Discurso de posse de Jorge Amado na Academia Brasileira de Letras

Rio de Janeiro, 17 de julho de 1961.

Sr. Presidente, Senhores Acadêmicos,

Chego à vossa ilustre companhia com a tranquila satisfação de ter sido intransigente adversário dessa instituição, naquela fase da vida em que devemos ser, necessária e obrigatoriamente, contra o assentado e o definitivo, quando a nossa ânsia de construir encontra sua melhor aplicação na tentativa de liquidar, sem dó nem piedade, o que as gerações anteriores conceberam e construíram. Ai daquele jovem, ai daquele moço aprendiz de escritor, que no início do seu caminho, não venha quixotesco e sincero, arremeter contra as paredes e a glória desta Casa. Não seria ele digno de sua maravilhosa condição se, em lugar de bandeiras de guerra e violentas armas de combate aparecesse ante a Academia dobrando em curvaturas e sorrisos, em aplausos e elogios, e alma vestida com o fardão acadêmico. Ah, não seria um jovem, não estaria cumprindo com as inapeláveis obrigações de seu tempo interior, com as exigências da sua mocidade. Faltar-lhe-ia o sumo da agressividade, do não-conformismo, da necessidade de romper com o passado para caminhar na rota do futuro. Seria insosso como essas frutas colhidas ainda verdes e à força amadurecidas para o mercado.

Triste espetáculo, a meu ver, o de certos moços na flor de uma idade onde a rebeldia é a marca e a essência fundamentais, e que, abandonando seus deveres para com o entusiasmo e a imprudência cobrirem-se com o manto da aceitação passiva. Fecham-se num conservadorismo medroso e afivelam os rostos numa emprestada e falsa madureza. Pobre daquele jovem que assim agir: jamais chegará realmente a amadurecer, não guardará o fruto de sua obra o sumarento sabor da juventude, suas ânsias, suas revoltas, sua necessidade de destruir para firmar-se, não é traindo essa urgência e fome de viver, esse ardente e violento impulso, que o escritor levanta, na experiência viva, sua medida de homem, aprendendo aos poucos, numa longa marcha, a estimar e a compreender, amadurecendo em riqueza espiritual.

Quanto a mim, felizmente, muita pedra atirei contra vossas vidraças, muito objetivo grosso gastei contra vossa indiferença, muitas vezes gritei contra vossa compostura, muito combate travei contra vossas forças. Minha geração surgida na onda de um movimento armado e popular tinha sua palavra a dizer, feita de realidade áspera e de densa esperança. Chegávamos com o coração pesado de penas e dores ante a visão de nosso povo despojado de suas riquezas, pasto de apetites estrangeiros, humilhado em suas grandezas. Devíamos assim romper com todos os muros e impelir o eco da nossa palavra, nosso duro protesto. Tomamos de nossas armas ainda imperfeitas e partimos contra tudo quanto nos parecia representação daquele passado, inclusive a Academia Brasileira. Só o tempo e a vida podem ensinar ser a Academia em sua continuidade conjugação de passado, presente e futuro. Se um jovem, ao iniciar-se na vida e na literatura, disser compreender e aceitar tal verdade será quase certamente um oportunista, um carreirista, um pobre diabo.

Como igualmente triste é o espetáculo do homem maduro a afivelar a máscara da eterna juventude, a exibir-se em praça pública em atitudes perfeitas aos vinte anos e ridículas aos quarenta. Ai dele porque não soube amadurecer interiormente, e não saberá envelhecer sua pose de jovem e melancólica, desoladora caricatura – como aquelas frutas que não seguem seu ciclo e de verdes passam a pecas e nada existe de mais inútil que um fruto peco. Triste é o espetáculo do acadêmico de vinte anos, triste é o espetáculo do antiacadêmico de quarenta anos.

Procuro num milagre de imaginação, reviver no dia de hoje o adolescente magro, membro da Academia dos Rebeldes, na Bahia, nos anos de 1928 a 1930. Pequeno aprendiz de escritor em cerrada fita com outros de sua idade e condição, levantava-me em imprecações contra a Academia Brasileira e toda a literatura de então, disposto a arrasar quanto existia, convencido de que a literatura começava com a minha incipiente geração, nada devendo-se fizera antes do nosso aparecimento, nenhuma beleza fora criada,  nenhum resultado obtido. Que diria o jovem de dezesseis anos, assombrado ante a vida e o mundo, solto ao mistério da Bahia, ao ver o quase cinquentão de hoje, envergando fardão, espadim e colar acadêmico. Dentro de mim, senhores, neste coração que resiste a envelhecer, ouço o riso moleque do rebelde em busca de caminho. Rio-me com ele, não há entre nós oposição, não existem divergências fundamentais entre o menino de ontem e o homem de hoje, apenas um tempo intensamente vivido. São muitos homens em diversas idades a encontrarem-se nessa tribuna somados num homem maduro, mas ainda de experiência e vida vivida que de idade. Posso assim rir um riso bom com aquele velho companheiro, o adolescente que eu fui nas ruas e ladeiras da Bahia plenamente jovem e plenamente rebelde.

Aproveito este momento para falar-vos do perigo a pesar sobre esta Academia e vossa glória pelos idos de 1929. Perigo grave e sério não sei se esta instituição chegou a se dar conta de como esteve de morte ameaçada. Porque naquele ano num primeiro andar do Largo do Terreiro de Jesus, na cidade de Salvador, alguns jovens se reuniram e fundavam a Academia dos Rebeldes. Alguns desses moços são hoje nomes conhecidos e admirados: o poeta Sosígenes Costa, o contista Dias da Costa, mestre Edison Carneiro. Outros não puderam completar sua cara vocação de escritor, levados uns pela morte, como o romancista João Cordeiro, outros pela vida, como o poeta Alves Ribeiro.

Acolhera rebelde Academia num gesto talvez impensado, uma sala destinada a sessões espíritas, atmosfera mística e misteriosa, com um retrato de Alan Kardec e um obsessionante desenho de almas transmigradas a impressionar nossas desabrochadas imaginações. Nosso programa era simples, efetivo e imenso: arrasar definitiva e completamente o já existente e construir o monumento de nossa literatura. Meta primeira substituir a Academia Brasileira por nossa Academia de Rebeldes. Saímos de nossa primeira reunião eufóricos e convencidos: seria assunto de pouco tempo o fim da Academia inimiga e a pujança de literatura que transpirava por todos os poros.

Ainda hoje tenho minhas dúvidas e aqui as confesso: se não houvéssemos sido expulsos da sala do centro espírita, como teriam evoluído os acontecimentos? Nossa decisão era definitiva e inapelável, vossa sentença de morte fora ditada e confirmada. Fostes salvos pelos espíritos. Nos distantes círculos do universo onde vagavam, tomaram partido naquela batalha já de si desigual uns poucos estudantes sem eira nem beira contra os quarenta imortais. (…) Passou a Academia a funcionar no Café Bahia, no Bar das Meninas, em lugares suspeitos, nas madrugadas boêmias, e assim foi se dissolvendo com a idade e a literatura. É evidente que não podíamos lutar com êxito ao mesmo tempo contra vossa imortalidade e contra e a imensa legião dos espíritos. (…).

Senhores Acadêmicos: chego à vossa ilustre companhia sem ódios e sem rancores. A vida foi generosa para comigo, deu-me mais do que lhe pedi e mereci. Pobre de bens materiais, sou rico de muitas outras coisas, muitos bens possuo em meu surrão – nem sei como tanto pude merecer da vida. Esposa e filhos, que são alegria diária e incentivo maior para o trabalho, pais de toda dedicação, irmãos perfeitos na amizade. (…).

Tenho a alegria de ter conservado jovem o coração, por não ter rompido jamais a unidade entre minha vida e minha obra, e por ter a certeza de que jamais a romperei. E quando aqui chego, chegam a esta Casa, a esta tribuna, vestindo este fardão, pessoas simples do povo, aqueles meus personagens, pois é por suas mãos que aqui ingresso. Vêm mestres de saveiros e pescadores. Mestre Manuel, Maria Clara, Lívia e Guma, e sua ansiosa espera da morte no mar; vêm negros e mulatos, pai-de-santo Jubiabá e o negro Balduíno, Rosenha Rosedá e o Gordo, vêm as crianças abandonadas, os capitães da areia, trabalhadores dos campos de cacau e rudes coronéis de repetição em punho; vêm o rei das gafieiras da Bahia, Quincas Berro D’água, a mulata Gabriela feita de cravo e de canela, e o comandante Vasco Moscoso de Aragão, que amava sonhar e comandava os ventos. Gente simples do povo, não sou mais de que ele, e se os criei, eles me criaram também e aqui me trouxeram. Porque eles são o meu povo e a vida que tenho vivido ardentemente. (…).

Penso, assim , poder afirmar que chego à vossa ilustre companhia pela mão do povo, pela fidelidade conservada aos seus problemas, pela lealdade com que procurei servi-lo tentando fazer de minha obra arma de sua batalha contra a opressão e pela liberdade, contra a miséria e subdesenvolvimento e pelo progresso e pela fartura, contra a tristeza e o pessimismo, pela alegria e confiança no futuro. Segundo a lição da literatura baiana, fiz de minha vida e de minha obra uma coisa única, unidade do homem e do escritor, aprendida na estrela maior do céu baiano, o poeta Castro Alves, estrela matutina da liberdade, estrela vespertina dos ais de amor.

E chego para ocupar, pleno de humildade, uma cadeira cujo fundador foi Machado de Assis, alicerce e fundamento desta Casa e cujo patrono, por ele escolhido, é José de Alencar, viga mestra de nossa literatura. José de Alencar e Machado de Assis, o próprio romance brasileiro, o conjunto das qualidades de nossa prosa de criação. (…).

Fonte: ABL

PS: Publiquei aqui excertos do discurso original, que é bem maior. Aos interessados, leia o discurso completo aqui.

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