O homem cordial e o jeitinho brasileiro

Artigo de opinião de Anderson Paz no Facebook.

Em 1936, o sociólogo Sérgio Buarque de Holanda explicou a cordialidade do povo brasileiro. Para ele, o brasileiro é um “homem cordial” porque desenvolve suas relações interpessoais através do afeto. O brasileiro age com o coração. Existe no Brasil uma cultura civil que mistura os âmbitos público e privado. As relações sociais brasileiras são personalistas, não impessoais e por mérito. As relações se dão com base no afeto, nas emoções e na amizade. O povo brasileiro é avesso ao ritual e ao formalismo. O brasileiro gosta da intimidade. Por isso, emprega diminutivos para se familiarizar com os outros e para abrir exceção a toda regra. Nesse ponto, surge o “jeitinho brasileiro”.

O que isso implica para a política? O resultado é que o brasileiro se relaciona com os políticos com seus afetos, suspendendo sua racionalidade crítica. O brasileiro enxerga o político, não como um servidor do povo, mas como um amigo pessoal. O brasileiro briga com o outro para defender políticos. A consequência é uma reiterada situação de patrimonialismo em que elites políticas se apropriam dos bens públicos, enquanto esses mesmos políticos são adorados pelo povo. A cordialidade brasileira com os políticos mascara a profunda violência das elites políticas que desviam ou usam os bens públicos para seus benefícios e privilégios. Tudo isso dificulta a construção de instituições sólidas e impessoais, um Estado de Direito e uma burocracia eficiente.

A refutação universal de todos os sistemas filosóficos

Crônica atribuída ao filósofo, matemático e lógico americano — e, nas horas vagas, também mágico e pianista — Raymond Smullyan (1919-2017).

Certa vez, um filósofo teve o seguinte sonho. Primeiro apareceu-lhe Aristóteles, e nosso filósofo lhe disse: “Você pode me fazer um esboço sintético de quinze minutos sobre toda a sua filosofia?” Para surpresa do filósofo, Aristóteles fez uma excelente exposição, na qual comprimiu uma enorme quantidade de material em menos de quinze minutos. Depois, porém, o filósofo apresentou uma objeção para a qual Aristóteles não teve resposta. Confuso, Aristóteles desapareceu. Então, apareceu Platão. A mesma coisa tornou a acontecer, e a objeção do filósofo foi a mesma objeção oposta a Aristóteles. Platão também não conseguiu responder e desapareceu. Depois, todos os filósofos famosos da história apareceram, um por um, e nosso filósofo apresentou a todos a mesma objeção. Depois que o último filósofo desapareceu, nosso filósofo disse para si mesmo: “Sei que estou dormindo e sonhando com tudo isso. Mas encontrei uma refutação universal para todos os sistemas filosóficos! Amanhã, quando acordar, provavelmente eu a terei esquecido, e o mundo terá perdido algo excepcional!” Com esforço férreo, o filósofo forçou-se a levantar, correu para a sua escrivaninha e anotou sua refutação universal. Depois, voltou para a cama com um suspiro de alívio. Na manhã seguinte, ao acordar, correu até a escrivaninha para ver o que tinha escrito. Era: “Isso é o que você diz”.

Martha Gabriel no FLOW sobre saber perguntar

Martha Gabriel é escritora, palestrante, engenheira e futurista. Neste trecho de um episódio do Flow Podcast, ela fala sobre a importância de saber perguntar (saber formular bem as perguntas e as buscas) em contextos de busca na internet e chatbots de inteligência artificial, como o ChatGPT. Num mundo cada vez mais tecnológico e conectado, ela argumenta que, mais do que saber responder, é fundamental saber perguntar e avaliar criticamente as respostas obtidas.

Prof. Clóvis de Barros no FLOW sobre filosofia da astrofísica

Trecho do Flow Podcast no qual o professor Dr. Clóvis de Barros Filho (USP) reflete sobre a origem do cosmos e outros temas de filosofia da astrofísica a partir de um insight genial de Anaximandro de Mileto (610-546 a.C.).

Quantas pessoas já viveram no mundo até hoje?

Hoje, nosso planeta conta com uma população estimada em cerca de 8 bilhões de habitantes. Mas, se considerássemos todos os seres humanos que já passaram sobre a face da Terra desde o surgimento do Homo sapiens, há cerca de 200 mil anos, quanta gente teria vivido neste mundo? Os demógrafos Carl Haub e Toshiko Kaneda, do Population Reference Bureau, decidiram calcular quantas pessoas já viveram, considerando os dados disponíveis (e muitas estimativas) sobre o crescimento populacional global. Essas informações foram obtidas através da seleção do tamanho da população em diferentes períodos (da pré-história até hoje) e, depois, aplicando-se os prováveis índices de nascimentos para cada período.

O cálculo foi baseado em estimativas aproximadas, e chegar ao número total é bem complicado. Para começar, não é tão simples assim determinar exatamente quando os humanos surgiram na Terra. Outra complicação é que só existem registros estatísticos significativos referentes à população mundial há 2 ou 3 séculos. Até meados do século 18, poucos governos realizavam censos precisos. Portanto, todas as estimativas relacionadas com a antiguidade foram feitas com base em registros relacionados a grupos que pagavam impostos ou indivíduos alistados em serviços militares, por exemplo. Nesse caso, a margem de erro é maior.

Mais aspectos críticos levados em consideração foram a expectativa de vida e a mortalidade infantil que, como você pode imaginar, também variam bastante ao longo da História. Então, para o cálculo, estimou-se que a expectativa de vida ao nascer provavelmente variou numa média de 10 anos aproximadamente durante a maior parte da história da humanidade, o que significa que cerca de 40% de todas as crianças que já nasceram não viveram mais de 1 ano. Assim, considerando um índice de crescimento constante até os tempos modernos, os cálculos realizados pelo pessoal do PRB apontaram que aproximadamente 117 bilhões de pessoas nasceram desde o surgimento dos seres humanos, mais de 14 vezes a população atual do planeta. Isso significa que a população atual representa perto de 6,8% de todo mundo que já viveu aqui na Terra.

Metade da humanidade viveu e morreu nos últimos 2 mil anos. É resultado do crescimento exponencial: quanto mais gente viva, mais rápido a população cresce. Há 10 mil anos, existiam apenas 5 milhões de pessoas vivas na Terra. Em 1800, 1 bilhão. E em 2022 atingimos a marca de 8 bilhões de pessoas. Apenas 9 bilhões de humanos viveram antes da chamada Revolução Agrícola, que ocorreu há 12 mil anos. Esse período foi marcado por uma grande virada: a domesticação de animais e a plantação em larga escala em diferentes locais do planeta.


O Homo sapiens surgiu na África e iniciou seu processo de migração para fora do continente por volta de 200 mil anos atrás. O número total de indivíduos permaneceu baixo (menos de um milhão) até o início da Revolução Agrícola, há cerca de 10 mil anos. Com o crescimento da produção agrícola e o surgimento das primeiras cidades, a população mundial, aproveitando a ampla disponibilidade de recursos naturais, chegou a 5 milhões por volta de 8 mil anos atrás.

No ano do nascimento de Jesus Cristo, no início da Era Cristã, estima-se que a população mundial era de 170 milhões. Por volta do ano 1000 chegou à marca de 330 milhões. Por volta de 1350 chegou a 370 milhões e, pela primeira vez na História, teve uma queda devido à pandemia da peste bubônica, que pode ter matado até 200 milhões de pessoas. Já no século XV, porém, alcançamos a marca de 450 milhões de pessoas, levando apenas mais 1500 anos para dobrar esse número. Por volta do ano 1800, com a Revolução Industrial, atingimos a marca do primeiro bilhão de pessoas no mundo. Ou seja, demorou cerca de 300 mil anos para a humanidade atingir a marca de um bilhão de pessoas.

Depois disso, a curva exponencial de crescimento explodiu. A marca de 2 bilhões foi atingida em 1930. Em 1959 éramos 3 bilhões, depois 4 bilhões em 1974, 5 bilhões em 1987, 6 bilhões em 1998 e 7 bilhões em 2011. Ou seja, nas últimas décadas, a humanidade tem adicionado um bilhão de habitantes no planeta a cada 12 ou 13 anos. Segundo estimativas, a marca de 8 bilhões foi atingida em 2022. E mesmo já tendo ultrapassado a capacidade de carga do planeta e já tendo dificuldades de garantir a segurança alimentar e a manutenção da biodiversidade na Terra, as projeções indicam que a população mundial pode chegar a mais de 11 bilhões antes do ano 2100. A projeção está na edição de 2019 do World Population Prospects (WPP), relatório da ONU.


Explosão demográfica

Trecho do livro Aprendendo Inteligência, do professor Pierluigi Piazzi.

Quando eu tinha uns nove anos, um professor propôs o seguinte problema: “Dentro de uma garrafa, cheia de um líquido nutritivo, cai um micróbio. O micróbio se alimenta, cresce e se divide em dois. Os dois se alimentam, crescem e, por sua vez, se dividem dando origem a quatro micróbios. Verificamos que o número de micróbios duplica de minuto em minuto. Sabemos que o primeiro micróbio caiu na garrafa à meia-noite e que a garrafa chegou a se encher pela metade de micróbios em quatro horas, ou seja, ela está pela metade às quatro horas da manhã. A que horas ela estará totalmente cheia?”. E todos nós, trouxas, caímos na armadilha e respondemos quase em coro: “Às oito horas”. Com muita paciência, o professor nos explicou que, se o número de micróbios duplicava a cada minuto, em apenas mais um minuto a garrafa, que já estava pela metade, iria se encher completamente. A resposta correta, portanto, seria: “Às quatro horas e um minuto!”. Nesse momento, senti a saudável sensação de ser um verdadeiro tonto (sensação essa que se repetiria frequentemente ao longo de minha existência).

O episódio, porém, teria sido completamente esquecido se, muitos anos mais tarde, eu não tivesse lido um artigo escrito por alguém que com certeza conhecia a história dos micróbios. Em resumo, a história começava com a garrafa pela metade e um micróbio político fazendo um pronunciamento ao vivo pela televisão:

“Minhas e meus compatriotas! Já faz muito tempo, quatro longas horas para ser exato, que nosso ancestral comum chegou nesta garrafa deserta e, com corajoso espírito pioneiro, a colonizou. Nossa estirpe orgulhosamente cresceu, apesar dos gritos de estúpidos ambientalistas que ficam bradando contra o que eles denominam ‘crescimento desordenado’. Será que eles não enxergam que, no decorrer de toda a nossa história, só consumimos a metade do espaço e dos recursos disponíveis? Toda a outra metade está virgem e intocada para as gerações seguintes! Além disso, para calar esses pessimistas, quero dar uma excelente notícia: Nossa agência espacial enviou algumas sondas para exploração no espaço extragarrafal e descobriu nas vizinhanças seis garrafas idênticas à nossa, completamente desertas e cheias de líquido nutritivo, para as quais já transferimos alguns corajosos colonos. Portanto, se já consumimos o espaço e a comida de apenas meia garrafa em toda a existência de nossa nação, as gerações futuras irão dispor de muitas e muitas eras antes de começar e se preocupar, dando ouvidos a esses chatos dos ambientalistas. Se algum dia nossa garrafa ficar cheia, transferiremos num instante as duas metades da população em duas garrafas virgens.”

Sob aplausos entusiásticos, nosso personagem desce do palanque, sorrindo e acenando para a multidão. Apenas três minutos depois, todos os micróbios de todas as garrafas começam a morrer de fome! “Bonita história”, você dirá. “Mas o que isso tem a ver comigo?”. Pois é, meu caro leitor, você já deve ter ouvido algum professor de história dizendo que devemos estudar o passado para não cometermos os mesmos erros no presente. Acontece que há um erro que jamais foi cometido no passado e que, pela primeira vez na história da humanidade, está sendo cometido agora. E não por falta de aviso. Entre no Google e dê uma pesquisada sobre um tal de Thomas Robert Malthus (1766-1834). Ele certa vez alertou: “A população, quando não controlada, cresce em razão geométrica. Recursos de subsistência crescem apenas em razão aritmética”.

Bem vindo à explosão demográfica! O planeta Terra, nossa garrafa, está se degradando aceleradamente: poluição, desmatamento, buraco na camada de ozônio, aquecimento global devido ao efeito estufa… E as coisas vão piorar! Duvida? Então ouça, a partir desse alerta, os discursos dos políticos: todos eles falam em “crescimento econômico”. Agora entre no Google e digite: “Lemingue”. Leia o que vier e medite um pouco. Depois de meditar, entre no site da WWF e leia alguns relatórios muito esclarecedores. Baseadas nesses dados, todas as escolas, numa falta de originalidade até benéfica, propõem trabalhos sobre o que é considerado o recurso mais escasso do século 21: água potável. Na realidade, há tanta água potável no século 21 quanto havia nos séculos anteriores. O que há de diferente é o excesso de pessoas querendo beber. O bem mais escasso do século 21 não é água, é inteligência!

Mensagem para o livro de formatura de Catarina

Por ocasião da formatura do ABC da minha filha, Catarina (7 anos).

Catarina, desde o dia que eu soube que você estava a caminho até hoje, já lhe escrevi muitas cartinhas, bilhetes, cartões de presente, dedicatórias e legendas em fotos ou vídeos nas redes sociais. Mas sempre um adulto ou eu mesmo precisei ler em voz alta para você. Tirando uma ou outra cartinha que você se esforçou muito para conseguir ler, acho que esta é a primeira mensagem que lhe escrevo e você pode ler sem ajuda e sem muita dificuldade. Isso me enche de orgulho por você!

É muito gratificante acompanhar de perto suas tarefas escolares, suas notas, suas anotações no diário, seus desenhos despretensiosos nos momentos de lazer e ver em tudo isso a sua evolução, o seu progresso, ver o quão melhor e mais inteligente você fica com o passar dos dias. Torço, me esforço e peço a Deus que você continue evoluindo, progredindo, melhorando e que se torne no futuro uma mulher brilhante e notável, uma profissional dedicada e talentosa no que escolher fazer.

Até lá, pode continuar me perguntando sobre tudo, pois sempre terei a maior satisfação de lhe explicar, sem julgamento, sem tabus e sem mentiras, as coisas da vida e como o mundo funciona. Aquilo que eu não souber responder, vou procurar aprender junto com você. E aquilo que você aprender antes de mim, terei humildade para aprender com você. Enquanto eu respirar, sempre estarei aqui para lhe apoiar, lhe incentivar, lhe corrigir, lhe consolar, lhe aperfeiçoar. (Mas só enquanto eu respirar, a menos que depois disso eu descubra que tem outro jeito.)

Eu amo você, minha filha!

Com amor,

Charles (painho, papai)

Oito bilhões, e agora?

Especialistas discutem sobre a superpopulação e o futuro do crescimento demográfico no mundo. É o que mostra a matéria a seguir, de José de Paiva Rebouças, publicada originalmente no portal UFRN.

Em 1804, o mundo contabilizava seu primeiro bilhão de habitantes. O marco, que acontece 4 anos antes de Dom João VI aportar no Brasil, fugindo de Napoleão Bonaparte, é simbolizado pela chegada da vacina da varíola, a primeira aplicada no Brasil. 218 anos depois, celebramos ainda outra vacina, a da covid-19, mas o mundo é bem maior agora, pelo menos em número populacional. Alcançamos neste mês a marca de 8 bilhões de habitantes, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), e seguimos crescendo. A estimativa é que passemos dos 10 bilhões em 50 anos, o que coloca em perspectiva muitas preocupações.

Chama atenção na história demográfica o fato de que demorou 121 anos para o mundo alcançar o segundo bilhão de habitantes, fato esse registrado em 1925. No entanto, só foram necessários outros 35 anos para a população crescer para 3 bilhões e depois disso a roda acelerou. Desde 1960, o planeta vem ganhando um bilhão de habitantes a cada 12 anos, em média. O Brasil, que em 1925 tinha entre 30 e 40 milhões de pessoas, passou para 71 milhões em 1960 e quase triplicou esse número em 6 décadas. Atualmente, contabilizamos 215,8 milhões de brasileiros.

Segundo o demógrafo Ricardo Ojima, chefe do Departamento de Demografia da UFRN, a velocidade com que a população cresceu mudou muito ao longo dos últimos 100 anos. O principal fator que contribuiu com o ritmo acelerado do crescimento populacional no século 20, de acordo com o pesquisador, foi a redução das taxas de mortalidade, sobretudo a partir do final da Segunda Guerra Mundial.

“A diminuição da mortalidade foi muito rápida por conta de avanços tecnológicos, descobertas médicas e avanços na urbanização e no saneamento básico. Ocorre que a natalidade permaneceu alta por algum tempo, causando essa aceleração do ritmo de crescimento populacional. A queda no número médio de filhos por mulher (taxa de fecundidade) foi mais lenta que a queda da mortalidade e, por isso, é mais lento o processo de retorno a um equilíbrio entre as taxas. De toda forma, já é generalizada a queda da fecundidade hoje e diversos países do mundo já apresentam nascimentos que não conseguem compensar a mortalidade.”

Ojima explica também que essa redução nos nascimentos leva a uma diminuição da proporção de crianças, fazendo crescer, portanto, o peso relativo que os grupos de adultos e idosos têm na população como um todo. Ou seja, quanto mais acelerada for a queda da fecundidade, mais rápido será o processo de envelhecimento populacional.

Crescimento populacional e consumo

A estimativa da ONU é de que o crescimento populacional continue acontecendo, mas em um ritmo bem mais lento, havendo uma estabilidade por volta do ano de 2080, quando o planeta alcançar o número de 10,5 bilhões de pessoas. De acordo com Ricardo Ojima, a maior parte desse crescimento futuro da população deve ocorrer na Ásia e na África. “Nas outras regiões do mundo, esse crescimento já é negativo ou está em fase de estabilização. É o caso do Brasil, que deve atingir 230 milhões de habitantes em meados de 2040 e depois disso passará a decrescer. A projeção da ONU estima que a população brasileira em meados de 2070 será menor do que a atual (em 2022) e deverá chegar ao final do século com uma população próxima àquela que tínhamos em 2000”, explica.

O pesquisador relata que muitas pessoas tendem a associar o crescimento da população ao esgotamento de recursos naturais ou da capacidade de produção de alimentos. Essa leitura foi feita, inicialmente, pelo economista e matemático britânico Thomas Malthus no final do século 18 e ainda se mantém viva no imaginário social. “Mas a verdade é que desde que Malthus fez a famosa proposição de que a população cresce em uma progressão geométrica enquanto a produção de alimentos cresce em progressão aritmética, os avanços tecnológicos e científicos contribuíram muito para a superação do que seria o limite da capacidade de pessoas no planeta”, complementa Ojima.

De acordo com o professor, se há fome no planeta, isso tem muito mais a ver com a distribuição desigual da riqueza do que com a falta de alimentos. “Claro que a quantidade de pessoas pode exercer pressão maior ou menor sobre a demanda de recursos, mas a verdade é que há muitos outros fatores que contribuem para essa equação do que o mero número de pessoas. E é perigoso reduzir o debate para quantas pessoas o mundo conseguiria suportar, pois essa abordagem esconde esses outros fatores que podem ser mais importantes. Como, por exemplo, o padrão de consumo”, completa.

O mundo está envelhecendo

Apesar do inchaço populacional e das previsões de crescimento ainda para os próximos 50 anos, o mundo vive o que a demografia chama de transição demográfica. Na situação atual, essa teoria aponta que, devido ao registro de queda acentuada nas taxas de fecundidade, natalidade e mortalidade, a população está envelhecendo. Do ponto de vista econômico, toda transição oferece oportunidades e preocupações, sobretudo no que diz respeito ao campo de trabalho.

Um ponto positivo desse fenômeno é o chamado bônus demográfico: um período único na população em que a razão de dependência é menor, pois há muitas pessoas em idade de trabalho e poucas em idade não produtiva. Entretanto, esse bônus é temporário, porque a natalidade continua caindo gradativamente e, a cada ano que passa, há um menor número de nascimentos na população. “Assim, em cada geração, há menos gente do que nas gerações anteriores e isso fará com que, dentro de alguns anos, tenhamos uma proporção de pessoas com mais de 65 anos maior do que a proporção de crianças. Isso acabará pressionando maior demanda para serviços de saúde e previdência social, entre outros”, explica Ojima.

O professor Járvis Campos, atual coordenador do Comitê de Projeções e Estimativas Demográficas, da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP), esclarece que a maioria dos países (especialmente os desenvolvidos, seguido pelos países em desenvolvimento) já se encontra em fase avançada de transição demográfica. Em outras palavras, muitos desses estados apresentam baixos níveis de mortalidade e de fecundidade. “No caso da fecundidade, quando essa alcança patamares muito baixos – especialmente abaixo do nível de reposição de 2,1 filhos por mulher ao final do período reprodutivo (Taxa de Fecundidade Total – TFT), somado à ausência de grandes fluxos de migração internacional – a população dos países tende a envelhecer”, explica.

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Segundo o pesquisador, além de uma TFT abaixo de 1,7 filhos por mulher, o Brasil tem uma migração internacional baixa. “Este cenário significa que as novas gerações de crianças não irão repor a população do país, especialmente se considerarmos que a população em idade de trabalhar nasceu em períodos de elevada fecundidade. Isso significa que estes países – grande parte dos países em desenvolvimento e praticamente todos os países desenvolvidos – têm enfrentado um processo de envelhecimento, decorrente da baixa fecundidade”, reitera.

O geógrafo expõe que entre 2022 e 2050 a proporção de população idosa irá dobrar na América Latina devido aos baixos níveis de fecundidade, o que contrapõe a ideia de superpopulação. Mas isso terá consequências econômicas relevantes. “O envelhecimento da população irá gerar uma sobrecarga previdenciária, na medida em que serão muitos idosos e poucas pessoas em idade ativa (já reflexo dos baixos níveis de fecundidade). O Brasil encontra-se neste cenário demográfico dramático, com o envelhecimento populacional, fruto dos baixos e consistentes níveis de TFT. A proporção de idosos será bem maior nos próximos anos, em face a menos pessoas em idade ativa, para contribuir com o crescimento do PIB nos próximos anos. Isso resultará no aumento do custo previdenciário de repartição simples e nos gastos com saúde”, acrescenta, corroborando com a fala de Ricardo Ojima.

O desafio atual dos países, de acordo com Járvis Campos, especialmente aqueles que se encontram na mesma situação do Brasil, em estágios mais avançados da transição demográfica, é a necessidade de investir em políticas que promovam o “estado de bem-estar social” (do inglês, welfare state), com bastante foco na proteção dos direitos das mulheres. Outra alternativa, em uma situação de não recuperação da fecundidade, seria uma nova etapa de imigração, com o país oferecendo oportunidades para jovens em idade ativa.

Planejamento

O envelhecimento populacional também preocupa a médica Selma Jerônimo, diretora do Instituto de Medicina Tropical da UFRN (IMT), sobretudo porque exige dos governos mais planejamento. Na visão da professora, a medicina ainda não avançou o suficiente para dar conta dos problemas de saúde de uma superpopulação, tanto do ponto de vista tecnológico quanto da quantidade de pessoas envolvidas nesses processos. Isso porque uma população envelhecida carece de profissionais de áreas diversas, mas também de ordenamento urbano que assegure, ao menos, calçadas niveladas para se caminhar.

Para a professora Magda Maria Pinheiro de Melo, do Departamento de Engenharia Civil da UFRN e especialista em tráfego, não é possível desenvolver uma estrutura viária que acompanhe esse crescimento populacional. Essa matemática é vista em grandes centros urbanos do mundo com engarrafamentos a perder de vista, o que causa mais estresse e diminui a qualidade de vida. Quanto mais populoso o lugar, mais trânsito e aborrecimento. “Se houvesse um transporte público de qualidade, até pessoas que hoje vão trabalhar em transporte individual poderiam usá-lo. Mas como esse serviço é deficitário, as pessoas estão fazendo o contrário”, comenta.

Maioria dos decretos mais atrapalharam do que ajudaram no combate à pandemia

Enquanto algumas medidas implementadas fizeram todo o sentido no combate à pandemia de covid-19, outras foram claramente burras, autoritárias e inúteis. Arrisco dizer até que a MAIORIA das medidas impostas por decretos mais atrapalharam do que ajudaram no combate à pandemia. Para começar, eu não poderia sintetizar melhor esse sentimento do que o professor e historiador israelense Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers “Sapiens” e “Homo Deus“:

“A pandemia de covid-19 tem demonstrado o enorme poder da nossa ciência, assim como a enorme fraqueza da nossa política. Tem sido uma vitória científica acoplada a um desastre político. Cientistas por todo o mundo cooperaram para identificar o novo vírus, conter sua propagação e desenvolver vacinas. Graças a essa colaboração científica global, a humanidade tem mais ferramentas para lidar com a covid-19 do que em qualquer pandemia prévia na História. Infelizmente, políticos falharam em usar essas ferramentas com sabedoria.”

Você pode até discordar que a covid-19 seja motivo para pânico generalizado e medidas radicais de isolamento social, como o lockdown. Pode achar que a mídia está fazendo muito alarde por uma pandemia que nem é assim tão grave. Pode concordar com o presidente de que essa virose, a despeito das comprovações científicas, não passa de uma gripezinha. E para você, pode até ser que de fato seja só isso. Você pode ser egoísta a ponto de desconsiderar a situação dos idosos e das pessoas dos grupos de risco. Ou você pode ser mais moderado e dizer apenas que, colocando na balança, os prejuízos econômicos de fechar o comércio e o turismo são maiores do que o benefício ganho em saúde pública com isso. Você pode, mesmo sem ser um especialista e correndo grave risco de falar besteira, entrar em intermináveis debates sobre isolamento horizontal ou vertical, sobre hospitais de campanha e respiradores superfaturados, sobre a eficácia das máscaras de tecido, sobre qual vacina é mais confiável, sobre o que deu certo e o que deu errado em outros países e assim por diante.

Mas, a despeito do prejuízo econômico, e por mais avesso que você seja a essa ideia, convenhamos que o lockdown faz algum sentido no combate à disseminação de uma infecção viral respiratória. Pode não ser economicamente viável, pode ser uma medida autoritária, pode não ser a melhor alternativa, mas, que barra a transmissão do vírus, inegavelmente barra. Disso quase ninguém discordaria. Assim como quase ninguém discorda de outras medidas que fazem algum sentido, como a obrigatoriedade do uso de máscara; o distanciamento social de pelo menos 1,5m em filas, guichês, mesas, cadeiras etc.; a medição da temperatura corporal na entrada de shoppings e grandes estabelecimentos etc. Quero ver é alguém dar conta de explicar como as medidas a seguir, implementadas na maioria das cidades brasileiras por decreto, de alguma maneira ajudam no combate a uma pandemia:

  • Lei seca depois das 16h;
  • Toque de recolher depois das 22h;
  • Horário reduzido em shoppings, salões de beleza, barbearias, academias etc.;
  • Proibição de mesas ao ar livre em bares;
  • Interdição da orla e faixa de areia nas praias;
  • Proibição de atividades ao ar livre e interdição de parques;
  • Diminuição da frota de transporte coletivo;
  • Seções interditadas em supermercados;

Vejamos quão burras são essas medidas. Primeiramente, restrição de horários concentra o fluxo de pessoas somente nos horários permitidos, de modo que o movimento que naturalmente seria distribuído ao longo de várias horas fica todo concentrado em poucas horas, causando mais aglomerações. Restrição de espaços, então, não preciso nem dizer que só serve para gerar mais aglomeração de pessoas. Pior ainda é quando essa restrição de espaços proíbe os espaços ao ar livre – onde comprovadamente a transmissão viral é significativamente menor –, concentrando as pessoas mais ainda nos poucos espaços permitidos.

Um exemplo magistral foi a histórica final da Copa Libertadores, em janeiro de 2021, entre dois rivais brasileiros no Maracanã – Palmeiras e Santos – com público reduzido a 5 mil pessoas. Se essas 5 mil pessoas ficassem espalhadas por toda a arquibancada, a medida faria sentido, pois elas ficariam afastadas umas das outras. Mas o que se viu foram áreas gigantescas do estádio interditadas e completamente vazias, enquanto essas 5 mil pessoas ficaram aglomeradas numa pequena faixa de arquibancadas que foi liberada pela organização da Conmebol.

E olhem que estou falando apenas das medidas efetivadas por meio de decretos do poder executivo (prefeituras e governos estaduais). Não vou nem comentar aqui propostas ainda mais absurdas como a do presidente da Câmara dos Vereadores do município de Canela, no Rio Grande do Sul, que sugeriu usar aviões para pulverizar álcool em gel sobre a cidade. Tampouco comentarei medidas de orçamento mais baixo mas igualmente absurdas como a do prefeito de Patos, na Paraíba, que mandou lavar todas as ruas da cidade com vassoura, água sanitária e um caminhão pipa a fim de desinfetar a cidade.

Além de burras, autoritárias

Mais do que burras e inúteis, tais medidas são perigosas e representam um grave risco à sociedade livre porque são extremamente autoritárias. Algumas prefeituras e governos estaduais chegaram ao ponto de usar a força policial para prender pessoas, levá-las à delegacia e aplicar multas altíssimas somente porque elas foram flagradas na rua após o toque de recolher. Comentando essas notícias no Twitter, cheguei a dizer que “por essa nem o maior saudosista da Ditadura Militar esperava”; e que “nesse ritmo a gente vira Coreia do Norte em poucas décadas”.

Usei propositalmente Ditadura Militar e Coreia do Norte como dois exemplos extremos de autoritarismos recentes, um de direita e um de esquerda, para alertar que autoritarismo não tem lado ou preferência ideológica. Qualquer regime, ideologia, instituição ou governo corre o risco (ou sofre a tentação, talvez) de aumentar gradualmente o nível de autoritarismo conforme a população vai se acostumando a aceitar decretos como esses. E é assustador como a população aceitou com muita facilidade tantos decretos burros, autoritários e medidas injustificavelmente violentas em nome de uma suposta segurança sanitária.

Como bem lembrou o cronista e cientista político português João Pereira Coutinho: “A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, mas o racionamento de comida prolongou-se até 1954; não por necessidade, mas por hábito. (…) O controle e a servidão são hábitos difíceis de quebrar. (…) Depois de derrotarmos o vírus, vai ser preciso derrotar os filhos que o vírus gerou.”

FIQUE EM CASA: São só 15 dias para dar tempo de preparar o SUS e montar hospitais de campanha para aumentar o número de leitos de UTI disponíveis… Só mais umas semanas até “achatar a curva” de contágio para não sobrecarregar o sistema de saúde… Só mais uns meses até a vacina ficar pronta… Mais um pouquinho porque tem a segunda dose… Mais uns dias até a imunização fazer efeito… Ainda não porque tem novas variantes, mutações e cepas… É o “novo normal”, se acostume!


PS: O melhor legado dessa pandemia foi fazer as pessoas, empresas, instituições e governos perceberem que já temos tecnologia e meios viáveis de fazer muita coisa remotamente, que é obsoleto e arcaico exigir a presença física de pessoas ou de informação (documentos) para resolver o que pode facilmente ser resolvido à distância. Nesse sentido – e somente nesse –, é positivo e desejável que a noção de “distanciamento social” persista mesmo após o fim da pandemia e adquira novo significado: dessa vez não sobre saúde ou segurança, mas sobre eficiência, sobre economia de tempo e recursos, sobre um mundo com menos burocracia.

As pessoas que seguem em lockdown desde o início da pandemia de covid

Reportagem de André Biernath para a BBC News Brasil.

Rafael A.* lembra das três últimas vezes que saiu de casa como se fosse hoje. “Eu passeei com o cachorro na quadra do meu condomínio, fui tirar cópias de documentos numa lojinha e tive que ir até um shopping center“, conta. Esses episódios ocorreram em março de 2020. Desde então, ele nunca mais deixou o apartamento de 45 metros quadrados em que mora na Zona Norte do Rio de Janeiro. Para Rafael, a necessidade de ficar em lockdown por causa da pandemia de covid-19 fez com que a própria casa se transformasse numa prisão, da qual ele não consegue sair até hoje, pelo medo de se infectar com o coronavírus e desenvolver as formas mais graves da doença. “Eu tenho muita saudade de sentir o sol, de passar no supermercado, de ir ao shopping…”, diz. Ao procurar a BBC News Brasil para contar sua história, Rafael esperava fazer uma espécie de desabafo, além de ajudar outros indivíduos espalhados pelo mundo, que estão em situações parecidas. “Quantas pessoas podem estar presas em casa nesse momento, se sentem sozinhas e não têm o apoio necessário para sair desta?”, questiona.

Aos 38 anos, Rafael relata que, antes da pandemia, dividia o apartamento com a mãe e dois sobrinhos. Porém, o agravamento da pandemia, a necessidade de ficar em casa e as exigências de redobrar os cuidados com a higiene geraram alguns conflitos entre eles, o que fez os outros três familiares eventualmente mudarem de endereço ainda em 2020. No período, Rafael desenvolveu todo um sistema para adaptar o dia a dia. No hall de entrada do apartamento, que dá acesso à sala, ele colocou um pequeno baú que delimita até onde entregadores e familiares podem entrar. Ao lado do baú, ele instalou uma mesa. É ali que as encomendas do mercado e da farmácia são deixadas. No local, também ficam os sacos de lixo reciclável que se acumulam e só são descartados quando algum conhecido passa pelo local.

No momento dessas visitas, porém, Rafael nunca fica no mesmo ambiente. Ao saber que alguém está chegando, ele deixa a porta de entrada aberta e se tranca no quarto até a pessoa ir embora. Ele guarda até hoje várias garrafas de álcool que comprou para higienizar os alimentos e objetos. No início, a preocupação com a higiene era tão grande que ele até pedia refeições por aplicativos de entrega, mas, com medo do coronavírus, colocava a comida no forno novamente. “Várias vezes comi lanches e batatas fritas queimadas porque deixava a temperatura muito alta ou por tempo demais”, relata. “Hoje, já melhorei um pouquinho e não sinto mais necessidade de chegar nesse ponto”, complementa.

Ao longo desses dois anos de pandemia, alguns episódios reforçaram ainda mais os temores de Rafael. Um dos principais foi a morte por covid-19 do humorista Paulo Gustavo, em maio de 2021. “Eu sempre fui muito fã do trabalho dele e pensei: ‘Se um cara rico desses morreu, imagina o que pode acontecer comigo, que não tenho dinheiro?'”, se recorda. Outro momento decisivo teve a ver com a vacinação contra a covid-19. Quando as doses estavam disponíveis para a faixa etária dele, Rafael passou por um verdadeiro dilema: por um lado, ele sabia que os imunizantes garantiriam uma melhor proteção contra o coronavírus; por outro, não se sentia nada confortável em sair de casa, se expor e ir até um posto de saúde.

Teve início, então, uma verdadeira epopeia, em que tanto Rafael quanto colegas e familiares tentaram convencer algum profissional de saúde a ir até o apartamento e aplicar a vacina lá mesmo. Depois de muita procura, em dezembro de 2021, duas enfermeiras de um posto de saúde do bairro finalmente foram até a moradia de Rafael, que as recebeu vestido com uma roupa especial, daquelas usadas por cientistas em situações emergenciais e com alto risco de contágio. O processo se repetiu algumas semanas depois, em janeiro de 2022, quando ele precisava tomar a segunda dose. “Fiquei com medo de ter alguma reação e precisar ir a um hospital, mas felizmente não senti nada”, conta. E é justamente pelo medo de eventos adversos — somado à dificuldade de convencer a equipe de algum posto de saúde a ir até o apartamento — que Rafael ainda não tomou a terceira dose do imunizante.

Rafael se sente agoniado ao ver que as pessoas estão retomando a vida e abandonando todas as restrições que marcaram os últimos dois anos, como o uso de máscara, a higiene das mãos e o distanciamento físico. “A pandemia não acabou”, constata. “No carnaval, eu via de longe, pela janela do apartamento, as pessoas festejando, todas muito alegres. Não consigo entender”, admite. Questionado em que situação ele acha que fará sentido sair de casa e retomar a rotina, Rafael diz que checa as notícias e os gráficos sobre as mortes por covid registradas no Brasil todos os dias. “Para mim, o número ideal seria zero. Mas acho que talvez me sinta um pouco mais confortável para sair quando ver entre cinco e dez mortes por covid”, estima. Além do acompanhamento psicológico semanal, ele conta que também chegou a fazer consultas com o psiquiatra, que recomendou o uso de remédios para aplacar a ansiedade. Mas o medo de sofrer algum efeito colateral — e precisar ir ao pronto-socorro — fez com que ele desistisse da ideia de iniciar um tratamento medicamentoso.

Apesar de chamar a atenção, a história de Rafael se repete, em maior ou menor grau, com outras pessoas, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil. Embora não exista uma estatística oficial de quantos sentem dificuldade de sair de casa e retomar a rotina, o psiquiatra Rodolfo Furlan Damiano, que não lida diretamente com Rafael, admite que “essas narrativas aparecem no dia a dia do consultório”. “São casos muito individuais, ligados a um aumento da prevalência de transtornos mentais ao longo dos últimos anos”, contextualiza o médico, que faz doutorado no Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina da USP. Damiano explica que, nos primeiros meses da pandemia, houve até uma diminuição de quadros como ansiedade e depressão: “Quando a gente está diante de um grande problema coletivo, a tendência inicial é esquecermos das demais dificuldades da vida e focarmos só naquilo. Isso de certa maneira agrega e gera uma sensação de pertencimento. Só que, conforme a pandemia vai passando, acontece outro fenômeno. Nós resgatamos as dificuldades anteriores, que ficaram dormentes, e adicionamos todos os dilemas extras relacionados àquele momento. Algumas pessoas podem enfrentar uma dificuldade de se adaptar novamente e desenvolvem quadros como ansiedade, depressão ou fobias”.

O professor Paul Crawford, do Instituto de Saúde Mental da Universidade de Nottingham, no Reino Unido, que também não tem nenhum contato com Rafael, concorda que o confinamento prolongado e o isolamento social têm diversos efeitos deletérios. Ainda em 2020, ele escreveu um livro chamado Cabin Fever: Surviving Lockdown in the Coronavirus Pandemic (Febre da Cabine: Sobrevivendo ao Lockdown na Pandemia de Coronavírus, em tradução livre), em que explorou esse tópico em detalhes. Na obra, ele descreve os momentos que vivemos nos últimos dois anos e meio como “o maior confinamento da história”.

Sobre o alívio das restrições e o retorno às ruas, Crawford compreende a dificuldade que alguns podem sentir. “Muitos permanecerão tensos com a possibilidade de ter contato com o vírus, seja por alguma vulnerabilidade de saúde ou pela morte traumática de conhecidos, amigos ou familiares”, descreve. “Outros, por sua vez, transformaram o lar num santuário tão confortável e duradouro que, talvez, prefiram continuar a viver ali dentro”. O pesquisador acredita que a “ainda não está estabelecida uma linha clara de quando um comportamento desses, baseado num lockdown voluntário, é compreensível ou patológico”. “O que a pandemia e ‘o maior confinamento da história’ fizeram foi intensificar e tornar mais palpáveis as maneiras pelas quais o isolamento social pode levar ao declínio mental e à calamidade, e como o sofrimento e os desafios mentais geralmente levam as pessoas a se isolarem ou a se esconderem socialmente”, conclui o especialista.

Para Rodolfo Damiano, que faz doutorado na Faculdade de Medicina da USP, diante de uma dificuldade de retomar a rotina, o limiar entre saúde e doença é definido pela perda de liberdade. “Quando a pessoa não consegue mais tomar as próprias decisões e o contexto em que ela vive é fonte de sofrimento e aflição, chegou a hora de buscar um profissional de saúde”, indica. A consulta com o psiquiatra e com o psicólogo é essencial para diagnosticar o transtorno, investigar as origens do problema e, claro, iniciar o tratamento mais efetivo. Em alguns casos, a psicoterapia dá conta do recado. O método envolve sessões estruturadas de conversas com um especialista, que vai analisar os comportamentos, as emoções e os pensamentos para modificar aquilo que foge do ideal. Em outros, a medicação também é primordial para complementar esse processo e estabilizar o quadro.

Damiano reforça que, assim como acontece com qualquer outra doença, os transtornos mentais precisam ser tratados com respeito — ter depressão ou ansiedade não é “só coisa da cabeça” ou “algo que passa com força de vontade”, como alguns insistem em dizer de forma absolutamente equivocada. “São problemas que qualquer um pode ter, e é importante que as pessoas busquem ajuda quando sentirem necessidade”, pontua. Entre medos e adaptações, Rafael segue tocando a vida, com a esperança de um dia voltar a sentir o sol. “Eu não sou louco. Não rasgo dinheiro. Não faço mal às pessoas. Sei conversar direito”, afirma. “Mas minha situação sempre me faz pensar nas outras pessoas que podem estar numa situação parecida, ou nos portadores de ansiedade, bipolaridade ou esquizofrenia, que podem não ter apoio de ninguém”, finaliza.

*O sobrenome de Rafael foi ocultado para preservar a sua identidade.

Não compre pacotes ideológicos!

O que comumente se chama de esquerda e direita hoje no Brasil são ideologias político-partidárias que pretendem implementar na sociedade, cada uma a seu modo, uma agenda moral e uma agenda econômica. A agenda moral da esquerda é frequentemente chamada de “progressista” enquanto a agenda moral da direita é frequentemente chamada de “conservadora”. Paralelo a isso, a agenda econômica da esquerda é frequentemente chamada de “socialista” ou “comunista”, ao passo que a agenda econômica da direita é frequentemente chamada de “liberal” ou “capitalista”. Eis um resumo muito breve e superficial do que geralmente se considera como pautas presentes em cada uma dessas “agendas”:

ESQUERDA:

Agenda econômica socialista: Sociedade igualitária e coletivista, combate à desigualdade e injustiça social, distribuição de renda, taxação de heranças e grandes fortunas, reforma agrária, ambientalismo, assistencialismo, sindicalismo, luta de classes, revolução socialista, ditadura do proletariado, comunismo etc.

Agenda moral progressista: Defesa de minorias identitárias e grupos sociais vulneráveis, linguagem politicamente correta, feminismo, movimento LGBTQIAPN+, movimento negro, cotas raciais e de gênero, teoria de gênero, gênero neutro, legalização do aborto, legalização das drogas, desarmamentismo, pacifismo, defesa dos direitos humanos, combate à opressão e truculência policial, “bandido pobre não teve oportunidade” etc.

DIREITA:

Agenda econômica liberal: Liberdade individual, livre mercado, liberalismo econômico, iniciativa privada, meritocracia, privatizações, capitalismo (ou anarcocapitalismo), Estado mínimo, redução e simplificação dos impostos, “imposto é roubo”, “o Estado é ineficiente”, ruralismo, agronegócio etc.

Agenda moral conservadora: Sociedade conservadora na moral e nos costumes, manutenção da ordem social, defesa de valores tradicionais (família, religião, propriedade privada), patriotismo, nacionalismo, militarismo, armamentismo, fortalecimento da polícia, “bandido bom é bandido morto”, repressão às drogas, proibição do aborto, heteronormatividade etc.

Polarização, “guerra cultural” e por que isso é ruim

A ideia amplamente difundida de que há uma “guerra cultural” em curso leva as pessoas a escolherem um lado entre apenas dois possíveis e se entrincheirarem neles, comprando, na íntegra, pacotes ideológicos que são, em geral, artificiais e arbitrários. Esse fenômeno é o que chamamos de “polarização”, que concentra as pessoas nos extremos do espectro ideológico e as fazem parecer fanáticos de torcidas organizadas. Te dizem que você está de um lado ou do outro, o que é absolutamente falso. Pior do que isso: se você critica um dos lados em qualquer ponto, você é automaticamente rotulado como parte do lado oposto.

Durante o mestrado na Unicamp – para citar um exemplo –, um amigo cristão, estudante de ciências sociais, queria participar das reuniões de um coletivo que lutava contra a desigualdade social. Ao se envolver com o pessoal, ele disse: “Acho muito importante as propostas e quero me envolver mais a fundo; só discordo de uma pauta: a legalização do aborto”. Na mesma hora disseram que ele não poderia participar: “Ou você está conosco (em todos os pontos, de maneira acrítica), ou está contra nós”. Os movimentos políticos em geral precisam de adeptos prontos a obedecer, não a questionar. Só é permitido questionar os outros, nunca o nosso próprio grupo. Isso vale para a esquerda e para a direita. Somos “nós” contra “eles”; e “nós” temos sempre uma patrulha de cancelamento e uma cartilha sobre tudo – “aquela velha opinião formada sobre tudo”, da qual falava Raul.

Mas é perfeitamente possível alguém querer combater a desigualdade social e ser contra a legalização do aborto, como é o caso desse amigo; ou defender ao mesmo tempo algumas privatizações e a legalização da maconha; a reforma agrária e a meritocracia; defender o livre mercado e a taxação de heranças e grandes fortunas; ser ambientalista e querer redução de impostos; ser patriota e também feminista; ser gay e conservador; religioso e progressista. O meu ponto é que cada pauta precisa ser discutida caso a caso. Ninguém precisa aceitar um pacote pronto. E nenhuma pauta é exclusiva de um grupo. Não compre pacotes ideológicos!

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Glossário político: o que significa ser bolsonarista, petista, conservador, comunista ou liberal?

O “glossário político” é uma série de vídeos da BBC News Brasil que explica de maneira fácil e didática o significado dos rótulos mais repetidos atualmente no debate político brasileiro.