técnico, uma repetição de fórmulas. Já em países como EUA e Alemanha, um aluno de doutorado precisa ter uma nova ideia e testá-la para que seu trabalho possa ser chamado de tese. Não basta brincar de fazer um pouco diferente. É preciso pensar diferente, identificar os limites do conhecimento dentro do assunto escolhido e, a partir daí, criar e testar perguntas, hipóteses e previsões. Por exemplo, o aluno pode tomar como base diferentes fatos, hipóteses e teorias relacionadas ao táxon ou fenômeno de interesse, que já foram estudadas por colegas, e a partir delas fazer um raciocínio dedutivo que o leve a criar uma nova hipótese a ser testada.

É claro que há exceções. Há muitos trabalhos originais e relevantes sendo desenvolvidos em outras culturas que não a anglo-saxã, assim como trabalhos repetitivos e monótonos desenvolvidos no Primeiro Mundo. Aliás, nos países desenvolvidos, às vezes vemos teses brilhantes que, na verdade, não saíram da cabeça do aluno, mas do orientador. O orientador pensa de forma integrada em vários projetos, em diferentes níveis, numa escala de tempo grande, e apenas contrata doutorandos que trabalham como testadores das suas ideias. Nesses casos, qual é a relevância de uma tese dessas para a formação do jovem cientista? Por outro lado, há orientadores em países subdesenvolvidos que não ficam nada a dever aos seus colegas do Primeiro Mundo em termos de criatividade e originalidade e, além disso, treinam seus alunos corretamente.

Mas não dá para ignorar que, nos países subdesenvolvidos, o problema mais comum é a falta de treinamento no método hipotético-dedutivo. Considerando que a formação de um cientista deveria ser focada principalmente no aprendizado desse método, chega-se à conclusão lógica de que mesmo uma monografia de graduação deveria ser baseada em uma pergunta original. Senão, como o aluno vai aprender a usar o conhecimento acumulado para gerar conhecimento novo? Faz sentido obrigar o aluno a simplesmente mastigar conhecimento na monografia e na dissertação, só cobrando dele criatividade no doutorado? Penso que não. A diferença entre os trabalhos de conclusão exigidos nos diferentes níveis acadêmicos deveria ser o grau de complexidade e aprofundamento, e não a originalidade. Desde a iniciação científica, os alunos precisam aprender a encontrar e processar conhecimento com o objetivo de produzir novidades.

Para concluir, sugiro aos cientistas aspirantes que procurem orientadores que valorizem a criatividade e a originalidade. Muitos alunos com bom potencial acabam mudando de carreira simplesmente por terem uma péssima primeira impressão da ciência no bacharelado, causada por professores que tratam seus laboratórios acadêmicos como se fossem linhas de produção de montadoras de carros. Você, que anda desapontado com a Academia: saiba que tem muita ciência interessante sendo desenvolvida por aí! Acorde, pois o seu laboratório não é o mundo! Não deixe que uma experiência ruim defina o conceito que você tem da ciência como um todo. Acredite: elaborar um projeto original dá um trabalhão, mas é infinitamente mais divertido e dá muito mais satisfação!


O que é o plágio científico?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”. Alguns cientistas parecem ter entendido errado a Lei de Lavoisier, e os casos de plágio no meio acadêmico aparentemente se tornam cada vez mais frequentes. Ou, pelo menos, cada vez mais fáceis de detectar. Contudo, neste artigo não analisarei o suposto crescimento do plágio científico, mas sim sua definição, algumas de suas formas mais comuns e suas principais consequências, a fim de ajudar os aspirantes a cientista a não incorrem nesse erro, mesmo que involuntariamente. Convém lembrar, antes de mais nada, que o plágio científico, no fundo, é como qualquer outro tipo de plágio: reprodução de uma obra alheia, sem atribuição de crédito e muito menos permissão. Ou seja, o plágio acontece quando algum cientista tem o trabalho de desenvolver uma hipótese, teoria, método, análise ou mesmo um trabalho completo (um artigo, uma tese ou um livro), e outro cientista simplesmente copia essa obra intelectual e a publica como se fosse sua.

Vale lembrar que mesmo uma frase pescada em um artigo é uma obra intelectual, devendo vir entre aspas e acompanhada da devida citação. Infelizmente, alguns alunos, por inexperiência e falta de orientação, cometem o erro de copiar algumas frases ou mesmo parágrafos inteiros de obras de referência sem citar sua fonte, especialmente quando têm que elaborar seus primeiros projetos de pesquisa. Isso geralmente resulta em “textos frankenstein”, que acabam ficando sem coerência, resultando em projetos mal-elaborados e com poucas chances de obter financiamento ou atingir resultados satisfatórios. Além disso, fique claro que isso também é plágio, mesmo que sem má intenção. As ideias e fatos aprendidos em trabalhos alheios devem ser lidos, digeridos e interpretados, sendo depois explicados nas palavras do próprio autor do novo texto, citando-se é claro suas fontes. Nas ciências naturais, raramente se justifica fazer uma citação literal, a não ser no caso de grandes aforismos, como o de Lavoisier, citado acima.

Fora esse tipo de plágio não-intencional, comum entre alunos de graduação, há os casos mais sérios, que resultam de má fé por parte de pós-graduandos. São as chamadas teses por encomenda, compradas em sites de “ajuda acadêmica“ na internet. Existem empresas picaretas, geralmente registradas como empresas de digitação ou editoração, que vendem monografias, dissertações e teses completas a preço de banana. O aluno precisa apenas informar a universidade e o curso, que a empresa monta um frankenstein a partir das mais variadas fontes. Em alguns cursos e universidades, o rigor é muito baixo e as bancas de avaliação (quando existem) não levam seu trabalho a sério, deixando passar esses monstros e conferindo grau a esses alunos estelionatários (sim, isso pode ser enquadrado como crime de falsificação de documento público!). Obviamente um aluno desses não tem futuro profissional algum, apesar do diploma em mãos, pois não será capaz de desenvolver um trabalho de pesquisa por contra própria quando estiver no mercado de trabalho. Contudo, quando o aluno plagiador sai da universidade e busca outros caminhos, ele pode até se dar bem por um tempo. A presidente Dilma Rousseff foi pega em flagrante há alguns anos por ter mentido em seu currículo Lattes quanto a ter um título de doutora pela Unicamp. A mentira pode até render alguns frutos, mas tem pernas curtas, principalmente para quem quer continuar no meio acadêmico.

Outro tipo de plágio, mais comum entre cientistas profissionais, é o “empréstimo de hipóteses”. Infelizmente, acontece às vezes de ótimas hipóteses serem publicadas em revistas pouco lidas, o que as leva a passarem despercebidas pela grande maioria da comunidade científica. Isso às vezes acontece por barreiras linguísticas, regionalismo ou má escolha da revista. Em alguns casos, maus cientistas tomam conhecimento dessas hipóteses e as reciclam em seu nome, publicando-as em revistas internacionais de maior circulação; isso obviamente é de uma desonestidade extrema. Também acontece, em alguns casos, de um cientista pegar um manuscrito para revisar (como assessor de uma revista) e notar que alguma ideia apresentada nesse trabalho era a peça que faltava num quebra-cabeças que ele mesmo estava montando. Quando o cientista é mau-caráter, ele pode até mesmo forçar a barra para que o editor da revista rejeite o manuscrito em questão (o que não é muito difícil hoje em dia), de modo a atrasar sua publicação e, assim, ganhar tempo para ele mesmo publicar a hipótese antes. Acreditem, isso é deprimente, mas acontece. Nesses casos, o cientista menor muitas vezes nem se dá conta do plágio ou se sente constrangido em brigar com um colega de maior renome, com medo da retaliação acadêmica (o velho e famoso “fantasma da banca futura”).

Há também outro tipo de plágio, em que o sentido é o inverso do caso anterior. Tratam-se de casos em que uma ideia é copiada de um artigo publicado em um veículo de grande circulação, e depois é requentada em revistas menores, lidas por um público bem mais restrito e geralmente diferente do público original. Quando o nível de cara-de-pau chega ao extremo, acontece até mesmo de artigos inteiros serem plagiados. Na versão pirata desses artigos, o plagiador se dá ao trabalho apenas de trocar alguns termos-chave, reaproveitando até mesmo as figuras! Geralmente, esse tipo de plágio é usado para dar prestígio local a um mau cientista, que tem ambições políticas ou financeiras que podem ser alcançadas através de uma melhoria em seu currículo acadêmico. É o caso mais extremo e, portanto, o mais raro. Contudo, ele pode ter consequências muito graves, especialmente se os artigos piratas acabarem sendo usados regionalmente na tomada de decisões sobre saúde pública ou conservação da natureza, por exemplo.

Para concluir, quero deixar uma mensagem positiva. Apesar dos muitos casos de plágio e fraude científica publicados nos últimos anos, a esmagadora maioria dos trabalhos científicos é feita de forma honesta. Não porque os cientistas sejam pessoas melhores do que a média, mas porque a ciência tem mecanismos eficientes de auto-policiamento. Dentro de um campo do conhecimento científico, os especialistas geralmente estão sempre antenados com as novas descobertas, hipóteses, teorias e evidências. Portanto, sempre há uma grande chance de plágios e fraudes serem detectados ainda em estágios iniciais do trabalho científico, como a elaboração de um projeto ou a submissão de um artigo. E a facilidade atual no acesso à literatura científica torna cada vez mais eficiente o processo de detectar fraudes e erros não-intencionais em artigos já publicados, levando os mesmos a serem “despublicados”. Portanto, não há motivo para pânico ou para denegrir a imagem da ciência. Basta mantermos nossos olhos abertos, educarmos nossos alunos corretamente e termos a coragem de delatar os absurdos que virmos.


Como elaborar uma pergunta científica

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Uma pessoa se torna cientista não para salvar o mundo, enriquecer ou ficar famosa: acima de tudo, a motivação é simplesmente saciar uma curiosidade infinita. Ser cientista é fazer e responder perguntas. Mas como se elabora uma boa pergunta científica?

Primeiro, a pergunta deve ser respondível. Além disso, a não ser no caso de trabalhos teóricos, a pergunta deve ser respondível com as ferramentas conceituais e operacionais disponíveis no momento. Mesmo que a pergunta central de um trabalho seja ótima, caso a tecnologia para respondê-la ainda não exista, ela será temporariamente tão improdutiva quanto uma má pergunta. Segundo, a pergunta deve ser original. Boa ciência precisa ser criativa, não pode chover no molhado. Mesmo quando estudamos problemas antigos, já trabalhados por outros, precisamos criar perguntas originais, que levem a novas perspectivas. Você já parou para se perguntar que sentido tem um artigo, cuja discussão só tem “descobertas” acompanhadas de citações? Onde está a novidade? Terceiro, a pergunta precisa ser o mais objetiva e simples quanto possível. Perguntas complicadas ou mesmo indecifráveis costumam gerar má ciência. A grande maioria dos trabalhos inovadores tem uma pergunta simples e elegante como fio condutor.

Para elaborar uma pergunta relevante, estude o assunto do seu interesse exaustivamente, dando prioridade às grandes revisões e artigos seminais na área. Procure pelas lacunas no conhecimento. Dentre essas lacunas, escolha aquelas que te motivam mais a trabalhar. Isto é fundamental, então preste bem atenção: você precisa estar apaixonado pelo seu projeto! Não se limite a seguir a moda, tentando responder apenas as perguntas com as quais todo mundo está trabalhando. Quem segue por estradas conhecidas vai apenas onde os outros já estiveram. Por fim, dentre as lacunas de conhecimento que realmente te interessam, escolha uma que pareça possível de ser trabalhada com os recursos que você tem disponíveis. Tendo feito essa escolha, elabore uma pergunta mais específica que ajude a completar essa lacuna de interesse ou ao menos parte dela. Ataque um problema de cada vez; não se perca atirando para todo lado.

Depois de criada a pergunta, você precisará imaginar qual resposta espera encontrar para ela. A isso damos o nome de hipótese. Pense também em hipóteses alternativas, caso sua pergunta seja relativamente complexa. Depois de criar a hipótese, você precisará imaginar o que espera observar concretamente no seu sistema de estudo, supondo que sua hipótese é realmente a melhor resposta para a pergunta de interesse. A essa versão operacional da hipótese damos o nome de previsão. Perguntas complexas podem levar  a mais de uma hipótese; hipóteses complexas podem levar a mais de uma previsão.

No começo, provavelmente você vai achar muito difícil elaborar uma boa pergunta científica. Quando somos crianças é muito mais fácil fazer perguntas, mas nosso sistema de ensino baseado na repetição automatizada e na prolixidade mata a criatividade aos poucos. Você pode até achar esse exercício frustrante e desistir, fugindo para o velho e preguiçoso refúgio do descrever só por descrever ou comparar só por comparar. Mas não adianta vir com a velha desculpa de que os antigos naturalistas não se preocupavam com perguntas. Muito pelo contrário: o trabalho de Darwin, por exemplo, só mudou o mundo porque estava centrado em perguntas geniais. Quem tem talento para a ciência e, além disso, muita persistência, acaba desenvolvendo essa habilidade após algum treinamento. É como qualquer outra habilidade complexa: a maestria vem da prática.

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Como a indústria dos artigos científicos é péssima para o avanço da ciência

Exigências burocráticas e uma cultura que privilegia a quantidade em vez da qualidade levam cientistas à exaustão – e à malandragem – para garantir bolsas de pesquisa.
É o que mostra a matéria a seguir, da revista Superinteressante.

Veja também: O que faz um trabalho científico ser original?


O tcheco Ján Hoch tinha 16 anos em 1940, quando perdeu a família nas câmaras de gás de Auschwitz. Sem documentos, alistou-se em um contingente de exilados do exército inglês, mudou de nome para Robert Maxwell e combateu na Segunda Guerra Mundial. Ao final do conflito, ganhou condecorações e cidadania britânica. Acabou destacado para uma base em Berlim. O militar não sabia, mas sua temporada na capital alemã o tornaria um milionário – e mudaria para sempre a história da ciência.

Lá ele conheceu a Springer, uma editora alemã fundada em 1842. Eles eram especialistas em publicar artigos científicos: os textos que todo pesquisador precisa escrever para divulgar seus experimentos, descobertas e resultados de pesquisa. Investir nesse ramo em um continente destruído não é um jeito óbvio de ganhar dinheiro. Maxwell, porém, enxergou longe: percebeu que a ciência iria bombar no pós-guerra. Os governos, afinal, já tinham percebido que, quanto maior o avanço nos laboratórios, maior a vantagem no front (a bomba atômica que o diga). Então não faltaria dinheiro público para as pesquisas.

Além disso, era óbvio que os cientistas britânicos precisariam cada vez mais de notícias sobre a ciência que estava sendo feita em outros países. Maxwell acionou sua rede de contatos e em dois tempos se tornou distribuidor oficial de artigos científicos da Springer no Reino Unido e nos EUA. A sacada foi tão lucrativa que em 1951 ele já tinha capital e contatos para fundar sua própria editora, agora em território britânico: a Pergamon Press.

Maxwell prosperou, criou um império midiático e passou décadas nas listas de homens mais ricos da Inglaterra. Mas o grande legado do magnata não foi exatamente a Pergamon. Foi ter criado um modelo de negócios extremamente lucrativo: a editora Elsevier – que comprou a Pergamon em 1991 e hoje é a maior editora de literatura científica do planeta – lucrou US$ 1 bilhão sobre um faturamento de US$ 2,7 bilhões, margem de lucro de 36,7%, maior que o do Google (26,5%). Só tem um detalhe: essa indústria pode ser péssima para a ciência. É o que vamos ver a seguir.


De Newton à Nature

Na ciência, não basta descobrir: é preciso contar aos outros o que você descobriu. Copérnico, Galileu e Newton, por exemplo, escreviam livros técnicos, relatando suas experiências e resultados. Com o tempo, a divulgação passou a acontecer menos por livros e mais por artigos científicos publicados em revistas e periódicos especializados.

As primeiras revistas científicas, lá no século 18, não tinham fins lucrativos. Mas com o aumento dos investimentos públicos nos laboratórios, a partir da década de 1950, as universidades passaram a ter muito mais pesquisadores. São funcionários com carteira assinada, que precisam mostrar serviço e recebem avaliações de desempenho. Para fazer essas avaliações, a comunidade acadêmica adotou basicamente dois critérios: a quantidade de artigos científicos publicados em revistas – um suposto sinal de produtividade e dedicação – e o número de vezes em que esses artigos são citados – o que, em teoria, é uma evidência de que o trabalho foi relevante e influente.

Os cientistas não querem lucro, só divulgação. Então entregam o material de graça. Na outra ponta da equação, há as universidades, que não têm outra opção a não ser pagar o que as editoras pedem para ter acesso às pesquisas mais importantes (afinal, um pesquisador só consegue trabalhar se puder ler o trabalho de outros pesquisadores). Isso deu origem a um modelo de negócio sem igual: você, dono da editora de periódicos científicos, recebe conteúdo de graça e vende a um público disposto a pagar muito.

“Quando os cientistas passaram a ser avaliados por produtividade, eles tiveram de publicar mais”, diz Fernando Reinach, biólogo da USP. Empresários como Maxwell farejaram o bom negócio – pegar de graça do governo (que financia as pesquisas) para vender de volta para o governo (que financia as universidades) – e mais do que isso: perceberam que era fácil incentivá-lo com um empurrãozinho. Esse empurrãozinho foi criar grifes da ciência: periódicos muito seletivos, que só publicam a nata das pesquisas. Sair em títulos como Nature ou Science dá visibilidade e é bom para a carreira dos cientistas. Outro estímulo foi criar uma maré de revistas extremamente especializadas, que abarcavam todos os nichos da ciência – até os que ainda nem existiam. “Quando um periódico fica famoso, ele cria um monopólio em sua área. Se há um periódico de um determinado campo, todas as bibliotecas universitárias precisam ter uma assinatura”, explica Neal Young, chefe do setor de Hematologia do Instituto Nacional de Saúde dos EUA. “Com isso, as editoras podem cobrar preços muito altos”.

As bibliotecas, com orçamentos na casa dos milhões de dólares, se entupiram de revistas especializadas. Em 1988, Maxwell afirmou que, com a internet e o fim dos custos de impressão, as editoras científicas lucrariam mais ainda. Acertou. “Na era digital, a figura da editora científica é ainda mais importante”, afirma Dante Cid, vice-presidente de relações acadêmicas da Elsevier no Brasil. “Ela inibe a disseminação de informações equivocadas e colabora com a distribuição da pesquisa de qualidade”. De fato, os padrões de excelência da Elsevier e de outras editoras de peso continuam altos. Mas o sistema causa distorções. “Um Newton da vida, que passava a vida toda trabalhando e publicava pouco, não teria chance no século 21”, diz Fernando Reinach.


Masturbação acadêmica

Hoje, para um cientista brasileiro da área de Farmácia, por exemplo, receber a classificação máxima (1A) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ele precisa ter publicado 70 artigos científicos nos últimos dez anos. Ou seja: ele é obrigado a tirar um avanço científico importante da cartola a cada dois meses! Como a classificação de um cientista no CNPq define quanto dinheiro ele pode receber para suas pesquisas, surge a mentalidade do “quanto mais, melhor”.

A quantidade bruta de artigos passa a valer mais do que a criatividade e a originalidade de cada um deles. Sob pressão, os pesquisadores se preocupam mais em bater metas do que em produzir boa ciência. “É aflitivo”, resume Kenneth Camargo, professor de saúde coletiva da UERJ e editor de revistas científicas. “Para conseguir recursos e promoções na carreira, você é induzido a publicar o tempo todo. E isso gera expedientes eticamente discutíveis”. Um desses expedientes é o “pedágio”: você, cientista, exige ser creditado como autor em alguma pesquisa que tenha usado equipamento do seu laboratório – mesmo que você nem tenha participado do estudo. Outro é a “ciência salame”: fatiar uma pesquisa longa, que deveria ser apresentada de uma vez só, em vários pequenos artigos com conclusões parciais – o que aumenta o volume de produção e a classificação acadêmica do autor. Uma consequência é que o impacto científico de cada artigo diminui. E aí surge um problema: não basta publicar muito, suas publicações também precisam servir de referência para pesquisas futuras no mesmo assunto. Se seu trabalho é fragmentado e inconclusivo, outros cientistas não terão motivo para consultá-lo.

É fácil verificar essa infestação de artigos pouco relevantes nos números. Um estudo feito por Sidney Redner, da Universidade de Boston, revelou que, dos 353  mil estudos publicados entre 1893 e 2003 na Physical Review, apenas 2 mil (0,56%) tiveram mais de 100 citações. 84 mil (24%) foram citados só uma vez. O número de citações, porém, também adiciona pontos de desempenho. Então não vale a pena fazer um monte de salames, certo? Não: os pesquisadores criaram artifícios para obter citações do nada. É o caso dos “clubes de citações”. Você força a barra no seu artigo para citar trabalhos dos colegas. Os colegas sabem que você faz isso por eles, e também dão um jeito de citar seus artigos pouco relevantes. Pronto, está formado o clube. Também há as autocitações: você chega e cita a si próprio. Masturbação acadêmica.


Pagou, passou

Se nada acima der certo, ainda há as revistas científicas do tipo “pagou, passou.” Esse nicho de mercado surgiu na última década, com boas intenções: as gigantes, como Nature e Science, ofereceram aos pesquisadores a opção de pagar pelos custos de publicação de seus artigos. Assim, o conteúdo fica disponível gratuitamente na internet, sem paywall ou assinatura – colaborando com a democratização da ciência.

Era só uma transferência do custo de publicação: parar de cobrar do leitor e passar a cobrar do autor, sem diminuir as exigências de qualidade. Mas é claro que a fronteira entre pagar para liberar o acesso à pesquisa e pagar para conseguir publicar um artigo péssimo é tênue, para dizer o mínimo. Tanto que surgiu um mercado paralelo de revistas picaretas, que topam qualquer negócio. Jeffrey Beall, bibliotecário da Universidade do Colorado (EUA), estima que entre 5% e 10% dos artigos open access tenham sido publicados por periódicos que nem leem o material enviado por pesquisadores desesperados – e cobram centenas de dólares por essa conveniente vista grossa.

Em 2014, para fazer um teste bem-humorado, o cientista da informação australiano Peter Vamplew enviou a uma dessas publicações caça-níqueis um artigo falso intitulado Get Me Off Your Fucking Mailing List (em bom português, “me tire da sua p**** de lista de e-mails”). A coisa consistia, dos gráficos à conclusão, no pedido do título repetido 870 vezes. Algumas semanas depois, recebeu a resposta da revista – que, apesar do site de aparência amadora, leva o pomposo nome de Periódico Internacional de Tecnologia Computacional Avançada: os editores pediram algumas “referências a mais”. De resto, tudo ótimo: “Me tire da sua p**** de lista de e-mails” foi aprovado para publicação!

Esse arsenal de truques deixa claro: publicar com qualidade e quantidade ao mesmo tempo é impossível. “A boa ciência, que é de fato inovadora, sempre foi rara”, afirma Kenneth Camargo. “Muita gente trabalha, mas as grandes contribuições são agulhas no palheiro. Com essa maré de artigos científicos, você multiplica os palheiros, mas não as agulhas”. Por outro lado, avaliar ciência sem usar números não é tarefa fácil. Mesmo o CNPq tem consciência de que quantidade não é sinônimo de qualidade. Acontece que não há uma maneira objetiva de medir criatividade e inovação. No final do dia, as bolsas ainda precisam ser distribuídas e os professores ainda precisam ser contratados de acordo com seus méritos. As universidades concordaram que o número de citações e artigos são o melhor jeito de fazer isso – e as editoras pularam dentro. Mesmo assim, não falta quem nade contra essa corrente.


Robin Hood na pós

Em junho deste ano, aos 28 anos de idade, a pesquisadora Alexandra Elbakyan, nascida no Cazaquistão, foi condenada pela Justiça americana a pagar US$ 15 milhões à Elsevier. A ativista começou uma carreira promissora na neurociência, mas não tinha verba para consultar as dezenas de artigos científicos que precisava para a sua pós-graduação. Se uma universidade não assina um determinado periódico, o pesquisador precisa desembolsar em média US$ 30 para acessar um único artigo por apenas 48 horas!

Alexandra Elbakyan estava em busca de uma solução para o bolso dos cientistas. Descobriu, então, que vários deles usavam fóruns na internet para compartilhar senhas e assinaturas de periódicos. Inspirada pelo método, em 2011 criou o Sci-Hub: um banco de artigos pirateados que contém 64,5 milhões de arquivos – tudo alimentado por senhas fornecidas anonimamente. “O Sci-Hub é para a ciência hoje o que o Napster foi nos anos 1990”, avalia Marco Mello, professor de ecologia da UFMG. “Se ele não tivesse aparecido, a indústria da música não teria se reinventado. Essas iniciativas estão forçando o sistema a se repensar”. Elbakyan se exilou, está fora do alcance da Justiça americana, e o Sci-Hub continua no ar, hospedado em domínios exóticos como o das Ilhas Cocos (.cc). De que a iniciativa é ilegal, não há dúvida. Mas sua popularidade silenciosa entre acadêmicos é um sintoma da frustração com o status quo da publicação científica.

Como é o dia a dia de brasileiros que estudam nas melhores universidades do mundo

Dividido em três episódios, o documentário a seguir mostra o dia a dia de brasileiros que estudam nas melhores universidades do mundo, como as americanas Harvard, Princeton Yale. O documentário revela a rotina desses jovens que apostaram na aventura do conhecimento em um país estrangeiro, em busca da excelência acadêmica.


Assista abaixo uma série de três reportagens sobre como é o dia a dia numa das melhores universidades do mundo: a americana Harvard.



Universidades de ponta têm menos aulas

A maioria dos estudantes brasileiros de graduação que foram estudar em universidades de ponta pelo programa Ciência sem Fronteiras do MEC conta que estranhou a quantidade reduzida de aulas das instituições estrangeiras. Um estudante de uma universidade como Harvard, considerada a melhor do mundo, tem em média 15 horas-aula por semana. Para comparar, quem faz engenharia na USP tem quase três vezes mais aulas. A filosofia de universidades como Harvard é que cada hora de aula demanda em média uma hora extra de estudos e leituras do aluno. Além disso, a universidade espera que o aluno se envolva em atividades de pesquisa, empresas-júnior, trabalho sociais e culturais e que pratique esportes. Com tudo isso, a formação fica completa e a grade fica cheia. Enquanto isso, o aluno da USP mal consegue ter tempo para estudar para as disciplinas obrigatórias porque as aulas tomam o dia inteiro. Essa questão é comumente abordada pelos gestores do Ciência sem Fronteiras. Na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que neste ano aconteceu em Recife, o presidente da Capes, Jorge Almeida Guimarães, discutiu o assunto e defendeu a redução da grade obrigatória de aulas. O problema, de acordo com Guimarães, é fazer com que as universidades brasileiras topem essa redução. [Fonte: Abecedário]

Desempenho de alunos da rede federal é semelhante ao de países desenvolvidos

Organizada a cada três anos, a prova do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) é a principal avaliação de educação básica do mundo, e foca em alunos de 15 a 16 anos em diversos países. Os dados de 2015 apontam que o Brasil ficou estagnado desde 2012 nas três áreas avaliadas: matemática, ciência e leitura. Isso mantém o país no grupo daqueles com uma nota bem abaixo da média. A pesquisa é organizada pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), e avalia também nações que não são integrantes da entidade, como o Brasil.

O mau resultado no quadro geral é apenas uma das leituras possíveis. A comparação do desempenho entre os alunos brasileiros evidencia que há outro problema a ser enfrentado pelo país: a desigualdades dos sistemas de ensino brasileiro. No Brasil, a prova do Pisa foi aplicada pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais) para 23 mil estudantes de 841 escolas. Segundo as informações detalhadas divulgadas pela entidade, a pontuação média da rede federal supera a municipal e a estadual, assim como a privada. No caso de ciência e leitura, esses alunos estão além inclusive dos estudantes de países desenvolvidos. Em matemática, quem está numa instituição federal brasileira empata com a média das notas dos estudantes de países da OCDE.

Pontuações no Pisa de 2015:

pisa 2015

Segundo dados da instituição, a rede federal, a mais bem sucedida, responde por apenas 0,87% dos 43 milhões de alunos matriculados no ensino básico em 2015 no país. Em entrevista ao Nexo, Ricardo Falzetta, gerente de conteúdo do movimento Todos pela Educação, afirma que o ensino federal é privilegiado por diversos fatores que não se aplicam nem mesmo à rede privada. Mas seu bom desempenho mostra o potencial dos alunos do país. O Nexo conversou com três estudiosos da área de educação para entender o bom desempenho da rede federal e qual é o desafio de replicar seu modelo.

Investimento é especialmente alto

Um dos pontos que chamam a atenção no relatório do Pisa é o investimento acumulado por aluno entre 6 e 15 anos praticado no Brasil. Ele é, em média, de US$ 38.190, ou 42% da média de US$ 90.294 praticada pelos países membros da OCDE. “Aumentos de gastos ainda são necessários para se traduzir em melhor aprendizagem”, afirma o trabalho. O investimento do Brasil é defasado, mas isso não se dá de forma uniforme. A rede federal tem um gasto médio maior por aluno do que a estadual ou municipal, afirmam os pesquisadores. De acordo com Falzetta, isso assegura, por exemplo, a contratação de professores melhores. Ele ressalta que o investimento brasileiro em educação em relação ao PIB é similar àquele dos países desenvolvidos, de cerca de 6,6%. “Mas eles já estão em outro patamar. Se quisermos mudar de nível, precisamos ter um investimento maior, pelo menos por um período”, diz. Na opinião de Antonio Augusto Batista, coordenador de pesquisas do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) mais verba também se reflete em bibliotecas e laboratórios, que são raros em escolas municipais e estaduais, e mesmo em grande parte das privadas.

Seleção de alunos turbina desempenho

Um outro fator que influencia no sucesso da rede federal é o fato de que a grande procura leva a maior parte das instituições de ensino a realizar algum tipo de pré-seleção de seus alunos, como vestibulinhos. “É parecido com o que acontece com as escolas de elite da rede particular, que faz uma seleção dos alunos a partir da mensalidade”, afirma Fazetta. Em ambos os casos, os alunos tendem a ter acesso privilegiado a informações desde cedo, o que melhora o seu desempenho na escola. Fazetta também destaca que os alunos que não conseguem acompanhar o curso, seja nas escolas particulares de elite, seja nas federais, tendem a deixá-lo, o que mantém o desempenho das instituições em avaliações em alta. Batista, do Cenpec, ressalta que, apesar de membros de instituições federais de ensino tenderem a ter um nível socioeconômico maior, eles não pertencem em geral à elite econômica mais elevada do país. Fazem parte de famílias de classe média que têm na própria educação o seu principal ativo, que permite que realizem trabalhos bem remunerados e mantenham seu padrão de vida.

Por exemplo: muitas instituições da rede federal estão associadas a universidades, e por isso grande parte dos alunos são filhos de docentes. Ao procurar a rede federal, as famílias buscam garantir que seus filhos se manterão na mesma posição social. Eles são privilegiados principalmente porque “têm recursos culturais mais altos”, afirma Batista. “É uma elite intelectual no caso das federais ligadas a universidades, e uma classe média que aposta muito na escola em geral”, diz Batista. Fazetta ressalta que o investimento concentrado nesses alunos selecionados reforça desigualdades sociais.

Boa remuneração e estabilidade atraem melhores professores

A concentração de recursos no ensino federal garante uma melhor remuneração dos professores. Segundo dados elaborados pela Todos pela Educação com base em informações do IBGE, o salário médio de um professor da rede federal de educação básica com carga horária de 40h semanais de trabalho em 2014 era de R$ 5.173,92. O valor é 65% superior ao rendimento médio dos professores da educação básica pública. Em entrevista ao Nexo, Neide Noffis, diretora da Faculdade de Educação da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, afirma que os contratos desses professores também são mais estáveis, além de as condições de trabalho tenderem a ser melhores. Isso permite que professores tenham apenas um emprego. O que significa disposição para lidar com os alunos e tempo para continuar estudando e preparar aulas. Esses fatores somados fazem com que essas instituições sejam procuradas pelos melhores professores, o que leva a uma melhor qualidade de ensino. “Se o professor vê seu trabalho como subemprego e chega lá cansado, a qualidade do ensino cai”, diz Noffis.

Aplicação prática do conteúdo

A maior parte dos alunos de 15 a 16 anos na rede federal estão em instituições de ensino técnicas. Noffis destaca que elas tendem a apresentar o ensino como uma porta de entrada para o mundo do trabalho. Por isso, o conteúdo é transmitido com enfoque na realidade prática e mesmo no ambiente em que os alunos vivem. Isso, afirma, confere um ensino mais estimulante e uma maior permanência estudantil. “O ensino técnico tem a ver com o contexto local do jovem, com a sua possibilidade de se inserir no mercado. É algo mais fácil de perseguir como meta. Diferente de um conteúdo como ‘o rio tem que ser despoluído, não podemos cortar as árvores etc’, que ele aprende, mas no qual não tem condições e potência para interferir”, afirma Noffis.

Fonte: Nexo.


O que as melhores escolas públicas têm em comum?

Por serem autarquias, elas têm autonomia administrativa e estão livres de entraves burocráticos e de arbitrariedades dos governantes do momento. É o que defendem Thiago Melo e Antônio Braga Júnior, em coluna para o jornal Plural de Curitiba.


As escolas públicas com melhor desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) são as federais, as militares, e algumas escolas técnicas estaduais, como a ETESP, em São Paulo. O que essas escolas têm em comum é que são autarquias, ou seja, possuem autonomia administrativa. A ausência desta característica na maioria das escolas públicas brasileiras é o principal problema da nossa educação básica.

Uma das salas da escola em que lecionávamos tinha mais de 40 alunos. É comum uma sala com mais de 40 alunos. Mas essa especificamente era frequentada por uma grande quantidade de alunos indisciplinados. Além do desgaste que isso gerava, o resultado foi uma aprendizagem ruim. Era consenso entre pais, professores, equipe pedagógica e os próprios alunos que o melhor era dividir a sala. Após uma reunião com a comunidade, fizemos um pedido à Secretaria de Educação para dividir a turma. A resposta foi negativa.

Há escolas autárquicas que, por exemplo, colocam professores para dar aulas de reforço em contraturno. Essa é uma medida muito eficiente para a melhoria de desempenho escolar. Muitos alunos com dificuldades usam essas aulas para compreender melhor o conteúdo – não só como um estudo a mais, mas também porque há menos alunos em sala e, assim, o professor pode se concentrar mais detidamente na dificuldade de cada aluno individualmente. Em reuniões pedagógicas, sempre cogitamos esse tipo de ação, mas a maioria das escolas públicas não têm essa competência, pois exige a contratação de mais professores, remanejamento de turmas, entre outras dificuldades. Somente as secretarias de Educação têm autonomia para fazer isso.

Até mesmo a maioria das reuniões entre os próprios profissionais da escola são pautadas pelas secretarias de Educação. Isso significa que muitas vezes não podemos discutir questões mais urgentes da escola. Em muitos lugares, nem liberar professores para a participação em eventos acadêmicos é possível. Isso afeta bastante a qualidade do ensino. Na prática, a formação continuada oferecida aos professores são meros encontros tutelados pelas secretarias – e de péssima qualidade. Formação continuada de verdade se faz principalmente em eventos e cursos acadêmicos.

A margem de entraves burocráticos em escolas sem autonomia administrativa é grande. E eles se estendem também à logística e à manutenção física. Às vezes, um simples reparo não é feito sem o aval da Secretaria de Educação – o que pode contribuir na precarização da estrutura física da escola. Em outras situações, nos empurram tablets ultrapassados e sem condições de uso, sem considerar que a escola tem apenas um datashow para mais de 10 salas. Seria melhor comprar datashows.

O grupo das melhores escolas, por serem autarquias, estão livres de vários desses entraves burocráticos que prejudicam o colégio e também de arbitrariedades dos governantes do momento. Em qualquer boa instituição pública no mundo, o grau de autonomia administrativa é muito maior que o da maioria das escolas brasileiras. Isso por uma razão simples: quem melhor sabe o que deve ser feito é quem está no dia a dia da administração. E esses são profissionais, o que não acontece na maior parte dos casos com secretários e assessores. As chances de quem está de fora e não é do ramo errar são muito maiores. O resultado está aí para todos verem. A maior parte das escolas públicas do Brasil não são autarquias e são ruins.

Brasileira de 9 anos entra para grupo das pessoas mais inteligentes do mundo

Reportagem do jornal Correio Braziliense.

Com apenas 9 anos, a catarinense Laura Büchele passou a fazer parte da mais antiga e respeitada Sociedade de Pessoas com Alta Inteligência do Mundo (Mensa). Para fazer parte do grupo, é necessário apresentar um Quociente de Inteligência (QI) acima de 130 e percentual superior a 99%. O de Laura é equivalente a 99,5%. Aos 7 anos, após fazer um primeiro teste de QI, o resultado chamou a atenção: a menina apresentou uma pontuação de 139.

Bruna Büchele, mãe de Laura, conta que os sinais da inteligência da filha começaram a aparecer antes da menina completar um ano, quando ela começou a falar. “Ela falava com clareza o que queria e começou a colocar detalhes nas explicações”, lembra. Atualmente, Laura e a família moram na Flórida, nos EUA. A mudança foi há três anos, após a família decidir buscar melhores condições de vida no exterior. Laura começou a estudar inglês no jardim de infância. Ao chegar aos EUA, com 6 anos, apresentou excelentes resultados na escola. Em setembro deste ano, após recomendações de professores, a menina fez os testes para fazer parte do Mensa e, uma semana depois, a família recebeu a notícia da aprovação. “O teste da Laura foi agendado durante as férias e passamos mais de quatro horas na escola. Ela fez com um profissional qualificado e, após finalizado, um grupo de orientadores me convocou para explicar os resultados”, relata Bruna.

Laura nasceu em Itajaí, município de Santa Catarina, onde foi alfabetizada e estudou até o primeiro ano do ensino fundamental. Bruna conta que o desempenho escolar da filha sempre foi positivo, bem como a convivência com professores e amigos. “Eles (professores) tiveram, na minha opinião, um papel muito importante. A Laura sempre foi estimulada a aprender com brincadeiras, desafios e acolhimento. Tanto comigo, antes dos 2 anos, quanto na escola que ela frequentou até os 6 anos, no Brasil”, relata.

De acordo com ela, se a família tivesse ficado no Brasil, talvez Laura não teria suas aptidões notadas tão rapidamente. “Sei que no nosso país tem crianças que se destacam, mas, muitas vezes, não recebem orientação ou sequer são identificadas. Como a Laura, devem ter muitos outros por aí que, se fossem guiados, seriam pequenos gênios”, diz.

Embora Laura se destaque entre as outras crianças de sua idade, ela vive sua infância como qualquer outra, mesclando diversão com aprendizagem. A mãe diz que, após a escola, que vai das 8h às 15h, a única responsabilidade de Laura é almoçar, antes de sair para brincar. “É uma rotina tranquila tanto para nós quanto para ela, já que não precisamos ter que ficar dizendo o tempo todo o que ela deve fazer”, conta.

Com relação aos estudos, a mãe conta que Laura não é de ficar horas estudando, já que a menina tem ótima memória fotográfica e guarda até as informações mais complexas. Bruna diz que já tentou revisar os conteúdos das aulas, mas não dava muito certo, pois, passado um tempo, Laura ficava entediada. Segundo a mãe, ela aprende com facilidade os assuntos pelos quais se interessa, ou os que ainda não conhece. Se é algo que ela já viu ou aprendeu, Laura fica dispersa e não vai querer ouvir novamente a mesma coisa. Para o futuro, Bruna adianta que Laura ainda não tem planos concretos, mas acredita que a filha seguirá caminhos na ciência ou na matemática.

As 7 maravilhas do mundo antigo (e moderno)

Matéria da BBC Brasil.

Elas são o ápice da engenharia, da arquitetura e da beleza artística da Antiguidade. Cada uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo pode ser considerada individualmente uma obra arquitetônica surpreendente ou um feito da imaginação e engenharia humanas. Juntas, formam um guia de viagem da Antiguidade que desafia as limitações do tempo e, literalmente, almeja os céus. Trata-se de uma pirâmide, um mausoléu, um templo, duas estátuas, um farol e um jardim quase mítico. A maioria teve uma existência breve. A última a ser concluída, o Colosso de Rodes, se manteve de pé por menos de 60 anos. E os Jardins Suspensos da Babilônia possivelmente nunca existiram. Atualmente, apenas uma resiste praticamente intacta: a Grande Pirâmide de Gizé. Mas as Sete Maravilhas do Mundo Antigo continuam a povoar nossa imaginação. E sua importância segue até hoje: foram elas que estabeleceram as bases para o que o homem poderia alcançar.

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Mas, apesar da fama, há muitas perguntas que rondam essas obras clássicas. Quem decidiu, por exemplo, o que constitui uma “maravilha”? Quando os viajantes gregos exploravam outras civilizações, como os egípcios, persas e babilônios, eles compilavam guias com as atrações mais notáveis para se ver, que pretendiam servir de recomendação a futuros turistas, razão pela qual as Sete Maravilhas se encontram por toda a costa do Mediterrâneo. Os gregos as chamavam de theamata, ou seja, “vistas”, que logo evoluiu para algo mais grandioso: thaumata, que significa “maravilhas”.

As Sete Maravilhas que conhecemos hoje são um amálgama de todas as diferentes listas existentes de obras grandiosas na Antiguidade. As versões mais conhecidas são do poeta Antípatro de Sidon, do século 2 a.C., e do matemático Filão de Bizâncio, mas outros nomes incluem Calímaco de Cirene e o grande historiador Heródoto. O que entrava na lista de cada um era baseado nos lugares para os quais haviam viajado e, claro, na sua opinião pessoal. Portanto, embora reconheçamos hoje o Farol de Alexandria como uma “maravilha”, há quem o tenha deixado de fora na época e preferido incluir o Portão de Ishtar da Babilônia. Mas por que há apenas sete? Apesar de haver uma infinidade de estruturas e estátuas no Mundo Antigo dignas de serem incluídas, os gregos escolheram este número por acreditar que tinha um significado espiritual e representava a perfeição, talvez por ser a soma dos cinco planetas conhecidos na época, mais o Sol e a Lua.


1. Grande Pirâmide de Gizé

All Giza Pyramids

Se você pedir a um grupo de pessoas para listar as Sete Maravilhas do Mundo Antigo, é bem provável que a maioria cite primeiro a Grande Pirâmide de Gizé. A razão é simples: enquanto as outras seis desapareceram séculos atrás, a pirâmide segue de pé no norte do Egito. Construída por volta de 2.500 a.C. como tumba do faraó Quéops da quarta dinastia, é a maior das três pirâmides de Gizé. A altura original de 146,5 metros fez dela a estrutura mais alta do mundo construída pelo homem até o século 14, quando a Catedral de Lincoln foi erguida na Inglaterra. Com o passar dos anos, a camada externa de calcário sofreu erosão, reduzindo-a em quase oito metros de altura. Mas a pirâmide continua sendo um dos pontos turísticos mais extraordinários do planeta. Estimativas sugerem que demorou cerca de 14 anos para transportar e colocar no lugar os 2,3 milhões de blocos de pedra. Como as pirâmides foram construídas há 4 mil anos e como os egípcios conseguiram alinhá-las com os pontos cardeais permanece uma questão em aberto.


2. Mausoléu de Halicarnasso

Mausoléu de Halicarnasso

Ao longo da vida, o poderoso governante Mausolo construiu uma nova e magnífica capital para ele e sua esposa Artemísia em Halicarnasso (na costa oeste da atual Turquia), sem poupar gastos para enchê-la de belas estátuas e templos de mármore. Não havia dúvida de que ele, sendo o sátrapa (governador) do Império Persa e governante de Caria, desfrutaria de luxo semelhante após sua morte em 353 a.C. Artemísia (também irmã de Mausolo) teria ficado tão triste com a morte do marido que misturou as cinzas dele com água e bebeu, antes de supervisionar a construção de seu túmulo extravagante. Feita de mármore branco, a estrutura monumental ficava em uma colina com vista para a capital que ele havia construído. Projetada pelos arquitetos gregos Satyros e Pythius, ela tinha três níveis, combinando os estilos arquitetônicos lício, grego e egípcio. O nível mais baixo tinha cerca de 20 metros de altura, formando uma base de degraus que conduzia ao segundo nível, rodeado por 36 colunas. O teto tinha a forma de pirâmide, com a escultura de uma carruagem sendo puxada por quatro cavalos no topo, o que elevava a altura da tumba para cerca de 41 metros. Quatro dos artistas mais famosos da Grécia criaram esculturas para cercar o túmulo, cada um decorando um dos lados. É possível que a tumba tenha sido destruída por terremotos na época medieval, mas uma parte resistiu. O esplendor do túmulo de Mausolo era tanto que a palavra “mausoléu” deriva de seu nome.


3. Estátua de Zeus

Estátua de Zeus em Olímpia

Olímpia era um santuário na Grécia antiga, local dos primeiros Jogos Olímpicos e lar de uma das “maravilhas”. Que melhor maneira de homenagear o principal deus dos gregos do que construir uma estátua gigante dele? Foi o que fez o escultor Fídias ao erguer sua obra-prima no Templo de Zeus em Olímpia, por volta de 435 a.C. Era Zeus resplandecente sentado em um trono feito de madeira de cedro e decorado com ouro, marfim, ébano e pedras preciosas. O deus do trovão segurava uma estátua de Nike, a deusa da vitória, em sua mão direita, e um cetro com uma águia na ponta na outra. Com seus quase 12 metros de altura, a estátua era tão grande que mal cabia dentro do templo. Um dos sacerdotes encarregados de passar óleo regularmente na escultura para protegê-la do calor e da umidade observou certa vez: “Parece que se Zeus se levantar, vai destelhar o templo”. Durante oito séculos, as pessoas viajavam para Olímpia apenas para ver a estátua. Embora tenha sobrevivido ao imperador romano Calígula, que queria levá-la para Roma para substituir o rosto da mesma por sua própria imagem, a estátua de Zeus acabou se perdendo. Pode ter sido na destruição do templo em 426 d.C., ou talvez tenha sido consumida pelo fogo depois de ser transportada para Constantinopla.


4. Jardins Suspensos da Babilônia

Jardins Suspensos da Babilônia

Apesar de haver descrições detalhadas em muitos textos antigos, tanto gregos quanto romanos, nenhuma outra maravilha é mais misteriosa do que os Jardins Suspensos da Babilônia. O problema é que todos os relatos são de terceiros, e ainda não há evidências conclusivas de que tenha existido. Caso seja real, apresentava um nível de engenharia muito à frente de seu tempo, uma vez que manter um jardim exuberante e vivo no deserto do que hoje é o Iraque teria sido uma grande façanha. Uma teoria é que o rei babilônico Nabucodonosor II mandou criar os Jardins Suspensos em 600 a.C. para confortar sua nostálgica esposa, que sentia falta da vegetação de sua terra natal. É possível que tenha havido uma série ascendente de jardins em telhados, com alguns terraços atingindo supostamente uma altura de 23 metros. Isso dava a impressão de ser uma montanha de flores, plantas e ervas que cresciam no coração da Babilônia. A vegetação exótica seria irrigada por meio de um sofisticado sistema de bombas e tubulações que trazia água do Rio Eufrates. O escritor e engenheiro grego Filão de Bizâncio descreveu o processo de irrigação dos jardins dizendo que “os aquedutos contêm água que corre de lugares mais altos, permitindo que parte do fluxo desça encosta abaixo, enquanto força outra parte para cima, correndo para trás, por meio de um parafuso”. “Exuberante e digna de um rei é a engenhosidade e, acima de tudo, a força, porque o trabalho árduo do cultivador paira sobre a cabeça dos espectadores”, acrescenta. Supõe-se ainda que os jardins suspensos existiram, mas não na Babilônia. Stephanie Dalley, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, afirma que os jardins e o sistema de irrigação foram uma ideia do rei assírio Senaqueribe para seu palácio em Nínive, 480 quilômetros ao norte.


5. Farol de Alexandria

Farol de Alexandria

Navegar até o porto de Alexandria era complicado, devido às águas rasas e às rochas. Era imperativo encontrar uma solução para o próspero porto mediterrâneo na costa do Egito, fundado por Alexandre em 331 a.C., e a solução chegou na forma de uma imponente torre de sinalização luminosa construída na ilha vizinha de Pharos (daí o nome farol). No reinado de Ptolomeu II, o arquiteto grego Sóstrato de Cnido foi contratado para construir o farol e levou mais de uma década para terminar. Acredita-se que o farol tinha pouco menos de 140 metros de altura, o que o torna a segunda maior estrutura feita pelo homem na Antiguidade, depois da Grande Pirâmide de Gizé. A torre era composta por uma base quadrada, uma seção intermediária octogonal e uma parte superior cilíndrica, todas conectadas por uma rampa em espiral para que uma fogueira pudesse ser acesa no topo, supostamente visível a 48 quilômetros de distância. “A torre parece partir o céu durante a noite, um marinheiro sobre as ondas verá uma grande fogueira queimando no seu topo”, relata o poeta grego Posidipo. Seu design se tornou modelo para todos os faróis que foram construídos desde então. Como algumas das outras “maravilhas”, o Farol de Alexandria foi vítima de terremotos. Conseguiu sobreviver a vários abalos, mas não sem sofrer grandes danos, que o levaram a ser abandonado. As ruínas desabaram definitivamente no século 15. No entanto, aquele não foi o último vestígio do farol, uma vez que arqueólogos franceses descobriram pedras enormes nas águas ao redor da Ilha de Pharos em 1994, que alegaram fazer parte da antiga estrutura. Em 2015, as autoridades egípcias anunciaram sua intenção de reconstruir a “maravilha”.


6. Templo de Ártemis

Templo de Ártemis

Você pode ter sua opinião sobre qual das “maravilhas” era mais grandiosa, mas poucos tiveram mais certeza do que Antípatro de Sídon. “Pus os olhos nas elevadas muralhas da Babilônia, em que há uma estrada para carruagens, e a estátua de Zeus junto a Alfeu, e os Jardins Suspensos, e o Colosso do Sol, e o trabalho árduo das altas pirâmides e a vasta tumba de Mausolo, mas quando vi a casa de Ártemis que subia às nuvens, aquelas outras maravilhas perderam o brilho, e eu disse: ‘Fora o Olimpo, o Sol nunca viu algo tão grandioso”, disse ele em tributo ao Templo de Ártemis. O templo teve uma existência conturbada e violenta, tanto que houve vários templos, construídos um após o outro em Éfeso, atual Turquia. A “maravilha” foi destruída repetidas vezes: por uma inundação no século 7 a.C., por um incendiário chamado Herostratus, que queria alcançar a fama a qualquer custo em 356 a.C., e por uma invasão dos godos no século 3. A destruição final ocorreu em 401 d.C., e restou muito pouco da sua estrutura. Há alguns fragmentos no Museu Britânico, em Londres. Em sua forma mais impressionante, a versão que inspirou o relato de Antípatro, o templo de mármore branco tinha uma área de 6 mil metros quadrados, e todo o seu comprimento era adornado com esculturas, estátuas e 127 colunas. Em seu interior, havia uma estátua da deusa Ártemis, um santuário para muitos visitantes de Éfeso, que deixavam oferendas aos seus pés.


7. Colosso de Rodes

Colosso de Rodes

Erguido em 282 a.C., o Colosso de Rodes foi a última das Sete Maravilhas do Mundo Antigo a ser construída e uma das primeiras a ser destruída. Permaneceu de pé menos de 60 anos, mas isso não o impediu de ser considerado uma das “maravilhas”. A imponente estátua do deus sol, Hélio, foi construída durante 12 anos pelo escultor Cares de Lindos para celebrar um triunfo militar após um cerco de um ano. Reza a lenda que o povo de Rodes vendeu os pertences deixados para trás pelo inimigo derrotado para ajudar a pagar pelo Colosso, derreteu as armas abandonadas para aproveitar o bronze e o ferro na construção, e usou uma torre de cerco como andaime. Voltado para o porto, a estátua de Hélio tinha cerca de 32 metros de altura e possivelmente segurava uma tocha ou lança. Em algumas representações, ele aparece com as perna abertas na entrada do porto, permitindo que os navios navegassem entre suas pernas, mas isso teria sido impossível com as técnicas da época. O Colosso não foi forte o suficiente para resistir a um terremoto em 226 a.C., e a estátua foi destruída. Os cidadãos de Rodes não quiseram reconstruí-la, uma vez que um oráculo teria dito a eles que haviam ofendido Hélio. Assim, os pedaços gigantes do que havia sido uma escultura colossal permaneceram no chão onde haviam caído por mais de 800 anos, atraindo visitantes. O historiador Plínio, o Velho, escreveu: “Mesmo deitada, desperta nosso espanto e admiração. Poucos conseguem segurar o polegar com os braços, e seus dedos são maiores do que a maioria das estátuas”. Quando as forças inimigas finalmente venderam os restos do Colosso no século 7, foram necessários 900 camelos para carregar todos os fragmentos.


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BÔNUS: As 7 maravilhas do mundo moderno:

Grande Muralha, China

Taj Mahal, Índia

Cristo Redentor, Brasil

Coliseu Romano, Itália

Machu Picchu, Peru

Chichén Itzá, México

Petra, Jordânia


30 frases pichadas nas paredes de Pompeia mostram quão pouco mudamos em 2 mil anos

Se você achava que foram os adolescentes modernos que inventaram as pichações, os grafites e as inscrições inadequadas nos banheiros públicos, acho melhor rever seus conceitos. Arqueólogos encontraram recentemente um desenho de um pênis de 1.800 anos perto da Muralha de Adriano, na Inglaterra, que provou mais uma vez que algumas coisas nunca mudam. Além desses desenhos atrevidos, os estudiosos têm documentado grafites e pichações em latim nas paredes das antigas cidades romanas. Boa parte dessas inscrições urbanas se encontram em um estado melhor de conservação na antiga cidade de Pompeia, na atual Itália, que foi soterrada pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C. Infelizmente, hoje, mais de 90% das pichações de Pompeia foram perdidas. No entanto, graças ao trabalho de arqueólogos e tradutores de latim, temos uma lista de pichações engraçadas, picantes, apaixonadas e algumas até mesmo reflexivas que datam de cerca de 2 mil anos atrás. Segue abaixo 30 frases compiladas pelo portal Bored Panda a partir do livro Pompeiana: The Topography, Edifices and Ornaments of Pompeii, the Result of Excavations Since 1819, lançado em 2018 e vendido pela Amazon aqui.


Vibius Restitutus dormiu aqui sozinho e sentiu falta de sua querida Urbana.

Se alguém não acredita em Vênus, deve olhar para a minha namorada.

Eu não venderia meu marido nem por todo o ouro do mundo!

Os amantes são como as abelhas, pois vivem uma vida doce.

Cruel Lalagus, por que você não me ama?

Nós dois homens queridos, amigos para sempre, estávamos aqui.
Se você quer saber nossos nomes, eles são Gaius e Aulus.

Chorem, garotas. Meu pênis desistiu de vocês.
Agora ele penetra atrás dos homens.
Adeus, maravilhosa feminilidade!

Theophilus, não chupe as meninas contra as paredes da cidade como um cachorro!

Celadus, o gladiador trácio, faz as delícias de todas as meninas.

Eu transei com muitas garotas aqui.

Eu tenho sodomizado homens.

Para aquele que caga aqui: cuidado com a maldição.
Se você desprezar esta maldição, pode ter Júpiter furioso como inimigo.

Chie, espero que suas hemorróidas se esfreguem tanto que doam mais do que antes!

Apolinário, o médico do imperador Tito, cagou bem aqui.

Secundus cagou aqui três vezes em uma parede.

Cagão, que tudo dê certo para que você possa sair daqui.

Amplicatus, eu sei que Ícaro está te chateando. Salvius escreveu isso.

Virgula para o amigo Tertius: você é nojento!

Samius para Cornelius: vá se enforcar!

Stronius Stronnius não sabe nada!

Epafra não é bom em jogos de bola.

Phileros é um eunuco!

Epafra, você é careca!

Aufidius esteve aqui. Tchau.

Em 19 de abril, fiz pão.

O homem com quem estou jantando é um bárbaro.

Quem quiser servir-se, pode beber um copo do mar.

Um pequeno problema fica maior se você o ignorar.

Uma panela de cobre desapareceu da minha loja. Quem devolver para mim receberá 65 moedas de bronze. Mais 20 serão dadas para informações que levem à captura do ladrão.

Ó paredes, vocês seguraram tantas pichações tediosas que estou pasmo
de que ainda não tenham desabado em ruínas!