O que se sabe sobre Ötzi, o homem do gelo mumificado nos Alpes há 5.300 anos

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O cadáver mais estudado de todos os tempos se chama Ötzi, também conhecido como o “homem do gelo”, uma múmia masculina bem conservada com cerca de 5.300 anos que foi encontrada em 1991 por um casal de alpinistas alemães numa geleira a uma altitude de 3.210 metros perto do monte Similaun, nos Alpes, na fronteira da Áustria com a Itália. O mais impressionante é que, devido às baixíssimas temperaturas, Ötzi foi encontrado tão bem preservado que inicialmente pensaram se tratar de um montanhista morto recentemente.

O cadáver foi confiscado pelas autoridades austríacas e levado para autópsia na Universidade de Innsbruck, onde sua verdadeira idade foi finalmente estabelecida. Pesquisas posteriores revelaram que o corpo fora encontrado poucos metros além da fronteira, em território italiano. Por isso, ele hoje está exposto no Museu de Arqueologia do Alto Ádige, na província de Bolzano, na Itália. Ötzi rivaliza com a egípcia Ginger* pelo título de mais velha múmia humana conhecida, e oferece informação sem precedentes sobre a vida e os hábitos dos europeus na Idade do Cobre, por volta do ano 3.300 a.C.

Veja aqui imagens de Ötzi em alta resolução.


ROUPAS, ARMAS E UTENSÍLIOS

O corpo foi extensamente examinado, medido, radiografado e datado. Após análises detalhadas de equipes multidisciplinares compostas por médicos legistas, arqueólogos, paleontólogos, antropólogos e outros pesquisadores vindos de toda a Europa, estima-se que, no momento de sua morte, Ötzi tinha por volta de 30 a 50 anos de idade, media 165 centímetros de altura e pesava cerca de 50 quilos. Quando morreu, Ötzi estava vestindo três camadas de roupas bastante sofisticadas que eram produzidas pelo seu povo e o protegiam do frio. Estudos revelaram que seu casaco era feito de peles de ovelha e cabra. Os sapatos eram feitos de couro de urso pardo, e eram largos e impermeáveis, adaptados para andar na neve, com uma espécie de cadarço de pele de auroque (ancestral do boi atual). Tufos de grama macia envolviam o pé dentro do sapato, servindo de isolante térmico. Ele tinha também uma capa de pele de urso pardo forrada de fibra trançada da casca da tília, árvore típica do hemisfério norte. Outros artefatos encontrados junto a Ötzi foram um machado com lâmina de bronze e cabo de teixo, uma faca de sílex e cabo de freixo, uma aljava de pele de veados cheia de flechas e um arco longo de teixo.


ALIMENTAÇÃO

Sua última refeição parcialmente digerida sugere que ele comeu aproximadamente duas horas antes de seu terrível fim. Ele havia comido carne de bode das montanhas com alguns grãos e cereais, evidência de que seu povo criava rebanhos e dominava a agricultura. Essa refeição final forneceu uma festa de informação para os estudiosos. O estômago continha 30 tipos diferentes de pólen. A análise desse pólen mostra que Ötzi morreu na primavera ou no início do verão, e até permitiu que os pesquisadores rastreassem seus movimentos por diferentes elevações de montanhas, pouco antes de morrer. Ötzi tinha ainda vestígios de ervas e plantas medicinais em seu estômago, como uma espécie de samambaia tóxica, que poderia ter sido usada para matar os ovos de vermes parasitas encontrados em seus intestinos.


PROBLEMAS DE SAÚDE

Entre os objetos de Ötzi havia duas espécies de cogumelos. Uma delas era um tipo de fungo facilmente inflamável, incluído com partes do que parece ter sido um kit para começar fogo. O kit continha restos de mais de doze plantas diferentes, além de pirita para a criação de faíscas. O outro cogumelo era fungo de bétula, conhecido pelas suas propriedades anti-inflamatórias e antibióticas, e parece ter sido usado para fins medicinais. A análise dos tecidos e do conteúdo estomacal e intestinal em microscópio mostrou evidências de Helicobacter pylori, uma bactéria comum do sistema digestivo que pode causar gastrite e úlceras. Exames odontológicos encontraram diversas cáries dentárias profundas. Como já deve estar claro, Ötzi tinha uma saúde muito debilitada. Análises revelaram que ele ainda era intolerante à lactose, sofria de aterosclerose, tinha artrite nas articulações, calcificação nas artérias e pedras na vesícula biliar.


TATUAGENS

Um aspecto curioso que surpreendeu muito os pesquisadores foi a quantidade de tatuagens que Ötzi tinha em seu corpo: 61 no total, a maioria nas pernas. Os especialistas descobriram que os desenhos eram desenvolvidos na pele a partir de cinzas ou fuligem, pressionados sobre pequenas feridas feitas com agulhas. Um estudo recente publicado no Jornal Internacional de Paleopatologia confirma o uso medicinal das tatuagens, uma forma primitiva de acupuntura, já que boa parte delas estavam “perto ou exatamente na área dos pontos de acupuntura tradicionais”. A forma geométrica simples dos desenhos sugere que as tatuagens provavelmente foram usadas ​​para tratar dores na lombar, doença articular degenerativa e outros males. Não se sabe, porém, se as tatuagens demarcavam a área a ser contemplada pela acupuntura ou se era a acupuntura propriamente dita. Os autores destacam que não há outras evidências arqueológicas para a presença de tatuagens durante este período. Não é possível, portanto, tirar conclusões sobre se essa era uma prática comum ou quão difundido o conhecimento da aplicação e o uso potencial para o tratamento da dor estava na Europa. Se as tatuagens forem realmente terapêuticas, elas seriam anteriores à primeira acupuntura chinesa.


CAUSA DA MORTE

Primeiramente supôs-se que Ötzi fosse um pastor levando seu rebanho para as montanhas e que foi surpreendido por uma tempestade de neve. Dada sua idade relativamente alta para a época, não teria resistido ao esforço e ao frio. No entanto, a análise de DNA revelou traços de sangue de quatro outros indivíduos nos seus equipamentos: um na sua faca, dois na mesma flecha e o último no seu casaco.

Em 2001, dez anos após a descoberta do corpo, uma tomografia axial computorizada revelou que Ötzi tinha o que parecia ser uma ponta de flecha no seu ombro, combinando com um pequeno furo no seu casaco. O cabo da flecha havia sido removido. Ele também tinha um profundo ferimento na palma da mão direita, que atingiu músculos, tendões e ossos. Em 2007, uma equipe de pesquisadores italianos e suíços usou radiografia para comprovar que a causa da morte foi uma lesão sofrida numa artéria próxima do ombro e provocada pela ponta de flecha que permanece até hoje cravada nas costas.

A partir de tais evidências e de exames das armas, o biólogo molecular Thomas Loy, da Universidade de Queensland, acredita que Ötzi e um ou dois companheiros fossem caçadores que participaram de uma luta contra um grupo rival. Em um certo momento, ele pode ter carregado ou ter sido carregado por um companheiro. Enfraquecido pela perda de sangue, Ötzi aparentemente largou seus equipamentos numa rocha e morreu. O fato dele ter sido encontrado com armas colabora para a hipótese de que morreu em um ambiente de batalha. No entanto, se ele foi um guerreiro ou só um modesto caçador, vítima de um crime ou agressão entre tribos, isso não ficou decidido.

A causa da morte também foi minunciosamente estudada por Alexander Horn, investigador da polícia de Munique, na Alemanha, que investigou o caso como se fosse moderno, periciando a cena do crime. De acordo com a análise de Horn, a flecha que atingiu Ötzi pelas costas parece ter sido lançada a partir de uma distância considerável, indicando um ataque surpresa e covarde, talvez motivado por vingança. Outra pista que apoia a teoria da vingança por uma rixa pessoal – em vez de um assalto, por exemplo – é o fato de todos os objetos pessoais de Ötzi, incluindo seu valiosíssimo machado de bronze, terem sido deixados para trás, o que indica que o inimigo não estava interessado em suas posses. Os resultados mais recentes da pesquisa foram publicados no Journal of Archaeological Science e divulgados pela National Geographic.


Nota: Ginger do Egito

*Ginger é uma múmia que foi encontrada no Egito em 1896, cuja idade estimada é de 5.500 anos. Ela está exposta no Museu Britânico de Londres desde 1901. O corpo foi descoberto em uma cova rasa na areia junto com mais cinco corpos em uma área perto do rio Nilo e cerca de 40 km ao sul de Tebas. O conjunto é chamado de múmias pré-dinásticas de Gebeleim, e foram escavadas por Wallis Budge, responsável pelas descobertas de egiptologia do Museu Britânico. Elas são chamadas pré-dinásticas porque datam do período pré-dinástico do Egito, também conhecido como neolítico tardio, que se estende de 6 mil a.C. até o período da primeira dinastia, quando o Egito foi unificado. O apelido Ginger (“Gengibre” em português) foi dado devido os cabelos ruivos da múmia. Seu corpo foi mumificado naturalmente, permanecendo na posição flexionada. Estudos realizados em 2012 por médicos forenses utilizando tomografia computadorizada em 3D indicam que a múmia é de um homem jovem de físico musculoso que morreu em decorrência de uma facada nas costas, sem luta por parte da vítima, o que indica um golpe surpresa. Seu ombro e costelas estão bastante danificadas devido ao golpe.

Em “Começo conjectural da história humana”, de 1786, Kant concilia o Gênesis e Darwin

Neste artigo escrito em 1786, o já renomado filósofo Immanuel Kant examina o momento em que o homem passa do estado de rudeza animal para o de ser racional e social. Usando como guia o relato bíblico da queda de Adão e outras passagens do Gênesis, estabelece que a ruptura entre o instinto e a razão marca o começo da história humana. Considero genial a maneira como Kant interpreta os relatos do Gênesis a partir de um ponto de vista darwinista, de modo a superar o infrutífero debate entre criacionismo e evolucionismo. Com seu estilo de escrita cativante, ele mostra como aquele momento singular no qual o homem toma consciência da liberdade que o distingue de todos os outros animais é, ao mesmo tempo, uma queda e um progresso. Da perspectiva da biologia e da espécie, é um progresso do pior para o melhor. Da perspectiva da moral e de sua relação com Deus, porém, é uma queda do melhor para o pior, pois o homem passa de um estado de inocência para um estado de culpa, visto que “antes da razão despertar não havia ainda mandamento ou proibição e, portanto, nenhuma transgressão”.

Leia abaixo um trecho do artigo e leia ele completo neste link (PDF, 16 páginas). Se interessar, a Editora Unesp lançou em 2010 uma versão comentada em português.


Se não queremos vaguear em conjecturas, então temos de tomar por começo a existência do homem; e, para ser preciso, em sua idade adulta, porque ele tem de passar sem o auxílio materno; e como um casal, para que reproduza sua espécie; e, ainda, como apenas um único casal, para que não surja de pronto a guerra entre homens que estariam próximos uns dos outros e, no entanto, seriam estranhos uns aos outros. Eu situo este casal em um lugar assegurado contra o ataque de animais selvagens e provido ricamente pela natureza com todos os meios de alimentação, portanto, por assim dizer, em um jardim sob um clima ameno constante. E, mais ainda, eu o considero apenas após ele ter dado um passo importante quanto à habilidade de servir-se de suas forças, e não começo, portanto, da completa rudeza de sua natureza; pois se eu quisesse preencher essa lacuna, que presumivelmente compreende um grande espaço de tempo, as conjeturas poderiam facilmente tornar-se excessivas para o leitor, enquanto as verossimilhanças muito poucas. Portanto, o homem podia falar e conversar, isto é, falar a partir de conceitos coerentes, portanto pensar. Já o suponho dotado dessas habilidades, de modo a tomar em consideração apenas o desenvolvimento do que há de moral em seu fazer e deixar de fazer, o qual pressupõe necessariamente aquelas habilidades.

O instinto, esta voz de Deus a que todos os animais obedecem, teve inicialmente de conduzir esse novato. O instinto lhe concedia algumas coisas para alimentação, outras lhe proibia. Para esse propósito, porém, não é necessário supor um instinto particular hoje perdido; pode ter sido meramente o sentido do olfato e seu parentesco com o órgão do paladar, a conhecida simpatia deste último pelos instrumentos da digestão e também, por assim dizer, a capacidade de sentir antecipadamente se uma comida está apta ou não para o consumo, a qual podemos perceber até hoje. Tampouco se tem de supor que esse sentido fosse mais acurado no primeiro casal do que é hoje. Enquanto obedecia a este chamado da natureza o homem inexperiente se encontrava bem. Mas logo a razão se fez notar e, por meio da comparação do já experimentado com aquilo que um outro sentido que não aquele ligado ao instinto – tal como o sentido da visão (Gênesis 3:6) – apresenta-lhe como semelhante, tentou alargar o seu conhecimento dos alimentos para além das barreiras do instinto. Ainda que o instinto não recomendasse, essa tentativa poderia talvez ser bem sucedida, desde que ela não o contradissesse.

Entretanto, é uma característica da razão ser capaz de, com a contribuição da imaginação, inventar desejos não só sem um impulso natural a eles voltado, como até mesmo opostos a este último – no início eles recebem o nome de lascívia –, mas através dos quais são engendradas, pouco a pouco, toda uma multidão de inclinações supérfluas e até mesmo antinaturais – as quais recebem o nome de luxúria. A ocasião para renegar o impulso natural pode ter sido apenas uma trivialidade; porém, o sucesso da primeira tentativa, a saber, tornar-se consciente de sua razão enquanto uma capacidade de estender-se para além dos limites aos quais todos os animais estão confinados, foi muito importante e decisivo para o seu modo de vida. Que tenha sido, pois, um fruto cujo aspecto, por meio de sua semelhança com outros frutos agradáveis já experimentados, convidou para a tentativa; que para isso tenha servido de exemplo um animal cuja natureza se adequasse a esse desfrute, ainda que este fosse prejudicial ao homem e, consequentemente, um instinto natural a ele se opusesse: isso pôde dar à razão a primeira ocasião para zombar da voz da natureza e, a despeito do seu protesto, fazer a primeira tentativa de uma escolha livre, a qual, por ser a primeira, provavelmente não se deu conforme à expectativa. O dano pode ter sido tão insignificante quanto se queira, mas abriu os olhos do homem (3:7). Este descobriu em si uma capacidade de escolher por si mesmo um modo de vida e não, como os outros animais, estar ligado a um único.

Ao prazer momentâneo que essa descoberta possa ter-lhe causado devem-se ter seguido imediatamente medo e apreensão em relação a como ele, que ainda não conhecia as coisas segundo suas propriedades latentes e efeitos longínquos, deveria pôr em obra a sua capacidade recém descoberta. Ele se deteve, como que à beira de um abismo; pois, a partir dos únicos objetos de seu desejo, para os quais até agora o instinto lhe havia conduzido, abriu-se-lhe uma infinidade de objetos a cuja escolha ele não sabia como chegar; ao mesmo tempo, uma vez experimentado esse custoso estado de liberdade, tornou-se-lhe então impossível retornar ao estado de servidão, sob o domínio do instinto.

Depois do instinto de alimentação, por meio do qual a natureza preserva cada indivíduo, o mais relevante é o instinto para o sexo, por meio do qual ela cuida da conservação de cada espécie. Uma vez tornada ativa, a razão não tardou em provar sua influência também sobre este último. O homem descobriu em seguida que o estímulo sexual, que nos animais se baseia em um impulso passageiro e em grande parte periódico, nele é capaz de ser prolongado e até mesmo aumentado por meio da imaginação, a qual de fato exerce sua função com mais moderação, mas ao mesmo tempo o impulsiona de modo tanto mais duradouro e uniforme quanto mais o objeto é afastado dos sentidos. Assim ele descobriu também que através disso se pode evitar o fastio a que conduz a satisfação de um desejo meramente animal. As folhas da figueira foram, portanto, produto de uma manifestação da razão muito maior do que ela mostrara nos primeiros estágios do seu desenvolvimento. Pois tornar uma inclinação mais intensa e duradoura afastando-se dos sentidos o seu objeto mostra já a consciência de algum domínio da razão sobre os impulsos e não simplesmente, como no primeiro passo, a capacidade de estar a serviço delas em maior ou menor extensão. O recato, uma inclinação para, por meio das boas maneiras – ocultando aquilo que poderia causar desprezo –, insuflar nos outros o respeito para conosco, ofereceu, enquanto verdadeira base de toda sociabilidade, o primeiro indício da formação do homem como uma criatura moral. Um pequeno começo que deu uma direção totalmente nova ao modo de pensar e é mais importante do que toda a série indeterminada dos desenvolvimentos posteriores da cultura.

O terceiro passo da razão, depois que se misturou às primeiras necessidades básicas imediatas, foi a espera refletida do futuro. Esta capacidade de gozar não meramente os momentos presentes da vida, mas também de tornar presente o tempo futuro, é o mais decisivo sinal da prerrogativa humana de, em conformidade com sua destinação, preparar-se para fins mais distantes. Mas ela é, ao mesmo tempo, a mais inesgotável fonte de preocupações e cuidados, evocados pelo futuro incerto e dos quais todos os outros animais estão dispensados. O homem, que tinha de alimentar a si mesmo, a uma esposa e às futuras crianças, anteviu o caráter penoso, sempre crescente, de seu trabalho; a mulher anteviu as dificuldades às quais a natureza sujeitou seu sexo e também aquelas que o homem, mais poderoso, lhe infligiria. No cenário desse quadro, ambos anteviram com medo aquilo que, após uma vida penosa, atinge inevitavelmente a todos os animais sem que estes se preocupem, a saber, a morte, e pareceram reprovar a si mesmos pelo uso da razão, que lhe causou tantos males, considerando-o um crime.

O quarto e último passo dado pela razão, elevando o homem completamente acima da sociedade com os animais, foi ter concebido que ele é verdadeiramente o fim da natureza e que nada que vive sobre a Terra pode competir com ele nesse aspecto. A primeira vez que ele disse à ovelha “a pele que você carrega a natureza não deu a você, mas a mim”, tomou a pele para si e vestiu-a (3:21), ele se deu conta do privilégio que, em virtude de sua natureza, possui sobre todos os outros animais, os quais ele passou a considerar não mais como seus companheiros na criação, mas sim como meios e instrumentos disponíveis à sua vontade para a realização de suas intenções, quaisquer que sejam elas. Esta representação implica, ainda que obscuramente, a ideia do seu oposto: ele não deve dirigir-se de tal modo a nenhum homem, mas tem de considerá-lo como participante igual nas dádivas da natureza; uma preparação distante para as limitações que a razão deve impor futuramente à vontade em relação a seus próximos, e que é muito mais necessária para o estabelecimento da sociedade do que a simpatia e o amor.

Este abandono do seio materno da natureza foi uma mudança honrosa, mas ao mesmo tempo perigosa, na medida em que o impeliu para fora da situação inofensiva e segura de uma infância sob proteção, como que para fora de um jardim a ele provido sem seu esforço, e lançou-o no vasto mundo onde tantas preocupações, esforço e males desconhecidos o aguardam (3:23). Futuramente, as dificuldades da vida lhe despertarão muitas vezes o desejo por um paraíso, criação de sua imaginação, onde em calma ociosidade e paz duradoura ele possa passar sua existência. Mas a incansável razão, posicionando-se entre ele e esse lugar imaginário de delícias, impulsiona irresistivelmente o desenvolvimento das capacidades nele postas e não permite o retorno ao estado de rudeza e simplicidade de que o arrancou (3:24). Ela o impulsiona a aceitar pacientemente o esforço odiado por ele, a perseguir as falsas joias que ele despreza e, diante das trivialidades cuja perda ele teme ainda mais, a esquecer a própria morte que o apavora.

Dessa exposição da primeira história humana resulta o seguinte: a saída do homem do paraíso, representado pela razão como a primeira morada da espécie, não foi outra coisa senão a passagem da rudeza de uma mera criatura animal para a humanidade, da muleta do instinto para a condução da razão, em uma palavra, a passagem da tutela da natureza para o estado da liberdade. Se o homem ganhou ou perdeu com essa mudança deixa de ser uma questão quando consideramos a destinação de sua espécie, que consiste em nada mais do que no progredir para a perfeição, por mais que as primeiras tentativas de alcançar essa meta, mesmo em uma longa série de membros sucessivos, tenham sido errôneas e mal sucedidas. Entretanto, se para a espécie esse curso é um progresso do pior para o melhor, para o indivíduo não é exatamente o mesmo. Antes da razão despertar não havia ainda mandamento ou proibição e, portanto, nenhuma transgressão; mas tão logo ela começa sua empreitada e entra em conflito com a animalidade em toda a sua força, surgem males e, o que é pior, na razão mais cultivada surgem vícios que eram completamente estranhos ao estado de ignorância e, portanto, de inocência.

O primeiro passo para fora desse estado foi, portanto, do lado da moral uma queda; do lado físico, a consequência dessa queda foi uma quantidade de males jamais conhecida, logo, uma punição. Assim, a história da natureza começa do bem, pois é uma obra de Deus; a história da liberdade começa do mal, pois é uma obra do homem. Para o indivíduo, que no uso de sua liberdade olha apenas para si mesmo, tal mudança foi uma perda; para a natureza, que direciona o seu fim à espécie, foi um ganho. Por isso o indivíduo tem motivos para atribuir a si mesmo a culpa por todos os males que o afligem e por todo mal que perpetra. Ao mesmo tempo, enquanto membro de uma espécie, tem também motivos para admirar e exaltar a sabedoria e conformidade a fins da ordenação.

O início do período seguinte foi: o homem passou do período da comodidade e da paz para o do trabalho e da discórdia enquanto prelúdio da união em sociedade. Aqui temos de dar novamente um grande salto e colocá-lo de súbito em posse dos animais domesticados e dos vegetais que, semeando e plantando, ele mesmo podia produzir para a sua alimentação (4:2), mesmo que a passagem da selvagem vida de caçador para a posse de animais domesticados, e da inconstante coleta de raízes ou frutas para a posse dos vegetais que ele produzia, tenha se transcorrido de maneira consideravelmente lenta.

Aqui devem ter-se iniciado as rixas entre homens que, até então, viviam pacificamente uns ao lado dos outros, e a consequência disso foi a sua separação segundo os diferentes modos de vida e sua dispersão pela terra. A vida pastoril é não apenas agradável, mas oferece também o sustento mais seguro, pois não falta pasto em um solo inabitado, vasto e distante. Inversamente, a agricultura é muito trabalhosa e dependente da inconstância do clima, portanto incerta. Ela exige também residência permanente, propriedade do solo e poder suficiente para defendê-lo. O pastor, entretanto, detesta essa propriedade, que limita sua liberdade de apascentar. No que se refere à vida pastoril, pode parecer que o agricultor inveja o pastor como mais bem aquinhoado pelos céus (4:4); de fato, porém, este lhe é bastante incômodo, pois o gado não poupa suas plantações quando pasta. Ora, posto que é fácil para o pastor, junto com seu rebanho, afastar-se para longe depois que causou o estrago, escapando de qualquer ressarcimento – já que ele não deixa para trás nada que não encontraria de modo igualmente fácil em qualquer outro lugar –, então foi certamente o agricultor quem primeiro teve de usar a força contra tais prejuízos, e quem, se não quisesse perder os frutos de seu longo labor, teve também de afastar-se o mais que podia (4:16). Essa separação inicia a terceira época.

Um terreno de cujo trabalho e plantio depende o sustento exige residência permanente, e a defesa do mesmo contra todas violações carece de um grande número de homens dispostos a prestar auxílio uns aos outros. Consequentemente, nesse modo de vida os homens não podiam mais se dispersar em famílias, mas tinham de se manter unidos e construir aldeias e cidades (4:17), de modo a proteger sua propriedade contra caçadores selvagens ou hordas de pastores nômades. As primeiras necessidades da vida, cuja aquisição exige um modo de vida diferente, podiam agora ser trocadas entre si. A partir daí teve de surgir a cultura e o começo da arte, do passatempo assim como do labor (4:20-22); mas o mais importante é que teve também de surgir a instituição de alguma constituição civil e justiça pública, primeiro decerto em relação apenas aos maiores atos de violência, cuja vingança não mais era deixada aos indivíduos, como no estado selvagem, mas a um poder legal que unifica o todo, isto é, a uma forma de governo contra a qual nenhum exercício da violência tinha lugar. A partir dessas primeiras e rudes disposições puderam desenvolver-se gradualmente todas as artes humanas, dentre as quais a mais vantajosa é arte da sociabilidade e segurança civil. O gênero humano pôde multiplicar-se e espalhar-se como colmeias, por meio do envio para todos os lados de colonos já formados. Com essa época começou também, e daí em diante cresceu, a desigualdade entre os homens, essa rica fonte de tanto mal, mas também de todo bem.

Os povos de pastores nômades, que reconhecem apenas Deus como seu senhor, cercavam os agricultores e habitantes das cidades, os quais têm um homem por senhor e autoridade (6:4). Como inimigos declarados de toda propriedade da terra, maltratavam aqueles e, inversamente, eram por eles odiados. Houve portanto guerra contínua entre ambos, ou ao menos ameaça de guerra. Com o tempo, o luxo crescente dos moradores da cidade, e sobretudo a arte de agradar, por meio da qual as mulheres das cidades ofuscam as sujas meretrizes dos desertos, deve ter sido um poderoso chamariz para que aqueles pastores estabelecessem relação com os primeiros e se transferissem para a reluzente miséria das cidades (6:1-2). Aí, então, por meio da mistura de dois povos que de outro modo seriam inimigos, com o fim de toda ameaça de guerra e ao mesmo tempo de toda liberdade, o despotismo de tiranos poderosos, de um lado, e uma cultura recém começada, de outro, misturada a todos os vícios do estado de rudeza, imersa em opulência sem alma e na mais abjeta escravidão, desviaram irresistivelmente o gênero humano da progressão do desenvolvimento de suas disposições para o bem tal como a natureza lhe traçara; e com isso ele mesmo se tornou indigno de sua existência (6:17).

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A prosa poética de Khalil Gibran

No começo da pandemia, quando estava na moda incentivarmo-nos mutuamente a ficar em casa, ganhei da minha sogra uma coleção de livros do famoso escritor libanês Khalil Gibran (1883-1931). São dez exemplares já amarelados e gastos da década de 1980, com tradução para o português de Mansour Challita. Raridades que hoje só se encontram nos melhores sebos. Calhou dessa dádiva chegar na mesma época em que finalmente terminei minha dissertação de mestrado. Depois de mais de dois anos de intensa pesquisa acadêmica, minha mente estava tão habituada à rigidez dos tratados analíticos de Aristóteles e ao rigor dos artigos científicos que julguei ser uma boa ideia permitir que ela devaneasse e se deleitasse, por algumas semanas, na leveza da literatura árabe de Gibran. Com o comércio, as praias e tudo que envolve lazer e vida social fechados por decreto, li quase todos os livros em poucas semanas, como um detento que lê por redução de pena. Como de costume, li com uma caneta na mão – pois como disse certa vez Ariano Suassuna: “se me tirarem a caneta, fico analfabeto”. A seguir, compartilho com vocês os trechos grifados, aqueles que me tocaram ou geraram insights e reflexões.


FILHOS

Vossos filhos não são vossos filhos. São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. Embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos. Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas, pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe. Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria, pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável. (O Profeta)


CASAMENTO

Vós nascestes juntos, e juntos permanecereis para todo o sempre. Juntos estareis quando as brancas asas da morte dissiparem vossos dias. Sim, juntos estareis até na memória silenciosa de Deus. Mas que haja espaço na vossa junção e que os ventos do céu dancem entre vós. Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão: Que haja antes um mar ondulante entre as praias de vossas almas. Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça. Dai de vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço. Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho, assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto, vibram na mesma harmonia. Dai vossos corações, mas não os confieis à guarda um do outro. Pois somente a mão da vida pode conter vossos corações. E vivei juntos, mas não vos aconchegueis em demasia; pois as colunas do templo erguem-se separadamente. E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro. (Khalil Gibran, O Profeta)


SOLIDÃO

Vieste só, e só passarás para o nevoeiro. Portanto, bebe tua taça sozinho e em silêncio. Os dias de outono deram a outros lábios outras taças e encheram-nas com vinho amargo e doce, tal como encheram tua taça. Bebe tua taça sozinho, embora ela tenha o sabor de teus próprio sangue e lágrimas, e bendiz a vida pela dádiva da sede. Porque sem sede teu coração seria a praia de um mar dissecado, sem canções e sem marés. Bebe tua taça sozinho, e bebe-a alegremente. Ergue-a bem alto acima de tua cabeça e brinda a todos os que bebem sozinhos. (Khalil Gibran, O Jardim do Profeta, pp. 45-46)


ALEGRIA E TRISTEZA

Quanto mais profundamente a tristeza cavar suas garras em vosso ser, tanto mais alegria podereis conter. Não é a taça em que verteis vosso vinho a mesma que foi queimada no torno do oleiro? E não é a lira que acaricia vossas almas a própria madeira que foi entalhada à faca? Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constituiu vosso deleite. Alguns dentre vós dizeis: “A alegria é maior que a tristeza”, e outros dizem: “Não, a tristeza é maior”. Eu, porém, vos digo que elas são inseparáveis. Vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama. Em verdade, estais suspensos como os pratos de uma balança entre vossa tristeza e vossa alegria. (O Profeta)


CORPO E ALMA

Vós sois espíritos, embora vos movais em corpos; e, como o óleo que queima na escuridão, sois chamas, embora contidas em lâmpadas. Se fôsseis somente corpos, então minha presença diante de vós e minhas palavras dirigidas a vós seriam mera futilidade, tal como um morto chamando os mortos. Mas não é assim. Tudo o que é imortal em vós é livre para o dia e a noite, e não pode ser confinado em casas ou atado a grilhões, pois tal é a vontade do Altíssimo. Vós sois seu hálito, tal como o vento, que não pode ser nem agarrado nem engaiolado. (Khalil Gibran, O Jardim do Profeta, pp. 36-37)


APARÊNCIAS

Somos fascinados pelas aparências e cegos às essências. (…) Não, meu amigo, não ates as aparências às realidades. E não julgues da essência de um homem pelas suas palavras e seu comportamento. (…) Não, a vida não vale pelas suas aparências, mas pelas suas essências. Os frutos não valem pelas suas cascas, mas pela sua polpa. Os homens não valem pelos seus rostos, mas pelos seus corações. E a religião não vale pelo que se manifesta nos templos e pelos ritos e tradições, mas pelo que se esconde nas almas e nas intenções. (Khalil Gibran, Cascas e Polpas, pp. 80-82)


COMIDA

Pudésseis viver do perfume da terra e, como uma planta, nutrir-vos da luz. Mas, já que deveis matar para comer e roubar do recém-nascido o leite de sua mãe para saciar vossa sede, fazei disso um ato de adoração. E que vossa mesa seja um altar onde os puros e os inocentes da floresta e da planície são sacrificados àquilo que é ainda mais puro e mais inocente no homem. Quando matardes um animal, dizei-lhe no vosso coração: “Pelo mesmo poder que te imola, eu também serei imolado e servirei de alimento, pois a lei que te entregou às minhas mãos me entregará a mãos mais poderosas”. (O Profeta)


GENEROSIDADE

Vós pouco dais quando dais de vossas posses. É quando dais de vós próprios que realmente dais. Pois, o que são vossas posses senão coisas que guardais por medo de precisardes delas amanhã? E que trará o amanhã ao cão prudente que enterra ossos na areia movediça enquanto segue os peregrinos para a cidade santa? E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade? Não é vosso medo da sede, quando vosso poço está cheio, a sede insaciável? Há os que dão pouco do muito que possuem, e fazem-no para serem elogiados, e seu desejo secreto desvaloriza suas dádivas. E há os que pouco têm e dão-no inteiramente. Esses confiam na vida e na generosidade da vida, seus cofres nunca se esvaziam. E há os que dão com alegria, e essa alegria é sua recompensa. E há os que dão com pena, e essa pena é seu batismo. E há os que dão sem sentir pena nem buscar alegria sem pensar na virtude: Dão como, no vale, o mirto espalha sua fragrância no espaço. Pelas mãos de tais pessoas, Deus fala; e através dos seus olhos, Ele sorri para o mundo. É belo dar quando solicitado; é mais belo, porém, dar sem ser solicitado, por haver apenas compreendido; e para os generosos, procurar quem recebe é uma alegria maior ainda que a de dar. Existe algo que possais guardar? Tudo que possuís será um dia dado. Dai agora, portanto, para que a época da dádiva seja vossa e não de vossos herdeiros. Dizeis muitas vezes: Eu daria, mas somente a quem merece. As árvores de vossos pomares não falam assim, nem os rebanhos de vossos pastos. Dão para continuar a viver, pois reter é perecer. Certamente, quem é digno de receber seus dias e suas noites é digno de receber de vós tudo o mais. E quem mereceu beber do oceano da vida, merece encher sua taça em vosso pequeno córrego. (Khalil Gibran, O Profeta)


ALEATÓRIAS

“E não vos esqueçais que a terra se rejubila de sentir os vossos pés desnudos e que os ventos anseiam por brincar com o vosso cabelo.” (Khalil Gibran, O Profeta)

“Não vos posso ensinar a rezar com palavras. Deus não escuta vossas palavras, exceto quando Ele próprio as pronuncia através de vossos lábios.” (Khalil Gibran, O Profeta)

“Afastai-me da sabedoria que não chora, da filosofia que não ri e da grandeza que não se inclina diante das crianças.” (Khalil Gibran, Curiosidades e Belezas, 1927, p. 16)

“Um só ramo em flor tem mais futuro que toda uma floresta seca; e numa só semente de trigo há mais vida que num montão de feno.” (Khalil Gibran, Curiosidades e Belezas, p. 60)

“O que não tem forma está sempre procurando uma forma, assim como as incontáveis nebulosas se transformariam de bom grado em sóis e luas.” (O Jardim do Profeta, p. 8)

“A Vida é mais velha que os seres vivos, a Beleza existia antes que o belo nascesse na Terra, e a Verdade era verdade antes de ser enunciada.” (O Jardim do Profeta, p. 14)

“O espaço que se estende entre ti e o teu vizinho com quem não te dás é sem dúvida maior do que o espaço que se entende entre ti e teu bem-amado que mora além das sete terras e dos sete mares.” (Khalil Gibran, O Jardim do Profeta, p. 31)


http://charlezine.com.br/ortodoxia-chesterton/

Saga de um mestrando (agora mestre)

No começo de 2018, mudei para São Paulo a fim de realizar um sonho que alimentei desde o início da graduação: cursar o mestrado em filosofia sobre a teoria da demonstração científica de Aristóteles no melhor lugar onde isso poderia ser feito: na UNICAMP, junto ao grupo de aristotélicos que chamei na dissertação de “escola de Campinas”, sob orientação de um dos maiores especialistas vivos na obra de Aristóteles, o professor Dr. Lucas Angioni. Juntando a isso o fato da UNICAMP ter recebido o título de melhor universidade da América Latina nos rankings da revista Times Higher Education de 2017 e 2018, e o fato do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UNICAMP ser conceito 6 na Capes (excelência internacional), eu tinha motivos mais que suficientes para dedicar a esse projeto minha atenção e meus esforços. Mas, como toda grande empreitada, essa veio acompanhada de muitos desafios.

O desafio da mudança foi o primeiro de muitos. Vendi o carro, os eletrodomésticos, doei alguns móveis, empacotei tudo, fiz as malas e viajei para São Paulo. Morei por dois meses na casa do amigo Titao Yamamoto, na Vila Mariana, pertinho do Parque do Ibirapuera, enquanto procurava um teto para chamar de lar em Campinas. Nesse tempo rodei de moto praticamente toda a região central de São Paulo, e viajava 100 km até Campinas duas vezes por semana, algumas vezes debaixo de tempestades assustadoras, para participar das atividades do mestrado. Depois disso mudei para Campinas de fato e morei num quitinete bem aconchegante a poucos metros do campus. No ano seguinte mudei para uma casa perto do campus que abriga simultaneamente uma república de estudantes e uma igreja cristã de tradição reformada: a Comunidade do Estudante Universitário – ou CEU, para os íntimos. Lá, fiz amizades que quero levar para a vida toda.

O nível de exigência do mestrado na UNICAMP foi outro grande desafio. Cheguei com aquele inglês básico e safado que a gente aprende nas escolas públicas (pelo menos na minha época e na minha escola), e tive que encarar no mestrado 80% da bibliografia e 100% dos eventos em inglês! Foi como aprender a nadar sendo jogado na água: ou eu nadava ou morria afogado. Fui me virando e, após dezenas de papers e muitas conferências com professores estrangeiros, meu inglês evoluiu “na tora”, como se diz aqui na Paraíba. Além do inglês, tive que estudar muito grego clássico, duas vezes por semana, para conseguir ler Aristóteles no original. Como se isso fosse pouca coisa, ainda precisei abortar meu projeto de pesquisa inicial e recomeçar outro praticamente do zero. Confesso que algumas vezes cheguei à exaustão mental e quis desistir.

Mas o maior desafio mesmo foi, sem dúvida, de caráter íntimo e pessoal. Depois de minha vida virar de cabeça pra baixo com um divórcio, tive que aprender a viver longe da minha filha, Catarina, de quem sempre fui muito apegado. Quando fui pra São Paulo ela era um bebê de apenas dois anos; quando voltei, já estava com quatro. Alguns dirão que perdi a melhor fase da vida de uma criança, e eu tendo a admitir que talvez isso seja verdade. Meu maior desejo sempre foi estar perto dela, mas como a UFPB estava me bancando financeiramente com um afastamento remunerado do trabalho, desistir do mestrado e voltar pra casa nunca foi uma opção. Com exceção das férias que passei em João Pessoa, todo o resto do tempo tive que matar a saudade dela com frias e distantes chamadas de vídeo. Ao mesmo tempo em que doía, a saudade era mais um fator motivador para que eu me dedicasse e concluísse o mestrado. Essa é a razão da dedicatória da minha dissertação ser tão curta: “a Catarina”.

foto diploma mestradoE por falar em dissertação, sei que muitos de vocês devem estar curiosos para lê-la (ou pelo menos dar uma olhadinha, já que quase ninguém hoje em dia se interessa pelo que disseram filósofos mortos há mais de dois milênios), então resolvi compartilhar aqui o arquivo PDF, é só clicar no link abaixo:


A TEORIA ARISTOTÉLICA DA DEMONSTRAÇÃO CIENTÍFICA


Hoje sei que todo sacrifício valeu a pena, e só tive certeza disso após ouvir na defesa, depois de quase três horas de arguição, estas palavras dos membros da banca:

Festival da Carne de Cachorro acontece na China apesar dos protestos (veja as fotos)

Veja também: Experimentos científicos macabros realizados pela URSS com cachorros

O Festival da Carne de Cachorro (fotos abaixo), realizado todos os anos na cidade de Yulin, no sul da China, acontece de 21 a 30 de junho, que é geralmente uma das épocas mais quentes do ano por lá. Durante dez dias, mais de dez mil cães são comidos no festival gastronômico, onde se podem encontrar outras iguarias como carne de gato. O consumo de carne de cachorro é tradicional na China e, de acordo com a tradição, traz sorte e saúde, afasta doenças e aumenta o desempenho sexual dos homens.

O festival tem recebido muitas críticas, tanto internacionais quanto na própria China. Ativistas denunciam que os animais são abatidos de maneira cruel e que as práticas de higiene no festival não estão de acordo com os regulamentos chineses. Há acusações de que cães são trazidos para Yulin de toda a China em condições apertadas, e os visitantes do festival relataram ter visto alguns animais com coleiras, indicando que são animais de estimação roubados. Os ativistas dos direitos dos animais salvam centenas de cães todos os anos interceptando caminhões cheios que se dirigem para o sul.

Comer cachorro não é ilegal na China. Estima-se que cerca de 20 milhões destes animais são mortos todos os anos para consumo humano e, embora o festival só aconteça desde 2009, o costume deve ter pelo menos 400 anos. Mas os tempos estão mudando. Na China já foi proibido ter cães como animais de estimação, mas hoje a posse de cães tornou-se popular entre a crescente classe média chinesa: existem 62 milhões de cães registados como animais de estimação. Com o tempo, os cães começam a ser vistos com novos olhos. Várias celebridades e muitos jovens têm se manifestado cada vez mais nas redes sociais criticando o ato de comer carne de cachorro.

Mesmo antes do surgimento da Covid-19, o consumo de carne de cachorro já mostrava um declínio acentuado na China. Com o impacto da pandemia, que começou em Wuhan por causa do consumo de carne de morcego, o Governo chinês aprovou uma lei que proíbe o comércio e consumo de animais selvagens. A lei não se aplica especificamente aos cães, mas o Ministério da Agricultura chinês reclassificou os cães como animais de estimação, removendo-os da lista de animais comestíveis. Essa alteração pode ser um sinal de que uma proibição mais ampla está sendo planejada.

Uma pesquisa nacional realizada em 2016 constatou que 64% dos cidadãos chineses queriam o fim do festival de Yulin e 69,5% nunca comeram carne de cachorro. Outra sondagem de 2017 revelou que, em Yulin, quase três quartos das pessoas não comem carne de cachorro regularmente, apesar dos esforços dos comerciantes para promovê-la. Alguns fornecedores especializados contactados pela AFP por telefone em Pequim reconhecem que este mercado começa a enfrentar dificuldades. “Há cada vez menos clientes”, declarou um funcionário, identificando-se como Chen, para quem o problema está na obsessão pela segurança alimentar que, como consequência da Covid-19, se espalhou por todo o país. Em abril, as cidades de Shenzhen e Zhuhai foram as primeiras na China a proibir oficialmente o consumo de carne de gato e cachorro.

Fonte: Diário da Notícia


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Linha do tempo da Covid-19

Veja também:
Breve história das pandemias
Uma voz dissidente na pandemia
A crise do Coronavírus, por Yuval Harari

Este documentário foi produzido com um único objetivo: reconstituir os primeiros passos da maior pandemia da nossa geração. Para isso, o canal Spotniks fez uma linha do tempo com literalmente centenas de informações fundamentais para entender como saímos de um surto de pneumonia supostamente inofensivo numa cidade do interior da China para o “maior perigo à humanidade desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, segundo eles.

Foram centenas de horas dedicadas à pesquisa, roteiro, produção e edição dessa reportagem, com quase mil fontes consultadas – entre artigos científicos e matérias dos principais veículos de comunicação do mundo – das quais quase 300, diretamente relacionadas ao material final, estão disponíveis aqui (roteiro em PDF, 61 páginas). Eles prometem que em breve publicarão uma linha do tempo específica sobre o Brasil.


A OMS é uma organização indispensável à saúde mundial, com um largo histórico de acertos. Mas vem sistematicamente pisando na bola e precisa de uma reforma. É o que mostra mais um excelente documentário do Spotniks, que você pode assistir abaixo:

Breve história das pandemias

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Uma voz dissidente na pandemia
A crise do Coronavírus, por Yuval Harari

Pandemias calamitosas não são novidade na história da medicina. Peste bubônica, peste negra, gripe espanhola, gripe asiática, gripe aviária, gripe suína, ebola e coronavírus já assolaram o mundo deixando um rastro de mortes e pânico na população mundial.

Durante a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C), a febre tifoide matou um quarto da população da cidade de Atenas. A varíola matou um quarto dos infectados entre os anos 165 e 180 d.C. Foram 5 milhões de mortes no total. A peste de Cipriano, possivelmente causada por varíola ou sarampo, se espalhou pelo Império Romano entre os anos 250 e 271 d.C. Segundo relatado, em seu auge chegou a matar 5 mil pessoas por dia em Roma.

PS: Se quiser aprender mais sobre esse tema, assista abaixo, no final deste post, um episódio do canal Nerdologia sobre as epidemias da Antiguidade.

A Peste Bubônica começou no Egito por volta do ano 541 d.C. e chegou a Constantinopla (então capital do Império Romano do Oriente ou Império Bizantino, atual Istambul) na primavera seguinte, enquanto matava, de acordo com relatos do cronista bizantino Procópio de Cesareia, cerca de 10 mil pessoas por dia, atingindo 40% dos habitantes da cidade. Um quarto da população do oriente médio morreu.

A famigerada Peste Negra, como ficou conhecida, era na verdade a velha peste bubônica, que voltou à Europa 800 anos depois do último surto. Começando a contaminação na Ásia, a doença chegou à Europa em 1348 (possivelmente através de comerciantes fugindo de italianos lutando na Crimeia), e matou cerca de 20 milhões de pessoas em apenas 6 anos. Isso equivale a um quarto da população mundial na época.

gripe espanhola 1918

O século 20 foi marcado por duas pandemias de gripe que atormentaram toda a população mundial. Em 1918, no final da Primeira Guerra Mundial, o surto de gripe espanhola se alastrou pelo mundo, contaminando mais de 500 milhões de pessoas (quase 27% da população mundial na época). Nesse ano morreu mais gente de gripe espanhola do que em toda a Guerra. Estimativas apontam que o número de mortes pode ter chegado à marca de 100 milhões de pessoas, perto de 5% da população mundial. Foi uma das pandemias mais letais da história da humanidade.

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No quesito pandemias, o século 21 começou com tudo. Se você está espantado com o avanço assombroso do surto de COVID-19 pelo mundo, saiba que esta é apenas uma variação nova de um velho conhecido. O coronavírus já foi o responsável pela epidemia de SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome, ou Síndrome Respiratória Aguda Grave) em 2003. Além desses, já passamos pelos surtos de gripe aviária em 2004, gripe suína em 2009 e do terrível vírus Ebola, que atingiu vários países da África ocidental em 2014.

E foi justamente em meio ao surto de Ebola em 2014 que Bill Gates falou em um evento TED sobre os riscos de futuras pandemias e sobre a responsabilidade que todos nós temos, enquanto humanidade, de colocar todas as nossas boas ideias em prática para melhorar o sistema de saúde, treinar os profissionais de saúde e combater novas pandemias. “Não há razão para pânico, mas precisamos nos apressar”, diz Gates.



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Uma voz dissidente na pandemia

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Linha do tempo da Covid-19
Breve história das pandemias
A crise do Coronavírus, por Yuval Harari

Na média, intelectuais e acadêmicos tendem a ser menos céticos quanto aos perigos da pandemia de COVID-19 e menos críticos às medidas de prevenção do contágio. Tendem portanto a apoiar mais os decretos de isolamento social e a obedecer mais o imperativo sanitário: “fique em casa”. É claro que eles também são mais abastados, têm poupanças e investimentos, a geladeira e a dispensa mais abastecidas e moram em casas maiores e mais confortáveis que a média da população. É claro também que eles possuem cargos públicos, geralmente em Universidades, o que lhes permite trabalhar em home office – ou simplesmente não trabalhar – mantendo a renda intacta. Tudo isso facilita muito o discurso do “fique em casa”. Mas por ora vamos deixar esse fator de lado e ficar somente com este: eles geralmente são mais engajados e propensos a apoiar e obedecer o imperativo sanitário em grande parte porque acreditam mais na ciência. E o que diz a ciência? Que ficar em casa, fechar o comércio, evitar aglomerações e impor medidas radicais de isolamento social reduzem o contágio. E embora o povão, cada vez mais distante do debate acadêmico, desconfie disso, sabemos que é um fato.

Alguns intelectuais e acadêmicos, porém, soam como vozes dissidentes. É o caso do renomado filósofo italiano Giorgio Agamben. Desde o início dessa “onda de pânico que paralisou o mundo”, Agamben tem criticado duramente os abusos de poder, o aumento da vigilância e a legitimação do estado de exceção nas medidas de isolamento e lockdown, com restrição e cerceamento das liberdades individuais, inclusive de ir e vir. Mas não pense em Agamben como um negacionista desinformado: ele está à par das mais recentes publicações científicas atualizando o andamento das pesquisas e as estatísticas da pandemia; e ele não duvida dessas publicações, das estatísticas, dos resultados e do método científico. Mesmo assim, é um notável crítico das medidas e decretos governamentais de isolamento e lockdown, especialmente na Itália, onde vive. Por quê? Não se trata de ignorar a ciência, se trata de não considerar apenas a ciência, de ter uma visão de mundo mais ampla, de considerar todas as variáveis.

Em um artigo de opinião intitulado L’invenzione di un’epidemia, o filósofo de 78 anos diz o seguinte: “Diante de medidas de emergência frenéticas, irracionais e completamente desmotivadas para uma suposta pandemia do novo coronavírus, é necessário começar pelas declarações do CNR (Conselho Nacional de Pesquisa da Itália), segundo as quais ‘a infecção, a partir de dados epidemiológicos disponíveis hoje em dezenas de milhares de casos, causa sintomas leves e moderados (um tipo de gripe) em 80-90% dos casos. Em 10-15%, a pneumonia pode se desenvolver, cujo curso é benigno na maioria absoluta. Estima-se que apenas 4% dos pacientes necessitem de internação na UTI’. Se essa é a situação real, por que a mídia e as autoridades se esforçam para espalhar um clima de pânico, causando um estado real de exceção, com sérias limitações de mobilidade e uma suspensão do funcionamento normal das condições de vida e trabalho?”

Agamben argumenta que essas medidas desproporcionais se devem “mais uma vez à tendência crescente de usar o estado de exceção como um paradigma normal de governo”: “Parece que, uma vez esgotado o terrorismo como causa de medidas excepcionais, a invenção de uma pandemia poderia oferecer o pretexto ideal para estendê-los além de todos os limites. Outro fator, não menos perturbador, é o estado de medo que nos últimos anos se espalhou claramente na consciência dos indivíduos e que se traduz em uma necessidade real de estados de pânico coletivo, aos quais a pandemia ainda oferece o pretexto ideal. Assim, em um perverso círculo vicioso, a limitação da liberdade imposta pelos governos é aceita em nome de um desejo de segurança que foi solicitado pelos próprios governos que agora estão intervindo para satisfazê-lo.”

O filósofo denuncia que, sob o pretexto da pandemia, as autoridades passaram a tratar cada indivíduo como um potencial transmissor do vírus, assim como a chamada “guerra ao terror” passou a tratar cada cidadão como um potencial terrorista no início do século. Se diz chocado com as cenas dantescas de pessoas sendo presas nas ruas, praças, praias, comércios sendo fechados, vias públicas sendo interditadas e pessoas sendo agredidas pela polícia pelo simples fato de estarem exercendo seu direito fundamental de ir e vir. “Se o governo pode suspender seus direitos a qualquer momento por considerar que algo é uma crise, então você não tem direitos, tem permissões”, diz.

Agamben critica o fato de que as pessoas parecem dispostas a sacrificar tudo – ou quase tudo – para não ficarem doentes. “Nossos mortos não têm direito a cerimônias fúnebres e não sabemos o que pode ter acontecido com os cadáveres de pessoas queridas. (…) Qual o significado das relações humanas numa sociedade que se habituou a viver dessa maneira por um período que não se sabe quanto tempo irá durar? Que sociedade é essa que só reconhece a sobrevivência como valor?”, questiona. Lamenta ainda o fato de que “as pessoas parecem não se dar conta de que suas vidas foram reduzidas a uma condição meramente biológica, que perderam qualquer dimensão social e política, e até mesmo humana e afetiva”, e de que “a sociedade sacrificou a sua liberdade em nome de supostas ‘razões de segurança’ e, por isso mesmo, está condenada a viver num estado de medo e insegurança perenes”. Em suma, defende que um governo ou uma autoridade que queira enfrentar bem a pandemia com políticas públicas acertadas e sensatas não pode olhar apenas para os artigos médicos e epidemiológicos, ela precisa olhar também para a vida afetiva e financeira das pessoas.


Nota que talvez vire post no futuro: O melhor legado dessa pandemia foi fazer as pessoas, empresas, instituições e governos perceberem que já temos tecnologia e meios viáveis de fazer muita coisa remotamente, que é obsoleto e arcaico exigir a presença física de pessoas ou de informação (documentos) para resolver o que pode facilmente ser resolvido à distância. Nesse sentido – e somente nesse –, é positivo e desejável que a noção de “distanciamento social” persista mesmo após o fim da pandemia e adquira novo significado: dessa vez não sobre saúde ou segurança, mas sobre eficiência, sobre economia de tempo e recursos, sobre um mundo com menos burocracia.

A crise do Coronavírus, por Yuval Harari

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Uma voz dissidente na pandemia
Linha do tempo da Covid-19
Breve história das pandemias

Yuval Noah Harari, historiador, filósofo e autor dos best-sellers “Sapiens – uma breve história da humanidade” (2011) e “Homo Deus – uma breve história do amanhã” (2015), trouxe à tona sua percepção da pandemia de coronavírus que a humanidade está enfrentando. Nairah Matsuoka, jornalista e analista de conteúdo da HSM, destaca os principais pontos do artigo publicado na revista Time do dia 15 de março.


Muitos culpam a globalização pela pandemia de coronavírus e dizem que a única maneira de evitar mais surtos desse tipo é “desglobalizar” o mundo. Construa muros, restrinja viagens, reduza o comércio. No entanto, embora a quarentena de curto prazo seja essencial para interromper as epidemias, o isolacionismo de longo prazo levará ao colapso econômico sem oferecer nenhuma proteção real contra doenças infecciosas. O verdadeiro antídoto para a epidemia não é a segregação, mas a cooperação.

As epidemias mataram milhões de pessoas muito antes da era atual da globalização. No entanto, a incidência e o impacto das epidemias diminuíram drasticamente. Apesar de surtos horrendos, como AIDS e Ebola, no século 21 as epidemias matam uma proporção muito menor de humanos do que em qualquer outro período anterior à Idade da Pedra. Isso ocorre porque a melhor defesa que os seres humanos têm contra patógenos não é o isolamento – é a informação. A humanidade tem vencido guerras contra epidemias porque, na corrida armamentista entre patógenos e médicos, os patógenos dependem de mutações cegas, enquanto os médicos dependem da análise científica da informação.

Durante o século passado, cientistas, médicos e enfermeiros em todo o mundo reuniram informações e, juntos, conseguiram entender o mecanismo por trás das epidemias e os meios para combatê-las. A teoria da evolução explicou por que e como surgem novas doenças e doenças antigas se tornam mais virulentas. A genética permitiu que os cientistas espiassem o próprio manual de instruções dos patógenos. Embora o povo medieval nunca tenha descoberto o que causou a Peste Negra, os cientistas levaram apenas duas semanas para identificar o novo coronavírus, sequenciar seu genoma e desenvolver um teste confiável para identificar pessoas infectadas.

Depois que os cientistas entenderam o que causa as epidemias, ficou muito mais fácil combatê-las. Vacinas, antibióticos, higiene aprimorada e uma infra-estrutura médica muito melhor permitiram que a humanidade ganhasse vantagem sobre seus predadores invisíveis. Em 1967, a varíola ainda infectou 15 milhões de pessoas e matou 2 milhões delas. Mas, na década seguinte, uma campanha global de vacinação contra a varíola foi tão bem-sucedida que, em 1979, a Organização Mundial da Saúde declarou que a humanidade havia vencido e que a varíola havia sido completamente erradicada.

Você não pode se proteger fechando permanentemente suas fronteiras. Lembre-se de que as epidemias se espalharam rapidamente, mesmo na Idade Média, muito antes da era da globalização. Portanto, mesmo que você reduza suas conexões globais ao nível da Inglaterra em 1348, isso ainda não seria suficiente. Para realmente se proteger através do isolamento, ficar medieval não serve. Você teria que ficar na Idade da Pedra.

A história indica que a proteção real vem do compartilhamento de informações científicas confiáveis e da solidariedade global. Quando um país é atingido por uma epidemia, deve estar disposto a compartilhar honestamente informações sobre o surto, sem medo de uma catástrofe econômica – enquanto outros países devem poder confiar nessas informações e devem estender a mão amiga, em vez de ostracizar a vítima. Hoje, a China pode ensinar aos países de todo o mundo muitas lições importantes sobre o coronavírus, mas isso exige um alto nível de confiança e cooperação internacional.

A cooperação internacional é necessária também para medidas efetivas de quarentena. Quarentena e bloqueio são essenciais para impedir a propagação de epidemias. Mas quando os países desconfiam um do outro e cada país sente que é o seu próprio país, os governos hesitam em tomar medidas tão drásticas. Se você descobrisse 100 casos de coronavírus no seu país, iria bloquear imediatamente cidades e regiões inteiras? Em grande medida, isso depende do que você espera de outros países. Bloquear suas próprias cidades pode levar ao colapso econômico. Se você acha que outros países irão ajudá-lo – será mais provável que você adote essa medida drástica. Mas se você pensa que outros países o abandonarão, provavelmente hesitaria até que seja tarde demais.

Talvez a coisa mais importante que as pessoas devam perceber sobre essas epidemias seja que a disseminação da epidemia em qualquer país ponha em perigo toda a espécie humana. Isso ocorre porque os vírus evoluem. Vírus como o corona se originam em animais, como os morcegos. Quando eles pulam para os seres humanos, inicialmente os vírus estão mal adaptados aos seus hospedeiros humanos. Enquanto se replicam em humanos, os vírus ocasionalmente sofrem mutações, a maioria delas inofensiva.

Mas, de vez em quando, uma mutação torna o vírus mais infeccioso ou mais resistente ao sistema imunológico humano – e essa cepa mutante do vírus se espalha rapidamente na população humana. Como uma única pessoa pode hospedar trilhões de partículas de vírus que sofrem replicação constante, toda pessoa infectada oferece ao vírus trilhões de novas oportunidades para se tornar mais adaptado aos seres humanos. Cada pessoa infectada é como uma máquina de jogo que fornece ao vírus trilhões de bilhetes de loteria – e o vírus precisa comprar apenas um bilhete vencedor para prosperar.

Enquanto você lê essas linhas, talvez uma mutação semelhante esteja ocorrendo em um único gene no coronavírus que infectou uma pessoa em Teerã, Milão ou Wuhan. Se isso de fato está acontecendo, é uma ameaça direta não apenas aos iranianos, italianos ou chineses, mas também à sua vida. Pessoas de todo o mundo compartilham um interesse de vida ou morte em não dar ao coronavírus essa oportunidade. E isso significa que precisamos proteger todas as pessoas em todos os países.

Na luta contra o vírus, a humanidade precisa proteger estreitamente as fronteiras. Mas não as fronteiras entre os países. Pelo contrário, precisa proteger a fronteira entre a espécie humana e a esfera do vírus. O planeta Terra está se unindo a inúmeros vírus, e novos vírus estão em constante evolução devido a mutações genéticas. A fronteira que separa essa esfera de vírus da espécie humana passa dentro do corpo de todo e qualquer ser humano. Se um vírus perigoso consegue penetrar nesta fronteira em qualquer lugar do mundo, coloca toda a espécie humana em perigo.

Ao longo do século passado, a humanidade fortaleceu essa fronteira como nunca antes. Os modernos sistemas de saúde foram construídos para servir de barreira nessa fronteira, e enfermeiros, médicos e cientistas são os guardas que a patrulham e repelem os invasores. No entanto, longas seções dessa fronteira foram deixadas lamentavelmente expostas. Existem centenas de milhões de pessoas em todo o mundo que carecem de serviços de saúde básicos. Isso coloca em perigo todos nós.

Estamos acostumados a pensar em saúde em termos nacionais, mas fornecer melhores cuidados de saúde para iranianos e chineses ajuda a proteger também israelenses, americanos e brasileiros de epidemias. Essa verdade simples devia ser óbvia para todos, mas infelizmente ela escapa até mesmo às pessoas mais importantes do mundo.

Hoje a humanidade enfrenta uma crise aguda, não apenas devido ao coronavírus, mas também devido à falta de confiança entre os seres humanos. Para derrotar uma epidemia, as pessoas precisam confiar em cientistas e especialistas, os cidadãos precisam confiar no governo, nas autoridades públicas, e os países precisam confiar uns nos outros. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis minaram deliberadamente a confiança na ciência, nas autoridades públicas e na cooperação internacional. Como resultado, agora estamos enfrentando esta crise desprovida de líderes globais que podem inspirar, organizar e financiar uma resposta global coordenada.

Xenofobia, isolacionismo e desconfiança agora caracterizam a maior parte do sistema internacional. Sem confiança e solidariedade global, não seremos capazes de parar a epidemia de coronavírus, e provavelmente veremos mais dessas epidemias no futuro. Mas toda crise também é uma oportunidade. Esperamos que a epidemia atual ajude a humanidade a perceber o grave perigo que representa a desunião global. Neste momento de crise, a luta crucial ocorre dentro da própria humanidade. Se essa epidemia resultar em maior desunião e desconfiança entre os seres humanos, será a maior vitória do vírus. Quando os humanos brigam, os vírus dobram. Por outro lado, se a epidemia resultar em uma cooperação global mais estreita, será uma vitória não apenas contra o coronavírus, mas contra todos os patógenos futuros.

Como “visitar” museus sem sair de casa

Entre as medidas tomadas para se evitar a disseminação do novo coronavírus estão a recomendação de home office, a orientação de evitar aglomerações, aulas suspensas, shows cancelados, eventos esportivos cancelados, museus fechados, entre outras. “Fiquem em casa” é o que mais se ouve. Durante esse período, a visitação virtual e gratuita a museus, galerias e bibliotecas públicas de todo o mundo são algumas opções para se ter acesso a cultura e entretenimento. Muitos desses museus já ofereciam a opção antes mesmo da pandemia de coronavírus. Veja abaixo algumas dicas do G1 com opções para o período de quarentena ou de isolamento domiciliar ou hospitalar.

Na Europa, o Museu do Louvre, em Paris, está fechado por tempo indeterminado, mas conta com visitação virtual em suas salas e galerias. O Museu Britânico, em Londres, além da possibilidade de acompanhar as coleções, também traz uma loja virtual que permite a compra de réplicas de algumas obras, entre outros objetos. O Museu do Prado, em Madri, conta com uma página especial para explorar suas coleções. O Museu Arqueológico de Atenas apresenta parte de sua coleção, com fotos e descrições, através de seu site. Na Itália, a Pinacoteca de Brera, em Milão, está fechada mas convoca o público para continuar acompanhando seu acervo através do site; a Galeria Uffizi, em Florença, conta com dicas de seus curadores para visitação virtual de parte de suas coleções; e alguns museus do Vaticano contam com parte de seu acervo online.

Nos Estados Unidos, o Museu Metropolitano de Nova York, após o anúncio de seu fechamento, convidou seus visitantes para a experiência online. Em Washington DC, a Galeria Nacional de Arte conta com um tour virtual em vídeo com as exposições atuais. Nele, o espaço de arte analisa detalhadamente os destaques da coleção com gravações em áudio e vídeo de palestras de artistas e curadores. Aqui no Brasil, na cidade de São Paulo, temos o Museu da Imagem e do Som, que também conta com um acervo virtual, e o Museu Casa de Portinari, que tem um tour virtual do espaço em seu site.

Além dos links acima, o Google Arts & Culture reúne dezenas de museus e galerias ao redor do mundo e permite visitas virtuais em espaços de arte. Com o serviço, o internauta tem a possibilidade de ver obras de renomados artistas e conhecer suas histórias. Em 2016, por exemplo, o Google Arts & Culture e o Museu Nacional, na cidade do Rio de Janeiro, iniciaram uma colaboração destinada a digitalizar a coleção do museu e disponibilizá-la para todos os usuários online. Depois de ser totalmente destruído por um incêndio em 2018, o museu convida você a redescobrir séculos de patrimônio cultural preservado nesse link. Se preferir, faça o download do aplicativo para Android ou IOS.


Aplicativo permite passeio virtual pelo Museu do Ipiranga

Público poderá acompanhar ambientes e exposições enquanto aguarda inauguração do museu, prevista para 2022; também é possível fazer a visita usando o navegador de internet, como explica matéria no Jornal da USP.


Como parte das atividades que antecedem a inauguração do Novo Museu do Ipiranga, prevista para setembro de 2022 por ocasião dos 200 anos de Independência do Brasil, o público pode contar agora com uma viagem virtual por algumas áreas em volta do edifício-monumento e por exposições interativas. A ação faz parte do Museu do Ipiranga Virtual, plataforma em que o visitante constrói um avatar, pode mudar de roupas e, depois, partir para alguns passeios. A visita pode ser feita pelo próprio navegador do site ou por meio de aplicativos, disponíveis para os sistemas Windows e XboxOne e também para iPhone e iPad. Durante o tour virtual, é possível acompanhar duas exposições com itens de destaque do acervo do museu: Dirigíveis de Santos Dumont e Personagens da Independência, além de assistir a vídeos sobre o andamento da obra, participar de quiz sobre curiosidades do museu, jogar minigames e conhecer algumas características da fachada do edifício. Desenvolvido em conjunto com a Superintendência de Tecnologia da Informação da USP, o ambiente virtual surgiu a partir de pesquisas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) com o apoio dos Programas de Exposições e de Ação Educativa do museu. O trabalho foi patrocinado pela empresa farmacêutica EMS.

Sobre o Museu do Ipiranga

Inaugurado em 7 de setembro de 1895 e integrado à USP em 1963, o Museu do Ipiranga está fechado para visitação do público desde 2013, por conta da necessidade de obras de restauração e modernização. O restauro e a modernização do edifício histórico começaram após as comemorações de 7 de setembro de 2019. A obra é patrocinada via Lei de Incentivo à Cultura e deve custar cerca de R$ 139,5 milhões, custeada pelas empresas: Banco Safra, Banco Bradesco, Caterpillar, Comgás, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), EDP, EMS, Honda, Itaú, Vale, SABESP e Pinheiro Neto Advogados, além da parceria da Fundação Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal.