Sabe quando você se envolve tão profundamente em uma atividade que nem vê as horas passarem? O foco é tão grande que nada nem ninguém te dispersa e, ao mesmo tempo, você se sente bem e produtivo. Parece que tudo está “fluindo”, sem muito esforço e desgaste físico ou mental. Isto é o que alguns psicólogos chamam de estado de flow (ou fluxo): uma condição que te leva à excelência enquanto trabalha, estuda ou desenvolve algum hobby.
Em um livro de 1990, intitulado “Flow: The Psychology of Optimal Experience” (Fluxo: a psicologia da experiência ideal, em tradução livre), o professor e psicólogo croata Mihaly Csikszentmihalyi defendeu que esse tal “estado de flow” depende da relação entre desafios e habilidades. O estado de flow só será alcançado quando a tarefa é desafiadora o suficiente para manter o seu cérebro motivado, na mesma proporção em que as suas habilidades são suficientes para enfrentar o desafio, sem torná-lo demasiadamente difícil. O modelo de flutuação da experiência é representado através do gráfico abaixo:
Funciona assim: se o nível de desafio for alto demais e suas habilidades estiverem em um nível baixo demais para dar conta deles, a tarefa se torna tão difícil a ponto de você sentir ansiedade; se o nível de desafio for baixo demais e suas habilidades estiverem em um nível alto demais, a tarefa se torna tão fácil que você sente tédio; mas se houver equivalência e a proporção certa entre desafio e habilidade, você alcança o estado de flow.
Mihaly concluiu que os indivíduos se sentem mais felizes e realizados quando estão imersos em projetos desafiadores: “Os melhores momentos de nossas vidas não são os tempos passivos, confortáveis e relaxantes. Os melhores momentos geralmente ocorrem quando somos levados ao limite em um esforço voluntário para realizar algo difícil e que vale a pena”.
Em 2016, Nicholas Perry, de 24 anos, queria ser famoso online. Ele começou a enviar vídeos para seu canal do YouTube nos quais perseguia sua paixão — tocar violino — e exaltava as virtudes do veganismo. Ele passou praticamente despercebido. Um ano depois, abandonou o veganismo, citando preocupações com a saúde. Agora, livre para comer o que quisesse, começou a enviar vídeos de si mesmo no estilo mukbang, consumindo vários pratos enquanto conversava com a câmera, como se estivesse jantando com um amigo.
Esses novos vídeos rapidamente encontraram um público considerável, mas à medida que o público crescia, suas demandas também cresciam. As seções de comentários dos vídeos logo ficaram cheias de pessoas desafiando Perry a comer o máximo, tanto quanto fosse fisicamente possível. Ansioso para agradar, ele começou a se colocar em desafios alimentares torturantes, cada um maior que o anterior. Seu público aplaudia, mas sempre exigia mais. Logo, ele estava se filmando comendo cardápios inteiros de restaurantes de fast food de uma só vez.
Em alguns aspectos, toda a comilança valeu a pena. Nikocado Avocado, como Perry é agora mais conhecido, acumulou mais de seis milhões de assinantes em seis canais no YouTube. Ao satisfazer as crescentes demandas de seu público, ele conseguiu seu desejo de explodir e ser famoso online. Mas o custo foi que ele explodiu e se tornou grande de maneiras que não havia previsto.
Moldado pelos desejos de seu público, Nikocado tornou-se um extremo caricatural. Agora é um personagem totalmente diferente de Nicholas Perry, o violinista vegano que começou a fazer vídeos. Enquanto Perry era educado e preocupado com a saúde, Nikocado é barulhento, abrasivo e espetacularmente grotesco. Enquanto Perry era um comedor exigente, Nikocado devorava tudo o que podia, inclusive o próprio Perry. O apetite desenfreado por atenção fez com que a pessoa fosse consumida pela persona. Costumamos falar de “públicos cativos”, considerando o artista como hipnotizador de seus espectadores. Mas, com a mesma frequência, são os espectadores que hipnotizam o artista. Essa doença, da qual Perry é uma vítima dentre muitas, pode ser descrita como “ser sequestrado pela audiência” e é essencial para entender os influenciadores e o ecossistema online.
II. Perdidos no espelho
O “sequestro pelo público” é uma força quase irresistível no mundo da influência, porque não é apenas um processo consciente, mas também inconsciente. Embora possa parecer um caso simples de influenciadores que tomam uma decisão de negócios para criar mais conteúdo que acreditam que o público deseja e, em seguida, são incentivados pelos números de engajamento a permanecer nesse nicho para sempre, na verdade é mais profundo do que isso. Envolve a substituição gradual da identidade de uma pessoa por outra feita sob medida para o público.
Para entender como, devemos considerar como as pessoas definem a si mesmas. A identidade de uma pessoa é constantemente refinada, então, por isso precisa de feedback constante. Esse feedback geralmente vem de outras pessoas, não tanto pelo que elas dizem que veem quanto pelo que elas pensam que veem. Desenvolvemos nossas personalidades nos imaginando através dos olhos dos outros, usando seus olhares emprestados como espelhos para nos vestir. Assim como a falta de um espelho para nos vestirmos nos deixa desarrumados, a falta dos olhos de outras pessoas para refinar nossa personalidade nos deixa desajeitados. É por isso que crianças criadas em isolamento se tornam humanos selvagens, comportando-se como animais.
Simplificando, para ser alguém, precisamos de alguém para quem possamos ser. Nossas personalidades se desenvolvem como um papel que desempenhamos para outras pessoas, cumprindo as expectativas que pensamos que elas têm de nós. O sociólogo americano Charles Cooley apelidou esse fenômeno de “o eu do espelho”. As evidências para isso são diversas e incluem a experiência cotidiana de nos vermos através de olhos imaginados em situações sociais (o efeito holofote), a tendência das pessoas de alterar seu comportamento quando na presença de imagens de olhos (o efeito do olhar vigilante), e a tendência das pessoas em espaços virtuais adotarem os traços de seus avatares na tentativa de atender às expectativas (o efeito Proteus).
Quando vivíamos em pequenas comunidades unidas, o eu do espelho nos ajudou a nos tornar as pessoas que nossos entes queridos precisavam que fôssemos. O “fenômeno Michelangelo” é o nome dado ao ciclo semiconsciente de refinamento e feedback pelo qual os parceiros amorosos que genuinamente se importam com o que o outro pensa gradualmente se aproximam do ideal original de seu parceiro.
O problema é que não vivemos mais apenas entre aqueles que conhecemos bem. Agora somos forçados a refinar nossas personalidades pelos incontáveis olhos de estranhos. E isso começou a afetar o processo pelo qual desenvolvemos nossas identidades. Gradualmente, estamos todos ganhando audiências online, e não conhecemos realmente essas pessoas. Nós só podemos avaliar quem eles são pelo que alguns deles postam online, e o que as pessoas publicam online não é indicativo de quem eles realmente são. Assim sendo, cada vez mais, as pessoas para quem nos tornamos alguém são uma ilusão abstrata.
Quando os influenciadores estão analisando o feedback do público, eles geralmente descobrem que seu comportamento mais estranho recebe mais atenção e aprovação, o que os leva a recalibrar suas personalidades de acordo com pistas sociais muito mais extremas do que as que receberiam na vida real. Ao fazer isso, eles exageram as facetas mais idiossincráticas de suas personalidades, tornando-se caricaturas grosseiras de si mesmos.
A caricatura rapidamente se torna a marca distintiva do influenciador, e todas as tentativas subsequentes de permanecer adequado à marca e atender às expectativas do público exigem que ele aja como a caricatura. À medida que a caricatura se torna mais familiar do que a pessoa, tanto para o público quanto para o influenciador, ela passa a ser considerada por ambos como a única expressão honesta do influenciador, de modo que qualquer desvio dela logo parece inautêntico. Quando chega nesse ponto, a persona eclipsou a pessoa e o público sequestrou o influenciador.
As antigas lendas gregas falam de Narciso, um jovem tão bonito que ficou obcecado por seu próprio reflexo. Incapaz de desviar o olhar de sua imagem na superfície das águas, ele caiu e foi transformado pelos deuses em uma flor. Da mesma forma, à medida que os influenciadores vislumbram suas personas idealizadas refletidas nas telas, eles também correm o risco de se tornarem eternamente obcecados pela forma como aparecem e, ao fazê-lo, esquecem quem foram ou poderiam ser.
III. A prostituição do intelecto
O “sequestro pelo público” se torna um problema bem particular quando falamos de política, pois ambos os fenômenos são impulsionados pela aprovação popular. No Twitter, vi muitos influenciadores políticos se radicalizarem gradualmente, impulsionados pelos seus públicos. No início, começando moderados, mas seguindo seus fãs mais extremistas cada vez mais em direção às margens.
Um exemplo é Louise Mensch, antes uma jornalista respeitável e ex política conservadora. Em 2016, publicou uma história sobre os supostos laços de Donald Trump com a Rússia, que se tornou viral. Posteriormente, ela ganhou uma enorme audiência de tipos #NotMyPresident #Resist e, encorajada por seu novo e indignado público a descobrir mais evidências da corrupção de Trump, ela parece ter começado a se ver como aquela que provaria o Russiagate e derrubaria o então presidente. A imensa responsabilidade que ela sentia por seu público parece tê-la motivado a ver padrões dramáticos em puro ruído e a inventar teorias da conspiração cada vez mais especulativas sobre Trump e a Rússia, como a alegação de que Vladimir Putin assassinou Andrew Breitbart — fundador do Breitbart News — para que a vaga de trabalho deixada fosse para o aliado de Trump, Steve Bannon. Quando seus ex aliados, como o hacker conhecido como “the Jester”, expressaram preocupação com sua nova trajetória em direção às teorias da conspiração, ela intensificou ainda mais seu discurso, acusando todos os seus críticos de serem cúmplices de Trump ou de Putin.
Outra vítima mais recente de um “sequestro pela audiência” é Maajid Nawaz. Sempre gostei de Maajid e, como alguém que já trabalhou com a organização que ele fundou, o think-tank Quilliam, que realiza um combate ao terrorismo, sei o quão cuidadoso e atencioso ele pode ser. Infelizmente, desde a pandemia, ele anda diferente. Sua decadência começou com ele postando algumas teorias vagas sobre o vírus ser uma fraude perpetrada em um público desavisado, e depois que suas postagens se tornaram virais, ele se viu inundado com novos seguidores “céticos da Covid”, que o encheram de novas pistas para perseguir.
Em janeiro, depois que ele perdeu sua posição no programa de rádio LBC devido às suas teorias cada vez mais infundadas sobre uma Nova Ordem Mundial secreta, ele insinuou que sua demissão era parte da conspiração para silenciar a verdade e instigou seus seguidores leais a assinarem seu Substack, já que esta era agora a única fonte de renda de sua família. Seu novo público provou ser generoso tanto com dinheiro quanto com atenção, e sua necessidade de atender às expectativas deles parece tê-lo estimulado, consciente ou inconscientemente, a intensificar suas visões mais extremas. Agora, quase tudo sobre o que ele escreve, da Covid à Ucrânia, ele de alguma forma conecta à sombria Nova Ordem Mundial.
Motivado por seu público a continuamente descobrir novas verdades sobre a conspiração, Maajid foi forçado a raspar o barril de alegações. Seu trabalho recente é o mais selvagem até agora, combinando ideias comuns como programas de eugenia nazistas ressuscitados, rituais satânicos e a reunião de Bilderberg. Entre os campos em que ele agora confia para encontrar “provas” estão… a numerologia.
Obviamente, existe valor em investigar a corrupção que permeia os nebulosos pináculos do poder, mas ao se definir pela visão de seu público como o descobridor de uma conspiração global, Maajid decidiu que verá evidências da conspiração em todas as coisas — mesmo quando a evidência está contra — e se um dia ele perceber que sua forma de atribuir padrões é um produto de vieses como a ilusão de agrupamento e o efeito Baader-Meinhof, será quase impossível que ele admita.
IV. Enlameando as águas para obscurecer o reflexo
Maajid, Mensch e Perry estão longe de ser as únicas vítimas de “sequestro pela audiência”. Dado o quanto o eu do espelho é fundamental para o desenvolvimento das nossas personalidades, provavelmente todo influenciador já foi afetado por ele em algum grau. E isso me inclui. Não sou autoridade para saber exatamente o grau em que minha mente foi sequestrada por vocês, meu público. Mas suspeito que o “sequestro pelo público” me afeta muito menos do que a maioria dos influenciadores porque tomei medidas específicas para evitá-lo. Eu estava ciente da armadilha muito antes de me tornar um influenciador. Eu queria um público, mas também sabia que ter o público errado seria pior do que não ter nenhum público, pois eles me restringiriam com suas expectativas, forçando-me a focar em um pequeno nicho da minha visão de mundo às custas de todo o resto. Até que eventualmente eu me tornaria uma paródia de mim mesmo.
Ficou claro para mim que a única maneira de resistir a me tornar o que as outras pessoas queriam que eu fosse era ter um forte senso de quem eu queria ser. E quem eu queria ser era alguém imune a um sequestro pelo público, alguém que tem seus próprios pensamentos, decide seu próprio destino e, acima de tudo, nunca para de crescer. Eu sabia que havia limites para minha independência desejada, porque, gostemos ou não, todos ficamos parecidos com as pessoas com quem nos cercamos. Então, eu busquei me cercar das pessoas que eu queria ser. No Twitter, cultivei um público razoável e de mente aberta, postando tweets razoáveis e de mente aberta. Os maiores saltos na minha contagem de seguidores vieram das minhas megathreads de modelos mentais, que cobrem tantos tópicos de tantas perspectivas que as pessoas que os apreciam o suficiente para me seguir precisariam estar dispostas a considerar novas perspectivas. Naturalmente, essas pessoas passaram a me ver como — e esperavam que eu fosse — um pensador independente tão aberto ao aprendizado e ao crescimento quanto eles.
Dessa forma, garanti que minha imagem de marca — a pessoa que meu público espera que eu seja — estivesse alinhada com minha imagem ideal — a pessoa que eu quero ser. Então, mesmo que provavelmente o sequestro pelo meu público me afete de alguma forma, isso só me torna mais parecido com a pessoa que eu quero ser. Eu hackeei o sistema. A minha imagem de marca é, reconhecidamente, difusa e fraca. Minha biografia no Twitter é “sabotadora de narrativas”, e poucas pessoas podem dizer com certeza o que sou, além de coisas vagas como “pensador” ou “burrão”. E é assim que eu gosto. Minha imprecisão me torna difícil de classificar, prever e sequestrar. Por esse mesmo motivo, desconfio daqueles com marcas fortes e bem delineadas. Os seres humanos são tempestades de idiossincrasias caprichosas e em grande parte não têm forma, de modo que um humano só desenvolve uma identidade clara e distinta através do artifício da performance.
Nikocado tem uma identidade clara e distinta, mas sua clareza e distinção tornam difícil sua escapada. Ele pode ser um milionário com legiões de fãs, mas seus vídeos, cheios de reclamações disfarçadas de piadas sobre sua saúde precária, não parecem deixar ele muito feliz. Infelizmente, a salvação parece estar fora de alcance para ele porque seu público, ou pelo menos o público que ele imagina, exige que ele seja o mesmo de ontem. E mesmo que ele encontrasse forças para sair do personagem e ser ele mesmo novamente, ele está atuando há tanto tempo que parar só o faria se sentir um impostor.
Este é o alçapão final no hall da fama: tornar-se prisioneiro de sua própria personalidade. O desejo de reconhecimento em um mundo cada vez mais pulverizado nos seduz a ser quem estranhos desejam que sejamos. E com o desenvolvimento pessoal sendo tão árduo e solitário, há uma certa facilidade e conforto ao fazer o crowdsourcing da sua identidade. Mas em meio a essas tentações, vale lembrar que quando você se torna quem seu público espera em detrimento de quem você é, o carinho que você recebe não é destinado a você, mas ao personagem que você está interpretando, um personagem do qual você acabará se cansando. Portanto, esteja avisado: se você perseguir a aprovação dos outros, poderá, no final, perder a aprovação de si mesmo.
Muito se fala na possibilidade de extinção do homo sapiens causada por um vírus extremamente mortal, uma hecatombe nuclear, uma colisão de um grande meteoro com nosso planeta ou qualquer outra catástrofe de proporções mundiais. Mas não podemos desconsiderar a chance de, em um desses casos, restarem uns poucos remanescentes de nossa espécie aptos a recolonizar o planeta e recriar a civilização. Foi pensando nisso que, entre a Noruega e o Polo Norte, foram construídos dois cofres gigantes. As chamadas “arcas do fim do mundo” guardam no gelo do Ártico mais de um milhão de sementes de diversas espécies de plantas e também arquivos históricos com a memória do Planeta em diversas línguas. Em suma, o alimento e as informações necessárias para retomar a vida humana na Terra. Saiba mais nesse vídeo do canal “Uma história a mais” no YouTube:
Não vou entrar no mérito se a adoção do gênero neutro na língua portuguesa como alguns têm proposto é desejável ou necessária. Já ouvi bons argumentos e contra-argumentos dos dois lados. Para alguns, é uma agressão à norma culta da língua e não faz sentido do ponto de vista gramatical, especialmente se considerarmos a origem latina do português. Para outros, é uma modernização da língua que a deixa mais parecida com o inglês e evita um suposto sexismo inerente à linguagem. Pessoalmente, não me incomoda e até faz algum sentido, embora eu acredite que não seja assim, com uma imposição, que uma língua natural e viva muda. Tampouco é isso que vai mudar o sexismo da sociedade.
Meu ponto é o seguinte: para se referir a um possível gênero neutro na língua portuguesa, goste você ou não, “todes” é melhor do que “todxs” ou “tod@s”, porque ao menos é pronunciável. Também é melhor do que o inconveniente parêntese de “todos(as)” ou “todas(os)”. Por fim, “todes” é melhor do que sempre ter que dizer “todos e todas”, porque é mais econômico — assim como a forma masculina “todos” usado como gênero neutro, incluindo as mulheres (como já usávamos antes de começarem a problematizar e apontar machismo na língua).
O que é assustador e inaceitável é, por exemplo, o Museu da Língua Portuguesa escrever em um editorial, como eu mesmo vi um tempo atrás, a aberração “todos, todas e todes”. Poucas expressões na nossa língua conseguem ser tão burras quanto essa. Ora, todo o malabarismo linguístico de inventar o “todes” — bem como toda a polêmica e as discussões acaloradas que isso tem gerado — serve justamente para substituir o prolixo “todos e todas”, por ser uma fórmula mais econômica. Nesse sentido, o neutro “todes” significa justamente “todos e todas”, e serve sobretudo para evitar o uso dos gêneros masculino (todos) e feminino (todas). Quando uma expressão tão redundante e irracional quanto “todos, todas e todes” é usada por ninguém menos do que o Museu da Língua Portuguesa, isso só revela o estado intelectual deplorável em que se encontra a sociedade brasileira.
Atualização em 05 de janeiro de 2023: Parece que o famigerado “todos, todas e todes” virou o padrão no terceiro governo Lula, como você pode ver abaixo.
Conto do escritor francês Guy de Maupassant (1850-1893), publicado em 29 de julho de 1884. Título original: “La tombe”. Tradução: Jaimir Conte.
No dia 17 de julho de 1863, às duas horas e meia da madrugada, o guarda do cemitério de Bèziers, que morava num pequena casinha nos fundos do cemitério, foi despertado pelos latidos de seu cão encerrado na cozinha. Ele entrou logo na cozinha e viu que o animal farejava sob a porta uivando com furor, como se algum vagabundo tivesse rondado em volta da casa. O guarda Vincent tomou então seu fuzil e saiu com precaução. Seu cão disparou correndo em direção à alameda do general Bonnet e deteve-se precisamente perto do monumento da Senhora Tomoiseau. Um guarda, avançando então com precaução, percebeu logo uma pequena luz do lado da alameda Malenvers. Ele deslizou entre os túmulos e foi testemunha de um ato horrível de profanação. Um homem tinha desenterrado o cadáver de uma jovem enterrada na véspera, e ele o tirava para fora da sepultura. Uma pequena lanterna sem brilho, colocada sobre um monte de terra, clareava a cena repugnante. O guarda Vincent, tendo se lançado sobre este miserável, derrubou-o, atou-lhe as mãos e o conduziu ao posto de polícia.
Era um jovem advogado da cidade, rico, bem vestido, de nome Courbataille. Ele foi julgado. O ministério público lembrou os atos monstruosos do sargento Bertrand e levantou o auditório. Sobressaltos de indignação se passavam na multidão. Quando o magistrado se sentou, ouviram-se gritos: “À morte! À morte!”. O presidente teve grande dificuldade para restabelecer o silêncio. Depois ele pronunciou em tom grave: “Acusado, o que você tem a dizer em sua defesa?”. Courbataille, que não quis advogado, levantou-se. Era um belo rapaz, grande, moreno, com uma cara simpática, de traços enérgicos, com um olhar penetrante. O público irrompeu em vaias. Ele não se perturbou, e começou a falar com um voz um pouco incompreensível, um pouco baixa inicialmente, mas que se afirmou pouco a pouco:
Senhor Presidente, Senhores Jurados,
Tenho poucas coisas a dizer. A mulher de quem eu violei a sepultura foi minha amante. Eu a amava. Eu a amava, não de um amor sensual, não de uma simples ternura de alma e de coração, mas de um amor absoluto, completo, de uma paixão extrema. Escutem-me: Quando eu a encontrei pela primeira vez, senti, ao vê-la, uma estranha sensação. Não se tratava de espanto, nem de admiração, não era o que se chama de amor à primeira vista, mas de um sentimento de bem-estar delicioso, como se eu mergulhasse num banho morno. Seus gestos me seduziam, sua voz me encantava, toda sua pessoa me fazia esperar um prazer infinito. Parecia-me também que eu a conhecia há muito tempo, que eu já a tinha visto. Ela tinha em sua pessoa alguma coisa de meu espírito. Ela se apresentava como resposta a um apelo lançado por minha alma, este apelo vago e contínuo que depositamos na esperança durante todo o curso de nossa vida. Quando a conheci mais intimamente, o simples pensamento de vê-la me agitava de uma perturbação estranha e profunda; o contato de sua mão na minha mão era para mim uma tal delícia que eu nunca tinha imaginado algo de parecido antes, seu sorriso infundia em meus olhos uma alegria louca, tinha vontade de correr, de dançar, de rolar no chão. Ela tornou-se então minha amante. Ela foi mais do que isto, foi minha própria vida. Eu não esperava mais nada sobre a terra, não desejava nada, nada mais. Não invejava mais nada.
Ora, uma noite, como terminamos indo um pouco longe demais, caminhando ao longo do rio, a chuva nos surpreendeu. Ela sentiu frio. No dia seguinte, uma pneumonia se declarou. Oito horas mais tarde, ela expirava. Durante as horas de agonia, o espanto, a estupefação, impediram-me de compreender melhor, de refletir melhor. Quando ela morreu, o desespero brutal me aturdiu de tal modo que eu não pensava mais. Eu chorava. Durante todas as horríveis fases do enterro, minha dor aguda, intensa, era ainda uma dor louca, uma espécie de dor sensual, física. Depois, quando ela partiu, quando ela foi enterrada, meu espírito de repente iluminou-se eu passei por toda uma série de sofrimentos morais tão insuportáveis que o até mesmo o amor que ela me havia dado custava caro a um tal preço.
Então entrou na minha cabeça esta ideia fixa: “Não a verei mais”. Quando refletimos nisso durante um dia inteiro, uma demência nos domina! Imagine! Você encontra uma pessoa que você adora, um ser único, pois em toda a extensão da terra não existe um outro parecido. Este ser se entregou a você, criou com você esta união misteriosa que chamamos de amor. Os olhos desta pessoa lhe parecem mais vastos que o espaço, mais encantadores que o mundo; olhos claros que irradiam ternura. Este ser vos ama. Quando ele vos fala, sua voz derrama um mar de felicidade. E de repente ele desaparece! Imagine! Ele desparece não somente para você, mas para sempre. Está morto. Você compreende esta palavra? Jamais, jamais, em nenhuma parte, este ser não existirá mais. Você nunca mais verá seus olhos, nunca mais ouvirá sua voz; nunca mais, entre todas as vozes humanas, uma voz igual pronunciará da mesma maneira as palavras que a voz dela pronunciava. Nunca mais renascerá rosto semelhante ao dela. Nunca mais, nunca mais! Preservamos as formas das estátuas; conservamos os moldes que refundem objetos com os mesmos contornos e com as mesmas cores. Mas este corpo e este rosto, nunca mais reaparecerão sobre a terra. E no entanto nascerão milhares de criaturas, milhões, bilhões, e bem mais ainda, e entre todas as mulheres futuras, nunca mais a mesma poderá ser encontrada. É possível? Ficamos loucos pensando nisso. Ela viveu durante vinte anos, e desapareceu para sempre, para sempre, para sempre! Ela pensava, sorria, ela me amava. Nada mais. As moscas que morrem no outono são como nós na criação. Nada mais! E eu pensava que seu corpo, seu corpo jovem, ardente, tão doce, tão branco, tão belo, iria apodrecer-se no fundo de um caixão sob a terra. E onde estaria sua alma, seu pensamento, seu amor? Não vê-la mais! Não vê-la mais! A ideia de seu corpo decomposto me atormentava tanto que eu pensei que não poderia mais reconhecê-lo. E eu quis olhá-lo mais uma vez!
Parti com uma pá, uma lanterna, um martelo. Saltei por cima do muro do cemitério. Encontrei o buraco de sua sepultura; ele ainda não tinha sido completamente fechado. Desenterrei o caixão e levantei uma tábua. Um odor horrível, a exalação infame das putrefações desprendeu-se. Oh! Seu leito, perfumado de íris! Abri o caixão, coloquei dentro minha lanterna alumiada, e eu a vi. Seu corpo estava azulado, deformado, horrível! Um líquido negro tinha escorrido de sua boca. Ela! Era ela! Um horror invadiu minha alma. Mesmo assim estendi os braços e peguei seus cabelos para aproximar diante de mim seu rosto monstruoso! Foi então que fui preso. Durante toda a noite conservei, como se conserva o perfume de uma mulher após um abraço amoroso, o odor imundo desta podridão, o odor de minha bem amada! Façam de mim o que quiserem.
Um estranho silêncio parecia pairar no ar. Parecia que ainda se esperava alguma coisa. Os jurados se retiraram para deliberar. Quando eles retornaram, após alguns minutos, o acusado parecia não ter temor algum, e nem mesmo pensamento. O presidente, com as fórmulas habituais, anunciou-lhe que os juízes o declaravam inocente. Ele não fez gesto algum, e o público o aplaudiu.
Quando vamos escrever um texto acadêmico aberto, que poderá ser lido por qualquer um, tal como uma monografia de graduação, uma dissertação de mestrado, uma tese de doutorado, um artigo acadêmico, um ensaio filosófico etc. é sempre bom imaginarmos dois tipos de leitores.
O primeiro deles é uma menina, de uns 12 anos, bastante esperta e curiosa, mas sem qualquer conhecimento prévio sobre o tema do texto ou qualquer outro assunto mais sofisticado. Escreva seu texto para esta menina. Ela é a sua leitora. É nela que você tem que pensar quando estiver escrevendo. Essa menina inteligente, mas sem qualquer conhecimento, tem que ser capaz de entender o que você está escrevendo. O texto tem que ser claro o suficiente para a menina entendê-lo.
Quando você terminar e considerar seu texto pronto para ser lido pela menina, faça o seguinte: retire a menina de sua imaginação e coloque, no lugar dela, um inimigo. O pior inimigo que você conseguir imaginar. Ao contrário da menina, este inimigo é um especialista. Sabe muito tanto sobre o tema do texto quanto sobre os mais variados assuntos. E usará todo seu vasto conhecimento para aproveitar qualquer oportunidade que tiver para criticar e atacar o seu texto. Então, o que você tem que fazer agora é corrigir, complementar, lapidar seu texto tendo em vista este inimigo como leitor. Você tem que tentar antecipar todas as críticas que seu pior inimigo faria sobre o seu texto e respondê-las todas. O texto tem que ser argumentado e embasado o suficiente para o inimigo não conseguir criticá-lo.
Esta estratégia, obviamente, não garante sozinha que o texto ficará bom, mas quando aplicada com compromisso, ela garante que o texto será o melhor que você consegue produzir com os conhecimentos que tem.
Artigo do antropólogo americano Horace Mitchell Miner.
In: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs.). You and the others: readings in introductory anthropology. Cambridge: Erlich, 1976.
O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comportamento que diferentes povos apresentam em situações semelhantes, que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos. De fato, se nem todas as combinações logicamente possíveis de comportamento foram ainda descobertas, o antropólogo bem pode conjeturar que elas devam existir em alguma tribo ainda não descrita. Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Sonacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como exemplo dos extremos a que pode chegar o comportamento humano.
Foi o Professor Linton, em 1936, o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para os rituais dos Sonacirema, mas a cultura desse povo permanece insuficientemente compreendida ainda hoje. Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Sonacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem à sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por duas façanhas de força: ter atirado um colar de conchas, usado pelos Sonacirema como dinheiro, através do rio Pa-To-Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade.
A cultura Sonacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habitat. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispensados em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a eles associadas são singulares. A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso das poderosas influências do ritual e do cerimonial.
Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas e, de fato, a alusão à opulência de uma casa, muito frequentemente, é feita em termos do número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira, toscamente pintadas, mas as câmeras de culto das mais ricas têm paredes de pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas, aplicando placas de cerâmica às paredes de seu santuário. Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas sim cerimônias privadas e secretas. Os ritos, normalmente, são compartilhados apenas com as crianças e, neste caso, somente durante o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios.
Eu pude estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter descrições dos rituais. O ponto focal do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre são guardados os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais preparados são conseguidos através de uma série de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos feiticeiros, cujo auxilio deve ser recompensado com dádivas substanciais. Contudo, os médicos feiticeiros não fornecem a seus clientes as poções de cura; somente decidem quais devem ser seus ingredientes e então os escrevem em sua linguagem antiga e secreta. Esta escrita é entendida apenas pelos médicos feiticeiros e pelos ervatários, os quais, em troca de outra dádiva, providenciam o encantamento necessário.
Os Sonacirema não se desfazem do encantamento após seu uso, mas os colocam na caixa de encantamento do santuário doméstico. Como tais substâncias mágicas são especificas para certas doenças, e as doenças do povo, reais ou imaginárias, são muitas, a caixa de encantamentos está geralmente a ponto de transbordar. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem quais são suas finalidades e temem usá-los de novo. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a este aspecto, só podemos concluir que aquilo que os leva a conservar todas as velhas substâncias é a ideia de que sua presença na caixa de encantamentos, em frente à qual são efetuados os ritos corporais, irá, de alguma forma, proteger o adorador. Abaixo da caixa de encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias cada membro da família, um após o outro, entra no santuário, inclina sua fronte ante a caixa de encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablução. As águas sagradas vêm do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro.
Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por “sagrados homens da boca”. Os Sonacirema têm um horror quase que patológico, e ao mesmo tempo fascinação, pela cavidade bucal, cujo estado acreditam ter uma influência sobre todas as relações sociais. Acreditam que, se não fosse pelos rituais bucais, seus dentes cairiam, seus amigos os abandonariam e suas perceiras os rejeitariam. Acreditam também na existência de uma forte relação entre as características orais e as morais: Existe, por exemplo, uma ablução ritual da boca para as crianças que se supõe aprimorar sua fibra moral. O ritual do corpo executado diariamente por cada Sonacirema inclui um rito bucal. Apesar de serem tão escrupulosos no cuidado bucal, este rito envolve uma prática que choca o estrangeiro não iniciado, que só pode considerá-lo revoltante. Foi-me relatado que o ritual consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca juntamente com certos pós mágicos, e em movimentá-lo então numa série de gestos altamente formalizados.
Além do ritual bucal privado, as pessoas procuram o mencionado sacerdote da boca uma ou duas vezes ao ano. Estes profissionais têm uma impressionante coleção de instrumentos, consistindo de brocas, furadores, sondas e aguilhões. O uso destes objetos no exorcismo dos demônios bucais envolve, para o cliente, uma tortura ritual quase inacreditável. O sacerdote da boca abre a boca do cliente e, usando os instrumentos acima citados, alarga todas as cavidades que a degeneração possa ter produzido nos dentes. Nestas cavidades são colocadas substâncias mágicas. Caso não existam cavidades naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são extirpadas para que a substância natural possa ser aplicada. Do ponto de vista do cliente, o propósito destas aplicações é tolher a degeneração e atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do rito evidencia-se pelo fato de os nativos voltarem ao sacerdote da boca ano após ano, não obstante o fato de seus dentes continuarem a degenerar. Esperemos que, quando for realizado um estudo completo dos Sonacirema, haja um inquérito cuidadoso sobre a estrutura da personalidade destas pessoas. Basta observar o fulgor nos olhos de um sacerdote da boca quando ele enfia um furador num nervo exposto, para se suspeitar que este rito envolve certa dose de sadismo. Se isto puder ser provado, teremos um modelo muito interessante, pois a maioria da população demonstra tendências masoquistas bem definidas.
Foi a estas tendências que o Prof. Linton se referiu na discussão de uma parte específica do ritual do corpo que é desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em frequência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimônia, as mulheres colocam suas cabeças em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante é que um povo que parece ser preponderantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos.
Os médicos feiticeiros têm um templo imponente, ou latipsoh, em cada comunidade de certo porte. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para tratar pacientes muito doentes, só podem ser executadas neste templo. Estas cerimônias envolvem não apenas o taumaturgo, mas um grupo permanente de vestais que, com roupas e toucados específicos, movimentam-se serenamente pelas câmaras do templo. As cerimonias no latipsoh são tão cruéis que é de surpreender que uma boa proporção de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperem. Sabe-se que as crianças pequenas, cuja doutrinação ainda é incompleta, resistem às tentativas de leva-las ao templo, porque “é lá que se vai para morrer”. Apesar disto, adultos doentes não apenas querem mas anseiam por sofrer os prolongados rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto. Não importa quão doente esteja o suplicante ou quão grave seja a emergência, os guardiões de muitos templos não admitirão um cliente se ele não puder dar uma dádiva valiosa para a administração. Mesmo depois de ter-se conseguido a admissão e sobrevivido às cerimônias, os guardiões não permitirão ao neófito abandonar o local se ele não fizer outra doação.
O suplicante que entra no templo é primeiramente despido de todas as suas roupas. Na vida cotidiana, o Sonacirema evita a exposição de seu corpo e de suas funções naturais. As atividades excretoras e o banho, enquanto parte dos ritos corporais, são realizados apenas no segredo do santuário doméstico. Da perda súbita do segredo do corpo quando da entrada no latipsoh, podem resultar traumas psicológicos. Um homem, cuja própria esposa nunca o viu em um ato excretor, acha-se subitamente nu e auxiliado por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais num recipiente sagrado. Este tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excrementos são usados por um adivinho para averiguar o curso e a natureza da enfermidade do cliente. As mulheres, por sua vez, têm seus corpos nus submetidos ao escrutínio, manipulação e agulhadas dos médicos feiticeiros.
Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bons para fazer qualquer coisa além de jazer em duros leitos. As cerimônias diárias, como os ritos do sacerdote da boca, envolvem desconforto e tortura. Com precisão ritual, as vestais despertam seus miseráveis fardos a cada madrugada e os rolam em seus leitos de dor enquanto executam abluções, com os movimentos formais nos quais estas virgens são altamente treinadas. Em outras horas, elas inserem bastões mágicos na boca do suplicante ou o forçam a engolir substâncias que se supõe serem curativas. De tempos em tempos, o médico feiticeiro vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar, e possam mesmo matar o neófito, não diminui de modo algum a fé das pessoas no médico feiticeiro.
Resta ainda um outro tipo de profissional, conhecido como um “ouvinte”. Este “doutor bruxo” tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas enfeitiçadas. Os Sonacirema acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos; particularmente, teme-se que as mães lancem uma maldição sobre as crianças enquanto lhes ensinam os ritos corporais secretos. A contra-magia do doutor bruxo é inusitada por sua carência de ritual. O paciente simplesmente conta ao “ouvinte” todos os seus problemas e temores, principalmente pelas dificuldades iniciais que consegue rememorar. A memória demonstrada pelos Sonacirema nestas sessões de exorcismo é verdadeiramente notável. Não é incomum um paciente deplorar a rejeição que sentiu, quando bebê, ao ser desmamado, e uns poucos indivíduos reportam a origem de seus problemas aos feitos traumáticos de seu próprio nascimento.
Como conclusão, deve-se fazer referência a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão profunda ao corpo natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos e torná-los menores quando são grandes. A insatisfação geral com o tamanho do seio é simbolizada no fato de a forma ideal estar virtualmente além da escala de variação humana. Umas poucas mulheres, dotadas de um desenvolvimento hipermamário quase inumano, são tão idolatradas que podem levar uma boa vida simplesmente indo de aldeia em aldeia e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, os contemplarem.
Já fizemos referência ao fato de que as funções excretoras são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao segredo. As funções naturais de reprodução são, da mesma forma, distorcidas. O intercurso sexual é tabu enquanto assunto, e é programado enquanto ato. São feitos esforços para evitar a gravidez, pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do intercurso sexual a certas fases da lua. A concepção é na realidade, pouco frequente. Quando grávidas, as mulheres vestem-se de modo a esconder o estado. O parto tem lugar em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres não amamenta seus rebentos.
Nossa análise da vida ritual dos Sonacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo sob a carga que impôs sobre si mesmo. Mas até costumes tão exóticos quanto estes aqui descritos ganham seu real significado quando são encarados sob o ângulo relevado por Malinowski, quando escreveu: “Olhando de longe e de cima de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia . Mas sem seu poder de orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como o fêz, suas dificuldades práticas, nem poderia ter avançado aos estágios mais altos da civilização”.
NOTA: como você pode perceber lendo de trás pra frente, os “Sonacirema” são, na verdade, os “Americanos”. Agora leia tudo de novo.
Filósofos e humoristas fazem o mesmo por vias diferentes. A função de ambos é questionar a realidade em níveis fundamentais. A maioria das pessoas vive suas vidas no piloto automático; são vidas atarefadas, corridas ou mesmo fúteis demais para pensar em questões tão elementares e surpreendentemente óbvias. Elas não desfrutam de ócio e perspicácia suficientes para enxergar as coisas que só os filósofos e humoristas enxergam. Vejam, por exemplo, como, em um texto improvisado de humor durante um podcast, Whindersson Nunes questiona os fundamentos da economia. O que ele faz no corte abaixo é comédia, mas também é, sem dúvida, filosofia da economia – e das boas.
Postagem do Renato Barbas no grupo do Facebook “Filosofia em PDF”, que compartilho aqui como utilidade pública. Obrigado pela generosa contribuição!
Quando eu estudava filosofia na UFRRJ, só achava na internet a coleção “Os Pensadores” em edições diferentes e incompletos. Resolvi acabar com isso, digitalizar a minha própria coleção e disponibilizar pro pessoal. Tenho a coleção “Os Pensadores” completa, primeira edição (capa azul). Digitalizei todos os livros, inclusive os quatro volumes das bibliografias. Não são cópias baixadas da internet. São digitalizações feitas por mim e convertidas para PDF pesquisável. Total de 56 volumes (13 GB). Digitalizei os livros em 600 dpi. Coloquei índices em todos os volumes. Levei os meus livros em um livreiro para retirar as capas. Depois de digitalizar e conferir as páginas, levava de volta para encadernar. Eu fazia esse processo de 5 em 5 livros. A coleção tem 56 livros. Meu scanner é um Epson GTS55, que digitaliza frente e verso simultaneamente e tem alimentador automático. Por isso que eu desencadernava: ficava mais rápido. Depois de digitalizar eu usei o Adobe Acrobat para fazer os PDF e torná-los pesquisáveis. Reparem que vocês podem copiar trechos e também procurar palavras específicas. Se clicar nos ícones à esquerda é aberto as caixas de menus.