Arqueólogos encontram cidades perdidas de mais de 2,5 mil anos na Amazônia

Após milhares de anos escondidas sob a densa vegetação, arqueólogos descobriram uma surpreendente rede de estradas, canais e cidades perdidas no meio da floresta amazônica do Equador que floresceram há mais de 2,5 mil anos. A região é conhecida hoje como os sítios arqueológicos do Vale do Upano.

A descoberta muda muito do que sabemos sobre o histórico de ocupação humana na Amazônia. Já sabíamos da existência de grandes cidades estabelecidas nas terras altas da América do Sul, como Machu Picchu no Peru, uma das mais importantes cidades do Império Inca, muito antes da chegada dos europeus. Também sabíamos da existência de grandes impérios no atual México e América Central, como os dos Maias e dos Astecas. Mas acreditava-se que, na Amazônia, as pessoas só viviam de forma nômade, em pequenos grupos, provavelmente nus, vivendo em cabanas e formando, no máximo, pequenos assentamentos. Essa nova descoberta revela, porém, que em uma época contemporânea ao Império Romano na Europa, os povos originários da Amazônia já viviam em complexas sociedades urbanas, formando uma civilização que durou mais de mil anos naquela região.

Vestígios dessa antiga civilização foram notados pela primeira vez nos anos 1970 pelo arqueólogo francês Stéphen Rostain, que lidera as investigações no Centro Nacional de Pesquisa Científica da França e foi um dos pesquisadores que relataram a descoberta em janeiro de 2024 na revista Science. Mas, na época, “não se tinha certeza de como tudo isso se encaixava”, disse ele. O professor conta que, no início da carreira, foi desencorajado a seguir com a pesquisa, pois não se acreditava que algum grupo antigo tivesse vivido na Amazônia. “Mas eu sou muito teimoso, então segui de qualquer maneira. Agora devo admitir que estou muito feliz por ter feito uma descoberta tão grande”, diz ele.

Essas cidades foram construídas e ocupadas pelos povos Upano e Kilamope entre aproximadamente 500 a.C. e 600 d.C. Embora seja difícil estimar a dimensão da população, o local abrigava não menos do que 10 mil pessoas, podendo ter chegado a uma população de 100 mil habitantes em seu auge, afirmou o arqueólogo Antoine Dorison, coautor do estudo, do mesmo instituto francês. Isso é mais do que a população estimada de Londres na mesma época, que era a maior cidade da Grã-Bretanha na época do Império Romano. As pessoas que ali viveram provavelmente se concentravam na agricultura. Comiam milho e batata doce, e provavelmente bebiam “chicha“, um tipo de cerveja feita de milho. Poços e lareiras foram encontrados, bem como potes, pedras para moer plantas, além de sementes queimadas. Edificações residenciais e cerimoniais erguidas em mais de 6 mil montículos de terra eram circundadas por campos agrícolas com canais de drenagem. A área fica próxima a um vulcão, o que tornou o solo rico, mas que também pode ter levado à destruição da sociedade que um dia existiu no local.

Para Dorison, as estradas foram o ponto mais marcante da pesquisa. As maiores estradas tinham 10 metros de largura e se estendiam por 10 a 25 quilômetros. “A rede rodoviária é muito sofisticada, se estende por uma vasta distância, tudo está conectado. E há ângulos retos, o que é muito impressionante”, diz ele, explicando que é muito mais difícil construir uma estrada reta do que uma que se encaixa na paisagem. Ele acredita que algumas delas tinham um “significado muito poderoso”, talvez ligado a uma cerimônia ou crença religiosa. Os cientistas também identificaram calçadas com valas em ambos os lados que acreditam ser canais que ajudavam a gerenciar a abundância de água na região. Foram identificados também possíveis sinais de ameaças às cidades: algumas valas bloqueavam as entradas para os assentamentos e podem ser evidências da proximidade de grupos hostis.

A descoberta só foi possível graças a uma combinação de escavações e a utilização da tecnologia LIDAR (detecção e alcance de luz, ou light detection and ran ging na sigla em inglês). Utilizando sensores a laser infravermelho acoplados a um avião, essa tecnologia de sensoriamento remoto permite o escaneamento preciso de regiões densas e de difícil acesso, como a floresta amazônica. O LIDAR escaneou uma área de aproximadamente 300 quilômetros quadrados, até encontrar o sistema de estradas e plataformas da antiga cidade. “Explorei o local muitas vezes, mas o LIDAR me deu outra visão da terra. A pé, você tem árvores no caminho, e é difícil ver o que está realmente escondido lá”, conta Rostain.

Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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