Esta canção dedicada a Nikkal, deusa hurrita da lua, é a peça musical mais antiga para a qual temos tanto a letra quanto as notas musicais que a acompanham. A obra foi escrita em tábuas de argila há cerca de 3500 anos e descoberta por arqueólogos na década de 1950 nas ruínas da antiga cidade de Ugarit, na atual Síria. As tábuas, escritas na língua hurrita usando a escrita cuneiforme suméria, têm sido estudadas há anos por diversos estudiosos eminentes, e diversas teorias foram propostas sobre como a música deveria ser interpretada. Na opinião do músico canadense Peter Pringle, a interpretação mais completa e convincente (e de longe a mais musical) é a oferecida pelo maestro, compositor e arqueomusicólogo britânico Dr. Richard J. Dumbrill, e é essa que você ouve no vídeo abaixo.
O alaúde de braço longo tocado no vídeo é um cruzamento entre o baglama turco e o setar persa. O próprio Peter Pringle fez esse instrumento como um experimento. Ele tem quatro cordas, mas as notas graves são duplas. Sua afinação é Fá-Dó-Fá. Alaúdes desse tipo são tocados desde os tempos mais antigos na Mesopotâmia e na Anatólia. Os tubos que você ouve são réplicas dos tubos de prata de 5.000 anos, descobertos na cidade suméria de Ur na década de 1920. Como não é possível tocar instrumentos de sopro e cantar ao mesmo tempo, Peter sampleou os tubos e os tocou por meio de um teclado de pedal, semelhante ao tipo de pedaleira usada por organistas. Os tocadores desses instrumentos usavam a técnica conhecida como “respiração circular”, que ainda é usada hoje em dia para instrumentos de sopro como o duduk armênio e o didgeridoo australiano.
A letra da música não é bem compreendida porque a língua hurrita ainda não foi completamente estudada e a placa tem trechos faltando. A deusa Nikkal, como a maioria das divindades lunares, era associada à fertilidade e ao parto. Aqui está uma ideia bem aproximada do que os especialistas acreditam estar sendo cantado:
Fiz oferendas à deusa
Para que ela abra seu coração em amor,
E que meus pecados sejam perdoados.
Que meus potes de óleo de gergelim doce a agradem,
Para que ela olhe com bondade para nós,
E nos torne frutíferos.
Como os campos de grãos em crescimento,
Que as mulheres deem à luz com seus maridos
E que aquelas que ainda são virgens
Um dia sejam abençoadas com filhos.
Agora, veja um vídeo do historiador Henrique Caldeira, do canal Estranha História, explicando mais detalhes sobre a música mais antiga do mundo:
O hino hurrita nº 6 é mais de mil anos mais antiga do que o Epitáfio de Sícilo, que até pouco tempo detinha o título de música mais antiga do mundo. Ouça abaixo uma interpretação de Leonardo Antunes, professor de língua e literatura grega na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS):
ὄσον ζῇς φαίνου·
μηδὲν ὅλως σὺ λυποῦ·
πρὸς ὀλίγον ἐστὶ τὸ ζῆν·
τὸ τέλος ὁ χρόνος ἀπαιτεῖ.
Enquanto viveres, brilha!
Não te zangues com nada, não.
A vida dura não mais que um dia
e o tempo não tem nenhum perdão.

