A Terra é redonda e disso os antigos já sabiam

Veja também: A ciência não é uma invenção moderna

Depois das viagens espaciais, é indiscutível para pessoas minimamente escolarizadas que o formato do nosso planeta não é plano, como sugerem alguns fanáticos, mas redondo. Foguetes levando satélites e outros equipamentos são lançados para a órbita da Terra o tempo todo; e disso temos milhares e milhares de registros e provas documentais. Mas o fato é que nem precisava de tanto: o Homem já sabia que a Terra era redonda muito antes de dominar as viagens espaciais.

O filósofo grego Aristóteles já tinha entendido. Em seu livro Sobre o Céu, ele escreveu: “Novamente, nossas observações das estrelas tornam evidente que não só a Terra é circular, como também se trata de um círculo não muito grande. Uma pequena mudança de posição para o sul ou para o norte provoca uma alteração nítida no horizonte”. Em outras palavras, as diferentes constelações que vemos no céu dependem de onde estamos. O firmamento observado no Hemisfério Norte não é o mesmo no Hemisfério Sul. Se a Terra fosse plana, veríamos sempre as mesmas estrelas de qualquer ponto e a qualquer momento.

Outro grande pensador e matemático grego, Eratóstenes de Cirene, foi além e conseguiu medir a circunferência da Terra. Ele descobriu que, ao meio-dia, em uma certa cidade do Egito, o Sol estava sempre acima da sua cabeça. Mas em outra localidade, o Sol não subia tanto naquela exata hora do dia. Eratóstenes conhecia a distância entre as duas cidades, mediu a distância da sombra de monumentos em cada uma das duas cidades ao meio-dia, e aplicou um pouco de trigonometria. Seu método pode ter sido um tanto rudimentar, mas ele certamente estava na pista certa e chegou a medir (e praticamente acertar) a circunferência da Terra com uma precisão impressionante. Desde então, o fato de a Terra ser redonda se tornou o senso comum, pelo menos entre as pessoas mais poderosas e ilustradas.

Embora não chegue a afirmar que a terra seja redonda, outro filósofo grego, Anaximandro de Mileto, antes mesmo de Aristóteles e Eratóstenes, teve essa mesma intuição, como explica de maneira genial o Prof. Clóvis de Barros Filho neste trecho de um episódio do Flow Podcast:

Escritores bíblicos não afirmam explicitamente que a Terra é redonda, mas existem algumas passagens que podem ser interpretadas dessa maneira. Veja, por exemplo, Isaías 40:22: “Ele [Deus] é o que está assentado sobre o círculo da Terra, cujos moradores são para ele como gafanhotos; é ele o que estende os céus como cortina, e os desenrola como tenda para neles habitar”. Também podemos ler em Jó 26:10: “Ele [Deus] traçou um círculo sobre a superfície das águas, onde terminam a luz e as trevas”. Em passagens como essas, a palavra “círculo” pode ser entendida como uma referência à forma redonda da Terra.

Mais recentemente, muitos exploradores conseguiram completar a volta ao mundo. O português Fernão de Magalhães circunavegou a Terra entre 1519 e 1522, algo que teria sido muito mais difícil de fazer caso o planeta tivesse uma borda. No entanto, mesmo antes do feito de Magalhães, navegadores mais atentos já tinham percebido que a Terra era redonda, ao observarem que, ao apontar a luneta para um objeto alto, como uma montanha, o topo aparece sobre o horizonte antes de todo o resto.


Como sei que a Terra é redonda?

Crônica de George Orwell, publicada originalmente no jornal Tribune do dia 27 de dezembro de 1946, traduzida para o português por Desidério Murcho.


Num ou noutro lugar — penso que é no prefácio a Saint Joan — Bernard Shaw comenta que somos hoje mais crédulos e supersticiosos do que éramos na Idade Média, e como exemplo da credulidade moderna cita a crença muito difundida de que a Terra é redonda. O homem médio, afirma Shaw, não consegue apresentar uma só razão para pensar que a Terra é redonda. Limita-se a engolir esta teoria por haver nela algo que é atraente para a mentalidade do século 20.

Ora, Shaw está exagerando, mas o que ele afirma tem algo que se lhe diga, e vale a pena explorar a questão devido à luz que lança sobre o conhecimento moderno. Afinal, por que acreditamos efetivamente que a Terra é redonda? Não estou a falar dos poucos milhares de astrónomos, geógrafos, e assim por diante, que poderiam apresentar provas oculares, ou que têm um conhecimento teórico da prova, mas do cidadão comum que lê os jornais, como eu ou você.

No que respeita à teoria da Terra plana, penso que poderia refutá-la. Se ficarmos junto ao mar num dia com boa luz, consegue-se ver os mastros e chaminés de navios invisíveis que passam ao longo do horizonte. Este fenómeno só pode ser explicado supondo que a superfície da Terra é curva. Mas não se segue que a Terra é esférica. Imagine-se outra teoria, chamada teoria da Terra oval, que afirma que a Terra tem a forma de um ovo. Que posso dizer contra ela?

Contra o homem da Terra oval, a primeira carta que posso jogar é a analogia do Sol e da Lua. O homem da Terra oval responde logo que não sei, pela minha própria observação, que esses corpos são esféricos. Só sei que são redondos, e podem perfeitamente ser discos planos. Não tenho resposta a isto. Além disso, continua ele, que razão tenho para pensar que a Terra tem de ter a mesma forma que o Sol e a Lua? A isto também não posso responder. A minha segunda carta é a sombra da Terra: quando incide sobre a Lua, durante os eclipses, parece a sombra de um objeto redondo. Mas como sei, exige o homem da Terra oval, que os eclipses da Lua são causados pela sombra da Terra? A resposta é que não sei, tendo antes tomado às cegas este pedaço de informação de artigos de jornal e opúsculos de ciência.

Derrotado nas trocas menores, jogo agora a minha rainha de trunfo: a opinião dos especialistas. O astrônomo, que tem obrigação de saber, me diz que a Terra é redonda. O homem da Terra oval joga o seu rei em cima da minha rainha. Testei eu a afirmação do astrônomo, e saberia sequer como o fazer? Aqui faço uso do meu ás. Sim, conheço um teste. Os astrónomos conseguem prognosticar eclipses, e isto sugere que as suas opiniões sobre o sistema solar são bastante sólidas. Tenho consequentemente justificação para aceitar o que dizem sobre a forma da Terra.

Se o homem da Terra oval responder — o que penso ser verdade — que os antigos egípcios, que pensavam que o Sol anda à volta da Terra, sabiam também prever eclipses, lá se vai o meu ás. Só me resta uma carta: a navegação. As pessoas velejam à volta do mundo, e chegam aonde querem, fazendo cálculos que presumem que a Terra é esférica. Penso que isto acaba com o homem da Terra oval, apesar de mesmo assim ele poder talvez ter um qualquer tipo de contra-ataque.

Como se vê, minhas razões para pensar que a Terra é redonda são muito precárias. Contudo, trata-se de um pedaço excepcionalmente elementar de informação. Na maior parte das outras questões, eu teria apelado muito mais cedo ao especialista, e teria tido menos capacidade para testar as suas proclamações. E a maior parte do nosso conhecimento está neste nível. Não repousa em raciocínio ou experimentação, mas na autoridade. E como poderia ser de outro modo, quando a diversidade de conhecimento é tão vasto que o próprio especialista é um parolo que mal se afasta da sua própria especialidade? As pessoas, na sua maior parte, se lhes pedissem para provar que a Terra é redonda, nem se dariam ao incômodo de apresentar os fraquíssimos argumentos que esbocei. Começariam por dizer que “toda a gente sabe” que a Terra é redonda, e se insistíssemos, ficariam zangadas. De certo modo Shaw tem razão. Esta é uma época crédula, e o fardo de conhecimento que agora temos de carregar é em parte responsável.


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Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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