Linguagem e racismo

O óbvio precisa ser dito: figuras de linguagem que usam a metáfora de luz e trevas, claro e escuro, branco e preto etc. não necessariamente fazem referência à cor da pele dos seres humanos. Usar a metáfora do preto e do escuro em expressões negativas e a metáfora do branco e do claro em expressões positivas não necessariamente reproduz hábitos linguísticos racistas. O uso dessas expressões com esse sentido (claro = bom, escuro = mau) remete a fenômenos naturais e estão presentes na quase totalidade das línguas humanas antes mesmo de qualquer traço de racismo moderno, baseado na cor da pele. Por causa da maneira como nosso olho e nossa visão evoluiu, antes mesmo de surgir a linguagem articulada, nossa espécie sempre lidou com a tranquilidade do dia e os perigos da noite. Dizer que o sentido originário dessas dicotomias tem alguma relação com a cor da pele dos humanos é, no mínimo, muito anacronismo. O mesmo vale para a dicotomia alto-baixo. Ninguém em sã consciência argumentaria que o uso das expressões “alta cultura”, “alta gastronomia”, “alto astral” etc. para coisas melhores (superiores), e as expressões “baixaria”, “baixo clero” etc. para coisas piores (inferiores) é sinal de preconceito contra pessoas de baixa estatura. A diferença é que, como pessoas baixinhas sofreram historicamente bem menos preconceito do que pessoas negras, ninguém acusa essas expressões de preconceituosas.

Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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