Não vou entrar no mérito se a adoção do gênero neutro na língua portuguesa como alguns têm proposto é desejável ou necessária. Já ouvi bons argumentos e contra-argumentos dos dois lados. Para alguns, é uma agressão à norma culta da língua e não faz sentido do ponto de vista gramatical, especialmente se considerarmos a origem latina do português. Para outros, é uma modernização da língua que a deixa mais parecida com o inglês e evita um suposto sexismo inerente à linguagem. Pessoalmente, não me incomoda e até faz algum sentido, embora eu acredite que não seja assim, com uma imposição, que uma língua natural e viva muda. Tampouco é isso que vai mudar o sexismo da sociedade.
Meu ponto é o seguinte: para se referir a um possível gênero neutro na língua portuguesa, goste você ou não, “todes” é melhor do que “todxs” ou “tod@s”, porque ao menos é pronunciável. Também é melhor do que o inconveniente parêntese de “todos(as)” ou “todas(os)”. Por fim, “todes” é melhor do que sempre ter que dizer “todos e todas”, porque é mais econômico — assim como a forma masculina “todos” usado como gênero neutro, incluindo as mulheres (como já usávamos antes de começarem a problematizar e apontar machismo na língua).
O que é assustador e inaceitável é, por exemplo, o Museu da Língua Portuguesa escrever em um editorial, como eu mesmo vi um tempo atrás, a aberração “todos, todas e todes”. Poucas expressões na nossa língua conseguem ser tão burras quanto essa. Ora, todo o malabarismo linguístico de inventar o “todes” — bem como toda a polêmica e as discussões acaloradas que isso tem gerado — serve justamente para substituir o prolixo “todos e todas”, por ser uma fórmula mais econômica. Nesse sentido, o neutro “todes” significa justamente “todos e todas”, e serve sobretudo para evitar o uso dos gêneros masculino (todos) e feminino (todas). Quando uma expressão tão redundante e irracional quanto “todos, todas e todes” é usada por ninguém menos do que o Museu da Língua Portuguesa, isso só revela o estado intelectual deplorável em que se encontra a sociedade brasileira.
Atualização em 05 de janeiro de 2023: Parece que o famigerado “todos, todas e todes” virou o padrão no terceiro governo Lula, como você pode ver abaixo.

