As proezas de João Grilo

proezas-de-joao-grilo-cordelEstes versos são talvez os mais famosos e icônicos da literatura de cordel. Lembro que meu avô lia isso pra mim na infância (boa parte ele apenas recitava, pois sabia de cor).

A autoria é do cordelista paraibano João Martins de Athayde (1880-1959). O personagem João Grilo foi quem inspirou o protagonista homônimo de “O Auto da Compadecida”, a famosa peça de teatro de Ariano Suassuna que virou filme e minissérie na rede Globo.


João Grilo foi um cristão
que nasceu antes do dia
criou-se sem formosura
mas tinha sabedoria
e morreu depois da hora
pelas artes que fazia.

E nasceu de sete meses
chorou no bucho da mãe
quando ela pegou um gato
ele gritou: não me arranhe
não jogue neste animal
que talvez você não ganhe.

Na noite que João nasceu
houve um eclipse na lua
e detonou um vulcão
que ainda continua
naquela noite correu
um lobisomem na rua.

Porém João Grilo criou-se
pequeno, magro e sambudo
as pernas tortas e finas
e boca grande e beiçudo
no sítio onde morava
dava notícia de tudo.

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Uma proposta de solução para a questão da maioridade penal

Artigo de opinião de Pierluigi Piazzi, o saudoso Professor Pier (1943-2015), que propõe uma solução bem inteligente e criativa para superar a polarização dos meramente “contra” e “a favor” da redução da maioridade penal.


Assassinatos bárbaros com requintes de crueldade e outros crimes hediondos cometidos por “quase maiores” estão revoltando a população brasileira, cuja indignação está sendo insuflada ainda mais pela mídia sensacionalista. Reações indignadas dos defensores das “pobres criancinhas”, por outro lado, rebatem exageros com exageros. Do alto de minha vetusta idade, se não adquiri sabedoria, pelo menos consegui um pouco de experiência que me ensinou a desconfiar das polarizações. Das aulas de latim, ainda lembro da frase: Virtus in medium est (A virtude está no meio). Deve haver uma forma de conciliar opiniões tão conflitantes de forma a se chegar em um mínimo de consenso.

Acho que a forma existe e quero propor aqui um esboço de solução. Afinal de contas, nossos alunos estão se envolvendo nessa polêmica e, se por um lado isso pode aguçar o espírito crítico e a habilidade de argumentação, por outro lado pode também incentivar radicalismos nem um pouco benéficos ao desenvolvimento emocional deles. Para encontrar esse esboço de solução (esboço este que está longe de ser uma versão definitiva), tentei identificar o porquê de tanto radicalismo. A resposta é simples: discute-se apenas com base emocional, e não racional. Minha proposta é transformar o conflito em um problema matemático em vez de um embate emocional. Em vez de discutir se a maioridade penal deve ser reduzida para 16 ou 14 anos (ou aumentada para 21, como querem outros), vamos tentar encarar as coisas de forma diferente.

Há muitos anos fui a um teatro assistir uma peça do Jô Soares e um dos trechos me chamou a atenção. Descrevia a perplexidade de alguém olhando a data de validade de um produto qualquer, por exemplo, uma lata de atum. De forma extremamente divertida, o personagem se perguntava: O que acontece dentro desta lata exatamente à meia-noite da data fatídica? Que brusca e fantástica mutação ocorrerá ao conteúdo dessa embalagem quando soarem as doze badaladas? E se eu comprar em um país, pegar um avião e à meia-noite já estiver em outro, com fuso horário diferente, a súbita transformação ocorrerá em qual das meia-noites?

Vendo e ouvindo todas as discussões e os comentários do tipo “amanhã ele seria imputável, mas agora vai sair da delegacia sorrindo, valendo-se de uma lei estúpida”, percebi que a estupidez não está na lei, mas na forma com que ela determina a data de validade da adolescência. Até 17 anos, 11 meses e 30 dias, o sujeito tem um cérebro de adolescente, ainda não amadurecido o suficiente para perceber a gravidade do crime cometido. Exatamente à meia-noite, o cérebro sofre uma abrupta transformação e o sujeito torna-se um cidadão plenamente consciente e responsável por seus atos.

Um dos motivos para tão estúpida suposição é que a maioria de nossos juristas e legisladores é constituída por pessoas que enveredaram por essas carreiras para fugir do terror do ciclo médio: a matemática. Não têm, portanto, a capacidade intelectual de perceber a enorme vantagem de uma função contínua em relação a essa loucura de verdadeiros saltos quânticos que as leis promovem. Vamos então pegar uma função contínua: a sigmoide. Para quem não lembra, a derivada da sigmoide é justamente a curva de Gauss, tão usada em cálculo de probabilidade. Usando um pouco de lógica fuzzy poderíamos construir um gráfico assim:

SIGMOIDE

Segundo um gráfico desse tipo, uma criança de 14 anos seria 0% imputável, ou seja, totalmente inimputável. Já alguém de 15 anos teria uma imputabilidade de 5%, ou seja, ficaria detido em uma instituição ressocializadora por 5% do tempo correspondente à pena que um adulto cumpriria ao cometer o mesmo crime. Nesse gráfico, a sigmoide tem seu máximo de velocidade de mudança aos 16 anos, idade que coincide com o máximo de mudanças neurais no cérebro. Com 16 anos, o indivíduo pode votar e até pilotar um avião. Nesse caso, ao cometer um crime, teria que cumprir metade da pena que um adulto cumpriria. Aos 17, cumpriria 95% da pena e, aos 18, cumpriria a pena completa.

Essa pena proporcional seria cumprida sempre em uma instituição especial “para menores” até que o apenado completasse 21 anos. Só depois ele cumpriria pena em uma cadeia comum. Trata-se obviamente de um esboço, longe de ser uma solução. Tenho certeza, porém, que a solução estaria não tanto nos valores a serem atribuídos ou na função matemática a ser aplicada, mas no conceito de função contínua, ou seja, no fato de se tornar a responsabilidade penal algo gradual e não em algo determinado por absurdos saltos quânticos.


Jovem comete crime meia hora antes
de completar 18 anos e evita prisão

Um jovem foi apreendido após uma tentativa de assalto em Ribeirão Preto meia hora antes de completar 18 anos. Por causa disso, o rapaz – que chegou a disparar quatro tiros na vítima – vai responder por ato infracional em vez de tentativa de homicídio. Na delegacia, o suspeito disse que precisava de dinheiro para fazer a festa de 18 anos. Mesmo maior de idade, o jovem foi encaminhado para a Fundação Casa porque o crime foi cometido quando ele ainda tinha 17 anos. O advogado criminalista Daniel Rondi explica que a lei leva em consideração o horário do crime e não o momento da prisão. [Fonte: R7.]

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O mesmo princípio aplicado ao imposto de renda

Concordo com o professor Pier que leis e p​​olíticas públicas devem se basear em parâmetros graduais e proporcionais (em vez de absurdos “saltos quânticos”) para evitar injustiças. E consigo até imaginar outro exemplo no qual esse princípio poderia ser aplicado pelo bem da justiça e do bom senso. Ora, estipular o pagamento do imposto de renda a quem ganha a partir de 5 mil reais, por exemplo, é injusto com quem ganha 5001 e beneficia maximamente quem ganha 4999. Quem ganha 4999 está isento de imposto ao passo que quem ganha 5001 paga o imposto integralmente. Isso fará este segundo indivíduo ter uma renda, na prática, bem inferior ao primeiro que teoricamente ganharia menos.

Consegue pensar em outro exemplo? Compartilhe conosco nos comentários.

Qual é a cidade mais antiga do mundo?

Jericó. Ela fica na Cisjordânia, no meio dos conflitos entre palestinos e israelenses. Uma região tumultuada demais para uma velha senhora. Citada tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, a cidade foi destruída e abandonada várias vezes. Estudos recentes sugerem que ela pode ter mais de 10 mil anos. O sítio arqueológico onde ficava a antiga Jericó tem apenas ruínas desabitadas. Entre elas, as de uma velha muralha de pedra, construída provavelmente 8 mil anos antes de Cristo. “O muro prova que não se tratava de uma vila ou aldeia, mas de uma cidade murada de verdade”, diz Antonio Brancaglion, da Universidade de São Paulo (USP). Pela extensão da muralha, dá para calcular que cerca de 3 mil habitantes circulavam pelas ruas da antiga Jericó. Alguns arqueólogos e historiadores, no entanto, acreditam que Ur, na antiga Suméria (atual sudeste do Iraque), é ainda mais antiga que Jericó, mas não há consenso. Nessa disputa por longevidade, Damasco, a capital da Síria, também entra no páreo, com o título de mais antiga cidade continuamente habitada. Escavações comprovam uma ocupação contínua de mais de 5 mil anos. Dezenas de outras cidades, com idades parecidas, reivindicam o mesmo posto, entre elas: Beirute, no Líbano, Cairo, no Egito, e Sanaa, no Iêmen. Mas, por enquanto, nenhuma provou que foi fundada antes de Damasco.

Fonte: Mundo Estranho.

Epistemologia de um vestido polêmico

cor do vestido

Um assunto banal como a cor de um vestido mobilizou milhões de pessoas, gerou muita polêmica e sacudiu a internet esta semana. E o mais interessante: fez muita gente sem nenhuma experiência em filosofia sair do senso comum e discutir epistemologia! A foto do vestido postada numa rede social viralizou de tal modo que foi parar em quase todos os portais de notícias na internet e virou pauta para ser discutida ao vivo em muitos programas de televisão. Desde a noite da última quinta-feira, a cor do bendito vestido é o tema mais comum em conversas informais. A polêmica dividiu as pessoas em basicamente dois grupos: as que veem o vestido preto e azul e as que o veem branco e dourado.

Eu, particularmente, já tentei, já fiz de tudo, mas não consigo ver esse vestido branco e dourado de jeito nenhum. Aliás, não consigo ver nenhuma cor além de preto e azul. Mas tem muita gente jurando que só consegue ver branco e dourado; e eu não duvido delas. Lembro da pessoa que primeiro me mostrou a famosa foto do vestido. “Você ainda não tá sabendo dessa foto?! Em que mundo você vive?!”, indagou surpresa. Mas ainda mais surpreso fiquei eu, quando ela disse que só vê o vestido branco e dourado. A princípio fiquei preocupado e pensei que ela fosse daltônica, já que para mim o vestido é claramente preto e azul. Mas depois de dar uma pesquisada na internet e ler bastante sobre o assunto, descobri que não era nada grave e que muita gente enxerga assim.

Discussões, opiniões e polêmicas à parte, eis a pergunta que todos se fazem nesse momento: Será que é possível chegarmos a um consenso sobre a cor do vestido na foto? Ora, o problema com os daltônicos é simples de resolver: se 99,9% da população enxerga de um jeito e os outros 0,1% enxergam diferente, fica fácil definir essa minoria que enxerga diferente como portadores de uma falha cognitiva qualquer, causada por uma mutação genética ou sei lá o quê. Mas o problema com esse vestido é que as pessoas se dividem quase meio a meio: metade vê preto e azul e metade vê branco e dourado. Assim, fica bastante difícil definir qual grupo está certo e qual tem probleminha nos cones e bastonetes – o que tem levado muitos “especialistas” a afirmar que ambos estão certos.

vestido

Antes de responder essa pergunta, é preciso esclarecer uma série de outros problemas bem mais fundamentais: Existe uma opinião certa e outra errada sobre isso, ou ambas as opiniões estão certas visto que o assunto é relativo? Existe uma “cor verdadeira” do vestido, ou as cores que percebemos não existem na realidade, sendo apenas formas diferentes de perceber a luz? Existem critérios objetivos suficientemente confiáveis para determinar a cor do vestido, ou tudo o que temos são nossos falhos e enganadores sentidos? Podemos nos posicionar objetivamente sobre o assunto, ou não faz sentido toda essa discussão porque as cores são subjetivas? Podemos investigar esse fenômeno cientificamente, ou estamos condenados a conviver para sempre com essa incerteza?

Como eu disse, muitos “especialistas”, talvez pela preocupação de serem politicamente corretos, não se posicionam e chegam a afirmar que ambas as opiniões estão corretas, que aquele vestido é ao mesmo tempo preto/azul e branco/dourado, que isso é relativo, depende da interpretação de quem vê etc. Eu, no entanto, acredito e defendo que não é possível ambas as opiniões estarem corretas, de modo que apenas uma delas está com a razão; e que existem sim critérios objetivos suficientemente confiáveis para determinar a cor verdadeira do vestido sem a interferência de qualquer interpretação subjetiva que a mente humana possa fazer. Em suma, acredito que é possível sim investigar esse fenômeno cientificamente e tomar uma posição objetiva sobre esse assunto.

Não duvido que muita gente esteja vendo branco e dourado, mas, independente da sua subjetividade, o vestido é objetivamente preto e azul. E não afirmo isso porque eu o vejo dessa cor. Eu bem sei que poderia facilmente estar errado. Sei também que eu não posso de modo algum ser critério de objetividade. Invertendo a lógica do raciocínio, o que quero dizer com isso é que, mesmo enxergando preto e azul, se o vestido fosse branco e dourado e eu tivesse meios mais confiáveis do que os meus sentidos para descobrir isso, não teria motivos para duvidar que ele é branco e dourado. Eu apenas ficaria um pouco decepcionado com os meus sentidos por eles estarem me enganando, mas isso também não é tão incomum quanto parece.

vestido (2)

Mas como eu sei que o vestido da foto é preto e azul? Bom, primeiro porque tanto a dona do vestido quanto a loja que vende esse modelo já publicaram outras fotos do mesmo vestido e nelas não resta dúvidas de que ele é preto e azul. Mas isso ainda não quer dizer muita coisa, já que o fenômeno que causou toda essa polêmica não é o vestido físico, mas uma certa fotografia do vestido. Ou seja, nada impediria que o vestido fosse de fato preto e azul, mas que, devido à iluminação do ambiente no momento da foto ou à baixa qualidade da câmera, ele tivesse saído branco e dourado na foto. Todavia, não é esse o caso; e nós temos meios objetivos para comprovar que, mesmo na foto, o vestido é preto e azul.

As ferramentas mais confiáveis que temos hoje para determinar objetivamente a cor exata do vestido na foto são os softwares de edição de imagem. Isso porque os computadores não têm olhos, nervos óticos, cérebro, emoções, opinião e tudo o mais que nós temos que influencia na senso-percepção. Como máquinas que são, os computadores são exatos e objetivos, não fazem interpretação subjetiva de nada (precisamente porque não são “sujeitos”, são “objetos”). Enquanto nós vemos cores na foto do vestido, um computador “vê” apenas códigos de programação, símbolos lógicos formais, códigos binários, alternância de cargas elétricas em circuitos eletrônicos, elétrons pulando de um átomo para outro em determinada ordem. Tudo o que eles fazem com esses dados é calcular ou, melhor dizendo, computar.

No Photoshop ou em qualquer outro programa de edição de imagens de sua preferência, esse teste pode ser feito de pelo menos duas maneiras, ambas muito simples (talvez um designer gráfico saiba de outras). Primeiro, com a ferramenta de selecionar cor, se você clicar em qualquer parte do vestido, o computador interpretará aquele pixel como algum tom de cinza (preto) ou azul. Mas há uma maneira ainda mais fácil de tirar essa dúvida: basta aumentar a saturação da foto. Conforme as cores presentes na imagem ficam mais vivas e mais fortes, você notará com maior clareza que o vestido é preto e azul (e não branco e dourado, como talvez pensasse). Como as coisas devem funcionar na ciência, você pode reproduzir esse experimento na sua casa e repeti-lo quantas vezes quiser, que sempre obterá o mesmo resultado.

Filósofos John Searle e Daniel Dennett falam sobre o mistério da consciência

Os filósofos americanos John Searle e Daniel Dennet, considerados talvez os dois maiores especialistas vivos em filosofia da mente, palestraram no TED sobre aquele que parece ser o principal problema dessa área da filosofia: a consciência.


Palestra do professor João Teixeira, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), na universidade do Minho, em Portugal, sobre filosofia da mente.

Dicas de estudo

Semana passada o G1 publicou uma matéria contando como eu fiz o Enem só para testar meus conhecimentos e acabei passando em medicina na UFPB, um dos cursos mais concorridos do Brasil. Muitas pessoas acharam a história inspiradora, especialmente porque, em dado momento da matéria, eu digo o seguinte:

“Alguns amigos e familiares dizem que eu passei em medicina sem estudar. Isso não é verdade. Eu estudei o conteúdo do Enem, só que isso faz uns 7 anos. A grande questão é que eu estudei do jeito certo, e não como a maioria das pessoas estudam. As pessoas costumam estudar para o vestibular, para o concurso, para a prova de amanhã. Passado o dia da prova, simplesmente ‘deletam’ toda a informação, porque ela não foi sedimentada, ficou ali apenas provisoriamente, na memória de curto prazo. Esse é o problema de estudar para uma prova e não para a vida. Quando se estuda para a vida, do jeito certo, sem atalhos, sem ‘decoreba’, sem fórmulas mágicas, o aprendizado é para sempre e os bons resultados em provas são apenas uma agradável consequência.”

medicina G1

Logo depois que a matéria foi publicada no G1, perdi o controle do meu perfil no Facebook e não consegui acompanhá-lo mais. Foram literalmente centenas de chamadas no bate papo, centenas de solicitações de amizade, centenas de compartilhamentos, milhares de comentários e incontáveis curtidas. As pessoas começaram a me procurar principalmente porque queriam saber o que eu quis dizer com “estudar do jeito certo”, o que significa “estudar para a vida”, como é a minha rotina de estudos, quais dicas e macetes eu tenho para dar, enfim, como passar em concursos e vestibulares. Então eu resolvi começar aqui no blog uma série com dicas de estudo. Quando anunciei isso no Facebook, as pessoas demonstraram bastante interesse em acompanhar a série, e o G1 novamente me procurou dizendo que estavam interessados em publicar outra matéria. Eles me convidaram a gravar nos estúdios da TV Cabo Branco, afiliada da rede Globo na Paraíba. Ganhei muito mais visibilidade depois que fui parar na página inicial do G1.

dicas-estudo-G1

No vídeo, dou algumas dicas que considero valiosas não apenas para vestibulandos e concurseiros, mas para qualquer pessoa sinceramente interessada em melhorar seu rendimento nos estudos:

Eu vejo esse pessoal nos cursinhos, quase sem vida social, passando horas trancado num quarto com a cara nas apostilas, com a mente fechada no programa das disciplinas, preocupados apenas com aquilo que eles acham que pode “cair” na prova, decorando dezenas de fórmulas e achando que isso vai lhes garantir um bom desempenho. Na minha opinião, é muito improvável que isso aconteça.

A minha principal dica é: não estude só o que você acha que pode cair na prova; não fique com a mente fechada, preocupado em estudar só aquilo que está previsto no programa. Seja uma pessoa curiosa. Queira saber um pouco sobre tudo. Estude também aquilo que você acha que não tem a menor chance de cair na prova, mas que você simplesmente gosta de estudar, aquele assunto sobre o qual você tem um interesse pessoal, aquele assunto aparentemente inútil, mas que você consegue estudar apenas por prazer.

Você deve estudar não para passar no vestibular ou num concurso: você deve estudar para aprender; e a consequência agradável de estudar para aprender é passar nessas provas. Quando o sujeito estuda para passar num exame, geralmente não passa. Mas quando ele estuda para aprender, passar é consequência. Todo aluno que, durante uma aula, pergunta ao professor se determinado assunto “vai cair”, dificilmente vai passar, porque ele está interessado em passar no exame e não em aprender.

Essa dica que eu dou é muito semelhante a esta outra do professor Olavo de Carvalho, que eu só vi bem depois de gravar a matéria para o G1:


O ciclo diário

Minha rotina de estudos é baseada num método que o professor Pierluigi Piazzi ensina em suas palestras sobre estimular a inteligência. Esse método consiste em obedecer um ciclo diário composto de três etapas: (1) assistir aula para entender; (2) estudar para aprender; e (3) dormir bem para fixar. Nessa ordem.

Antes de tudo, é preciso entender a função das aulas. O estudante brasileiro médio tem o péssimo hábito de achar que aula serve para aprender, e por isso não estuda depois da aula. Um erro comum é fazer dois cursinhos para ter um maior número de aulas, achando que isso vai melhorar o seu rendimento. Isso não vai ajudar, e o motivo é bem simples: Assistir aula não serve para aprender, mas para entender a matéria e tirar dúvidas. É o estudo pós-aula que serve para aprender. A diferença entre entender e aprender pode parecer muito sutil, mas não é. Quando o professor explica uma matéria, seu objetivo é que o aluno consiga acompanhar o raciocínio e então possa dizer consigo mesmo: “Ah, entendi!”. Se o aluno prestou atenção na aula e entendeu o que ele disse, a função da aula foi cumprida. Ao fim da aula, porém, o aluno ainda não aprendeu o assunto, ele apenas o entendeu. Ele pode até lembrar de tudo na prova que será aplicada uma semana depois, tirar uma boa nota e passar com facilidade. Mas ele ainda não aprendeu de verdade.

O que faz o estudante absorver a matéria e realmente aprender não é a aula. Como eu disse, aula serve pra te fazer entender o assunto. É o estudo pós-aula que serve para aprender. Assistindo aula com atenção, o aluno entende o que o professor disse, mas aquela informação fica guardada na memória de curto prazo (uma espécie de memória RAM do cérebro) e, se nada for feito, será perdida em poucos dias. Para que isso não aconteça, o aluno precisa revisar e reforçar o mesmo conteúdo sozinho depois da aula. Só depois que ele faz essa espécie de backup é que aquelas informações vão para a memória de longo prazo (algo como o HD do cérebro) e pode-se dizer que houve de fato aprendizado. Portanto, o que realmente vai fazer a diferença é o momento em que você estuda sozinho, não o número de aulas que assistiu. Mas isso não significa que vale “gazear” ou dormir nas aulas: como já foi dito, elas são importantes para entender a matéria e tirar dúvidas. Ou seja, as aulas servem para nortear o estudo individual. Se o sujeito tem aula o dia inteiro, quando é que vai poder estudar? Ele vai só entender momentaneamente a matéria, mas não vai aprender; a sua cabeça vai virar uma bagunça e ele vai esquecer logo, porque o conhecimento não foi sedimentado.

Sobre aumentar a quantidade de aulas, especialmente em cursinhos, penso o seguinte: Nada contra fazer cursinho, mas esteja sempre ciente de que nenhum cursinho, por mais caro que seja e por mais professores famosos que tenha, pode te fazer passar em nada. A função do cursinho é te orientar, te ajudar a estudar. O seu estudo individual é que te fará passar. Ademais, a própria existência de cursinhos é a evidência de que o sistema educacional brasileiro não funciona; porque se funcionasse não existiria o cursinho. Qual é o perfil do aluno de cursinho? É o cara que descobriu tarde demais que fez tudo errado na escola e agora está correndo atrás do prejuízo. Eu mesmo, como sempre estudei em escola pública, uma vez resolvi fazer cursinho para complementar algo que supostamente teria faltado na minha formação básica. Isso foi logo após eu ter concluído o ensino médio. Comecei a trabalhar, me matriculei na turma da noite, paguei as mensalidades, comecei a ir, mas devo confessar que não aguentei passar mais de dois meses naquele ambiente. Eu ficava me perguntando o que estava fazendo ali. No segundo mês deixei de ir para ter mais tempo de estudar sozinho em casa. Foi uma ótima decisão.

O professor Pierluigi Piazzi costuma dizer que o maior problema da educação brasileira é que ela tem milhões de alunos, mas pouquíssimos estudantes. Segundo ele, aluno é quem assiste às aulas. A coisa mais fácil do mundo é ser um aluno. Basta estar matriculado e frequentar as aulas que você já é um aluno. Mas ainda não é um estudante. Estudante é quem estuda. E estudar não significa assistir aula, mas revisar o conteúdo da aula em casa. Portanto, quando você assiste aula, você é um aluno; quando chega em casa, faz os exercícios e revisa o conteúdo da aula, você é um estudante.

As neurociências já mostraram que é muito importante, após um dia de aula e estudo, que você tenha uma boa noite de sono. Você entende o assunto na aula, estuda para reforçar, mas é durante o sono que o seu cérebro organiza aquelas informações e consolida o conhecimento. Somente após essa consolidação é que o aprendizado é definitivo. Por isso é importante que você revise o conteúdo das aulas no mesmo dia, antes que se passe uma noite de sono, enquanto as informações ainda estão frescas na memória. Além de evitar acúmulo, estudar o conteúdo visto em sala de aula no mesmo dia fará com que seu cérebro entenda que aquilo é importante e memorize com mais facilidade. Se você assiste aula hoje e deixa para estudar aquele assunto no outro dia, não é a mesma coisa, porque você certamente já perdeu muita informação. Recapitulando: Na aula você entende, no estudo você aprende e numa boa noite de sono você fixa. Esse é o ciclo. Vale mais estudar pouco e todo dia do que estudar muito mas sem regularidade.


Individual e ativo

Vimos que uma boa rotina de estudos obedece um ciclo do aprendizado: (1) assistir aula para entender, (2) estudar para aprender e (3) dormir bem para fixar. Ora, a aula quem prepara é o professor, não você. Você tem pouquíssimo controle sobre o conteúdo das aulas, porque ele geralmente é escolhido pelo professor, e este tem que obedecer um certo programa. Sobre o processo de sedimentação do conhecimento no seu cérebro durante o sono você também não tem nenhum controle, porque isso acontece enquanto você está literalmente inconsciente. Então a única etapa desse processo sobre a qual você tem pleno controle é a hora de estudar, e é precisamente sobre essa etapa que eu quero dar mais algumas dicas.

Eu já disse que há uma diferença básica entre aluno e estudante: aluno é quem assiste as aulas, estudante é quem estuda. Mas isso não é tudo. Existe outra diferença fundamental entre ser aluno e estudante, ou seja, entre assistir aula e estudar. Assistir aula é uma atividade COLETIVA e PASSIVA: você está em grupo e ouvindo o professor. Estudar é uma atividade INDIVIDUAL e ATIVA: você deve estar sozinho e escrevendo. Por mais legal que seja se reunir com os amigos para estudar, você acaba falando mais de outras coisas e as dúvidas permanecem. Portanto, se você quer ser um estudante de verdade em vez de apenas um aluno, você deve revisar o conteúdo das aulas e fazer os exercícios propostos sozinho em casa.

Um grande defensor dessa ideia de que só se aprende de verdade no estudo individual e ativo é o professor Pierluigi Piazzi. Ele costuma dizer que “ninguém está estudando se não estiver escrevendo”. Portanto, não se contente em apenas ler; isso não é estudar. Também não é suficiente sublinhar as partes mais importantes do texto ou sinalizá-las com um marca texto. Para estudar você precisa rabiscar e escrever, de preferência à mão.

Segundo o professor Pier, como é carinhosamente apelidado pelos seus alunos, muitas pesquisas nas neurociências indicam que os alunos que escrevem à mão aprendem mais do que quem só digita. “Você tem movimentos totalmente distintos para escrever cada letra à mão, mas isso não acontece quando você está digitando. Isso faz com que mais redes neurais sejam ativadas no processo da escrita. (…) Aquilo que você escreve à mão vai pro teu HD; aquilo que você digita vai pro HD do computador. E na hora de fazer uma prova de vestibular ou prestar um concurso público, o computador que você leva é este, sua cabeça. É esse computador que você deve treinar mais”, diz.

Mas não é porque precisa estudar escrevendo que você deve sair copiando todo o conteúdo do livro. Faça resumos, resenhas e esquemas da matéria. Para saber o que vale a pena escrever, faça de conta que está preparando uma cola para uma prova. Por ter pouco espaço e pouco tempo para consultá-la, é preciso ser conciso, mas, ao mesmo tempo, abordar os pontos principais. É justamente isso que você deve escrever.


Educação egoísta

Depois de estudar um assunto, ou toda vez que aprender algo novo, é interessante, sempre que possível, ensinar o que você aprendeu. Se ninguém estiver disposto a lhe ouvir, uma alternativa é explicar a matéria para si mesmo. De qualquer modo, ensinar é a melhor forma de aprender. Isso acontece porque, para ser capaz de ensinar algo, é necessário que aquele conhecimento esteja tão bem sedimentado que você acaba aprendendo muito melhor. Quando você lê ou ouve algo, retém um pouco. Quando você estuda, retém um pouco mais. Mas o ápice da retenção é quando você ensina.

Ensinar o que aprendeu é importante nem tanto pelo interesse altruísta de compartilhar o conhecimento. É claro que isso também é importante, mas no sentido que eu proponho, o interesse é principalmente seu. Murilo Gun chama isso de “educação egoísta”, que é quando você ensina com o objetivo principal não de que a outra pessoa aprenda, mas de que você mesmo aprenda enquanto ensina. Ouça o que ele diz sobre isso:


Concentração e foco

Nosso cérebro é meio fanfarrão: na hora de pensar em estratégias para aquele jogo complicado de videogame ou de ler aquela revista que você adora, ele coopera facilmente. Mas quando é preciso sentar e estudar um pouco, é difícil manter a concentração. Pensando nisso, o portal Guia do Estudante listou algumas dicas para ajudar seu cérebro a se concentrar na hora dos estudos. Como cada pessoa tem um jeito diferente de funcionar, nem todas essas dicas serão igualmente eficientes para todo mundo. Então é bom fazer uns testes até descobrir quais dão certo para você.

Primeiramente, sacie suas necessidades mais básicas. Não adianta começar a estudar se você estiver com fome, sede, sono ou calor. Você certamente não conseguirá manter o foco. Por isso, o ideal é se organizar para que todas essas necessidades do corpo estejam satisfeitas e saciadas antes de começar os estudos. Ter uma boa noite de sono, se alimentar nos mesmos horários e de forma correta, e criar um ambiente confortável e adequado é fundamental para aumentar o potencial do seu aprendizado.

Desligue todos os aparelhos eletrônicos (exceto o que você estiver usando para estudar, se estiver). Na hora de estudar, nada de deixar o celular por perto te avisando de cada notificação no Facebook ou no Whatsapp. E nem caia na tentação de abrir o Facebook só por “dois minutinhos”. Esses dois minutinhos sempre se estendem e acabam com toda a sua concentração. Não é proibido estudar ouvindo música – há quem precise dela para se concentrar. Mas evite ouvir músicas em idiomas que você entenda – isso pode fazer com que você desvie sua atenção para a letra e esqueça momentaneamente a matéria.

Evite a monotonia. Uma conversa no mesmo tom de voz e sem movimento faz com que a gente fique com sono ou comece a pensar em outras coisas. Com os estudos, acontece o mesmo. Se você se limitar a ler textos por muito tempo, a tendência é perder o foco e ficar com sono. O estudo torna-se bem mais interessante e produtivo quando você adota uma postura ativa. Se você estuda pela internet, revese o acompanhamento de uma videoaula com a leitura da teoria seguida da resolução dos exercícios didáticos.

Respeite seu tempo. Se você é mais produtivo de manhã, à tarde ou à noite, deixe para estudar as matérias mais difíceis nesse período. Quando sentir que a concentração não está rolando de jeito nenhum, faça uma pausa nos estudos e depois volte. Manter intervalos regulares é fundamental – e a frequência vai depender do seu ritmo. Crie um pequeno ritual antes de estudar. Pode ser um alongamento, pegar uma xícara de café ou um copo de suco para deixar na sua mesa, ou o que mais achar melhor. Com o tempo, seu cérebro vai entender quando for a hora dos estudos e ficará mais fácil se concentrar.


As quatro etapas

Leitura panorâmica: Antes de se aprofundar no texto, respire fundo e procure ter uma ideia geral do que tem diante de si. Isso pode ser feito com uma leitura rápida, superficial, panorâmica, que lê apenas o início e o final de cada parágrafo. Seu objetivo é apenas reconhecer o texto, identificar o tema, saber como ele se desenvolve, se parece fácil, difícil, longo ou breve. É quase uma etapa preliminar ao estudo, que cria uma expectativa sobre o aprendizado.

Marcação e sublinhado: Tendo uma noção geral, leia o texto com calma, como está acostumado, com o objetivo de destacar o que parece ser o mais importante ou o que desperta especial interesse. Esse destaque merece ser feito em dois momentos. Em primeiro lugar, marque os trechos que parecem ser os mais importantes com um colchete na margem do texto. Nesse primeiro momento, evite sublinhar enquanto lê, porque isso geralmente resulta em um sublinhado excessivo, com frases ou até mesmo parágrafos inteiros marcados. Se esse trecho é importante, uma marcação simples ao lado do texto servirá para o destaque. Faça isso com todo o texto. Após a marcação dos trechos, volte diretamente a cada um deles e sublinhe suas palavras-chave. O objetivo é facilitar a identificação do que trata o trecho destacado. Proceda dessa forma com todos os trechos marcados.

Anotações e rascunhos: Com base no que foi marcado e sublinhado, faça anotações livres em uma folha a parte, de próprio punho. Pode ser na forma de esquema, mapa conceitual, linha do tempo, tabela, contendo desenhos, cores ou o que você julgar útil para registrar o que destacou no texto. Geralmente, é nesta etapa que você perceberá que está aprendendo, pois o que faz é, do seu próprio modo, estabelecer relações entre os conceitos do texto. Assim, estará criando algo que é seu com base no material de estudo.

Exercícios: Após as anotações, é preciso saber o quanto aprendemos, o que é feito com exercícios. Eles podem ser de vários tipos, desde a resposta às questões prontas do livro didático até a atividade de refazer anotações sem consulta ou ensinar o conteúdo para alguém. Os exercícios revelam o que precisa ser reforçado no aprendizado. São a força motriz para iniciar um novo ciclo de estudo: leia, marque, sublinhe e complete as anotações com o que faltou ou precisava de maior detalhamento.


Infográficos da revista Superinteressante

como estudar sozinho em casa

como estudar para uma prova


Maioria dos métodos de estudar para provas não funciona

Os métodos favoritos de se preparar para provas escolares não são os que garantem os melhores resultados para os estudantes, segundo uma pesquisa feita por um grupo de psicólogos americanos. Universidades e escolas sugerem aos estudantes uma grande variedade de formas de ajudá-los a lembrar o conteúdo dos cursos e garantir boas notas nos exames. Entre elas estão tabelas de revisão, canetas marcadoras, releitura de anotações ou resumos, truques mnemônicos ou autotestes. Mas segundo o professor John Dunlosky, da Kent State University, nos Estados Unidos, os professores não sabem o suficiente sobre como a memória funciona e quais as técnicas mais efetivas. Dunlosky e seus colegas avaliaram centenas de pesquisas científicas que estudaram dez das estratégias de revisão mais populares, e verificaram que oito delas não funcionam ou mesmo, em alguns casos, chegam até a atrapalhar o aprendizado.

Então, o que funciona? Somente duas das dez técnicas avaliadas se mostraram efetivas: testar a si mesmo e espalhar a revisão em um período de tempo mais longo. “Estudantes que testam a si mesmos ou tentam recuperar o material da memória vão aprender melhor no longo prazo. Comece lendo o texto e então faça cartões de estudo com os principais conceitos e teste a si mesmo. Um século de pesquisas mostra que a repetição de testes funciona”, diz Dunlosky. Isso aconteceria porque o estudante fica mais envolvido com o tema e menos propenso a devaneios da mente. “Testar a si mesmo quando você tem a resposta certa parece produzir um rastro de memória mais elaborado conectado com seus conhecimentos anteriores, então você vai construir o conhecimento sobre o que já sabe”, diz o pesquisador. A melhor estratégia, porém, é uma técnica chamada “prática distribuída”, de planejar com certa antecipação e estudar em espaços de tempo mais espalhados – evitando, assim, de deixar para estudar de uma vez só na véspera do teste. Dunlosky diz que essa é a estratégia mais poderosa: “Os estudantes que concentram o estudo podem passar nos exames, mas não retêm o material. Uma boa dose de estudo concentrado após bastante prática distribuída é o melhor caminho”.

Fonte: BBC Brasil.


Dicas do professor Pier

O professor italiano Pierluigi Piazzi explica como estudar melhor e estimular a inteligência. Se você, como eu, quer se tornar mais inteligente, vale muito a pena encontrar tempo e ouvir o que este senhor tem a dizer.

População de São Paulo comparada a países

Que São Paulo é grande todo mundo já sabe. A capital paulista é dona da 7ª maior região metropolitana do mundo (considerando a população) e, segundo estimativas internacionais, já é a 10ª cidade mais rica do mundo (considerando o PIB) e até 2025 será a 6ª mais rica. Ter uma noção do tamanho da multidão paulista pode ser mais fácil se a compararmos à de alguns dos mais importantes países do mundo. Veja abaixo uma lista (não exaustiva) dos países que têm uma população menor que a do estado, região metropolitana e município de São Paulo.

Veja também: Estados brasileiros comparados a países


Considerando o Estado:

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SÃO PAULO – 44 milhões

ARGENTINA – 41 milhões

POLÔNIA – 38 milhões

CANADÁ – 34 milhões


Considerando a região metropolitana:

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GRANDE SÃO PAULO – 32,5 milhões

VENEZUELA – 28,9 milhões

PERU – 28,7 milhões

ARÁBIA SAUDITA – 28,7 milhões

AUSTRÁLIA – 23,8 milhões

HOLANDA – 16,8 milhões

CHILE – 15,1 milhões

EQUADOR – 15,0 milhões


Considerando só o município:

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SÃO PAULO – 11,5 milhões

GRÉCIA – 11,3 milhões

PORTUGAL – 10,5 milhões

BOLÍVIA – 10,4 milhões

BÉLGICA – 10,4 milhões

SUÉCIA – 9,4 milhões

ÁUSTRIA – 8,4 milhões

ISRAEL – 8,1 milhões

SUÍÇA – 8,0 milhões

PARAGUAI – 7,4 milhões

DINAMARCA – 5,6 milhões

FINLÂNDIA – 5,3 milhões

NORUEGA – 5,1 milhões

IRLANDA – 4,5 milhões

NOVA ZELÂNDIA – 4,4 milhões

CROÁCIA – 4,4 milhões

URUGUAI – 3,4 milhões

A futurologia de Murilo Gun

Série de vídeos produzida pelo humorista, palestrante e metido a futurólogo Murilo Gun sobre o futuro dos jornais, dos livros, dos idiomas, do Facebook, do celular, do videogame, da televisão, do carro, da indústria e dos crimes. Por fim, compartilho uma palestra dele no TEDx Fortaleza sobre o futuro da propriedade e do consumo e uma palestra na qual ele conta o que viu na Singularity, a escola de futurismo da Nasa e do Google.













Sobre “O Show de Truman”

Esta semana assisti “O Show de Truman” (1998), estrelado por Jim Carrey. A proposta é ousada. Terminei o filme eufórico. É o tipo de filme que conquista pela inteligência, prende pela curiosidade, encanta pela mensagem e faz pensar. Todas as outras obras de ficção que exploram o tema da realidade simulada geralmente ocorrem num futuro distante e envolvem invasões alienígenas ou rebelião de robôs e computadores com inteligência artificial. Mas a história de Truman se passa no presente (1998) e envolve apenas uma grande emissora de TV patrocinada por milionários anúncios publicitários e detentora de uma enorme audiência no mundo todo. É muito mais viável. De todas as releituras que já vi da alegoria da caverna de Platão, esta foi a melhor. Até então, quem ocupava esse posto era Matrix, que na verdade é apenas uma variação do experimento mental do cérebro numa cuba.

Truman Burbank (Jim Carrey) é um astro da TV incrivelmente famoso, mas ele não sabe disso. Sua vida é um reality show apresentado 24 horas por dia para bilhões de telespectadores ao redor do mundo, só que ele nem desconfia. A cidade onde ele nasceu, cresceu, estudou, trabalha e sempre viveu não é real: é apenas um cenário. Todas as pessoas com quem ele diariamente mantém contato e se relaciona, incluindo sua esposa e seu melhor amigo, são atores ou figurantes. Todos estão ali atuando para que Truman acredite estar vivendo uma vida normal. Truman começou a ser monitorado ainda na barriga da sua mãe. Seu nascimento foi transmitido ao vivo, seus primeiros passos, suas primeiras descobertas… O diretor do programa controla tudo no cenário, incluindo o clima. A coisa começa a ficar muito dramática quando Truman começa a suspeitar da realidade e embarca em uma emocionante busca para descobrir a verdade sobre a sua vida. O enredo envolve questões éticas, direitos humanos, publicidade e propaganda, o “sonho americano”, uma profunda reflexão filosófica e até um romance. Procure esse filme e dedique 2 horas dessas férias para assisti-lo: garanto que não vai se arrepender!

Para bom bebedor, meia garrafa basta

Crônica de Fernando Sabino.

A primeira vez que provei bebida alcoólica foi aos 11 anos. Estávamos acantonados nos galpões vazios da antiga Feira de Amostras, ali onde é hoje o Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro. Havia latas de doce vazias, invólucros sem conteúdo, rótulos sem produto, restos da última exposição: nada que satisfizesse nossa gula. Em companhia de outro pivete (que acabaria regenerado tornando-se hoje um competente cirurgião), arrombei a janela de um galpão que supúnhamos cheio de comedorias, para acabarmos apanhados em pleno malfeito pelo vigia do lugar (o que nos valeu um esculacho pouco digno da nossa condição de escoteiros). Até que alguém mais esperto descobriu num desvão da antiga feira um depósito de garrafas cheias. Mas cheias de que? Só vim a saber quando vi os mais velhos fazendo correr uma garrafa de mão em mão, bebendo pequenos goles furtivos entre risinhos de malícia. Fui buscar meu caneco e pedi que me dessem um pouco. Tanto insisti que acabaram se enchendo, e encheram o caneco para se verem livres de mim. Eu imaginava que aquilo tivesse o gosto delicioso de alguma soda limonada, groselha ou guaraná. E virei tudo de uma vez só. Era cachaça pura! Só não morri ali mesmo porque quis Deus me experimentar ao longo da vida, propiciando-me generosamente outras espécies de bebida. Mas passei a noite delirando, depois de haver vomitado a própria alma até o rabo. Hoje sinto náuseas ao mais leve cheiro de cachaça.

Aos 15 anos tomei o primeiro grande pileque da minha vida. De gim, que até hoje me lembra a loucura e tem gosto de consequências fatais. Na manhã seguinte fui curar minha ressaca enfrentando a ressaca ainda mais poderosa do mar. Se não morri de beber na véspera, poderia ter morrido afogado. Mas eu era jovem, e como todo jovem, imortal. Até que chegou o momento, com alguns chopes de permeio, de finalmente me iniciar no uísque, a que permaneci fiel. Era um baile no Automóvel Clube, em Belo Horizonte, e o uísque da moda era o Old Parr. Tomado com guaraná! Entrei no uísque como se fosse refrigerante, e entrei bem. Meu irmão me encontrou em coma alcoólico debaixo do chuveiro aberto, ainda vestido no elegante dinner-jacket da minha primeira festa a rigor — rigorosamente ensopado e vomitado. Com tantos fracassos sucessivos, não sei como não caí na mais intransigente das abstinências. É que em pouco surgia a hora da verdade, no grupo de quatro amigos já composto para a vida inteira. Encharcados de chope e literatura, enchíamos de desvario a silenciosa noite de Minas, convertendo a bebida em indispensável combustível de nossa rebeldia. Rebeldia contra que? Contra tudo. Tínhamos de beber para justificar a embriaguez da mocidade em que vivíamos.

Deixemos, pois, que falem os entendidos — no caso, os mestres Luís Lobo e Leopoldo Adour da Câmara. Assim se expressam eles no seu admirável receituário “A Arte do Rabo de Galo”, um “breve discurso em torno de copos e garrafas”: “Não há motivo para criticar a bebida em razão dos que se embriagam. Como ninguém critica a comida simplesmente porque há gente capaz de comer até morrer de indigestão”. Falou, ou melhor, falaram — e está falado: como a comida, assim a bebida, em quantidade razoável, é perfeitamente inofensiva, tendo o efeito de estimular o apetite, ajudar a digestão, relaxar os nervos e tornar a vida mais agradável. Mas, aqui entre nós, onde ficam os limites do razoável? Não será, certamente, na primeira dose. Esta apenas prepara o caminho para a segunda. E a segunda dose… Já dizia o prefeito de Rochester a Henrique Savile (dois indivíduos de quem eu nunca ouvira falar, mas competentes, desde que citados pelos autores acima mencionados): “Oh, aquela segunda dose; é o mais sincero, o mais sábio, o mais imparcial amigo nosso; diz a verdade sobre nós mesmos e força-nos a dizer a verdade sobre os outros. Barra a lisonja das nossas bocas e a desconfiança dos nossos corações; coloca-nos acima dos eufemismos, da política dos preconceitos de cortesia, os quais nos fazem mentir de dia com receio de sermos traídos à noite”.

A partir da terceira dose as coisas se complicam um pouco. Se a humanidade está atrasada em três uísques, como dizia Humphrey Bogart, ao recuperar o atraso a gente se vê de súbito, copo vazio na mão, ante o dilema de tomar mais um ou se dar por satisfeito. E é aí que intervém a já referida sabedoria da dupla Lobo e da Câmara, afirmando: “Um bom conselho em relação à quantidade é parar de beber quando sentir que dá para beber mais um, porque dois será demais. Este um provavelmente também o será”. Por isso é que um velho amigo meu, conhecido pelo hábito de sempre tomar mais um, afirmava outro dia num bar que, de sua parte, jamais passava de três uísques. Ante o protesto geral, insistiu, com a mais cínica das convicções: “Eu só tomo três; depois do terceiro me transformo noutro sujeito, e este sim, bebe como gente grande”. Fiquemos, pois, no terceiro. Ainda que a contagem varie de bebedor para bebedor, podendo começar a partir do terceiro, ou mesmo ser regressiva, como no lançamento de foguetes.

Por falar em foguetes: e a ressaca? Entendidos de lado, falo de experiência própria: não há cura mais eficiente do que evitá-la. Mas eis que um cientista sueco, que por sinal ganhou o Prêmio Nobel, descobriu recentemente uma substância capaz de neutralizar a toxidez do álcool, impedindo sua metabolização no organismo, sem inibir seus agradáveis efeitos no cérebro. Esta descoberta terá, em relação à bebida, o mesmo impacto que a pílula teve em relação ao sexo: agora é que eu quero ver o que será da humanidade, bebendo sem parar, e se sentindo fisicamente cada vez melhor. Por enquanto, dentre as causas da ressaca, talvez a mais comum seja a bebida de má qualidade. É incrível como tantos que se dizem bons bebedores são capazes de aceitar como bebida legítima as mais grosseiras falsificações. No entanto, um mínimo de atenção e cuidado ao beber seria o suficiente para denunciá-las. O bom uísque, por exemplo, não morde a gente: cai bem, sem causar estranheza, sem chamar atenção sobre a língua, redondo dentro da boca, sem arestas, sem azinhavre nas bordas, sem largar ferrugem ao longo da garganta, sem deixar gosto de lápis no esôfago, sem levantar poeira no estômago. O bom uísque, enfim, é aquele sobre o qual não resta a menor dúvida.

Enquanto escrevo, entre um gole e outro de uísque, penso se serei capaz de me revestir da seriedade que o assunto exige. A sabedoria, que faz de beber uma arte, talvez repouse nos mesmos princípios de proporção, equilíbrio e harmonia que regem as outras artes. E que estabelecem o primado da qualidade sobre a quantidade. Beba bem e viva melhor — seria o slogan que eu proporia a uma campanha publicitária de apologia da bebida. A essa altura, já ouço o leitor abstêmio comentar, indignado: “Apologia da bebida. Esse cretino ousa sugerir publicidade para um dos mais terríveis males que afligem a humanidade”. Ouso sugerir que a humanidade é afligida não pelo álcool, mas pelo alcoolismo. A arte de bem beber se contrapõe justamente ao vício de beber mal. O álcool em si não é bom nem mau, e existe desde que o homem é homem. Todas as civilizações conhecidas produziram alguma espécie de bebida alcoólica.

O mal não está no que entra no homem, mas no que dele sai, como afirmou Jesus Cristo. Ele próprio não consagrou a água, o leite ou a coca-cola: consagrou o pão e o vinho, como alimentos do corpo e do espírito. É preciso respeitar a bebida — não saber beber é que constitui um dos mais terríveis males que afligem a humanidade. Esta é uma lição que todos deveriam saber de cor antes de beber e não na manhã seguinte, como geralmente acontece. Ao fim de minhas digressões, vejo que não cheguei a sair do princípio, ou seja, sinto que mal cheguei a entrar no assunto. Agora é tarde: só me resta tomar mais uma e dar por atingido o meu propósito (ou despropósito) de enaltecer a bebida como fator de bom entendimento entre os homens. Ou, pelo menos, do homem consigo mesmo.

CHARLEZINE

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