Linha do tempo da Covid-19

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A crise do Coronavírus, por Yuval Harari

Este documentário foi produzido com um único objetivo: reconstituir os primeiros passos da maior pandemia da nossa geração. Para isso, o canal Spotniks fez uma linha do tempo com literalmente centenas de informações fundamentais para entender como saímos de um surto de pneumonia supostamente inofensivo numa cidade do interior da China para o “maior perigo à humanidade desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.

Foram centenas de horas dedicadas à pesquisa, roteiro, produção e edição dessa reportagem, com quase mil fontes consultadas – entre artigos científicos e matérias dos principais veículos de comunicação do mundo – das quais quase 300, diretamente relacionadas ao material final, estão disponíveis aqui (roteiro em PDF, 61 páginas). Eles prometem que em breve publicarão uma linha do tempo específica sobre o Brasil.


A OMS é uma organização indispensável à saúde mundial, com um largo histórico de acertos. Mas vem sistematicamente pisando na bola e precisa de uma reforma. É o que mostra mais um excelente documentário do Spotniks, que você pode assistir abaixo:

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A Covid-19 não é a primeira pandemia pela qual a humanidade passa e nem será a última. A história pode nos ensinar muito, então não precisamos repetir erros. Peste bubônica, peste negra, gripe espanhola, gripe asiática, gripe aviária, gripe suína, ebola e coronavírus já assolaram o mundo deixando um rastro de mortes e pânico.

A febre tifoide matou um quarto da população de Atenas durante a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C). A varíola matou um quarto dos infectados entre os anos 165 e 180 d.C. Foram 5 milhões de mortes no total. A peste de Cipriano, possivelmente causada por varíola ou sarampo, se espalhou pelo Império Romano entre os anos 250 e 271 d.C. Segundo relatos, em seu auge chegou a matar 5 mil pessoas por dia em Roma.

A Peste Bubônica começou no Egito por volta do ano 541 d.C. e chegou a Constantinopla (então capital do Império Romano do Oriente ou Império Bizantino, atual Istambul) na primavera seguinte, enquanto matava, de acordo com relatos do cronista bizantino Procópio de Cesareia, cerca de 10 mil pessoas por dia, atingindo 40% dos habitantes da cidade. Um quarto da população do oriente médio morreu.

A famigerada Peste Negra, como ficou conhecida, era na verdade a velha peste bubônica, que voltou à Europa 800 anos depois do último surto. Começando a contaminação na Ásia, a doença chegou à Europa em 1348 (possivelmente através de comerciantes fugindo de italianos lutando na Crimeia), e matou cerca de 20 milhões de pessoas em apenas 6 anos. Isso equivale a um quarto da população mundial na época.

gripe espanhola 1918

O século 20 foi marcado por duas pandemias de gripe que atormentaram toda a população mundial. Em 1918, no final da Primeira Guerra Mundial, o surto de gripe espanhola se alastrou pelo mundo, contaminando mais de 500 milhões de pessoas (quase 27% da população mundial na época). Nesse ano morreu mais gente de gripe espanhola do que em toda a Guerra. Estimativas apontam que o número de mortes pode ter chegado à marca de 100 milhões de pessoas, perto de 5% da população mundial. Foi uma das pandemias mais letais da história da humanidade.

gripe espanhola 1918 (2)

No quesito pandemias, o século 21 começou com tudo. Se você está espantado com o surto assombroso de COVID-19 pelo mundo, saiba que esta é apenas uma variação nova de um velho conhecido. O coronavírus já foi o responsável pela epidemia de SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome, ou Síndrome Respiratória Aguda Grave) em 2003. Além desses, já passamos pelos surtos de gripe aviária em 2004, gripe suína em 2009 e do terrível vírus Ebola, que atingiu vários países da África em 2014.

E foi justamente em meio ao surto de Ebola em 2014 que Bill Gates falou em um evento TED sobre os riscos de futuras pandemias e sobre a responsabilidade que todos nós temos, enquanto humanidade, de colocar todas as nossas boas ideias em prática para melhorar o sistema de saúde, treinar os profissionais de saúde e combater novas pandemias. “Não há razão para pânico, mas precisamos nos apressar”, diz Gates.



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Uma voz dissidente na pandemia

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Na média, intelectuais e acadêmicos tendem a ser menos céticos quanto aos perigos da pandemia de COVID-19 e menos críticos às medidas de prevenção do contágio. Tendem portanto a apoiar mais os decretos de isolamento social e a obedecer mais o imperativo sanitário: “fique em casa”. É claro que eles também são mais abastados, têm poupanças e investimentos, a geladeira e a dispensa mais abastecidas e moram em casas maiores e mais confortáveis que a média da população. É claro também que eles possuem cargos públicos, geralmente em Universidades, o que lhes permite trabalhar em home office – ou simplesmente não trabalhar – mantendo a renda intacta. Tudo isso facilita muito o discurso do “fique em casa”. Mas por ora vamos deixar esse fator de lado e ficar somente com este: eles geralmente são mais engajados e propensos a apoiar e obedecer o imperativo sanitário em grande parte porque acreditam mais na ciência. E o que diz a ciência? Que ficar em casa, fechar o comércio, evitar aglomerações e impor medidas radicais de isolamento social reduzem o contágio. E embora o povão, cada vez mais distante do debate acadêmico, desconfie disso, sabemos que é um fato.

Alguns intelectuais e acadêmicos, porém, soam como vozes dissidentes. É o caso do renomado filósofo italiano Giorgio Agamben. Desde o início dessa “onda de pânico que paralisou o mundo”, Agamben tem criticado duramente os abusos de poder, o aumento da vigilância e a legitimação do estado de exceção nas medidas de isolamento e lockdown, com restrição e cerceamento das liberdades individuais, inclusive de ir e vir. Mas não pense em Agamben como um negacionista desinformado: ele está inteirado das mais recentes publicações científicas atualizando o andamento das pesquisas e as estatísticas da pandemia; e ele não duvida dessas publicações, das estatísticas, dos resultados e do método científico. Mesmo assim, é um notável crítico das medidas e decretos governamentais de isolamento e lockdown, especialmente na Itália, onde vive. Por quê? Não se trata de ignorar a ciência, se trata de não considerar apenas a ciência, de ter uma visão de mundo mais ampla, de considerar todas as variáveis.

Em um artigo de opinião intitulado L’invenzione di un’epidemia, o filósofo de 78 anos diz o seguinte: “Diante de medidas de emergência frenéticas, irracionais e completamente desmotivadas para uma suposta pandemia do novo coronavírus, é necessário começar pelas declarações do CNR (Conselho Nacional de Pesquisa da Itália), segundo as quais ‘a infecção, a partir de dados epidemiológicos disponíveis hoje em dezenas de milhares de casos, causa sintomas leves e moderados (um tipo de gripe) em 80-90% dos casos. Em 10-15%, a pneumonia pode se desenvolver, cujo curso é benigno na maioria absoluta. Estima-se que apenas 4% dos pacientes necessitem de internação na UTI’. Se essa é a situação real, por que a mídia e as autoridades se esforçam para espalhar um clima de pânico, causando um estado real de exceção, com sérias limitações de mobilidade e uma suspensão do funcionamento normal das condições de vida e trabalho?”

Agamben argumenta que essas medidas desproporcionais se devem “à tendência crescente de usar o estado de exceção como um paradigma normal de governo”: “Parece que, uma vez esgotado o terrorismo como causa de medidas excepcionais, a invenção de uma pandemia poderia oferecer o pretexto ideal para estendê-los além de todos os limites. Outro fator, não menos perturbador, é o estado de medo que nos últimos anos se espalhou claramente na consciência dos indivíduos e que se traduz em uma necessidade real de estados de pânico coletivo, aos quais a pandemia ainda oferece o pretexto ideal. Assim, em um perverso círculo vicioso, a limitação da liberdade imposta pelos governos é aceita em nome de um desejo de segurança que foi solicitado pelos próprios governos que agora estão intervindo para satisfazê-lo.”

O filósofo denuncia que, sob o pretexto da pandemia, as autoridades passaram a tratar cada indivíduo como um potencial transmissor do vírus, assim como a chamada “guerra ao terror” passou a tratar cada cidadão como um potencial terrorista no início do século. Se diz chocado com as cenas dantescas de pessoas sendo presas nas ruas, praças, praias, comércios sendo fechados, vias públicas sendo interditadas e pessoas sendo agredidas pela polícia pelo simples fato de estarem exercendo seu direito fundamental de ir e vir. “Se o governo pode suspender seus direitos a qualquer momento por considerar que algo é uma crise, então você não tem direitos, tem permissões”, diz.

Agamben critica o fato de que as pessoas parecem dispostas a sacrificar tudo – ou quase tudo – para não ficarem doentes. “Nossos mortos não têm direito a cerimônias fúnebres e não sabemos o que pode ter acontecido com os cadáveres de pessoas queridas. (…) Qual o significado das relações humanas numa sociedade que se habituou a viver dessa maneira por um período que não se sabe quanto tempo irá durar? Que sociedade é essa que só reconhece a sobrevivência como valor?”, questiona. Lamenta ainda o fato de que “as pessoas parecem não se dar conta de que suas vidas foram reduzidas a uma condição meramente biológica, que perderam qualquer dimensão social e política, e até mesmo humana e afetiva”, e de que “a sociedade sacrificou a sua liberdade em nome de supostas ‘razões de segurança’ e, por isso mesmo, está condenada a viver num estado de medo e insegurança perenes”. Em suma, defende que um governo ou uma autoridade que queira enfrentar bem a pandemia com políticas públicas acertadas e sensatas não pode olhar apenas para os artigos médicos e epidemiológicos, ela precisa olhar também para a vida afetiva e financeira das pessoas.


Nota que talvez vire post no futuro: O melhor legado dessa pandemia foi fazer as pessoas, empresas, instituições e governos perceberem que já temos tecnologia e meios viáveis de fazer muita coisa remotamente, que é obsoleto e arcaico exigir a presença física de pessoas ou de informação (documentos) para resolver o que pode facilmente ser resolvido à distância. Nesse sentido – e somente nesse –, é positivo e desejável que a noção de “distanciamento social” persista mesmo após o fim da pandemia e adquira novo significado: dessa vez não sobre saúde ou segurança, mas sobre eficiência, sobre economia de tempo e recursos, sobre um mundo com menos burocracia.

A crise do Coronavírus, por Yuval Harari

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Breve história das pandemias

Yuval Noah Harari, historiador, filósofo e autor dos best-sellers “Sapiens – uma breve história da humanidade” (2011) e “Homo Deus – uma breve história do amanhã” (2015), trouxe à tona sua percepção da pandemia de coronavírus que a humanidade está enfrentando. Nairah Matsuoka, jornalista e analista de conteúdo da HSM, destaca os principais pontos do artigo publicado na revista Time do dia 15 de março.


Muitos culpam a globalização pela pandemia de coronavírus e dizem que a única maneira de evitar mais surtos desse tipo é “desglobalizar” o mundo. Construa muros, restrinja viagens, reduza o comércio. No entanto, embora a quarentena de curto prazo seja essencial para interromper as epidemias, o isolacionismo de longo prazo levará ao colapso econômico sem oferecer nenhuma proteção real contra doenças infecciosas. O verdadeiro antídoto para a epidemia não é a segregação, mas a cooperação.

As epidemias mataram milhões de pessoas muito antes da era atual da globalização. No entanto, a incidência e o impacto das epidemias diminuíram drasticamente. Apesar de surtos horrendos como AIDS e Ebola, no século 21 as epidemias matam uma proporção muito menor de humanos do que em qualquer outro período. Isso ocorre porque a melhor defesa que os seres humanos têm contra patógenos não é o isolamento – é a informação. A humanidade tem vencido guerras contra epidemias porque, na corrida armamentista entre patógenos e médicos, os patógenos dependem de mutações cegas, enquanto os médicos dependem da análise científica da informação.

Durante o século passado, cientistas, médicos e enfermeiros em todo o mundo reuniram informações e, juntos, conseguiram entender o mecanismo por trás das epidemias e os meios para combatê-las. A teoria da evolução explicou por que e como surgem novas doenças e doenças antigas se tornam mais virulentas. A genética permitiu que os cientistas espiassem o próprio manual de instruções dos patógenos. Embora o povo medieval nunca tenha descoberto o que causou a Peste Negra, os cientistas levaram apenas duas semanas para identificar o novo coronavírus, sequenciar seu genoma e desenvolver um teste confiável para identificar pessoas infectadas.

Depois que os cientistas entenderam o que causa as epidemias, ficou muito mais fácil combatê-las. Vacinas, antibióticos, higiene aprimorada e uma infra-estrutura médica muito melhor permitiram que a humanidade ganhasse vantagem sobre seus predadores invisíveis. Em 1967, a varíola ainda infectou 15 milhões de pessoas e matou 2 milhões delas. Mas, na década seguinte, uma campanha global de vacinação contra a varíola foi tão bem-sucedida que, em 1979, a Organização Mundial da Saúde declarou que a humanidade havia vencido e que a varíola havia sido completamente erradicada.

Você não pode se proteger fechando permanentemente suas fronteiras. Lembre-se de que as epidemias se espalharam rapidamente, mesmo na Idade Média, muito antes da era da globalização. Portanto, mesmo que você reduza suas conexões globais ao nível da Inglaterra em 1348, isso ainda não seria suficiente. Para realmente se proteger através do isolamento, ficar medieval não serve. Você teria que ficar na Idade da Pedra.

A história indica que a proteção real vem do compartilhamento de informações científicas confiáveis e da solidariedade global. Quando um país é atingido por uma epidemia, deve estar disposto a compartilhar honestamente informações sobre o surto, sem medo de uma catástrofe econômica – enquanto outros países devem poder confiar nessas informações e devem estender a mão amiga, em vez de ostracizar a vítima. Hoje, a China pode ensinar aos países de todo o mundo muitas lições importantes sobre o coronavírus, mas isso exige um alto nível de confiança e cooperação internacional.

A cooperação internacional é necessária também para medidas efetivas de quarentena. Quarentena e bloqueio são essenciais para impedir a propagação de epidemias. Mas quando os países desconfiam um do outro e cada país sente que é o seu próprio país, os governos hesitam em tomar medidas tão drásticas. Se você descobrisse 100 casos de coronavírus no seu país, iria bloquear imediatamente cidades e regiões inteiras? Em grande medida, isso depende do que você espera de outros países. Bloquear suas próprias cidades pode levar ao colapso econômico. Se você acha que outros países irão ajudá-lo – será mais provável que você adote essa medida drástica. Mas se você pensa que outros países o abandonarão, provavelmente hesitaria até que seja tarde demais.

Talvez a coisa mais importante que as pessoas devam perceber sobre essas epidemias seja que a disseminação da epidemia em qualquer país ponha em perigo toda a espécie humana. Isso ocorre porque os vírus evoluem. Vírus como o corona se originam em animais, como os morcegos. Quando eles pulam para os seres humanos, inicialmente os vírus estão mal adaptados aos seus hospedeiros humanos. Enquanto se replicam em humanos, os vírus ocasionalmente sofrem mutações, a maioria delas inofensiva. Mas, de vez em quando, uma mutação torna o vírus mais infeccioso ou mais resistente ao sistema imunológico humano – e essa cepa mutante do vírus se espalha rapidamente na população humana. Como uma única pessoa pode hospedar trilhões de partículas de vírus que sofrem replicação constante, toda pessoa infectada oferece ao vírus trilhões de novas oportunidades para se tornar mais adaptado aos seres humanos. Cada pessoa infectada é como uma máquina de jogo que fornece ao vírus trilhões de bilhetes de loteria – e o vírus precisa comprar apenas um bilhete vencedor para prosperar.

Enquanto você lê essas linhas, talvez uma mutação semelhante esteja ocorrendo em um único gene no coronavírus que infectou uma pessoa em Teerã, Milão ou Wuhan. Se isso de fato está acontecendo, é uma ameaça direta não apenas aos iranianos, italianos ou chineses, mas também à sua vida. Pessoas de todo o mundo compartilham um interesse de vida ou morte em não dar ao coronavírus essa oportunidade. E isso significa que precisamos proteger todas as pessoas em todos os países.

Na luta contra o vírus, a humanidade precisa proteger estreitamente as fronteiras. Mas não as fronteiras entre os países. Pelo contrário, precisa proteger a fronteira entre a espécie humana e a esfera do vírus. O planeta Terra está se unindo a inúmeros vírus, e novos vírus estão em constante evolução devido a mutações genéticas. A fronteira que separa essa esfera de vírus da espécie humana passa dentro do corpo de todo e qualquer ser humano. Se um vírus perigoso consegue penetrar nesta fronteira em qualquer lugar do mundo, coloca toda a espécie humana em perigo.

Ao longo do século passado, a humanidade fortaleceu essa fronteira como nunca antes. Os modernos sistemas de saúde foram construídos para servir de barreira nessa fronteira, e enfermeiros, médicos e cientistas são os guardas que a patrulham e repelem os invasores. No entanto, longas seções dessa fronteira foram deixadas lamentavelmente expostas. Existem centenas de milhões de pessoas em todo o mundo que carecem de serviços de saúde básicos. Isso coloca em perigo todos nós.

Estamos acostumados a pensar em saúde em termos nacionais, mas fornecer melhores cuidados de saúde para iranianos e chineses ajuda a proteger também israelenses, americanos e brasileiros de epidemias. Essa verdade simples devia ser óbvia para todos, mas infelizmente ela escapa até mesmo às pessoas mais importantes do mundo.

Hoje a humanidade enfrenta uma crise aguda, não apenas devido ao coronavírus, mas também devido à falta de confiança entre os seres humanos. Para derrotar uma epidemia, as pessoas precisam confiar em cientistas e especialistas, os cidadãos precisam confiar no governo, nas autoridades públicas, e os países precisam confiar uns nos outros. Nos últimos anos, políticos irresponsáveis minaram deliberadamente a confiança na ciência, nas autoridades públicas e na cooperação internacional. Como resultado, agora estamos enfrentando esta crise desprovida de líderes globais que podem inspirar, organizar e financiar uma resposta global coordenada. Xenofobia, isolacionismo e desconfiança agora caracterizam a maior parte do sistema internacional. Sem confiança e solidariedade global, não seremos capazes de parar a epidemia de coronavírus, e provavelmente veremos mais dessas epidemias no futuro.

Mas toda crise também é uma oportunidade. Esperamos que a epidemia atual ajude a humanidade a perceber o grave perigo que representa a desunião global. Neste momento de crise, a luta crucial ocorre dentro da própria humanidade. Se essa epidemia resultar em maior desunião e desconfiança entre os seres humanos, será a maior vitória do vírus. Quando os humanos brigam, os vírus dobram. Por outro lado, se a epidemia resultar em uma cooperação global mais estreita, será uma vitória não apenas contra o coronavírus, mas contra todos os patógenos futuros.

Como “visitar” museus sem sair de casa

Entre as medidas tomadas para se evitar a disseminação do novo coronavírus estão a recomendação de home office, a orientação de evitar aglomerações, aulas suspensas, shows cancelados, eventos esportivos cancelados, museus fechados, entre outras. “Fiquem em casa” é o que mais se ouve. Durante esse período, a visitação virtual e gratuita a museus, galerias e bibliotecas públicas de todo o mundo são algumas opções para se ter acesso a cultura e entretenimento. Muitos desses museus já ofereciam a opção antes mesmo da pandemia de coronavírus. Veja abaixo algumas dicas do G1 com opções para o período de quarentena ou de isolamento domiciliar ou hospitalar.

Na Europa, o Museu do Louvre, em Paris, está fechado por tempo indeterminado, mas conta com visitação virtual em suas salas e galerias. O Museu Britânico, em Londres, além da possibilidade de acompanhar as coleções, também traz uma loja virtual que permite a compra de réplicas de algumas obras, entre outros objetos. O Museu do Prado, em Madri, conta com uma página especial para explorar suas coleções. O Museu Arqueológico de Atenas apresenta parte de sua coleção, com fotos e descrições, através de seu site. Na Itália, a Pinacoteca de Brera, em Milão, está fechada mas convoca o público para continuar acompanhando seu acervo através do site; a Galeria Uffizi, em Florença, conta com dicas de seus curadores para visitação virtual de parte de suas coleções; e alguns museus do Vaticano contam com parte de seu acervo online.

Nos Estados Unidos, o Museu Metropolitano de Nova York, após o anúncio de seu fechamento, convidou seus visitantes para a experiência online. Em Washington DC, a Galeria Nacional de Arte conta com um tour virtual em vídeo com as exposições atuais. Nele, o espaço de arte analisa detalhadamente os destaques da coleção com gravações em áudio e vídeo de palestras de artistas e curadores. Aqui no Brasil, na cidade de São Paulo, temos o Museu da Imagem e do Som, que também conta com um acervo virtual, e o Museu Casa de Portinari, que tem um tour virtual em seu site.

Além dos links acima, o Google Arts & Culture reúne dezenas de museus e galerias ao redor do mundo e permite visitas virtuais em espaços de arte. Com o serviço, o internauta tem a possibilidade de ver obras de renomados artistas e conhecer suas histórias. Em 2016, por exemplo, o Google Arts & Culture e o Museu Nacional, na cidade do Rio de Janeiro, iniciaram uma colaboração destinada a digitalizar a coleção do museu e disponibilizá-la para todos os usuários online. Depois de ser totalmente destruído por um incêndio em 2018, o museu convida você a redescobrir séculos de patrimônio cultural preservado nesse link. Se preferir, faça o download do aplicativo para Android ou IOS.


Passeio virtual pelo Museu do Ipiranga

Público poderá acompanhar ambientes e exposições enquanto aguarda inauguração do museu, prevista para 2022; também é possível fazer a visita usando o navegador de internet, como explica matéria no Jornal da USP abaixo:

Como parte das atividades que antecedem a inauguração do Novo Museu do Ipiranga, prevista para setembro de 2022 por ocasião dos 200 anos de Independência do Brasil, o público pode contar agora com uma viagem virtual por algumas áreas em volta do edifício-monumento e por exposições interativas. A ação faz parte do Museu do Ipiranga Virtual, plataforma em que o visitante constrói um avatar, pode mudar de roupas e, depois, partir para alguns passeios. A visita pode ser feita pelo próprio navegador do site ou por meio de aplicativos, disponíveis para os sistemas Windows e XboxOne e também para iPhone e iPad. Durante o tour virtual, é possível acompanhar duas exposições com itens de destaque do acervo do museu: Dirigíveis de Santos Dumont e Personagens da Independência, além de assistir a vídeos sobre o andamento da obra, participar de quiz sobre curiosidades do museu, jogar minigames e conhecer algumas características da fachada do edifício. Desenvolvido em conjunto com a Superintendência de Tecnologia da Informação da USP, o ambiente virtual surgiu a partir de pesquisas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) com o apoio dos Programas de Exposições e de Ação Educativa do museu. O trabalho foi patrocinado pela empresa farmacêutica EMS.

Inaugurado em 7 de setembro de 1895 e integrado à USP em 1963, o Museu do Ipiranga está fechado para visitação do público desde 2013, por conta da necessidade de obras de restauração e modernização. O restauro e a modernização do edifício histórico começaram após as comemorações de 7 de setembro de 2019. A obra é patrocinada via Lei de Incentivo à Cultura e deve custar cerca de R$ 139,5 milhões.

Isaac Newton criou teoria da gravidade durante quarentena da peste bubônica

Longe de Cambridge e da epidemia que deixou 100 mil mortos, o cientista ainda encontrou tempo para iniciar seus estudos sobre cálculo e óptica. É o que mostra a matéria a seguir, publicada ontem na página da revista Galileu, com informações dos jornais Open CultureThe Guardian e The Washington Post.

Veja também: Breve história das pandemias
Manuscritos teológicos de Isaac Newton
A história da maçã de Isaac Newton


Sentindo-se ocioso durante a quarentena? Que tal descobrir a próxima teoria que mudará os rumos da ciência? Foi o que fez Isaac Newton quando a Universidade de Cambridge liberou seus alunos para voltarem para suas casas e se resguardarem da Grande Praga de Londres, uma epidemia de peste bubônica que afetou a Inglaterra entre 1665 e 1666.

De volta à mansão Woolsthorpe, a 96 quilômetros de Cambridge e seus professores, não é exagero algum dizer que Newton teve um annus mirabilis, latim para “ano de maravilhas”. Afinal, o estudante pôs em dia seus problemas de matemática, que mais tarde deram origem ao cálculo moderno, e fez alguns experimentos com prismas, iniciando seus estudos sobre óptica. Nesse mesmo período, vale mencionar que, sim, na falta de uma série para maratonar, Newton observou uma maçã cair de uma árvore.

Assim, o universitário criou a Lei da gravitação universal. Segundo ela, “dois corpos se atraem com força proporcional às suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância que separa seus centros de gravidade”. Em 1667, Newton retornou à universidade com as teorias em mãos e, em dois anos, já era professor. A Grande Praga pela qual Londres passou naquele momento e deixou Newton recluso foi menos mortal do que a Peste Negra, ocorrida no século 14. Ainda assim, causou cerca de 100 mil mortes em 18 meses, representando cerca de um quarto da população londrina da época.

Newton não foi o único a ter ideias geniais enquanto descansava em casa durante uma quarentena. O autor Albert Camus escreveu seu mais notável livro, A Peste, quando uma epidemia de peste bubônica assolou a Argélia. Nas últimas semanas, o best-seller publicado pela primeira vez em 1947 voltou a aparecer nas listas de mais vendidos em muitas livrarias ao redor do mundo, especialmente na Itália e na França.

William Shakespeare também pode ter escrito obras notáveis como o Rei Lear durante uma quarentena. Entre os anos de 1603 e 1613, o Globe Theatre e outros teatros em Londres ficaram fechados por seis anos e meio. A medida foi tomada para evitar aglomerações na capital inglesa, que enfrentou uma série de surtos da peste bubônica ao longo do século 17 — como também testemunhou Newton. Sabendo que a peça foi apresentada pela primeira vez em 26 de dezembro de 1606, com a presença do Rei James I, é bem possível que ele a tenha escrito naquele ano ou no ano anterior, enquanto enfrentava o isolamento social longe dos palcos.

Os manuscritos de Leonardo da Vinci

Os manuscritos de Leonardo da Vinci

O caderno tem 20 por 29 centímetros, mais ou menos do tamanho de uma revista e traz anotações científicas, textos pessoais, gráficos e diagramas, sem uma ordem específica. Um típico caderno de anotações. Quer dizer, não muito típico porque o recheio é de Leonardo da Vinci, que escreveu tudo de trás para frente, no seu famoso estilo de escrita espelhado, entre 1478 e 1518, lá na belíssima cidade de Florença, enquanto nosso país era descoberto e inaugurado oficialmente pelos portugueses. Impossível não ficar encantado com a possibilidade de folhear o caderno, dar zoom os textos e imaginar o contexto em que foi escrito pelas próprias mãos de um dos seres humanos mais geniais que já passaram pelo nosso planeta. Aviso: dificilmente você conseguirá ler alguma coisa, a menos que o seu italiano-espelhado seja muito bom.

Esse caderno, chamado de Codex Arundel não é o único registro manuscrito de da Vinci disponível online, mas é o mais recente de todos. Depois da morte de Leonardo na França, seu pupilo Francesco Melzi juntou tudo que ele havia escrito e levou de volta para a Itália. Os herdeiros de Melzi não faziam ideia da importância desse material e foram se desfazendo dele gradualmente durante muitos séculos, e os manuscritos ficaram transitando na mão de poderosos colecionadores. São mais de 5 mil manuscritos que estão sendo recuperados, um registro histórico incrível onde invenções geniais como o avião, o helicóptero, o pára-quedas, o submarino e o carro foram esboçados pelo menos 300 anos de serem de fato fabricados.

No ano passado, a Biblioteca Nacional do Reino Unido e a Microsoft digitalizaram mais de 570 páginas do Codex Arundel, coleção de notas do artista, e agora a Biblioteca Nacional de Arte, do Victoria and Albert Museum, em Londres, digitalizou os cadernos Codex Forster. Todo o conteúdo pode ser acessado nesse link. Para saber mais sobre todos os cadernos, comece pela matéria publicada pelo The Guardian em 2013 e a introdução feita pela British LibraryFonte: Update or Die!

Quando o homem pisou na lua

Há exatos 50 anos, no dia 20 de julho de 1969, nossa maior aventura espacial até hoje, a missão Apollo 11, lançou-se ao espaço sob a pressão de ser a quinta tentativa de realizar o tão sonhado feito de alunagem, o pouso na Lua. Proposta em plena Guerra Fria pelo então presidente americano John Kennedy como um ato simbólico de conquista do espaço, e tripulada pelos astronautas Edwin Aldrin, Michael Collins e Neil Armstrong, a missão Apollo 11 ficou famosa também por toda cobertura e transmissão da mídia, desde seu lançamento até o momento em que Neil Armstrong, comandante da nave, pisou pela primeira vez na Lua. Lançada sob o olhar de milhares de espectadores na Flórida, a Apollo 11 é um marco histórico inesquecível. Veja abaixo um clipe com imagens marcantes, uma reportagem de 1974 e um episódio do canal Nostalgia sobre a missão.

Uma curiosidade: A missão Apollo 11 pousou na lua com astronautas apenas 63 anos depois de Santos Dumont realizar o primeiro voo de avião, em 1906.

Qual é o seu ikigai?

Artigo do professor Marco Mello no blog Sobrevivendo na Ciência.

Na cultura de Okinawa, no Japão, há um conceito muito simples e profundo, com infinitas camadas, conhecido como ikigai (生き甲斐). Em uma tradução aproximada, significa “razão de viver”. Também tem sido traduzido, de maneira bem livre, como “razão pela qual você se levanta de manhã”. No tradutor do Google, a tradução literal é “sal da vida”. No Ocidente, o conceito de ikigai tem sido aplicado à orientação vocacional e ao coaching no mundo corporativo. Graças a alguns estudos muito interessantes e à menção do conceito em palestras para grandes públicos, ele tem sido estendido a várias outras áreas.

Veja uma síntese gráfica do ikigai:

ikigai

Vamos considerar que qualquer atividade que desenvolvemos pode cair em um desses quatro grandes conjuntos: (1) aquilo que amamos, (2) aquilo que fazemos bem, (3) aquilo do que o mundo precisa, e (4) aquilo que te pagam para fazer. Esses conjuntos têm diferentes interseções entre si. Pode haver uma atividade que você ame e faça bem; se você descobri-la, saiba que essa é a sua paixão. Outra atividade você faz bem e é rentável; essa é sua vocação. Em alguns casos, há uma atividade que você e ama e da qual o mundo precisa; essa é sua missão. Quando o mundo precisa de uma atividade, está disposto a pagar por ela e você está disposto a realizá-la, essa é sua profissão.

A maioria das pessoas tem apenas uma ocupação, que é um emprego ou bico que paga as contas, por mais que elas o detestem ou ganhem mal por ele. Outras mais realizadas têm uma profissão. Aquelas que têm mais sorte ainda encontram uma vocação e a realizam. Poucas pessoas conseguem ganhar dinheiro com uma paixão, deixando essa atividade no campo do hobby. Menos pessoas ainda conseguem botar pão na mesa com uma missão, mas, por acreditarem muito nela, acabam realizando-a no campo do voluntariado. Qualquer uma dessas quatro interseções pode levar a uma vida produtiva e feliz. Contudo, para viver uma vida plena, o ideal é conseguir colocar a principal atividade que você desenvolve na interseção dos quatro conjuntos. Este é o ikigai. Ou seja: uma vida plena envolve ocupar a maior parte do seu tempo e energia com algo que você ama, faz bem, o mundo precisa e ainda te pagam para fazer.

Além dessa atividade principal, é saudável dedicar-se também a atividades paralelas, como hobbies e voluntariado. Por exemplo, pode ser que você trabalhe como cientista, mas também goste muito de praticar artes marciais. Como essas duas coisas são muito diferentes entre si e exigem talento, treinamento e prática, é improvável que o seu ikigai esteja nas duas. Pode ser que você ame ambas, mas faça uma bem melhor do que a outra. Se isso for verdade, provavelmente as pessoas estarão dispostas a te pagar por uma delas, mas não pela outra. Assim, a decisão mais sábia para alguém que presta atenção à própria voz interior é focar naquela em que pode ter um desempenho mais elevado e fazer dela sua ocupação principal, mantendo a outra como hobby. Em alguns casos mais raros, acontece de a pessoa amar muito uma atividade, fazê-la bem, mas o mundo achar que não precisa dela e, por isso, ninguém estar disposto a pagar a conta. Quem cai nesse tipo de combinação pode se perder em um vórtice de frustração e auto-piedade, como muitos gênios incompreendidos que não dão em nada.

Contudo, algumas dessas pessoas à frente do próprio tempo têm uma ambição tão grande e uma capacidade de convencimento tão forte que conseguem mostrar ao mundo que ele realmente precisa de algo que sequer sabia existir. Pense no exemplo dos produtos criados pelo Steve Jobs, que não era bom em programação ou engenharia eletrônica, mas sabia como ninguém enxergar dois passos à frente e reger “orquestras” formadas por excelentes profissionais de diferentes áreas. E já que estamos falando nele, recomendo que você assista abaixo ao famoso discurso de Steve Jobs na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, em 2005. Ele fala sobre ligar os pontos e descobrir o seu ikigai. Siga o conselho dele e não viva a vida de outra pessoa.

Ninguém pode dizer a você qual é o seu ikigai. Descobri-lo é uma jornada pessoal, íntima e introspectiva. Contudo, você deve ficar constantemente atento aos sinais que indicam se você está ou não no caminho certo. Além disso, procure se cercar de pessoas que te puxam para cima e te deixam mais próximo do seu ikigai. Procurar o próprio ikigai pode parecer uma meta egoísta, mas uma pessoa plenamente realizada torna o mundo um lugar melhor para as outras pessoas, enquanto uma pessoa frustrada leva outras para o buraco com ela. Antes de arrumar o mundo, arrume o seu quarto.

“O trabalho ideal não é aquele no qual você ganha muito dinheiro e para de trabalhar,
mas aquele que nem todo dinheiro do mundo te faria parar.” (Larusso)

A educação moderna criou adultos que se comportam como bebês

A educação moderna exagerou no culto à autoestima e produziu adultos que se comportam como crianças. Esse é o tema da reportagem da revista Época abaixo.


Os alunos do terceiro ano de uma das melhores escolas de ensino médio dos Estados Unidos, a Wellesley High School, em Massachusetts, estavam reunidos numa tarde ensolarada para o momento mais especial de sua vida escolar: a formatura. Com seus chapéus e becas coloridos e pais orgulhosos na plateia, todos se preparavam para ouvir o discurso do professor de inglês David McCullough Jr. Esperavam, como sempre nessas ocasiões, uma ode a seus feitos acadêmicos, esportivos e sociais. O que ouviram do professor, porém, pode ser resumido em quatro palavras: vocês não são especiais.

Essas palavras foram repetidas nove vezes em 13 minutos. “Ao contrário do que seus troféus de futebol e seus boletins sugerem, vocês não são especiais”, disse McCullough logo no começo. “Adultos ocupados mimam vocês, os beijam, os confortam, os ensinam, os treinam, os ouvem, os aconselham, os encorajam, os consolam e os encorajam de novo. (…) Assistimos a todos os seus jogos, seus recitais, suas feiras de ciências. Sorrimos quando vocês entram na sala e nos deliciamos a cada tweet seus. Mas não tenham a ideia errada de que vocês são especiais. Porque vocês não são”.

O que aconteceu nos dias seguintes deixou McCullough atônito. Ao chegar para trabalhar na segunda-feira, notou que havia o dobro da quantidade de e-mails que costumava receber em sua caixa de entrada. Paravam na rua para cumprimentá-lo. Seu telefone não parava de tocar. Dezenas de repórteres de jornais, revistas, TV e rádio queriam entrevistá-lo. Todos queriam saber mais sobre o professor que teve a coragem de esclarecer que seus alunos não eram o centro do universo. Sem querer, ele tocara num tema que a sociedade estava louca para discutir – mas não tinha coragem. Menos de uma semana depois, McCullough fez a primeira aparição na TV para explicar que não menosprezava seus jovens alunos, mas julgava necessário alertá-los. “Em 26 anos ensinando adolescentes, pude ver como eles crescem cercados por adultos que os tratam como preciosidades. Mas, para se dar bem daqui para a frente, eles precisam saber que agora estão todos na mesma linha, que nenhum é mais importante que o outro”, disse.

A reação ao discurso do professor McCullough pode parecer apenas mais um desses fenômenos de histeria americanos. Mas a verdade é que ele tocou numa questão que incomoda pais, educadores e empresas no mundo inteiro – a existência de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos. Esses jovens cresceram ouvindo de seus pais e professores que tudo o que faziam era especial e desenvolveram uma autoestima tão exagerada que não conseguem lidar com as frustrações do mundo real. “Muitos pais modernos expressam amor por seus filhos tratando-os como se eles fossem da realeza”, afirma Keith Campbell, psicólogo da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, e coautor do livro Narcisism epidemic (Epidemia narcisista), de 2009, sem tradução para o português. “Eles precisam entender que seus filhos são especiais para eles, não para o resto do mundo”.

Em português, inglês ou chinês, esses filhos incensados desde o berço formam a turma do “eu me acho”. Eles se acham os melhores alunos (se tiram uma nota ruim, é o professor que não os entende). Eles se acham os mais competentes no trabalho (se recebem críticas, é porque o chefe tem inveja). Eles se acham merecedores de constantes elogios e rápido reconhecimento (se não são promovidos em pouco tempo, a empresa foi injusta em não reconhecer seu valor). Você conhece alguém assim? Boa parte deles, no Brasil e no resto do mundo, foi bem-educada, teve acesso aos melhores colégios, fala outras línguas e, claro, é ligada em tecnologia e competente em seu uso.

A expectativa exagerada dos jovens foi detectada no livro Generation me (Geração eu), escrito em 2006 por Jean Twenge, professora de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, nos EUA. No trabalho seguinte, em parceria com Campbell, ela vasculhou os arquivos de uma pesquisa anual feita desde os anos 1960 sobre o perfil dos calouros nas universidades. Descobriu que os alunos dos anos 2000 tinham traços narcisistas muito mais acentuados que os jovens das três décadas anteriores. “O narcisismo pode levar ao excesso de confiança e a uma sensação fantasiosa sobre seus próprios direitos”, diz Campbell. Os maiores especialistas no assunto concordam que a educação que esses jovens receberam na infância é responsável por seu ego inflado e hipersensível.

E eles sabem disso. Uma pesquisa da revista Time e da rede de TV CNN mostrou que dois terços dos pais americanos acreditam que mimaram demais sua prole. Sally Koslow, uma jornalista aposentada, chegou a essa conclusão depois que seu filho, que passara quatro anos estudando fora de casa e outros dois procurando emprego, voltou a morar com ela. “Fizemos um superinvestimento em sua educação e acompanhamos cada passo para garantir que ele tivesse sua independência”, diz ela. “Ao ver meu filho de quase 30 anos andando de cueca pela sala, percebi que deveria tê-lo deixado se virar sozinho”.

Que criação é essa que, mesmo com a garantia da melhor educação e sem falta de atenção dos pais, produz legiões de narcisistas com dificuldade de adaptação? Os estilos de criação modernos têm em comum duas características. A primeira é o esforço incansável dos pais para garantir o sucesso futuro de sua prole – e esse sucesso depende, mais do que nunca, de entrar numa boa universidade e seguir uma carreira sólida. Nos Estados Unidos, a tentativa de empacotar as crianças para esse modelo de vida começa desde cedo. Escolas infantis selecionam bebês de 2 anos por meio de testes. Isso acontece no Brasil também. No colégio paulista Vértice, um dos mais bem classificados no ranking do Enem, há fila para uma vaga no jardim da infância.

O segundo pilar da criação moderna está na forma que os pais encontraram para estimular seus filhos e mantê-los no caminho do sucesso: alimentando sua autoestima. É uma atitude baseada no “movimento da autoestima”, criado a partir das ideias do psicoterapeuta canadense Nathaniel Branden, hoje com 82 anos. Em 1969, ele lançou um livro pregando que a autoestima é uma necessidade humana. Não atendida, ela poderia levar a depressão, ansiedade e dificuldades de relacionamento. Para Branden, a chave para o sucesso tanto nas relações pessoais quanto profissionais é nutrir as pessoas com o máximo possível de autoestima desde crianças. Tal tarefa, diz ele, cabe sobretudo a pais e professores. Foi uma mudança radical na maneira de olhar para a questão. Até a década de 1970, os pais não se preocupavam em estimular a autoestima das crianças. Temiam mimá-las. O movimento de Branden chegou ao auge em 1986, quando o então governador da Califórnia, George Deukmejian, criou um grupo de estudos de autoestima. Os pesquisadores deveriam descobrir como escolas e famílias poderiam estimulá-la.

Os pais reuniram esses dois elementos – o desejo de ver o filho se dar bem na vida e a ideia de que é preciso estimular a autoestima – e fizeram uma tremenda confusão. Na ânsia de criar adultos competentes e livres de traumas, passaram a evitar ao máximo criticá-los. O elogio virou obrigação. Para fazer com que as crianças se sintam bem com elas mesmas, muitos pais elogiam seus filhos até quando não é necessário. O resultado é que eles começam a acreditar que são bons em tudo e criam uma imagem triunfante e distorcida de si mesmos. Como distinguir o elogio bom do ruim? O exemplo mais comum de elogio errado, dizem os psicólogos, é aquele que premia tarefas banais. Se a criança sabe amarrar o tênis, não é necessário parabenizá-la por isso todo dia. Se o adolescente sabe que é sua obrigação diária ajudar a tirar a mesa, diga apenas “obrigado”. Não é preciso exaltar sua habilidade em dobrar a toalha. Os elogios mais inadequados são feitos quando não há nada a elogiar. Se o time de futebol do filho perde de goleada – e o desempenho dele ajudou na derrota –, não adianta dizer: “Você jogou bem, o que atrapalhou foi o gramado ruim”. Isso não é elogio. É simplesmente mentira.

Para piorar, um grupo de psicólogos afirma agora que a premissa fundamental do movimento da autoestima estava errada. “Há poucas e fracas evidências científicas que mostram que alta autoestima leva ao sucesso escolar ou profissional”, diz Roy Baumeister, professor de psicologia da Universidade da Flórida. Ele é responsável pela mais extensa e detalhada revisão dos estudos feitos sobre o tema desde a década de 1970. Descobriu que a autoestima alta é provocada pelo sucesso – não é causa dele. Primeiro vêm a nota boa e a promoção no trabalho, depois a sensação de se sentir bem – não o contrário. “Na verdade, a autoestima elevada pode ser contraproducente. Ela produz indivíduos que exageram seus feitos e realizações”. Outra de suas conclusões é que o elogio mal aplicado pode ser negativo. “Quando os elogios aos estudantes são gratuitos, tiram o estímulo para que os alunos trabalhem duro”, afirma Baumeister.

Com uma visão distorcida de suas qualidades, com dificuldade para lidar com as críticas e aprender com seus erros, muito jovens narcisistas não conseguem se acertar em nenhuma carreira. Outros vão parar na terapia. Esses jovens acham que podem muito. Quando chegam à vida adulta, descobrem que simplesmente não dão conta da própria vida. Ou sentem uma insatisfação constante por achar que não há mais nada a conquistar. Eles são estatisticamente mais propensos a desenvolver depressão.

Em terapia desde os 15 anos, Priscila Pazzetto tem hoje 25 e não hesita em dizer que foi e ainda é mimada. “Uma vez pedi para minha mãe me pôr de castigo, porque não sabia como era”, afirma. Os pais se referem a ela como “nossa taça de champanhe”, a caçula de três irmãos que veio brindar a felicidade da família num momento em que seu pai lutava contra um câncer. “Nasci no Ano-Novo. Quando assistia às chuvas de fogos na TV, meus pais diziam que aquilo tudo era para mim, para comemorar meu aniversário”, diz Priscila. Quando cresceu, nada disso a ajudou a terminar o que começava. Tentou inglês, teatro, tênis, karatê, futebol, jiu-jítsu e natação. Interrompeu até o hipismo, pelo qual era apaixonada. Estudou em 7 colégios particulares de São Paulo e, com frequência, seu pai precisou interferir para que ela passasse de ano. Passou em 3 vestibulares, mas não concluiu nenhum curso superior. “Simplesmente não me sinto motivada a ir até o fim”, afirma. Ainda morando com os pais, Priscila acaba de fazer um curso técnico de maquiagem e diz que arrumou emprego na butique de uma amiga. Tenta recomeçar.

Esses modelos de criação domésticos são chamados pelos psicólogos de “estilo parental”. Não é uma atitude isolada ou outra. É o clima emocional criado na família graças ao conjunto de ações dos pais para disciplinar e educar os filhos. Eles começaram a ser estudados em 1966 pela psicóloga Diana Baumrind, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley. De acordo com sua observação, ela dividiu os pais em 3 tipos: autoritários, permissivos e competentes. O melhor modelo detectado por psicólogos, claro, são os pais competentes. Eles são exigentes – sabem exercer o papel de pai ao impor limites e regras que os filhos devem respeitar –, mas, ao mesmo tempo, são flexíveis para escutar as demandas das crianças e ceder, se julgarem necessário. A criança pode questionar por que não pode brincar antes de fazer o dever de casa, e eles podem topar que ela faça como queira, contanto que o dever seja feito em algum momento. Mas jamais admitirão que a criança não cumpra com sua obrigação. Ao dar limites, podem ajudar o filho a aprender a escolher e a administrar seu tempo. Os filhos de pais competentes costumam ser muito responsáveis, seguros e maduros.

Os piores resultados vêm da criação de pais negligentes. Eles não são exigentes, não impõem limites e nem estão abertos a ouvir as demandas dos filhos. Segundo pesquisas brasileiras – com amostras pequenas, que não devem ser tomadas como definitivas –, esse é o estilo parental que predomina no país nos últimos anos. Quando se fala em estilo negligente de criação, isso não quer dizer que a criança está abandonada e não receba o suficiente para suprir suas necessidades materiais e de afeto. O problema é mais sutil. Com medo de parecer repressores, esses pais hesitam em impor limites. “É uma interpretação errônea dos modelos educacionais propostos a partir da década de 1970, de que a criança não deveria ser cerceada para que pudesse manifestar todo seu potencial”, diz Claudete Reichert, professora de psicologia da Universidade Luterana do Brasil. “Provavelmente, a culpa que os pais sentem por trabalhar fora leva a isso”.


Reintegração de posse afetiva

Trecho de uma palestra do psicólogo paraibano Rossandro Klinjey, no qual ele conta uma história pessoal verídica e bastante didática sobre educação de filhos adolescentes.