Sonetos de Augusto dos Anjos

No centenário da morte do maior poeta paraibano, Augusto dos Anjos (1884-1914), compartilho com vocês nove de seus melhores sonetos. Saboreie a poesia, aprendendo a apreciar inclusive o gosto amargo de seus versos fúnebres, viscerais e verminais.


Versos íntimos

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!


A um monstro

Fome! E, na ânsia voraz que, ávida, aumenta,
Receando outras mandíbulas a esbangem,
Os dentes antropófagos que rangem,
Antes da refeição sanguinolenta!

Amor! E a satiríasis sedenta,
Rugindo, enquanto as almas se confrangem,
Todas as danações sexuais que abrangem
A apolínica besta famulenta!

Ambos assim, tragando a ambiência vasta,
No desembestamento que os arrasta,
Superexcitadíssimos, os dois

Representam, no ardor dos seus assomos
A alegoria do que outrora fomos
E a imagem bronca do que inda hoje sois!


Ao meu primeiro filho

(nascido morto com 7 meses incompletos, no dia 02 de fevereiro de 1911)

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial

Que poder embriológico fatal
Destruiu, com a sinergia de um gigante,
A tua morfogênese de infante,
A minha morfogênese ancestral?!

Porção de minha plásmica substância,
Em que lugar irás passar a infância,
Tragicamente anônimo, a feder?!…

Ah! Possas tu dormir feto esquecido,
Panteisticamente dissolvido
Na noumenalidade do NÃO SER!


O morcego

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vêde:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede…”
— Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o tecto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!


O meu nirvana

No alheamento da obscura forma humana,
De que, pensando, me desencarcero,
Foi que eu, num grito de emoção, sincero
Encontrei, afinal, o meu Nirvana!

Nessa manumissão schopenhauereana,
Onde a Vida do humano aspecto fero
Se desarraiga, eu, feito força, impero
Na imanência da Ideia Soberana!

Destruída a sensação que oriunda fora
Do tacto — ínfima antena aferidora
Destas tegumentárias mãos plebeias —

Gozo o prazer, que os anos não carcomem,
De haver trocado a minha forma de homem
Pela imortalidade das Ideias!


A ideia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica …

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.


Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo
O amor na Humanidade é uma mentira.
E é por isto que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaíra,
De Messalina e de Sardanapalo?

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
— Alavanca desviada do seu fulcro —

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!


Agonia de um filósofo

Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, me não consolo.
O Inconsciente me assombra e eu nêle tolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!

Assisto agora à morte de um inseto!
Ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!

No hierático areópago heterogêneo
Das idéas, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!

Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!

Reorganização das regiões do Brasil

Cismei com a atual divisão do território brasileiro em cinco regiões. Considero o Norte grande demais em extensão, e o Sul pequeno demais, ente outras coisas. Então resolvi testar novas formações. Nada sério: só um rascunho grosseiro de como eu dividiria o Brasil, caso me ocorresse a oportunidade. Nos mapas abaixo, apresento possíveis divisões do Brasil em duas, três, quatro ou seis regiões.

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Para quem pensa que a divisão das regiões sempre foi como é hoje, veja abaixo como o Brasil era dividido em 1913, 1938 e 1945, respectivamente.

Regiões do Brasil em 1913:

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Regiões do Brasil em 1938:

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Regiões do Brasil em 1945:

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Liberdade – Cecília Meireles

Cecília Meireles (1901-1964) estaria completando 113 anos hoje, se ainda não nos tivesse deixado. A crônica a seguir foi publicada no livro Escolha o seu sonho, no Rio de Janeiro, em 1964, ano de sua morte.


statue-of-libertyDeve existir nos homens um sentimento profundo que corresponda a essa palavra “liberdade”, pois sobre ela se têm levantado estátuas e monumentos, por ela se tem até morrido com alegria e felicidade. Diz-se que o homem nasceu livre, que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem, que onde não há liberdade não há pátria, que a morte é preferível à falta de liberdade, que renunciar à liberdade é renunciar à própria condição humana, que a liberdade é o maior bem do mundo, que a liberdade é o oposto da fatalidade e da escravidão. Nossos bisavós gritavam: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade!”. Nossos avós cantaram: “Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil!”. Nossos pais pediam: “Liberdade! Liberdade! Abre as asas sobre nós!”. E nós recordamos todos os dias que “o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhou no céu da Pátria…” em certo instante. Somos, pois, criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.

Ser livre, como diria o famoso conselheiro, é agir segundo a nossa cabeça e nosso coração, mesmo tendo de partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho. Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autômato e de teleguiado, é proclamar o triunfo luminoso do espírito (suponho que seja isso). Ser livre é mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões. É ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes. Por isso os meninos atiram pedras e soltam papagaios. A pedra, inocentemente, vai até onde o sonho das crianças deseja ir (às vezes, é certo, quebra alguma coisa no percurso). Os papagaios vão pelos ares até onde os meninos de outrora não acreditavam que se pudesse chegar tão simplesmente com linha e vento.

Acontece, porém, que um menino, para empinar um papagaio, esqueceu-se da fatalidade dos fios elétricos e perdeu a vida. E os loucos que sonharam sair de seus pavilhões usando a fórmula do incêndio para chegarem à liberdade morreram queimados, com o mapa da liberdade nas mãos. São essas coisas tristes que contornam sombriamente aquele sentimento luminoso da liberdade. Para alcançá-la, estamos todos os dias expostos à morte. Os tímidos preferem ficar onde estão, prender melhor suas correntes e não pensar em assunto tão ingrato. Mas os sonhadores vão adiante, soltando seus papagaios, morrendo nos seus incêndios, como as crianças e os loucos. E cantando aqueles hinos que falam de asas e de raios fúlgidos, linguagem de seus antepassados, estranha linguagem humana, nestes andaimes dos construtores de Babel.

Deixa o Alfredo falar! – Fernando Sabino

A arte brasileira da conversa não é de fácil aprendizado. Como toda arte, exige antes de mais nada uma verdadeira vocação. E essa vocação se aprimora ao longo do caminho que vai da inocência à experiência, como em toda arte. Para princípio de conversa, distinga-se: quando falo em conversa, não estou me referindo à lábia, à astúcia, à solércia do brasileiro no passar a bicaria e vender o seu peixe. Falo precisamente no bate-papo.

Mas por que arte brasileira? Os outros povos acaso não batem papo? A própria expressão, brasileiríssima, corresponde em inglês exatamente ao verbo “to chat”, na acepção que lhe dá o dicionário: “to converse in an easy or gossipy manner”. Até os ingleses, meu Deus, os ingleses têm também o seu papo: um deles, na mesa do bar, olha para fora e diz que vai chover; meia hora depois outro diz que não vai chover; meia hora depois o terceiro se retira dizendo que não gosta de discussão. A falta de graça desta velha anedota não está em ser velha, mas na finalidade útil que fez michar o papo. Este não deve ter finalidade alguma, senão a de matar o tempo da melhor maneira possível. É coisa de latino em geral e de brasileiro em particular: fazer da conversa não um meio, mas um fim em si mesmo. Se não me engano, essa é a distância que separa a ciência da arte.

No papo bem batido, a discussão não passa de uma motivação, sem intuito de convencer ninguém, nem de provar que se tem razão. Os que nela se envolvem devem estar sempre prontos a reconhecer, no íntimo, que poderiam muito bem passar a defender o ponto de vista oposto, desde que os que o defendem fizessem o mesmo. Os temas devem ser de apaixonante gratuidade, a ponto de permitir que, no desenrolar da conversa, de súbito ninguém mais saiba o que se está discutindo. Mesmo nas eternas discussões sobre mulher, religião ou futebol, para que se constituam em bate-papo, longas digressões hão de ser admitidas, desde que pertinentes. Esta última observação, aliás, é pertinente ela própria, já que falei em futebol, quando se trata de papo acalorado como o que batiam aqueles dois amigos, parados numa esquina, violando o silêncio da rua adormecida:

— Se o último jogo do Campeonato fosse do Botafogo contra o Fluminense…
— Ora, Alfredo, pra cima de mim! Ia ser de goleada.
— Você não me deixou terminar, Dagoberto. Eu queria dizer que o Botafogo…
— Que Botafogo que nada! Com o Vasco diziam a mesma coisa…
— Dagoberto, você não me deixa falar!
— … e no entanto ele acabou entrando bem. Essa não, Alfredo.
— Não estou falando no Vasco. Eu disse que o Botafogo…
— E no ano passado, que foi que o Botafogo fez? Me diga só o que ele fez.
— Você não me deixa falar, Dagoberto.
— Desde o princípio todo mundo sabia que o Fluminense…
— Você não me deixa falar!

A essa altura abriu-se uma janela no edifício da esquina e surgiu um indivíduo estremunhado: “Ô Dagoberto! Deixa o Alfredo falar!”. A boa conversa implica sempre em deixar o Alfredo falar. Além disso a discussão, ainda que gratuita, pode exaurir o papo diante de uma impossível opção, como a de saber qual é o melhor: Tolstoi ou Dostoievski, Corcel ou Opala. A menos que ocorra ao discutidor o recurso daquele outro, hábil em conduzir o papo, que teve de se calar quando, no melhor de sua argumentação sobre energia atômica, soube que estava discutindo com um professor de física nuclear:

— Você é presidencialista ou parlamentarista?
— Presidencialista.
— Pois eu sou parlamentarista.

E recomeçaram a discutir. Mais ardente praticante do que estes, só mesmo o que um dia se intrometeu na nossa roda, interrompendo animadíssima conversa:

— Posso dar minha opinião?

Todos se calaram para ouvi-lo. E ele, muito sério:

— Qual é o assunto?

Mas percebo que me perdi em discussões, polêmicas, argumentos e desaguisados, afastando-me do verdadeiro espírito que deve presidir o culto dessa arte. De preferência, que ela seja praticada apenas a dois — como diz o mineiro, conversa de mais de dois é comício. E entre estes dois, bom será que reine amável concordância, para que, alternadamente ouvindo e falando, possam ambos conjugar o delicioso verbo discretear.

Reportagem de 1994 relata um Brasil sem televisão e sem energia elétrica

Desisti de estudar jornalismo por um motivo muito simples: os textos jornalísticos não resistem ao tempo. Uma notícia incrivelmente bem escrita hoje, na qual o jornalista investiu tanto tempo, esforço e talento, estará velha amanhã. Os textos jornalísticos relatam fatos, e estes estão sempre presos ao tempo em que aconteceram. Passam-se os dias e aquela reportagem magnífica já ficou ultrapassada por novos fatos, novas notícias, novos tempos. Em vez de jornalismo, resolvi estudar filosofia porque os bons textos filosóficos, ao contrário dos jornalísticos, pretendem-se atemporais, almejam a imortalidade, resistem aos séculos. Platão e Aristóteles continuam atuais; enquanto que ninguém mais lembra o que William Bonner disse semana passada no Jornal Nacional.

Como eu disse, textos jornalísticos não resistem ao tempo. Mas não podemos generalizar. Alguns, de tão bem escritos, sobrevivem por décadas. Se não servem mais para relatar fatos atuais, permanecem vivos como importantes registros históricos de outras épocas. Um dos mais felizes exemplos disso é a reportagem a seguir, publicada em janeiro de 1994 na revista Veja. Apesar de estar mais de 20 anos “atrasada”, de relatar uma realidade social que ficou no passado e de ainda contar dinheiro em cruzados, ela continua viva como relato histórico ao deixar registrado como era a vida nos pequenos municípios do interior do Brasil antes da chegada definitiva da energia elétrica e, principalmente, da popularização da televisão. Leia a reportagem na íntegra:


A vida em Estouros, povoado a 290 km de Belo Horizonte, segue um ritmo que parece eterno. Não é necessário relógio. Acorda-se com o raiar do Sol e dorme-se quando as estrelas começam a surgir. Os homens trabalham a terra e as mulheres cuidam da casa e dos filhos. Nas refeições, as famílias se alimentam daquilo que a terra lhes devolve. Feijão, arroz, couve, abóbora. De vez em quando, carne de porco ou de galinha, criados no quintal. Ali não se conhece hambúrguer, pizza nem maionese. Tem gente que no mês passado tomou Coca-Cola pela primeira vez na vida. Os jornais só aparecem para embrulhar encomenda. Estouros é um lugar sem aquele eletrodoméstico que ocupa o lugar central na residência da maioria dos brasileiros — um aparelho de TV.

O que é a TV? O menino Ivanei Carlos Martins, 10 anos, 7 irmãos criados por um lavrador de Estouros, que todos os dias caminha 12 km para ir à escola e voltar, explica: “É uma caixa de som com um espelho na frente”. O irmão mais velho, Wilson, já viu TV nas redondezas. Mas, se pudesse, Wilson não compraria um aparelho. Uma égua de 3 anos teria maior utilidade: “Eu descansaria das pernas. A gente anda sempre a pé ou no caminhão do leite”. Wilson assistiu a uma exibição do programa Aqui Agora, do SBT, e ficou de olhos esbugalhados. Não se conforma até hoje: “A gente vê batida de carro, roubo”, espanta-se. “Tem bandido que mata a pessoa à toa. Aqui não tem nada disso. Aqui a gente mata porco. E para comer”. Outro habitante de Estouros, Luciano Felisberto Filho, tem outra lembrança do único programa de TV a que já assistiu. “Não dá para assistir tanta coisa junta. Não entendo o que vejo. O povo fala muito”.

É mesmo estranha a vida sem o espelho falante do pequeno Ivanei. O povoado de Serra Velha, em Santa Catarina, que tem 300 habitantes e 60 casas, fica encravado numa montanha e o acesso é restrito a uma única estrada. Ali nunca se ouviu falar do ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. Tampouco de Roberto Carlos ou Pelé. O ídolo naquelas paragens é o professor Santanor Petersen, único na região, proprietário de uma caminhonete que faz 30 quilômetros por hora como velocidade máxima. Bem diferente dos veículos saídos de uma linha de montagem, a caminhonete do professor Petersen tem a carroceria de madeira, que sobrou de um corte de árvores, e o motor de um barco. Pessoa mais bem informada da cidade, o professor não sabe que o atual presidente da República se chama Itamar Franco.

Esse país indiferente à passagem do tempo, com muito menos dinheiro, conforto e violência, integra uma das mais bem-sucedidas utopias nacionais. A do Brasil rural, de pessoas simples e valores estabelecidos, de pequenos heróis e pequenos vilões naturais em qualquer parte. É um país delicioso de ver e explorar, como descobriram as novelas rurais que a Globo produz e eles não vêem. Mas é uma utopia urbana achar que o povo desses lugares quer ficar assim. TV é eletricidade, eletricidade é progresso, e não há como preferir um lampião de querosene a uma lâmpada, nem é possível achar que o cidadão que não sabe o nome do presidente é mais feliz do que aquele capaz de recitar a lista de todos os ocupantes do Planalto de 1964 para cá. É só mais ignorante.

Há 6 meses, em Lagoa do Oscar, lugarejo do interior de Minas, correu o boato de que, enfim, os postes de luz chegariam ao local. Foi um alvoroço. O roceiro Domingos Ferreira Conceição, um senhor já de meia-idade, percorreu 110 km apenas para fazer uma troca. Entregou uma espingarda nova para um muambeiro, que lhe deu uma TV portátil trazida do Paraguai. O roceiro aguardou 4 meses pela luz. Como ela não veio, vendeu a TV para um caminhoneiro, que pagou 20 mil cruzeiros reais por ela. Mas não desistiu. “As crianças só falam do dia em que terão uma TV em casa”, diz.

TV Muquém 1994

Com 3 mil moradores, a 700 km de Salvador, Muquém do São Francisco é outro exemplo. Ali não existe luz elétrica, água encanada nem rede de esgoto. Mas tem TV. Um aparelho, de propriedade da prefeitura, ligado a um gerador a óleo diesel. Todos os dias, o funcionário Francisco Raimundo Cardoso pega o televisor de 20 polegadas em um barraco onde ele fica trancado e o transporta até a praça da cidade. Ali, cercada com arames farpados, a TV fica ligada das 6 da tarde até às 11 da noite.

Muquém é um município paupérrimo, com orçamento de 10 milhões de cruzeiros reais por mês. Com esse dinheiro, o prefeito Carlos Moreno Pereira paga o salário de 130 funcionários públicos e investe 2 milhões de cruzeiros reais na área de saúde. As escolas da cidade lhe custam o mesmo que a conta do gerador da TV: 4 milhões por mês. Até o prefeito acha um absurdo. “É um luxo gastar dinheiro com o gerador”, reconhece. Mas não há alternativa. Desde que a TV foi instalada, no final de 1991, é sucesso absoluto. Nos dias normais, reúne 30 pessoas na praça. Em grandes momentos, passa de 80. Quando se transmite futebol, a plateia se divide. As mulheres querem ver as novelas; e os homens, futebol. A última palavra é da primeira-dama, Vera Lúcia Pereira, que sempre acaba dando preferência à plateia feminina.

Captava por antena parabólica diretamente do Rio de Janeiro e de São Paulo, a TV de Muquém tem uma peculiaridade: não apresenta comerciais. Enquanto os telespectadores do país inteiro assistem a um carrocel de anúncios publicitários, ali a tela fica escura. O impacto sobre os hábitos de consumo é menor. A plateia só é atingida pelo merchandising inserido dentro dos programas. Por essa razão, as donas de casa começam a trocar os temperos caseiros por industrializados e ficam satisfeitas quando descobrem que a TV mostra a mesma pasta de dentes que guardam na despensa.

“A TV é vista em muitas comunidades como símbolo de status“, afirma a socióloga Sara Chicid da Via, da Universidade de São Paulo (USP). “As pessoas mudam de comportamento em função do que passam a ver”. Um dos mais antigos hábitos dos adolescentes de Muquém era o “papo do comitê”. Eles se encontravam todas as noites nas escadarias de um prédio utilizado como comitê de um partido político para conversar e fazer brincadeiras. “Eram mais de 20 pessoas”, lembra Carla Rejane Almeida, 18 anos. Nesses papos se falava , por exemplo, de Noemi, a garota mais bonita da cidade, e de Reivaldeo e Gildásio, os “gatos” mais paquerados. Agora não se fala mais disso. Estão todos assistindo à televisão na praça.


tv piaui 1993

Fotografia feita em 18 de novembro de 1993, no município de Lagoa do Barro, Piauí.
A cidade de menos de 5 mil habitantes era movimentada por um fato histórico: pela primeira vez, a população assistia televisão, em um aparelho improvisado na janela da escola local. Eles estavam assistindo “A Turma do Chaves” no SBT.
Foto: Clóvis Ferreira/Agência Estado.

Obras Completas de Aristóteles

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A obra do filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C) é vastíssima e teria cerca de 150 títulos. Aristóteles escreveu até diálogos, embora os livros que nos chegaram sejam somente tratados. Destacam-se os seis escritos sobre lógica, que formam o Órganon (Categorias, Da Interpretação, Primeiros Analíticos, Segundos Analíticos, Refutações Sofísticas e Tópicos); o seu mais importante e conhecido tratado, a Metafísica; os tratados acerca da natureza, que compreendem a Física, o De Caelo (Sobre o Céu) e o Da Geração e Corrupção; além desses o De Anima (Sobre a Alma), que condensa a psicologia aristotélica; os tratados biológicos, como História dos Animais e Das Plantas; os tratados estéticos, como a Retórica e a Poética; e a chamada filosofia prática, que resiste à ação do tempo com obras clássicas como Política, Econômicos, Ética a Nicômaco, Ética a Eudemo, Magna Moralia e Constituição de Atenas, tratado que inaugura a história das constituições e que foi descoberto apenas no século 19. Em inglês, já existe um volume com a obra completa de Aristóteles, traduzido sob a editoração de W. D. Ross.

Atualmente há grande esforço em traduzir do grego clássico para o português todos os títulos das obras de Aristóteles que nos chegaram. Trata-se do projeto intitulado “Obras Completas de Aristóteles”, conduzido pelo professor Antonio Pedro Mesquita, da Universidade de Lisboa. O objetivo do projeto consiste em tornar acessível ao leitor de língua portuguesa a totalidade da coleção aristotélica, aí incluídos os cerca de 30 tratados completos, os fragmentos que foram transmitidos pela tradição e ainda as sete obras apócrifas que circularam em época tardia sob o nome de Aristóteles. Ao propor-se levar a cabo a tradução coletiva deste conjunto, o projeto torna-se, a nível mundial, o primeiro e, até ao momento, o único a englobar a integralidade do legado aristotélico.

Este projeto é promovido pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa (CFUL), com a colaboração de outros institutos de investigação científica em Portugal, e financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). A publicação é assegurada pela Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM), também em Portugal. A coleção das publicações se inicia com a Introdução Geral (2005), onde o professor Mesquita traz o repertório bibliográfico sobre Aristóteles, aborda algumas das questões mais candentes no tratamento da obra e particularmente de seu vocabulário filosófico. Na sequência, vão sendo editadas as traduções, das quais diversos títulos já estão publicados.

SITE OFICIAL DO PROJETO AQUI

Artigo sobre o projeto na revista Archai

O galo e a pérola

Fábula em poema do poeta português Curvo Semedo (1766-1838).

galoNum monturo esgravatando
Formoso galo aguerrido
Acha uma pérola fina
Que havia um nobre perdido.

Por três vezes a escoucinha
Sem nela querer pegar
À quarta, erguendo-a no bico,
Põe-se a cacarejar.

Vêm logo algumas galinhas
Cuidando que era algum grão
Mas vendo a pérola, tristes,
Vão-se deixando-a no chão.

Acaso passa um ourives
E apanhando-a, alegre diz:
“É uma pérola fina!”
“Que belo achado que fiz!”

“Homem”, lhe pergunta o galo,
“Tanto essa joia merece?”
“Pois eu por um grão de milho”
“Te dera mil, se as tivesse.”

Pérola em poder de galo
Que não lhe sabe o valor
É como entre as mãos de um néscio
As obras de um sábio autor.

Uma lição parecida aparece no Sermão da Montanha, proferido por Jesus Cristo e registrado no Evangelho de Mateus: “Não deem aos cães o que é sagrado, nem atirem suas pérolas aos porcos; caso contrário, estes as pisarão e, aqueles, voltando-se contra vocês, os despedaçarão.” (7:6)

Este texto tem mil palavras

Como você pode ver, uma garotinha está deitada displicentemente no colo de um senhor bem velhinho e bem simpático. Ela parece um anjo. Loirinha, cabelo castanho-claro, encaracolado, nariz e boca perfeitos, ar inteligente e sadio, uma dessas crianças que a gente vê em anúncios. Pelo jeito deve ter uns três ou quatro anos, não mais que isso. Ela está vestida num desses macaquinhos de flanela, com florzinhas azuis e vermelhas e uma malha creme por baixo. Calçando um tênis transadíssimo nas discretas cores amarelo, vermelho e azul, o que nos mostra que a mocinha não é apenas novinha, mas moderninha também. O velhinho tem um tipo bem italiano. O boné cinza é típico desses senhores que a gente vê passeando pelo Bixiga nos domingos à tarde. Estatura mediana, cabelos e bigodes branquinhos, rosto e mãos enrugadas que traem uma idade bem avançada. Paletó marrom e calça cinza, ambos de lã, malha creme, abotoada até o último botão, como faz todo senhor que se preze. Embaixo da malha uma camisa azul mas bem azul mesmo, que destoa de todo o conjunto. O que prova que o cavalheiro e a mocinha apreciam cores fortes. Pela roupa que os dois estão vestindo e pela carinha rosada dela, deve estar fazendo muito frio. Fato que o ar enevoado e cinzento do jardim, que está atrás deles, vem a comprovar. Os dois estão sentados num balanço de madeira de cor verde, desses que cabem apenas duas pessoas e que são bastante comuns em quintais, varandas e jardins de casas de classe média, classe média alta. Ela está comodamente estirada. Com a cabeça entre o ombro e a barriga do velhinho e os pés apoiados numa almofada de crochê de cor creme. Nas mãos ela traz um livro de histórias cheio de desenhos coloridos. Livro esse que, olhando atentamente, você verá que se trata da história da Bela Adormecida. O que, aliás, é muito engraçado, porque enquanto a bela conta a história da Bela Adormecida, o velho é que adormeceu. Ele dorme a sono solto. Com uma mão envolta na dela e a outra apoiada sobre sua própria perna direita, na altura do joelho. Ambos à sua maneira estão sonhando. Ele sonha dormindo, ela sonha acordada. O jardim atrás, ligeiramente desfocado, complementa esse clima de sonho. Atrás do balanço verde, onde os dois estão sentados, vê-se uma cerca de madeira também verde, só que num tom mais escuro, que os decoradores costumam chamar de verde-império. Cor, aliás, mais que apropriada para servir de fundo a essa pequena princesa encantada por sua história. Por trás do vazado da cerca verde de madeira, podemos ver um jardim bem amplo. O que vem a reforçar a idéia que se trata de uma família de posses. Porque ou eles têm uma casa com um jardim bem amplo na cidade ou têm uma ampla casa de campo, o que nos dias de hoje não é luxo para qualquer um. O verde lá fora, combinando com o verde-cana do balanço e o verde-império do alambrado, cria um clima gostoso no ambiente, mostrando que a dona da casa é mais cuidadosa na escolha das cores que a mocinha e seu cavalheiro adormecido. A presença de plantas tão variadas e viçosas nos permite pensar que ou a família tem um jardineiro aplicado ou alguém na família gosta muito de jardinagem. Mas isso já é divagação demais. E já basta a menina que está divagando no colo do avô. Isso mesmo: do avô. Por que o velho que você está vendo só pode ser o avô dela. Pela intimidade com que ela está comodamente instalada no colo dele, percebe-se que não pode ser visita, pessoa de cerimônia. E sim alguém bem chegado, alguém da família. Para um estranho ouvir essa história contada por uma criaturinha tão linda seria uma novidade excitante, que dificilmente o faria cair no sono. E se não fosse por isso, um estranho também não cairia no sono, pelo menos por dever de educação. Resistiria bravamente até a Bela Adormecida acordar. Além disso, é só olhar para a roupa caseira que ele está usando para perceber que não é alguém que foi fazer uma visita. É pessoa da casa mesmo, pai não é. Ele é muito velhinho para ser o pai dela. E pouco provavelmente seria um tio. Tanto pela idade quanto pela disponibilidade e paciência. Tio dá doces, presentes, mas ouvir histórias intermináveis, contadas por uma narradora que de vez em quando divaga, tio não faz. Só pode ser mesmo um avo ouvindo pela milésima vez a mesma história. Que para ele deve ser sempre igual e para ela deve ser sempre diferente. Ela, por sua vez, não deve se importar que seu ouvinte durma. Afinal ela só quer colo e aquela mão terna, enrugada e querida em volta da sua cintura pequenina. Mesmo desatento ele está dando a ela seu tempo e seu carinho sonolento. Porque o balanço de jardim pode ser gostoso de sentar. Mas como você pode ver não é o local mais confortável para se dormir. Principalmente num dia frio como esse, num descampado de uma varanda. Mas o fato é que ele não sente a dureza do balanço porque dorme e ela, igualmente, não sente a dureza da madeira e a frieza do tempo por vários motivos: primeiro porque sonha e no sonho não há desconforto ou frio. E segundo porque ela tem a barriga do avô como travesseiro, o braço dele como edredom e uma almofada como encosto para seus pés e seu tênis multicolorido. Juntos os dois, ali na varanda, vivem um momento que ela vai se lembrar sempre e ele não vai se lembrar de nada. Inclusive nada da história. Por isso que ela vai ter que contar e recontar essa história para o avô centenas de vezes. Principalmente para reviver os trechos que ele perdeu com seus cochilos. Assim como você vai ter que ler e reler muitas vezes esse texto até conseguir enxergar toda a beleza e ternura contidas nessa cena.

UMA FOTO SERIA MELHOR
19 de agosto — dia do fotógrafo

Este texto tem mil palavras. Folha de S.Paulo, 19/8/1988. Apud: Platão e Fiorin. Para entender o texto. São Paulo: Ática, 1999, p. 378-80.

O legado de João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna

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Julho de 2014 ficou marcado como um mês de luto para a literatura brasileira. Neste momento deve estar acontecendo um festival literário no além. Aparentemente, só isso pode explicar que, no espaço de apenas uma semana, tenhamos perdido três grandes escritores. Por ironia do destino, a semana que começou na última sexta-feira com a morte de João Ubaldo Ribeiro (dia 18), e que também teve a morte de Rubem Alves (dia 19) e Ariano Suassuna (dia 23), encerrou-se com o Dia Nacional do Escritor, comemorado em 25 de julho. Coincidências à parte, você conhece a importância que cada um deles teve para a cultura brasileira? Saiba mais sobre suas vidas e obras a seguir:


João Ubaldo Ribeiro

Além de escritor, o baiano João Ubaldo Ribeiro era jornalista, roteirista, professor, formado em Direito pela UFBA e membro da Academia Brasileira de Letras. Trabalhou como editor-chefe do jornal Tribuna da Bahia, foi colunista do jornal alemão Rankfurter Rundschau e colaborador em publicações nacionais e estrangeiras. Suas obras integram o romance moderno brasileiro e revelam aspectos da cultura nacional. Diversas de suas obras foram adaptadas para o cinema e a televisão. João Ubaldo Ribeiro morreu no Rio de Janeiro no último dia 18, aos 73 anos, vítima de uma embolia pulmonar.


Rubem Alves

Além de escritor, o mineiro Rubem Alves era professor, psicanalista, teólogo e doutor em filosofia pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Seus livros abordam temas espirituais e existenciais, mas ele também escrevia histórias infantis e crônicas semanais para jornais de grande circulação, como a Folha de S.Paulo. Depois de se aposentar, escolheu morar na cidade de Campinas, no interior de São Paulo, onde recebeu os títulos de cidadão honorário e professor emérito da Unicamp, além de ter se tornado membro da Academia Campinense de Letras. Rubem Alves faleceu no dia 19 de julho em Campinas, aos 80 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos.


Ariano Suassuna

Além de escritor, o paraibano Ariano Suassuna era dramaturgo, poeta, membro da Academia Brasileira de Letras e um dos maiores defensores da cultura regional brasileira. Nascido em João Pessoa, foi morar com a família no sertão paraibano e teve o pai assassinado por motivos políticos na Revolução de 1930. Após a fatalidade, mudou-se para Recife, onde viveu desde então. Entre inúmeras outras obras, escreveu O Auto da Compadecida e A Pedra do Reino, ambas com famosas adaptações para o cinema e a televisão. Ariano Suassuna morreu no Recife na última quarta-feira (23), aos 87 anos, vítima de uma parada cardíaca.

Veja também: Ariano Suassuna (in vitae)

Com informações de: Universia Brasil


Projeto Bosta Nova: dando um “tchan” na MPB

O projeto Bosta Nova é uma brincadeira despretensiosa. Desde tempos imemoriais, eu e meus amigos costumamos nos encontrar em torno de um violão para colocar o papo em dia e relaxar. Nessas reuniões casuais, sempre rola muito humor e improviso. Eis que num desses encontros estávamos nostalgicamente relembrando clássicos da Bossa Nova até que surgiu aquela inspiração cumpadiwashingtoniana e eu comecei a estragar as belas melodias colocando nelas as mais escrachadas letras do melhor do axé da Bahia nos anos 1990. Virou paródia.

De repente, nos vimos diante de parcerias musicais quase inimagináveis: o grupo É o Tchan compunha as letras mais ordinárias e a melodia ficava por conta de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Elis Regina e companhia limitada. Depois de alguns rabiscos e rascunhos para encaixar as letras nas melodias e de dar aquele “tchan” nos arranjos, botamos o celular pra gravar. A mistura de “Águas de Março”, de Elis Regina, com “Dança da Bundinha”, do grupo É o Tchan, virou “Bundas de Março”, nossa faixa 01. A música “Wave” (Onda), de Tom Jobim, misturada com “Segure o Tchan”, virou “Segure a Onda”, nossa faixa 02. A música “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, misturada com “Na Boquinha da Garrafa”, do É o Tchan, virou “Na Boquinha da Saudade”, nossa faixa 03. Estamos pensando em gravar ainda uma quarta paródia, intitulada “A Nova Loira de Ipanema”, que não carece de explicação porque eu acho que vocês já pegaram o espírito da coisa.