Efeito Dunning–Kruger: a confiança da incompetência

Reflexão de Aires Almeida.

Numa passagem do seu ensaio “O triunfo da estupidez”, de 1933, o filósofo britânico Bertrand Russell afirmou: “A causa principal da dificuldade que enfrentamos é que, no mundo moderno, os estúpidos estão cheios de certezas, ao passo que os inteligentes estão cheios de dúvidas”. Esta é uma afirmação de carácter empírico, certamente baseada no que o filósofo vinha observando à sua volta. Poderia, no entanto, não passar de uma impressão enganadora. Mas, graças às experiências levadas a cabo pelos psicólogos sociais americanos David Dunning e Justin Kruger, sabemos agora que Russell não estava errado. Além de um filósofo de primeira linha, parece que Russell foi também um observador perspicaz.

A intuição de Russell é a de que aqueles que se mostram mais convictos na defesa de certas ideias (ou seja, os que gritam mais alto e de forma mais convicta) tendem a sobrevalorizar a sua competência na matéria em causa. É precisamente o fato de ignorarem os limites da sua ignorância que os leva a sobrevalorizar o pouco que sabem, julgando ser muito. Ou seja, precisariam ser suficientemente competentes para reconhecerem a sua própria incompetência. Pelo contrário, aqueles que conhecem muito um dado assunto já são suficientemente competentes para admitirem os seus limites, o que os leva a ser mais cautelosos nas suas afirmações.

Isso é precisamente o que mostra o chamado efeito Dunning-Kruger, um viés cognitivo que leva as pessoas com competências medianas a confiar demasiado no seu desempenho, autoavaliando-o de modo favorável, ao passo que as pessoas com competências acima da média tendem a avaliar mais severamente o seu desempenho, como se pode ver no gráfico elaborado a partir das experiências realizadas por aqueles dois psicólogos:

Isto permite explicar a confiança de algumas pessoas ao insistirem convictamente em meia-dúzia de ideias, acreditando que isso basta para vencer qualquer debate. E explica, por outro lado, o fato de muitas pessoas que conhecem com profundidade um assunto se sentirem frequentemente frustradas — ou mesmo derrotadas — ao debater com quem tem um conhecimento superficial ou mediano.


Essa reflexão me fez lembrar do resultado de uma pesquisa que foi noticiada recentemente no O Globo e na CNN, segundo a qual 27% dos britânicos entrevistados responderam convictamente que, se começassem a treinar hoje, conseguiriam se classificar para os Jogos Olímpicos de Los Angeles em 2028 em alguma modalidade esportiva — prova evidente de que desconhecem completamente a excepcionalidade de um atleta profissional de alto desempenho e o nível de excelência e competitividade das modalidades olímpicas.



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Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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