Brasileira de 9 anos entra para grupo das pessoas mais inteligentes do mundo

Reportagem do jornal Correio Braziliense.

Com apenas 9 anos, a catarinense Laura Büchele passou a fazer parte da mais antiga e respeitada Sociedade de Pessoas com Alta Inteligência do Mundo (Mensa). Para fazer parte do grupo, é necessário apresentar um Quociente de Inteligência (QI) acima de 130 e percentual superior a 99%. O de Laura é equivalente a 99,5%. Aos 7 anos, após fazer um primeiro teste de QI, o resultado chamou a atenção: a menina apresentou uma pontuação de 139.

Bruna Büchele, mãe de Laura, conta que os sinais da inteligência da filha começaram a aparecer antes da menina completar um ano, quando ela começou a falar. “Ela falava com clareza o que queria e começou a colocar detalhes nas explicações”, lembra. Atualmente, Laura e a família moram na Flórida, nos EUA. A mudança foi há três anos, após a família decidir buscar melhores condições de vida no exterior. Laura começou a estudar inglês no jardim de infância. Ao chegar aos EUA, com 6 anos, apresentou excelentes resultados na escola. Em setembro deste ano, após recomendações de professores, a menina fez os testes para fazer parte do Mensa e, uma semana depois, a família recebeu a notícia da aprovação. “O teste da Laura foi agendado durante as férias e passamos mais de quatro horas na escola. Ela fez com um profissional qualificado e, após finalizado, um grupo de orientadores me convocou para explicar os resultados”, relata Bruna.

Laura nasceu em Itajaí, município de Santa Catarina, onde foi alfabetizada e estudou até o primeiro ano do ensino fundamental. Bruna conta que o desempenho escolar da filha sempre foi positivo, bem como a convivência com professores e amigos. “Eles (professores) tiveram, na minha opinião, um papel muito importante. A Laura sempre foi estimulada a aprender com brincadeiras, desafios e acolhimento. Tanto comigo, antes dos 2 anos, quanto na escola que ela frequentou até os 6 anos, no Brasil”, relata.

De acordo com ela, se a família tivesse ficado no Brasil, talvez Laura não teria suas aptidões notadas tão rapidamente. “Sei que no nosso país tem crianças que se destacam, mas, muitas vezes, não recebem orientação ou sequer são identificadas. Como a Laura, devem ter muitos outros por aí que, se fossem guiados, seriam pequenos gênios”, diz.

Embora Laura se destaque entre as outras crianças de sua idade, ela vive sua infância como qualquer outra, mesclando diversão com aprendizagem. A mãe diz que, após a escola, que vai das 8h às 15h, a única responsabilidade de Laura é almoçar, antes de sair para brincar. “É uma rotina tranquila tanto para nós quanto para ela, já que não precisamos ter que ficar dizendo o tempo todo o que ela deve fazer”, conta.

Com relação aos estudos, a mãe conta que Laura não é de ficar horas estudando, já que a menina tem ótima memória fotográfica e guarda até as informações mais complexas. Bruna diz que já tentou revisar os conteúdos das aulas, mas não dava muito certo, pois, passado um tempo, Laura ficava entediada. Segundo a mãe, ela aprende com facilidade os assuntos pelos quais se interessa, ou os que ainda não conhece. Se é algo que ela já viu ou aprendeu, Laura fica dispersa e não vai querer ouvir novamente a mesma coisa. Para o futuro, Bruna adianta que Laura ainda não tem planos concretos, mas acredita que a filha seguirá caminhos na ciência ou na matemática.

As 7 maravilhas do mundo antigo

Matéria da BBC Brasil.

Elas são o ápice da engenharia, da arquitetura e da beleza artística da Antiguidade. Cada uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo pode ser considerada individualmente uma obra arquitetônica surpreendente ou um feito da imaginação e engenharia humanas. Juntas, formam um guia de viagem da Antiguidade que desafia as limitações do tempo e, literalmente, almeja os céus. Uma pirâmide, um mausoléu, um templo, duas estátuas, um farol e um jardim quase mítico. A maioria teve uma existência breve. A última a ser concluída, o Colosso de Rodes, se manteve de pé por menos de 60 anos. E os Jardins Suspensos da Babilônia possivelmente nunca existiram. Atualmente, apenas uma resiste praticamente intacta: a Grande Pirâmide de Gizé. Mas as Sete Maravilhas do Mundo Antigo continuam a povoar nossa imaginação. E sua importância segue até hoje: foram elas que estabeleceram as bases para o que o homem poderia alcançar.

Mas, apesar da fama, há muitas perguntas que rondam essas obras clássicas. Quem decidiu, por exemplo, o que constitui uma “maravilha”? Quando os viajantes gregos exploravam outras civilizações, como os egípcios, persas e babilônios, eles compilavam guias com as atrações mais notáveis para se ver, que pretendiam servir de recomendação a futuros turistas, razão pela qual as Sete Maravilhas se encontram por toda a costa do Mediterrâneo. Os gregos as chamavam de theamata, ou seja, “vistas”, que logo evoluiu para algo mais grandioso: thaumata, que significa “maravilhas”.

As Sete Maravilhas que conhecemos hoje são um amálgama de todas as diferentes listas existentes de obras grandiosas na Antiguidade. As versões mais conhecidas são do poeta Antípatro de Sidon, do século 2 a.C., e do matemático Filão de Bizâncio, mas outros nomes incluem Calímaco de Cirene e o grande historiador Heródoto. O que entrava na lista de cada um era baseado nos lugares para os quais haviam viajado e, claro, na sua opinião pessoal. Portanto, embora reconheçamos hoje o Farol de Alexandria como uma “maravilha”, há quem o tenha deixado de fora na época e preferido incluir o Portão de Ishtar da Babilônia. Mas por que há apenas sete? Apesar de haver uma infinidade de estruturas e estátuas no Mundo Antigo dignas de serem incluídas, os gregos escolheram este número por acreditar que tinha um significado espiritual e representava a perfeição, talvez por ser a soma dos cinco planetas conhecidos na época, mais o Sol e a Lua.


1. Grande Pirâmide de Gizé

All Giza Pyramids

Se você pedir a um grupo de pessoas para listar as 7 Maravilhas do Mundo Antigo, é bem provável que a maioria não lembre quais são, mas cite primeiro a Grande Pirâmide de Gizé. A razão é simples: enquanto as outras seis desapareceram séculos atrás, a pirâmide segue de pé no norte do Egito. Construída por volta de 2.500 a.C. como tumba do faraó Quéops da quarta dinastia, é a maior das três pirâmides de Gizé. A altura original de 146,5 metros fez dela a estrutura mais alta do mundo construída pelo homem até o século 14, quando a Catedral de Lincoln foi erguida na Inglaterra. Com o passar dos anos, a camada externa de calcário sofreu erosão, reduzindo-a em quase oito metros de altura. Mas a pirâmide continua sendo um dos pontos turísticos mais extraordinários do planeta. Estimativas sugerem que demorou cerca de 14 anos para transportar e colocar no lugar os 2,3 milhões de blocos de pedra. Como as pirâmides foram construídas há 4 mil anos e como os egípcios conseguiram alinhá-las com os pontos cardeais permanece uma questão em aberto.


2. Mausoléu de Halicarnasso

Mausoleum_at_Halicarnassus_by_Ferdinand_Knab_(1886)

Ao longo da vida, o poderoso governante Mausolo construiu uma nova e magnífica capital para ele e sua esposa Artemísia em Halicarnasso (na costa oeste da atual Turquia), sem poupar gastos para enchê-la de belas estátuas e templos de mármore. Não havia dúvida de que ele, sendo o sátrapa (governador) do Império Persa e governante de Caria, desfrutaria de luxo semelhante após sua morte em 353 a.C. Artemísia (também irmã de Mausolo) teria ficado tão triste com a morte do marido que misturou as cinzas dele com água e bebeu, antes de supervisionar a construção de seu túmulo extravagante. Feita de mármore branco, a estrutura monumental ficava em uma colina com vista para a capital que ele havia construído. Projetada pelos arquitetos gregos Satyros e Pythius, ela tinha três níveis, combinando os estilos arquitetônicos lício, grego e egípcio. O nível mais baixo tinha cerca de 20 metros de altura, formando uma base de degraus que conduzia ao segundo nível, rodeado por 36 colunas. O teto tinha a forma de pirâmide, com a escultura de uma carruagem sendo puxada por quatro cavalos no topo, o que elevava a altura da tumba para cerca de 41 metros. Quatro dos artistas mais famosos da Grécia criaram esculturas para cercar o túmulo, cada um decorando um dos lados. É possível que a tumba tenha sido destruída por terremotos na época medieval, mas uma parte resistiu. O esplendor do túmulo de Mausolo era tanto que a palavra “mausoléu” deriva de seu nome.


3. Estátua de Zeus

Estátua de Zeus em Olímpia

Olímpia era um santuário na Grécia antiga, local dos primeiros Jogos Olímpicos e lar de uma das “maravilhas”. Que melhor maneira de homenagear o principal deus dos gregos do que construir uma estátua gigante dele? Foi o que fez o escultor Fídias ao erguer sua obra-prima no Templo de Zeus em Olímpia, por volta de 435 a.C. Era Zeus resplandecente sentado em um trono feito de madeira de cedro e decorado com ouro, marfim, ébano e pedras preciosas. O deus do trovão segurava uma estátua de Nike, a deusa da vitória, em sua mão direita, e um cetro com uma águia na ponta na outra. Com seus quase 12 metros de altura, a estátua era tão grande que mal cabia dentro do templo. Um dos sacerdotes encarregados de passar óleo regularmente na escultura para protegê-la do calor e da umidade observou certa vez: “Parece que se Zeus se levantar, vai destelhar o templo”. Durante oito séculos, as pessoas viajavam para Olímpia apenas para ver a estátua. Embora tenha sobrevivido ao imperador romano Calígula, que queria levá-la para Roma para substituir o rosto da mesma por sua própria imagem, a estátua de Zeus acabou se perdendo. Pode ter sido na destruição do templo em 426 d.C., ou talvez tenha sido consumida pelo fogo depois de ser transportada para Constantinopla.


4. Jardins Suspensos da Babilônia

Jardins Suspensos da Babilônia

Apesar de haver descrições detalhadas em muitos textos antigos, tanto gregos quanto romanos, nenhuma outra maravilha é mais misteriosa do que os Jardins Suspensos da Babilônia. O problema é que todos os relatos são de terceiros, e ainda não há evidências conclusivas de que tenha existido. Caso seja real, apresentava um nível de engenharia muito à frente de seu tempo, uma vez que manter um jardim exuberante e vivo no deserto do que hoje é o Iraque teria sido uma grande façanha. Uma teoria é que o rei babilônico Nabucodonosor II mandou criar os Jardins Suspensos em 600 a.C. para confortar sua nostálgica esposa, que sentia falta da vegetação de sua terra natal. É possível que tenha havido uma série ascendente de jardins em telhados, com alguns terraços atingindo supostamente uma altura de 23 metros. Isso dava a impressão de ser uma montanha de flores, plantas e ervas que cresciam no coração da Babilônia. A vegetação exótica seria irrigada por meio de um sofisticado sistema de bombas e tubulações que trazia água do Rio Eufrates. O escritor e engenheiro grego Filão de Bizâncio descreveu o processo de irrigação dos jardins dizendo que “os aquedutos contêm água que corre de lugares mais altos, permitindo que parte do fluxo desça encosta abaixo, enquanto força outra parte para cima, correndo para trás, por meio de um parafuso”. “Exuberante e digna de um rei é a engenhosidade e, acima de tudo, a força, porque o trabalho árduo do cultivador paira sobre a cabeça dos espectadores”, acrescenta. Supõe-se ainda que os jardins suspensos existiram, mas não na Babilônia. Stephanie Dalley, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, afirma que os jardins e o sistema de irrigação foram uma ideia do rei assírio Senaqueribe para seu palácio em Nínive, 480 quilômetros ao norte.


5. Farol de Alexandria

Farol de Alexandria

Navegar até o porto de Alexandria era complicado, devido às águas rasas e às rochas. Era imperativo encontrar uma solução para o próspero porto mediterrâneo na costa do Egito, fundado por Alexandre em 331 a.C., e a solução chegou na forma de uma imponente torre de sinalização luminosa construída na ilha vizinha de Pharos (daí o nome farol). No reinado de Ptolomeu II, o arquiteto grego Sóstrato de Cnido foi contratado para construir o farol e levou mais de uma década para terminar. Acredita-se que o farol tinha pouco menos de 140 metros de altura, o que o torna a segunda maior estrutura feita pelo homem na Antiguidade, depois da Grande Pirâmide de Gizé. A torre era composta por uma base quadrada, uma seção intermediária octogonal e uma parte superior cilíndrica, todas conectadas por uma rampa em espiral para que uma fogueira pudesse ser acesa no topo, supostamente visível a 48 quilômetros de distância. “A torre parece partir o céu durante a noite, um marinheiro sobre as ondas verá uma grande fogueira queimando no seu topo”, relata o poeta grego Posidipo. Seu design se tornou modelo para todos os faróis que foram construídos desde então. Como algumas das outras “maravilhas”, o Farol de Alexandria foi vítima de terremotos. Conseguiu sobreviver a vários abalos, mas não sem sofrer grandes danos, que o levaram a ser abandonado. As ruínas desabaram definitivamente no século 15. No entanto, aquele não foi o último vestígio do farol, uma vez que arqueólogos franceses descobriram pedras enormes nas águas ao redor da Ilha de Pharos em 1994, que alegaram fazer parte da antiga estrutura. Em 2015, as autoridades egípcias anunciaram sua intenção de reconstruir a “maravilha”.


6. Templo de Ártemis

Templo de Ártemis

Você pode ter sua opinião sobre qual das “maravilhas” era mais grandiosa, mas poucos tiveram mais certeza do que Antípatro de Sídon. “Pus os olhos nas elevadas muralhas da Babilônia, em que há uma estrada para carruagens, e a estátua de Zeus junto a Alfeu, e os Jardins Suspensos, e o Colosso do Sol, e o trabalho árduo das altas pirâmides e a vasta tumba de Mausolo, mas quando vi a casa de Ártemis que subia às nuvens, aquelas outras maravilhas perderam o brilho, e eu disse: ‘Fora o Olimpo, o Sol nunca viu algo tão grandioso”, disse ele em tributo ao Templo de Ártemis. O templo teve uma existência conturbada e violenta, tanto que houve vários templos, construídos um após o outro em Éfeso, atual Turquia. A “maravilha” foi destruída repetidas vezes: por uma inundação no século 7 a.C., por um incendiário chamado Herostratus, que queria alcançar a fama a qualquer custo em 356 a.C., e por uma invasão dos godos no século 3. A destruição final ocorreu em 401 d.C., e restou muito pouco da sua estrutura. Há alguns fragmentos no Museu Britânico, em Londres. Em sua forma mais impressionante, a versão que inspirou o relato de Antípatro, o templo de mármore branco tinha uma área de 6 mil metros quadrados, e todo o seu comprimento era adornado com esculturas, estátuas e 127 colunas. Em seu interior, havia uma estátua da deusa Ártemis, um santuário para muitos visitantes de Éfeso, que deixavam oferendas aos seus pés.


7. Colosso de Rodes

Colosso de Rodes

Erguido em 282 a.C., o Colosso de Rodes foi a última das Sete Maravilhas do Mundo Antigo a ser construída e uma das primeiras a ser destruída. Permaneceu de pé menos de 60 anos, mas isso não o impediu de ser considerado uma das “maravilhas”. A imponente estátua do deus sol, Hélio, foi construída durante 12 anos pelo escultor Cares de Lindos para celebrar um triunfo militar após um cerco de um ano. Reza a lenda que o povo de Rodes vendeu os pertences deixados para trás pelo inimigo derrotado para ajudar a pagar pelo Colosso, derreteu as armas abandonadas para aproveitar o bronze e o ferro na construção, e usou uma torre de cerco como andaime. Voltado para o porto, a estátua de Hélio tinha cerca de 32 metros de altura e possivelmente segurava uma tocha ou lança. Em algumas representações, ele aparece com as perna abertas na entrada do porto, permitindo que os navios navegassem entre suas pernas, mas isso teria sido impossível com as técnicas da época. O Colosso não foi forte o suficiente para resistir a um terremoto em 226 a.C., e a estátua foi destruída. Os cidadãos de Rodes não quiseram reconstruí-la, uma vez que um oráculo teria dito a eles que haviam ofendido Hélio. Assim, os pedaços gigantes do que havia sido uma escultura colossal permaneceram no chão onde haviam caído por mais de 800 anos, atraindo visitantes. O historiador Plínio, o Velho, escreveu: “Mesmo deitada, desperta nosso espanto e admiração. Poucos conseguem segurar o polegar com os braços, e seus dedos são maiores do que a maioria das estátuas”. Quando as forças inimigas finalmente venderam os restos do Colosso no século 7, foram necessários 900 camelos para carregar todos os fragmentos.


BÔNUS: As 7 maravilhas do mundo moderno:

Grande Muralha, China

Taj Mahal, Índia

Cristo Redentor, Brasil

Coliseu Romano, Itália

Machu Picchu, Peru

Chichén Itzá, México

Petra, Jordânia


30 frases pichadas em Pompeia mostram quão pouco mudamos em 2 mil anos

Se você pensava que foram os adolescentes modernos que inventaram as pichações, os grafites e as inscrições inadequadas nos banheiros públicos, acho melhor rever seus conceitos. Em descobertas recentes, arqueólogos têm documentado grafites e pichações em latim nas paredes das antigas cidades romanas. Boa parte dessas inscrições urbanas se encontram mais bem conservadas na antiga cidade de Pompeia, na atual Itália, que foi soterrada pela erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d.C. Infelizmente, mais de 90% das pichações de Pompeia foram perdidas. Mas graças ao trabalho de arqueólogos e tradutores de latim, temos uma lista de pichações engraçadas, apaixonadas, safadinhas e algumas até mesmo bem reflexivas que datam de cerca de 2 mil anos atrás. Segue abaixo umas lista de 30 frases compiladas pelo portal Bored Panda a partir do livro Pompeiana: The Topography, Edifices and Ornaments of Pompeii, the Result of Excavations Since 1819, lançado em 2018 e vendido pela Amazon aqui.

Vibius Restitutus dormiu aqui sozinho e sentiu falta de sua querida Urbana.

Se alguém não acredita em Vênus, deve olhar para a minha namorada.

Eu não venderia meu marido nem por todo o ouro do mundo!

Os amantes são como as abelhas, pois vivem uma vida doce.

Cruel Lalagus, por que você não me ama?

Nós dois homens queridos, amigos para sempre, estávamos aqui.
Se você quer saber nossos nomes, eles são Gaius e Aulus.

Chorem, garotas. Meu pênis desistiu de vocês.
Agora ele penetra atrás dos homens.
Adeus, maravilhosa feminilidade!

Theophilus, não chupe as meninas contra as paredes da cidade como um cachorro!

Celadus, o gladiador trácio, faz as delícias de todas as meninas.

Eu transei com muitas garotas aqui.

Eu tenho sodomizado homens.

Para aquele que caga aqui: cuidado com a maldição.
Se você desprezar esta maldição, pode ter Júpiter furioso como inimigo.

Chie, espero que suas hemorróidas se esfreguem tanto que doam mais do que antes!

Apolinário, o médico do imperador Tito, cagou bem aqui.

Secundus cagou aqui três vezes em uma parede.

Cagão, que tudo dê certo para que você possa sair daqui.

Amplicatus, eu sei que Ícaro está te chateando. Salvius escreveu isso.

Virgula para o amigo Tertius: você é nojento!

Samius para Cornelius: vá se enforcar!

Stronius Stronnius não sabe nada!

Epafra não é bom em jogos de bola.

Phileros é um eunuco!

Epafra, você é careca!

Aufidius esteve aqui. Tchau.

Em 19 de abril, fiz pão.

O homem com quem estou jantando é um bárbaro.

Quem quiser servir-se, pode beber um copo do mar.

Um pequeno problema fica maior se você o ignorar.

Uma panela de cobre desapareceu da minha loja. Quem devolver para mim receberá 65 moedas de bronze. Mais 20 serão dadas para informações que levem à captura do ladrão.

Ó paredes, vocês seguraram tantas pichações tediosas que estou pasmo
de que ainda não tenham desabado em ruínas!

Mais de 100 sarcófagos de 2.500 anos encontrados no Egito revelam múmias

Veja também: Descoberta da tumba de Tutancâmon no Egito

O governo do Egito anunciou em novembro a descoberta de mais de 100 sarcófagos de madeira que guardavam múmias bem preservadas de até 2,5 mil anos – além de dezenas de estátuas e máscaras funerárias, amuletos e um conjunto de hieróglifos que ajudam na identificação das múmias. A descoberta foi feita próxima à pirâmide de Djoser, no sítio arqueológico de Saqqara, 30 km ao sul da capital Cairo, patrimônio mundial da UNESCO que no passado funcionou como necrópole da antiga cidade de Mênfis. Essa foi a maior descoberta arqueológica do ano. As últimas descobertas serão exibidas no GEM (Grande Museu Egípcio), que será inaugurado em 2021 no Cairo.

Em entrevista à revista Egypt Today, o egiptólogo Zahi Hawass explicou que os sarcófagos foram achados em tumbas verticais com mais de 12 metros de profundidade e provam que a necrópole foi local de descanso final para os faraós e sacerdotes da 26ª dinastia do Egito, que governou durante a chamada época baixa ou período tardio (664 a 332 a.C.). O ministro do Turismo e Antiguidades do Egito, Khaled el-Enany, anunciou que os caixões estão “em perfeitas condições de preservação”, conforme divulgou o The New York Times. “Saqqara ainda não revelou todo o seu tesouro – e é um tesouro enorme. As escavações estão em curso e, cada vez que descobrimos o vão de uma tumba, encontramos também outra e outra e outra”, destacou o ministro egípcio.

Para o arqueólogo brasileiro José Roberto Pelline, professor de arqueologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenador do projeto arqueológico brasileiro no Egito, a conquista merece destaque, pois é estritamente nacional. Por anos, o Egito foi desbravado por equipes estrangeiras, sobretudo da França e do Reino Unido. Porém, nas últimas décadas o governo egípcio aumentou o incentivo da produção científica nacional. “Para mim, o ponto alto da descoberta é que ela é liderada por cientistas egípcios. Pouco a pouco a arqueologia egípcia está se descolando dos estrangeiros”, diz. “Além disso, o governo investiu em publicidade para exaltar as descobertas, o que também aumenta o turismo no país”, aponta o professor.

Segundo Antonio Brancaglion, professor de arqueologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tudo que cerca o Egito no que diz respeito ao passado é repleto de mística, desde a concepção das pirâmides até a vida dos faraós, mas pouco se sabe sobre suas riquezas. “Temos pouco mais de 200 anos de ciência e descobertas arqueológicas. Enquanto isso, há mais de dois mil anos de mistérios para estudarmos. Saqqara marcou o início da arqueologia cientifica no século 19, foi onde criaram a primeira pirâmide do Egito, portanto, simboliza muito para a ciência”, conta.



Dama do gelo, a múmia siberiana de 2.500 anos encontrada com tatuagens e maconha

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O homem do gelo mumificado nos Alpes há 5.300 anos

Descoberta da tumba de Tutancâmon no Egito

Uma das múmias antigas mais intrigantes já descobertas e estudadas pelos arqueólogos é a que ficou conhecida como dama do gelo ou princesa siberiana, encontrada em 1993 por um grupo de pesquisa do Instituto de Arqueologia e Etnografia Russa em Novosibirsk. Ela foi encontrada numa tumba no planalto de Ukok, na Rússia, perto da fronteira com a China, onde hoje é a República Autônoma de Altai, uma região de ar severamente seco, o que ajudou a preservar a múmia em um ótimo estado de conservação. Em 2012, ela foi transferida para um mausoléu especial no Museu Nacional Republicano em Gorno-Altaysk, na Rússia. Embora o local em que a dama do gelo foi encontrada ainda possa preservar alguns artefatos históricos, o governo da Rússia proibiu novas escavações.

A dama do gelo viveu no século V a.C. e morreu por volta dos 25 anos de idade, muito provavelmente em decorrência de um câncer de mama, segundo um estudo de 2014. Entre os artefatos encontrados junto ao cadáver, havia um pote com maconha, o que levou os estudiosos a suporem que a droga teria sido usada para aliviar a dor crônica que a mulher teria sofrido. Ela foi uma representante da cultura Pazyryk, que prosperou entre os séculos VI e II a.C. nas estepes da Sibéria, e foi descrita pelo historiador grego Heródoto. Com base nos itens encontrados em sua câmara funerária, ela pode ter tido o status elevado de sacerdotisa em sua comunidade, ou era de uma linhagem nobre.

Em 2015, o suíço Marcel Nyffenegger recriou a face da mulher à partir do crânio, à pedido do Museu Histórico do Palatinado em Speyer, Alemanha. Foram usados materiais de taxidermia e plasticina, cobertos por silicone e uma resina de borracha, nos quais foram acrescentados sobrancelhas, cílios e 100 mil fios de cabelo.

Um dos aspectos mais curiosos da múmia são suas tatuagens extremamente bem preservadas, nas quais estão retratadas criaturas mitológicas. Entre os desenhos, há um cervo com o bico de um abutre, chifres decorados com cabeças de grifos e a boca de uma pantera. Segundo Natalia Polosmak, a cientista que descobriu a múmia, era comum naquela cultura que a primeira tatuagem fosse feita sempre no ombro. Ela afirma isso com segurança, já que todas as múmias encontradas naquela região com apenas uma tatuagem tinham o desenho justamente no ombro. Ela se diz surpresa pela pouca mudança que as tatuagens tiveram em dois milênios. Os mesmos padrões ainda são usados até hoje, tanto em relação ao tamanho, tipo de desenho e região do corpo.

O que se sabe sobre Ötzi, o homem do gelo mumificado nos Alpes há 5.300 anos

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Descoberta da tumba de Tutancâmon no Egito

A múmia siberiana de 2.500 anos encontrada com tatuagens e maconha

O cadáver mais estudado de todos os tempos se chama Ötzi, também conhecido como o “homem do gelo”, uma múmia masculina bem conservada com cerca de 5.300 anos que foi encontrada em 1991 por um casal de alpinistas alemães numa geleira a uma altitude de 3.210 metros perto do monte Similaun, nos Alpes, na fronteira da Áustria com a Itália. O mais impressionante é que, devido às baixíssimas temperaturas, Ötzi foi encontrado tão bem preservado que inicialmente pensaram se tratar de um montanhista morto recentemente.

O cadáver foi confiscado pelas autoridades austríacas e levado para autópsia na Universidade de Innsbruck, onde sua verdadeira idade foi finalmente estabelecida. Pesquisas posteriores revelaram que o corpo fora encontrado poucos metros além da fronteira, em território italiano. Por isso, ele hoje está exposto no Museu de Arqueologia do Alto Ádige, na província de Bolzano, na Itália. Ötzi rivaliza com a egípcia Ginger* pelo título de mais velha múmia humana conhecida, e oferece informação sem precedentes sobre a vida e os hábitos dos europeus na Idade do Cobre, por volta do ano 3.300 a.C.

Veja aqui imagens de Ötzi em alta resolução.

ROUPAS, ARMAS E UTENSÍLIOS

O corpo foi extensamente examinado, medido, radiografado e datado. Após análises detalhadas de equipes multidisciplinares compostas por médicos legistas, arqueólogos, paleontólogos, antropólogos e outros pesquisadores vindos de toda a Europa, estima-se que, no momento de sua morte, Ötzi tinha por volta de 30 a 50 anos de idade, media 165 centímetros de altura e pesava cerca de 50 quilos. Quando morreu, Ötzi estava vestindo três camadas de roupas bastante sofisticadas que eram produzidas pelo seu povo e o protegiam do frio. Estudos revelaram que seu casaco era feito de peles de ovelha e cabra. Os sapatos eram feitos de couro de urso pardo, e eram largos e impermeáveis, adaptados para andar na neve, com uma espécie de cadarço de pele de auroque (ancestral do boi atual). Tufos de grama macia envolviam o pé dentro do sapato, servindo de isolante térmico. Ele tinha também uma capa de pele de urso pardo forrada de fibra trançada da casca da tília, árvore típica do hemisfério norte. Outros artefatos encontrados junto a Ötzi foram um machado com lâmina de bronze e cabo de teixo, uma faca de sílex e cabo de freixo, uma aljava de pele de veados cheia de flechas e um arco longo de teixo.

ALIMENTAÇÃO

Sua última refeição parcialmente digerida sugere que ele comeu aproximadamente duas horas antes de seu terrível fim. Ele havia comido carne de bode das montanhas com alguns grãos e cereais, evidência de que seu povo criava rebanhos e dominava a agricultura. Essa refeição final forneceu uma festa de informação para os estudiosos. O estômago continha 30 tipos diferentes de pólen. A análise desse pólen mostra que Ötzi morreu na primavera ou no início do verão, e até permitiu que os pesquisadores rastreassem seus movimentos por diferentes elevações de montanhas, pouco antes de morrer. Ötzi tinha ainda vestígios de ervas e plantas medicinais em seu estômago, como uma espécie de samambaia tóxica, que poderia ter sido usada para matar os ovos de vermes parasitas encontrados em seus intestinos.

PROBLEMAS DE SAÚDE

Entre os objetos de Ötzi havia duas espécies de cogumelos. Uma delas era um tipo de fungo facilmente inflamável, incluído com partes do que parece ter sido um kit para começar fogo. O kit continha restos de mais de doze plantas diferentes, além de pirita para a criação de faíscas. O outro cogumelo era fungo de bétula, conhecido pelas suas propriedades anti-inflamatórias e antibióticas, e parece ter sido usado para fins medicinais. A análise dos tecidos e do conteúdo estomacal e intestinal em microscópio mostrou evidências de Helicobacter pylori, uma bactéria comum do sistema digestivo que pode causar gastrite e úlceras. Exames odontológicos encontraram diversas cáries dentárias profundas. Como já deve estar claro, Ötzi tinha uma saúde muito debilitada. Análises revelaram que ele ainda era intolerante à lactose, sofria de aterosclerose, tinha artrite nas articulações, calcificação nas artérias e pedras na vesícula biliar.

TATUAGENS

Um aspecto curioso que surpreendeu muito os pesquisadores foi a quantidade de tatuagens que Ötzi tinha em seu corpo: 61 no total, a maioria nas pernas. Os especialistas descobriram que os desenhos eram desenvolvidos na pele a partir de cinzas ou fuligem, pressionados sobre pequenas feridas feitas com agulhas. Um estudo recente publicado no Jornal Internacional de Paleopatologia confirma o uso medicinal das tatuagens, uma forma primitiva de acupuntura, já que boa parte delas estavam “perto ou exatamente na área dos pontos de acupuntura tradicionais”. A forma geométrica simples dos desenhos sugere que as tatuagens provavelmente foram usadas ​​para tratar dores na lombar, doença articular degenerativa e outros males. Não se sabe, porém, se as tatuagens demarcavam a área a ser contemplada pela acupuntura ou se era a acupuntura propriamente dita. Os autores destacam que não há outras evidências arqueológicas para a presença de tatuagens durante este período. Não é possível, portanto, tirar conclusões sobre se essa era uma prática comum ou quão difundido o conhecimento da aplicação e o uso potencial para o tratamento da dor estava na Europa. Se as tatuagens forem realmente terapêuticas, elas seriam anteriores à primeira acupuntura chinesa.

CAUSA DA MORTE

Primeiramente supôs-se que Ötzi fosse um pastor levando seu rebanho para as montanhas e que foi surpreendido por uma tempestade de neve. Dada sua idade relativamente alta para a época, não teria resistido ao esforço e ao frio. No entanto, a análise de DNA revelou traços de sangue de quatro outros indivíduos nos seus equipamentos: um na sua faca, dois na mesma flecha e o último no seu casaco.

Em 2001, dez anos após a descoberta do corpo, uma tomografia axial computorizada revelou que Ötzi tinha o que parecia ser uma ponta de flecha no seu ombro, combinando com um pequeno furo no seu casaco. O cabo da flecha havia sido removido. Ele também tinha um profundo ferimento na palma da mão direita, que atingiu músculos, tendões e ossos. Em 2007, uma equipe de pesquisadores italianos e suíços usou radiografia para comprovar que a causa da morte foi uma lesão sofrida numa artéria próxima do ombro e provocada pela ponta de flecha que permanece até hoje cravada nas costas.

A partir de tais evidências e de exames das armas, o biólogo molecular Thomas Loy, da Universidade de Queensland, acredita que Ötzi e um ou dois companheiros fossem caçadores que participaram de uma luta contra um grupo rival. Em um certo momento, ele pode ter carregado ou ter sido carregado por um companheiro. Enfraquecido pela perda de sangue, Ötzi aparentemente largou seus equipamentos numa rocha e morreu. O fato dele ter sido encontrado com armas colabora para a hipótese de que morreu em um ambiente de batalha. No entanto, se ele foi um guerreiro ou só um modesto caçador, vítima de um crime ou agressão entre tribos, isso não ficou decidido.

A causa da morte também foi minunciosamente estudada por Alexander Horn, investigador da polícia de Munique, na Alemanha, que investigou o caso como se fosse moderno, periciando a cena do crime. De acordo com a análise de Horn, a flecha que atingiu Ötzi pelas costas parece ter sido lançada a partir de uma distância considerável, indicando um ataque surpresa e covarde, talvez motivado por vingança. Outra pista que apoia a teoria da vingança por uma rixa pessoal – em vez de um assalto, por exemplo – é o fato de todos os objetos pessoais de Ötzi, incluindo seu valiosíssimo machado de bronze, terem sido deixados para trás, o que indica que o inimigo não estava interessado em suas posses. Os resultados mais recentes da pesquisa foram publicados no Journal of Archaeological Science e divulgados pela National Geographic.

*Ginger é uma múmia que foi encontrada no Egito em 1896, cuja idade estimada é de 5.500 anos. Ela está exposta no Museu Britânico de Londres desde 1901. O corpo foi descoberto em uma cova rasa na areia junto com mais cinco corpos em uma área perto do rio Nilo e cerca de 40 km ao sul de Tebas. O conjunto é chamado de múmias pré-dinásticas de Gebeleim, e foram escavadas por Wallis Budge, responsável pelas descobertas de egiptologia do Museu Britânico. Elas são chamadas pré-dinásticas porque datam do período pré-dinástico do Egito, também conhecido como neolítico tardio, que se estende de 6 mil a.C. até o período da primeira dinastia, quando o Egito foi unificado. O apelido Ginger (“Gengibre” em português) foi dado devido os cabelos ruivos da múmia. Seu corpo foi mumificado naturalmente, permanecendo na posição flexionada. Estudos realizados em 2012 por médicos forenses utilizando tomografia computadorizada em 3D indicam que a múmia é de um homem jovem de físico musculoso que morreu em decorrência de uma facada nas costas, sem luta por parte da vítima, o que indica um golpe surpresa. Seu ombro e costelas estão bastante danificadas devido ao golpe.

Em “Começo conjectural da história humana”, Kant concilia o Gênesis e Darwin

Neste artigo escrito em 1786, o já renomado filósofo Immanuel Kant examina o momento em que o homem passa do estado de rudeza animal para o de ser racional. Usando como guia o relato bíblico da queda de Adão e outras passagens do Gênesis, supõe que a ruptura entre o instinto e a razão marca o começo da história humana. Considero genial a maneira como Kant interpreta os relatos do Gênesis a partir de um ponto de vista darwinista, de modo a superar o infrutífero debate entre criacionismo e evolucionismo. Com um estilo cativante, ele mostra como aquele momento singular no qual o homem toma consciência da liberdade que o distingue de todos os outros animais é, ao mesmo tempo, uma queda e um progresso. Da perspectiva da biologia e da espécie, é um progresso do pior para o melhor. Da perspectiva da moral e da relação com Deus, porém, é uma queda do melhor para o pior, pois o homem passa de um estado de inocência para um estado de culpa, visto que “antes da razão despertar não havia ainda mandamento ou proibição e, portanto, nenhuma transgressão”.

Leia abaixo um trecho do artigo e leia ele completo neste link (PDF, 16 páginas). Se interessar, a Editora Unesp lançou em 2010 uma versão comentada em português.


Se não queremos vaguear em conjecturas, então temos de tomar por começo a existência do homem; e, para ser preciso, em sua idade adulta, porque ele tem de passar sem o auxílio materno; e como um casal, para que reproduza sua espécie; e, ainda, como apenas um único casal, para que não surja de pronto a guerra entre homens que estariam próximos uns dos outros e, no entanto, seriam estranhos uns aos outros. Eu situo este casal em um lugar assegurado contra o ataque de animais selvagens e provido ricamente pela natureza com todos os meios de alimentação, portanto, por assim dizer, em um jardim sob um clima ameno constante. E, mais ainda, eu o considero apenas após ele ter dado um passo importante quanto à habilidade de servir-se de suas forças, e não começo, portanto, da completa rudeza de sua natureza; pois se eu quisesse preencher essa lacuna, que presumivelmente compreende um grande espaço de tempo, as conjeturas poderiam facilmente tornar-se excessivas para o leitor, enquanto as verossimilhanças muito poucas. Portanto, o homem podia falar e conversar, isto é, falar a partir de conceitos coerentes, portanto pensar. Já o suponho dotado dessas habilidades, de modo a tomar em consideração apenas o desenvolvimento do que há de moral em seu fazer e deixar de fazer, o qual pressupõe necessariamente aquelas habilidades.

O instinto, esta voz de Deus a que todos os animais obedecem, teve inicialmente de conduzir esse novato. O instinto lhe concedia algumas coisas para alimentação, outras lhe proibia. Para esse propósito, porém, não é necessário supor um instinto particular hoje perdido; pode ter sido meramente o sentido do olfato e seu parentesco com o órgão do paladar, a conhecida simpatia deste último pelos instrumentos da digestão e também, por assim dizer, a capacidade de sentir antecipadamente se uma comida está apta ou não para o consumo, a qual podemos perceber até hoje. Tampouco se tem de supor que esse sentido fosse mais acurado no primeiro casal do que é hoje. Enquanto obedecia a este chamado da natureza o homem inexperiente se encontrava bem. Mas logo a razão se fez notar e, por meio da comparação do já experimentado com aquilo que um outro sentido que não aquele ligado ao instinto – tal como o sentido da visão (Gênesis 3:6) – apresenta-lhe como semelhante, tentou alargar o seu conhecimento dos alimentos para além das barreiras do instinto. Ainda que o instinto não recomendasse, essa tentativa poderia talvez ser bem sucedida, desde que ela não o contradissesse.

Entretanto, é uma característica da razão ser capaz de, com a contribuição da imaginação, inventar desejos não só sem um impulso natural a eles voltado, como até mesmo opostos a este último – no início eles recebem o nome de lascívia –, mas através dos quais são engendradas, pouco a pouco, toda uma multidão de inclinações supérfluas e até mesmo antinaturais – as quais recebem o nome de luxúria. A ocasião para renegar o impulso natural pode ter sido apenas uma trivialidade; porém, o sucesso da primeira tentativa, a saber, tornar-se consciente de sua razão enquanto uma capacidade de estender-se para além dos limites aos quais todos os animais estão confinados, foi muito importante e decisivo para o seu modo de vida. Que tenha sido, pois, um fruto cujo aspecto, por meio de sua semelhança com outros frutos agradáveis já experimentados, convidou para a tentativa; que para isso tenha servido de exemplo um animal cuja natureza se adequasse a esse desfrute, ainda que este fosse prejudicial ao homem e, consequentemente, um instinto natural a ele se opusesse: isso pôde dar à razão a primeira ocasião para zombar da voz da natureza e, a despeito do seu protesto, fazer a primeira tentativa de uma escolha livre, a qual, por ser a primeira, provavelmente não se deu conforme à expectativa. O dano pode ter sido tão insignificante quanto se queira, mas abriu os olhos do homem (3:7). Este descobriu em si uma capacidade de escolher por si mesmo um modo de vida e não, como os outros animais, estar ligado a um único.

Ao prazer momentâneo que essa descoberta possa ter-lhe causado devem-se ter seguido imediatamente medo e apreensão em relação a como ele, que ainda não conhecia as coisas segundo suas propriedades latentes e efeitos longínquos, deveria pôr em obra a sua capacidade recém descoberta. Ele se deteve, como que à beira de um abismo; pois, a partir dos únicos objetos de seu desejo, para os quais até agora o instinto lhe havia conduzido, abriu-se-lhe uma infinidade de objetos a cuja escolha ele não sabia como chegar; ao mesmo tempo, uma vez experimentado esse custoso estado de liberdade, tornou-se-lhe então impossível retornar ao estado de servidão, sob o domínio do instinto.

Depois do instinto de alimentação, por meio do qual a natureza preserva cada indivíduo, o mais relevante é o instinto para o sexo, por meio do qual ela cuida da conservação de cada espécie. Uma vez tornada ativa, a razão não tardou em provar sua influência também sobre este último. O homem descobriu em seguida que o estímulo sexual, que nos animais se baseia em um impulso passageiro e em grande parte periódico, nele é capaz de ser prolongado e até mesmo aumentado por meio da imaginação, a qual de fato exerce sua função com mais moderação, mas ao mesmo tempo o impulsiona de modo tanto mais duradouro e uniforme quanto mais o objeto é afastado dos sentidos. Assim ele descobriu também que através disso se pode evitar o fastio a que conduz a satisfação de um desejo meramente animal. As folhas da figueira foram, portanto, produto de uma manifestação da razão muito maior do que ela mostrara nos primeiros estágios do seu desenvolvimento. Pois tornar uma inclinação mais intensa e duradoura afastando-se dos sentidos o seu objeto mostra já a consciência de algum domínio da razão sobre os impulsos e não simplesmente, como no primeiro passo, a capacidade de estar a serviço delas em maior ou menor extensão. O recato, uma inclinação para, por meio das boas maneiras – ocultando aquilo que poderia causar desprezo –, insuflar nos outros o respeito para conosco, ofereceu, enquanto verdadeira base de toda sociabilidade, o primeiro indício da formação do homem como uma criatura moral. Um pequeno começo que deu uma direção totalmente nova ao modo de pensar e é mais importante do que toda a série indeterminada dos desenvolvimentos posteriores da cultura.

O terceiro passo da razão, depois que se misturou às primeiras necessidades básicas imediatas, foi a espera refletida do futuro. Esta capacidade de gozar não meramente os momentos presentes da vida, mas também de tornar presente o tempo futuro, é o mais decisivo sinal da prerrogativa humana de, em conformidade com sua destinação, preparar-se para fins mais distantes. Mas ela é, ao mesmo tempo, a mais inesgotável fonte de preocupações e cuidados, evocados pelo futuro incerto e dos quais todos os outros animais estão dispensados. O homem, que tinha de alimentar a si mesmo, a uma esposa e às futuras crianças, anteviu o caráter penoso, sempre crescente, de seu trabalho; a mulher anteviu as dificuldades às quais a natureza sujeitou seu sexo e também aquelas que o homem, mais poderoso, lhe infligiria. No cenário desse quadro, ambos anteviram com medo aquilo que, após uma vida penosa, atinge inevitavelmente a todos os animais sem que estes se preocupem, a saber, a morte, e pareceram reprovar a si mesmos pelo uso da razão, que lhe causou tantos males, considerando-o um crime.

O quarto e último passo dado pela razão, elevando o homem completamente acima da sociedade com os animais, foi ter concebido que ele é verdadeiramente o fim da natureza e que nada que vive sobre a Terra pode competir com ele nesse aspecto. A primeira vez que ele disse à ovelha “a pele que você carrega a natureza não deu a você, mas a mim”, tomou a pele para si e vestiu-a (3:21), ele se deu conta do privilégio que, em virtude de sua natureza, possui sobre todos os outros animais, os quais ele passou a considerar não mais como seus companheiros na criação, mas sim como meios e instrumentos disponíveis à sua vontade para a realização de suas intenções, quaisquer que sejam elas. Esta representação implica, ainda que obscuramente, a ideia do seu oposto: ele não deve dirigir-se de tal modo a nenhum homem, mas tem de considerá-lo como participante igual nas dádivas da natureza; uma preparação distante para as limitações que a razão deve impor futuramente à vontade em relação a seus próximos, e que é muito mais necessária para o estabelecimento da sociedade do que a simpatia e o amor.

Este abandono do seio materno da natureza foi uma mudança honrosa, mas ao mesmo tempo perigosa, na medida em que o impeliu para fora da situação inofensiva e segura de uma infância sob proteção, como que para fora de um jardim a ele provido sem seu esforço, e lançou-o no vasto mundo onde tantas preocupações, esforço e males desconhecidos o aguardam (3:23). Futuramente, as dificuldades da vida lhe despertarão muitas vezes o desejo por um paraíso, criação de sua imaginação, onde em calma ociosidade e paz duradoura ele possa passar sua existência. Mas a incansável razão, posicionando-se entre ele e esse lugar imaginário de delícias, impulsiona irresistivelmente o desenvolvimento das capacidades nele postas e não permite o retorno ao estado de rudeza e simplicidade de que o arrancou (3:24). Ela o impulsiona a aceitar pacientemente o esforço odiado por ele, a perseguir as falsas joias que ele despreza e, diante das trivialidades cuja perda ele teme ainda mais, a esquecer a própria morte que o apavora.

Dessa exposição da primeira história humana resulta o seguinte: a saída do homem do paraíso, representado pela razão como a primeira morada da espécie, não foi outra coisa senão a passagem da rudeza de uma mera criatura animal para a humanidade, da muleta do instinto para a condução da razão, em uma palavra, a passagem da tutela da natureza para o estado da liberdade. Se o homem ganhou ou perdeu com essa mudança deixa de ser uma questão quando consideramos a destinação de sua espécie, que consiste em nada mais do que no progredir para a perfeição, por mais que as primeiras tentativas de alcançar essa meta, mesmo em uma longa série de membros sucessivos, tenham sido errôneas e mal sucedidas. Entretanto, se para a espécie esse curso é um progresso do pior para o melhor, para o indivíduo não é exatamente o mesmo. Antes da razão despertar não havia ainda mandamento ou proibição e, portanto, nenhuma transgressão; mas tão logo ela começa sua empreitada e entra em conflito com a animalidade em toda a sua força, surgem males e, o que é pior, na razão mais cultivada surgem vícios que eram completamente estranhos ao estado de ignorância e, portanto, de inocência.

O primeiro passo para fora desse estado foi, portanto, do lado da moral uma queda; do lado físico, a consequência dessa queda foi uma quantidade de males jamais conhecida, logo, uma punição. Assim, a história da natureza começa do bem, pois é uma obra de Deus; a história da liberdade começa do mal, pois é uma obra do homem. Para o indivíduo, que no uso de sua liberdade olha apenas para si mesmo, tal mudança foi uma perda; para a natureza, que direciona o seu fim à espécie, foi um ganho. Por isso o indivíduo tem motivos para atribuir a si mesmo a culpa por todos os males que o afligem e por todo mal que perpetra. Ao mesmo tempo, enquanto membro de uma espécie, tem também motivos para admirar e exaltar a sabedoria e conformidade a fins da ordenação.

O início do período seguinte foi: o homem passou do período da comodidade e da paz para o do trabalho e da discórdia enquanto prelúdio da união em sociedade. Aqui temos de dar novamente um grande salto e colocá-lo de súbito em posse dos animais domesticados e dos vegetais que, semeando e plantando, ele mesmo podia produzir para a sua alimentação (4:2), mesmo que a passagem da selvagem vida de caçador para a posse de animais domesticados, e da inconstante coleta de raízes ou frutas para a posse dos vegetais que ele produzia, tenha se transcorrido de maneira consideravelmente lenta.

Aqui devem ter-se iniciado as rixas entre homens que, até então, viviam pacificamente uns ao lado dos outros, e a consequência disso foi a sua separação segundo os diferentes modos de vida e sua dispersão pela terra. A vida pastoril é não apenas agradável, mas oferece também o sustento mais seguro, pois não falta pasto em um solo inabitado, vasto e distante. Inversamente, a agricultura é muito trabalhosa e dependente da inconstância do clima, portanto incerta. Ela exige também residência permanente, propriedade do solo e poder suficiente para defendê-lo. O pastor, entretanto, detesta essa propriedade, que limita sua liberdade de apascentar. No que se refere à vida pastoril, pode parecer que o agricultor inveja o pastor como mais bem aquinhoado pelos céus (4:4); de fato, porém, este lhe é bastante incômodo, pois o gado não poupa suas plantações quando pasta. Ora, posto que é fácil para o pastor, junto com seu rebanho, afastar-se para longe depois que causou o estrago, escapando de qualquer ressarcimento – já que ele não deixa para trás nada que não encontraria de modo igualmente fácil em qualquer outro lugar –, então foi certamente o agricultor quem primeiro teve de usar a força contra tais prejuízos, e quem, se não quisesse perder os frutos de seu longo labor, teve também de afastar-se o mais que podia (4:16). Essa separação inicia a terceira época.

Um terreno de cujo trabalho e plantio depende o sustento exige residência permanente, e a defesa do mesmo contra todas violações carece de um grande número de homens dispostos a prestar auxílio uns aos outros. Consequentemente, nesse modo de vida os homens não podiam mais se dispersar em famílias, mas tinham de se manter unidos e construir aldeias e cidades (4:17), de modo a proteger sua propriedade contra caçadores selvagens ou hordas de pastores nômades. As primeiras necessidades da vida, cuja aquisição exige um modo de vida diferente, podiam agora ser trocadas entre si. A partir daí teve de surgir a cultura e o começo da arte, do passatempo assim como do labor (4:20-22); mas o mais importante é que teve também de surgir a instituição de alguma constituição civil e justiça pública, primeiro decerto em relação apenas aos maiores atos de violência, cuja vingança não mais era deixada aos indivíduos, como no estado selvagem, mas a um poder legal que unifica o todo, isto é, a uma forma de governo contra a qual nenhum exercício da violência tinha lugar. A partir dessas primeiras e rudes disposições puderam desenvolver-se gradualmente todas as artes humanas, dentre as quais a mais vantajosa é arte da sociabilidade e segurança civil. O gênero humano pôde multiplicar-se e espalhar-se como colmeias, por meio do envio para todos os lados de colonos já formados. Com essa época começou também, e daí em diante cresceu, a desigualdade entre os homens, essa rica fonte de tanto mal, mas também de todo bem.

Os povos de pastores nômades, que reconhecem apenas Deus como seu senhor, cercavam os agricultores e habitantes das cidades, os quais têm um homem por senhor e autoridade (6:4). Como inimigos declarados de toda propriedade da terra, maltratavam aqueles e, inversamente, eram por eles odiados. Houve portanto guerra contínua entre ambos, ou ao menos ameaça de guerra. Com o tempo, o luxo crescente dos moradores da cidade, e sobretudo a arte de agradar, por meio da qual as mulheres das cidades ofuscam as sujas meretrizes dos desertos, deve ter sido um poderoso chamariz para que aqueles pastores estabelecessem relação com os primeiros e se transferissem para a reluzente miséria das cidades (6:1-2). Aí, então, por meio da mistura de dois povos que de outro modo seriam inimigos, com o fim de toda ameaça de guerra e ao mesmo tempo de toda liberdade, o despotismo de tiranos poderosos, de um lado, e uma cultura recém começada, de outro, misturada a todos os vícios do estado de rudeza, imersa em opulência sem alma e na mais abjeta escravidão, desviaram irresistivelmente o gênero humano da progressão do desenvolvimento de suas disposições para o bem tal como a natureza lhe traçara; e com isso ele mesmo se tornou indigno de sua existência (6:17).

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A prosa poética de Khalil Gibran

No começo da pandemia, quando estava na moda incentivarmo-nos mutuamente a ficar em casa, ganhei da minha sogra uma coleção de livros do famoso escritor libanês Khalil Gibran (1883-1931). São dez exemplares já amarelados e gastos da década de 1980, com tradução para o português de Mansour Challita. Raridades que hoje só se encontram nos melhores sebos. Calhou dessa dádiva chegar na mesma época em que finalmente terminei minha dissertação de mestrado. Depois de mais de dois anos de intensa pesquisa acadêmica, minha mente estava tão habituada à rigidez dos tratados analíticos de Aristóteles e ao rigor dos artigos científicos que julguei ser uma boa ideia permitir que ela devaneasse e se deleitasse, por algumas semanas, na leveza da literatura árabe de Gibran. Com o comércio, as praias e tudo que envolve lazer e vida social fechados por decreto, li quase todos os livros em poucas semanas, como um detento que lê por redução de pena. Como de costume, li com uma caneta na mão – pois como disse certa vez Ariano Suassuna: “se me tirarem a caneta, fico analfabeto”. A seguir, compartilho com vocês os trechos grifados, aqueles que me tocaram ou geraram insights e reflexões.

FILHOS

Vossos filhos não são vossos filhos. São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. Embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos. Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas, pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe. Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria, pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável. (O Profeta)

CASAMENTO

Vós nascestes juntos, e juntos permanecereis para todo o sempre. Juntos estareis quando as brancas asas da morte dissiparem vossos dias. Sim, juntos estareis até na memória silenciosa de Deus. Mas que haja espaço na vossa junção e que os ventos do céu dancem entre vós. Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão: Que haja antes um mar ondulante entre as praias de vossas almas. Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça. Dai de vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço. Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho, assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto, vibram na mesma harmonia. Dai vossos corações, mas não os confieis à guarda um do outro. Pois somente a mão da vida pode conter vossos corações. E vivei juntos, mas não vos aconchegueis em demasia; pois as colunas do templo erguem-se separadamente. E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro. (Khalil Gibran, O Profeta)

SOLIDÃO

Vieste só, e só passarás para o nevoeiro. Portanto, bebe tua taça sozinho e em silêncio. Os dias de outono deram a outros lábios outras taças e encheram-nas com vinho amargo e doce, tal como encheram tua taça. Bebe tua taça sozinho, embora ela tenha o sabor de teus próprio sangue e lágrimas, e bendiz a vida pela dádiva da sede. Porque sem sede teu coração seria a praia de um mar dissecado, sem canções e sem marés. Bebe tua taça sozinho, e bebe-a alegremente. Ergue-a bem alto acima de tua cabeça e brinda a todos os que bebem sozinhos. (Khalil Gibran, O Jardim do Profeta, pp. 45-46)

ALEGRIA E TRISTEZA

Quanto mais profundamente a tristeza cavar suas garras em vosso ser, tanto mais alegria podereis conter. Não é a taça em que verteis vosso vinho a mesma que foi queimada no torno do oleiro? E não é a lira que acaricia vossas almas a própria madeira que foi entalhada à faca? Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constituiu vosso deleite. Alguns dentre vós dizeis: “A alegria é maior que a tristeza”, e outros dizem: “Não, a tristeza é maior”. Eu, porém, vos digo que elas são inseparáveis. Vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama. Em verdade, estais suspensos como os pratos de uma balança entre vossa tristeza e vossa alegria. (O Profeta)

CORPO E ALMA

Vós sois espíritos, embora vos movais em corpos; e, como o óleo que queima na escuridão, sois chamas, embora contidas em lâmpadas. Se fôsseis somente corpos, então minha presença diante de vós e minhas palavras dirigidas a vós seriam mera futilidade, tal como um morto chamando os mortos. Mas não é assim. Tudo o que é imortal em vós é livre para o dia e a noite, e não pode ser confinado em casas ou atado a grilhões, pois tal é a vontade do Altíssimo. Vós sois seu hálito, tal como o vento, que não pode ser nem agarrado nem engaiolado. (Khalil Gibran, O Jardim do Profeta, pp. 36-37)

APARÊNCIAS

Somos fascinados pelas aparências e cegos às essências. (…) Não, meu amigo, não ates as aparências às realidades. E não julgues da essência de um homem pelas suas palavras e seu comportamento. (…) Não, a vida não vale pelas suas aparências, mas pelas suas essências. Os frutos não valem pelas suas cascas, mas pela sua polpa. Os homens não valem pelos seus rostos, mas pelos seus corações. E a religião não vale pelo que se manifesta nos templos e pelos ritos e tradições, mas pelo que se esconde nas almas e nas intenções. (Khalil Gibran, Cascas e Polpas, pp. 80-82)

COMIDA

Pudésseis viver do perfume da terra e, como uma planta, nutrir-vos da luz. Mas, já que deveis matar para comer e roubar do recém-nascido o leite de sua mãe para saciar vossa sede, fazei disso um ato de adoração. E que vossa mesa seja um altar onde os puros e os inocentes da floresta e da planície são sacrificados àquilo que é ainda mais puro e mais inocente no homem. Quando matardes um animal, dizei-lhe no vosso coração: “Pelo mesmo poder que te imola, eu também serei imolado e servirei de alimento, pois a lei que te entregou às minhas mãos me entregará a mãos mais poderosas”. (O Profeta)

GENEROSIDADE

Vós pouco dais quando dais de vossas posses. É quando dais de vós próprios que realmente dais. Pois, o que são vossas posses senão coisas que guardais por medo de precisardes delas amanhã? E que trará o amanhã ao cão prudente que enterra ossos na areia movediça enquanto segue os peregrinos para a cidade santa? E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade? Não é vosso medo da sede, quando vosso poço está cheio, a sede insaciável? Há os que dão pouco do muito que possuem, e fazem-no para serem elogiados, e seu desejo secreto desvaloriza suas dádivas. E há os que pouco têm e dão-no inteiramente. Esses confiam na vida e na generosidade da vida, seus cofres nunca se esvaziam. E há os que dão com alegria, e essa alegria é sua recompensa. E há os que dão com pena, e essa pena é seu batismo. E há os que dão sem sentir pena nem buscar alegria sem pensar na virtude: Dão como, no vale, o mirto espalha sua fragrância no espaço. Pelas mãos de tais pessoas, Deus fala; e através dos seus olhos, Ele sorri para o mundo. É belo dar quando solicitado; é mais belo, porém, dar sem ser solicitado, por haver apenas compreendido; e para os generosos, procurar quem recebe é uma alegria maior ainda que a de dar. Existe algo que possais guardar? Tudo que possuís será um dia dado. Dai agora, portanto, para que a época da dádiva seja vossa e não de vossos herdeiros. Dizeis muitas vezes: Eu daria, mas somente a quem merece. As árvores de vossos pomares não falam assim, nem os rebanhos de vossos pastos. Dão para continuar a viver, pois reter é perecer. Certamente, quem é digno de receber seus dias e suas noites é digno de receber de vós tudo o mais. E quem mereceu beber do oceano da vida, merece encher sua taça em vosso pequeno córrego. (Khalil Gibran, O Profeta)

ALEATÓRIAS

“E não vos esqueçais que a terra se rejubila de sentir os vossos pés desnudos e que os ventos anseiam por brincar com o vosso cabelo.” (Khalil Gibran, O Profeta)

“Não vos posso ensinar a rezar com palavras. Deus não escuta vossas palavras, exceto quando Ele próprio as pronuncia através de vossos lábios.” (Khalil Gibran, O Profeta)

“Afastai-me da sabedoria que não chora, da filosofia que não ri e da grandeza que não se inclina diante das crianças.” (Khalil Gibran, Curiosidades e Belezas, 1927, p. 16)

“Um só ramo em flor tem mais futuro que toda uma floresta seca; e numa só semente de trigo há mais vida que num montão de feno.” (Khalil Gibran, Curiosidades e Belezas, p. 60)

“O que não tem forma está sempre procurando uma forma, assim como as incontáveis nebulosas se transformariam de bom grado em sóis e luas.” (O Jardim do Profeta, p. 8)

“A Vida é mais velha que os seres vivos, a Beleza existia antes que o belo nascesse na Terra, e a Verdade era verdade antes de ser enunciada.” (O Jardim do Profeta, p. 14)

“O espaço que se estende entre ti e o teu vizinho com quem não te dás é sem dúvida maior do que o espaço que se entende entre ti e teu bem-amado que mora além das sete terras e dos sete mares.” (Khalil Gibran, O Jardim do Profeta, p. 31)

Saga de um mestrando

No começo de 2018, mudei para São Paulo a fim de realizar um sonho que alimentei desde o início da graduação: cursar o mestrado em filosofia sobre a teoria da demonstração científica de Aristóteles no melhor lugar onde isso poderia ser feito: na UNICAMP, junto ao grupo de aristotélicos que chamei na dissertação de “escola de Campinas”, sob orientação de um dos maiores especialistas vivos na obra de Aristóteles, o professor Dr. Lucas Angioni. Juntando a isso o fato da UNICAMP ter recebido o título de melhor universidade da América Latina nos rankings da revista Times Higher Education de 2017 e 2018, e o fato do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UNICAMP ser conceito 6 na Capes (excelência internacional), eu tinha motivos mais que suficientes para dedicar a esse projeto minha atenção e meus esforços. Mas, como toda grande empreitada, essa veio acompanhada de muitos desafios.

O desafio da mudança foi o primeiro de muitos. Vendi carro, eletrodomésticos, doei alguns móveis, empacotei tudo, fiz as malas e viajei para São Paulo. Morei por dois meses na casa do amigo Titao Yamamoto, na Vila Mariana, pertinho do Parque do Ibirapuera, enquanto procurava um teto para chamar de lar em Campinas. Nesse tempo rodei de moto praticamente toda a região central de São Paulo, e viajava 100 km até Campinas duas vezes por semana, algumas vezes debaixo de tempestades assustadoras, para participar das atividades do mestrado. Depois disso mudei para Campinas de fato e morei num quitinete bem aconchegante a poucos metros do campus. No ano seguinte mudei para uma casa perto do campus que abriga simultaneamente uma república de estudantes e uma igreja cristã de tradição reformada: a Comunidade do Estudante Universitário – ou CEU, para os íntimos.

O nível de exigência do mestrado na UNICAMP foi outro grande desafio. Cheguei com aquele inglês básico e safado que a gente aprende nas escolas públicas (pelo menos na minha época e na minha escola), e tive que encarar no mestrado 80% da bibliografia e 100% dos eventos em inglês! Foi como aprender a nadar sendo jogado na água: ou eu nadava ou morria afogado. Fui me virando e, após dezenas de papers e muitas conferências com professores estrangeiros, meu inglês evoluiu “na tora”, como se diz aqui na Paraíba. Além do inglês, tive que estudar muito grego clássico, duas vezes por semana, para conseguir ler Aristóteles no original. Como se isso fosse pouca coisa, ainda precisei abortar meu projeto de pesquisa inicial e recomeçar outro praticamente do zero. Confesso que algumas vezes cheguei à exaustão mental e quis desistir.

Mas o maior desafio mesmo foi, sem dúvida, de caráter íntimo e pessoal. Depois de minha vida virar de cabeça pra baixo com um divórcio, tive que aprender a viver longe da minha filha, Catarina, de quem sempre fui muito apegado. Quando fui pra São Paulo ela era um bebê de apenas dois anos; quando voltei, já estava com quatro. Alguns dirão que perdi a melhor fase da vida de uma criança, e eu tendo a admitir que talvez isso seja verdade. Meu maior desejo sempre foi estar perto dela, mas como a UFPB estava me bancando financeiramente com um afastamento remunerado do trabalho, desistir do mestrado e voltar pra casa nunca foi uma opção. Com exceção das férias que passei em João Pessoa, todo o resto do tempo tive que matar a saudade dela com frias e distantes chamadas de vídeo. Ao mesmo tempo em que doía, a saudade era mais um fator motivador para que eu me dedicasse e concluísse o mestrado. Essa é a razão da dedicatória da minha dissertação ser tão curta: “a Catarina”.

E por falar em dissertação, sei que muitos de vocês devem estar curiosos para lê-la (ou pelo menos dar uma olhadinha, já que quase ninguém hoje em dia se interessa pelo que disseram filósofos mortos há mais de dois milênios), então resolvi compartilhar aqui o arquivo PDF, é só clicar no link abaixo:

A TEORIA ARISTOTÉLICA DA DEMONSTRAÇÃO CIENTÍFICA

Hoje sei que todo sacrifício valeu a pena, e só tive certeza disso após ouvir na defesa, depois de quase três horas de arguição, estas palavras dos membros da banca:

Festival da Carne de Cachorro acontece na China apesar dos protestos (veja as fotos)

Veja também: Experimentos científicos macabros realizados pela URSS com cachorros

O Festival da Carne de Cachorro (fotos abaixo), realizado todos os anos na cidade de Yulin, no sul da China, acontece de 21 a 30 de junho, que é geralmente uma das épocas mais quentes do ano por lá. Durante dez dias, mais de dez mil cães são comidos no festival gastronômico, onde se podem encontrar outras iguarias como carne de gato. O consumo de carne de cachorro é tradicional na China e, de acordo com a tradição, traz sorte e saúde, afasta doenças e aumenta o desempenho sexual dos homens.

O festival tem recebido muitas críticas, tanto internacionais quanto na própria China. Ativistas denunciam que os animais são abatidos de maneira cruel e que as práticas de higiene no festival não estão de acordo com os regulamentos chineses. Há acusações de que cães são trazidos para Yulin de toda a China em condições apertadas, e os visitantes do festival relataram ter visto alguns animais com coleiras, indicando que são animais de estimação roubados. Os ativistas dos direitos dos animais salvam centenas de cães todos os anos interceptando caminhões cheios que se dirigem para o sul.

Comer cachorro não é ilegal na China. Estima-se que cerca de 20 milhões destes animais são mortos todos os anos para consumo humano e, embora o festival só aconteça desde 2009, o costume deve ter pelo menos 400 anos. Mas os tempos estão mudando. Na China já foi proibido ter cães como animais de estimação, mas hoje a posse de cães tornou-se popular entre a crescente classe média chinesa: existem 62 milhões de cães registados como animais de estimação. Com o tempo, os cães começam a ser vistos com novos olhos. Várias celebridades e muitos jovens têm se manifestado cada vez mais nas redes sociais criticando o ato de comer carne de cachorro.

Mesmo antes do surgimento da Covid-19, o consumo de carne de cachorro já mostrava um declínio acentuado na China. Com o impacto da pandemia, que começou em Wuhan por causa do consumo de carne de morcego, o Governo chinês aprovou uma lei que proíbe o comércio e consumo de animais selvagens. A lei não se aplica especificamente aos cães, mas o Ministério da Agricultura chinês reclassificou os cães como animais de estimação, removendo-os da lista de animais comestíveis. Essa alteração pode ser um sinal de que uma proibição mais ampla está sendo planejada.

Uma pesquisa nacional realizada em 2016 constatou que 64% dos cidadãos chineses queriam o fim do festival de Yulin e 69,5% nunca comeram carne de cachorro. Outra sondagem de 2017 revelou que, em Yulin, quase três quartos das pessoas não comem carne de cachorro regularmente, apesar dos esforços dos comerciantes para promovê-la. Alguns fornecedores especializados contactados pela AFP por telefone em Pequim reconhecem que este mercado começa a enfrentar dificuldades. “Há cada vez menos clientes”, declarou um funcionário, identificando-se como Chen, para quem o problema está na obsessão pela segurança alimentar que, como consequência da Covid-19, se espalhou por todo o país. Em abril, as cidades de Shenzhen e Zhuhai foram as primeiras na China a proibir oficialmente o consumo de carne de gato e cachorro.

Fonte: Diário da Notícia


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