O Projeto Gizé é uma iniciativa da Universidade Harvard (EUA) que reconstruiu um modelo 3D da Grande Pirâmide de Gizé, da pirâmide de Quéops, da Grande Esfinge e demais arredores do famoso sítio arqueológico como deviam se parecer no Egito antigo. Interessados em aprender mais sobre essa civilização, uma das mais icônicas e importantes da história da humanidade, podem fazer o tour virtual acessando o site da iniciativa. Em algumas dessas visitas virtuais, o usuário pode ler também informações sobre as construções em português.
O tour pela Tumba de Ramsés I, por exemplo, permite explorar a câmara de sepultamento do faraó e também conhecer um pouco mais sobre a história dele. A família de Ramsés foi a responsável por construir grandes monumentos em pedra. Ele governou por apenas 18 meses, mas teve um papel fundamental na estabilização do Egito. Sua tumba é mais humilde em comparação ao de outros reis, o que reflete sua origem de não-realeza até se tornar o fundador de umas das dinastias mais importantes no antigo Egito.
Com início em 2011, o projeto reúne, seleciona e apresenta registros do sítio arqueológico e de seus entornos. Esses dados foram utilizados para desenvolver o ambiente virtual do Gizé 3D, ou em inglês, Giza 3D. De acordo com a apresentação do próprio site da iniciativa, o Projeto Gizé começou a partir de uma pequena equipe de Harvard que já tinha experiência em dominar métodos de gerenciamento de informações arqueológicas com o Projeto dos Arquivos de Gizé do Museu de Belas Artes de Boston. Entre 2010 e 2011, o apoio de uma fundação ajudou a digitalizar e postar a documentação da universidade de arqueologia online de forma gratuita. Mais tarde, veio a parceria com outras instituições do mundo que também tinham coleções relacionadas às Pirâmides de Gizé.
Heni Ozi Cukier tem um nome difícil e, por isso, é mais conhecido pelas suas iniciais: HOC. Ele é cientista político, professor, escritor, palestrante e deputado estadual em São Paulo. Professor HOC participou do podcastInteligência Ltda. e bateu um papo com Rogério Vilela sobre a geopolítica do Brasil. Na ocasião, ele falou brevemente sobre um assunto que há muito me intrigava, a saber, a constatação de que regiões com climas mais quentes influenciam negativamente nas funções cognitivas, aprendizado, comportamento, produtividade, economia e até no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Veja no corte abaixo:
Alguns comentários no YouTube que me chamaram atenção:
“Sou ex-policial e quando o tempo esfriava realmente reduziam as ocorrências.”
“Vivo na Espanha e, quando chega o verão, o povo não aguenta fazer nenhuma atividade cognitiva, vão todos às praias e viajam, as escolas fecham. Tudo bem que são as férias aqui, mas eu percebo que, mesmo que se queira, é muito mais difícil se concentrar em dias quentes para estudar.”
“Estudei bastante tempo no calor do RJ e sem ar-condicionado. A primeira coisa que o corpo sente é indisposição. O aprendizado nessas circunstâncias é desafiador.”
Além de filosofia, futebol e fotografia (três das minhas maiores paixões desde sempre), durante uma fase da minha vida fui aficionado também por design gráfico. Nessa época, havia pensado em levar adiante um projeto que me parecia promissor: representar artisticamente os principais argumentos e ideias da história da filosofia na forma de gráficos, tabelas, diagramas, desenhos, ilustrações etc. As obrigações do mestrado e do doutorado nunca me permitiram ter o ócio necessário para levar a cabo e colocar no papel essa ideia, mas eu já havia pensado até mesmo em um slogan: “Transformando argumentos filosóficos em insights visuais”. Como se tratava de um material didático, pensei ainda em me aproveitar de um famoso dito popular na divulgação do projeto: “Entendeu ou quer que eu desenhe?”.
Para minha grata surpresa, não precisarei mais me dar ao trabalho porque alguém lá em Portugal teve praticamente a mesma ideia e, diferente de mim, a materializou. Em parceria com a Sociedade Portuguesa de Filosofia, o pessoal do site (ou sítio, como eles preferem) #EstudoEmCasa publicou o Conceituário Visual de Filosofia, que nada mais é do que um pequeno dicionário (apenas 84 páginas) de conceitos importantes da filosofia, no qual cada verbete é acompanhado por um desenho, uma representação artística e visual daquele conceito. Clique na imagem abaixo ou neste linkpara visualizar, compartilhar e/ou baixar em PDF.
Se você é da área de filosofia, mesmo um estudante de graduação, não crie muita expectativa: o público-alvo são alunos do ensino médio e pessoas leigas. A definição dos conceitos é bastante clara, suscinta e, o mais importante, correta. Os verbetes escolhidos (37 no total) são relevantes e muito importantes para qualquer um que busque uma introdução à filosofia. Já sobre a qualidade visual e artística das imagens, confesso que esperava um pouco mais e não fiquei muito satisfeito com o resultado. Não ficou bom como eu havia imaginado fazer, mas está feito: e, como dizem, o feito vale mais que o perfeito.
Na verdade, o simples fato de haver uma tentativa honesta de representar visualmente conceitos tão abstratos e avessos a qualquer visualização é um excelente ponto de partida para discussões muito frutíferas que podem ser desenvolvidas até mesmo em sala de aula. O próprio preâmbulo do ebook propõe perguntas desafiadoras: Será que a proposta visual ilustra convenientemente o conceito? Como fariam se estivessem no lugar do ilustrador? Teriam feito de outra maneira? Como e por quê? Porque não reúnem esforços também e não fazem o mesmo? Fica aí a sugestão. Parabéns aos envolvidos no projeto!
Sabe qual o sítio arqueológico mais antigo do Brasil? E o mais próximo da sua casa? Essas informações estão disponíveis no site do projeto Brazilian Radiocarbon Database. Construído pela equipe do arqueólogo Lucas Bueno, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o site reúne 3.769 datações de 1.249 sítios arqueológicos brasileiros registrados no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA). No ar desde 2021, permite aos usuários colaborar para a atualização das informações. Bueno e seus colegas completaram os registros do CNSA com informações de 459 documentos (artigos científicos, teses e dissertações) sobre a localização dos sítios e a idade de materiais neles encontrados. Um mapa interativo permite acessar informações de cada sítio, com o número de datações realizadas e datas mais antigas e mais recentes. As mais longínquas são dos sítios Abrigo do Morro Furado, na Bahia, e Boqueirão da Pedra Furada, no Piauí, ambos com cerca de 40 mil anos. “Uma rápida comparação entre a quantidade de sítios para os quais conseguimos, até o momento, reunir dados sobre datações radiocarbônicas e a quantidade de sítios registrados hoje no CNSA, dá uma dimensão do que precisa ser feito”, afirmam os autores em um artigo científico no qual descrevem o projeto (Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, 2023).
Inscrições rupestres de cerca de 6 mil anos na Pedra do Ingá, na Paraíba.
Sócrates nunca disse “só sei que nada sei”. Nietzsche nunca disse “Deus está morto”. Agostinho nunca disse “creio porque é absurdo”. Dostoiévski nunca disse “se Deus não existe, tudo é permitido”. Maquiavel nunca disse “os fins justificam os meios”. Platão nunca disse “só os mortos conhecem o fim da guerra”. Gandhi nunca disse “seja a mudança que você quer ver no mundo”. Burke nunca disse “para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada”. Einstein nunca disse “a definição de insanidade é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultado diferente”. Voltaire nunca disse “posso não concordar com nada do que tu dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”. Eça de Queiroz nunca disse “Políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos, pelo mesmo motivo”. Sherlock Holmes nunca disse “Elementar, meu caro Watson!”.
Então por que essas frases são tão amplamente atribuídas a esses pensadores?
Artigo de opinião do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), publicado originalmente na edição de novembro de 1927 da revista Vanity Fair. Tradução livre de Eder Capobianco.
Durante os últimos duzentos ou trezentos anos as religiões do Ocidente decaíram manifestamente. Tem havido altos, é verdade, assim como baixos; mas o movimento descendente predominou, e como resultado estamos vivendo hoje no que é provavelmente a época mais irreligiosa de toda a história. Mas, o fato de as religiões terem se degradado durante as últimas gerações não significa que estejam definitivamente mortas. E o fato de que muitas pessoas estão agora sem religião não significa que não tenham algum substituto para a religião; seus sentimentos e intuições religiosas podem encontrar vazão em formas que não são imediatamente reconhecíveis como religiosas.
Novamente, não há razões para acreditar que a condição presente de irreligião seja permanente. As massas parcialmente educadas, é verdade, acabam de descobrir, há cerca de quarenta anos atrás, o materialismo da ciência do século XIX. Mas os cientistas, é significativo notar, estão abandonando rapidamente sua posição materialista. O que eles pensam agora, as massas sem dúvida estarão pensando daqui a uma geração. Os instintos religiosos daqueles que não têm uma religião reconhecida (não levo em consideração o número ainda considerável e crescente daqueles que a têm) encontram expressão em uma variedade surpreendente de maneiras não religiosas. Na falta de religião, eles se proporcionaram substitutos para ela. É sobre esses substitutos, ou suplentes, que agora proponho escrever.
Natureza da religião genuína
Os substitutos de uma coisa não podem ser discutidos, de forma inteligente, a menos que algo seja conhecido sobre a natureza do artigo genuíno. Só quem provou manteiga pode criticar as diferentes marcas de margarina. É o mesmo com os substitutos da religião. A menos que comecemos com alguma ideia preliminar da natureza da religião, seremos incapazes de reconhecer, muito menos avaliar, os substitutos da religião. Não tentarei, contudo, dar uma definição formal de religião. Essas definições são, em sua maioria, tão vagas e abstratas que quase não têm sentido. O que é necessário para nossos propósitos não é uma definição de religião, mas catalogar os principais estados mentais e ações que podem ser reconhecidas como religiosas. Esse catálogo pode compreender:
1 – Um sentimento de temor frente aos mistérios e imensidão do mundo. Esse, suponho, seja o estado de espírito religioso mais fundamental. Esse sentimento é racionalizado na forma de crença em seres sobrenaturais, tanto bondosos quanto malévolos, como é o mundo em que os homens vivem. Tudo isso leva, muito naturalmente, a ritos e cerimônias. O sentimento religioso encontra sua expressão ativa, em oposição à intelectual, na forma de um ritual propiciatório. O ritual, assim que é inventado, ocupa um lugar de importância primordial em todas as religiões. Pois o rito evoca, por associação, aquelas emoções de admiração que são, para o indivíduo que as sente, o próprio deus. E essas emoções são acompanhadas por outras não menos estimulantes e, portanto, não menos divinas. A principal delas é o que pode ser chamado de emoção social, o sentimento de excitação causado por estar no meio de uma multidão.
2 – Ascetismo é comum a todas as religiões. É desnecessário tentar explicar por que os homens deveriam acreditar que podem ganhar os favores dos deuses abstendo-se de prazer e conforto. O fato de terem feito isso é suficiente para nós.
3 – A miséria humana é tão grande e difundida que uma das funções principais da religião tem sido a de consolo, e uma das doutrinas religiosas mais típicas é a dos futuros estados compensatórios.
4 – Poder absoluto é uma característica típica das crenças religiosas. As doutrinas religiosas são defendidas com tenacidade apaixonada. Se o que se acredita é absolutamente verdadeiro, então é de vital importância que o crente se apegue à sua crença e se recuse a admitir a validade das crenças contrárias dos outros.
5 – Todas as religiões têm padres, que cumprem uma dupla função. Eles são, em primeiro lugar, como indicou Paul Valéry, mediadores entre o homem e os mistérios que os cerca, que eles entendem e podem aplacar com mais eficácia do que as pessoas comuns. Sua segunda função é terrena: são confessores, conselheiros, casuístas, médicos espirituais; em certos períodos, também foram governantes.
Esses são alguns dos fatos obviamente mais significativos sobre religião. Com isso em mente, podemos prosseguir para considerar seus substitutos. A primeira coisa que nos impressiona é que nenhum dos substitutos é mais do que parcialmente adequado. Uma religião cobre todo o terreno intelectual e emocional. Oferece uma explicação do universo, consola, fornece a seus devotos um sistema edificante e um luminoso deus criador. Nenhum substituto pode fazer tanto. Nenhum substituto religioso pode satisfazer completamente todas as necessidades religiosas dos homens. Muito da inquietação e incertezas, tão características de nosso tempo, provavelmente se devem ao senso crônico de desejos não satisfeitos de que os homens, naturalmente religiosos, mas condenados pelas circunstâncias a não ter religião, estão inevitavelmente fadados a sofrer.
Política
Talvez o mais importante substituto para a religião seja a política. O nacionalismo extremo presenteia seus devotos com um deus a ser venerado – o País – junto com muitos rituais inspiradores, principalmente do tipo militar. Na maioria dos países e para a maioria de seus habitantes, o nacionalismo é uma fé espasmódica, da qual os crentes só ocasionalmente têm consciência. Mas onde o Estado é fraco e está em perigo, onde os homens são oprimidos por um governante estrangeiro, torna-se um entusiasmo constante. Mesmo em países onde não há sentimento de inferioridade a ser compensado, onde não há perigos imediatos nem opressores, o substituição nacionalista da religião é frequentemente inspiradora.
A democracia extrema tem tantos devotos quanto o nacionalismo extremo; e entre esses devotos há provavelmente mais entusiastas crônicos do que os encontrados entre os patriotas. Como substituta da religião, a democracia extrema é mais adequada do que o nacionalismo; pois cobre mais terreno, pelo menos como uma doutrina. Pois a democracia revolucionária é uma fé voltada para o futuro. Prega um estado futuro – neste mundo, não em outro – quando todas as injustiças do presente serão remediadas, toda a infelicidade compensada, quando o primeiro será o último e o último primeiro, e haverá coroas para todos e não mais choramingos e praticamente não mais trabalho. Além disso, é suscetível a um tratamento filosófico muito mais profundo do que o nacionalismo. “Meu país, certo ou errado”, é um sentimento que não pode ser totalmente racionalizado. A única razão que qualquer homem tem para amar e servir seu país é o mero acidente de que este seja seu. Ele sabe que, se tivesse nascido em outro lugar, o objeto de sua veneração teria sido diferente. Não pode haver metafísica do patriotismo; é apenas um fato bruto e inalterável, que deve ser aceito como é. Democracia, por outro lado, não varia de país para país; é uma doutrina universal e imperecível – pois os pobres estão em todos os lugares e em todos os momentos conosco.
Doutrinariamente, a democracia revolucionária é um excelente substituto para a religião. Quando se trata de prática, entretanto, é menos satisfatória do que o nacionalismo. Pois o nacionalismo tem um tradicional ritual próprio, altamente elaborado. A democracia revolucionária não pode oferecer nada que se compare com as procissões majestosas, os desfiles militares, a música repleta de associações, as bandeiras, os inúmeros emblemas por meio dos quais o sentimento patriótico pode ser trabalhado e a presença real da pátria manifestada a todos.
Ritual
O anseio por rituais e cerimônias é forte e generalizado. Quão forte e amplamente difundido é demonstrado pela avidez com que homens e mulheres que não têm religião, ou uma religião puritana sem ritual, aproveitam qualquer oportunidade de participar de cerimônias de qualquer tipo. A Ku Klux Klan nunca teria alcançado seu sucesso no pós-guerra se tivesse se mantido à paisana e em reuniões de comitês. Os Srs. Simmons e Clark, os ressuscitadores daquele corpo notável, entenderam seu público. Eles insistiam em estranhas cerimônias noturnas nas quais as fantasias não deveriam ser opcionais, mas obrigatórias. O número de membros aumentou muito. O Klan tinha um objetivo; seu ritual simbolizava algo. Mas para uma multidão faminta de rituais, o significado é aparentemente supérfluo. A popularidade do canto comunitário mostrou que o rito como tal é o que o público deseja. Desde que seja impressionante e suscite emoção, o rito é bom em si mesmo. Não importa muito o que isso significa. Sempre que as pessoas têm uma chance, elas tentam satisfazer sua fome de cerimonial, embora o rito com o qual aplacam seja totalmente sem sentido.
Arte
A arte ocupa uma posição de grande importância no mundo moderno. Não que a arte moderna seja melhor do que a arte de outras gerações. Obviamente, não. A quantidade, não a qualidade da arte moderna, é importante. Mais pessoas se interessam conscientemente pela arte como arte. E mais se dedicam à sua prática do que em qualquer outro período. Nossa era, embora tenha produzido poucas obras-primas, é uma era inteiramente estética. Esse aumento no número de praticantes e diletantes em todas as artes não está desconectado com a diminuição no número de crentes religiosos. Para mentes cujas necessidades religiosas foram negadas sua satisfação normal, a arte traz uma certa satisfação espiritual.
As artes, incluindo a música e certos tipos importantes de literatura, foram na maioria dos períodos servas da religião. Sua principal função era fornecer à religião os símbolos visíveis ou audíveis que criam na mente do observador aqueles sentimentos que para ele pessoalmente são deus. Divorciadas da religião, as artes agora são cultivadas independentemente. Aquela beleza estética que antes era devotada ao serviço de Deus agora se estabeleceu como um deus por conta própria. O cultivo da arte pela arte tornou-se um substituto da religião.
Sexo
Outros exemplos podem ser dados de atividades que antes eram parte da religião, sendo isoladas e dotadas do significado pertencente corretamente ao todo. Os substitutos da religião, que originalmente não eram mais do que uma parte do artigo genuíno, são peculiarmente insatisfatórios e levam seus devotos a situações impossíveis. Um bom exemplo desse substituto parcial é a religião puritana dos tabus sexuais. O ascetismo, como vimos, é uma característica comum à maioria das religiões e que, no cristianismo, tem sido particularmente marcada. Mas nunca foi a totalidade de nenhuma religião. Entre os “cães de caça da obscenidade” contemporâneos (para usar uma das expressões cunhadas pelo Sr. Mencken), encontramos pessoas para as quais o culto da pureza sexual é em si um substituto completo da religião. O asceta cristão reprimiu todos os seus apetites – ganância e cobiça, bem como lascívia – e os reprimiu porque acreditava que, ao fazer isso, estava agradando a Deus. Os membros da liga da virgindade moderno não tem escrúpulos em arrancar dinheiro e se empanturrar; sua única preocupação é a autorização sexual, especialmente em outras pessoas. Muitas vezes é um pensador livre, de modo que suas campanhas contra a indecência não propiciam a Deus, mas são conduzidas porque são boas em si mesmas.
É um fato notável que, embora se possa dizer para todos os intentos e propósitos, o que se quiser sobre religião e política, enquanto se pode pregar publicamente o ateísmo e o comunismo, não se pode fazer menção pública, exceto em um trabalho científico, do fatos fisiológicos mais rudimentares. Na maioria dos países modernos, a única ortodoxia apoiada pelo Estado é a pureza sexual. Não pode, é verdade, orgulhar-se de muitos devotos sinceramente fervorosos. Mas a maioria dos poucos que genuinamente acreditam nisso são fanáticos. Definido em termos psicológicos, um fanático é um homem que supercompensa conscientemente uma dúvida secreta. Os fanáticos do puritanismo geralmente estão compensando uma lascívia secreta. Sua influência no mundo moderno é grande, desproporcionalmente ao seu número; pois poucos ousam, ao se opor a eles, correr o risco de serem chamados de imorais, corruptores da juventude, dissolventes da família e tudo o mais (os verdadeiramente virtuosos têm um arsenal inesgotável de abusos em que se apoiar). Se os cães de caça tivessem uma religião genuína para satisfazê-los, provavelmente seriam menos incômodos do que são atualmente. Eras de fé, a julgar pela literatura medieval, não foram eras de puritanismo.
Negócios
Os apóstolos modernos do comércio estão tentando persuadir as pessoas a aceitar os negócios como substitutos da religião. Ganhar dinheiro, afirmam eles, é um ato espiritual; eficiência e honestidade legal são um serviço à humanidade; os negócios em geral são o deus supremo. Corporações, sistemas financeiros, são as divindades subsidiárias às quais as devoções são pagas diretamente. Para os ambiciosos, os crescentemente prósperos e aqueles que estão muito envolvidos em uma vida árdua para serem capazes de ter qualquer pensamento árduo, a adoração dos negócios pode suprir a falta de uma religião genuína.
Mas sua inadequação é profunda e radical. Não oferece uma explicação coerente de qualquer universo fora daquele cujo centro é a bolsa de valores. Em tempos de dificuldade, não pode consolar; não compensa nenhuma miséria. Seus ideais são realizáveis muito rapidamente – eles abrem a porta para o cinismo e a indiferença. Suas virtudes são tão facilmente praticadas que, literalmente, qualquer ser humano que acredita na religião dos negócios pode se imaginar um homem verdadeiramente bom. Daí a terrível autossatisfação e o farisaísmo consciente tão característicos dos devotos dos negócios.
É uma religião justificativa para os ricos e aqueles que podem se tornar ricos. E mesmo com eles só funciona quando os tempos são bons e não há infelicidade pessoal. Ao primeiro sinal de uma tragédia ela perde toda a sua eficácia, a mais breve queda é suficiente para fazê-la evaporar. Os pregadores desse substituto comercial da religião são numerosos, barulhentos e pretensiosos. Mas nunca podem, pela natureza das coisas, ser mais do que momentâneo e superficialmente bem-sucedidos. Os homens precisam de um alimento espiritual mais substancial do que os negócios são capazes de fornecer.
Superstição
Se nossa hipótese original for verdadeira, e a natureza humana permaneceu de fato fundamentalmente imutável ao longo da história, então devemos esperar encontrar o mundo contemporâneo tão cheio de superstições quanto o mundo do passado. Pois crenças e práticas supersticiosas são expressões de certos estados mentais, e se os estados mentais persistem, o mesmo deve acontecer com as práticas e crenças. Nossa época tem o hábito de se autodenominar iluminada: por que é difícil entender, a menos que considere, como um progresso para a iluminação, o fato de que suas superstições fetichistas e mágicas não estão mais coordenadas com uma religião, mas, por assim dizer, se soltou e existe em um estado de independência.
A Igreja explorou esses hábitos de superstição e os fez servir aos seus próprios fins superiores. Reconhecendo o fato de que muitos têm a tendência de atribuir vitalidade e poder a objetos inanimados, ela supriu suas necessidades, mas com objetos inanimados de um certo tipo – relíquias, imagens e coisas semelhantes que serviam para lembrar o venerador de fetiches de uma doutrina mais inteligente e abrangente do que ele próprio. Mas os dias da superstição católica passaram e agora veneramos, sob o nome de mascotes, porcos da sorte, suásticas e semelhantes, todo um panteão de fetiches que não simbolizam nada além de si mesmos. É provável que ninguém esqueça o quão seriamente esses fetiches foram usados durante a guerra, quais poderes foram atribuídos a eles, que angústia e terror genuínos foram ocasionados por sua perda. Agora que o perigo passou, a adoração não é mais tão ardente. Mas, que isso ainda persiste, qualquer um pode descobrir se não tiver problemas em usar seus olhos e ouvidos.
Do espiritualismo, da leitura da sorte e da prática da magia, nada direi. Sempre existiram e ainda existem, inalterados, exceto pelo fato de que não existe uma religião estabelecida em relação à qual essas práticas sejam boas ou más. A crença em espíritos malignos, embora ainda seja comum, é provavelmente menos difundida do que antes, mas a tendência humana de hipostasiar seu senso de valores ainda é tão forte como sempre. Os espíritos malignos estão fora de moda; devem, portanto, encontrar expressão em outras crenças.
Com muitas pessoas, especialmente mulheres, os bacilos tomaram o lugar dos espíritos. Os micróbios, para elas, são a personificação do mal. Eles vivem com medo de germes e praticam elaborados ritos anti-sépticos para neutralizar sua influência. Há mães que acham necessário esterilizar os lenços que voltam da lavanderia; que, quando seus filhos raspam o dedo em um espinheiro, interrompem sua caminhada e correm para casa em busca de iodo, que fervem e destilam a virtude nativa em cada partícula de comida ou bebida.
Substitutos do padre
A dupla função do sacerdote, que é simultaneamente “supervisor das coisas vagas” e médico das almas, foram distribuídas no mundo sem sacerdócio moderno, e são exercidas não por uma classe de homens, mas por várias. Na sua qualidade de administrador dos sacramentos e intérprete do mistério que o cerca, o sacerdote é agora representado, de forma suficientemente inadequada, pelo artista.
A importância extraordinária e bastante desproporcional atribuída pelo mundo contemporâneo aos artistas enquanto tais, independentemente do seu mérito, deve-se ao fato de o artista ser o evocador daqueles estados emocionais que servem a tantos de nós como um deus. É verdade que o deus que ele evoca costuma ser um deus da pior qualidade. Considere, por exemplo, a divindade implícita num romance best-seller ou nas baladas populares. Ainda assim, para aqueles que são formados para gostar desse tipo de deus, esse é o tipo de deus de que vão gostar.
Existe uma hierarquia entre deuses e homens. Aqueles cujo lugar na hierarquia humana é baixo, adoram deuses cujo lugar na hierarquia divina correspondem ao seu. Os artistas-sacerdotes, que evocam deuses inferiores para veneradores inferiores, são eles próprios inferiores. Ainda assim, qualquer que seja a qualidade do deus evocado, o ato do artista é sempre sacramental. Ele realmente produz algum tipo de deus. Daí sua importância no mundo moderno. Seu nome está escrito em letras grandes, recepcionistas o convidam para jantar, escritores de fofocas relatam suas ações na imprensa, correspondentes desconhecidos escrevem para ele sobre suas almas e pedem cópias de sua fotografia, jovens estão dispostos de antemão a se apaixonar. Para o artista que gosta desse tipo de fama, o mundo moderno deve ser um verdadeiro paraíso.
O padre é confessor assim como é um intérprete de mistérios. O artista pode fazer mudanças para desempenhar suas funções sacramentais, mas carece do tipo de treinamento e conhecimento que cabe a um homem ser um condutor da consciência. É ao advogado e ao médico que o sacerdote legou esta parte das suas funções. O médico, e especialmente o especialista em nervos, ocupa uma posição extraordinária em nosso mundo atual. Seu prestígio sempre foi alto, mesmo durante os períodos em que as doenças do espírito eram consideradas como estando fora de sua jurisdição. Agora que o exorcista está extinto e o confessor é uma raridade, agora que a psicoterapia se professa uma ciência, o prestígio do médico dobrou. Sua posição no mundo moderno é quase a do curandeiro entre os primitivos.
Com o declínio do poder eclesiástico, a importância do advogado também aumentou. O procurador da família assume a responsabilidade indireta pelos atos de seus clientes. Ele é o destinatário de seus segredos mais íntimos; está dando-lhes conselhos não apenas legais, mas até morais. Os padres podem desaparecer; mas o número de pessoas que não gostam de responder por suas próprias ações não diminui. O condutor da consciência surgiu em resposta a uma necessidade humana genuína. Entre eles, médico e advogado preenchem seu lugar vago.
Conclusão
A minha lista indica apenas os substitutos modernos da religião. Claro, é verdade que para todos nós a religião, ou um substituto dela, é necessária para a felicidade. Alguns seres humanos são moldados de maneira que quase qualquer ideia pode assumir as qualidades de um dogma religioso. Uma condição de crença absoluta é alcançada; o próprio objeto de crença é dotado de caráter absoluto e, portanto, torna-se divino; agir de acordo com a crença, servir ao seu objeto endeusado, propagar a verdade e combater a falsa doutrina tornam-se deveres religiosos.
Todos nós conhecemos resmungões e praticantes de hobbies. As suas excentricidades, a sua unilateralidade absurda e bárbara, devem-se ao fato de tratarem como se fosse uma religião uma ideia que nada têm em comum com um dogma religioso, exceto a sua qualidade (para eles) de absoluto. O processo pelo qual uma ideia adquire essa qualidade religiosa de absoluto não é o mesmo em todas as circunstâncias. Em alguns casos, o caráter absoluto de uma crença é proporcional ao tempo em que foi acreditada. As crenças recebidas na infância tendem a se tornar parte integrante da mente. Negar uma crença muito familiar – aquela que se tornou, por assim dizer, incrustada de associações pessoais e emaranhada nos sentimentos – é, em um sentido real, negar o homem que a possui.
Mas não é exclusivamente pelo direito prescritivo de mera duração do tempo que as ideias se tornam absolutas. O excêntrico pode adquirir seu hobby relativamente tarde na vida. Além disso, muitas vezes acontece que os excêntricos percorrem vários obstáculos sucessivamente, tratando cada um deles como um dogma absoluto e religioso. Existe uma mente excêntrica reconhecível com uma tendência específica de receber crenças e dotá-las de qualidades absolutas. Conheci homens cuja religião era a homeopatia, outros cuja vida inteira foi constelada em torno da fé que se chama antivivissecção. A inadequação de tais ideias como substitutos dos dogmas abrangentes da religião é evidente.
O quadrado de Sator pode ser só um enigma engraçado, criado por um cidadão romano por brincadeira. Mas o que ele não imaginava é que havia inventado um quebra-cabeça para os eruditos que o estudam até hoje, dois mil anos depois. Eles eram frequentemente gravados nas paredes. Um dos exemplos mais antigos foi encontrado em Pompeia, ao lado de mais de 70 outros grafites.
Mas esta é apenas uma das muitas teorias sobre o fascinante quadrado de Sator. Não é de se estranhar que existam tantas explicações para o seu significado. Afinal, o quadrado passou 19 séculos sendo reproduzido em papiros, tábuas de argila e livros. Ele foi transformado em amuleto, receitado como remédio e copiado em ossos, madeira, pão, telhas, portas e muros de monumentos com diversos estilos e propósitos, na Europa, Ásia, África e na América. Alguma coisa fez com que o quadrado de Sator fosse considerado especial. Mas seu significado original se perdeu. Estudiosos tentam reencontrá-lo há 150 anos, sem chegar a nenhuma conclusão que seja universalmente aceita.
Neste vídeo, a repórter Camilla Costa, da BBC News Brasil, explica a história e as teorias envolvendo o quadrado de Sator:
Dois brevíssimos artigos de opinião do economista Ricardo Amorim sobre o tema do home office como tendência para o futuro (publicados originalmente aquie aqui).
De acordo com pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) com 1.300 pessoas, 70% gostariam de continuar trabalhando em home office, 19% não gostariam e 11% são indiferentes. Nem todas as funções trazem essa possibilidade, mas se esses resultados se confirmarem e se sustentarem ao longo do tempo, a humanidade vai passar pela maior revolução na forma de viver e trabalhar em muito tempo.
Só para ficar nas consequências mais óbvias, isto trará transformações brutais no mercado de trabalho, em mobilidade, no mercado imobiliário, para o meio ambiente, em logística e em digitalização. Para agradar seus colaboradores, atrair talentos e reduzir custos com escritórios, muitas empresas optarão pelo home office. Ao eliminarem o escritório, não precisarão mais contratar só na cidade do escritório. Poderão contratar talentos de qualquer lugar do Brasil e do mundo.
Do lado do trabalhador, se não precisarem mais escolher onde morar em função da oferta de empregos, muitos sairão das megalópoles e irão viver no interior — em particular em cidades com boas escolas e segurança — na praia e no campo. Haverá menos demanda por escritórios. Menos cheias e com menos circulação de pessoas, as megalópoles terão menos trânsito. Com as pessoas passando mais tempo em casa e menos tempo no trânsito, imóveis pequenos e centrais vão se desvalorizar; imóveis mais distantes, mas maiores vão se valorizar. Com menos circulação nos grandes centros, a poluição diminuirá. Com as pessoas e o mercado consumidor menos concentrada nas grandes cidades, a logística de distribuição será mais difícil e mais importante. Tudo isso acelerará ainda mais a transformação digital. Há inúmeras outras transformações significativas que ocorrerão, mas acho que já deu para ter uma ideia da revolução que vem por aí.
Recentemente, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), assinou um decreto que torna permanente o home office no serviço público. Muitos servidores já trabalham de casa desde o começo da pandemia. A medida pode gerar uma economia de R$ 1 bilhão em 7 anos para a prefeitura de São Paulo. No governo federal, em apenas 5 meses, entre os meses de abril e agosto, mais de R$1bilhão foi economizado com o trabalho remoto em função da redução de custos com diárias, passagens, despesas de locomoção, auxílios para os servidores e serviços de energia elétrica, cópias de documentos, comunicações, água e esgoto etc. Economizar recursos públicos — dinheiro suado do trabalho de todos nós, transferido ao setor público através dos impostos — já é um ganho considerável, mas não me parece que este seja o benefício mais importante que a adoção do home office pode trazer no setor público brasileiro.
Trabalhar de casa não é para todos, mas a instituição do home office até no setor público pode mudar a forma como trabalho é encarado no Brasil. Já passou muito da hora de abolirmos a mentalidade do cartão de ponto no país. Focar na presença do funcionário no local de trabalho no horário combinado é herança de um modelo de produção fabril, onde havia a necessidade de que os operários estivessem na fábrica no horário combinado para que a linha de montagem pudesse funcionar. Em inúmeras funções, isso não faz mais sentido hoje em dia. Quando possível, é muito melhor para o funcionário ter a flexibilidade de trabalhar no horário em que mais lhe convém e trabalhar mais em alguns dias e menos em outros, segundo sua conveniência e as necessidades do seu trabalho.
Aliás, trabalho não se mede pelo tempo de execução, por quão ocupado alguém está, nem sequer pela realização de tarefas. O valor do trabalho de cada um de nós depende da contribuição que ele traz para o cliente. É isso o que determina o quanto as pessoas estão dispostas a pagar por ele, independentemente de quanto tempo alguém levou para gerar aquela contribuição. Quanto antes as pessoas entenderem isso, mais chances terão de se realizarem profissionalmente, contribuírem mais, ganharem mais e inovarem mais — buscando formas de serem mais produtivas e com isso produzir e ganhar mais ou ter mais tempo para outras coisas.
Mas e a minoria que não cumprirá suas obrigações? Mais cedo ou mais tarde, será demitida. O home office requer mais responsabilidade. Para quem tiver, ele trará flexibilidade, liberdade, qualidade de vida e melhor remuneração. Aliás, mais confiança na relação entre patrões e empregados pode ser outro legado fundamental da expansão do home office. Tomara.
De uns tempos para cá, o sistema político brasileiro tornou-se completamente disfuncional. Não que ele funcionasse às mil maravilhas antes, mas o que era ruim ficou péssimo. O problema não é exclusividade brasileira. Mesmo países onde o sistema político funcionava bem vivem hoje o mesmo problema. Migramos para o mundo online e para redes sociais que funcionam como caixas de ressonância de pessoas com opiniões parecidas com as nossas. Escutamos e lemos quem pensa como nós e concluímos que quase todos pensam assim, exatamente da mesma forma que grupos que pensam exatamente o oposto de nós concluem que quase todos pensam como eles. Políticos carismáticos manipulam, inflamam e exacerbam essas percepções para se blindarem das consequências de qualquer escândalo que lhes envolva que venha à tona. Suas respectivas tribos são convencidas de que qualquer evidência contra eles só pode ser manipulação de opositores, da mídia ou da Justiça. E assim, acabamos com uma sociedade ultra polarizada, com presidentes, governadores e prefeitos reféns do legislativo, com uma incapacidade de avançar reformas importantes para modernizar o país e tornar os brasileiros mais prósperos, com uma Justiça politizada e intervencionista e com grupos de mídia parciais que denigrem a imagem de toda a mídia.
Uma reforma eleitoral poderia ajudar a reverter esse quadro, que ainda é agravado pelo sistema de eleições em dois turnos, que por sua vez reforça a polarização e posiciona, já no início do mandato, uma grande parte do eleitorado e do legislativo contra quem acabou de se eleger. Minha proposta: acabamos com o 2º turno e, para cada cargo majoritário, cada eleitor teria direito a dois votos, um positivo para o seu candidato preferido e outro negativo para quem ele não quer, de jeito nenhum, que seja eleito. O eleito seria o candidato com a soma de votos mais positiva. Esse sistema forçaria os políticos a não apenas buscar atender os anseios de um determinado eleitorado, mas também a não alienar completamente outra parte do eleitorado, favorecendo políticos que nos unam e não os que nos colocam uns contra os outros. Isso também ajudaria muito a melhorar a governabilidade de eventuais eleitos, o que os tornaria menos cooptáveis por interesses escusos de partes do legislativo, como acontece há tempos no Brasil. Para evitar que o sistema fosse manipulado com o lançamento de candidaturas absurdas à esquerda ou à direita apenas para atrair votos negativos, poderia ser incluída uma barreira mínima de representação no legislativo para que os partidos pudessem lançar candidatos aos cargos majoritários, o que aliás também ajudaria a garantir a governabilidade dos futuros eleitos.
Nick Bostrom é professor de filosofia na Oxford University e diretor do Future of Humanity Institute. Ele é autor do famoso livro sobre inteligência artificial “Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies” e sua pesquisa versa nas área de inteligência artificial, biossegurança, macroestratégia e diversos outros temas voltados à tecnologia. A crônica a seguir vai prender sua atenção. Ela foi publicada originalmente no Journal of Medical Ethics e a versão original está disponível aqui. Uma versão em vídeo com legendas em português pode ser encontrada aqui.
Era uma vez, um planeta que foi dominado por um dragão gigante. O dragão era mais alto do que a maior das catedrais e estava coberto com espessas escamas pretas. Seus olhos vermelhos brilhavam de ódio e de suas mandíbulas terríveis fluía um fluxo incessante de lodo verde amarelado e malcheiroso. Ele exigia da humanidade um tributo de gelar o sangue: para satisfazer seu enorme apetite, dez mil homens e mulheres tinham de ser entregues todos os dias, no início da noite, ao sopé da montanha onde vivia o dragão. Às vezes, ele devorava essas almas infelizes assim que chegavam; às vezes os trancava na montanha, onde murchariam por meses ou anos antes de serem consumidos. A miséria infligida pelo dragão era incalculável. Além dos dez mil que eram horrivelmente massacrados todos os dias, havia mães, pais, esposas, maridos, filhos e amigos que foram deixados para trás para chorar a perda de seus entes queridos.
Algumas pessoas tentaram lutar contra o dragão, mas era difícil dizer se eram corajosas ou tolas. Padres e magos invocaram maldições, sem sucesso. Guerreiros, armados com uma coragem estrondosa e as melhores armas que os ferreiros podiam produzir, atacaram-no, mas foram incinerados pelo fogo antes de chegar perto o suficiente para atacar. Os alquimistas preparavam bebidas tóxicas e enganavam o dragão para que as engolisse, mas o único efeito aparente era estimular ainda mais seu apetite. As garras, mandíbulas e fogo do dragão eram tão eficazes, sua armadura escamosa tão inexpugnável e toda sua natureza tão robusta, que o tornava invencível a qualquer ataque por parte dos humanos.
Vendo que derrotar o tirano era impossível, os humanos não tiveram escolha a não ser obedecer seus comandos e pagar o terrível tributo. Os escolhidos geralmente sempre eram idosos. Embora os idosos fossem tão vigorosos e saudáveis quanto os jovens, e às vezes mais sábios, pensava-se que pelo menos já haviam desfrutado de algumas décadas de vida. Os ricos poderiam obter um breve adiamento subornando as gangues que vinham buscá-los; mas, pelas leis, ninguém, nem mesmo o próprio rei, poderia adiar sua vez indefinidamente.
Os homens de espírito procuraram consolar aqueles que tinham medo de serem comidos pelo dragão (o que incluía quase todos, embora muitos negassem em público) prometendo outra vida após a morte, uma vida que seria livre daquele tormento. Outros oradores argumentaram que o dragão tinha seu lugar dentro da ordem natural e o dever moral de ser alimentado. Eles disseram que fazia parte do próprio significado de ser humano acabar no estômago da fera. Outros ainda afirmavam que o dragão era bom para a espécie humana porque mantinha o tamanho da população controlado. Até que ponto esses argumentos convenceram as almas preocupadas, não se sabe. A maioria das pessoas tentava resistir não pensando no fim sombrio que os esperava.
Por muitos séculos, esse estado desesperador de coisas continuou. Ninguém mais contava o número cumulativo de mortes, nem o número de lágrimas derramadas pelos desamparados. As expectativas gradualmente se ajustaram e o tirano se tornou um fato da vida. Em vista da evidente futilidade da resistência, as tentativas de matar o dragão haviam cessado. Em vez disso, os esforços agora se concentravam em aplacá-lo. Embora o dragão ocasionalmente assaltasse as cidades, verificou-se que a entrega pontual à montanha de sua cota de vida reduzia a frequência dessas incursões. Sabendo que sua vez de se tornarem comida sempre era iminente, as pessoas começaram a ter filhos mais cedo e com mais frequência. Não era incomum uma menina engravidar aos dezesseis anos. Os casais geralmente geravam uma dúzia de filhos. A população humana foi impedida de diminuir, e o dragão foi impedido de passar fome.
Ao longo desses séculos, o dragão, sendo bem alimentado, cresceu. Tornou-se quase tão grande quanto a montanha em que vivia. E seu apetite aumentou proporcionalmente. Dez mil corpos humanos não eram mais suficientes para encher sua barriga. Agora exigia oitenta mil, a serem entregues ao sopé da montanha todas as noites. O que ocupou a mente dos reis mais do que as mortes e o próprio dragão foi a logística de coletar e transportar tantas pessoas para a montanha todos os dias. Isto não foi uma tarefa fácil.
Para facilitar o processo, o rei mandou construir uma ferrovia: duas linhas retas de aço reluzente que conduziam à morada do dragão. A cada vinte minutos, um trem chegava ao terminal da montanha lotado de gente e voltava vazio. Em noites de luar, os passageiros que viajavam neste trem, se houvesse janelas para colocar a cabeça para fora, teriam sido capazes de ver na frente deles a silhueta dupla do dragão e da montanha, e dois olhos vermelhos brilhantes , como os feixes de um par de faróis gigantes, apontando o caminho para a aniquilação.
Os servos eram empregados pelo rei em grande número para administrar o tributo. Havia registradores que controlavam de quem era a vez de ser enviado. Havia os coletores de pessoas que seriam enviados em carrinhos especiais para buscar as pessoas designadas. Frequentemente viajando a uma velocidade vertiginosa, eles levavam sua carga às pressas para uma estação ferroviária ou diretamente para a montanha. Havia escriturários que administravam as pensões pagas às famílias dizimadas que não tinham mais condições de se sustentar. Havia consoladores que viajariam com os condenados em seu caminho para a boca do dragão, tentando aliviar sua angústia com palavras espirituosas e drogas.
Além disso, havia um grupo de dragonologistas que estudaram como esses processos logísticos poderiam ser mais eficientes. Alguns dragonologistas também realizaram estudos da fisiologia e do comportamento do dragão e coletaram amostras — suas escamas caídas, o limo que escorria de suas mandíbulas, seus dentes perdidos e seus excrementos, que estavam salpicados com fragmentos de osso humano. Todos esses itens foram cuidadosamente anotados e arquivados. Quanto mais a besta era compreendida, mais a percepção geral de sua invencibilidade era confirmada. Suas escamas negras, em particular, eram mais duras do que qualquer material conhecido pelo homem, e parecia não haver maneira de fazer mais do que um arranhão em sua armadura. Para financiar todas essas atividades, o rei cobrou pesados impostos de seu povo. As despesas relacionadas ao dragão, que já representavam um sétimo da economia, estavam crescendo ainda mais rápido do que o próprio monstro.
A humanidade é uma espécie curiosa. De vez em quando, alguém tem uma boa ideia. Outros copiam a ideia, adicionando a ela suas próprias melhorias. Com o tempo, muitas ferramentas e sistemas maravilhosos são desenvolvidos. Alguns desses dispositivos — calculadoras, termômetros, microscópios e os frascos de vidro que os químicos usam para ferver e destilar líquidos — servem para tornar mais fácil gerar e experimentar novas ideias, incluindo ideias que agilizam o processo de geração de ideias. Assim, a grande roda da invenção, que girava em um ritmo quase imperceptivelmente lento nas eras mais antigas, começou gradualmente a acelerar.
Os sábios previram que chegaria o dia em que a tecnologia permitiria aos humanos voar e fazer muitas outras coisas surpreendentes. Um dos sábios, que era muito estimado por alguns dos outros, mas cujas maneiras excêntricas o tornaram um pária social e recluso, chegou a predizer que a tecnologia acabaria tornando possível construir uma máquina que poderia matar o dragão.
Os conselheiros do rei, no entanto, rejeitaram essas ideias. Eles disseram que os humanos eram pesados demais para voar e, de qualquer forma, não tinham penas. E quanto à ideia impossível de que o dragão pudesse ser morto, os livros de história relataram centenas de tentativas de fazer exatamente isso, nenhuma das quais teve sucesso. “Todos nós sabemos que este homem tinha algumas ideias irresponsáveis”, escreveu um estudioso mais tarde em seu obituário do sábio solitário que havia sido enviado para ser devorado pela besta cuja morte ele havia predito, “mas seus escritos foram muito divertidos e talvez devêssemos ser gratos ao dragão por tornar possível o gênero interessante de literatura sobre a luta contra o dragão, que revela tanto sobre a cultura da angústia!”
Enquanto isso, a roda da inovação continuava girando. Poucas décadas depois, os humanos voaram e realizaram muitas outras coisas surpreendentes. Alguns dragonologistas iconoclastas começaram a argumentar por um novo ataque contra o dragão. Matar o dragão não seria fácil, eles disseram, mas se algum material pudesse ser inventado que fosse mais duro do que a armadura do dragão, e se esse material pudesse ser transformado em algum tipo de projétil, então talvez a façanha fosse possível. No início, as ideias dos iconoclastas foram rejeitadas por seus colegas dragonólogos com base no fato de que nenhum material conhecido era mais duro do que escamas do dragão. Mas depois de trabalhar no problema por muitos anos, um dos iconoclastas conseguiu demonstrar que uma escama de dragão poderia ser perfurada por um objeto feito de um determinado material composto. Muitos dragonologistas que antes eram céticos se juntaram aos iconoclastas. Os engenheiros calcularam que um enorme projétil poderia ser feito desse material e lançado com força suficiente para penetrar na armadura do dragão. Mas a fabricação da quantidade necessária do material composto seria muito cara.
Um grupo de engenheiros e dragonologistas eminentes enviaram uma petição ao rei pedindo financiamento para construir o projétil anti-dragão. No momento em que a petição foi enviada, o rei estava preocupado em liderar seu exército na guerra contra um tigre. O tigre matou um fazendeiro e, posteriormente, desapareceu na selva. Havia medo generalizado no campo de que o tigre pudesse sair e atacar novamente. O rei cercou a selva e ordenou que suas tropas começassem a abrir caminho através dela. No final da campanha, o rei poderia anunciar que todos os 163 tigres na selva, incluindo presumivelmente o assassino, foram caçados e mortos. Durante o tumulto da guerra, no entanto, a petição foi perdida ou esquecida.
Os peticionários, portanto, enviaram outro pedido. Desta vez, eles receberam uma resposta de um dos secretários do rei, dizendo que o rei consideraria seu pedido depois de revisar o orçamento anual da administração do dragão. O orçamento deste ano foi o maior até o momento e incluiu financiamento para uma nova ferrovia. Uma segunda trilha foi considerada necessária, pois a trilha original não podia mais suportar o tráfego crescente. (O tributo exigido pelo tirano havia aumentado para cem mil seres humanos, para serem entregues ao sopé da montanha todas as noites.) Quando o orçamento foi finalmente aprovado, no entanto, relatórios vinham de um parte remota do país onde uma aldeia estava sofrendo de uma infestação de cobras. O rei teve que sair com urgência para mobilizar seu exército e cavalgar para derrotar essa nova ameaça. O apelo dos anti-dragonistas foi arquivado em um arquivo empoeirado no porão do castelo.
Os anti-dragonistas se reuniram novamente para decidir o que deveria ser feito. O debate foi animado e continuou noite adentro. Já estava quase amanhecendo quando eles finalmente resolveram levar o assunto ao povo. Nas semanas seguintes, eles viajaram pelo país, deram palestras públicas e explicaram sua proposta a quem quisesse ouvir. No início, as pessoas ficaram céticas. Eles haviam aprendido na escola que o dragão era invencível e que os sacrifícios que exigia deveriam ser aceitos como um fato da vida. No entanto, quando aprenderam sobre o novo material composto e sobre os projetos da arma, muitos ficaram intrigados. Em números cada vez maiores, os cidadãos acorriam às palestras anti-dragonistas. Os ativistas começaram a organizar comícios públicos em apoio à proposta.
Quando o rei leu sobre essas reuniões no jornal, ele convocou seus conselheiros e perguntou-lhes o que eles achavam disso. Eles o informaram sobre as petições que haviam sido enviadas, mas disseram que os anti-dragonistas eram criadores de problemas cujos ensinamentos estavam causando agitação pública. Era muito melhor para a ordem social, eles diziam, que o povo aceitasse a inevitabilidade do tributo ao dragão. A administração forneceu muitos empregos que seriam perdidos se o dragão fosse massacrado. Não havia nenhum bem social conhecido que poderia vir da morte do dragão. Em qualquer caso, os cofres do rei estavam quase vazios após as duas campanhas militares e o financiamento reservado para a segunda linha ferroviária. O rei, que na época gozava de grande popularidade por ter vencido a infestação de cobras, ouviu os argumentos de seus conselheiros, mas temeu perder parte de seu apoio popular se ignorasse a petição anti-dragonista. Portanto, ele decidiu realizar uma audiência pública. Os principais dragonologistas, ministros de estado e interessados do público foram convidados a participar.
O encontro aconteceu no dia mais escuro do ano, pouco antes do feriado de Natal, no salão maior do castelo real. O salão estava lotado até o último assento e as pessoas se amontoavam nos corredores. O clima estava carregado de uma intensidade séria normalmente reservada para as principais sessões de guerra.
Depois que o rei deu as boas-vindas a todos, ele deu a palavra à principal cientista por trás da proposta anti-dragão, uma mulher com uma expressão séria, quase severa no rosto. Ela passou a explicar em linguagem clara como o dispositivo proposto funcionaria e como a quantidade necessária do material composto poderia ser fabricada. Dado o montante de financiamento solicitado, deveria ser possível concluir a obra em quinze a vinte anos. Com um montante de financiamento ainda maior, talvez fosse possível fazer isso em menos de doze anos. No entanto, não poderia haver garantia absoluta de que funcionaria. A multidão acompanhou sua apresentação atentamente.
O próximo a falar era o principal conselheiro do rei, um homem com uma voz estrondosa que enchia facilmente o auditório: “Vamos admitir que essa mulher esteja certa sobre sua ciência e que o projeto seja tecnologicamente possível, embora eu não ache que isso tenha realmente sido provado. Agora ela deseja que nos livremos do dragão. Presumivelmente, ela pensa que tem o direito de não ser devorada pelo dragão. Quão obstinado e presunçoso de sua parte. A finitude da vida humana é uma bênção para cada indivíduo, quer ele saiba disso ou não. Livrar-se do dragão, o que pode parecer uma coisa tão conveniente de fazer, minaria nossa dignidade humana. A preocupação em matar o dragão nos desviará de realizar plenamente as aspirações para as quais nossas vidas apontam naturalmente, de viver bem em vez de simplesmente permanecermos vivos. É degradante, sim degradante, para uma pessoa querer continuar sua vida medíocre pelo maior tempo possível, sem se preocupar com algumas das questões mais elevadas da vida. Mas eu digo a vocês, a natureza do dragão é comer humanos, e nossa própria natureza é verdadeira e nobremente satisfeita apenas sendo comida por ele.”
O público ouviu com respeito a este orador altamente condecorado. As frases eram tão eloquentes que era difícil resistir à sensação de que alguns pensamentos profundos deviam estar ocultos por trás delas, embora ninguém pudesse compreender quais eram. Certamente, as palavras vindas de um nomeado tão distinto do rei devem ter uma substância profunda.
O orador seguinte na fila era um sábio amplamente respeitado por sua bondade e gentileza, bem como por sua devoção. Enquanto ele caminhava para o pódio, um garotinho gritou da platéia: “O dragão é mau!” Os pais do menino ficaram vermelhos e começaram a silenciar e repreender a criança. Mas o sábio disse: “Deixe o menino falar. Ele provavelmente é mais sábio do que um velho idiota como eu.” No início, o menino estava muito assustado e confuso para se mover. Mas quando ele viu o sorriso genuinamente amigável no rosto do sábio e a mão estendida, ele obedientemente a pegou e seguiu o sábio até o pódio. “Ora, aqui está um homenzinho corajoso”, disse o sábio. “Você tem medo do dragão?”
“Quero minha avó de volta”, disse o menino.
“O dragão levou sua avó embora?”
“Sim”, disse o menino, as lágrimas brotando em seus grandes olhos assustados. “A vovó prometeu que me ensinaria a fazer biscoitos de gengibre no Natal. Ela disse que faríamos uma casinha de pão de mel e pequenos bonecos de pão que viveriam nela. Aí vieram aquelas pessoas de roupas brancas e levaram a vovó para o dragão … O dragão é ruim e come as pessoas … quero minha vovó de volta! ”
Nesse ponto, a criança chorava tanto que o sábio teve de devolvê-la aos pais.
Houve vários outros oradores naquela noite, mas o testemunho simples da criança perfurou o balão retórico que os ministros do rei tentaram inflar. O povo estava apoiando os anti-dragonistas e, no final da noite, até mesmo o rei reconheceu a razão e a humanidade de sua causa. Em sua declaração final, ele simplesmente disse: “Vamos lá!”
À medida que a notícia se espalhava, as comemorações irromperam nas ruas. Aqueles que estavam em campanha pelos anti-dragonistas brindaram uns aos outros e beberam pelo futuro da humanidade.
Na manhã seguinte, um bilhão de pessoas acordou e percebeu que sua vez de serem enviadas ao dragão chegaria antes que o projétil fosse concluído. Um ponto crítico foi alcançado. Considerando que antes, o apoio ativo para a causa anti-dragonista tinha sido limitado a um pequeno grupo de visionários, agora se tornou a prioridade número um e preocupação onipresente na mente de todos. A noção abstrata de “vontade geral” assumiu uma intensidade e concretude quase tangíveis. As manifestações em massa arrecadaram dinheiro para o projeto e instaram o rei a aumentar o nível de apoio do estado. O rei respondeu a esses apelos. Em seu discurso de Ano Novo, ele anunciou que aprovaria um projeto de lei de tributos extra para apoiar o projeto com um alto nível de financiamento; além disso, ele venderia seu castelo de verão e algumas de suas terras e faria uma grande doação pessoal. “Acredito que esta nação deve se comprometer a alcançar essa meta, antes do fim desta década, de libertar o mundo do antigo flagelo do dragão tirano.”
Assim começou uma grande corrida tecnológica contra o tempo. O conceito de um projétil anti-dragão era simples, mas torná-lo realidade exigia soluções para milhares de problemas técnicos menores, cada um dos quais exigia dezenas de etapas demoradas e incorriam em vários erros. Mísseis de teste foram disparados, mas caíram mortos no chão ou voaram na direção errada. Em um trágico acidente, um míssil caiu em um hospital e matou várias centenas de pacientes e funcionários. Mas agora havia uma verdadeira seriedade de propósito, e os testes continuaram mesmo enquanto os cadáveres eram retirados dos escombros.
Apesar do financiamento quase ilimitado e do trabalho ininterrupto dos técnicos, o prazo do rei não pôde ser cumprido. A década terminou e o dragão ainda estava vivo e passando bem. Mas o esforço estava se aproximando de seu objetivo. Um protótipo de míssil foi disparado com sucesso. A produção do núcleo, feito do caro material composto, estava programado para sua conclusão para coincidir com o acabamento do projétil totalmente testado no qual seria carregado. A data de lançamento foi definida para a véspera de Ano Novo do ano seguinte, exatamente doze anos após a inauguração oficial do projeto. O presente de Natal mais vendido naquele ano foi um calendário que contava os dias até o tempo zero, com os lucros indo para o projeto do míssil.
O rei havia passado por uma transformação pessoal de seu eu anterior frívolo e impensado. Ele agora passava o máximo de tempo que podia nos laboratórios e nas fábricas, incentivando os trabalhadores e elogiando seu trabalho. Às vezes, ele trazia um saco de dormir e passava a noite no chão. Ele até estudou e tentou entender os aspectos técnicos do trabalho. Mesmo assim, ele se limitou a dar apoio moral e se absteve de se intrometer em questões técnicas e administrativas.
Sete dias antes do Ano Novo, a mulher que havia defendido o projeto quase doze anos antes, e agora era sua chefe executiva, foi ao castelo real e solicitou uma audiência urgente com o rei. Quando o rei recebeu seu bilhete, pediu licença aos dignitários estrangeiros a quem estava relutantemente entretendo na ceia anual de Natal e correu para a sala privada onde a cientista estava esperando. Como sempre, ela parecia pálida e cansada pelas longas horas de trabalho. Esta noite, porém, o rei também pensou que poderia detectar um raio de alívio e satisfação em seus olhos.
Ela disse a ele que o míssil havia sido terminado, o núcleo estava carregado, tudo fora verificado três vezes, que estavam prontos para o lançamento e que o rei precisava dar seu sinal verde final. O rei afundou em uma poltrona e fechou os olhos. Ele estava pensando muito. Ao lançar o projétil esta noite, uma semana antes, setecentas mil pessoas teriam sido salvas. No entanto, se algo desse errado, se ele errasse o alvo e atingisse a montanha, seria um desastre. Um novo núcleo teria que ser construído do zero e o projeto seria atrasado em cerca de quatro anos. Ele ficou sentado lá, em silêncio, por quase uma hora. Assim que a cientista se convenceu de que havia adormecido, ele abriu os olhos e disse com voz firme: “Não. Eu quero que você volte direto para o laboratório. Quero que você verifique e verifique tudo novamente.” A cientista não pôde evitar que um suspiro escapasse dela; mas ela acenou com a cabeça e saiu.
O último dia do ano foi frio e nublado, mas não havia vento, o que significava boas condições de lançamento. O sol estava se pondo. Os técnicos estavam fazendo os ajustes finais e dando uma última verificação em tudo. O rei e seus conselheiros mais próximos estavam observando de uma plataforma próxima à plataforma de lançamento. Mais adiante, atrás de uma cerca, um grande número de pessoas se reuniu para testemunhar o grande evento. Um grande relógio exibia a contagem regressiva: faltavam cinquenta minutos.
Um conselheiro deu um tapinha no ombro do rei e chamou sua atenção para a cerca. Houve algum tumulto. Aparentemente, alguém havia pulado a cerca e estava correndo em direção à plataforma onde o rei estava sentado. A segurança rapidamente o alcançou. Ele foi algemado e levado embora. O rei voltou sua atenção para a plataforma de lançamento e para a montanha ao fundo. Na frente dele, ele podia ver o perfil escuro e curvado do dragão. Ele estava comendo.
Cerca de vinte minutos depois, o rei ficou surpreso ao ver o homem algemado reaparecendo a uma curta distância da plataforma. Seu nariz estava sangrando e ele estava acompanhado por dois seguranças. O homem parecia estar em um estado de frenesi. Quando viu o rei, começou a gritar com toda a força: “O último trem! O último trem! Pare o último trem! ”
“Quem é este jovem?” disse o rei. “Seu rosto parece familiar, mas não consigo identificá-lo. O que ele quer? Deixe-o subir. ”
O jovem era um secretário no ministério dos transportes, e o motivo de sua agitação era que descobrira que seu pai estava no último trem para a montanha. O rei ordenou que o tráfego de trem continuasse, temendo que qualquer interrupção pudesse fazer o dragão se mexer e deixar o campo aberto na frente da montanha onde agora passava a maior parte do tempo. O jovem implorou ao rei que emitisse uma ordem para o último trem parar, que deveria chegar ao terminal da montanha cinco minutos atrasado em relação ao horário zero.
“Não posso fazer isso”, disse o rei, “não posso correr o risco.”
“Mas os trens costumam atrasar cinco minutos. O dragão não vai notar! Por favor!”
O jovem estava ajoelhado diante do rei, implorando-lhe para salvar a vida de seu pai e a vida dos outros mil passageiros a bordo do último trem.
O rei olhou para o rosto suplicante e ensanguentado do jovem. Mas ele mordeu o lábio e balançou a cabeça. O jovem continuou a chorar mesmo enquanto os guardas o carregavam para fora da plataforma: “Por favor! Pare o último trem! Por favor!”
O rei ficou em silêncio e imóvel, até que, depois de um tempo, o choro cessou repentinamente. O rei ergueu os olhos e olhou para o relógio de contagem regressiva: cinco minutos.
Quatro minutos. Três minutos. Dois minutos.
O último técnico saiu da plataforma de lançamento.
30 segundos. 20 segundos. Dez, nove, oito…
Quando uma bola de fogo envolveu a plataforma de lançamento e o míssil disparou, os espectadores instintivamente se ergueram até a ponta dos pés e todos os olhos se fixaram na extremidade dianteira da chama branca dos pós-combustores do foguete em direção à montanha distante. As massas, o rei, o baixo e o alto, os jovens e os velhos, era como se neste momento eles compartilhassem uma única consciência, uma única experiência: aquela chama branca, disparando na escuridão, encarnando o espírito humano, seu medo e sua esperança … atingindo o coração do mal. A silhueta no horizonte caiu e desapareceu. Milhares de vozes de pura alegria se ergueram das massas reunidas, segundos depois por um baque surdo e ensurdecedor do monstro morrendo, como se a própria Terra estivesse dando um suspiro de alívio. Depois de séculos de opressão, a humanidade finalmente estava livre da cruel tirania do dragão.
O grito de alegria se transformou em um canto de júbilo: “Viva o rei! Viva todos nós! ” Os conselheiros do rei, como todos naquela noite, estavam felizes como crianças; eles se abraçaram e parabenizaram o rei: “Conseguimos! Conseguimos!”
Mas o rei respondeu com a voz quebrada: “Sim, conseguimos, matamos o dragão hoje. Mas por que começamos tão tarde? Isso poderia ter sido feito cinco, talvez dez anos atrás! Milhões de pessoas não teriam que morrer.”
O rei desceu da plataforma e caminhou até o jovem algemado, que estava sentado no chão. Lá ele caiu de joelhos. “Perdoe-me! Oh meu Deus, por favor, me perdoe! ”
A chuva começou a cair, em grandes e pesadas gotas, transformando o solo em lama, encharcando as vestes roxas do rei e dissolvendo o sangue no rosto do jovem. “Lamento muito pelo seu pai”, disse o rei.
“Não é sua culpa”, respondeu o jovem. “Você se lembra de doze anos atrás no castelo? Aquele garotinho chorando que queria que você trouxesse sua avó de volta — era eu. Eu não percebi na naquele momento que você não poderia fazer o que eu pedi. Hoje eu queria que você salvasse meu pai. No entanto, era impossível fazer isso agora, sem comprometer o lançamento. Mas você salvou minha vida, minha mãe e minha irmã. Como podemos agradecer o suficiente por isso? ”
“Escute-os”, disse o rei, gesticulando em direção à multidão. “Eles estão me louvando pelo que aconteceu esta noite. Mas o herói é você. Você gritou. Você nos reuniu contra o mal.” O rei sinalizou para um guarda vir e destravar as algemas. “Agora, vá para sua mãe e irmã. Você e sua família serão sempre bem-vindos na corte, e tudo o que desejar — se estiver em meu poder — será concedido.”
O jovem saiu, e a comitiva real, amontoada na chuva, acumulou-se em torno de seu monarca, que ainda estava ajoelhado na lama. Em meio à alta costura, cada vez mais arruinada pela chuva, um punhado de rostos empoados expressava uma superposição de alegria, alívio e desconcerto. Tanta coisa havia mudado na última hora: o direito a um futuro livre fora reconquistado, um medo primordial fora abolido e muitas suposições antigas haviam sido derrubadas. Inseguros agora sobre o que era exigido deles nesta situação desconhecida, eles ficaram ali hesitantes, como se sondando se o chão ainda se manteria, trocando olhares e esperando por algum tipo de indicação.
Finalmente, o rei se levantou, enxugando as mãos nas laterais das calças.
“Vossa majestade, o que fazemos agora?”, arriscou o cortesão mais velho.
“Meus queridos amigos”, disse o rei, “percorremos um longo caminho … mas nossa jornada apenas começou. Nossa espécie é jovem neste planeta. Hoje somos como crianças novamente. O futuro está aberto diante de nós. Devemos entrar neste futuro e tentar fazer melhor do que fizemos no passado. Temos tempo agora — tempo para acertar as coisas, tempo para crescer, tempo para aprender com nossos erros, tempo para o lento processo de construção de um mundo melhor e tempo para se estabelecer nele. Esta noite, deixe todos os sinos do reino tocarem até meia-noite, em memória de nossos antepassados mortos, e então depois da meia-noite vamos comemorar até o sol raiar. E nos próximos dias … acredito que temos alguma reorganização a fazer! ”
Moral da história:
Os relatos sobre o envelhecimento têm tradicionalmente focado na necessidade de uma acomodação elegante. A solução recomendada para diminuir o vigor e a morte iminente era a resignação associada a um esforço para alcançar o término gradual de assuntos práticos e relacionamentos pessoais. Visto que nada poderia ser feito para prevenir ou retardar o envelhecimento, esse enfoque fazia sentido. Em vez de se preocupar com o inevitável, pode-se almejar a paz de espírito.
Hoje enfrentamos uma situação diferente. Embora ainda faltem meios eficazes e aceitáveis para retardar o processo de envelhecimento [1], podemos identificar direções de pesquisa que podem levar ao desenvolvimento de tais meios em um futuro previsível. Histórias e ideologias passivas com a morte, que aconselham a aceitação, não são mais fontes inofensivas de consolo. Eles são barreiras fatais para ações urgentemente necessárias.
Muitos tecnólogos e cientistas renomados nos dizem que será possível retardar e, eventualmente, interromper e reverter a senescência humana [2]. No momento, há pouco acordo sobre a escala de tempo ou os meios específicos, nem há um consenso de que a meta seja alcançável. Em relação à fábula (o envelhecimento é, obviamente, representado pelo dragão), estamos, portanto, em um estágio em algum lugar entre aquele em que o sábio solitário previu a morte final do dragão e aquele em que os dragonologistas convenceram seus pares, demonstrando um material composto que era mais duro do que escamas do monstro.
O argumento ético que a fábula apresenta é simples: existem razões morais óbvias e convincentes para as pessoas na fábula se livrarem do dragão. Nossa situação com respeito à senescência humana é intimamente análoga e eticamente isomórfica à situação das pessoas na fábula a respeito do dragão. Portanto, temos fortes razões morais para nos livrar da senescência humana.
O argumento não é a favor da extensão do tempo de vida em si. Adicionar anos extras de doença e debilidade no final da vida seria inútil. O argumento é a favor de estender, tanto quanto possível, a amplitude da saúde humana. Ao retardar ou interromper o processo de envelhecimento, a expectativa de uma vida humana saudável seria estendida. Os indivíduos seriam capazes de permanecer saudáveis, vigorosos e produtivos em idades em que, de outra forma, estariam mortos.
Além dessa moral geral, há uma série de lições mais específicas:
Uma tragédia recorrente tornou-se um fato da vida, uma estatística: na fábula, as expectativas das pessoas se adaptaram à existência do dragão, a ponto de muitos se tornarem incapazes de perceber sua maldade. O envelhecimento também se tornou um mero “fato da vida” — apesar de ser a principal causa de uma quantidade insondável de sofrimento e morte humana.
Uma visão estática da tecnologia: as pessoas argumentaram que nunca seria possível matar o dragão porque todas as tentativas falharam no passado. Eles falharam em levar em consideração o progresso tecnológico acelerado. Um erro semelhante nos leva a subestimar as chances de cura para o envelhecimento?
A administração se tornou seu próprio propósito: um sétimo da produção da economia foi para a administração do problema do dragão (que também é a fração do PIB que os EUA gastam com saúde). A limitação de danos tornou-se um foco tão exclusivo que fez as pessoas negligenciarem a causa subjacente. Em vez de um maciço programa de pesquisa com financiamento público para deter o envelhecimento, gastamos quase todo o nosso orçamento de saúde em cuidados de saúde e em pesquisas de doenças individuais.
O bem social se separou do bem para as pessoas: os conselheiros do rei estavam preocupados com os possíveis problemas sociais que poderiam ser causados pelos anti-dragonistas. Eles disseram que nenhum bem social conhecido viria da morte do dragão. Em última análise, no entanto, as ordens sociais existem para o benefício das pessoas, e geralmente é bom para as pessoas se suas vidas forem salvas.
A falta de senso de proporção: um tigre matou um fazendeiro, uma rumba de cobras assolou uma aldeia. O rei se livrou do tigre e das cobras e, assim, prestou um serviço ao seu povo. No entanto, errou em suas prioridades.
Frases bonitas e retórica vazia: o conselheiro do rei falou eloquentemente sobre a dignidade humana e nossa natureza, em frases retiradas, na maioria literalmente, dos equivalentes contemporâneos do conselheiro [3]. No entanto, a retórica era uma cortina de fumaça que mais escondia do que revelava a realidade moral. O testemunho inarticulado, mas honesto do menino, em contraste, aponta para o fato central do caso: o dragão é mau; ele destrói pessoas. Esta também é a verdade básica sobre a senescência humana.
Falha em avaliar a urgência: até muito tarde na história, ninguém percebeu totalmente o que estava em jogo. Só quando o rei estava olhando para o rosto ensanguentado do jovem suplicante é que a extensão da tragédia se manifestou. Buscar a cura para o envelhecimento não é apenas uma coisa boa que talvez devamos um dia fazer. É um imperativo moral urgente e gritante. Quanto mais cedo iniciarmos um programa de pesquisa focado, mais cedo obteremos resultados. É importante a diferença se conseguirmos a cura em 25 anos, em vez de em 24: uma população maior do que a do Canadá morreria como resultado. Nesse sentido, tempo é igual a vida, a uma taxa de aproximadamente 70 vidas por minuto. Com o medidor correndo a um ritmo tão furioso, devemos parar de tagarelar.
“Acredito que temos alguma reorganização a fazer!”: o rei e seu povo enfrentarão grandes desafios quando se recuperarem da celebração. A sociedade deles foi tão condicionada e deformada pela presença do dragão que agora existe um vazio assustador. Eles terão que trabalhar criativamente, tanto no nível individual quanto social, para desenvolver condições que manterão vidas dinâmicas e significativas além do habitual. Felizmente, o espírito humano é bom em se adaptar. Outro problema que eles podem enfrentar é a superpopulação. Talvez as pessoas tenham que aprender a ter filhos mais tarde e com menos frequência. Talvez eles possam encontrar maneiras de sustentar uma população maior usando uma tecnologia mais eficiente. Talvez um dia eles desenvolvam naves espaciais e comecem a colonizar o cosmos. Podemos deixar, por agora, o povo da fábula para enfrentar esses novos desafios, enquanto tentamos fazer algum progresso em nossa própria aventura [4].
Notas:
[1]: A restrição calórica (uma dieta baixa em calorias, mas rica em nutrientes) estende a expectativa de vida máxima e retarda o aparecimento de doenças relacionadas com a idade em todas as espécies testadas. Os resultados preliminares de um estudo em andamento em macacos rhesus e esquilos mostram efeitos semelhantes. Parece bastante provável que a restrição calórica funcione para a nossa espécie também. Poucos humanos, entretanto, estariam dispostos a passar por uma dieta de fome para toda a vida. Alguns pesquisadores estão procurando miméticos de restrição calórica — compostos que provocam os efeitos desejáveis da redução da ingestão calórica sem que tenhamos que passar fome ( veja em “Lane, M. et al. (1999), Nutritional modulation of aging in nonhuman primates, J. Nutr. Health & Aging, 3(2): 69–76.);
[2]: Uma pesquisa recente no 10º Congresso da Associação Internacional de Gerontologia Biomédica revelou que a maioria dos participantes achava provável ou “não improvável” que o rejuvenescimento funcional abrangente de camundongos de meia-idade seria possível dentro de 10–20 anos ( “Grey, A. (2004), Report of open discussion on the future of life extension research, (Annals NY Acad. Sci., 1019, in press))”. Veja também em “de Grey, A., B. Ames, et al. (2002) Time to talk SENS: critiquing the immutability of human aging, Increasing Healthy Life Span: Conventional Measures and Slowing the Innate Aging Process: Ninth Congress of the International Association of Biomedical Gerontology, ed. D. Harman (Annals NY Acad. Sci. 959: 452–462)”; e “Freitas Jr., R. A., Nanomedicine, Vol. 1 (Landes Bioscience: Georgetown, TX, 1999)”);
[3]: Por exemplo em “Kass, L. (2003) Ageless Bodies, Happy Souls: Biotechnology and the Pursuit of Perfection, The New Atlantis, 1.”;
[4]: Sou grato a muitas pessoas pelos comentários sobre os rascunhos anteriores, incluindo especialmente Heather Bradshaw, Roger Crisp, Aubrey de Gray, Katrien Devolder, Joel Garreau, John Harris, Andrea Landfried, Toby Ord, Susan Rogers, Julian Savulescu, Ian Watson e Kip Werking. Também sou muito grato a Adi Berman, Pierino Forno, Didier Coeurnelle e outros que traduziram a fábula para outras línguas e a todos que ajudaram a espalhar a palavra ou deram encorajamento. Obrigado!