“O mundo é um livro e aquele que não viaja lê sempre a mesma página.” (Agostinho)

Em janeiro deste ano, visitei Portugal a fim de participar do 6° Congresso Ibero-americano de Filosofia, realizado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP). Foi a minha primeira oportunidade de participar de um evento acadêmico fora do País. Ao passo em que me senti confortável de poder me comunicar quase sempre em minha própria língua materna (com um pouco de espanhol eventualmente), foi desafiante apresentar um resumo da minha pesquisa para professores e colegas de diferentes nacionalidades. Valeu muito a pena pelo feedback que obtive. As comunicações que acompanhei como ouvinte foram bem instigantes e, dentre tantos intercâmbios e networks, tanto nas sessões do Congresso como nas horas vagas no refeitório da FLUP, conheci pesquisadores mexicanos, chilenos, espanhóis, portugueses…
VIVENDO A BOEMIA PORTUENSE
Uma grata surpresa foi ter reencontrado, muitos anos depois, dois antigos amigos que cursaram a graduação comigo na UFPB e que não os via desde aquela época. Um deles (Leonardo) está fazendo o doutorado em Coimbra e o outro (Rogério) em Barcelona. Foi muito bom revê-los quase doutores, com a mesma energia intelectual que os impulsionou até aqui. Uma semana de congresso foi pouco para colocar o papo em dia, mas achamos brechas na programação para colher o dia, desfrutar o momento (Carpe Diem, como reza o antigo lema latino), porque, como disse Leonardo: “Um dia, as coisas vão ser como se nada do que vivemos tivesse sido”.

Saímos juntos quase todas as noites após o Congresso e conversamos bastante sobre nossas pesquisas e aspirações acadêmicas. Vivemos um pouco da boemia portuense e constatamos que a cidade do Porto, na verdade, são duas cidades: à noite ela se transforma. À beira do rio Douro, tomamos bons e autênticos vinhos do Porto para esquentar as orelhas e, como é de lei, uma cerveja “pra lavar”.
Após o Congresso, Leonardo ainda foi o meu guia para conhecer a mais antiga universidade do mundo lusófono: a Universidade de Coimbra, fundada em 1290.

PRIMEIRAS IMPRESSÕES DE PORTUGAL
Minha pátria é minha língua, como dizia Fernando Pessoa. Durante esses dias não me senti estrangeiro, me senti em casa. Parafraseando Gonçalves Dias ao meu modo, as aves que aqui gorjeiam gorjeiam exatamente como lá. Portugal sempre terá um lugarzinho de honra em minhas melhores memórias.

No geral, a maior diferença que senti em relação ao Brasil foi a sensação de segurança, a liberdade de ir e vir sem medo. Queria a liberdade de poder andar assim por aqui: sozinho, altas horas da noite, com o celular na mão, entrando por ruas, becos e vielas esquisitas nas quais nunca havia entrado antes, sem o menor receio de ser assaltado. Viva a segurança pública europeia!
Outra coisa que me chamou a atenção é que toda região central é livre para os pedestres e ciclistas, quase sem carros estacionados, pois os estacionamentos são subterrâneos. Além deles, há muitos andares subterrâneos nos prédios por toda região central. Você entra em um elevador no térreo e pode descer cinco ou seis andares “negativos” no subsolo. Vi também muitos carros elétricos e constatei que quase não há pessoas nos caixas e guichês de atendimento: é quase tudo automatizado. Ah, e mais um detalhe: a água da torneira é bebível.
CAMINHO SE CONHECE ANDANDO
“Muitos levam seus cães a passear. Eu levo meus olhos a passear. E como eles gostam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo é assombroso!” (Rubem Alves)
Uma das coisas que mais gostei no Porto é que os principais pontos turísticos são todos próximos da região central e dá para fazer o roteiro todo a pé. “Caminho se conhece andando”, como canta meu conterrâneo Chico César, “então, de vez em quando, é bom se perder”. Já o grande Luiz Gonzaga cantava que tem certas coisas que, “pra mode ver, o cristão tem que andar a pé”. E andar pelo Porto é como caminhar pelas páginas de um livro de história. Observando os monumentos e a arquitetura das catedrais e dos belíssimos prédios históricos, me dei conta que as pessoas que construíram essas coisas maravilhosas já morreram há séculos. A atual geração não construiu praticamente nada disso, apenas herdou de seus antepassados. Talvez por isso no geral dão menos valor do que deveriam.

O jeito como aproveito minhas viagens, a maioria dos turistas convencionais não entenderia. Gosto de perambular, vadiar e bisbilhotar sem a companhia de grupos ou guias. Gosto de andar sem rumo, seguir o coração, ir onde minha curiosidade me levar, adentrar por becos, trilhas e vielas só para ver onde levam… Os programas badalados, “instagramáveis” e que atraem filas de turistas não me enchem os olhos. Tenho um interesse peculiar. Sou atraído por programas outside, fora do roteiro padrão e previsível. E em cada um deles faço questão de levar o tempo que eu quiser, nem mais, nem menos. Não quero deixar ninguém me esperando ou ter que esperar ninguém para poder seguir a agenda do dia. Aprendi que o roteiro prévio é só um guia, jamais um senhor do meu tempo. Antes ver cinco atrações com vagar do que dez apressadamente, só pelas fotos. Muitas vezes é necessário abrir mão de alguns programas para poder saborear melhor outros, com mais ócio, para refletir sobre eles e extrair dali algo para o espírito. Somente assim a viagem pode ser espiritualmente enriquecedora.
GASTRONOMIA E CULINÁRIA
Os portugueses em geral levam a gastronomia a sério, tanto que navegaram o mundo todo em busca de temperos e especiarias culinárias das Índias. Em qualquer bodega ou botequim come-se muito bem, não importa o quão simples pareça a fachada. Costumam servir sopas (ou caldos) de entrada antes de qualquer refeição. O alimento líquido antes da refeição sólida parece facilitar a digestão. O problema é que os nomes dos pratos nos cardápios são totalmente estranhos a um brasileiro – assim como os nomes dos nossos pratos devem ser igualmente estranhos aos portugueses. Minha sorte é que alguns restaurantes tiveram a fineza de elaborar cardápios com fotos dos pratos: isso facilita muito a vida do turista.
Um detalhe curioso é que em Portugal “praça de alimentação” se chama “restauração”. E isso faz muito sentido, porque é onde tem restaurantes. E só então me dei conta de que “restaurante” significa literalmente aquilo que restaura – nesse caso a saciedade, o vigor ou a energia vital em forma de calorias. Outro detalhe digno de nota é que encontrei mais brasileiros do que portugueses trabalhando.
O AUGE DO INVERNO EUROPEU
Janeiro é o auge do inverno europeu e, embora quase nunca neve na península ibérica, para um nordestino praieiro como eu, fez muito frio – a ponto de eu precisar comprar luvas logo no primeiro dia de viagem. Eu parecia uma chaleira ambulante exalando vapor pelas vias respiratórias, de modo que, como diria Whindersson Nunes, qualquer brasileiro facilmente me identificaria nas ruas como um conterrâneo seu, dado o meu encantamento com esse fato. Passado esse primeiro encantamento, em poucos dias o frio já se tornara irritante. É como dizem: Os ursos polares adoram o frio; já os bipolares às vezes gostam, às vezes não.
No inverno, os dias são levemente mais curtos – amanhecia por volta das 7h – e o movimento do sol no firmamento forma um arco lateral ao sul, de modo que o astro rei nunca está exatamente sobre nossas cabeças, como estamos habituados a ver ao meio dia. Por falar nisso, durante mais de uma semana não vi uma nuvem sequer no céu extremamente límpido e ensolarado do inverno português.


Constatei ainda que é quase impossível suar, mesmo praticando atividades aeróbicas, devido ao clima frio e seco. Passei dois dias sem desodorante – já que não pode transportar aerosol na bagagem de mão em voos internacionais – e não tive nenhum mau cheiro nas axilas. Passei os mesmos dois dias usando a mesma meia o tempo todo e não tive chulé. Nessas condições, passei a compreender perfeitamente a fama dos franceses: tomar banho é opcional.
Apesar das vantagens, no entanto, a falta de umidade do ar me causou ressecamento nos lábios. Rodei por várias farmácias procurando “manteiga de cacau” para aliviar o ressecamento dos lábios, mas não encontrei em lugar algum. Até que certo dia resolvi mudar a pergunta e pedir “algo para passar nos lábios ressecados”. Imediatamente me entregaram um batom de manteiga de cacau na primeira farmácia. Acontece que eles não chamam manteiga de cacau por esse nome. E assim levei para a vida mais uma lição valiosa: muitas vezes o problema não é a resposta obtida, mas a pergunta que está mal formulada.
CAPITALISMO SANITÁRIO
Em Lisboa, a maioria dos banheiros (ou melhor, casas de banho) acessíveis aos turistas custa 50 centavos para usar. E não importa se você pretende despejar resíduos líquidos ou sólidos (os famosos número um e número dois): o preço é invariavelmente o mesmo. Assim, a primeira dedução que fiz é que cagar tem claramente a melhor relação custo-benefício. E tem mais: 50 centavos para um europeu são só 50 centavos, mas para mim, são quase 3 suados reais! Isso me fez passar um dia inteiro tentando usar o mínimo possível as casas de banho, o que implica beber pouca água, o que por sua vez implica certa desidratação causada pelo que chamei de capitalismo sanitário.
ESTÁDIO DO DRAGÃO
Apaixonado por futebol desde criança como sou, uma das visitas que mais queria fazer era esta: conhecer um estádio padrão Champions League. Desde que meu conterrâneo Hulk veio jogar aqui (e agora com outro conterrâneo, o Otávio, brilhando com a camisa do Porto e da seleção portuguesa), minha identificação e admiração por esse clube só cresce. Dá-lhe, dragão! Indomáveis por natureza!


PELA JANELA DO AVIÃO
Contemplando a imensidão do Atlântico pela janela do avião, me ocorreu que os primeiros portugueses a cruzar este oceano levaram meses para concluir a travessia em caravelas de madeira. Cinco séculos depois, lá estava eu fazendo o mesmo trajeto em apenas 7 horas dentro de uma cápsula de aço alada com muito mais conforto. Para mim, tudo era novo, espantoso e digno de curiosidade. Mas parece que, para a maioria das pessoas no voo, aquilo era apenas rotina. Na ida, a TAP Air me colocou no corredor. Quando o sol estava nascendo, vi pelo GPS que estávamos passando por arquipélagos belíssimos na costa da África, mas ninguém abriu as janelas para contemplar. Sorte que na volta peguei assento na janela.
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(Fernando Pessoa, Mar português, 1934)
PARA DESCONTRAIR
Trecho do show de comédia “Literalmente Falando”, do comediante mineiro Stevan Gaipo, sobre a fama dos portugueses de serem literais.


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