Não compre pacotes ideológicos!

O que comumente se chama de esquerda e direita hoje no Brasil são ideologias político-partidárias que pretendem implementar na sociedade, cada uma a seu modo, uma agenda moral e uma agenda econômica. A agenda moral da esquerda é frequentemente chamada de “progressista” enquanto a agenda moral da direita é frequentemente chamada de “conservadora”. Paralelo a isso, a agenda econômica da esquerda é frequentemente chamada de “socialista” ou “comunista”, ao passo que a agenda econômica da direita é frequentemente chamada de “liberal” ou “capitalista”. Eis um resumo muito breve e superficial do que geralmente se considera como pautas presentes em cada uma dessas “agendas”:

ESQUERDA:

Agenda econômica socialista: Sociedade igualitária e coletivista, combate à desigualdade e injustiça social, distribuição de renda, taxação de heranças e grandes fortunas, reforma agrária, ambientalismo, assistencialismo, sindicalismo, luta de classes, revolução socialista, ditadura do proletariado, comunismo etc.

Agenda moral progressista: Defesa de minorias identitárias e grupos sociais vulneráveis, linguagem politicamente correta, feminismo, movimento LGBTQIAPN+, movimento negro, cotas raciais e de gênero, teoria de gênero, gênero neutro, legalização do aborto, legalização das drogas, desarmamentismo, pacifismo, defesa dos direitos humanos, combate à opressão e truculência policial, “bandido pobre não teve oportunidade” etc.

DIREITA:

Agenda econômica liberal: Liberdade individual, livre mercado, liberalismo econômico, iniciativa privada, meritocracia, privatizações, capitalismo (ou anarcocapitalismo), Estado mínimo, redução e simplificação dos impostos, “imposto é roubo”, “o Estado é ineficiente”, ruralismo, agronegócio etc.

Agenda moral conservadora: Sociedade conservadora na moral e nos costumes, manutenção da ordem social, defesa de valores tradicionais (família, religião, propriedade privada), patriotismo, nacionalismo, militarismo, armamentismo, fortalecimento da polícia, “bandido bom é bandido morto”, repressão às drogas, proibição do aborto, heteronormatividade etc.

Polarização, “guerra cultural” e por que isso é ruim

A ideia amplamente difundida de que há uma “guerra cultural” em curso leva as pessoas a escolherem um lado entre apenas dois possíveis e se entrincheirarem neles, comprando, na íntegra, pacotes ideológicos que são, em geral, artificiais e arbitrários. Esse fenômeno é o que chamamos de “polarização”, que concentra as pessoas nos extremos do espectro ideológico e as fazem parecer fanáticos de torcidas organizadas. Te dizem que você está de um lado ou do outro, o que é absolutamente falso. Pior do que isso: se você critica um dos lados em qualquer ponto, você é automaticamente rotulado como parte do lado oposto.

Durante o mestrado na Unicamp – para citar um exemplo –, um amigo cristão, estudante de ciências sociais, queria participar das reuniões de um coletivo que lutava contra a desigualdade social. Ao se envolver com o pessoal, ele disse: “Acho muito importante as propostas e quero me envolver mais a fundo; só discordo de uma pauta: a legalização do aborto”. Na mesma hora disseram que ele não poderia participar: “Ou você está conosco (em todos os pontos, de maneira acrítica), ou está contra nós”. Os movimentos políticos em geral precisam de adeptos prontos a obedecer, não a questionar. Só é permitido questionar os outros, nunca o nosso próprio grupo. Isso vale para a esquerda e para a direita. Somos “nós” contra “eles”; e “nós” temos sempre uma patrulha de cancelamento e uma cartilha sobre tudo – “aquela velha opinião formada sobre tudo”, da qual falava Raul.

Mas é perfeitamente possível alguém querer combater a desigualdade social e ser contra a legalização do aborto, como é o caso desse amigo; ou defender ao mesmo tempo algumas privatizações e a legalização da maconha; a reforma agrária e a meritocracia; defender o livre mercado e a taxação de heranças e grandes fortunas; ser ambientalista e querer redução de impostos; ser patriota e também feminista; ser gay e conservador; religioso e progressista. O meu ponto é que cada pauta precisa ser discutida caso a caso. Ninguém precisa aceitar um pacote pronto. E nenhuma pauta é exclusiva de um grupo. Não compre pacotes ideológicos!

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Glossário político: o que significa ser bolsonarista, petista, conservador, comunista ou liberal?

O “glossário político” é uma série de vídeos da BBC News Brasil que explica de maneira fácil e didática o significado dos rótulos mais repetidos atualmente no debate político brasileiro.

Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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