Julgando o cinema do passado

Cada vez mais o cinema do passado corre o risco de desaparecer. Por quê? É o que responde este artigo de opinião de André Brandão para o site da Brasil Paralelo.


Numa entrevista recente, o diretor Steven Spielberg disse que se arrependeu de alterar cenas de E.T.: O Extraterrestre (1982) para o relançamento do filme em 2002. O incomodavam as cenas nas quais agentes do FBI apontam armas de fogo para crianças. Ele decidiu trocar digitalmente as armas de fogo por rádios, para remover o peso que ele via nas cenas em questão. Anos depois ele diz se arrepender, argumentando que o filme era um produto de seu tempo, e deveria ser tratado como tal. O diretor ainda defendeu que nenhum filme ou livro deveria ser revisado, de maneira voluntária ou forçada, para supostamente agradar o público atual, posicionando-se contra qualquer censura desse tipo. Spielberg diz que “ninguém deveria tirar o chocolate da Fantástica Fábrica de Chocolate“. Ele se refere a como edições recentes dos livros de Roald Dahl têm sido revisadas, e em boa medida reescritas, para “não ofender” e garantir a “relevância” na atualidade.

Muitas vezes, o público desavisado nem percebe essas alterações. Mas essa é uma infeliz tendência dos “guardiões” da cultura: editores, produtores e promotores culturais que intermediam a produção dos artistas de fato (vivos ou mortos) e nós, o público. Cada vez mais o olhar do presente, carregado de todas as tendências politicamente corretas e interesses políticos do dia, combinados ao desrespeito e arrogância que os “iluminados” de hoje têm em relação às obras que nos foram legadas, distorcem nosso olhar sobre a produção cultural de ontem e de hoje. Com crescente frequência, suas intervenções se tornam mais profundas e silenciosas. Auxiliados pela tecnologia, muitas das mudanças podem ser realizadas sem que o grande público possa se opor ou se quer perceber. Mas como?

A armadilha da distribuição digital

Plataformas de streaming, como Netflix, Amazon Prime, HBO Max e Disney+, ao serem assinadas, disponibilizam o acesso ao seu catálogo digital de filmes, mas em momento algum o cliente toma posse de algo. O que o cliente adquire ao assinar é o direito de acessar a mídia em um servidor remoto e de reproduzi-la em sua casa. A sua TV, computador ou celular acessa, pela internet, o computador onde está o arquivo digital que é de fato o filme, e que é controlado por essas empresas. Abre então o arquivo e o reproduz para que você assista.

Por mais óbvio que seja, é importante ter isto em mente ao comparar com o modelo anterior, das fitas VHS e DVDs, o que é fundamentalmente diferente. Tempos atrás, você possuía uma cópia com direitos de exibição limitados. Você era proibido de copiar ou exibir aquele material de maneira pública com intuito comercial. No entanto, aquela cópia do filme era sua para exibição doméstica até o fim dos tempos. Ninguém poderia impedi-lo de assistir aquele filme no seu lar depois de adquirida a fita VHS ou o DVD. Por que essa diferença é tão importante?

Hoje, você não possui uma cópia própria para uso doméstico em seu aparelho de DVD ou videocassete. Você tem por tempo determinado pela plataforma o acesso à uma cópia do filme, que está de fato num computador que não é seu. Desta maneira, o filme em questão pode ser alterado ou apagado a qualquer momento, sem seu conhecimento ou consentimento, mesmo sendo um cliente pagante. O mesmo modelo é usado em plataformas de leitura de livros digitais, como o Kindle da Amazon, e de músicas, como o Spotify e o Deezer.

Em 2020, a HBO Max tirou de seu catálogo o clássico E O Vento Levou (1939), alegando que o filme perpetua estereótipos racistas, e que seria irresponsável mantê-lo disponível sem nenhuma “explicação ou denúncia”. Algumas semanas depois, o filme retornou à plataforma, mas desta vez com um vídeo introdutório onde uma historiadora o contextualiza, dizendo que “o filme glorifica um sistema de brutalidade”. Mesmo assim, eles declaram que manterão o filme disponível e inalterado em sua plataforma.

Com a intensidade das pautas progressistas cada vez mais aceleradas, até quando serão apenas avisos adicionados ao início dos filmes? A maneira que consumimos conteúdo hoje já nos estimula a assistir apenas conteúdo novo. É possível que E O Vento Levou (1939) seja de fato apagado um dia. Estamos cada vez mais perto de um clima cultural onde obras “não alinhadas” possivelmente cairão no “buraco da memória” como em 1984 de George Orwell.

A vanguarda “woke” na Disney

A Disney tem sido pioneira nisso, e sua compra da 20th Century Fox preocupa muita gente. O termo “Disney Vault” (o cofre da Disney) se popularizou e consiste na prática de tirar de circulação títulos de seu catálogo para eventualmente relançá-los, criando escassez para que os relançamentos ganhem relevância. Algo que também preocupa é o enorme e histórico catálogo da Fox estar potencialmente refém de uma empresa em boa parte comprometida com a pauta progressista, e que esse olhar sobre o cinema do passado pode fazer com que filmes clássicos simplesmente desapareçam. Dumbo (1941), Peter Pan (1953), Mogli (1967) e Aristogatas (1970) entre outros, já possuem avisos sobre “retratos negativos de pessoas e culturas” e que “isto era errado na época e continua sendo errado”.

O estúdio sinaliza de forma clara sua preocupação em atender as demandas da “cultura atual”, relendo essas obras do passado com uma visão ideologizada de hoje. Esse ato de pedir desculpas por algo do passado que desagrada ou ofende, e que talvez não foi realizado por ninguém ainda vivo, e essa espécie de “culpa coletiva” são características da cultura woke em voga hoje.

Existem casos famosos de filmes que desapareceram completamente, de maneira arbitrária. Um notório é A Canção do Sul, produzido pela Disney em 1946. A empresa se esforça em apagar este filme por considerá-lo racista. Eles afirmam que seus personagens negros são retratados de maneira estereotipada, e que a maneira alegre que o contexto logo após o fim da Guerra Civil é retratado é algo inaceitável. Bob Iger, presidente da The Walt Disney Company, disse que o filme “não é apropriado para os dias de hoje” e não estará disponível na plataforma digital da empresa. Em seus parques, a Disney reformará a popular atração Splash Mountain, baseada no filme, e também removerá a famosa canção Zip-a-Dee-Doo-Dah dos parques, no esforço de apagar da história o legado do filme.

O filme foi um sucesso de bilheteria quando lançado em 1946. Seus atores principais, ambos negros, não viram problema algum com o filme. O ator James Baskett chegou a dizer que toda a discussão sobre a questão racial do filme trazia maior prejuízo aos negros do que o filme em si poderia. Ele inclusive ganhou um Oscar honorário por sua interpretação do personagem Uncle Remus. Ainda hoje existem aqueles que têm uma opinião positiva do filme, veem nele uma história de reconciliação depois de um conflito fratricida traumático e afirmam que todos os personagens, inclusive os brancos, são em boa medida estereotipados.

Conclusão

Talvez estejamos próximos de perder os grandes filmes do passado. A maneira que eles chegam até nós facilita cada vez mais que o esquecimento seja acionado por um botão nas mãos de algum executivo. Instituições que têm como missão preservar a história do cinema cada vez mais se dobram às vontades da militância progressista “woke“. É curioso como, pensando dessa maneira, aquelas fitas VHS e DVDs velhos que frequentemente pensamos em jogar fora agora parecem valiosos. Quando foi anunciado que alguns livros de Dr. Seuss não seriam mais vendidos nos EUA, as vendas daqueles títulos dispararam como nunca antes.

O que Spielberg avisava sobre a nova tendência de não honrar o legado do passado como um tesouro histórico a ser protegido, ao tratá-lo como apenas uma sequência de erros que chegam até nós para serem corrigidos, está mais presente do que nunca. Aqueles que criticam injustamente o passado e tomam essa linha de raciocínio falham em imaginar o que os grandes artistas de então pensariam de nós, e que lições poderiam nos ensinar.

A banca sempre vence: o poderoso algoritmo das “bets”

Praticamente todos os dias surge uma nova “bet” com propagandas milionárias anunciando em todos os meios de comunicação possíveis. Somente no Brasil, já existem cerca de 450 sites de apostas esportivas em operação. Juntos, esses sites movimentam anualmente cerca de 150 bilhões de reais, além de patrocinarem 19 dos 20 clubes da série A do Brasileirão. Segundo estimativas, o Brasil tem quase 25% dos acessos em todo o mundo. Precisamos falar sobre esse assunto.

Eu poderia falar sobre os recentes escândalos de manipulações de resultados, entre outros esquemas, máfias, fraudes, golpes… Ou mesmo sobre o prejuízo que isso tudo representa não só para os apostadores, como também para a credibilidade e a atratividade do próprio esporte enquanto entretenimento. Mas tudo isso já virou quase um clichê. Considero muito mais urgente falar sobre a tendência muito comum de encarar as apostas esportivas como se fossem um tipo de investimento ou fonte de renda extra. Essa atitude é um erro pelos seguintes motivos.

Quando você compra ações de uma empresa na bolsa de valores, você aposta no potencial de lucro dessa empresa, e você ganha dinheiro se a empresa também estiver ganhando. Mas quando você joga num site de apostas esportivas, você só ganha dinheiro se a empresa perder. Você está apostando contra a banca, não contra os outros apostadores. O que os coachs de bets tentam ensinar é como você pode apostar melhor do que os próprios sites de aposta, como ganhar dinheiro em cima deles. Você vai encontrar muita gente na internet tentando te convencer a persistir no jogo pensando no longo prazo, ignorando suas perdas, até o dia idílico em que supostamente você vai começar a ganhar muito dinheiro.

Mas sinto informar, meus amigos: a banca sempre vence. E tem um motivo para isso. Essas empresas têm muito mais informação do que qualquer apostador. Elas investem muito pesado em tecnologia, justamente porque o negócio delas depende de serem capazes de processar muita informação. O algoritmo delas acompanha milhares de jogos e milhares de apostas ao mesmo tempo. Essas empresas sabem tudo do jogo e quase tudo sobre você. Achar que você vai ganhar delas é achar que você vai ganhar da máquina. Acreditar que só porque você entende de futebol você vai ganhar do poderoso algoritmo de uma empresa bilionária é ingenuidade. A verdade é que você até pode fazer algumas apostas bem sucedidas, mas, no longo prazo, você nunca vai apostar melhor do que o algoritmo.


No vídeo abaixo, o professor Dr. Danilo Dantas, do Departamento de Filosofia da UFPB, explica de maneira muito clara, com base em lógica, matemática e estatística, quando vale a pena apostar e porque nunca vale a pena apostar:

Artista brasileiro recria cenário da vila do Chaves em 3D

O artista 3D brasileiro Eric Rister viralizou na internet devido a uma modelagem que recria a vila mais icônica e nostálgica da cultura pop, a famosa vila do seriado Chaves (El Chavo del Ocho), produzida no México e que segue angariando fãs no Brasil desde sua primeira exibição, em meados dos anos 1980.

Rister é supervisor em uma empresa de pós-produção e efeitos especiais, e trabalha com modelagem 3D há quase 20 anos. O artista recriou não apenas o pátio principal, como também a área externa que dá acesso à vila; e também o segundo cenário que conta com a inesquecível fonte, que serviu como elemento em alguns episódios do seriado criado por Roberto Gómes Bolãnos. Rister explica que, até o momento, mais de 250 elementos foram modelados para a montagem do cenário.

Além das imagens publicadas em sua conta no Instagram, o artista também publicou dois vídeos no YouTube mostrando um tour completo pelo cenário modelado em 3D. Confira abaixo:

O retorno de Ubirajara

Reportagem do Portal de Notícias da UFRN mostra como mobilização de pesquisadora da instituição garantiu repatriação de fóssil de dinossauro brasileiro.


Em dezembro de 2020, Aline Ghilardi, professora do Laboratório de Paleontologia ligado ao Departamento de Geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ficou sabendo da publicação de um artigo científico no periódico Cretaceous Research sobre o primeiro dinossauro não-aviano (que não pertence ao grupo das aves) com penas preservado no hemisfério sul do planeta. Ele era brasileiro, achado no Ceará. Seu nome científico: Ubirajara jubatus.

A felicidade inicial, no entanto, não teve chance de durar. O aparente sonho se transformou rapidamente em desencanto. O artigo havia sido publicado apenas por estrangeiros e todos os indicativos mostravam que o fóssil estudado havia sido adquirido de maneira no mínimo suspeita. “A seção de materiais e métodos de um artigo científico de paleontologia geralmente consta quando e onde o fóssil foi coletado. Nesse artigo constava que o fóssil foi retirado do Brasil em 1995 e levado para a Alemanha, onde havia permanecido desde então. Isto desafiava parte da legislação sobre fósseis do Brasil”, explica Aline.

Uma das faces do fóssil de Ubirajara – Foto: Juan Cisneros

A primeira lei brasileira que versa sobre a proteção de fósseis é de 1942. Trata-se de um decreto-lei que determina que os fósseis são propriedade da Nação e que, para sua extração, é necessária autorização do Departamento Nacional de Produção Mineral, atual Agência Nacional de Mineração (ANM). O conteúdo deste decreto-lei foi atualizado e adicionado à constituição de 1988, que vai além e também considera sítios fossilíferos como patrimônio cultural da União. Aline acrescenta que em 1990 foi publicada uma portaria de regulamentação do Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil (atual Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações) sobre a forma como pesquisadores estrangeiros deveriam coletar e estudar qualquer tipo de material biológico ou paleontológico do país. “Nessa portaria diz-se que qualquer material holótipo – ou seja, aqueles utilizados para descrever novas espécies – deve obrigatoriamente voltar ao Brasil. Além disso, a portaria diz que não basta uma autorização da agência competente específica de cada área, você precisaria de uma autorização adicional do Ministério da Ciência e Tecnologia para poder coletar, pesquisar e exportar espécimes biológicos ou fósseis brasileiros”, complementa.

Professora Aline Ghilardi – Foto: Arquivo pessoal

O fato de este fóssil estar fora de seu lugar de origem já indicaria um desacordo com a legislação existente anterior à sua saída. No entanto, outro fator também importante demonstrou um problema mais profundo: a falta de autores brasileiros ou de colaboração com as instituições nacionais, também exigidas pela mesma portaria do MCTI. Estes aspectos combinados fizeram com que a indignação da pesquisadora ganhasse espaço por meio da internet e, rapidamente, reunisse milhares de outras vozes. “A primeira coisa que uma pessoa muito chateada no meio de uma pandemia faz é reclamar no Twitter. Então a primeira coisa que eu fiz foi utilizar minhas redes sociais, nas quais eu já tenho costume de divulgar ciência, para construir um fio de informações explicando porque a descoberta era tão fantástica e tão frustrante ao mesmo tempo”, comenta a paleontóloga.

Aline lançou então uma hashtag de protesto que ganharia o mundo: #UbirajaraBelongstoBR (Ubirajara pertence ao Brasil) e promoveria um grande e súbito interesse pelo assunto. Um dos acontecimentos responsáveis por contribuir na massificação do tema foi, entre outras coisas, a solicitação feita a Paulo Nascimento, o Pirulla, pesquisador e youtuber brasileiro, para comentar sobre o caso em seu canal. Após uma de suas lives, com a participação da professora Aline,  o assunto explodiu nas redes e o problema do tráfico de fósseis começou a ser discutido não apenas por pesquisadores, mas também pelo público não especializado. O movimento iniciou também um debate sobre “colonialismo na ciência”, já que questionava os motivos que fazem com que pesquisadores europeus e americanos se sintam à vontade para agir de maneira ilícita quando se trata da apropriação de conhecimento e materiais de países do sul global.

Assim, iniciou-se a saga de retorno de Ubirajara jubatus para o Brasil. O dinossauro estava na Alemanha, no Museu de História Natural de Karlsruhe, depois de mais de 25 anos em uma prateleira sem ser descrito. Foi apresentado ao mundo em 2020, mas trazê-lo de volta ainda envolveria uma longa jornada. Com o amplo alcance da hashtag, Aline Ghilardi logo se juntou a outros colegas da área para que juntos pudessem alcançar ainda mais impacto na tentativa de exercer alguma mudança significativa nesta temática.  “As ações não poderiam acontecer apenas em redes sociais, elas deveriam ocorrer também em outras frentes. Em paralelo, muitos colegas tomaram ações independentes, como escrever para o periódico que publicou o artigo, explicando a problemática. Outros tentaram contato diretamente com o museu onde o fóssil estava. A própria Sociedade Brasileira de Paleontologia emitiu uma carta ao Museu”, comenta Aline sobre as articulações conjuntas.

Uma das vitórias iniciais foi a remoção temporária do artigo, que segundo Aline, é algo muito raro de acontecer. Foi um fruto das ações conjuntas. Com essa resposta, as movimentações pelas redes e em outras frentes ganharam ainda mais intensidade e, de acordo com a professora, “algumas tratativas mais sérias tiveram começo”. Na metade  de 2021, o Museu de Karlsruhe, finalmente, responde a carta da Sociedade Brasileira de Paleontologia, que pedia a repatriação do fóssil, dizendo que, segundo as leis alemãs, o fóssil pertencia ao estado de Baden-Württemberg, onde ele estava localizado. Portanto, não haveria devolução de Ubirajara ao Brasil.

Algumas das artes feitas na campanha pela repatriação de Ubirajara – Imagem – Agecom

Se as redes sociais já haviam tido uma participação importante nessa batalha, foi nesse momento que os brasileiros provaram seu engajamento. Com a negativa, a Sociedade Brasileira de Paleontologia liberou, para conhecimento público, a situação e a resposta alemã que foi publicada também no perfil do Instagram da própria instituição estrangeira. Aline compartilhou a resposta do museu em suas redes, o que atraiu a atenção dos protestos. Apenas na publicação em que se posicionavam sobre a não devolução de Ubirajara, mais de 12 mil comentários de brasileiros descontentes lotaram o Instagram do Museu.

Para Aline, ficava cada vez mais evidente que apenas falar do problema não seria solução, era necessário transformar toda a indignação em dados. Então, uma frente de trabalho com outros colegas de profissão foi formada para discutir e entender todo o processo de saída dos fósseis do Brasil e o quanto o país perdia com isso. “Um dos primeiros trabalhos que a gente publicou foi uma carta na revista Nature, Ecology and Evolution. Convidamos um advogado alemão para ajudar a entender a legalidade do posicionamento do museu e destrinchar se fazia sentido aquele comunicado. Chegamos à conclusão de que não, porque o direito não se pauta apenas na interpretação crua das leis, mas há também uma discussão e interpretação ética a ser feita. Publicamos essa correspondência e mostramos onde eles falhavam e também como se aproveitavam de brechas legais de nossa legislação para conseguir remover os fósseis daqui”, acrescenta.

Outra parceria aconteceu com colegas do México que vivenciaram no início de 2021 uma situação parecida com a brasileira e envolvendo alguns dos mesmos autores do estudo de Ubirajra. “Com base nisso, decidimos unir esforços para analisar os últimos 30 anos de publicações sobre fósseis das regiões mais visadas pelo tráfico de bens paleontológicos nos dois países. Esse trabalho foi publicado no início de 2022. Para o Brasil, descobrimos que quase 90% dos fósseis de novas espécies da região do Araripe estavam em museus estrangeiros. E poucos trabalhos mencionam como o fóssil foi coletado, ou autorização de coleta”, ressalta Aline.

O levantamento de todos estes dados serviu para que concretamente eles pudessem ser apresentados às autoridades brasileiras e também da região do estado de Baden-Württemberg. Com isso, uma investigação foi iniciada na Alemanha. O fruto desta investigação culminou no reconhecimento da má conduta e do comportamento antiético dos pesquisadores envolvidos. Com isso, finalmente, foi determinada a repatriação do dinossauro em julho de 2022.

Para Aline, é necessário que tais comportamentos sejam cada vez mais combatidos, “atitudes colonialistas influenciam a nossa ciência e tornam ela uma ciência pior e os resultados enviesados”. A pesquisadora fala ainda da força das redes sociais e de como elas fizeram diferença nessa batalha, em conjunto com todas as outras medidas, de divulgação e produção científica. “Essa não é uma vitória solitária, teve a colaboração de muita gente, de outros colegas paleontólogos, tanto brasileiros e estrangeiros, de divulgadores, de influencers e de pessoas do público geral. O público geral, especialmente, teve um papel muito importante nesse retorno, com os protestos”, finaliza.


A volta de Ubirajara

Depois de toda a luta que começou com a hashtag incômoda de Aline Ghilardi e depois cresceu envolvendo cientistas de diversos países, autoridades, imprensa e sociedade civil, finalmente o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) recebeu, no último dia 4 de junho, o fóssil do dinossauro Ubirajara jubatus. O material fossilífero foi analisado no dia seguinte por representantes do Brasil e Alemanha e apresentado oficialmente nesta segunda-feira, 12 de junho. A solenidade realizada pelo MCTI foi restrita a autoridades e pouquíssimos convidados, entre os quais Aline, representante da UFRN e do público que voltou a ocupar as redes sociais em comemoração.

Um esforço conjunto do Centro de Ciências Exatas e da Terra (CCET), do Departamento de Geologia, da Agência de Comunicação e da Reitoria da UFRN possibilitou que a cientista estivesse na cerimônia para o registro histórico. “Recebi o convite para participar da cerimônia como convidada especial. Só autoridades, representantes de algumas instituições, pessoas diretamente envolvidas no processo de repatriação e jornalistas foram autorizados a participar da cerimônia. A UFRN me forneceu um espaço para desenvolver minhas pesquisas não apenas sobre fósseis, mas também sobre os impactos do colonialismo na ciência. Agora estamos colhendo os frutos. Ela me ofereceu também apoio para ver de perto um dos grandes resultados do meu trabalho desenvolvido aqui, e tudo isso vai ficar para a história, não só da Paleontologia, mas da Ciência do Brasil. Espero poder continuar contando com o suporte da instituição e assim, poder levar com orgulho o nome da UFRN para mais conquistas tão importantes como essa”, disse Aline.

Cientistas do Brasil e do mundo acompanharam a repatriação de Ubirajara pelas redes, parte deles pelos perfis de Aline que alcançaram milhares de visualizações. Nem se quisesse ela poderia esconder a cara de felicidade. “É muito emocionante ver que algo no qual você tanto se empenhou deu resultado. Faz a gente se sentir muito estimulado a continuar lutando. Mudanças são possíveis e eu acredito fortemente que a divulgação científica é um caminho fundamental para conquistarmos o apoio do público em nossas batalhas dentro da Ciência e das instituições. Esta luta, em específico, ensina muito sobre como o público deseja participar e se engajar com o que fazemos. Foi uma conquista da união entre pesquisadores e o público. A sociedade civil que se mobilizou. É uma conquista nossa. Espero que essa conquista inspire jovens cientistas a se engajarem em batalhas para tornar a nossa ciência melhor, mais inclusiva, justa e ética”, comenta.

Aline Ghilardi, à direita, ao lado do professor Juan Cisnero (UFPI) e da ministra do MCTI, Luciana Santos (ao centro) – Foto: Luara Baggi – Ascom/MCTI

Mas a luta continua. Segundo Aline Ghilardi, já existe um engajamento para novas repatriações, mas, por hora, os pesquisadores contam com a boa vontade das instituições estrangeiras, já que elas sabem do que os cientistas brasileiros são capazes. “Estamos dando a elas um voto de boa fé, mas se for necessário, vamos ativar as redes sociais novamente. Vimos que isso surte efeito”, alertou a pesquisadora que aproveitou sua estada em Brasília para fazer campanha. “Tive a oportunidade de conversar com Ricardo Galvão, atual presidente do CNPq, antes da cerimônia. Ele me parabenizou pessoalmente pela atuação na luta pela repatriação e aproveitei para pedir que ele considerasse com atenção a possibilidade de um novo edital para o fortalecimento da paleontologia nacional, o que ajudaria muito a coibir que mais fósseis continuassem saindo do Brasil”, completou.

Registro simbólico da repercussão da repatriação no Twitter – Imagem: Agecom/UFRN

Mas afinal, quem foi Ubirajara?

Ubirajara jubatus é uma espécie que viveu na Bacia do Araripe, no Ceará, durante o período Cretáceo, provavelmente há mais de 110 milhões de anos. A primeira parte de seu nome tem origem indígena tupi e significa “senhor da lança”, já a segunda vem do latim e seu significado é “com juba”. Ambas se referem às características físicas e singulares do dinossauro que possuía uma estrutura filamentosa semelhante a penas e espinhos, fazendo referência à ideia de lanças entre seu pescoço e ombros, e as penas em suas costas que causavam a formação de algo parecido com uma juba ao seu redor. 

Representações do dinossauro Ubirajara Jubatus – Imagem: Agecom/UFRN

Da família Compsognathidae, Ubirajara era um terópode (subordem de dinossauros bípedes) parecido com Compsognathus e Sinosauropteryx. Eram dinossauros de porte pequeno, que chegavam a aproximadamente meio metro de altura e não passavam de um metro e meio de comprimento. Devido suas patas traseiras serem longas, propícias para correr, acredita-se que era uma espécie com agilidade para caça e vivia em pequenos bandos.

Fóssil de Ubirajara jubatus mostrado em duas perspectivas – Fotos: Cedidas

O fóssil, que comprova a existência deste animal, é composto por partes do esqueleto, com exceção do crânio, pernas e a ponta da cauda, que foi preservado em uma formação rochosa típica da região do Araripe. O esqueleto inclui nove vértebras cervicais, treze vértebras dorsais, duas vértebras sacrais, a cintura escapular, uma costela cervical, sete costelas dorsais, quinze costelas abdominais e o braço esquerdo quase completo. Além dos ossos, o fóssil também revela vestígios de penas, pele, estruturas granuladas no tronco e as coberturas de queratina que envolvem as garras das mãos. É importante ressaltar que o esqueleto está parcialmente articulado, o que significa que algumas partes estão conectadas entre si. Os paleontólogos acreditam que esse fóssil represente um indivíduo jovem e, possivelmente, do sexo masculino.


Pesquisadora inicia nova luta por repatriação de outro fóssil de dinossauro brasileiro

Aline Ghilardi, pesquisadora e professora do Departamento de Geologia (DG) da UFRN que mobilizou a repatriação do fóssil do dinossauro Ubirajara jubatus, começa uma nova campanha para que outro dinossauro brasileiro, o Irritator challengeri, volte para casa. A ação é uma carta aberta e abaixo-assinado que pode ser aderido por qualquer pessoa por meio deste formulário.

Conforme escreveu Harry Baker no Live Science, o Irritator é um membro da família Spinosauridae – um grupo de dinossauros bípedes e carnívoros com longos focinhos semelhantes aos dos crocodilianos. A espécie, que atingiu um comprimento máximo de cerca de 6,5 metros, foi descrita pela primeira vez em 1996 a partir de fósseis de 115 milhões de anos descobertos na Bacia do Araripe, no Ceará, e posteriormente enviados para a Alemanha, onde, atualmente, residem no Museu de História Natural de Stuttgart, no estado de Baden-Württemberg.

Umberto Eco: por que os livros prolongam nossas vidas?

Crônica de Umberto Eco para o jornal La Nacion, de Roma, publicado em 1991. Tradução para o português brasileiro de Charles Andrade.

Há pouco tempo me entretinha imaginando nossos antepassados que falavam de seus escravos treinados para desenhar caracteres cuneiformes como se fossem computadores modernos. Eu estava entretido, mas não brincando. Quando lemos hoje artigos preocupados com o futuro da inteligência humana face às novas máquinas que se preparam para substituir a nossa memória, notamos um ar familiar. Quem entende algo do tema logo reconhece a passagem do Fedro platônico (274b – 279b), citado inúmeras vezes, no qual o faraó pergunta ao deus Thoth, inventor da escrita, se esta ferramenta diabólica não tornará o homem incapaz de recordar e, portanto, de pensar.

A mesma reação de terror deve ter sentido quem viu pela primeira vez uma roda. Terá pensado que nos esqueceríamos de caminhar. Talvez os homens daquela época fossem mais dotados do que nós para realizar maratonas nos desertos e nas estepes, mas morriam antes e hoje seriam dispensados ​​no primeiro distrito militar. Com isto não quero dizer que, por isso, não devamos nos preocupar com nada e que teremos uma bela e saudável humanidade acostumada a comer sobre a relva de Chernobyl; no mínimo, a escrita nos tornou mais aptos a entender quando parar, e quem não sabe parar é analfabeto, mesmo que esteja sobre quatro rodas.

O desconforto causado pelas novas formas de registrar a memória sempre ocorreu. Diante dos livros impressos em papel que davam a ideia de que não durariam mais de quinhentos ou seiscentos anos, e com a ideia de que logo poderiam estar nas mãos de todos, como a Bíblia de Lutero, os primeiros compradores gastavam fortunas mandando ilustrar à mão as iniciais dos parágrafos, para assim dar a impressão de ainda possuírem manuscritos de pergaminho. Hoje esses primeiros livros ilustrados custam o olho da cara, mas a verdade é que os livros impressos já não precisavam ser assim ilustrados. O que ganhamos com isso? O que o homem ganhou com a invenção da escrita, da imprensa, das memórias eletrônicas?

Em certa ocasião, Valentino Bompiani fez circular uma frase: “Um homem que lê vale por dois”. Dito por um editor, poderia ser entendido apenas como um slogan feliz, mas penso que significa que a escrita (e a linguagem em geral) prolonga a vida. A partir do momento em que a espécie começou a emitir seus primeiros sons significativos, famílias e tribos passaram a precisar do velho. Talvez a princípio tenham sido inúteis e descartados quando não eram mais aptos para a caça. Mas com a linguagem, os velhos tornaram-se a memória da espécie: sentaram-se na gruta, em volta da fogueira, e contaram o que tinha acontecido (ou se dizia ter acontecido, pois essa é a função dos mitos) antes que os jovens nascessem. Antes que essa memória social começasse a ser cultivada, o homem nascia sem experiência, não tinha tempo de forjá-la e morria. Depois, um jovem de vinte anos era como se tivesse vivido cinco mil. Os eventos ocorridos antes de seu nascimento e o que os anciãos aprenderam tornaram-se parte de sua memória.

Hoje os livros são os nossos velhos. Não nos damos conta, mas nossa riqueza com relação ao analfabeto (ou aquele que, sendo alfabetizado, não lê) consiste no fato de que ele está vivendo e viverá apenas a sua vida, e nós temos vivido muitíssimas. Recordamos, com nossas brincadeiras de infância, as de Proust; sofremos pelo nosso amor, mas também pelo de Píramo e Tisbe; assimilamos algo da sabedoria de Sólon; nos abalamos com certas noites de vento em Santa Helena; e repetimos, com a fábula que nossa avó nos contou, aquela que contou Sheherazade.

Isso pode dar a alguém a impressão de que mal nascemos e já somos insuportavelmente anciãos. Mas é mais decrépito o analfabeto (de origem ou de retorno), que sofre de arteriosclerose desde criança, e não se lembra (porque não sabe) do que aconteceu nos idos de março. Naturalmente, também poderíamos nos lembrar de mentiras, mas a leitura também ajuda a discriminar. Não conhecendo as culpas dos outros, o analfabeto não conhece nem os seus próprios direitos.

O livro é um seguro de vida, uma pequena antecipação da imortalidade. Para trás (ai!) em vez de para frente. Mas não se pode ter tudo e instantaneamente.

“Não contem com o fim do livro”, diz Umberto Eco

Em entrevista exclusiva para Ubiratan Brasil, do Estadão, em 2010, o escritor italiano falou sobre o lançamento de Não Contem com o Fim do Livro.

O bom humor parece ser a principal característica do escritor italiano Umberto Eco. Se não, é a mais evidente. Ao pasmado visitante, boquiaberto diante de sua coleção de 30 mil volumes guardados em sua residência em Milão, ele tem duas respostas prontas quando é indagado se leu toda aquela vastidão de papel. A preferida é: “Não. Esses livros são apenas os que devo ler na semana que vem. Os que já li estão na universidade”. E a segunda: “Não li nenhum. Se não, por que os guardaria?”

Na verdade, a coleção é maior, beira os 50 mil volumes, pois os demais estão em outra casa, no interior da Itália. E é justamente tal paixão pela obra em papel que convenceu Eco a aceitar o convite de um colega francês, Jean-Phillippe de Tonac, para, ao lado de outro incorrigível bibliófilo, o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, discutir a perenidade do livro tradicional. Foram esses encontros (“muito informais, à beira da piscina e regados com bons uísques”, informa Umberto Eco) que resultaram em Não Contem Com o Fim do Livro, lançado em 2010.

A conclusão é óbvia: tal qual a roda, o livro é uma invenção consolidada, a ponto de as revoluções tecnológicas, anunciadas ou temidas, não terem como detê-lo. Qualquer dúvida é sanada ao se visitar o recanto milanês de Eco, como fez o Estadão. Localizado diante do Castelo Sforzesco, o apartamento – naquele dia soprado por temperaturas baixíssimas, a neve pesada insistindo em embranquecer a formidável paisagem que se avista de sua sacada – encontra-se em um andar onde antes fora um pequeno hotel. “Se eram pouco funcionais para os hóspedes, os longos corredores são ótimos para mim pois estendo aí minhas estantes”, comenta o escritor, com indisfarçável prazer, ao apontar uma linha reta de prateleiras repletas que não parecem ter fim. Os antigos quartos? Transformaram-se em escritórios, dormitórios, sala de jantar etc. O mais desejado, no entanto, é fechado a chave, climatizado e com uma janela que veda a luz solar: lá estão as raridades, obras produzidas há séculos, verdadeiros tesouros. Isso mesmo: tesouros de papel.

Conhecido tanto pela obra acadêmica (é professor aposentado de semiótica, mas ainda permanece ativo na Universidade de Bolonha) como pelos romances (O Nome da Rosa, publicado em 1980, tornou-se um best-seller mundial e virou até filme), Eco é um colecionador nato. Além de livros, coleciona selos, cartões-postais, rolhas de champanhe… Na sala de seu apartamento, estantes de vidro expõem tanto os livros raros como conchas, pedras, pedaços de madeira… As paredes expõem quadros que Eco arrematou nas visitas que fez a vários países ou que simplesmente ganhou de amigos – caso de Mário Schenberg (1914-1990), físico, político e crítico de arte brasileiro, de quem o escritor guarda as melhores recordações.

Aos 78 anos, Eco exibe uma impressionante vitalidade. Diverte-se com todo tipo de cinema, mantém contato com seus alunos em Bolonha, escreve artigos para jornais e revistas e aceita convites para organizar exposições, como a que o transformou, no ano passado, em curador, no Museu do Louvre, em Paris. Lá, o autor teve o privilégio de passear sozinho pelos corredores do antigo palácio real francês nos dias em que o museu está fechado. E, como um moleque levado, aproveitou para alisar o bumbum da Vênus de Milo. Foi com esse mesmo espírito bem-humorado que Eco conversou com a reportagem do Sabático.

O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?

O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de segurança.

Qual a diferença entre o conteúdo disponível na internet e o de uma enorme biblioteca?

A diferença básica é que uma biblioteca é como a memória humana, cuja função não é apenas a de conservar, mas também a de filtrar. Esse é o problema básico da internet: depende da capacidade de quem a consulta. Sou capaz de distinguir os sites confiáveis de filosofia, mas não os de física. Imagine então um estudante fazendo uma pesquisa sobre a 2ª Guerra Mundial: será ele capaz de escolher o site correto? É trágico, um problema para o futuro, pois não existe ainda uma ciência para resolver isso. Depende apenas da vivência pessoal. Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos.

Não é possível prever o futuro da internet?

Não para mim. Quando comecei a usá-la, nos anos 1980, eu era obrigado a colocar disquetes, rodar programas. Hoje, basta apertar um botão. Eu não imaginava isso naquela época. Talvez, no futuro, o homem não precise escrever no computador, apenas falar e seu comando de voz será reconhecido. Ou seja, trocará o teclado pela voz. Mas realmente não sei.

Em um determinado trecho de Não Contem Com o Fim do Livro, o senhor e Jean-Claude Carrière discutem a função e preservação da memória – que, como se fosse um músculo, precisa ser exercitada para não atrofiar.

De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. Minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso detalhar sobre o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se você perguntar hoje para um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta dar um clique no computador para obter essa informação. Lembro que, na escola, eu era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, eu achava uma inutilidade, mas hoje reconheço sua importância. A cultura alfabética cedeu espaço para as fontes visuais, para os computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aprimora uma habilidade, a evolução põe em risco outra, como a memória. Lembro-me de uma maravilhosa história de ficção científica escrita por Isaac Asimov, nos anos 1950. É sobre uma civilização do futuro em que as máquinas fazem tudo, inclusive as mais simples contas de multiplicar. De repente, o mundo entra em guerra, acontece um tremendo blecaute e nenhuma máquina funciona mais. Instala-se o caos até que se descobre um homem do Tennessee que ainda sabe fazer contas de cabeça. Mas, em vez de representar uma salvação, ele se torna uma arma poderosa e é disputado por todos os governos – até ser capturado pelo Pentágono por causa do perigo que representa (risos). Não é maravilhoso?

No livro, o senhor e Carrière comentam sobre como a falta de leitura de alguns líderes influenciou suas errôneas decisões.

Sim, escrevi muito sobre informação cultural, algo que vem marcando a atual cultura americana que parece questionar a validade de se conhecer o passado. Veja um exemplo: se você ler a história sobre as guerras da Rússia contra o Afeganistão no século 19, vai descobrir que já era difícil combater uma civilização que conhece todos os segredos de se esconder nas montanhas. Bem, o presidente George Bush, o pai, provavelmente não leu nenhuma obra dessa natureza antes de iniciar a guerra nos anos 1990. Da mesma forma que Hitler devia desconhecer os relatos de Napoleão sobre a impossibilidade de se viajar para Moscou por terra, vindo da Europa Ocidental, antes da chegada do inverno. Por outro lado, o também presidente americano Roosevelt, durante a 2ª Guerra, encomendou um detalhado estudo sobre o comportamento dos japoneses para Ruth Benedict, que escreveu um brilhante livro de antropologia cultural, O Crisântemo e a Espada. De uma certa forma, esse livro ajudou os americanos a evitar erros imperdoáveis de conduta com os japoneses, antes e depois da guerra. Conhecer o passado é importante para traçar o futuro.

Diversos historiadores apontam os ataques terroristas contra os americanos em 11 de setembro de 2001 como definidores de um novo curso para a humanidade. O senhor pensa da mesma forma?

Foi algo realmente modificador. Na primeira guerra americana contra o Iraque, sob o governo de Bush pai, havia um confronto direto: a imprensa estava lá e presenciava os combates, as perdas humanas, as conquistas de território. Depois, em setembro de 2001, se percebeu que a guerra perdera a essência de confronto humano direto – o inimigo transformara-se no terrorismo, que podia se personificar em uma nação ou mesmo nos vizinhos do apartamento ao lado. Deixou de ser uma guerra travada por soldados e passou para as mãos dos agentes secretos. Ao mesmo tempo, a guerra globalizou-se; todos podem acompanhá-la pela televisão, pela internet. Há discussões generalizadas sobre o assunto.

Falando agora sobre sua biblioteca, é verdade que ela conta com 50 mil volumes?

Sim, de uma forma geral. Nesse apartamento em Milão, estão apenas 30 mil – o restante está no interior da Itália, onde tenho outra casa. Mas sempre me desfaço de algumas centenas, pois, como disse antes, é preciso fazer uma filtragem.

Por que o senhor impediu sua secretária de catalogá-los?

Porque a forma como você organiza seus livros depende da sua necessidade atual. Tenho um amigo que mantém os seus em ordem alfabética de autores, o que é absolutamente estúpido, pois a obra de um historiador francês vai estar em uma estante e a de outro em um lugar diferente. Eu tenho aqui literatura contemporânea separada por ordem alfabética de países. Já a não contemporânea está dividida por séculos e pelo tipo de arte. Mas, às vezes, um determinado livro pode tanto ser considerado por mim como filosófico ou de estética da arte; depende do motivo da minha pesquisa. Assim, reorganizo minha biblioteca segundo meus critérios e somente eu, e não uma secretária, pode fazer isso. Claro que, com um acervo desse tamanho, não é fácil saber onde está cada livro. Meu método facilita, eu tenho boa memória, mas, se algum idiota da família retira alguma obra de um lugar e a coloca em outro, esse livro está perdido para sempre. É melhor comprar outro exemplar (risos).

Um estudioso que também é seu amigo, Marshall Blonsky, escreveu certa vez que existe de um lado Umberto, o famoso romancista, e de outro Eco, professor de semiótica.

E ambos sou eu (risos). Quando escrevo romances, procuro não pensar em minhas pesquisas acadêmicas – por isso, tiro férias. Mesmo assim, leitores e críticos traçam diversas conexões, o que não discuto. Lembro de que, quando escrevia O Pêndulo de Foucault, fiz diversas pesquisas sobre ciência oculta até que, em um determinado momento, elas atingiram tal envergadura que temi uma teorização exagerada no romance. Então, transformei todo o material em um curso sobre ciência oculta, o que foi muito bem feito.

Por falar em O Pêndulo de Foucault, comenta-se que o senhor antecipou em muito tempo O Código de Da Vinci, de Dan Brown.

Quem leu meu livro sabe que é verdade. Mas, enquanto são os meus personagens que levam a sério esse ocultismo barato, Dan Brown é quem leva isso a sério e tenta convencer os leitores de que realmente é um assunto a ser considerado. Ou seja, fez uma bela maquiagem. Fomos apresentados neste ano em uma première do Teatro Scala e ele assim se apresentou: “O senhor não me admira, mas eu gosto de seus livros”. Respondi: Não é que eu não goste de você – afinal, eu criei você (risos).

Em seu mais conhecido romance, O Nome da Rosa, há um momento em que se discute se Jesus chegou a sorrir. É possível pensar em senso de humor quando se trata de Deus?

De acordo com Baudelaire, é o Diabo quem tem mais senso de humor (risos). E, se Deus realmente é bem-humorado, é possível entender por que certos homens poderosos agem de determinada maneira. E se ainda a vida é como uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, como Shakespeare apregoa em Macbeth, é preciso ainda mais senso de humor para entender a trajetória da humanidade.

Como foi a exposição no Museu do Louvre, em Paris, da qual o senhor foi curador no ano passado?

Há quatro anos, o museu reserva um mês para um convidado organizar o que bem entender. Então, me convidaram e eu respondi que queria fazer algo sobre listas. “Por quê?”, perguntaram. Ora, sempre usei muitas listas em meus romances – até pensei em escrever um ensaio sobre esse hábito. Bem, quando se fala em listas na cultura, normalmente se pensa em literatura. Mas, como se trata de um museu, decidi elaborar uma lista visual e musical, essa sugerida pela direção do Louvre. Assim, tive o privilégio (que não foi oferecido a Dan Brown) de visitar o museu vazio, às terças-feiras, quando está fechado. E pude tocar a bunda da Vênus de Milo (risos) e admirar a Mona Lisa a apenas 20 centímetros de distância.

O senhor esteve duas vezes no Brasil, em 1966 e 1979. Que recordações guarda dessas visitas?

Muitas. A primeira, em São Paulo, onde dei algumas aulas na Faculdade de Arquitetura da USP, que originaram o livro A Estrutura Ausente. Já na segunda fui acompanhado da família e viajamos de Manaus a Curitiba. Foi maravilhoso. Lembro-me de meu editor na época pedindo para eu ficar para o carnaval e assistir ao desfile das escolas de samba de camarote, o que não pude atender. E também me recordo de imagens fortes, como a da moça que cai em transe em um terreiro (para o qual fui levado por Mario Schenberg) e que reproduzo em O Pêndulo de Foucault.

Entrevista em vídeo do criador da teoria do Big Bang

Talvez você não saiba, mas o pai da teoria do Big Bang – o modelo científico mais aceito atualmente para explicar o início do universo — é um físico belga que também era padre: Georges Lemaître (1894-1966), que apresentou sua hipótese do “átomo primordial” em 1931. Pois saiba que em 1964 (dois anos antes de sua morte), quando o modelo já era amplamente aceito devido a recentes descobertas empíricas que apoiavam a teoria, ele deu uma entrevista em francês de cerca de 20 minutos para uma rede de TV belga, a Vlaamse Radio-en Televisieomroeporganisatie (VRT). Esta é a única entrevista televisiva conhecida de Georges Lemaître e ficou desaparecida por 58 anos até que, em dezembro de 2022, a emissora divulgou o material completo após encontrá-lo nos arquivos.

O vídeo foi perdido porque, além de ter sido colocado na categoria errada, o nome de Lemaître estava escrito de forma incorreta. Na entrevista, Lemaître aparece discutindo suas ideias com o jornalista Jérôme Verhaeghe. Ele explica o desenvolvimento de suas ideias e porque ele acha que não se pode invocar Deus como explicação para causas no mundo natural. Apesar do valor inestimável da gravação, a pergunta de abertura da entrevista com o físico não foi gravada. Ela foi provavelmente feita pelo jornalista Jerome Verhaeghe em sua introdução ao vivo no estúdio. A tradução para o português foi realizada pelos estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Ana Clara Santos, Maria Eduarda Oliveira e Guilherme Henrique Costa, com revisão técnica do Prof. Dr. Alexandre Zabot.

A resistência é inútil: uma economia política da inteligência artificial

Artigo de Edward Könings publicado originalmente em seu blog pessoal.

Um dos temas quentes do século é o rápido desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial (IA) e machine learning (ML). Desde o lançamento do Chat GPT pela Open AI em 2022, ficou inegável para o mundo que o desenvolvimento de máquinas com aspectos da inteligência humana está avançando em uma progressão que não conseguimos mais dimensionar adequadamente. Devido a seus impactos potenciais, essa certamente poderá ser uma mudança de paradigma socioeconômico não vista desde a Revolução Industrial.

Eu particularmente não desejava entrar no debate corrente sobre a IA. Escolhi adotar um agnosticismo humeano com relação a muito do que se tem debatido sobre inteligência artificial. Muito do que filósofos e teóricos falavam que uma máquina nunca poderia fazer ou substituir um ser humano já não é mais verdade e nós simplesmente não temos capacidade epistêmica para prever os fluxos futuros do progresso tecnológico. Logo, considerei a maior parte do debate como mero surto de ansiedade coletiva com uma nova tecnologia (que novidade!).

Todavia, um desenvolvimento recente do debate me tirou de meu enclausuramento monástico. Vários cientistas, empresários e pessoas da área de tecnologia tem pedido aos governos, particularmente aos governos ocidentais, que seja realizada uma interrupção forçada no desenvolvimento da inteligência artificial. Esse grupo, incentivado pelos alertas de Eliezer Yudkowsky, crê que estamos perdendo o controle sobre os rumos da IA e que isso poderia chegar numa situação em que desenvolveríamos uma forma de inteligência artificial não alinhada com os interesses gerais da humanidade. Por essa razão, grupos de cientistas chegaram a assinar carta pedindo a interrupção temporária do desenvolvimento e a Open AI chegou a solicitar ao governo regulações no mesmo sentido.

Ao ver essas iniciativas eu simplesmente dei um riso cínico. Há duas razões pelas quais eu penso assim. A primeira é que boa parte dessas afirmações sobre um “apocalipse” são derivadas de meras especulações futuras sobre o desenvolvimento da IA e não com base no que temos atualmente. Como notou Eric Siegel em um artigo recente da HBR, as atuais aplicações de inteligência artificial são bastante primitivas, muitas vezes sequer passando de um ML, e não poderiam ser classificadas como formas de “inteligência” na definição correta dessa categoria. A segunda, motivo de eu estar escrevendo este artigo, é que o desenvolvimento da IA é inevitável. Propostas de interrupção ou o neoludismo indicado por Yudkowski simplesmente ignoram a economia política que se cria ao redor da IA.

Anarquia internacional e corrida armamentista

Um dos aspectos fundamentais do sistema político internacional é sua anarquia; como notado originalmente pelo filósofo inglês Thomas Hobbes. Diferentemente da política doméstica, onde existe um corpo estatal detentor do monopólio do uso legítimo da força para criar leis, executá-las e garantir que não exista anomia, na política internacional não existe uma força policial superior. Não existe um agente superior aos estados nacionais, de forma que não existe um estado para estados. Dessa forma, os estados estão inseridos em um contexto onde sua relação com outros estados não é regulada por força coercitiva, apenas por compromissos de reputação e interesse expressos pelo vago Direito Internacional.

Obviamente, isso não implica em uma relação de selvageria. Afinal, é bem documentado que os estados são capazes de cooperar entre si em assuntos de interesse mútuo. Em sua obra fundamental, After Hegemony, Robert Keohane mostrou que a forma como o sistema internacional é desenhado e regulado por instituições e agentes não-estatais afeta os incentivos dos estados e que a cooperação entre eles é possível; fazendo com que a anarquia internacional não signifique necessariamente uma selvageria e ameaça constante de guerra pressuposta por Hobbes e seus seguidores realistas.

Entretanto, gostaria de falar de uma situação em que tal cooperação não ocorre. Essa situação é expressa nos famosos casos onde países entram em corridas armamentistas uns com os outros e por meio de um modelo chamado “Modelo de Dissuasão”. Primeiramente, antes de falar da lógica desse caso, é bom estabelecer que estamos falando de um modelo. Isso significa que estou assumindo alguns pressupostos e axiomas como verdadeiros a priori. Todavia, dado o cenário do sistema internacional, creio que esse modelo reflita adequadamente a realidade.

O Modelo de Dissuasão sugere que os estados no sistema internacional possuem incentivo para entrar em corridas armamentistas como consequência de conflitos por diferenças políticas e disputas de interesse por influência política ou econômica em um cenário no qual eles não podem ter uma informação completa sobre os estados rivais; sobretudo com relação à suas capacidades militares efetivas e disposição ou não de entrar em um conflito militar amplo. Essas características fazem com que o Modelo de Dissuasão entre na categoria conhecida em Teoria dos Jogos como jogo de informação imperfeita não cooperativo.

Mesmo partindo de uma perspectiva liberal sobre relações internacionais, a cooperação entre estados é dependente inteiramente de pré-compromissos e negociações de interesses entre os estados dado a situação de anarquia internacional. Pegando os pressupostos do Modelo de Dissuasão, as negociações acabam se desenvolvendo de maneira bastante peculiar e intuitiva.

Esse cenário é o que vejo atualmente no caso da IA. Temos uma política internacional caracterizada pelo conflito de interesses mutuamente excludentes entre uma China com sonhos de ascensão e os Estados Unidos em momento de declínio de influência global. Ambos os países estão atualmente em uma franca corrida armamentista para ver quem desenvolve as melhores capacidades militares de uso da inteligência artificial. A OTAN chegou até a lançar um report sobre os usos estratégicos de inteligência artificial no campo da tomada de decisão militar e a China está claramente na frente quando se trata de aplicações militares e de segurança envolvendo IA. E isso não é sem razão, pois existe um forte incentivo dado as excelentes aplicações potenciais da IA em campo militar.

No quadro abaixo eu sintetizo algumas dessas aplicações para fins de ilustração com base em um relatório da Rand Corporation:

Baseado em Morgan et.al (2020)

Seguindo a lógica da corrida armamentista, a pausa do desenvolvimento da IA é algo simplesmente ridículo do ponto de vista político e militar. Ela significaria que os países teriam que acreditar que o outro iria realmente parar seus desenvolvimentos de aplicações de inteligência artificial, sendo que, dado a informação imperfeita sobre capacidades militares efetivas, eles não teriam como saber se isso é verdade ou não e a parada unilateral significaria que um dos países poderia continuar desenvolvendo suas aplicações em segredo e ganhar poder militar relativo ao países rival; o que aumentaria sua probabilidade de vencer o conflito e reduziria seu custo de guerra potencial, incentivando que ele escolha a estratégia de guerra.

Você poderia argumentar: mas e se, por uma razão irracional (populismo, ditadores loucos etc.), os líderes desses países escolhessem por entrar cada vez mais na escalada agressiva da corrida armamentista? Bem, nesse caso, depende. Mas o que gostaria de argumentar em seguida é que quanto mais mortal a inteligência artificial for, melhor. Não, não estou falando isso como um agente da Skynet enviado do futuro. A lógica das bombas nucleares pode nos ajudar a iluminar esse caso.

A lógica das armas de destruição em massa

Ao falar de armas de destruição em massa, como ogivas nucleares, a maioria das pessoas tende a analisar a partir do puro medo. O temor da aniquilação potencial e total faz com que as pessoas, por mais inteligentes que sejam, parem de usar a razão e deixem as paixões dominarem. Todo mundo aparentemente detesta com força quase religiosa tais armas. Todavia, elas são o maior presente da dádiva de Prometeu para a paz humana. As armas de destruição em massa, especialmente as nucleares, criam um equilíbrio no cenário internacional que favorece a estabilidade entre partes com conflitos de interesse antagônicos.

Imagine dois países com possibilidades de desenvolvimento de armas nucleares, China e EUA, e que, por força da condição de anarquia internacional, eles estão no ponto máximo de uma corrida armamentista e só podem tomar escolhas de ou atacar o país inimigo ou cooperar com ele em uma paz armada. O cenário que se desenha é um no qual a utilização mútua de armas nucleares significa uma derrota e aniquilação total para ambos os lados e onde a utilização da estratégia de cooperação irá depender da condição de se os ganhos da utilização de tal estratégia forem mais benéficos do que o custo potencial de conflito nuclear. Todavia, os ganhos potenciais de tal estratégia são uma função das escolhas do outro país; de forma que, considerando que em tal conflito o uso de armas nucleares significa a aniquilação total para um dos jogadores, teríamos um cenário clássico de jogo de soma-zero e onde as probabilidades importam. A expressão formal desse jogo seria tal que:

.

Considerando um cenário no qual tanto Estados Unidos quanto China possuíssem pleno conhecimento de suas potencialidades nucleares mútuas e onde houvesse uma rodada de negociação prévia antes do conflito, teríamos um jogo cuja forma extensiva seria:

Porém, observe, caro leitor, que a resolução de tal jogo não poderia ser mais horrível. Se utilizarmos o método padrão de resolução por meio de equilíbrio perfeito de subjogos (SPNE), encontraremos que a estratégia racional para ambos os países é atacar com armas nucleares independentemente do resultado das rodadas de negociação. Para nossa sorte, esse não é um cenário real. As potências nucleares mantém estrito segredo sobre suas capacidades nucleares e de armas de destruição em massa e especialmente de suas intenções de utilizar ou não tais armas. Assim, os rivais nucleares estão sempre presos em um cenário de informação imperfeita sobre o que o outro jogador irá escolher. Nesse caso, eles estão em um cenário clássico de informação imperfeita e dilema de prisioneiros; onde não existe solução por SPNE e onde a probabilidade dos jogadores importa.

Essa, meus caros, é a lógica da guerra nuclear e do equilíbrio de poder bipolar da Guerra Fria. A ampliação contínua dos arsenais nucleares soviético e americano garantiam que nenhum dos dois lados tivesse incentivos para utilizar de fato essas armas ou entrar em conflito direto um com o outro, pois os custos de oportunidade políticos da guerra iriam superar em muito seus potenciais benefícios. É por essa razão que só faz sentido lançar uma bomba sobre Hiroshima quando você é a única potência nuclear do planeta. Essa lógica é tão simples e intuitiva que pouco após a revelação do primeiro uso de armas nucleares o economista americano Jacob Viner expressou em sua avaliação do uso de tais armas no Congresso dos Estados Unidos em 1945 que: “Uma hipótese muito mais plausível é que, em uma guerra entre dois estados razoavelmente iguais, possuidores de bombas atômicas, cada lado se absterá de usar as bombas; cada mundo lateral decide que não tem nada a ganhar e muito a perder no uso recíproco das bombas, dado que o uso unilateral não é atingível. As bombas nunca seriam usadas ou seriam usadas apenas quando um dos países, em face da derrota iminente, recorresse ao seu uso em uma última tentativa desesperada esforço”.

No contexto das IA, a capacidade militar delas ainda está focada em usos militares de baixo dano, como drone warms. Isso significa que países beligerantes ainda possuem espaço para utilização de tais tecnologias em conflitos diretos. Por essa razão, acredito que, em nome da paz, a melhor coisa que pode acontecer é que se desenvolva usos ainda mais letais da IA. Isso poderá criar um equilíbrio semelhante ao criado pelas armas nucleares. E, para o bem do mundo, é bom que isso seja distribuído entre vários países.

Uma mente atenta terá notado que o equilíbrio nuclear é escalável. Quanto mais jogadores com capacidades nucleares de aniquilação da humanidade forem adicionados maior a estabilidade, dadas a suspeita e a incerteza. Por essa razão, nunca creio nas ameaças da família Kim de utilização real de seu arsenal nuclear e nem que os Estados Unidos realizarão uma invasão direta a outro país sabendo realmente que ele possui capacidade de utilização de armas de destruição em massa capazes de atingir o território continental americano. Claro, essa tecnologia ainda poderá ser utilizada dentro da política interna para criar a pior distopia de vigilância e policiamento que você poderia imaginar. Mas isso é um custo que todos iremos infelizmente ter que suportar.

BIBLIOGRAFIA ADICIONAL:

— SCHELLING, Thomas C. The Strategy of Conflict. Harvard university press, 1980;

— WALTZ, Kenneth. Man, the State, and War: A theoretical analysis. Columbia University Press, 2018;

— WOLFORD, Scott. The Politics of the First World War: A Course in Game Theory and International Security. Cambridge University Press, 2019;

— O’NEILL, Barry. Game theory models of peace and war. Handbook of game theory with economic applications, v. 2, p. 995-1053, 1994;

— KYDD, Andrew. Arms races and arms control: Modeling the hawk perspective. American Journal of Political Science, p. 228-244, 2000;

— SHUBIK, Martin. Models of Strategic Behavior and Nuclear Deterrence. 1987;

— WAGNER, R. Harrison. Nuclear deterrence, counterforce strategies, and the incentive to strike first. American Political Science Review, v. 85, n. 3, p. 727-749, 1991.

Notas de Portugal

“O mundo é um livro e aquele que não viaja lê sempre a mesma página.” (Agostinho)

Em janeiro deste ano, visitei Portugal a fim de participar do 6° Congresso Ibero-americano de Filosofia, realizado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). Foi a minha primeira oportunidade de participar de um evento acadêmico fora do País. Ao passo em que me senti confortável de poder me comunicar quase sempre em minha própria língua materna (com um pouco de espanhol eventualmente), foi desafiante apresentar um resumo da minha pesquisa para professores e colegas de diferentes nacionalidades. Valeu muito a pena pelo feedback que obtive. As comunicações que acompanhei como ouvinte foram bem instigantes e, dentre tantos intercâmbios e networks, tanto nas sessões do Congresso como nas horas vagas no refeitório da FLUP, conheci pesquisadores mexicanos, chilenos, espanhóis, portugueses…

VIVENDO A BOEMIA PORTUENSE

Uma grata surpresa foi ter reencontrado, muitos anos depois, dois antigos amigos que cursaram a graduação comigo na UFPB e que não os via desde aquela época. Um deles (Leonardo) está fazendo o doutorado em Coimbra e o outro (Rogério) em Barcelona. Foi muito bom revê-los quase doutores, com a mesma energia intelectual que os impulsionou até aqui. Uma semana de congresso foi pouco para colocar o papo em dia, mas achamos brechas na programação para colher o dia, desfrutar o momento (Carpe Diem, como reza o antigo lema latino), porque, como disse Leonardo: “Um dia, as coisas vão ser como se nada do que vivemos tivesse sido”.

Saímos juntos quase todas as noites após o Congresso e conversamos bastante sobre nossas pesquisas e aspirações acadêmicas. Vivemos um pouco da boemia portuense e constatamos que a cidade do Porto, na verdade, são duas cidades: à noite ela se transforma. À beira do rio Douro, tomamos bons e autênticos vinhos do Porto para esquentar as orelhas e, como é de lei, uma cerveja “pra lavar”.

Após o Congresso, Leonardo ainda foi o meu guia para conhecer a mais antiga universidade do mundo lusófono: a Universidade de Coimbra, fundada em 1290.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE PORTUGAL

Minha pátria é minha língua, como dizia Fernando Pessoa. Durante esses dias não me senti estrangeiro, me senti em casa. Parafraseando Gonçalves Dias ao meu modo, as aves que aqui gorjeiam gorjeiam exatamente como lá. Portugal sempre terá um lugarzinho de honra em minhas melhores memórias.

No geral, a maior diferença que senti em relação ao Brasil foi a sensação de segurança, a liberdade de ir e vir sem medo. Queria a liberdade de poder andar assim por aqui: sozinho, altas horas da noite, com o celular na mão, entrando por ruas, becos e vielas esquisitas nas quais nunca havia entrado antes, sem o menor receio de ser assaltado. Viva a segurança pública europeia!

Outra coisa que me chamou a atenção é que toda região central é livre para os pedestres e ciclistas, quase sem carros estacionados, pois os estacionamentos são subterrâneos. Além deles, há muitos andares subterrâneos nos prédios por toda região central. Você entra em um elevador no térreo e pode descer cinco ou seis andares “negativos” no subsolo. Vi também muitos carros elétricos e constatei que quase não há pessoas nos caixas e guichês de atendimento: é quase tudo automatizado. Ah, e mais um detalhe: a água da torneira é bebível.

CAMINHO SE CONHECE ANDANDO

“Muitos levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso!” (Rubem Alves)

Uma das coisas que mais gostei no Porto é que os principais pontos turísticos são todos próximos da região central e dá para fazer o roteiro todo a pé. “Caminho se conhece andando”, como canta meu conterrâneo Chico César, “então, de vez em quando, é bom se perder”. Já o grande Luiz Gonzaga cantava que tem certas coisas que, “pra mode ver, o cristão tem que andar a pé”. E andar pelo Porto é como caminhar pelas páginas de um livro de história. Observando os monumentos e a arquitetura das catedrais e dos belíssimos prédios históricos, me dei conta que as pessoas que construíram essas coisas maravilhosas já morreram há séculos. A atual geração não construiu praticamente nada disso, apenas herdou de seus antepassados. Talvez por isso no geral dão menos valor do que deveriam.

O jeito como aproveito minhas viagens, a maioria dos turistas convencionais não entenderia. Gosto de perambular, vadiar e bisbilhotar sem a companhia de grupos ou guias. Gosto de andar sem rumo, seguir o coração, ir onde minha curiosidade me levar, adentrar por becos, trilhas e vielas só para ver onde levam… Os programas badalados, “instagramáveis” e que atraem filas de turistas não me enchem os olhos. Tenho um interesse peculiar. Sou atraído por programas outside, fora do roteiro padrão e previsível. E em cada um deles faço questão de levar o tempo que eu quiser, nem mais, nem menos. Não quero deixar ninguém me esperando ou ter que esperar ninguém para poder seguir a agenda do dia. Aprendi que o roteiro prévio é só um guia, jamais um senhor do meu tempo. Antes ver cinco atrações com vagar do que dez apressadamente, só pelas fotos. Muitas vezes é necessário abrir mão de alguns programas para poder saborear melhor outros, com mais ócio, para refletir sobre eles e extrair dali algo para o espírito. Somente assim a viagem pode ser espiritualmente enriquecedora.

GASTRONOMIA E CULINÁRIA

Os portugueses em geral levam a gastronomia a sério, tanto que navegaram o mundo todo em busca de temperos e especiarias culinárias das Índias. Em qualquer bodega ou botequim come-se muito bem, não importa o quão simples pareça a fachada. Costumam servir sopas (ou caldos) de entrada antes de qualquer refeição. O alimento líquido antes da refeição sólida parece facilitar a digestão. O problema é que os nomes dos pratos nos cardápios são totalmente estranhos a um brasileiro – assim como os nomes dos nossos pratos devem ser igualmente estranhos aos portugueses. Minha sorte é que alguns restaurantes tiveram a fineza de elaborar cardápios com fotos dos pratos: isso facilita muito a vida do turista.

Um detalhe curioso é que em Portugal “praça de alimentação” se chama “restauração”. E isso faz muito sentido, porque é onde tem restaurantes. E só então me dei conta de que “restaurante” significa literalmente aquilo que restaura – nesse caso a saciedade, o vigor ou a energia vital em forma de calorias. Outro detalhe digno de nota é que encontrei mais brasileiros do que portugueses trabalhando.

O AUGE DO INVERNO EUROPEU

Janeiro é o auge do inverno europeu e, embora quase nunca neve na península ibérica, para um nordestino praieiro como eu, fez muito frio – a ponto de eu precisar comprar luvas logo no primeiro dia de viagem. Eu parecia uma chaleira ambulante exalando vapor pelas vias respiratórias, de modo que, como diria Whindersson Nunes, qualquer brasileiro facilmente me identificaria nas ruas como um conterrâneo seu, dado o meu encantamento com esse fato. Passado esse primeiro encantamento, em poucos dias o frio já se tornara irritante. É como dizem: Os ursos polares adoram o frio; já os bipolares às vezes gostam, às vezes não.

No inverno, os dias são levemente mais curtos – amanhecia por volta das 7h – e o movimento do sol no firmamento forma um arco lateral ao sul, de modo que o astro rei nunca está exatamente sobre nossas cabeças, como estamos habituados a ver ao meio dia. Por falar nisso, durante mais de uma semana não vi uma nuvem sequer no céu extremamente límpido e ensolarado do inverno português.

Constatei ainda que é quase impossível suar, mesmo praticando atividades aeróbicas, devido ao clima frio e seco. Passei dois dias sem desodorante – já que não pode transportar aerosol na bagagem de mão em voos internacionais – e não tive nenhum mau cheiro nas axilas. Passei os mesmos dois dias usando a mesma meia o tempo todo e não tive chulé. Nessas condições, passei a compreender perfeitamente a fama dos franceses: tomar banho é opcional.

Apesar das vantagens, no entanto, a falta de umidade do ar me causou ressecamento nos lábios. Rodei por várias farmácias procurando “manteiga de cacau” para aliviar o ressecamento dos lábios, mas não encontrei em lugar algum. Até que certo dia resolvi mudar a pergunta e pedir “algo para passar nos lábios ressecados”. Imediatamente me entregaram um batom de manteiga de cacau na primeira farmácia. Acontece que eles não chamam manteiga de cacau por esse nome. E assim levei para a vida mais uma lição valiosa: muitas vezes o problema não é a resposta obtida, mas a pergunta que está mal formulada.

CAPITALISMO SANITÁRIO

Em Lisboa, a maioria dos banheiros (ou melhor, casas de banho) acessíveis aos turistas custa 50 centavos para usar. E não importa se você pretende despejar resíduos líquidos ou sólidos (os famosos número um e número dois): o preço é invariavelmente o mesmo. Assim, a primeira dedução que fiz é que cagar tem claramente a melhor relação custo-benefício. E tem mais: 50 centavos para um europeu são só 50 centavos, mas para mim, são quase 3 suados reais! Isso me fez passar um dia inteiro tentando usar o mínimo possível as casas de banho, o que implica beber pouca água, o que por sua vez implica certa desidratação causada pelo que chamei de capitalismo sanitário.

ESTÁDIO DO DRAGÃO

Apaixonado por futebol desde criança como sou, uma das visitas que mais queria fazer era esta: conhecer um estádio padrão Champions League. Desde que meu conterrâneo Hulk veio jogar aqui (e agora com outro conterrâneo, o Otávio, brilhando com a camisa do Porto e da seleção portuguesa), minha identificação e admiração por esse clube só cresce. Dá-lhe, dragão! Indomáveis por natureza!

PELA JANELA DO AVIÃO

Contemplando a imensidão do Atlântico pela janela do avião, me ocorreu que os primeiros portugueses a cruzar este oceano levaram meses para concluir a travessia em caravelas de madeira. Cinco séculos depois, lá estava eu fazendo o mesmo trajeto em apenas 7 horas dentro de uma cápsula de aço alada com muito mais conforto. Para mim, tudo era novo, espantoso e digno de curiosidade. Mas parece que, para a maioria das pessoas no voo, aquilo era apenas rotina. Na ida, a TAP Air me colocou no corredor. Quando o sol estava nascendo, vi pelo GPS que estávamos passando por arquipélagos belíssimos na costa da África, mas ninguém abriu as janelas para contemplar. Sorte que na volta peguei assento na janela.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(Fernando Pessoa, Mar português, 1934)


PARA DESCONTRAIR

Trecho do show de comédia “Literalmente Falando”, do comediante mineiro Stevan Gaipo, sobre a fama dos portugueses de serem literais.

A Terra é redonda e disso os antigos já sabiam

Depois das viagens espaciais, é indiscutível para pessoas minimamente escolarizadas que o formato do nosso planeta não é plano, como sugerem alguns fanáticos, mas redondo. Foguetes levando satélites e outros equipamentos são lançados para a órbita da Terra o tempo todo; e disso temos milhares e milhares de registros e provas documentais. Mas o fato é que nem precisava de tanto: o Homem já sabia que a Terra era redonda muito antes de dominar as viagens espaciais.

O filósofo grego Aristóteles já tinha entendido. Em seu livro Sobre o Céu, ele escreveu: “Novamente, nossas observações das estrelas tornam evidente que não só a Terra é circular, como também se trata de um círculo não muito grande. Uma pequena mudança de posição para o sul ou para o norte provoca uma alteração nítida no horizonte”. Em outras palavras, as diferentes constelações que vemos no céu dependem de onde estamos. O firmamento observado no Hemisfério Norte não é o mesmo no Hemisfério Sul. Se a Terra fosse plana, veríamos sempre as mesmas estrelas de qualquer ponto e a qualquer momento.

Outro grande pensador e matemático grego, Eratóstenes de Cirene, foi além e conseguiu medir a circunferência da Terra. Ele descobriu que, ao meio-dia, em uma certa cidade do Egito, o Sol estava sempre acima da sua cabeça. Mas em outra localidade, o Sol não subia tanto naquela exata hora do dia. Eratóstenes conhecia a distância entre as duas cidades, mediu a distância da sombra de monumentos em cada uma das duas cidades ao meio-dia, e aplicou um pouco de trigonometria. Seu método pode ter sido um tanto rudimentar, mas ele certamente estava na pista certa e chegou a medir (e praticamente acertar) a circunferência da Terra com uma precisão impressionante. Desde então, o fato de a Terra ser redonda se tornou o senso comum, pelo menos entre as pessoas mais poderosas e ilustradas.

Embora não chegue a afirmar que a terra seja redonda, outro filósofo grego, Anaximandro de Mileto, antes mesmo de Aristóteles e Eratóstenes, teve essa mesma intuição, como explica de maneira genial o Prof. Clóvis de Barros Filho neste trecho de um episódio do Flow Podcast:

Escritores bíblicos não afirmam explicitamente que a Terra é redonda, mas existem algumas passagens que podem ser interpretadas dessa maneira. Veja, por exemplo, Isaías 40:22: “Ele [Deus] é o que está assentado sobre o círculo da Terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; é ele o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda para neles habitar”. Também podemos ler em Jó 26:10: “Ele [Deus] traçou um círculo sobre a superfície das águas, onde terminam a luz e as trevas”. Em passagens como essas, a palavra “círculo” pode ser entendida como uma referência à forma redonda da Terra.

Mais recentemente, muitos exploradores conseguiram completar a volta ao mundo. O português Fernão de Magalhães circunavegou a Terra entre 1519 e 1522, algo que teria sido muito mais difícil de fazer caso o planeta tivesse uma borda. No entanto, mesmo antes do feito de Magalhães, navegadores mais atentos já tinham percebido que a Terra era redonda, ao observarem que, ao apontar a luneta para um objeto alto, como uma montanha, o topo aparece sobre o horizonte antes de todo o resto.


Como sei que a Terra é redonda?

Crônica de George Orwell, publicada originalmente no jornal Tribune do dia 27 de dezembro de 1946, traduzida para o português por Desidério Murcho.


Num ou noutro lugar — penso que é no prefácio a Saint Joan — Bernard Shaw comenta que somos hoje mais crédulos e supersticiosos do que éramos na Idade Média, e como exemplo da credulidade moderna cita a crença muito difundida de que a Terra é redonda. O homem médio, afirma Shaw, não consegue apresentar uma só razão para pensar que a Terra é redonda. Limita-se a engolir esta teoria por haver nela algo que é atraente para a mentalidade do século 20.

Ora, Shaw está exagerando, mas o que ele afirma tem algo que se lhe diga, e vale a pena explorar a questão devido à luz que lança sobre o conhecimento moderno. Afinal, por que acreditamos efetivamente que a Terra é redonda? Não estou a falar dos poucos milhares de astrónomos, geógrafos, e assim por diante, que poderiam apresentar provas oculares, ou que têm um conhecimento teórico da prova, mas do cidadão comum que lê os jornais, como eu ou você.

No que respeita à teoria da Terra plana, penso que poderia refutá-la. Se ficarmos junto ao mar num dia com boa luz, consegue-se ver os mastros e chaminés de navios invisíveis que passam ao longo do horizonte. Este fenómeno só pode ser explicado supondo que a superfície da Terra é curva. Mas não se segue que a Terra é esférica. Imagine-se outra teoria, chamada teoria da Terra oval, que afirma que a Terra tem a forma de um ovo. Que posso dizer contra ela?

Contra o homem da Terra oval, a primeira carta que posso jogar é a analogia do Sol e da Lua. O homem da Terra oval responde logo que não sei, pela minha própria observação, que esses corpos são esféricos. Só sei que são redondos, e podem perfeitamente ser discos planos. Não tenho resposta a isto. Além disso, continua ele, que razão tenho para pensar que a Terra tem de ter a mesma forma que o Sol e a Lua? A isto também não posso responder. A minha segunda carta é a sombra da Terra: quando incide sobre a Lua, durante os eclipses, parece a sombra de um objeto redondo. Mas como sei, exige o homem da Terra oval, que os eclipses da Lua são causados pela sombra da Terra? A resposta é que não sei, tendo antes tomado às cegas este pedaço de informação de artigos de jornal e opúsculos de ciência.

Derrotado nas trocas menores, jogo agora a minha rainha de trunfo: a opinião dos especialistas. O astrônomo, que tem obrigação de saber, me diz que a Terra é redonda. O homem da Terra oval joga o seu rei em cima da minha rainha. Testei eu a afirmação do astrônomo, e saberia sequer como o fazer? Aqui faço uso do meu ás. Sim, conheço um teste. Os astrónomos conseguem prognosticar eclipses, e isto sugere que as suas opiniões sobre o sistema solar são bastante sólidas. Tenho consequentemente justificação para aceitar o que dizem sobre a forma da Terra.

Se o homem da Terra oval responder — o que penso ser verdade — que os antigos egípcios, que pensavam que o Sol anda à volta da Terra, sabiam também prever eclipses, lá se vai o meu ás. Só me resta uma carta: a navegação. As pessoas velejam à volta do mundo, e chegam aonde querem, fazendo cálculos que presumem que a Terra é esférica. Penso que isto acaba com o homem da Terra oval, apesar de mesmo assim ele poder talvez ter um qualquer tipo de contra-ataque.

Como se vê, minhas razões para pensar que a Terra é redonda são muito precárias. Contudo, trata-se de um pedaço excepcionalmente elementar de informação. Na maior parte das outras questões, eu teria apelado muito mais cedo ao especialista, e teria tido menos capacidade para testar as suas proclamações. E a maior parte do nosso conhecimento está neste nível. Não repousa em raciocínio ou experimentação, mas na autoridade. E como poderia ser de outro modo, quando a diversidade de conhecimento é tão vasto que o próprio especialista é um parolo que mal se afasta da sua própria especialidade? As pessoas, na sua maior parte, se lhes pedissem para provar que a Terra é redonda, nem se dariam ao incômodo de apresentar os fraquíssimos argumentos que esbocei. Começariam por dizer que “toda a gente sabe” que a Terra é redonda, e se insistíssemos, ficariam zangadas. De certo modo Shaw tem razão. Esta é uma época crédula, e o fardo de conhecimento que agora temos de carregar é em parte responsável.

Jeitinho, gambiarra e soluções paliativas

José Brasileiro da Silva estava trabalhando no computador e o sistema operacional apresentava insistentemente uma mensagem de erro. Ao procurar na internet um tutorial de como resolver esse problema, tudo o que ele encontrou aos montes foram dicas de como apagar ou suprimir as notificações e não vê-las mais.

Voltando para casa, o painel do carro de José acendeu uma luz que, segundo o manual, era indicativa de um problema no sistema de emissões. Cauteloso como sempre, José passou em várias oficinas tentando resolver esse problema e todas elas ofereceram primeiro uma solução de como simplesmente apagar a luz do painel, sem sequer avaliar os componentes do sistema de emissão.

Quando finalmente chegou em casa, José sentiu uma dor e procurou um médico, que lhe receitou alguns remédios para tratar os sintomas e fazer cessar a dor, sem sequer investigar o que poderia estar causando aquela dor.

Como tem sido assim desde a sua infância, José Brasileiro já está até acostumado a nunca resolver de fato a causa de um problema. No seu país, isso nunca é prioridade. José vive no país do jeitinho, da gambiarra, do “migué”, das soluções paliativas. Se ele não vê o aviso, pode tranquilamente ignorar o problema, sem esperar que um dia o computador vai travar, o carro vai deixá-lo no prego e o seu coração vai resolver fazer uma greve e parar de trabalhar.

José Brasileiro da Silva é um nome fictício de um personagem que não existe. Na verdade, tudo isso aconteceu comigo em algum momento da minha vida.

A mensagem de erro do sistema operacional não é um problema, é o aviso do problema. A luz indicadora no painel não é um problema, é o aviso do problema. A dor que você está sentindo não é um problema, é o aviso do problema. Foque em resolver as causas reais e não meramente os avisos, sinais e sintomas.