Enquanto algumas medidas implementadas fizeram todo o sentido no combate à pandemia de covid-19, outras foram claramente burras, autoritárias e inúteis. Arrisco dizer até que a MAIORIA das medidas impostas por decretos mais atrapalharam do que ajudaram no combate à pandemia. Para começar, eu não poderia sintetizar melhor esse sentimento do que o professor e historiador israelense Yuval Noah Harari, autor dos best-sellers “Sapiens” e “Homo Deus“:
“A pandemia de covid-19 tem demonstrado o enorme poder da nossa ciência, assim como a enorme fraqueza da nossa política. Tem sido uma vitória científica acoplada a um desastre político. Cientistas por todo o mundo cooperaram para identificar o novo vírus, conter sua propagação e desenvolver vacinas. Graças a essa colaboração científica global, a humanidade tem mais ferramentas para lidar com a covid-19 do que em qualquer pandemia prévia na História. Infelizmente, políticos falharam em usar essas ferramentas com sabedoria.”
Você pode até discordar que a covid-19 seja motivo para pânico generalizado e medidas radicais de isolamento social, como o lockdown. Pode achar que a mídia está fazendo muito alarde por uma pandemia que nem é assim tão grave. Pode concordar com o presidente de que essa virose, a despeito das comprovações científicas, não passa de uma gripezinha. E para você, pode até ser que de fato seja só isso. Você pode ser egoísta a ponto de desconsiderar a situação dos idosos e das pessoas dos grupos de risco. Ou você pode ser mais moderado e dizer apenas que, colocando na balança, os prejuízos econômicos de fechar o comércio e o turismo são maiores do que o benefício ganho em saúde pública com isso. Você pode, mesmo sem ser um especialista e correndo grave risco de falar besteira, entrar em intermináveis debates sobre isolamento horizontal ou vertical, sobre hospitais de campanha e respiradores superfaturados, sobre a eficácia das máscaras de tecido, sobre qual vacina é mais confiável, sobre o que deu certo e o que deu errado em outros países e assim por diante.
Mas, a despeito do prejuízo econômico, e por mais avesso que você seja a essa ideia, convenhamos que o lockdown faz algum sentido no combate à disseminação de uma infecção viral respiratória. Pode não ser economicamente viável, pode ser uma medida autoritária, pode não ser a melhor alternativa, mas, que barra a transmissão do vírus, inegavelmente barra. Disso quase ninguém discordaria. Assim como quase ninguém discorda de outras medidas que fazem algum sentido, como a obrigatoriedade do uso de máscara; o distanciamento social de pelo menos 1,5m em filas, guichês, mesas, cadeiras etc.; a medição da temperatura corporal na entrada de shoppings e grandes estabelecimentos etc. Quero ver é alguém dar conta de explicar como as medidas a seguir, implementadas na maioria das cidades brasileiras por decreto, de alguma maneira ajudam no combate a uma pandemia:
- Lei seca depois das 16h;
- Toque de recolher depois das 22h;
- Horário reduzido em shoppings, salões de beleza, barbearias, academias etc.;
- Proibição de mesas ao ar livre em bares;
- Interdição da orla e faixa de areia nas praias;
- Proibição de atividades ao ar livre e interdição de parques;
- Diminuição da frota de transporte coletivo;
- Seções interditadas em supermercados;
Vejamos quão burras são essas medidas. Primeiramente, restrição de horários concentra o fluxo de pessoas somente nos horários permitidos, de modo que o movimento que naturalmente seria distribuído ao longo de várias horas fica todo concentrado em poucas horas, causando mais aglomerações. Restrição de espaços, então, não preciso nem dizer que só serve para gerar mais aglomeração de pessoas. Pior ainda é quando essa restrição de espaços proíbe os espaços ao ar livre – onde comprovadamente a transmissão viral é significativamente menor –, concentrando as pessoas mais ainda nos poucos espaços permitidos.
Um exemplo magistral foi a histórica final da Copa Libertadores, em janeiro de 2021, entre dois rivais brasileiros no Maracanã – Palmeiras e Santos – com público reduzido a 5 mil pessoas. Se essas 5 mil pessoas ficassem espalhadas por toda a arquibancada, a medida faria sentido, pois elas ficariam afastadas umas das outras. Mas o que se viu foram áreas gigantescas do estádio interditadas e completamente vazias, enquanto essas 5 mil pessoas ficaram aglomeradas numa pequena faixa de arquibancadas que foi liberada pela organização da Conmebol.
E olhem que estou falando apenas das medidas efetivadas por meio de decretos do poder executivo (prefeituras e governos estaduais). Não vou nem comentar aqui propostas ainda mais absurdas como a do presidente da Câmara dos Vereadores do município de Canela, no Rio Grande do Sul, que sugeriu usar aviões para pulverizar álcool em gel sobre a cidade. Tampouco comentarei medidas de orçamento mais baixo mas igualmente absurdas como a do prefeito de Patos, na Paraíba, que mandou lavar todas as ruas da cidade com vassoura, água sanitária e um caminhão pipa a fim de desinfetar a cidade.
Além de burras, autoritárias
Mais do que burras e inúteis, tais medidas são perigosas e representam um grave risco à sociedade livre porque são extremamente autoritárias. Algumas prefeituras e governos estaduais chegaram ao ponto de usar a força policial para prender pessoas, levá-las à delegacia e aplicar multas altíssimas somente porque elas foram flagradas na rua após o toque de recolher. Comentando essas notícias no Twitter, cheguei a dizer que “por essa nem o maior saudosista da Ditadura Militar esperava”; e que “nesse ritmo a gente vira Coreia do Norte em poucas décadas”.
Usei propositalmente Ditadura Militar e Coreia do Norte como dois exemplos extremos de autoritarismos recentes, um de direita e um de esquerda, para alertar que autoritarismo não tem lado ou preferência ideológica. Qualquer regime, ideologia, instituição ou governo corre o risco (ou sofre a tentação, talvez) de aumentar gradualmente o nível de autoritarismo conforme a população vai se acostumando a aceitar decretos como esses. E é assustador como a população aceitou com muita facilidade tantos decretos burros, autoritários e medidas injustificavelmente violentas em nome de uma suposta segurança sanitária.
Como bem lembrou o cronista e cientista político português João Pereira Coutinho: “A Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, mas o racionamento de comida prolongou-se até 1954; não por necessidade, mas por hábito. (…) O controle e a servidão são hábitos difíceis de quebrar. (…) Depois de derrotarmos o vírus, vai ser preciso derrotar os filhos que o vírus gerou.”
FIQUE EM CASA: São só 15 dias para dar tempo de preparar o SUS e montar hospitais de campanha para aumentar o número de leitos de UTI disponíveis… Só mais umas semanas até “achatar a curva” de contágio para não sobrecarregar o sistema de saúde… Só mais uns meses até a vacina ficar pronta… Mais um pouquinho porque tem a segunda dose… Mais uns dias até a imunização fazer efeito… Ainda não porque tem novas variantes, mutações e cepas… É o “novo normal”, se acostume!
PS: O melhor legado dessa pandemia foi fazer as pessoas, empresas, instituições e governos perceberem que já temos tecnologia e meios viáveis de fazer muita coisa remotamente, que é obsoleto e arcaico exigir a presença física de pessoas ou de informação (documentos) para resolver o que pode facilmente ser resolvido à distância. Nesse sentido – e somente nesse –, é positivo e desejável que a noção de “distanciamento social” persista mesmo após o fim da pandemia e adquira novo significado: dessa vez não sobre saúde ou segurança, mas sobre eficiência, sobre economia de tempo e recursos, sobre um mundo com menos burocracia.

