Isaac Newton criou teoria da gravidade durante quarentena da peste bubônica

Longe de Cambridge e da epidemia que deixou 100 mil mortos, o cientista ainda encontrou tempo para iniciar seus estudos sobre cálculo e óptica. É o que mostra a matéria a seguir, publicada ontem na página da revista Galileu, com informações dos jornais Open CultureThe Guardian e The Washington Post.

Veja também: Breve história das pandemias
Manuscritos teológicos de Isaac Newton
A história da maçã de Isaac Newton


Sentindo-se ocioso durante a quarentena? Que tal descobrir a próxima teoria que mudará os rumos da ciência? Foi o que fez Isaac Newton quando a Universidade de Cambridge liberou seus alunos para voltarem para suas casas e se resguardarem da Grande Praga de Londres, uma epidemia de peste bubônica que afetou a Inglaterra entre 1665 e 1666.

De volta à mansão Woolsthorpe, a 96 quilômetros de Cambridge e seus professores, não é exagero algum dizer que Newton teve um annus mirabilis, latim para “ano de maravilhas”. Afinal, o estudante pôs em dia seus problemas de matemática, que mais tarde deram origem ao cálculo moderno, e fez alguns experimentos com prismas, iniciando seus estudos sobre óptica. Nesse mesmo período, vale mencionar que, sim, na falta de uma série para maratonar, Newton observou uma maçã cair de uma árvore.

Assim, o universitário criou a Lei da gravitação universal. Segundo ela, “dois corpos se atraem com força proporcional às suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que separa seus centros de gravidade”. Em 1667, Newton retornou à universidade com as teorias em mãos e, em dois anos, já era professor. A Grande Praga pela qual Londres passou naquele momento e deixou Newton recluso foi menos mortal do que a Peste Negra, ocorrida no século 14. Ainda assim, causou cerca de 100 mil mortes em 18 meses, representando cerca de um quarto da população londrina da época.

Newton não foi o único a ter ideias geniais enquanto descansava em casa durante uma quarentena. O autor Albert Camus escreveu seu mais notável livro, A Peste, quando uma epidemia de peste bubônica assolou a Argélia. Nas últimas semanas, o best-seller publicado pela primeira vez em 1947 voltou a aparecer nas listas de mais vendidos em muitas livrarias ao redor do mundo, especialmente na Itália e na França.

William Shakespeare também pode ter escrito obras notáveis como o Rei Lear durante uma quarentena. Entre os anos de 1603 e 1613, o Globe Theatre e outros teatros em Londres ficaram fechados por seis anos e meio. A medida foi tomada para evitar aglomerações na capital inglesa, que enfrentou uma série de surtos da peste bubônica ao longo do século 17 — como também testemunhou Newton. Sabendo que a peça foi apresentada pela primeira vez em 26 de dezembro de 1606, com a presença do Rei James I, é bem possível que ele a tenha escrito naquele ano ou no ano anterior, enquanto enfrentava o isolamento social longe dos palcos.

Os manuscritos de Leonardo da Vinci

Os manuscritos de Leonardo da Vinci

O caderno tem 20 por 29 centímetros, mais ou menos do tamanho de uma revista e traz anotações científicas, textos pessoais, gráficos e diagramas, sem uma ordem específica. Um típico caderno de anotações. Quer dizer, não muito típico porque o recheio é de Leonardo da Vinci, que escreveu tudo de trás para frente, no seu famoso estilo de escrita espelhado, entre 1478 e 1518, lá na belíssima cidade de Florença, enquanto nosso país era descoberto e inaugurado oficialmente pelos portugueses. Impossível não ficar encantado com a possibilidade de folhear o caderno, dar zoom os textos e imaginar o contexto em que foi escrito pelas próprias mãos de um dos seres humanos mais geniais que já passaram pelo nosso planeta. Aviso: dificilmente você conseguirá ler alguma coisa, a menos que o seu italiano-espelhado seja muito bom.

Esse caderno, chamado de Codex Arundel não é o único registro manuscrito de da Vinci disponível online, mas é o mais recente de todos. Depois da morte de Leonardo na França, seu pupilo Francesco Melzi juntou tudo que ele havia escrito e levou de volta para a Itália. Os herdeiros de Melzi não faziam ideia da importância desse material e foram se desfazendo dele gradualmente durante muitos séculos, e os manuscritos ficaram transitando na mão de poderosos colecionadores. São mais de 5 mil manuscritos que estão sendo recuperados, um registro histórico incrível onde invenções geniais como o avião, o helicóptero, o pára-quedas, o submarino e o carro foram esboçados pelo menos 300 anos de serem de fato fabricados.

No ano passado, a Biblioteca Nacional do Reino Unido e a Microsoft digitalizaram mais de 570 páginas do Codex Arundel, coleção de notas do artista, e agora a Biblioteca Nacional de Arte, do Victoria and Albert Museum, em Londres, digitalizou os cadernos Codex Forster. Todo o conteúdo pode ser acessado nesse link. Para saber mais sobre todos os cadernos, comece pela matéria publicada pelo The Guardian em 2013 e a introdução feita pela British LibraryFonte: Update or Die!

Quando o homem pisou na lua

Há exatos 50 anos, no dia 20 de julho de 1969, nossa maior aventura espacial até hoje, a missão Apollo 11, lançou-se ao espaço sob a pressão de ser a quinta tentativa de realizar o tão sonhado feito de alunagem, o pouso na Lua. Proposta em plena Guerra Fria pelo então presidente americano John Kennedy como um ato simbólico de conquista do espaço, e tripulada pelos astronautas Edwin Aldrin, Michael Collins e Neil Armstrong, a missão Apollo 11 ficou famosa também por toda cobertura e transmissão da mídia, desde seu lançamento até o momento em que Neil Armstrong, comandante da nave, pisou pela primeira vez na Lua. Lançada sob o olhar de milhares de espectadores na Flórida, a Apollo 11 é um marco histórico inesquecível. Veja abaixo um clipe com imagens marcantes, uma reportagem de 1974 e um episódio do canal Nostalgia sobre a missão.

Uma curiosidade: A missão Apollo 11 pousou na lua com astronautas apenas 63 anos depois de Santos Dumont realizar o primeiro voo de avião, em 1906.

Qual é o seu ikigai?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Na cultura de Okinawa, no Japão, há um conceito muito simples e profundo, com infinitas camadas, conhecido como ikigai (生き甲斐). Em uma tradução aproximada, significa “razão de viver”. Também tem sido traduzido, de maneira bem livre, como “razão pela qual você se levanta de manhã”. No tradutor do Google, a tradução literal é “sal da vida”. No Ocidente, o conceito de ikigai tem sido aplicado à orientação vocacional e ao coaching no mundo corporativo. Graças a alguns estudos muito interessantes e à menção do conceito em palestras para grandes públicos, ele tem sido estendido a várias outras áreas.

Veja uma síntese gráfica do ikigai:

ikigai

Vamos considerar que qualquer atividade que desenvolvemos pode cair em um desses quatro grandes conjuntos: (1) aquilo que amamos, (2) aquilo que fazemos bem, (3) aquilo do que o mundo precisa, e (4) aquilo que te pagam para fazer. Esses conjuntos têm diferentes interseções entre si. Pode haver uma atividade que você ame e faça bem; se você descobri-la, saiba que essa é a sua paixão. Outra atividade você faz bem e é rentável; essa é sua vocação. Em alguns casos, há uma atividade que você e ama e da qual o mundo precisa; essa é sua missão. Quando o mundo precisa de uma atividade, está disposto a pagar por ela e você está disposto a realizá-la, essa é sua profissão.

A maioria das pessoas tem apenas uma ocupação, que é um emprego ou bico que paga as contas, por mais que elas o detestem ou ganhem mal por ele. Outras mais realizadas têm uma profissão. Aquelas que têm mais sorte ainda encontram uma vocação e a realizam. Poucas pessoas conseguem ganhar dinheiro com uma paixão, deixando essa atividade no campo do hobby. Menos pessoas ainda conseguem botar pão na mesa com uma missão, mas, por acreditarem muito nela, acabam realizando-a no campo do voluntariado. Qualquer uma dessas quatro interseções pode levar a uma vida produtiva e feliz. Contudo, para viver uma vida plena, o ideal é conseguir colocar a principal atividade que você desenvolve na interseção dos quatro conjuntos. Este é o ikigai. Ou seja: uma vida plena envolve ocupar a maior parte do seu tempo e energia com algo que você ama, faz bem, o mundo precisa e ainda te pagam para fazer.

Além dessa atividade principal, é saudável dedicar-se também a atividades paralelas, como hobbies e voluntariado. Por exemplo, pode ser que você trabalhe como cientista, mas também goste muito de praticar artes marciais. Como essas duas coisas são muito diferentes entre si e exigem talento, treinamento e prática, é improvável que o seu ikigai esteja nas duas. Pode ser que você ame ambas, mas faça uma bem melhor do que a outra. Se isso for verdade, provavelmente as pessoas estarão dispostas a te pagar por uma delas, mas não pela outra. Assim, a decisão mais sábia para alguém que presta atenção à própria voz interior é focar naquela em que pode ter um desempenho mais elevado e fazer dela sua ocupação principal, mantendo a outra como hobby. Em alguns casos mais raros, acontece de a pessoa amar muito uma atividade, fazê-la bem, mas o mundo achar que não precisa dela e, por isso, ninguém estar disposto a pagar a conta. Quem cai nesse tipo de combinação pode se perder em um vórtice de frustração e auto-piedade, como muitos gênios incompreendidos que não dão em nada.

Contudo, algumas dessas pessoas à frente do próprio tempo têm uma ambição tão grande e uma capacidade de convencimento tão forte que conseguem mostrar ao mundo que ele realmente precisa de algo que sequer sabia existir. Pense no exemplo dos produtos criados pelo Steve Jobs, que não era bom em programação ou engenharia eletrônica, mas sabia como ninguém enxergar dois passos à frente e reger “orquestras” formadas por excelentes profissionais de diferentes áreas. E já que estamos falando nele, recomendo que você assista abaixo ao famoso discurso de Steve Jobs na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, em 2005. Ele fala sobre ligar os pontos e descobrir o seu ikigai. Siga o conselho dele e não viva a vida de outra pessoa.

Ninguém pode dizer a você qual é o seu ikigai. Descobri-lo é uma jornada pessoal, íntima e introspectiva. Contudo, você deve ficar constantemente atento aos sinais que indicam se você está ou não no caminho certo. Além disso, procure se cercar de pessoas que te puxam para cima e te deixam mais próximo do seu ikigai. Procurar o próprio ikigai pode parecer uma meta egoísta, mas uma pessoa plenamente realizada torna o mundo um lugar melhor para as outras pessoas, enquanto uma pessoa frustrada leva outras para o buraco com ela. Antes de arrumar o mundo, arrume o seu quarto.

“O trabalho ideal não é aquele no qual você ganha muito dinheiro e para de trabalhar,
mas aquele que nem todo dinheiro do mundo te faria parar.” (Larusso)

A educação moderna criou adultos que se comportam como bebês

A educação moderna exagerou no culto à autoestima e produziu adultos que se comportam como crianças. Esse é o tema da reportagem da revista Época abaixo.


Os alunos do terceiro ano de uma das melhores escolas de ensino médio dos Estados Unidos, a Wellesley High School, em Massachusetts, estavam reunidos numa tarde ensolarada para o momento mais especial de sua vida escolar: a formatura. Com seus chapéus e becas coloridos e pais orgulhosos na plateia, todos se preparavam para ouvir o discurso do professor de inglês David McCullough Jr. Esperavam, como sempre nessas ocasiões, uma ode a seus feitos acadêmicos, esportivos e sociais. O que ouviram do professor, porém, pode ser resumido em quatro palavras: vocês não são especiais.

Essas palavras foram repetidas nove vezes em 13 minutos. “Ao contrário do que seus troféus de futebol e seus boletins sugerem, vocês não são especiais”, disse McCullough logo no começo. “Adultos ocupados mimam vocês, os beijam, os confortam, os ensinam, os treinam, os ouvem, os aconselham, os encorajam, os consolam e os encorajam de novo. (…) Assistimos a todos os seus jogos, seus recitais, suas feiras de ciências. Sorrimos quando vocês entram na sala e nos deliciamos a cada tweet seus. Mas não tenham a ideia errada de que vocês são especiais. Porque vocês não são”.

O que aconteceu nos dias seguintes deixou McCullough atônito. Ao chegar para trabalhar na segunda-feira, notou que havia o dobro da quantidade de e-mails que costumava receber em sua caixa de entrada. Paravam na rua para cumprimentá-lo. Seu telefone não parava de tocar. Dezenas de repórteres de jornais, revistas, TV e rádio queriam entrevistá-lo. Todos queriam saber mais sobre o professor que teve a coragem de esclarecer que seus alunos não eram o centro do universo. Sem querer, ele tocara num tema que a sociedade estava louca para discutir – mas não tinha coragem. Menos de uma semana depois, McCullough fez a primeira aparição na TV para explicar que não menosprezava seus jovens alunos, mas julgava necessário alertá-los. “Em 26 anos ensinando adolescentes, pude ver como eles crescem cercados por adultos que os tratam como preciosidades. Mas, para se dar bem daqui para a frente, eles precisam saber que agora estão todos na mesma linha, que nenhum é mais importante que o outro”, disse.

A reação ao discurso do professor McCullough pode parecer apenas mais um desses fenômenos de histeria americanos. Mas a verdade é que ele tocou numa questão que incomoda pais, educadores e empresas no mundo inteiro – a existência de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos. Esses jovens cresceram ouvindo de seus pais e professores que tudo o que faziam era especial e desenvolveram uma autoestima tão exagerada que não conseguem lidar com as frustrações do mundo real. “Muitos pais modernos expressam amor por seus filhos tratando-os como se eles fossem da realeza”, afirma Keith Campbell, psicólogo da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, e coautor do livro Narcisism epidemic (Epidemia narcisista), de 2009, sem tradução para o português. “Eles precisam entender que seus filhos são especiais para eles, não para o resto do mundo”.

Em português, inglês ou chinês, esses filhos incensados desde o berço formam a turma do “eu me acho”. Eles se acham os melhores alunos (se tiram uma nota ruim, é o professor que não os entende). Eles se acham os mais competentes no trabalho (se recebem críticas, é porque o chefe tem inveja). Eles se acham merecedores de constantes elogios e rápido reconhecimento (se não são promovidos em pouco tempo, a empresa foi injusta em não reconhecer seu valor). Você conhece alguém assim? Boa parte deles, no Brasil e no resto do mundo, foi bem-educada, teve acesso aos melhores colégios, fala outras línguas e, claro, é ligada em tecnologia e competente em seu uso.

A expectativa exagerada dos jovens foi detectada no livro Generation me (Geração eu), escrito em 2006 por Jean Twenge, professora de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, nos EUA. No trabalho seguinte, em parceria com Campbell, ela vasculhou os arquivos de uma pesquisa anual feita desde os anos 1960 sobre o perfil dos calouros nas universidades. Descobriu que os alunos dos anos 2000 tinham traços narcisistas muito mais acentuados que os jovens das três décadas anteriores. “O narcisismo pode levar ao excesso de confiança e a uma sensação fantasiosa sobre seus próprios direitos”, diz Campbell. Os maiores especialistas no assunto concordam que a educação que esses jovens receberam na infância é responsável por seu ego inflado e hipersensível.

E eles sabem disso. Uma pesquisa da revista Time e da rede de TV CNN mostrou que dois terços dos pais americanos acreditam que mimaram demais sua prole. Sally Koslow, uma jornalista aposentada, chegou a essa conclusão depois que seu filho, que passara quatro anos estudando fora de casa e outros dois procurando emprego, voltou a morar com ela. “Fizemos um superinvestimento em sua educação e acompanhamos cada passo para garantir que ele tivesse sua independência”, diz ela. “Ao ver meu filho de quase 30 anos andando de cueca pela sala, percebi que deveria tê-lo deixado se virar sozinho”.

Que criação é essa que, mesmo com a garantia da melhor educação e sem falta de atenção dos pais, produz legiões de narcisistas com dificuldade de adaptação? Os estilos de criação modernos têm em comum duas características. A primeira é o esforço incansável dos pais para garantir o sucesso futuro de sua prole – e esse sucesso depende, mais do que nunca, de entrar numa boa universidade e seguir uma carreira sólida. Nos Estados Unidos, a tentativa de empacotar as crianças para esse modelo de vida começa desde cedo. Escolas infantis selecionam bebês de 2 anos por meio de testes. Isso acontece no Brasil também. No colégio paulista Vértice, um dos mais bem classificados no ranking do Enem, há fila para uma vaga no jardim da infância.

O segundo pilar da criação moderna está na forma que os pais encontraram para estimular seus filhos e mantê-los no caminho do sucesso: alimentando sua autoestima. É uma atitude baseada no “movimento da autoestima”, criado a partir das ideias do psicoterapeuta canadense Nathaniel Branden, hoje com 82 anos. Em 1969, ele lançou um livro pregando que a autoestima é uma necessidade humana. Não atendida, ela poderia levar a depressão, ansiedade e dificuldades de relacionamento. Para Branden, a chave para o sucesso tanto nas relações pessoais quanto profissionais é nutrir as pessoas com o máximo possível de autoestima desde crianças. Tal tarefa, diz ele, cabe sobretudo a pais e professores. Foi uma mudança radical na maneira de olhar para a questão. Até a década de 1970, os pais não se preocupavam em estimular a autoestima das crianças. Temiam mimá-las. O movimento de Branden chegou ao auge em 1986, quando o então governador da Califórnia, George Deukmejian, criou um grupo de estudos de autoestima. Os pesquisadores deveriam descobrir como escolas e famílias poderiam estimulá-la.

Os pais reuniram esses dois elementos – o desejo de ver o filho se dar bem na vida e a ideia de que é preciso estimular a autoestima – e fizeram uma tremenda confusão. Na ânsia de criar adultos competentes e livres de traumas, passaram a evitar ao máximo criticá-los. O elogio virou obrigação. Para fazer com que as crianças se sintam bem com elas mesmas, muitos pais elogiam seus filhos até quando não é necessário. O resultado é que eles começam a acreditar que são bons em tudo e criam uma imagem triunfante e distorcida de si mesmos. Como distinguir o elogio bom do ruim? O exemplo mais comum de elogio errado, dizem os psicólogos, é aquele que premia tarefas banais. Se a criança sabe amarrar o tênis, não é necessário parabenizá-la por isso todo dia. Se o adolescente sabe que é sua obrigação diária ajudar a tirar a mesa, diga apenas “obrigado”. Não é preciso exaltar sua habilidade em dobrar a toalha. Os elogios mais inadequados são feitos quando não há nada a elogiar. Se o time de futebol do filho perde de goleada – e o desempenho dele ajudou na derrota –, não adianta dizer: “Você jogou bem, o que atrapalhou foi o gramado ruim”. Isso não é elogio. É simplesmente mentira.

Para piorar, um grupo de psicólogos afirma agora que a premissa fundamental do movimento da autoestima estava errada. “Há poucas e fracas evidências científicas que mostram que alta autoestima leva ao sucesso escolar ou profissional”, diz Roy Baumeister, professor de psicologia da Universidade da Flórida. Ele é responsável pela mais extensa e detalhada revisão dos estudos feitos sobre o tema desde a década de 1970. Descobriu que a autoestima alta é provocada pelo sucesso – não é causa dele. Primeiro vêm a nota boa e a promoção no trabalho, depois a sensação de se sentir bem – não o contrário. “Na verdade, a autoestima elevada pode ser contraproducente. Ela produz indivíduos que exageram seus feitos e realizações”. Outra de suas conclusões é que o elogio mal aplicado pode ser negativo. “Quando os elogios aos estudantes são gratuitos, tiram o estímulo para que os alunos trabalhem duro”, afirma Baumeister.

Com uma visão distorcida de suas qualidades, com dificuldade para lidar com as críticas e aprender com seus erros, muito jovens narcisistas não conseguem se acertar em nenhuma carreira. Outros vão parar na terapia. Esses jovens acham que podem muito. Quando chegam à vida adulta, descobrem que simplesmente não dão conta da própria vida. Ou sentem uma insatisfação constante por achar que não há mais nada a conquistar. Eles são estatisticamente mais propensos a desenvolver depressão.

Em terapia desde os 15 anos, Priscila Pazzetto tem hoje 25 e não hesita em dizer que foi e ainda é mimada. “Uma vez pedi para minha mãe me pôr de castigo, porque não sabia como era”, afirma. Os pais se referem a ela como “nossa taça de champanhe”, a caçula de três irmãos que veio brindar a felicidade da família num momento em que seu pai lutava contra um câncer. “Nasci no Ano-Novo. Quando assistia às chuvas de fogos na TV, meus pais diziam que aquilo tudo era para mim, para comemorar meu aniversário”, diz Priscila. Quando cresceu, nada disso a ajudou a terminar o que começava. Tentou inglês, teatro, tênis, karatê, futebol, jiu-jítsu e natação. Interrompeu até o hipismo, pelo qual era apaixonada. Estudou em 7 colégios particulares de São Paulo e, com frequência, seu pai precisou interferir para que ela passasse de ano. Passou em 3 vestibulares, mas não concluiu nenhum curso superior. “Simplesmente não me sinto motivada a ir até o fim”, afirma. Ainda morando com os pais, Priscila acaba de fazer um curso técnico de maquiagem e diz que arrumou emprego na butique de uma amiga. Tenta recomeçar.

Esses modelos de criação domésticos são chamados pelos psicólogos de “estilo parental”. Não é uma atitude isolada ou outra. É o clima emocional criado na família graças ao conjunto de ações dos pais para disciplinar e educar os filhos. Eles começaram a ser estudados em 1966 pela psicóloga Diana Baumrind, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley. De acordo com sua observação, ela dividiu os pais em 3 tipos: autoritários, permissivos e competentes. O melhor modelo detectado por psicólogos, claro, são os pais competentes. Eles são exigentes – sabem exercer o papel de pai ao impor limites e regras que os filhos devem respeitar –, mas, ao mesmo tempo, são flexíveis para escutar as demandas das crianças e ceder, se julgarem necessário. A criança pode questionar por que não pode brincar antes de fazer o dever de casa, e eles podem topar que ela faça como queira, contanto que o dever seja feito em algum momento. Mas jamais admitirão que a criança não cumpra com sua obrigação. Ao dar limites, podem ajudar o filho a aprender a escolher e a administrar seu tempo. Os filhos de pais competentes costumam ser muito responsáveis, seguros e maduros.

Os piores resultados vêm da criação de pais negligentes. Eles não são exigentes, não impõem limites e nem estão abertos a ouvir as demandas dos filhos. Segundo pesquisas brasileiras – com amostras pequenas, que não devem ser tomadas como definitivas –, esse é o estilo parental que predomina no país nos últimos anos. Quando se fala em estilo negligente de criação, isso não quer dizer que a criança está abandonada e não receba o suficiente para suprir suas necessidades materiais e de afeto. O problema é mais sutil. Com medo de parecer repressores, esses pais hesitam em impor limites. “É uma interpretação errônea dos modelos educacionais propostos a partir da década de 1970, de que a criança não deveria ser cerceada para que pudesse manifestar todo seu potencial”, diz Claudete Reichert, professora de psicologia da Universidade Luterana do Brasil. “Provavelmente, a culpa que os pais sentem por trabalhar fora leva a isso”.


Reintegração de posse afetiva

Trecho de uma palestra do psicólogo paraibano Rossandro Klinjey, no qual ele conta uma história pessoal verídica e bastante didática sobre educação de filhos adolescentes.

Como falar muito sem dizer nada

Trechos de um artigo do filósofo inglês Stephen Law.

Pseudoprofundidade é a arte de soar profundo falando nonsense. Diferente da arte de ser de fato profundo, a arte de soar profundo não é difícil de dominar. Como veremos, há receitas básicas que podem produzir resultados bastante convincentes – bons o bastante para convencer os outros e talvez até a si mesmo de que você acaba de chegar a um tipo de insight profundo sobre a condição humana. Se você quer atingir o status de guru, será bom possuir algum carisma natural e boa presença. Sinceridade e empatia, ou pelo menos a habilidade de simulá-las, podem ser úteis. Mas mesmo sem o auxílio dos talentos naturais, qualquer um pode proferir sentenças que soam profundas e significativas caso esteja preparado para seguir algumas regras simples.

Se contradiga: Selecione palavras com sentidos opostos ou incompatíveis e, de forma enigmática, combine-as numa óbvia contradição. Exemplos: “A sanidade é apenas mais uma forma de loucura”. “A vida é frequentemente uma forma de morte”. “O ordinário é extraordinário”. Essas sentenças são absolutamente impenetráveis e podem facilmente parecer profundas. Se você é um aspirante a guru, por que não produzir seus próprios comentários contraditórios? Eles fazem com que a audiência faça o trabalho por você. O significado não é algo que você dirá. Seus seguidores é que terão a tarefa de decifrar. Apenas sente-se, adote uma postura sábia e deixe-os fazer o trabalho intelectual.

Contradições têm também outras vantagens: uma série de afirmações simples e não ambíguas é fácil de refutar, ao passo que não é tão fácil fazer o mesmo com tais afirmações enigmáticas. Assim, se você pensa em iniciar sua própria religião e quer dizer coisas que parecerão profundas e também invulneráveis à crítica, tente fazer afirmações contraditórias. Afirme, mas então negue. Por exemplo, diga que seu deus é – e, no entanto, não é. Que seu deus é tudo e nada. Que ele é um, mas ao mesmo tempo vários.

Use jargões: Se você é um guru do business, coaching, consultor de estilo de vida ou místico, introduzir algum jargão pode incrementar ainda mais a ilusão de profundidade. Aqui vai um truque comum: invente algumas palavras que parecem ter significado similar ao de certos termos bem conhecidos, mas que deles difiram de uma maneira nunca completamente explicada. Por exemplo, não fale sobre as pessoas serem felizes ou tristes; fale sobre elas terem orientações atitudinais positivas ou negativas.

O próximo passo é traduzir alguns truísmos para seu novo vocabulário. Pegue a observação banal de que pessoas felizes tendem a fazer as outras pessoas mais felizes. Ela pode ser remodelada como “orientações atitudinais positivas têm alto poder de transferência”. É também útil adotar o vocabulário de “forças”, “energias”, “equilíbrios” e “vibrações”. O uso dessas palavras irá sugerir que você descobriu algum poder profundo que pode ser aproveitado e usado pelas outras pessoas. Isso fará com que seja bem mais fácil persuadi-las de que elas podem perder algo de realmente importante caso não compareçam a um de seus seminários. Assim, se você é um guru do marketing, tente fazer seminários sobre o “Aproveitamento das Energias Atitudinais Positivas dentro do Varejo”. E se algum espertinho for corajoso o suficiente para levantar a mão e perguntar o que exatamente é uma “energia atitudinal positiva”, defina utilizando mais jargão. Fazendo isso, você jamais terá de realmente explicar o significado da sua conversa fiada.

Além disso, os vários truísmos embutidos no seu jargão irão gerar a ilusão de que você realmente tem algo a dizer, mesmo que audiência não faça muita ideia do que seja – o que é uma boa forma de deixá-la com mais vontade de ouvi-lo. Adicionar algum jargão ou referência científica pode ser particularmente útil ao seu papo furado porque essas coisas emulam autoridade e substância. Referências à mecânica quântica são particularmente populares entre os vendedores de conversa fiada pseudocientífica. Uma vez que se espera que ela faça afirmações um tanto estranhas e difíceis de entender, é uma boa ideia abusar das referências em favor das bizarrices que você tem a dizer. As pessoas pensarão que você deve ser muito inteligente e sequer perceberão que você é um tapeador. Se você for ambicioso, pode ser uma boa ideia inventar uma palestra com o título “Energias Atitudinais Positivas e Mecânica Quântica”.

Pós-modernismo: Infelizmente, alguns setores da academia são dominados por intelectuais cuja escrita não é muito mais do que pseudoprofundidade. Retire o jargão acadêmico e as referências pseudocientíficas de seus pronunciamentos grandiosos e pouco sobrará. Tais pensadores, frequentemente referidos como “pós-modernos”, possuem mais apetrechos do que sua justa cota de jargão pastoso. Mas, de qualquer forma, é muito fácil fazer algo soar como legítimo academiquês pós-modernista, tanto que um brincalhão chamado Andrew Bulhak criou um programa de computador que escreve ensaios “pós-modernos” para você – e com as devidas referências. Acabei de testar e recebi um ensaio que começa assim: “O tema primordial do modelo de marxismo neo-estrutural de Cameron é o que há de comum entre a sociedade e a cultura. A análise de Sontag da situação debordiana afirma que a sociedade tem valor objetivo. Entretanto, promove o uso do marxismo para a análise de classe. A situação debordiana sustenta que o objetivo do observador é a desconstrução. O sujeito é interpolado em um marxismo neo-estrutural que inclui a arte como um paradoxo. Vários materialismos que dizem respeito à teoria subdialética semanticista podem ser encontrados”.

Isso até pode ser nonsense, mas dificilmente é pior do que os textos reais. Considere o seguinte exemplo, do intelectual francês Félix Guattari: “Claramente não há qualquer correspondência biunívoca entre ligações linearmente significantes ou arqui-escritos, dependendo do autor, e essa catálise maquínica multidimensional e multi-referencial. A simetria da escala, a transversalidade, o caráter prático e não discursivo de suas expansões: todas essas dimensões nos distanciam da lógica do terceiro excluído e reforçam o descarte do binarismo ontológico que criticamos anteriormente. Uma assembleia maquínica, através de seus componentes diversos, extrai sua consistência cruzando limiares ontológicos, limiares não lineares de irreversibilidade, limiares ontológicos e filogenéticos e limiares criativos de heterogênese e autopoiese”.

Em 1997, Alan Sokal, professor da Universidade de Nova York (e claramente qualificado para falar sobre os usos da terminologia científica), estava irritado porque alguns pós-modernos estavam surrupiando teorias e termos da física e os aplicando de forma nonsense. Juntamente com seu colega Jean Bricmont, publicou o livro Imposturas Intelectuais, que expunha de forma cuidadosa e muitas vezes bem humorada o nonsense científico aliado ao blábláblá academicista de vários intelectuais que escrevem dessa forma. Sobre a longa passagem da qual a citação de Guatarri é retirada, Sokal e Bricmont dizem que ela é a “mais brilhante mistura de jargões científicos, pseudocientíficos e filosóficos que jamais encontramos; apenas um gênio poderia tê-la escrito”.

Imposturas Intelectuais foi lançado após o “Trote de Sokal”, feito em 1996. Sokal submeteu um artigo à revista americana Social Text, publicação pós-moderna da moda. O artigo soava pretensioso e estava recheado de conversa fiada pseudocientífica. Os editores da Social Text, incapazes de distinguir entre conversa fiada e profundidade, publicaram-no. Afinal de contas, o artigo de Sokal – “Transgredindo as Fronteiras: Por Uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica” – fazia tanto sentido quanto outros artigos lá publicados. Sobre o trabalho de Jean Baudrillard, cheio de referências à teoria do caos, mecânica quântica, geometria não euclidiana e outras coisas mais, escrevem Sokal e Bricmont: “Em suma, vemos no trabalho de Baudrillard uma profusão de termos científicos usados sem a menor consideração pelo que eles realmente querem dizer e, acima de tudo, tal uso ocorre em um contexto onde os termos são obviamente irrelevantes. Mesmo admitindo que devemos entendê-los metaforicamente, é difícil ver que papel eles desempenhariam que não seja dar aparência de profundidade a observações banais sobre sociologia ou história. Além disso, a terminologia científica é misturada com um vocabulário não científico que, por sua vez, é empregado com o mesmo desleixo. No final das contas, é normal pensar sobre o que sobraria do pensamento de Baudrillard se todo o verniz que o cobre fosse removido”.

Incluo essa citação de Sokal e Bricmont porque ela resume bem o que poderia ser dito sobre a pseudoprofundidade de forma mais geral: a pseudoprofundidade consiste em uma refinada mistura de banalidades, nonsense e falsidades servida como um imponente soufflé linguístico. Espete-o com um garfo, deixe o ar quente sair e você perceberá que pouco sobra. Certamente nada que valha a pena comer.

Espero que esse breve esboço possa ajudá-lo a detectar com mais eficácia a pseudoprofundidade. Mas e se você estiver no papel de receptor de tais tolices, como responder? Qual a melhor forma de revelar a pseudoprofundidade pelo que ela é? O maior inimigo da pseudoprofundidade é a clareza. Um dos modos mais eficazes de desarmá-la é traduzi-la em português corrente. Diga “certo, você está dizendo que…” e anote em prosa clara e sem ambiguidades o que realmente se quer dizer. Esse exercício de tradução revelará que o que foi dito pode ser uma das seguintes três coisas: (1) uma falsidade óbvia, (2) nonsense, ou (3) um truísmo. Mas combater a pseudoprofundidade raramente é assim tão fácil. Aqueles que a despejam sobre os outros muitas vezes estão até certo ponto cientes que é provável que a clareza os desmascare e, assim, provavelmente resistirão às suas tentativas de reformular o que eles pretendem dizer em termos claros e não ambíguos. É quase certo que eles irão acusá-lo de estar entendendo as coisas de forma crassa. Obviamente, eles não irão explicar claramente o que querem dizer: somente enrolarão você mudando de assunto, levantando cortinas de fumaça, acusando-o de não entender outras coisas mais, e assim por diante. Por essa razão, desmascarar a pseudoprofundidade muitas vezes requer tempo e paciência.

Escárnio e sátira podem ter um papel a desempenhar. O riso pode quebrar o feitiço que a pseudoprofundidade lança sobre nós. Uma pequena sátira pode ajudar-nos a reconhecer que fomos enganados por alguém que diz pouco mais do que truísmos, falsidades ou nonsense travestidos de pensamento profundo. Eis aí a razão pela qual os adeptos da pseudoprofundidade com frequência se opõem à sátira e ao escárnio, ficando ofendidos com tais coisas. No entanto, há um cuidado importante que devemos ter quanto ao uso do humor. Obviamente, qualquer crença pode ser ridicularizada. Não estou sugerindo que a piada deve substituir a crítica clara e rigorosa do tipo que eu procurei oferecer aqui. Ninguém deve ser incentivado a abandonar uma crença só porque as pessoas riem dela. Mas por causa da habilidade de ajudar a quebrar o feitiço que a pseudoprofundidade lança sobre suas vítimas, permitindo que vejamos por um momento ou outro que fomos crédulos ou tolos, um pouco de escárnio pode muito bem ser parte de uma resposta. Uma boa piada pode ser útil e legítima, se for merecida.


Documentário sobre a vida e a obra de Otávio Batista, mais conhecido como Tavinho Schopenhauer. Em entrevista, ele fala sobre o o que é a filosofia e o papel do filósofo nos tempos atuais, nos quais o pensar não é considerada uma atividade relevante.


8 sugestões para ganhar respeito acadêmico sem esforço

Artigo de Adonai Santanna, professor de matemática da UFPR.

Digamos que você seja intelectualmente vaidoso, ou seja, uma pessoa que moralmente se alimenta de elogios sobre a sua inteligência. Mas, digamos também que você seja intelectualmente preguiçoso, isto é, uma pessoa sem muita disposição para trabalhar duro e realizar conquistas intelectuais reais e significativas. Diante deste quadro, como conquistar respeito e admiração de seus pares profissionais, caso você decida seguir uma carreira acadêmica no Brasil? Para responder esta questão, deixo a seguir 8 sugestões básicas para resolver este aparente paradoxo. É claro que essas recomendações jamais funcionarão para a conquista de respeito e admiração por parte dos genuínos pensadores, aqueles que efetivamente produzem conhecimento relevante e dominam uma visão crítica sobre a ciência. Mas a lista abaixo funciona para a conquista de respeito e admiração entre os seus semelhantes, principalmente se você souber escolher com bastante cuidado a sua área de atuação profissional.

Sugestão 1: Publique o máximo que puder em anais de congressos. Na maioria dos casos, o processo de seleção de artigos ou resumos para fins de publicação em anais de congressos científicos é pouco rigoroso. Isso porque resumos pouco dizem. E mesmo aqueles textos um pouco mais extensos que, do ponto de vista editorial, se qualificam como artigos, podem ser recheados de ideias jamais testadas, mas que parecem sensatas à primeira vista. Neste último caso temos textos usualmente qualificados como artigos completos, sem de fato o serem. Como ninguém mesmo terá qualquer interesse em ler esses artigos e resumos, simplesmente por não serem informativos, você estará intelectualmente seguro. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.

Sugestão 2: Organize ou edite livros. Convide colegas ou amigos para contribuírem com artigos a serem publicados em seu livro. Mas nem pense em publicar através de alguma editora de alcance internacional, a não ser que seja uma daquelas que cobram elevadas taxas dos autores e veiculam absolutamente qualquer coisa por dinheiro. Se não quer ou não pode investir com subornos, procure organizar ou editar seus livros através de editoras de universidades federais, estaduais ou privadas de nosso país. Como ninguém lerá estes livros, novamente você estará seguro contra críticas sérias ao seu trabalho. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.

Sugestão 3: Faça muitos amigos, participando de congressos nacionais e regionais. Se participar de algum congresso internacional realizado no Brasil, jamais fale em outro idioma que não seja o português. Se assistir a alguma palestra proferida por um renomado cientista, jamais elogie sem fazer ressalvas. E jamais discuta o mérito do tema da conferência. Faça afirmações vagas, mas impactantes. Sempre dê preferência a comentários de ordem pessoal. E não esqueça de falar com uma postura altiva. Muitos perceberão o quão antenado você está com a vida acadêmica. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.

Sugestão 4: Oriente a maior quantia possível de monografias de especialização, dissertações de mestrado e teses de doutorado, convidando para membros de suas bancas somente aqueles que o respeitam e/ou admiram. Aqueles que o admiram são pessoas que certamente não gostam de criar polêmica. Eles aprovarão qualquer coisa que você aprove. Para mostrar aos seus orientados como você é brilhante, mas tolerante, sempre aprove as defesas de especialização, mestrado ou doutorado com a seguinte ressalva: “O candidato está aprovado com a condição de que faça as alterações sugeridas pela banca”. Como ninguém lê monografias, dissertações ou teses e como ninguém confere se o candidato fez de fato quaisquer alterações após a defesa, você estará intelectualmente seguro. Ah, sim: não se esqueça de obrigar seus orientados a aceitarem a inserção de seu nome em todos os artigos que escreverem e publicarem. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.

Sugestão 5: Se você deseja publicar em algum periódico especializado, para fazer volume em seu Currículo Lattes, basta submeter artigos para publicação em revistas editadas e distribuídas por universidades brasileiras. Na maioria dos casos, essas revistas aceitam artigos escritos em português. Além disso, não são procuradas por pesquisadores de ponta dos grandes centros de pesquisa do mundo. Eles sequer sabem da existência dessas revistas! Portanto, não há muita competitividade e você não precisa se empenhar de fato no artigo. Não se preocupe com conteúdo ou relevância. O que você escrever ficará apenas entre você e o editor. Talvez um ou dois “especialistas” leiam alguns trechos do que escrever. Nada além disso. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.

Sugestão 6: Assuma cargos de chefia. Chefes, diretores, reitores e pró-reitores podem facilmente vender a imagem de tomadores de decisões, aqueles que definem quem recebe verbas e benefícios e quem fica de fora. Reclame da mentalidade política nas universidades, mas seja sempre político. Reclame de governos, mas sempre aceite quaisquer benefícios que possam vir deles. Reclame dos pesquisadores que não se envolvem com questões políticas, alegando que eles têm visão estreita de mundo. Reclame dos professores que se envolvem com questões políticas, alegando que eles se distanciam do ensino e da pesquisa. Mais importante: convoque reuniões, muitas reuniões. Reuniões conferem visibilidade. Todos estarão olhando para você. E não se incomode com aqueles que não gostam de você. Invista apenas naqueles que são beneficiados por suas decisões. Esses darão o apoio moral necessário para inflar o seu ego, mesmo diante das críticas.

Sugestão 7: Somente participe de eventos acadêmicos que emitam certificados, não importando quais sejam. Quanto maior a quantia de certificados, maior o volume de seu Curriculum Vitae. Apresente palestras em sua instituição e exija certificado assinado pelo seu chefe imediato. Obrigue seus alunos a participarem de atividades extra-curriculares e exija de seu chefe imediato um certificado de coordenador de evento de extensão universitária. Se algum colega seu estiver organizando um colóquio ou congresso, peça para trabalhar como mestre de cerimônias e exija um certificado. E cada certificado deve ser declarado em seu Currículo Lattes.

Sugestão 8: Sempre fale sobre as suas conquistas. Mas faça isso de maneira sutil, comentando casualmente em algum contexto que nada tem a ver com as suas atividades profissionais. Se souber falar, pode facilmente passar a sensação de que a vida acadêmica é parte fundamental de seu ser. Por exemplo, se alguém está falando sobre viagens, diga o seguinte: “Pois é. Anos atrás, participei de um congresso de engenharia de produção em Itatiaia, no Rio de Janeiro. E, cara, como aquele parque nacional é lindo. A janela de meu quarto dava direto para aquela mata atlântica maravilhosa. Você sabia que tem esquilos em Itatiaia?”.


Como escrever um ensaio filosófico de merda:
um guia rápido para estudantes

Trecho de um artigo do professor James Lenman, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido; traduzido pelo professor Alexandre Machado, da Universidade Federal do Paraná (UFPR); e publicado originalmente no blog Problemas Filosóficos.


Sempre comece seu ensaio com algo nestas linhas: “Desde a aurora dos tempos o problema da vontade livre tem sido considerado por muitos dos grandes e profundos pensadores na história”. Sempre termine seu ensaio com algo nestas linhas: “Assim, pode ser visto pelos argumentos acima que há muitos pontos de vista diferentes sobre o problema da vontade livre”. Sempre que tiver qualquer dúvida sobre o que dizer sobre X, diga, a propósito de nada em particular e sem nenhuma explicação, que X é subjetivo. Quando isso ficar chato, diga que X é muito relativo, mas nunca diga ao que é relativo.

Use a linguagem com o mínimo de precisão possível. Invista pesado em malapropismo e erros categoriais. Refira-se a afirmações como “argumentos” e a argumentos como “afirmações”. Descreva com frequência frases como “válidas” e argumentos como “verdadeiros”. Use a palavra “lógico” para significar plausível ou verdadeiro. Use “inferir” quando você quer dizer “dar a entender”. Nunca use a palavra “petição de princípio” com o seu significado correto, mas use-a incorretamente tão frequentemente quanto possível. Adquira o hábito de inserir palavras como “logo” e “portanto” entre frases que são inteiramente irrelevantes uma para a outra. Isso vai trazer à existência uma relevância que previamente não existia. Cuidado para assiduamente sempre evitar responder a questão formulada. Há tantas outras coisas interessantes para você discutir! Coloque aspas em palavras inteiramente ao acaso. Sistematicamente confunda “porque” com “por que”.

Evite clareza a todo custo. Lembre­-se: nada que é claro pode ser realmente profundo. Se, como resultado, o avaliador te der um terço da nota, isso apenas mostra como a sua sabedoria está muito acima da dele. O que quer que você faça, nunca dê atenção às palavras de Peter Medawar: “Ninguém que tenha algo original ou importante para dizer vai voluntariamente correr o risco de ser mal entendido. Pessoas que escrevem obscuramente ou são carentes da habilidade de escrever ou estão a fim de passar trote”. Lembre-­se ainda: parágrafos são para maricas. O mesmo vale para títulos. Apenas pessoas pequenas usam exemplos. Evite-­os tenazmente. Se você insistir em usar algum, assegure-­se de fazê-lo com estudada irrelevância.


Alerta máximo contra as pseudociências

Artigo de Marcelo Knobel, reitor da Unicamp.

Qual o problema de usar homeopatia contra o resfriado comum? Parece inofensivo. Consultar o horóscopo antes de sair de casa, também. A situação fica um pouco mais nebulosa, porém, quando se tenta tratar uma doença grave à base de preparados homeopáticos ou quando um trabalhador perde o emprego porque seu mapa astral é ‘‘incompatível” com o do chefe. Muitas vezes envoltas numa aura afável de curiosidade inócua, pseudociências — crenças que reivindicam, de modo ilegítimo, o mesmo grau de confiabilidade das ciências — podem prejudicar, de modo perverso, a vida de todos e também o planeta. O perigo se revela, por exemplo, quando indústrias ou setores específicos da sociedade, por motivos religiosos, políticos ou econômicos, articulam-se para tirar proveito do baixo conhecimento que a população tem de como a ciência é feita, e também do grande nível de desinformação presente no meio virtual.

Com a crescente polarização social, há cada vez mais políticos e influenciadores que propagam ideias pseudocientíficas, ou até anticientíficas, utilizando, para tanto, estratégias conhecidas, que vêm sendo aprimoradas ao longo dos séculos, e que agora ganham eficácia extra graças à internet e às novas formas de interação social. Em seu livro O Mundo Assombrado pelos Demônios, de 1995, Carl Sagan oferece um “kit de detecção de bobagens”, composto por oito estratégias para analisar criticamente alegações que se pretendem científicas. Sagan, assim como outros autores, sugere que há elementos comuns que aparecem no discurso e na posição dos propagadores de pseudociências. Aqui, oferecemos um quarteto de indicadores:

Evidência negativa: quando os argumentos a favor de uma ideia se resumem, exclusivamente, a alegações sobre erros, reais ou imaginários, que existiriam nas ideias dos outros. Ainda que todos os outros estejam mesmo errados, isso não significa que a opção oferecida é correta. Ela pode até estar mais errada que as demais.

Correlação e causa: apontar que, porque uma coisa varia de modo semelhante a outra, é causada pela outra. Isso nem sempre é verdade: existem inúmeros exemplos de fenômenos desconexos que variam de modo similar durante algum tempo — por exemplo, de 1999 a 2009 o número de mortes por afogamento em piscinas, nos EUA, seguiu a mesma tendência que o número de filmes estrelados por Nicholas Cage.

Exemplos escolhidos a dedo: apresentar apenas casos que parecem confirmar suas ideias. Nenhum procedimento, estratégia ou tratamento funciona em 100% das vezes. Quando o assunto é ciência, quem não leva as falhas em consideração, ou as esconde na hora de apresentar resultados, é incompetente ou desonesto.

Apelo à antiguidade: alegar que uma ideia ou procedimento é adequado porque é usado há séculos. A história está repleta de bobagens que sobreviveram ao teste das gerações, do geocentrismo ao uso de sangrias para combater doenças infecciosas.

Essas táticas, em geral, vêm acompanhadas de linguagem rebuscada, frases de efeito e uma retórica que, direta ou indiretamente, acusa os críticos de serem parte de alguma grande conspiração. Hoje, não é difícil identificar quem usa, de modo sistemático, tais ferramentas. E as consequências podem ser graves. No Brasil, dinheiro público é desperdiçado em tratamentos de saúde que se baseiam apenas em falsas correlações, na antiguidade e em exemplos escolhidos a dedo. A negação do aquecimento global se baseia em evidência negativa. O movimento antivacina, movido a teorias da conspiração, leva ao ressurgimento de doenças. Como as pseudociências, ao contrário da ciência legítima, não têm compromisso com a realidade, elas se moldam com facilidade às preferências do público e ao espírito dos tempos. Isso as torna atraentes. Escapar dessa atração pode não ser fácil, mas é cada vez mais necessário.


Estudo falso é aceito para publicação em mais de 150 revistas científicas especializadas

Imagine o seguinte experimento: Você escreve um trabalho científico falso, baseado em dados inventados, assinado com nomes falsos de pesquisadores que não existem, associados a universidades que também não existem, e envia esse trabalho para centenas de revistas científicas do tipo open access (que disponibilizam conteúdo gratuitamente na internet) para publicação. O que você acha que aconteceria?

Um biólogo e jornalista americano chamado John Bohannon fez exatamente isso e os resultados, publicados pela revista americana Science, são aterradores para aqueles que se preocupam com a credibilidade da ciência. Ele escreveu um trabalho falso sobre as propriedades supostamente anticancerígenas de uma molécula supostamente extraída de um líquen e enviou esse trabalho para 304 revistas científicas de acesso aberto ao redor do mundo. Não só o trabalho era totalmente fabricado e obviamente incorreto (com falhas metodológicas e experimentais que, segundo Bohannon, deveriam ser óbvias para qualquer revisor com formação escolar em química e capacidade de entender uma planilha básica de dados), como também o nome dos autores e das instituições que o assinavam eram todos fictícios. Apesar disso (pasmem!), mais da metade das revistas procuradas (157) aceitou o trabalho para publicação. Um escândalo!

O que isso quer dizer? Quer dizer que tem muita revista “científica” por aí que não é “científica” coisíssima nenhuma. E que o fato de um estudo ter sido publicado não significa que ele esteja correto (pior, não significa nem mesmo que ele seja verdadeiro, para começo de conversa). A ciência, assim como qualquer outra atividade humana, infelizmente não está isenta de falcatruas. E o que isso não quer dizer? Não quer dizer que o sistema de open access seja intrinsecamente falho. Certamente há revistas de acesso livre de ótima qualidade, como as do grupo PLOS, assim como há revistas pagas de baixa qualidade que publicam qualquer porcaria. Nenhum sistema é perfeito. Até mesmo a Science publica umas lorotas de vez em quando, assim como a Nature e outras revistas de alto impacto, que empregam os critérios mais rígidos de seleção e revisão. Além disso, o fato de uma revista ser gratuita não significa que ela não tenha revisão por pares (peer review) e outros filtros de qualidade. Assim, o que deve ser questionado não é a forma de disponibilizar a informação, mas a forma como ela é selecionada e apurada — em outras palavras, a qualidade e a confiabilidade da informação, não o seu preço.

Fonte: Estadão.


120 artigos publicados em revistas científicas foram criados em gerador de “lero-lero” e ninguém percebeu

As editoras de revistas científicas Springer e IEEE removeram mais de 120 artigos publicados entre 2008 e 2013. Elas descobriram que cada um deles era jargão sem sentido, todos gerados automaticamente por um programa de computador.

O enorme descuido foi descoberto pelo cientista da computação Cyril Labbé, que passou os últimos dois anos reunindo esses artigos. Os textos foram elaborados com um programa do MIT chamado SCIgen. Parte da genialidade do esquema é que, para um olhar destreinado, os artigos parecem plausíveis. Por exemplo, um dos trabalhos, publicado numa conferência de engenharia na China, é intitulado “TIC: Uma metodologia para a construção do e-commerce”. Vago, mas ainda assim parece algo plausível.

Só que o resumo já causa estranheza: “Nos últimos anos, muitos estudos vêm se dedicando à criação de chaves públicas e privadas de criptografia; por outro lado, poucos sintetizaram a visualização do problema do produtor-consumidor. Dado o estado atual de arquétipos eficientes, importantes analistas notoriamente desejam uma emulação do controle de congestionamento de rede, que incorpora os princípios fundamentais de hardware e arquitetura. Em nossa pesquisa, concentramos nossos esforços em refutar que planilhas podem ser compactas ou feitas com base em conhecimento e empatia”. Basicamente, algo saído de um desses famosos geradores de lero-lero da internet.

Segundo a revista Nature, a maioria dos trabalhos veio da China. No entanto, ninguém sabe ao certo quem está por trás desse escândalo. O problema é que os estudos supostamente são revisados por pares: eles passam pelo escrutínio de um ou mais estudiosos com mesmo escalão que o autor; em geral, de forma anônima. Por isso, as editoras estão tendo dificuldade em explicar exatamente como isso aconteceu.

Fonte: Gizmodo.


A tabela abaixo permite construir 10 mil combinações diferentes de frases. Com ela, qualquer um poderá fazer grandes discursos sem dizer absolutamente nada com sentido. A regra é simples: Construa as frases aleatoriamente usando uma expressão da primeira coluna, em seguida uma da segunda coluna, depois da terceira e por fim da quarta coluna. Não tem erro! Faça o teste e seja um orador de sucesso.

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Veja também: O que faz um trabalho científico ser original?

A solidão amiga – Rubem Alves

A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão desligada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão. O que mais você deseja é não estar em solidão. Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas.

De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão. A noite estava perdida.

Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior.

Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis”. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a sua solidão?”. Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.

Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”. Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim. Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga. Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim!

Nietzsche também tinha a solidão como companheira. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões de saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, as flores, as nuvens, e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer.

O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria.

Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. Sofri muito, e nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, nada poderiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido.

A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada) dos outros, em celebrações cheias de risos. Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.

Hollywood conta as mesmas seis histórias há mais de 100 anos (e você nem percebeu)

Tudo já foi inventado? Parece que sim, ao menos na meca do cinema. Meia dúzia de tramas resumem todos os filmes, de “Cidadão Kane” a “Era uma vez… em Hollywood“.
É o que mostra a matéria a seguir, do jornal El País.


Críticos culturais, estudiosos da narrativa, professores de oficinas de escrita criativa e demais especialistas no tema não chegam a um acordo sobre quantas são (três, cinco, sete… ?). Mas todos assumem que, ao menos no âmbito da cultura ocidental, há uma série de tramas básicas, esquemas narrativos ou meta-argumentos que remontam à noite dos tempos e nos quais se encaixam quase todas as ficções contemporâneas, dos romances ao cinema, passando pelo teatro, séries e até mesmo a ópera.

Hollywood, em especial, costuma ser acusada, não sem fundamento, de usar e reciclar deliberadamente esses padrões básicos, essas histórias contadas milhões de vezes. Combina-os, amadurece-os, enriquece-os e os serve de novo como se fossem pratos recém-cozidos, e não um guisado rançoso feito de sobras roídas até a náusea.

Já os formalistas russos, encabeçados por um dos pais do moderno estudo da narrativa, Vladimir Propp, insistiam em que a frase do Eclesiastes, “não há nada novo debaixo do sol”, é tão desanimadora quanto exata. A originalidade é uma pretensão ingênua e vazia. Tudo já foi inventado. Após milênios de tradição narrativa, seja oral, escrita ou audiovisual, todas as histórias essenciais já foram contadas, e a única coisa que resta é combiná-las e refiná-las, se possível de um jeito criativo. Propp distinguia 31 funções narrativas básicas, ou seja, 31 elementos concretos que, combinados entre si, servem de base ou de estrutura profunda a qualquer narração. Da combinação entre estes elementos sairiam todas as meta-histórias concebíveis. Depois de repassar de maneira superficial o que se escreveu a respeito, chegamos à conclusão (provisória, claro, pois o tema é complexo e não se esgota em um par de parágrafos) que estas seis são as que o cinema em geral, e Hollywood em particular, vem nos contando toda vez, lá se vai mais de século.


1. Histórias de Ícaro

Em que consistem: São histórias de ascensão e queda, como no mito grego do filho do arquiteto Dédalo, que lhe fabricou asas de plumas para que pudesse voar, mas acabou se precipitando no vazio ao voar muito perto do sol e derreter a cera que unia as asas ao seu corpo. São narrativas de arrivismo social, de êxito vertiginoso, de vaidade triunfante e, em última instância, do castigo que merece todo aquele que, por ambição, estupidez ou falta de realismo, tenta voar muito alto. Muitas histórias de Ícaro são fábulas morais em que o herói, à medida que ascende, vai se esquecendo de suas qualidades heroicas e renunciando à sua integridade e suas virtudes. Por isso merece ser castigado com uma queda que não é senão um ato de justiça retributiva, um golpe que restaura a ordem natural das coisas e nos recorda como no fundo somos todos insignificantes. Vistas assim, as histórias de Ícaro são uma indução à humildade e ao conformismo.

Que filmes assim já vimos: Muitos, sem dúvida. Grande parte da filmografia de Orson Welles, começando por seus dois primeiros filmes, Cidadão Kane e Soberba, são clássicas histórias de Ícaro. O mesmo se pode dizer de O Grande Gatsby em todas as suas versões, incluída a (chatíssima) dirigida por Baz Luhrman em 2013. E vale a pena citar também Scarface, Era uma vez… em Hollywood (a recente de Tarantino), Touro Indomável, Sangue Negro e a série Boardwalk Empire, por mais que seus protagonistas, mais que heróis caídos, sejam anti-heróis sem remissão possível.


2. Histórias de Orfeu

Em que consistem: São viagens de ida e volta ao inferno, como a de Orfeu, o rapsodo e semideus da mitologia trácia, o sujeito cuja música amansava as feras. Diferentemente das histórias de Ícaro, não acabam necessariamente na derrota do herói, mas costumam desembocar em finais melancólicos, em que o herói volta para casa esmagado pelo peso da experiência vivida. Mais sábio, mais cético e mais triste. Ou tendo perdido de novo o que foi procurar, como no mito original de Orfeu, que voltou do inferno sem sua esposa.

Que filmes assim já vimos: De Rastros de Ódio a Apocalypse Now, passando por O Franco Atirador, Platoon (em geral, grande parte do cinema bélico crepuscular mais ou menos contemporâneo), Taxi Driver, A Lista de Schindler e O Silêncio dos Inocentes.


3. Histórias de Cinderela

Em que consistem: Na ascensão sustentada de um herói (ou heroína, já que muitas histórias de Cinderela têm protagonista feminina) que parte de origens muito humildes, enfrenta formidáveis obstáculos e atinge a grandeza sem comprometer sua integridade nem renunciar suas virtudes. Diferentemente do que ocorre nas histórias de Ícaro, não se deixa arrastar pela vaidade e pelo excesso, nem compromete sua pureza, por isso ao final recebe sua merecida recompensa, que é o sucesso, o amor ou a felicidade.

Que filmes assim já vimos: Os novelões turcos e latino-americanos, grande parte da comédia romântica de Hollywood e os melodramas mais voluntaristas e amáveis (porque também existem os descarnados e fúnebres) costumam ser, basicamente, histórias de Cinderela. Uma Linda Mulher atualizou o velho arquétipo há quase 30 anos com uma certa dose de sem-vergonhice subversiva que passou quase despercebida na época. E outros bons exemplos, cada um com seus matizes, mas atendo-se em geral à essência da fórmula, poderiam ser Quem Quer Ser Um Milionário?, Encontro de Amor, Jerry Maguire, Jogos Vorazes, À Procura da Felicidade, Annie e inclusive a (apenas aparentemente) hedonista e cínica A Rede Social, uma crônica da juventude de Mark Zuckerberg em que o fundador do Facebook assume o papel da virtuosa Cinderela que, à base de talento, faz suas malvadas meias-irmãs comerem poeira.


4. Viagens iniciáticas (ou a forja do herói)

Em que consistem: Menos truculentas e trágicas que os órficos descendo ao inferno, costumam ser histórias do trânsito para a maturidade ou a plena realização pessoal de personagens que, por sua juventude ou desorientação na vida, ainda não se encontraram e, para isso, precisam de uma experiência transformadora, uma aventura. Obviamente, nem todas as viagens iniciáticas conduzem a finais felizes. Às vezes, a saída definitiva do útero e o mero encontro com as pessoas podem acabar em tragédia.

Que filmes assim já vimos: A imensa maioria dos road movies (Thelma e Louise inclusive, exemplo de viagem iniciática truncada), grande parte do cinema juvenil e adolescente e inclusive filmes de autor contemporâneos e protagonizados por personagens mais ou menos maduros, mas de psicologias tendendo ao infantil, como Sideways, Viagem a Darjeeling, Conta Comigo, Na Natureza Selvagem, Juventude Transviada (algumas viagens iniciáticas não exigem percorrer grandes distâncias), No Decurso do Tempo, Livre, Pequena Miss Sunshine e Easy Rider, para citar apenas alguns, são, cada um à sua maneira, viagens iniciáticas dotadas de maior ou menor profundidade existencial.


5. O objeto mágico (ou a busca do herói)

Em que consistem: O herói permanece afastado do grande mundo, tranquilo em sua rotina e em seu cotidiano, até que encontra algo que será valioso para ele, mas em seguida perde esse tesouro, e ele precisa se mexer para recuperá-lo. Que preguiça. Claro que a forja do herói e a busca do herói são primas-irmãs e muitas vezes convivem em feliz promiscuidade num mesmo filme, até se tornarem quase indistinguíveis. A história do objeto mágico é parte por excelência do grande cânone narrativo ocidental desde Simbá, o Marujo e, naturalmente, trata-se de um padrão tão básico que inúmeras ficções contemporâneas continuam a explorá-la de maneira consciente ou inconsciente.

Que filmes assim já vimos: Da saga Taken, em que o objeto mágico é um ser querido cuja integridade está correndo perigo e que precisa ser resgatado, a O Mágico de Oz, Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida, Star Wars, Os Goonies, A Princesa Prometida, O Senhor dos Anéis e muitos outros em que o herói reticente se vê forçado, frequentemente contra seus instintos e sua vontade, a se reconhecer herói e comportar-se como tal.


6. Rapaz conhece moça (ou ‘sujeito’ mágico)

Em que consistem: Na verdade, uma variação da fórmula objeto mágico muito cara a Holywood e que com frequência incorpora também elementos da viagem iniciática ou das histórias de Cinderela. O esquema é simples: depois de um encontro casual entre dois personagens que se sentem atraídos um pelo outro de maneira instantânea, ocorre um desencontro ou separação, que pode se dever a um sequestro, uma viagem inadiável, uma aparente incompatibilidade de gênios, a intromissão romântica de um terceiro personagem (há quem considere, muito razoavelmente, que o triângulo amoroso, com todas suas possíveis variantes, é também um dos grandes relatos que se infiltram na maioria das ficções) ou qualquer outro pretexto narrativo que possa ocorrer aos roteiristas. Essa separação obriga o protagonista a embarcar em um processo de busca, reencontro ou recuperação de seu objeto de amor ou de desejo.

Que filmes assim já vimos: Todo um gênero, a comédia romântica, derivado mais ou menos bastardo da screwball comedy clássica dos anos 1930, nutre-se desta batidíssima fórmula. Centramo-nos sobre tudo nestas histórias porque são as que mais se diferenciam das tramas de busca do objeto mágico e, portanto, são mais representativas do “boy meets girl”: Aconteceu Naquela Noite, Levada da Breca, Núpcias de Escândalo, A Loja da Esquina e seu remake Mensagem para Você, Harry e Sally – Feitos Um para o Outro, Amizade Colorida, O Lado Bom da Vida, Amor a Toda Prova

Como a internet influencia nossas escolhas

Artigo de Tom Chatfield para a BBC.
Texto base para a prova de Redação do Enem 2018.

Em uma época na qual softwares nos dizem no que devemos pensar, uma prática um pouco mais antiquada tem ganhado destaque no noticiário: o trabalho de um seleto grupo de enigmáticos indivíduos que decidem o que é e o que não é notícia. Recentemente foi divulgado que o Facebook usa pessoas para selecionar quais assuntos são ou não vistos por seus usuários. Ironicamente, o problema da rede social é a falta de um algoritmo específico. A argumentação mais polêmica que surgiu com a notícia foi a de que a seleção de “trending topics” do site teria um viés anticonservador. Ou seja, o Facebook esconderia notícias e opiniões mais conservadoras de maneira desproporcional.

Mas, segundo o site de tecnologia Gizmodo, o primeiro a noticiar o fato, o Facebook teria dois motivos para se envergonhar. O primeiro é a presença de funcionários de carne e osso, o que prejudicaria a “ilusão de um processo de seleção de notícias mais isento”; o segundo é o fato de esses “curadores de notícias” aparentemente serem tratados como se fossem um software, operando fora de qualquer parâmetro editorial mais rigoroso e trabalhando para atingir metas quantitativas. Questão ética à parte, a verdade é que a plataforma de compartilhamento de informações mais poderosa do mundo ainda não é capaz de selecionar, sem humanos, o que é visto por seus usuários.

Meios como o Facebook estão selecionando as notícias e as informações que consumimos sob títulos chamativos como “trending topics” ou critérios como “relevância”. Mas nós praticamente não sabemos como isso tudo é filtrado. Isso é importante porque mudanças sutis nas informações às quais somos expostos podem transformar nosso comportamento. Para entender isso, pense nesse insight vindo da ciência comportamental e que tem sido amplamente adotado por governos e outras autoridades em todo o mundo: o “empurrãozinho”. Isso consiste em usar táticas discretas para nos incentivar a adotar um certo comportamento. Um exemplo conhecido é fazer da doação de órgãos algo obrigatório, a não ser que o indivíduo se manifeste contrariamente. O resultado é que mais pessoas acabam doando.

Críticos dessa abordagem argumentam que esse “empurrãozinho” está acabando com a decisão informada. “Em vez de explicar a questão e ajustar a política para o desejo da população, o ‘empurrão’ ajusta a vontade da população à política que se quer implantar”, explica o escritor britânico Nick Harkaway em um artigo para o Instituto de Arte e Ideias. “A escolha é uma habilidade, um hábito que precisa ser praticado para funcionar melhor”.

E como esses “empurrõezinhos” se aplicam no mundo digital? Quando navegamos na internet, enfrentamos escolhas continuamente – do que comprar ao que acreditar – e engenheiros e designers também podem sutilmente manejar nossas decisões nesse ponto. Afinal, não é só o Facebook que está no jogo das seleções de informações. Sistemas de recomendação cada vez mais afiados estão na dianteira do atual boom da inteligência artificial, da tecnologia “vestível”e da chamada internet das coisas. Do Google à Apple e à Amazon, o truque está em entregar ao usuário informações perfeitamente personalizadas. No entanto, o que está em jogo não é tanto a questão “homem X máquina”, mas sim a disputa “decisão informada X obediência influenciada”.

Quanto mais informações relevantes tivermos, melhor equipados estamos para tomar decisões. Isso é um dos princípios fundamentais da tecnologia da informação quando vista como uma força positiva. O filósofo especializado em tecnologia Luciano Floridi, autor do livro The Fourth Revolution (A Quarta Revolução), usa a expressão “design pró-ético” para descrever esse processo: uma apresentação equilibrada de informações claras que nos impele a abordar conscientemente uma decisão importante, e nos responsabilizarmos por ela. Para Floridi, os sistemas de informação deveriam expandir – e não contrair – nosso engajamento ético, tentando resistir à tentação de nos influenciar.

Isso, no entanto, gera algumas tensões fundamentais: entre conveniência e deliberação; entre o que o usuário deseja e o que é melhor para ele; entre a transparência e o lado comercial. Quanto mais os “sistemas” souberem sobre você em comparação ao que você sabe sobre eles, há mais riscos de suas escolhas se tornarem apenas uma série de reações a “cutucadas” invisíveis. E o equilíbrio entre o que está acontecendo no mundo e o que o usuário fica sabendo está cada dia mais pendendo para o lado da ignorância individual. Não há um simples antídoto para essa situação, assim como nenhuma grande conspiração. De fato, a combinação bem realizada do uso de softwares com a curadoria humana está se tornado o único caminho pelo qual esperamos poder navegar os exabytes de dados que se acumulam pelo mundo. Mas vale a pena lembrarmos que aqueles que projetam a tecnologia que utilizamos têm objetivos diferentes dos nossos – e que navegar com sucesso significa deixar de acreditar que existe uma saída para a parcialidade humana.

Como é feita a prova do Enem?

Veja também: Dicas de estudo

Muitos candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ficam tão focados em conhecer o padrão de questões da prova e em como os conteúdos são cobrados, que acabam não pensando em como aquelas perguntas chegam no exame. Se você acha que um grupo de professores se reúne em uma mesa e monta as provas de uma vez, você está muito enganado. Tanto as questões do Enem quanto as de outros concursos públicos são selecionadas através de um acervo, o Banco Nacional de Itens (BNI).

O Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) convocam instituições públicas e federais, tanto da educação básica quanto da superior, para contribuir com o banco. Estas decidem quais professores serão indicados para elaborar as questões, pois os docentes devem estar dentro do perfil definido pelo Inep. Após serem elaboradas, essas questões passam por uma revisão do INEP. Todas elas devem ser objetivas, possuir um texto introdutório e 5 alternativas, sendo que somente uma é a correta. O conteúdo de todas as perguntas da prova deve estar relacionado às disciplinas do Ensino Médio. Cada professor recebe R$ 200 por questão aceita para integrar o Banco Nacional de Itens. Já os professores que ficam responsáveis pela revisão dos itens ganham cada um R$ 100 por questão.

O MEC realiza uma prova semelhante ao Enem com alunos do Ensino Médio da rede pública. O chamado pré-teste é composto por 45 questões, diferentes entre si. Após o teste, as questões entram para o Banco Nacional de Itens, que hoje possui mais de 10 mil questões. Como o processo é extremamente sigiloso, os alunos não sabem que a prova que estão fazendo é parte do processo de montagem do banco de questões que compõem o Enem. De acordo com o resultado do pré-teste, as questões recebem graus de dificuldade. Cada grau é representado por um número que vai de zero até mil. A partir desses números, é montada uma régua. As perguntas são dividias entre fáceis, médias e difíceis. As médias ficam mais ou menos na marca de 500 pontos.

Para montar a prova, o MEC seleciona 180 questões, sendo 45 de cada uma das quatro áreas do conhecimento (Ciências Humanas; Ciências da Natureza; Linguagem e Códigos; Matemática). As questões começam a ser analisadas e escolhidas cerca de 5 a 6 meses antes do dia do exame. Esse é o tempo necessário para elaborar, imprimir e distribuir a prova. O conjunto de questões de cada área precisa equilibrar o grau de dificuldade das perguntas (25% fáceis, 50% médias e 25% difíceis). Como um dos objetivos do Enem é diferenciar o grau de conhecimento dos candidatos, as questões que apresentaram alto nível de acertos ou erros durante o pré-teste são descartadas.

As notas obtidas pelos candidatos são calculadas com base na Teoria de Resposta ao Item (TRI), que avalia não só o número de questões acertadas, mas também o grau de dificuldade delas e a coerência e consistência dos acertos na prova. Mesmo com números iguais de acertos, duas pessoas podem ter notas diferentes de acordo com o nível de dificuldade das questões acertadas e com a consistência desses acertos (errar muitas fáceis e acertar muitas difíceis não apresenta coerência e pode configurar chute).


Orientações para a elaboração de questões do Enem

  1. As questões devem ser divididas em três partes: texto, enunciado e alternativas;
  2. Cada situação-problema deve ser contextualizada de maneira que permita ao candidato incorporar situações vivenciadas; aproximar os temas escolares da realidade extraescolar. Um item contextualizado pretende transportar o candidato para uma situação normalmente vivenciada por ele no dia a dia;

  3. Os textos-base podem ser verbais e não verbais, como, por exemplo, imagens, figuras, tabelas, gráficos ou infográficos, esquemas, quadros, experimentos, etc.;

  4. Os textos-base poderão ser de dois tipos: formulados pelo próprio elaborador para o contexto do item ou referenciados por publicações de apropriação pública;

  5. O uso de publicações implica a citação da respectiva fonte;

  6. Não poderá ser utilizado livro didático como fonte para o texto-base;

  7. Deve-se suprimir elementos de caráter meramente acessório ou que demandem dispendioso tempo de leitura;

  8. Deve-se evitar a exigência de informações simplesmente decoradas, como fórmulas, datas, termos, nomes, enfim, detalhes que não avaliam a habilidade, mas privilegiam a memorização;

  9. O enunciado constitui-se de uma ou mais orações e não deve apresentar informações adicionais ou complementares ao texto-base;

  10. No enunciado, inclui-se uma instrução clara e objetiva da tarefa a ser realizada pelo participante do teste. Essa instrução poderá ser expressa como pergunta ou frase a ser completada pela alternativa correta;

  11. Não devem ser criadas situações capazes de induzi-lo ao erro;

  12. Utilize textos que abordem temas atuais e sejam adequados ao público-alvo;

  13. Evite a utilização de textos muito extensos;

  14. Evite abordagens de temas que suscitem polêmicas;

  15. Não vale pegadinha;

  16. Utilize termos impessoais como: “considere-se”, “calcula-se”, “argumenta-se” etc;

  17. Não utilize termos como: “falso”, “exceto”, “incorreto”, “não”, “errado”;

  18. Não utilize termos absolutos como: “sempre”, “nunca”, “todo”, “totalmente”, “absolutamente”, “completamente”, “somente” etc;

  19. Não utilize sentenças como: “Pode-se afirmar que”, “É correto afirmar que”, etc.

  20. Evite alternativas demasiadamente longas;

  21. Não use: “todas as anteriores”, “nenhuma das anteriores”;

  22. Considere o tempo médio de três minutos para resolução do item.


Todos os temas que já caíram nas provas de redação

Veja também: Redações com receita de miojo e hino do Palmeiras

1998: Viver e aprender
1999: Cidadania e participação social
2000: Direitos da criança e do adolescente
2001: Desenvolvimento e preservação ambiental
2002: O direito de votar: como fazer dessa conquista um meio para promover as transformações sociais que o Brasil necessita?
2003: A violência na sociedade brasileira: como mudar as regras desse jogo
2004: Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos
2005: O trabalho infantil na sociedade brasileira
2006: O poder de transformação da leitura
2007: O desafio de se conviver com as diferenças
2008: Como preservar a floresta Amazônica: suspender imediatamente o desmatamento; dar incentivo financeiros a proprietários que deixarem de desmatar; ou aumentar a fiscalização e aplicar multas a quem desmatar?
2009: O indivíduo frente à ética nacional
2010: O trabalho na construção da dignidade humana
2011: Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado
2012: Movimento imigratório para o Brasil no século 21
2013: Efeitos da implantação da Lei Seca no Brasil
2014: Publicidade infantil em questão no Brasil
2015: A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira
2016: Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil
2016 (segunda aplicação): Caminhos para combater o racismo no Brasil
2017: Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil
2018: Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet
2019: Democratização do acesso ao cinema no Brasil
2020: O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira