Artigo de opinião do economista Ricardo Amorim.
De uns tempos para cá, o sistema político brasileiro tornou-se completamente disfuncional. Não que funcionasse às mil maravilhas antes, mas o que já era ruim piorou. O problema não é exclusividade brasileira. Mesmo países onde o sistema político funcionava bem vivem hoje o mesmo problema. Migramos para o mundo online e para redes sociais, que funcionam como caixas de ressonância de pessoas com opiniões parecidas com as nossas. Escutamos e lemos somente quem pensa como nós e concluímos que quase todos pensam assim, da mesma forma que grupos que pensam o oposto de nós concluem que quase todos pensam como eles.
Políticos carismáticos manipulam, inflamam e exacerbam essas percepções para se blindarem das consequências de qualquer escândalo que venha à tona. Suas respectivas tribos são convencidas de que qualquer evidência contra eles só pode ser manipulação de opositores, da mídia ou da Justiça. Acabamos com uma sociedade ultra polarizada, com presidentes, governadores e prefeitos reféns do legislativo, incapazes de avançar reformas importantes para modernizar o país e tornar os brasileiros mais prósperos, com uma Justiça politizada e intervencionista e com grupos de mídia parciais que denigrem a imagem de toda a mídia.
Uma reforma eleitoral poderia ajudar a reverter esse quadro, que ainda é agravado pelo sistema de eleições em dois turnos, que por sua vez reforça a polarização e posiciona, já no início do mandato, uma grande parte do eleitorado e do legislativo contra quem acabou de se eleger. Minha proposta: acabamos com o segundo turno e, para cada cargo majoritário, cada eleitor teria direito a dois votos, um positivo para o seu candidato preferido e outro negativo para quem ele não quer, de jeito nenhum, que seja eleito. Seria eleito o candidato com o saldo mais positivo.
Esse sistema forçaria os políticos a não apenas buscar atender os anseios de um determinado eleitorado, mas também a não alienar completamente outra parte do eleitorado, favorecendo políticos que nos unam e não os que nos colocam uns contra os outros. Isso melhoraria muito a governabilidade dos eventuais eleitos e os tornaria menos cooptáveis por interesses escusos de partes do legislativo, como acontece há tempos no Brasil. Para evitar que o sistema fosse manipulado com o lançamento de candidaturas absurdas à esquerda ou à direita apenas para atrair votos negativos, poderia haver uma barreira mínima de representação no legislativo para que os partidos pudessem lançar candidatos a cargos majoritários, o que aliás também ajudaria a garantir a governabilidade dos futuros eleitos.
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