Quando eu cheguei aqui, tudo isso era mato. Hoje em dia, é comum chamar de “blogueiro” qualquer criador de conteúdo que tenha muitos seguidores em alguma rede social, mesmo que nunca tenha criado, a rigor, um blog. “Blogueiro” virou sinônimo de “digital influencer”. (Um parêntese: dos mesmos criadores de “blogueiro sem blog”, existem também os chamados “doutores sem doutorado” – médicos e advogados –, mas isso é assunto pra outra conversa.) Quando, porém, eu comecei este blog, em abril de 2010, blogueiro era quem tinha um blog, como este.
Aventuras pregressas na blogosfera
Antes de criar o Charlezine, eu já tinha me aventurado em outras tentativas, mas nenhuma teve sucesso. Da última delas só restou como lembrança esse print aí:

Agora mais de perto, porque achei a arte muito legalzinha. Ela é uma cortesia do meu amigo designer e publicitário Rayan Rodrigues. Talvez hoje ele não se orgulhe da arte, mas é o que deu pra fazer com os escassos recursos técnicos e intelectuais de que dispúnhamos no longínquo ano de 2009. O slogan não poderia ser mais preciso: eram só “ideias em construção” mesmo.

Ok, o nome “Charles World“ é bem ruim, mas “Charlezine” à primeira vista também não é lá essas coisas e requer explicações. Então, antes de contar a sua história, precisamos falar sobre o nome do blog. Por que “Charlezine”?
A escolha do nome
“Charlezine” é, a princípio, uma mistura do meu nome com a palavra “magazine” (“revista”, em inglês). A ideia que circulava na época é que blogs eram como “revistas eletrônicas”. Mas essa não é toda a história. Eu também me inspirei no primeiro e único empreendimento comercial da minha avó materna, dona Socorro Andrade: um armarinho inaugurado nos anos 1990, no bairro de Mangabeira, que se chamava “Charles Magazine” em homenagem ao seu primeiro e único neto até então – vulgo eu. E mesmo já tendo motivos suficientes para justificar a escolha do nome “Charlezine”, também lembrei que, durante toda a minha infância, eu tinha o hábito de produzir livretos ou revistinhas artesanalmente, escrevendo, desenhando, pintando e colando tudo à mão. Na época eu não sabia, mas essas publicações independentes e artesanais têm nome: são os “zines” ou “fanzines“.

Os primeiros passos
Definido o nome do blog, pensei também em um slogan que fosse vago o suficiente para me dar a liberdade de postar sobre qualquer assunto que eu quisesse: “comunicação digital livre”. Coloquei um pássaro de origami de logotipo – o pássaro simbolizando essa liberdade criativa, e o origami de papel simbolizando os zines feitos à mão – e voilà. Essa aí foi a primeira “cara” que o blog teve:

A frase no cabeçalho que servia de lema e deve estar ilegível por conta do tamanho da imagem é do jornalista e escritor brasileiro Mário Quintana. Diz assim: “Não me ajeito com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco: não há nada que substitua o sabor da comunicação direta”. Ela faz mais sentido levando em conta que nessa época (2011) eu cursava Jornalismo (Comunicação Social) na UFPB.
E aqui outro estilo de pássaro de origami que também testei por um breve tempo, desta vez inspirado na série de TV “Prison Break“, que assisti e reassisti muitas vezes durante a vida e é até hoje a minha série favorita. Junto a ele, um slogan novo: “conteúdo inteligente para mentes curiosas”. Desse período infelizmente não tenho nenhum print, mas o cabeçalho que usei foi este:

Depois, optei por um visual mais limpo (clean), menos poluído, um slogan que sutilmente explicasse o nome do blog, com ênfase no meu interesse acadêmico do momento – “revista eletrônica de filosofia, cultura e afins” –, criei um logotipo em formato de pena para remeter à escrita e o blog ficou com essa aparência:

Após o primeiro ano do blog eu tomei gosto e, mesmo sabendo que nunca ganharia dinheiro com isso – pelo menos não o suficiente para fazer valer a pena todo o esforço –, resolvi que ia investir tempo, energia e “profissionalizar” o bagulho. Contratei uma boa hospedagem, instalei o WordPress, aprendi o básico de PHP, HTML e CSS para editar os códigos, aprendi o básico de SEO para “rankear” melhor nos sites de busca, “meti a mola” e reconstruí tudo na raça, do meu jeito. Além disso, foi nessa época que criei o logotipo que finalmente se consolidou como a identidade visual do Charlezine e que uso até hoje: um pássaro voando estilizado.
A identidade visual

Repare que o conceito do pássaro já estava presente no pássaro de origami e na pena de escrever – que nada mais é do que uma parte do pássaro. O fato dele estar voando simboliza de novo aquela liberdade criativa de que nunca abri mão neste blog. Ele é meu e nele eu escrevo o que eu quiser, como quiser e quando quiser, já que não tenho sócios, colaboradores ou patrocinadores, tampouco um tema específico a que esteja preso, nem horários e metas a cumprir. Também não penso em ganhar dinheiro com ele ou torná-lo popular. Isso é liberdade.
Detalhe que só os nerds da filosofia vão entender: veja que o contorno da figura em preto e os tons de verde que preenchem o pássaro não coincidem. Isso é proposital. Há uma clara distinção entre o formato (ou forma) e o conteúdo (ou matéria) do pássaro, numa sutil alusão ao hilemorfismo de Aristóteles, uma teoria filosófica à qual sou muito simpático. Enfim, foi assim que o blog ficou com o novo logotipo:

A ascensão e o apogeu
O dia em que o Charlezine recebeu mais acessos foi numa segunda-feira, dia 9 de setembro de 2013. Nesse dia, o blog recebeu exatas 43.442 visualizações únicas. Setembro de 2013 foi também o mês com mais acessos: 289.159 visualizações únicas. A média de acessos no ano de 2013 ultrapassou a marca das 100 mil visualizações únicas por mês, o que significa mais de 3 mil visitantes únicos por dia. Entre abril de 2011 e abril de 2015, que é quando tenho dados mais precisos do Google Analytics e do WordPress, o Charlezine recebeu um total de 2.867.233 visualizações únicas (isso mesmo: 2,8 milhões). Para quem não está familiarizado com o termo, “visualizações únicas” é a contagem de quantos computadores diferentes acessaram o blog em um dia. Essa contagem é feita pelo número do IP, de modo que, se o mesmo computador acessar várias vezes no mesmo dia, isso conta como apenas uma visualização, ou um acesso.
Surfei nessa onda por um tempo, monetizei o blog exibindo anúncios de empresas parceiras em programas de afiliados e no Google Adsense. Até cheguei a ganhar uns trocados com isso, mas nada que pudesse ser considerado uma fonte de renda. Digamos que nessa época o blog foi por alguns anos sustentável: cobria seus custos de domínio e hospedagem com uma pequena folga.
Em 2016, já não fazia mais sentido descrever o blog como uma “revista eletrônica” e mudei de novo o slogan, que passou a ser “conteúdo inteligente para amantes do conhecimento”. Sem grandes mudanças, ele ficou com uma cara muito parecida:

Lá pelo final de 2016 eu reformei todo o layout do blog mais uma vez e deixei ele com a aparência que mais me agradou até hoje. Simplifiquei o slogan para “conteúdo inteligente” apenas, como está até hoje. O Charlezine continuou crescendo consistentemente e em 2018 chegou a ter exatos 1.486 assinantes que recebiam os novos posts por e-mail e mais de 15 mil seguidores na página do blog no Facebook. Essa era a cara do blog de 2016 até 2018:

O declínio e a queda
Com o advento e popularização das redes sociais, os blogs à moda antiga, como este, caíram em desuso e quase foram extintos, de modo que até hoje eu me pergunto por que ainda mantenho um. Esse fenômeno levou ao estranho caso dos “blogueiros sem blog” – tão irritante quanto o dos “doutores sem doutorado” – que mencionei acima. Some-se a isso o fato de que, em 2018, me mudei para São Paulo para fazer o mestrado na Unicamp, o que, naturalmente, passou a exigir muito de mim e me tomar muito tempo. Passei a ter outros interesses. Minhas novas ambições intelectuais e acadêmicas exigiam um tempo que me impossibilitava de me dedicar adequadamente ao blog. O investimento de tempo e empenho que o Charlezine sempre exigiu não era mais viável.
Aos poucos parei de atualizar o blog e ele foi ficando entregue às baratas. Continuou no ar por um tempo, enquanto a publicidade das suas páginas ainda geravam receitas suficientes para pagar as despesas com domínio e servidor de hospedagem. Até que, ainda em 2018, após eu ter passado por um divórcio e uma fase bem depressiva, não renovei o domínio e uma empresa americana de registros de domínio se apossou dele, vindo a me oferecer depois o domínio que já era meu – e que só poderia me interessar, haja vista a peculiaridade do nome – a preços absurdos. Eu não dei esse gosto a eles e recusei todas as ofertas. Mesmo sem ser mais atualizado e sem o domínio original “charlezine.com“, este blog nunca saiu completamente da web. Eu o mantive no ar, vivo “por aparelhos” em um domínio gratuito provisório: “charlesandradex.wordpress.com“. E assim ele permaneceu até 2026, quando finalmente o domínio “charlezine.com” voltou a ficar disponível.
O renascimento do Charlezine
Após a conclusão do meu doutorado no ano passado, fiquei com mais tempo livre para dedicar a outros projetos pessoais e hobbies. Dentre eles, o que eu mais sentia saudade era o Charlezine. Calhou que aquele meu domínio original “charlezine.com” voltou a estar disponível para registro e eu aproveitei a oportunidade.
O Charlezine está de volta, senhoras e senhores, mas agora bem diferente do que era. Estou reformulando a política do blog para transformá-lo em algo mais esporádico e pessoal. Afinal, isso aqui sempre foi um hobby, nunca uma profissão. Vou amenizar o ritmo, diminuir a frequência das postagens, ficar mais seletivo e criterioso na escolha do conteúdo e publicar mais textos próprios. Não estranhe se eu passar muito tempo sem postar nada novo por aqui. Acostume-se com isso, caro leitor: este é o novo Charlezine. Espero que goste.

