Na cultura de Okinawa, no Japão, há um conceito muito simples e profundo, com infinitas camadas, conhecido como ikigai (生き甲斐). Em uma tradução aproximada, significa “razão de viver”. Também tem sido traduzido, de maneira bem livre, como “razão pela qual você se levanta de manhã”. No tradutor do Google, a tradução literal é “sal da vida”. No Ocidente, o conceito de ikigai tem sido aplicado à orientação vocacional e ao coaching no mundo corporativo. Graças a alguns estudos muito interessantes e à menção do conceito em palestras para grandes públicos, ele tem sido estendido a várias outras áreas.
Veja uma síntese gráfica do ikigai:
Vamos considerar que qualquer atividade que desenvolvemos pode cair em um desses quatro grandes conjuntos: (1) aquilo que amamos, (2) aquilo que fazemos bem, (3) aquilo do que o mundo precisa, e (4) aquilo que te pagam para fazer. Esses conjuntos têm diferentes interseções entre si. Pode haver uma atividade que você ame e faça bem; se você descobri-la, saiba que essa é a sua paixão. Outra atividade você faz bem e é rentável; essa é sua vocação. Em alguns casos, há uma atividade que você e ama e da qual o mundo precisa; essa é sua missão. Quando o mundo precisa de uma atividade, está disposto a pagar por ela e você está disposto a realizá-la, essa é sua profissão.
A maioria das pessoas tem apenas uma ocupação, que é um emprego ou bico que paga as contas, por mais que elas o detestem ou ganhem mal por ele. Outras mais realizadas têm uma profissão. Aquelas que têm mais sorte ainda encontram uma vocação e a realizam. Poucas pessoas conseguem ganhar dinheiro com uma paixão, deixando essa atividade no campo do hobby. Menos pessoas ainda conseguem botar pão na mesa com uma missão, mas, por acreditarem muito nela, acabam realizando-a no campo do voluntariado. Qualquer uma dessas quatro interseções pode levar a uma vida produtiva e feliz. Contudo, para viver uma vida plena, o ideal é conseguir colocar a principal atividade que você desenvolve na interseção dos quatro conjuntos. Este é o ikigai. Ou seja: uma vida plena envolve ocupar a maior parte do seu tempo e energia com algo que você ama, faz bem, o mundo precisa e ainda te pagam para fazer.
Além dessa atividade principal, é saudável dedicar-se também a atividades paralelas, como hobbies e voluntariado. Por exemplo, pode ser que você trabalhe como cientista, mas também goste muito de praticar artes marciais. Como essas duas coisas são muito diferentes entre si e exigem talento, treinamento e prática, é improvável que o seu ikigai esteja nas duas. Pode ser que você ame ambas, mas faça uma bem melhor do que a outra. Se isso for verdade, provavelmente as pessoas estarão dispostas a te pagar por uma delas, mas não pela outra. Assim, a decisão mais sábia para alguém que presta atenção à própria voz interior é focar naquela em que pode ter um desempenho mais elevado e fazer dela sua ocupação principal, mantendo a outra como hobby. Em alguns casos mais raros, acontece de a pessoa amar muito uma atividade, fazê-la bem, mas o mundo achar que não precisa dela e, por isso, ninguém estar disposto a pagar a conta. Quem cai nesse tipo de combinação pode se perder em um vórtice de frustração e auto-piedade, como muitos gênios incompreendidos que não dão em nada.
Contudo, algumas dessas pessoas à frente do próprio tempo têm uma ambição tão grande e uma capacidade de convencimento tão forte que conseguem mostrar ao mundo que ele realmente precisa de algo que sequer sabia existir. Pense no exemplo dos produtos criados pelo Steve Jobs, que não era bom em programação ou engenharia eletrônica, mas sabia como ninguém enxergar dois passos à frente e reger “orquestras” formadas por excelentes profissionais de diferentes áreas. E já que estamos falando nele, recomendo que você assista abaixo ao famoso discurso de Steve Jobs na Universidade Stanford, nos Estados Unidos, em 2005. Ele fala sobre ligar os pontos e descobrir o seu ikigai. Siga o conselho dele e não viva a vida de outra pessoa.
Ninguém pode dizer a você qual é o seu ikigai. Descobri-lo é uma jornada pessoal, íntima e introspectiva. Contudo, você deve ficar constantemente atento aos sinais que indicam se você está ou não no caminho certo. Além disso, procure se cercar de pessoas que te puxam para cima e te deixam mais próximo do seu ikigai. Procurar o próprio ikigai pode parecer uma meta egoísta, mas uma pessoa plenamente realizada torna o mundo um lugar melhor para as outras pessoas, enquanto uma pessoa frustrada leva outras para o buraco com ela. Antes de arrumar o mundo, arrume o seu quarto.
“O trabalho ideal não é aquele no qual você ganha muito dinheiro e para de trabalhar,
mas aquele que nem todo dinheiro do mundo te faria parar.” (Larusso)
A educação moderna exagerou no culto à autoestima e produziu adultos que se comportam como crianças. Esse é o tema da reportagem da revista Épocaabaixo.
Os alunos do terceiro ano de uma das melhores escolas de ensino médio dos Estados Unidos, a Wellesley High School, em Massachusetts, estavam reunidos numa tarde ensolarada para o momento mais especial de sua vida escolar: a formatura. Com seus chapéus e becas coloridos e pais orgulhosos na plateia, todos se preparavam para ouvir odiscurso do professor de inglês David McCullough Jr. Esperavam, como sempre nessas ocasiões, uma ode a seus feitos acadêmicos, esportivos e sociais. O que ouviram do professor, porém, pode ser resumido em quatro palavras: vocês não são especiais.
Essas palavras foram repetidas nove vezes em 13 minutos. “Ao contrário do que seus troféus de futebol e seus boletins sugerem, vocês não são especiais”, disse McCullough logo no começo. “Adultos ocupados mimam vocês, os beijam, os confortam, os ensinam, os treinam, os ouvem, os aconselham, os encorajam, os consolam e os encorajam de novo. (…) Assistimos a todos os seus jogos, seus recitais, suas feiras de ciências. Sorrimos quando vocês entram na sala e nos deliciamos a cada tweet seus. Mas não tenham a ideia errada de que vocês são especiais. Porque vocês não são”.
O que aconteceu nos dias seguintes deixou McCullough atônito. Ao chegar para trabalhar na segunda-feira, notou que havia o dobro da quantidade de e-mails que costumava receber em sua caixa de entrada. Paravam na rua para cumprimentá-lo. Seu telefone não parava de tocar. Dezenas de repórteres de jornais, revistas, TV e rádio queriam entrevistá-lo. Todos queriam saber mais sobre o professor que teve a coragem de esclarecer que seus alunos não eram o centro do universo. Sem querer, ele tocara num tema que a sociedade estava louca para discutir – mas não tinha coragem. Menos de uma semana depois, McCullough fez a primeira aparição na TV para explicar que não menosprezava seus jovens alunos, mas julgava necessário alertá-los. “Em 26 anos ensinando adolescentes, pude ver como eles crescem cercados por adultos que os tratam como preciosidades. Mas, para se dar bem daqui para a frente, eles precisam saber que agora estão todos na mesma linha, que nenhum é mais importante que o outro”, disse.
A reação ao discurso do professor McCullough pode parecer apenas mais um desses fenômenos de histeria americanos. Mas a verdade é que ele tocou numa questão que incomoda pais, educadores e empresas no mundo inteiro – a existência de adolescentes e jovens adultos que têm uma percepção totalmente irrealista de si mesmos e de seus talentos. Esses jovens cresceram ouvindo de seus pais e professores que tudo o que faziam era especial e desenvolveram uma autoestima tão exagerada que não conseguem lidar com as frustrações do mundo real. “Muitos pais modernos expressam amor por seus filhos tratando-os como se eles fossem da realeza”, afirma Keith Campbell, psicólogo da Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, e coautor do livro Narcisism epidemic (Epidemia narcisista), de 2009, sem tradução para o português. “Eles precisam entender que seus filhos são especiais para eles, não para o resto do mundo”.
Em português, inglês ou chinês, esses filhos incensados desde o berço formam a turma do “eu me acho”. Eles se acham os melhores alunos (se tiram uma nota ruim, é o professor que não os entende). Eles se acham os mais competentes no trabalho (se recebem críticas, é porque o chefe tem inveja). Eles se acham merecedores de constantes elogios e rápido reconhecimento (se não são promovidos em pouco tempo, a empresa foi injusta em não reconhecer seu valor). Você conhece alguém assim? Boa parte deles, no Brasil e no resto do mundo, foi bem-educada, teve acesso aos melhores colégios, fala outras línguas e, claro, é ligada em tecnologia e competente em seu uso.
A expectativa exagerada dos jovens foi detectada no livro Generation me (Geração eu), escrito em 2006 por Jean Twenge, professora de psicologia da Universidade Estadual de San Diego, nos EUA. No trabalho seguinte, em parceria com Campbell, ela vasculhou os arquivos de uma pesquisa anual feita desde os anos 1960 sobre o perfil dos calouros nas universidades. Descobriu que os alunos dos anos 2000 tinham traços narcisistas muito mais acentuados que os jovens das três décadas anteriores. “O narcisismo pode levar ao excesso de confiança e a uma sensação fantasiosa sobre seus próprios direitos”, diz Campbell. Os maiores especialistas no assunto concordam que a educação que esses jovens receberam na infância é responsável por seu ego inflado e hipersensível.
E eles sabem disso. Uma pesquisa da revista Time e da rede de TV CNN mostrou que dois terços dos pais americanos acreditam que mimaram demais sua prole. Sally Koslow, uma jornalista aposentada, chegou a essa conclusão depois que seu filho, que passara quatro anos estudando fora de casa e outros dois procurando emprego, voltou a morar com ela. “Fizemos um superinvestimento em sua educação e acompanhamos cada passo para garantir que ele tivesse sua independência”, diz ela. “Ao ver meu filho de quase 30 anos andando de cueca pela sala, percebi que deveria tê-lo deixado se virar sozinho”.
Que criação é essa que, mesmo com a garantia da melhor educação e sem falta de atenção dos pais, produz legiões de narcisistas com dificuldade de adaptação? Os estilos de criação modernos têm em comum duas características. A primeira é o esforço incansável dos pais para garantir o sucesso futuro de sua prole – e esse sucesso depende, mais do que nunca, de entrar numa boa universidade e seguir uma carreira sólida. Nos Estados Unidos, a tentativa de empacotar as crianças para esse modelo de vida começa desde cedo. Escolas infantis selecionam bebês de 2 anos por meio de testes. Isso acontece no Brasil também. No colégio paulista Vértice, um dos mais bem classificados no ranking do Enem, há fila para uma vaga no jardim da infância.
O segundo pilar da criação moderna está na forma que os pais encontraram para estimular seus filhos e mantê-los no caminho do sucesso: alimentando sua autoestima. É uma atitude baseada no “movimento da autoestima”, criado a partir das ideias do psicoterapeuta canadense Nathaniel Branden, hoje com 82 anos. Em 1969, ele lançou um livro pregando que a autoestima é uma necessidade humana. Não atendida, ela poderia levar a depressão, ansiedade e dificuldades de relacionamento. Para Branden, a chave para o sucesso tanto nas relações pessoais quanto profissionais é nutrir as pessoas com o máximo possível de autoestima desde crianças. Tal tarefa, diz ele, cabe sobretudo a pais e professores. Foi uma mudança radical na maneira de olhar para a questão. Até a década de 1970, os pais não se preocupavam em estimular a autoestima das crianças. Temiam mimá-las. O movimento de Branden chegou ao auge em 1986, quando o então governador da Califórnia, George Deukmejian, criou um grupo de estudos de autoestima. Os pesquisadores deveriam descobrir como escolas e famílias poderiam estimulá-la.
Os pais reuniram esses dois elementos – o desejo de ver o filho se dar bem na vida e a ideia de que é preciso estimular a autoestima – e fizeram uma tremenda confusão. Na ânsia de criar adultos competentes e livres de traumas, passaram a evitar ao máximo criticá-los. O elogio virou obrigação. Para fazer com que as crianças se sintam bem com elas mesmas, muitos pais elogiam seus filhos até quando não é necessário. O resultado é que eles começam a acreditar que são bons em tudo e criam uma imagem triunfante e distorcida de si mesmos. Como distinguir o elogio bom do ruim? O exemplo mais comum de elogio errado, dizem os psicólogos, é aquele que premia tarefas banais. Se a criança sabe amarrar o tênis, não é necessário parabenizá-la por isso todo dia. Se o adolescente sabe que é sua obrigação diária ajudar a tirar a mesa, diga apenas “obrigado”. Não é preciso exaltar sua habilidade em dobrar a toalha. Os elogios mais inadequados são feitos quando não há nada a elogiar. Se o time de futebol do filho perde de goleada – e o desempenho dele ajudou na derrota –, não adianta dizer: “Você jogou bem, o que atrapalhou foi o gramado ruim”. Isso não é elogio. É simplesmente mentira.
Para piorar, um grupo de psicólogos afirma agora que a premissa fundamental do movimento da autoestima estava errada. “Há poucas e fracas evidências científicas que mostram que alta autoestima leva ao sucesso escolar ou profissional”, diz Roy Baumeister, professor de psicologia da Universidade da Flórida. Ele é responsável pela mais extensa e detalhada revisão dos estudos feitos sobre o tema desde a década de 1970. Descobriu que a autoestima alta é provocada pelo sucesso – não é causa dele. Primeiro vêm a nota boa e a promoção no trabalho, depois a sensação de se sentir bem – não o contrário. “Na verdade, a autoestima elevada pode ser contraproducente. Ela produz indivíduos que exageram seus feitos e realizações”. Outra de suas conclusões é que o elogio mal aplicado pode ser negativo. “Quando os elogios aos estudantes são gratuitos, tiram o estímulo para que os alunos trabalhem duro”, afirma Baumeister.
Com uma visão distorcida de suas qualidades, com dificuldade para lidar com as críticas e aprender com seus erros, muito jovens narcisistas não conseguem se acertar em nenhuma carreira. Outros vão parar na terapia. Esses jovens acham que podem muito. Quando chegam à vida adulta, descobrem que simplesmente não dão conta da própria vida. Ou sentem uma insatisfação constante por achar que não há mais nada a conquistar. Eles são estatisticamente mais propensos a desenvolver depressão.
Em terapia desde os 15 anos, Priscila Pazzetto tem hoje 25 e não hesita em dizer que foi e ainda é mimada. “Uma vez pedi para minha mãe me pôr de castigo, porque não sabia como era”, afirma. Os pais se referem a ela como “nossa taça de champanhe”, a caçula de três irmãos que veio brindar a felicidade da família num momento em que seu pai lutava contra um câncer. “Nasci no Ano-Novo. Quando assistia às chuvas de fogos na TV, meus pais diziam que aquilo tudo era para mim, para comemorar meu aniversário”, diz Priscila. Quando cresceu, nada disso a ajudou a terminar o que começava. Tentou inglês, teatro, tênis, karatê, futebol, jiu-jítsu e natação. Interrompeu até o hipismo, pelo qual era apaixonada. Estudou em 7 colégios particulares de São Paulo e, com frequência, seu pai precisou interferir para que ela passasse de ano. Passou em 3 vestibulares, mas não concluiu nenhum curso superior. “Simplesmente não me sinto motivada a ir até o fim”, afirma. Ainda morando com os pais, Priscila acaba de fazer um curso técnico de maquiagem e diz que arrumou emprego na butique de uma amiga. Tenta recomeçar.
Esses modelos de criação domésticos são chamados pelos psicólogos de “estilo parental”. Não é uma atitude isolada ou outra. É o clima emocional criado na família graças ao conjunto de ações dos pais para disciplinar e educar os filhos. Eles começaram a ser estudados em 1966 pela psicóloga Diana Baumrind, pesquisadora da Universidade da Califórnia em Berkeley. De acordo com sua observação, ela dividiu os pais em 3 tipos: autoritários, permissivos e competentes. O melhor modelo detectado por psicólogos, claro, são os pais competentes. Eles são exigentes – sabem exercer o papel de pai ao impor limites e regras que os filhos devem respeitar –, mas, ao mesmo tempo, são flexíveis para escutar as demandas das crianças e ceder, se julgarem necessário. A criança pode questionar por que não pode brincar antes de fazer o dever de casa, e eles podem topar que ela faça como queira, contanto que o dever seja feito em algum momento. Mas jamais admitirão que a criança não cumpra com sua obrigação. Ao dar limites, podem ajudar o filho a aprender a escolher e a administrar seu tempo. Os filhos de pais competentes costumam ser muito responsáveis, seguros e maduros.
Os piores resultados vêm da criação de pais negligentes. Eles não são exigentes, não impõem limites e nem estão abertos a ouvir as demandas dos filhos. Segundo pesquisas brasileiras – com amostras pequenas, que não devem ser tomadas como definitivas –, esse é o estilo parental que predomina no país nos últimos anos. Quando se fala em estilo negligente de criação, isso não quer dizer que a criança está abandonada e não receba o suficiente para suprir suas necessidades materiais e de afeto. O problema é mais sutil. Com medo de parecer repressores, esses pais hesitam em impor limites. “É uma interpretação errônea dos modelos educacionais propostos a partir da década de 1970, de que a criança não deveria ser cerceada para que pudesse manifestar todo seu potencial”, diz Claudete Reichert, professora de psicologia da Universidade Luterana do Brasil. “Provavelmente, a culpa que os pais sentem por trabalhar fora leva a isso”.
Reintegração de posse afetiva
Trecho de uma palestra do psicólogo paraibano Rossandro Klinjey, no qual ele conta uma história pessoal verídica e bastante didática sobre a educação de filhos adolescentes.
Trechos de um artigo do filósofo inglês Stephen Law.
Pseudoprofundidade é a arte de soar profundo falando nonsense. Diferente da arte de ser de fato profundo, a arte de soar profundo não é difícil de dominar. Como veremos, há receitas básicas que podem produzir resultados bastante convincentes – bons o bastante para convencer os outros e talvez até a si mesmo de que você acaba de chegar a um tipo de insight profundo sobre a condição humana. Se você quer atingir o status de guru, será bom possuir algum carisma natural e boa presença. Sinceridade e empatia, ou pelo menos a habilidade de simulá-las, podem ser úteis. Mas mesmo sem o auxílio dos talentos naturais, qualquer um pode proferir sentenças que soam profundas e significativas caso esteja preparado para seguir algumas regras simples.
Se contradiga: Selecione palavras com sentidos opostos ou incompatíveis e, de forma enigmática, combine-as numa óbvia contradição. Exemplos: “A sanidade é apenas mais uma forma de loucura”. “A vida é frequentemente uma forma de morte”. “O ordinário é extraordinário”. Essas sentenças são absolutamente impenetráveis e podem facilmente parecer profundas. Se você é um aspirante a guru, por que não produzir seus próprios comentários contraditórios? Eles fazem com que a audiência faça o trabalho por você. O significado não é algo que você dirá. Seus seguidores é que terão a tarefa de decifrar. Apenas sente-se, adote uma postura sábia e deixe-os fazer o trabalho intelectual.
Contradições têm também outras vantagens: uma série de afirmações simples e não ambíguas é fácil de refutar, ao passo que não é tão fácil fazer o mesmo com tais afirmações enigmáticas. Assim, se você pensa em iniciar sua própria religião e quer dizer coisas que parecerão profundas e também invulneráveis à crítica, tente fazer afirmações contraditórias. Afirme, mas então negue. Por exemplo, diga que seu deus é – e, no entanto, não é. Que seu deus é tudo e nada. Que ele é um, mas ao mesmo tempo vários.
Use jargões: Se você é um guru do business, coaching, consultor de estilo de vida ou místico, introduzir algum jargão pode incrementar ainda mais a ilusão de profundidade. Aqui vai um truque comum: invente algumas palavras que parecem ter significado similar ao de certos termos bem conhecidos, mas que deles difiram de uma maneira nunca completamente explicada. Por exemplo, não fale sobre as pessoas serem felizes ou tristes; fale sobre elas terem orientações atitudinais positivas ou negativas.
O próximo passo é traduzir alguns truísmos para seu novo vocabulário. Pegue a observação banal de que pessoas felizes tendem a fazer as outras pessoas mais felizes. Ela pode ser remodelada como “orientações atitudinais positivas têm alto poder de transferência”. É também útil adotar o vocabulário de “forças”, “energias”, “equilíbrios” e “vibrações”. O uso dessas palavras irá sugerir que você descobriu algum poder profundo que pode ser aproveitado e usado pelas outras pessoas. Isso fará com que seja bem mais fácil persuadi-las de que elas podem perder algo de realmente importante caso não compareçam a um de seus seminários. Assim, se você é um guru do marketing, tente fazer seminários sobre o “Aproveitamento das Energias Atitudinais Positivas dentro do Varejo”. E se algum espertinho for corajoso o suficiente para levantar a mão e perguntar o que exatamente é uma “energia atitudinal positiva”, defina utilizando mais jargão. Fazendo isso, você jamais terá de realmente explicar o significado da sua conversa fiada.
Além disso, os vários truísmos embutidos no seu jargão irão gerar a ilusão de que você realmente tem algo a dizer, mesmo que audiência não faça muita ideia do que seja – o que é uma boa forma de deixá-la com mais vontade de ouvi-lo. Adicionar algum jargão ou referência científica pode ser particularmente útil ao seu papo furado porque essas coisas emulam autoridade e substância. Referências à mecânica quântica são particularmente populares entre os vendedores de conversa fiada pseudocientífica. Uma vez que se espera que ela faça afirmações um tanto estranhas e difíceis de entender, é uma boa ideia abusar das referências em favor das bizarrices que você tem a dizer. As pessoas pensarão que você deve ser muito inteligente e sequer perceberão que você é um tapeador. Se você for ambicioso, pode ser uma boa ideia inventar uma palestra com o título “Energias Atitudinais Positivas e Mecânica Quântica”.
Pós-modernismo: Infelizmente, alguns setores da academia são dominados por intelectuais cuja escrita não é muito mais do que pseudoprofundidade. Retire o jargão acadêmico e as referências pseudocientíficas de seus pronunciamentos grandiosos e pouco sobrará. Tais pensadores, frequentemente referidos como “pós-modernos”, possuem mais apetrechos do que sua justa cota de jargão pastoso. Mas, de qualquer forma, é muito fácil fazer algo soar como legítimo academiquês pós-modernista, tanto que um brincalhão chamado Andrew Bulhak criou um programa de computador que escreve ensaios “pós-modernos” para você – e com as devidas referências. Acabei de testar e recebi um ensaio que começa assim: “O tema primordial do modelo de marxismo neo-estrutural de Cameron é o que há de comum entre a sociedade e a cultura. A análise de Sontag da situação debordiana afirma que a sociedade tem valor objetivo. Entretanto, promove o uso do marxismo para a análise de classe. A situação debordiana sustenta que o objetivo do observador é a desconstrução. O sujeito é interpolado em um marxismo neo-estrutural que inclui a arte como um paradoxo. Vários materialismos que dizem respeito à teoria subdialética semanticista podem ser encontrados”.
Isso até pode ser nonsense, mas dificilmente é pior do que os textos reais. Considere o seguinte exemplo, do intelectual francês Félix Guattari: “Claramente não há qualquer correspondência biunívoca entre ligações linearmente significantes ou arqui-escritos, dependendo do autor, e essa catálise maquínica multidimensional e multi-referencial. A simetria da escala, a transversalidade, o caráter prático e não discursivo de suas expansões: todas essas dimensões nos distanciam da lógica do terceiro excluído e reforçam o descarte do binarismo ontológico que criticamos anteriormente. Uma assembleia maquínica, através de seus componentes diversos, extrai sua consistência cruzando limiares ontológicos, limiares não lineares de irreversibilidade, limiares ontológicos e filogenéticos e limiares criativos de heterogênese e autopoiese”.
Em 1997, Alan Sokal, professor da Universidade de Nova York (e claramente qualificado para falar sobre os usos da terminologia científica), estava irritado porque alguns pós-modernos estavam surrupiando teorias e termos da física e os aplicando de forma nonsense. Juntamente com seu colega Jean Bricmont, publicou o livro Imposturas Intelectuais, que expunha de forma cuidadosa e muitas vezes bem humorada o nonsense científico aliado ao blábláblá academicista de vários intelectuais que escrevem dessa forma. Sobre a longa passagem da qual a citação de Guatarri é retirada, Sokal e Bricmont dizem que ela é a “mais brilhante mistura de jargões científicos, pseudocientíficos e filosóficos que jamais encontramos; apenas um gênio poderia tê-la escrito”.
Imposturas Intelectuais foi lançado após o “Trote de Sokal”, feito em 1996. Sokal submeteu um artigo à revista americana Social Text, publicação pós-moderna da moda. O artigo soava pretensioso e estava recheado de conversa fiada pseudocientífica. Os editores da Social Text, incapazes de distinguir entre conversa fiada e profundidade, publicaram-no. Afinal de contas, o artigo de Sokal – “Transgredindo as Fronteiras: Por Uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica” – fazia tanto sentido quanto outros artigos lá publicados. Sobre o trabalho de Jean Baudrillard, cheio de referências à teoria do caos, mecânica quântica, geometria não euclidiana e outras coisas mais, escrevem Sokal e Bricmont: “Em suma, vemos no trabalho de Baudrillard uma profusão de termos científicos usados sem a menor consideração pelo que eles realmente querem dizer e, acima de tudo, tal uso ocorre em um contexto onde os termos são obviamente irrelevantes. Mesmo admitindo que devemos entendê-los metaforicamente, é difícil ver que papel eles desempenhariam que não seja dar aparência de profundidade a observações banais sobre sociologia ou história. Além disso, a terminologia científica é misturada com um vocabulário não científico que, por sua vez, é empregado com o mesmo desleixo. No final das contas, é normal pensar sobre o que sobraria do pensamento de Baudrillard se todo o verniz que o cobre fosse removido”.
Incluo essa citação de Sokal e Bricmont porque ela resume bem o que poderia ser dito sobre a pseudoprofundidade de forma mais geral: a pseudoprofundidade consiste em uma refinada mistura de banalidades, nonsense e falsidades servida como um imponente soufflé linguístico. Espete-o com um garfo, deixe o ar quente sair e você perceberá que pouco sobra. Certamente nada que valha a pena comer.
Espero que esse breve esboço possa ajudá-lo a detectar com mais eficácia a pseudoprofundidade. Mas e se você estiver no papel de receptor de tais tolices, como responder? Qual a melhor forma de revelar a pseudoprofundidade pelo que ela é? O maior inimigo da pseudoprofundidade é a clareza. Um dos modos mais eficazes de desarmá-la é traduzi-la em português corrente. Diga “certo, você está dizendo que…” e anote em prosa clara e sem ambiguidades o que realmente se quer dizer. Esse exercício de tradução revelará que o que foi dito pode ser uma das seguintes três coisas: (1) uma falsidade óbvia, (2) nonsense, ou (3) um truísmo. Mas combater a pseudoprofundidade raramente é assim tão fácil. Aqueles que a despejam sobre os outros muitas vezes estão até certo ponto cientes que é provável que a clareza os desmascare e, assim, provavelmente resistirão às suas tentativas de reformular o que eles pretendem dizer em termos claros e não ambíguos. É quase certo que eles irão acusá-lo de estar entendendo as coisas de forma crassa. Obviamente, eles não irão explicar claramente o que querem dizer: somente enrolarão você mudando de assunto, levantando cortinas de fumaça, acusando-o de não entender outras coisas mais, e assim por diante. Por essa razão, desmascarar a pseudoprofundidade muitas vezes requer tempo e paciência.
Escárnio e sátira podem ter um papel a desempenhar. O riso pode quebrar o feitiço que a pseudoprofundidade lança sobre nós. Uma pequena sátira pode ajudar-nos a reconhecer que fomos enganados por alguém que diz pouco mais do que truísmos, falsidades ou nonsense travestidos de pensamento profundo. Eis aí a razão pela qual os adeptos da pseudoprofundidade com frequência se opõem à sátira e ao escárnio, ficando ofendidos com tais coisas. No entanto, há um cuidado importante que devemos ter quanto ao uso do humor. Obviamente, qualquer crença pode ser ridicularizada. Não estou sugerindo que a piada deve substituir a crítica clara e rigorosa do tipo que eu procurei oferecer aqui. Ninguém deve ser incentivado a abandonar uma crença só porque as pessoas riem dela. Mas por causa da habilidade de ajudar a quebrar o feitiço que a pseudoprofundidade lança sobre suas vítimas, permitindo que vejamos por um momento ou outro que fomos crédulos ou tolos, um pouco de escárnio pode muito bem ser parte de uma resposta. Uma boa piada pode ser útil e legítima, se for merecida.
8 sugestões para ganhar respeito acadêmico sem esforço
Digamos que você seja intelectualmente vaidoso, ou seja, uma pessoa que moralmente se alimenta de elogios sobre a sua inteligência. Mas, digamos também que você seja intelectualmente preguiçoso, isto é, uma pessoa sem muita disposição para trabalhar duro e realizar conquistas intelectuais reais e significativas. Diante deste quadro, como conquistar respeito e admiração de seus pares profissionais, caso você decida seguir uma carreira acadêmica no Brasil? Para responder esta questão, deixo a seguir 8 sugestões básicas para resolver este aparente paradoxo. É claro que essas recomendações jamais funcionarão para a conquista de respeito e admiração por parte dos genuínos pensadores, aqueles que efetivamente produzem conhecimento relevante e dominam uma visão crítica sobre a ciência. Mas a lista abaixo funciona para a conquista de respeito e admiração entre os seus semelhantes, principalmente se você souber escolher com bastante cuidado a sua área de atuação profissional.
Sugestão 1: Publique o máximo que puder em anais de congressos. Na maioria dos casos, o processo de seleção de artigos ou resumos para fins de publicação em anais de congressos científicos é pouco rigoroso. Isso porque resumos pouco dizem. E mesmo aqueles textos um pouco mais extensos que, do ponto de vista editorial, se qualificam como artigos, podem ser recheados de ideias jamais testadas, mas que parecem sensatas à primeira vista. Neste último caso temos textos usualmente qualificados como artigos completos, sem de fato o serem. Como ninguém mesmo terá qualquer interesse em ler esses artigos e resumos, simplesmente por não serem informativos, você estará intelectualmente seguro. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.
Sugestão 2: Organize ou edite livros. Convide colegas ou amigos para contribuírem com artigos a serem publicados em seu livro. Mas nem pense em publicar através de alguma editora de alcance internacional, a não ser que seja uma daquelas que cobram elevadas taxas dos autores e veiculam absolutamente qualquer coisa por dinheiro. Se não quer ou não pode investir com subornos, procure organizar ou editar seus livros através de editoras de universidades federais, estaduais ou privadas de nosso país. Como ninguém lerá estes livros, novamente você estará seguro contra críticas sérias ao seu trabalho. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.
Sugestão 3: Faça muitos amigos, participando de congressos nacionais e regionais. Se participar de algum congresso internacional realizado no Brasil, jamais fale em outro idioma que não seja o português. Se assistir a alguma palestra proferida por um renomado cientista, jamais elogie sem fazer ressalvas. E jamais discuta o mérito do tema da conferência. Faça afirmações vagas, mas impactantes. Sempre dê preferência a comentários de ordem pessoal. E não esqueça de falar com uma postura altiva. Muitos perceberão o quão antenado você está com a vida acadêmica. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.
Sugestão 4: Oriente a maior quantia possível de monografias de especialização, dissertações de mestrado e teses de doutorado, convidando para membros de suas bancas somente aqueles que o respeitam e/ou admiram. Aqueles que o admiram são pessoas que certamente não gostam de criar polêmica. Eles aprovarão qualquer coisa que você aprove. Para mostrar aos seus orientados como você é brilhante, mas tolerante, sempre aprove as defesas de especialização, mestrado ou doutorado com a seguinte ressalva: “O candidato está aprovado com a condição de que faça as alterações sugeridas pela banca”. Como ninguém lê monografias, dissertações ou teses e como ninguém confere se o candidato fez de fato quaisquer alterações após a defesa, você estará intelectualmente seguro. Ah, sim: não se esqueça de obrigar seus orientados a aceitarem a inserção de seu nome em todos os artigos que escreverem e publicarem. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.
Sugestão 5: Se você deseja publicar em algum periódico especializado, para fazer volume em seu Currículo Lattes, basta submeter artigos para publicação em revistas editadas e distribuídas por universidades brasileiras. Na maioria dos casos, essas revistas aceitam artigos escritos em português. Além disso, não são procuradas por pesquisadores de ponta dos grandes centros de pesquisa do mundo. Eles sequer sabem da existência dessas revistas! Portanto, não há muita competitividade e você não precisa se empenhar de fato no artigo. Não se preocupe com conteúdo ou relevância. O que você escrever ficará apenas entre você e o editor. Talvez um ou dois “especialistas” leiam alguns trechos do que escrever. Nada além disso. A plataforma Lattes está repleta de casos assim.
Sugestão 6: Assuma cargos de chefia. Chefes, diretores, reitores e pró-reitores podem facilmente vender a imagem de tomadores de decisões, aqueles que definem quem recebe verbas e benefícios e quem fica de fora. Reclame da mentalidade política nas universidades, mas seja sempre político. Reclame de governos, mas sempre aceite quaisquer benefícios que possam vir deles. Reclame dos pesquisadores que não se envolvem com questões políticas, alegando que eles têm visão estreita de mundo. Reclame dos professores que se envolvem com questões políticas, alegando que eles se distanciam do ensino e da pesquisa. Mais importante: convoque reuniões, muitas reuniões. Reuniões conferem visibilidade. Todos estarão olhando para você. E não se incomode com aqueles que não gostam de você. Invista apenas naqueles que são beneficiados por suas decisões. Esses darão o apoio moral necessário para inflar o seu ego, mesmo diante das críticas.
Sugestão 7: Somente participe de eventos acadêmicos que emitam certificados, não importando quais sejam. Quanto maior a quantia de certificados, maior o volume de seu Curriculum Vitae. Apresente palestras em sua instituição e exija certificado assinado pelo seu chefe imediato. Obrigue seus alunos a participarem de atividades extra-curriculares e exija de seu chefe imediato um certificado de coordenador de evento de extensão universitária. Se algum colega seu estiver organizando um colóquio ou congresso, peça para trabalhar como mestre de cerimônias e exija um certificado. E cada certificado deve ser declarado em seu Currículo Lattes.
Sugestão 8: Sempre fale sobre as suas conquistas. Mas faça isso de maneira sutil, comentando casualmente em algum contexto que nada tem a ver com as suas atividades profissionais. Se souber falar, pode facilmente passar a sensação de que a vida acadêmica é parte fundamental de seu ser. Por exemplo, se alguém está falando sobre viagens, diga o seguinte: “Pois é. Anos atrás, participei de um congresso de engenharia de produção em Itatiaia, no Rio de Janeiro. E, cara, como aquele parque nacional é lindo. A janela de meu quarto dava direto para aquela mata atlântica maravilhosa. Você sabia que tem esquilos em Itatiaia?”.
Como escrever um ensaio filosófico de merda: um guia rápido para estudantes
Trecho de um artigo do professor James Lenman, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido; traduzido pelo professor Alexandre Machado, da Universidade Federal do Paraná (UFPR); e publicado originalmente no blogProblemas Filosóficos.
Sempre comece seu ensaio com algo nestas linhas: “Desde a aurora dos tempos o problema da vontade livre tem sido considerado por muitos dos grandes e profundos pensadores na história”. Sempre termine seu ensaio com algo nestas linhas: “Assim, pode ser visto pelos argumentos acima que há muitos pontos de vista diferentes sobre o problema da vontade livre”. Sempre que tiver qualquer dúvida sobre o que dizer sobre X, diga, a propósito de nada em particular e sem nenhuma explicação, que X é subjetivo. Quando isso ficar chato, diga que X é muito relativo, mas nunca diga ao que é relativo. Use a linguagem com o mínimo de precisão possível. Invista pesado em malapropismo e erros categoriais. Refira-se a afirmações como “argumentos” e a argumentos como “afirmações”. Descreva com frequência frases como “válidas” e argumentos como “verdadeiros”. Use a palavra “lógico” para significar plausível ou verdadeiro. Use “inferir” quando você quer dizer “dar a entender”. Nunca use a palavra “petição de princípio” com o seu significado correto, mas use-a incorretamente tão frequentemente quanto possível. Adquira o hábito de inserir palavras como “logo” e “portanto” entre frases que são inteiramente irrelevantes uma para a outra. Isso vai trazer à existência uma relevância que previamente não existia. Cuidado para assiduamente sempre evitar responder a questão formulada. Há tantas outras coisas interessantes para você discutir! Coloque aspas em palavras inteiramente ao acaso. Evite clareza a todo custo. Lembre-se: nada que é claro pode ser realmente profundo. Se, como resultado, o avaliador te der um terço da nota, isso apenas mostra como a sua sabedoria está muito acima da dele. O que quer que você faça, nunca dê atenção às palavras de Peter Medawar: “Ninguém que tenha algo original ou importante para dizer vai voluntariamente correr o risco de ser mal entendido. Pessoas que escrevem obscuramente ou são carentes da habilidade de escrever ou estão a fim de passar trote”. Lembre-se ainda: Apenas pessoas pequenas usam exemplos. Evite-os tenazmente. Se você insistir em usar algum, assegure-se de fazê-lo com estudada irrelevância.
Alerta máximo contra as pseudociências
Artigo de Marcelo Knobel, reitor da Unicamp.
Qual o problema de usar homeopatia contra o resfriado comum? Parece inofensivo. Consultar o horóscopo antes de sair de casa, também. A situação fica um pouco mais nebulosa, porém, quando se tenta tratar uma doença grave à base de preparados homeopáticos ou quando um trabalhador perde o emprego porque seu mapa astral é ‘‘incompatível” com o do chefe. Muitas vezes envoltas numa aura afável de curiosidade inócua, pseudociências — crenças que reivindicam, de modo ilegítimo, o mesmo grau de confiabilidade das ciências — podem prejudicar, de modo perverso, a vida de todos e também o planeta. O perigo se revela, por exemplo, quando indústrias ou setores específicos da sociedade, por motivos religiosos, políticos ou econômicos, articulam-se para tirar proveito do baixo conhecimento que a população tem de como a ciência é feita, e também do grande nível de desinformação presente no meio virtual.
Com a crescente polarização social, há cada vez mais políticos e influenciadores que propagam ideias pseudocientíficas, ou até anticientíficas, utilizando, para tanto, estratégias conhecidas, que vêm sendo aprimoradas ao longo dos séculos, e que agora ganham eficácia extra graças à internet e às novas formas de interação social. Em seu livro O Mundo Assombrado pelos Demônios, de 1995, Carl Sagan oferece um “kit de detecção de bobagens”, composto por oito estratégias para analisar criticamente alegações que se pretendem científicas. Sagan, assim como outros autores, sugere que há elementos comuns que aparecem no discurso e na posição dos propagadores de pseudociências. Aqui, oferecemos um quarteto de indicadores:
Evidência negativa: quando os argumentos a favor de uma ideia se resumem, exclusivamente, a alegações sobre erros, reais ou imaginários, que existiriam nas ideias dos outros. Ainda que todos os outros estejam mesmo errados, isso não significa que a opção oferecida é correta. Ela pode até estar mais errada que as demais.
Correlação e causa: apontar que, porque uma coisa varia de modo semelhante a outra, é causada pela outra. Isso nem sempre é verdade: existem inúmeros exemplos de fenômenos desconexos que variam de modo similar durante algum tempo — por exemplo, de 1999 a 2009 o número de mortes por afogamento em piscinas, nos EUA, seguiu a mesma tendência que o número de filmes estrelados por Nicholas Cage.
Exemplos escolhidos a dedo: apresentar apenas casos que parecem confirmar suas ideias. Nenhum procedimento, estratégia ou tratamento funciona em 100% das vezes. Quando o assunto é ciência, quem não leva as falhas em consideração, ou as esconde na hora de apresentar resultados, é incompetente ou desonesto.
Apelo à antiguidade: alegar que uma ideia ou procedimento é adequado porque é usado há séculos. A história está repleta de bobagens que sobreviveram ao teste das gerações, do geocentrismo ao uso de sangrias para combater doenças infecciosas.
Essas táticas, em geral, vêm acompanhadas de linguagem rebuscada, frases de efeito e uma retórica que, direta ou indiretamente, acusa os críticos de serem parte de alguma grande conspiração. Hoje, não é difícil identificar quem usa, de modo sistemático, tais ferramentas. E as consequências podem ser graves. No Brasil, dinheiro público é desperdiçado em tratamentos de saúde que se baseiam apenas em falsas correlações, na antiguidade e em exemplos escolhidos a dedo. A negação do aquecimento global se baseia em evidência negativa. O movimento antivacina, movido a teorias da conspiração, leva ao ressurgimento de doenças. Como as pseudociências, ao contrário da ciência legítima, não têm compromisso com a realidade, elas se moldam com facilidade às preferências do público e ao espírito dos tempos. Isso as torna atraentes. Escapar dessa atração pode não ser fácil, mas é cada vez mais necessário.
Estudo falso é aceito para publicação em mais de 150 revistas científicas
Imagine o seguinte experimento: Você escreve um trabalho científico falso, baseado em dados inventados, assinado com nomes falsos de pesquisadores que não existem, associados a universidades que também não existem, e envia esse trabalho para centenas de revistas científicas do tipo open access (que disponibilizam conteúdo gratuitamente na internet) para publicação. O que você acha que aconteceria?
Um biólogo e jornalista americano chamado John Bohannon fez exatamente isso e os resultados, publicados pela revista americana Science, são aterradores para aqueles que se preocupam com a credibilidade da ciência. Ele escreveu um trabalho falso sobre as propriedades supostamente anticancerígenas de uma molécula supostamente extraída de um líquen e enviou esse trabalho para 304 revistas científicas de acesso aberto ao redor do mundo. Não só o trabalho era totalmente fabricado e obviamente incorreto (com falhas metodológicas e experimentais que, segundo Bohannon, deveriam ser óbvias para qualquer revisor com formação escolar em química e capacidade de entender uma planilha básica de dados), como também o nome dos autores e das instituições que o assinavam eram todos fictícios. Apesar disso (pasmem!), mais da metade das revistas procuradas (157) aceitou o trabalho para publicação. Um escândalo!
O que isso quer dizer? Quer dizer que tem muita revista “científica” por aí que não é “científica” coisíssima nenhuma. E que o fato de um estudo ter sido publicado não significa que ele esteja correto (pior, não significa nem mesmo que ele seja verdadeiro, para começo de conversa). A ciência, assim como qualquer outra atividade humana, infelizmente não está isenta de falcatruas. E o que isso não quer dizer? Não quer dizer que o sistema de open access seja intrinsecamente falho. Certamente há revistas de acesso livre de ótima qualidade, como as do grupo PLOS, assim como há revistas pagas de baixa qualidade que publicam qualquer porcaria. Nenhum sistema é perfeito. Até mesmo a Science publica umas lorotas de vez em quando, assim como a Nature e outras revistas de alto impacto, que empregam os critérios mais rígidos de seleção e revisão. Além disso, o fato de uma revista ser gratuita não significa que ela não tenha revisão por pares (peer review) e outros filtros de qualidade. Assim, o que deve ser questionado não é a forma de disponibilizar a informação, mas a forma como ela é selecionada e apurada — em outras palavras, a qualidade e a confiabilidade da informação, não o seu preço.
120 artigos publicados em revistas científicas foram criados em gerador de “lero-lero” e ninguém percebeu
As editoras de revistas científicas Springer e IEEE removeram mais de 120 artigos publicados entre 2008 e 2013. Elas descobriram que cada um deles era jargão sem sentido, todos gerados automaticamente por um programa de computador.
O enorme descuido foi descoberto pelo cientista da computação Cyril Labbé, que passou os últimos dois anos reunindo esses artigos. Os textos foram elaborados com um programa do MIT chamado SCIgen. Parte da genialidade do esquema é que, para um olhar destreinado, os artigos parecem plausíveis. Por exemplo, um dos trabalhos, publicado numa conferência de engenharia na China, é intitulado “TIC: Uma metodologia para a construção do e-commerce”. Vago, mas ainda assim parece algo plausível.
Só que o resumo já causa estranheza: “Nos últimos anos, muitos estudos vêm se dedicando à criação de chaves públicas e privadas de criptografia; por outro lado, poucos sintetizaram a visualização do problema do produtor-consumidor. Dado o estado atual de arquétipos eficientes, importantes analistas notoriamente desejam uma emulação do controle de congestionamento de rede, que incorpora os princípios fundamentais de hardware e arquitetura. Em nossa pesquisa, concentramos nossos esforços em refutar que planilhas podem ser compactas ou feitas com base em conhecimento e empatia”. Basicamente, algo saído de um desses famosos geradores de lero-lero da internet.
Segundo a revista Nature, a maioria dos trabalhos veio da China. No entanto, ninguém sabe ao certo quem está por trás desse escândalo. O problema é que os estudos supostamente são revisados por pares: eles passam pelo escrutínio de um ou mais estudiosos com mesmo escalão que o autor; em geral, de forma anônima. Por isso, as editoras estão tendo dificuldade em explicar exatamente como isso aconteceu.
A tabela abaixo permiteconstruir 10 mil combinações diferentes de frases. Com ela, qualquer um poderá fazer grandes discursos sem dizer absolutamente nada com sentido. A regra é simples: Construa as frases aleatoriamente usando uma expressão da primeira coluna, em seguida uma da segunda coluna, depois da terceira e por fim da quarta coluna. Não tem erro! Faça o teste e seja um orador de sucesso.
A noite chegou, o trabalho acabou, é hora de voltar para casa. Lar, doce lar? Mas a casa está escura, a televisão desligada e tudo é silêncio. Ninguém para abrir a porta, ninguém à espera. Você está só. Vem a tristeza da solidão. O que mais você deseja é não estar em solidão. Mas deixa que eu lhe diga: sua tristeza não vem da solidão. Vem das fantasias que surgem na solidão. Lembro-me de um jovem que amava a solidão: ficar sozinho, ler, ouvir, música… Assim, aos sábados, ele se preparava para uma noite de solidão feliz. Mas bastava que ele se assentasse para que as fantasias surgissem. Cenas.
De um lado, amigos em festas felizes, em meio ao falatório, os risos, a cervejinha. Aí a cena se alterava: ele, sozinho naquela sala. Com certeza ninguém estava se lembrando dele. Naquela festa feliz, quem se lembraria dele? E aí a tristeza entrava e ele não mais podia curtir a sua amiga solidão. O remédio era sair, encontrar-se com a turma para encontrar a alegria da festa. Vestia-se, saía, ia para a festa… Mas na festa ele percebia que festas reais não são iguais às festas imaginadas. Era um desencontro, uma impossibilidade de compartilhar as coisas da sua solidão. A noite estava perdida.
Faço-lhe uma sugestão: leia o livro A chama de uma vela, de Bachelard. É um dos livros mais solitários e mais bonitos que jamais li. A chama de uma vela, por oposição às luzes das lâmpadas elétricas, é sempre solitária. A chama de uma vela cria, ao seu redor, um círculo de claridade mansa que se perde nas sombras. Bachelard medita diante da chama solitária de uma vela. Ao seu redor, as sombras e o silêncio. Nenhum falatório bobo ou riso fácil para perturbar a verdade da sua alma. Lendo o livro solitário de Bachelard eu encontrei comunhão. Sempre encontro comunhão quando o leio. As grandes comunhões não acontecem em meio aos risos da festa. Acontecem, paradoxalmente, na ausência do outro. Quem ama sabe disso. É precisamente na ausência que a proximidade é maior.
Bachelard, ausente: eu o abracei agradecido por ele assim me entender tão bem. Como ele observa, “parece que há em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante. Um coração sensível gosta de valores frágeis”. A vela solitária de Bachelard iluminou meus cantos sombrios, fez-me ver os objetos que se escondem quando há mais gente na cena. E ele faz uma pergunta que julgo fundamental e que proponho a você, como motivo de meditação: “Como se comporta a sua solidão?”. Minha solidão? Há uma solidão que é minha, diferente das solidões dos outros? A solidão se comporta? Se a minha solidão se comporta, ela não é apenas uma realidade bruta e morta. Ela tem vida.
Entre as muitas coisas profundas que Sartre disse, essa é a que mais amo: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”. Pare. Leia de novo. E pense. Você lamenta essa maldade que a vida está fazendo com você, a solidão. Se Sartre está certo, essa maldade pode ser o lugar onde você vai plantar o seu jardim. Como é que a sua solidão se comporta? Ou, talvez, dando um giro na pergunta: Como você se comporta com a sua solidão? O que é que você está fazendo com a sua solidão? Quando você a lamenta, você está dizendo que gostaria de se livrar dela, que ela é um sofrimento, uma doença, uma inimiga. Aprenda isso: as coisas são os nomes que lhe damos. Se chamo minha solidão de inimiga, ela será minha inimiga. Mas será possível chamá-la de amiga? Drummond acha que sim:
Por muito tempo achei que a ausência é falta. E lastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo. Não há falta na ausência. A ausência é um estar em mim. E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços, que rio e danço e invento exclamações alegres, porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim!
Nietzsche também tinha a solidão como companheira. Ele tirava suas alegrias de longas caminhadas pelas montanhas, da música e de uns poucos livros que amava. Eis aí três companheiras maravilhosas! Vejo, frequentemente, pessoas que caminham por razões de saúde. Incapazes de caminhar sozinhas, vão aos pares, aos bandos. E vão falando, falando, sem ver o mundo maravilhoso que as cerca. Falam porque não suportariam caminhar sozinhas. E, por isso mesmo, perdem a maior alegria das caminhadas, que é a alegria de estar em comunhão com a natureza. Elas não vêem as árvores, as flores, as nuvens, e nem sentem o vento. Que troca infeliz! Trocam as vozes do silêncio pelo falatório vulgar. Se estivessem a sós com a natureza, em silêncio, sua solidão tornaria possível que elas ouvissem o que a natureza tem a dizer.
O primeiro filósofo que li, o dinamarquês Soeren Kiekeggard, um solitário que me faz companhia até hoje, observou que o início da infelicidade humana se encontra na comparação. Experimentei isso em minha própria carne. Foi quando eu, menino caipira de uma cidadezinha do interior de Minas, me mudei para o Rio de Janeiro, que conheci a infelicidade. Comparei-me com eles: cariocas, espertos, bem falantes, ricos. Eu diferente, sotaque ridículo, gaguejando de vergonha, pobre: entre eles eu não passava de um patinho feio que os outros se compraziam em bicar. Nunca fui convidado a ir à casa de qualquer um deles. Nunca convidei nenhum deles a ir à minha casa. Eu não me atreveria.
Conheci, então, a solidão. A solidão de ser diferente. Sofri muito, e nem sequer me atrevi a compartilhar com meus pais esse meu sofrimento. Seria inútil. Eles não compreenderiam. E mesmo que compreendessem, nada poderiam fazer. Assim, tive de sofrer a minha solidão duas vezes sozinho. Mas foi nela que se formou aquele que sou hoje. As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido.
A sua infelicidade com a solidão: não se deriva ela, em parte, das comparações? Você compara a cena de você, só, na casa vazia, com a cena (fantasiada) dos outros, em celebrações cheias de risos. Essa comparação é destrutiva porque nasce da inveja. Sofra a dor real da solidão porque a solidão dói. Dói uma dor da qual pode nascer a beleza. Mas não sofra a dor da comparação. Ela não é verdadeira.
Artigo de Tom Chatfield para a BBC.
Texto base para a prova de Redação do Enem 2018.
Em uma época na qualsoftwares nos dizem no que devemos pensar, uma prática um pouco mais antiquada tem ganhado destaque no noticiário: o trabalho de um seleto grupo de enigmáticos indivíduos que decidem o que é e o que não é notícia. Recentemente foi divulgado que o Facebook usa pessoas para selecionar quais assuntos são ou não vistos por seus usuários. Ironicamente, o problema da rede social é a falta de um algoritmo específico. A argumentação mais polêmica que surgiu com a notícia foi a de que a seleção de “trending topics” do site teria um viés anticonservador. Ou seja, o Facebook esconderia notícias e opiniões mais conservadoras de maneira desproporcional.
Mas, segundo o site de tecnologia Gizmodo, o primeiro a noticiar o fato, o Facebook teria dois motivos para se envergonhar. O primeiro é a presença de funcionários de carne e osso, o que prejudicaria a “ilusão de um processo de seleção de notícias mais isento”; o segundo é o fato de esses “curadores de notícias” aparentemente serem tratados como se fossem um software, operando fora de qualquer parâmetro editorial mais rigoroso e trabalhando para atingir metas quantitativas. Questão ética à parte, a verdade é que a plataforma de compartilhamento de informações mais poderosa do mundo ainda não é capaz de selecionar, sem humanos, o que é visto por seus usuários.
Meios como o Facebook estão selecionando as notícias e as informações que consumimos sob títulos chamativos como “trending topics” ou critérios como “relevância”. Mas nós praticamente não sabemos como isso tudo é filtrado. Isso é importante porque mudanças sutis nas informações às quais somos expostos podem transformar nosso comportamento. Para entender isso, pense nesse insight vindo da ciência comportamental e que tem sido amplamente adotado por governos e outras autoridades em todo o mundo: o “empurrãozinho”. Isso consiste em usar táticas discretas para nos incentivar a adotar um certo comportamento. Um exemplo conhecido é fazer da doação de órgãos algo obrigatório, a não ser que o indivíduo se manifeste contrariamente. O resultado é que mais pessoas acabam doando.
Críticos dessa abordagem argumentam que esse “empurrãozinho” está acabando com a decisão informada. “Em vez de explicar a questão e ajustar a política para o desejo da população, o ‘empurrão’ ajusta a vontade da população à política que se quer implantar”, explica o escritor britânico Nick Harkaway em um artigo para o Instituto de Arte e Ideias. “A escolha é uma habilidade, um hábito que precisa ser praticado para funcionar melhor”.
E como esses “empurrõezinhos” se aplicam no mundo digital? Quando navegamos na internet, enfrentamos escolhas continuamente – do que comprar ao que acreditar – e engenheiros e designers também podem sutilmente manejar nossas decisões nesse ponto. Afinal, não é só o Facebook que está no jogo das seleções de informações. Sistemas de recomendação cada vez mais afiados estão na dianteira do atual boom da inteligência artificial, da tecnologia “vestível”e da chamada internet das coisas. Do Google à Apple e à Amazon, o truque está em entregar ao usuário informações perfeitamente personalizadas. No entanto, o que está em jogo não é tanto a questão “homem X máquina”, mas sim a disputa “decisão informada X obediência influenciada”.
Quanto mais informações relevantes tivermos, melhor equipados estamos para tomar decisões. Isso é um dos princípios fundamentais da tecnologia da informação quando vista como uma força positiva. O filósofo especializado em tecnologia Luciano Floridi, autor do livro The Fourth Revolution (A Quarta Revolução), usa a expressão “design pró-ético” para descrever esse processo: uma apresentação equilibrada de informações claras que nos impele a abordar conscientemente uma decisão importante, e nos responsabilizarmos por ela. Para Floridi, os sistemas de informação deveriam expandir – e não contrair – nosso engajamento ético, tentando resistir à tentação de nos influenciar.
Isso, no entanto, gera algumas tensões fundamentais: entre conveniência e deliberação; entre o que o usuário deseja e o que é melhor para ele; entre a transparência e o lado comercial. Quanto mais os “sistemas” souberem sobre você em comparação ao que você sabe sobre eles, há mais riscos de suas escolhas se tornarem apenas uma série de reações a “cutucadas” invisíveis. E o equilíbrio entre o que está acontecendo no mundo e o que o usuário fica sabendo está cada dia mais pendendo para o lado da ignorância individual. Não há um simples antídoto para essa situação, assim como nenhuma grande conspiração. De fato, a combinação bem realizada do uso de softwares com a curadoria humana está se tornado o único caminho pelo qual esperamos poder navegar os exabytes de dados que se acumulam pelo mundo. Mas vale a pena lembrarmos que aqueles que projetam a tecnologia que utilizamos têm objetivos diferentes dos nossos – e que navegar com sucesso significa deixar de acreditar que existe uma saída para a parcialidade humana.
Muitos candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ficam tão focados em conhecer o padrão de questões da prova e em como os conteúdos são cobrados, que acabam não pensando em como aquelas perguntas chegam no exame. Se você acha que um grupo de professores se reúne em uma mesa e monta as provas de uma vez, você está muito enganado. Tanto as questões do Enem quanto as de outros concursos públicos são selecionadas através de um acervo, o Banco Nacional de Itens (BNI).
O Ministério da Educação (MEC) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) convocam instituições públicas e federais, tanto da educação básica quanto da superior, para contribuir com o banco. Estas decidem quais professores serão indicados para elaborar as questões, pois os docentes devem estar dentro do perfil definido pelo Inep. Após serem elaboradas, essas questões passam por uma revisão do INEP. Todas elas devem ser objetivas, possuir um texto introdutório e 5 alternativas, sendo que somente uma é a correta. O conteúdo de todas as perguntas da prova deve estar relacionado às disciplinas do Ensino Médio. Cada professor recebe R$ 200 por questão aceita para integrar o Banco Nacional de Itens. Já os professores que ficam responsáveis pela revisão dos itens ganham cada um R$ 100 por questão.
O MEC realiza uma prova semelhante ao Enem com alunos do Ensino Médio da rede pública. O chamado pré-teste é composto por 45 questões, diferentes entre si. Após o teste, as questões entram para o Banco Nacional de Itens, que hoje possui mais de 10 mil questões. Como o processo é extremamente sigiloso, os alunos não sabem que a prova que estão fazendo é parte do processo de montagem do banco de questões que compõem o Enem. De acordo com o resultado do pré-teste, as questões recebem graus de dificuldade. Cada grau é representado por um número que vai de zero até mil. A partir desses números, é montada uma régua. As perguntas são dividias entre fáceis, médias e difíceis. As médias ficam mais ou menos na marca de 500 pontos.
Para montar a prova, o MEC seleciona 180 questões, sendo 45 de cada uma das quatro áreas do conhecimento (Ciências Humanas; Ciências da Natureza; Linguagem e Códigos; Matemática). As questões começam a ser analisadas e escolhidas cerca de 5 a 6 meses antes do dia do exame. Esse é o tempo necessário para elaborar, imprimir e distribuir a prova. O conjunto de questões de cada área precisa equilibrar o grau de dificuldade das perguntas (25% fáceis, 50% médias e 25% difíceis). Como um dos objetivos do Enem é diferenciar o grau de conhecimento dos candidatos, as questões que apresentaram alto nível de acertos ou erros durante o pré-teste são descartadas.
As notas obtidas pelos candidatos são calculadas com base na Teoria de Resposta ao Item (TRI), que avalia não só o número de questões acertadas, mas também o grau de dificuldade delas e a coerência e consistência dos acertos na prova. Mesmo com números iguais de acertos, duas pessoas podem ter notas diferentes de acordo com o nível de dificuldade das questões acertadas e com a consistência desses acertos (errar muitas fáceis e acertar muitas difíceis não apresenta coerência e pode configurar chute).
Orientações para a elaboração de questões
As questões devem ser divididas em três partes: texto, enunciado e alternativas;
Cada situação-problema deve ser contextualizada de maneira que permita ao candidato incorporar situações vivenciadas; aproximar os temas escolares da realidade extraescolar. Um item contextualizado pretende transportar o candidato para uma situação normalmente vivenciada por ele no dia a dia;
Os textos-base podem ser verbais e não verbais, como, por exemplo, imagens, figuras, tabelas, gráficos ou infográficos, esquemas, quadros, experimentos, etc.;
Os textos-base poderão ser de dois tipos: formulados pelo próprio elaborador para o contexto do item ou referenciados por publicações de apropriação pública;
O uso de publicações implica a citação da respectiva fonte;
Não poderá ser utilizado livro didático como fonte para o texto-base;
Deve-se suprimir elementos de caráter meramente acessório ou que demandem dispendioso tempo de leitura;
Deve-se evitar a exigência de informações simplesmente decoradas, como fórmulas, datas, termos, nomes, enfim, detalhes que não avaliam a habilidade, mas privilegiam a memorização;
O enunciado constitui-se de uma ou mais orações e não deve apresentar informações adicionais ou complementares ao texto-base;
No enunciado, inclui-se uma instrução clara e objetiva da tarefa a ser realizada pelo participante do teste. Essa instrução poderá ser expressa como pergunta ou frase a ser completada pela alternativa correta;
Não devem ser criadas situações capazes de induzi-lo ao erro;
Utilize textos que abordem temas atuais e sejam adequados ao público-alvo;
Tradução de Luiz Paulo Rouanet, professor da PUC-Campinas.
Esclarecimento¹ significa a saída do homem de sua menoridade, pela qual ele próprio é responsável. A menoridade é a incapacidade de servir-se de seu próprio entendimento sem a tutela de outro. É a si próprio que deve-se atribuir essa menoridade, uma vez que ela não resulta da falta de entendimento, mas da falta de resolução e de coragem necessárias para utilizar seu entendimento sem a tutela de outro. Sapere aude²! Tenha a coragem de te servir de teu próprio entendimento! Tal é a divisa do Esclarecimento. A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma parte tão grande dos homens, libertos há muito pela natureza de toda tutela alheia (naturaliter majorennes), comprazem-se em permanecer por toda vida menores; e é por isso que é tão fácil a outros instituírem-se seus tutores. É tão cômodo ser menor! Se possuo um livro que possui entendimento por mim, um diretor espiritual que possui consciência em meu lugar, um médico que decida acerca de meu regime, etc., não preciso eu mesmo esforçar-me. Não sou obrigado a refletir, se é suficiente pagar; outros se encarregarão por mim da aborrecida tarefa.
Que a maior parte da humanidade (e especialmente todo o belo sexo) considere o passo a dar para ter acesso à maioridade como sendo não só penoso, como ainda perigoso, é ao que se aplicam esses tutores que tiveram a extrema bondade de encarregar-se de sua direção. Após ter começado a emburrecer seus animais domésticos e cuidadosamente impedir que essas criaturas tranquilas sejam autorizadas a arriscar o menor passo sem o andador que as sustenta, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça se tentam andar sozinhas. Ora, esse perigo não é tão grande assim, pois após algumas quedas elas acabariam aprendendo a andar; mas um exemplo desse tipo intimida e dissuade usualmente toda tentativa ulterior. É, portanto, difícil para todo homem tomado individualmente livrar-se dessa menoridade que se tornou uma espécie de segunda natureza. Ele se apegou a ela, e é então realmente incapaz de se servir de seu entendimento, pois não deixam que ele o experimente jamais. Preceitos e fórmulas, esses instrumentos mecânicos destinados ao uso racional, ou antes ao mau uso de seus dons naturais, são os entraves desses estado de menoridade que se perpetua. Quem o rejeitasse, no entanto, não efetuaria mais do que um salto incerto por cima do fosso mais estreito que seja, pois ele não tem o hábito de uma tal liberdade de movimento. Assim, são poucos os que conseguiram, pelo exercitar de seu próprio espírito, libertar-se dessa menoridade tendo ao mesmo tempo um andar seguro.
Que um público, porém, esclareça-se a si mesmo, é ainda assim possível; é até, se lhe deixarem a liberdade, praticamente inevitável. Pois então sempre se encontrarão alguns homens pensando por si mesmos, incluindo os tutores oficiais da grande maioria, que, após terem eles mesmos rejeitado o jugo da menoridade, difundirão o espírito de uma apreciação razoável de seu próprio valor e a vocação de cada homem de pensar por si mesmo. O que há de especial nesse caso é que o público, que outrora eles haviam submetido, os forçará então a permanecer nesse estado, por pouco que eles sejam pressionados pelas iniciativas de alguns de seus tutores totalmente inaptos ao Esclarecimento. O que prova a que ponto é nocivo inculcar preconceitos, pois eles acabam vingando-se de seus autores ou dos predecessores destes. É por esse motivo que um público só pode aceder lentamente ao Esclarecimento. Uma revolução poderá talvez causar a queda do despotismo pessoal ou de uma opressão cúpida e ambiciosa, mas não estará jamais na origem de uma verdadeira reforma da maneira de pensar; novos preconceitos servirão de rédeas ao maior número, incapaz de refletir.
Esse Esclarecimento não exige, todavia, nada mais do que a liberdade; e mesmo a mais inofensiva de todas as liberdades, isto é, a de fazer um uso público de sua razão em todos os domínios. Mas ouço clamar de todas as partes: não raciocinai! O oficial diz: não raciocinai, mas fazei o exercício! O conselheiro de finanças: não raciocinai, mas pagai! O padre: não raciocinai, mas crede! (Só existe um senhor no mundo que diz: raciocinai o quanto quiserdes, e sobre o que quiserdes, mas obedecei!). Em toda parte só se vê limitação da liberdade. Mas que limitação constitui obstáculo ao Esclarecimento, e qual não constitui ou lhe é mesmo favorável? Respondo: o uso público de nossa razão deve a todo momento ser livre, e somente ele pode difundir o Esclarecimento entre os homens. O uso privado da razão, por sua vez, deve com bastante frequência ser estreitamente limitado, sem que isso constitua um entrave particular o progresso do Esclarecimento. Mas entendo por uso público de nossa razão o que fazemos enquanto sábios para o conjunto do público que lê.
Denomino de uso privado aquele que se é autorizado a fazer de sua razão em um certo posto civil ou em uma função da qual somos encarregados. Ora, muitas tarefas que concorrem ao interesse da coletividade (gemeinem Wesens) necessitam de um certo mecanismo, obrigando certos elementos da comunidade a se comportar passivamente, a fim de que, graças a uma unanimidade artificial, sejam dirigidos pelo governo a fins públicos, ou pelo menos impedidos de destruí-los. Nesse caso, com certeza, não é permitido argumentar (räsonieren). Deve-se somente obedecer. Dado que essa parte da máquina, no entanto, se concebe como elemento do bem público como um todo, e mesmo da sociedade civil universal, assume por conseguinte a qualidade de um erudito que se dirige a um só público, no sentido próprio do termo, por meio de escritos, ele pode então raciocinar sem que as tarefas às quais ele está ligado como elemento passivo sejam afetadas. Desse modo, seria muito nocivo que um oficial, tendo recebido uma ordem de seus superiores, ponha-se durante seu serviço a raciocinar em voz alta sobre a conveniência ou utilidade dessa ordem; ele só pode obedecer. Mas não se pode com justiça proibir-lhe, enquanto especialista, de fazer observações sobre as faltas cometidas durante o período de guerra, e submetê-las ao julgamento de seu público.
O cidadão não pode recusar-se a pagar os impostos que lhe são exigidos; a crítica insolente de tais impostos no momento em que ele tem a obrigação de pagá-los pode até ser punida como um escândalo (que poderia provocar rebeliões gerais). Mas não está em contradição com seu dever de cidadão se, enquanto erudito, ele manifesta publicamente sua oposição a tais imposições inoportunas ou mesmo injustas. Do mesmo modo, um padre está obrigado diante de seus catecúmenos e sua paróquia a fazer seu sermão de acordo com o símbolo da Igreja à qual ele serve; pois ele foi empregado sob essa condição. Mas, enquanto erudito, ele dispõe de liberdade total, e mesmo da vocação para tanto, de partilhar com o público todas suas ideias minuciosamente examinadas e bem intencionadas que tratam das falhas desse simbolismo e de projetos visando a uma melhor abordagem da religião e da Igreja. Não há nada aí que seja contrário à sua consciência. Pois o que ele ensina em virtude de sua função enquanto dignitário da Igreja, ele o expõe como algo que ele não pode ensinar como quiser, mas que é obrigado a expor segundo a regra e em nome de uma outra.
Ele dirá: nossa Igreja ensina isto ou aquilo; eis as provas das quais ela se serve. Ele extrairá em seguida todas as vantagens práticas, para sua paróquia, dos preceitos os quais, por sua parte, ele não subscreve com convicção total, mas que ele expõe de modo sólido, pois não é impossível que haja neles uma verdade oculta, e em todo caso, nada há ali que contradiga a religião interior. Pois, se ele julgasse encontrar tal coisa, não poderia em consciência exercer sua função; deveria demitir-se. O uso, portanto, que um pastor em função faz de sua razão diante de sua paróquia é apenas um uso privado; pois esta é uma assembleia de tipo familiar, qualquer que seja sua dimensão; e, levando isso em conta, ele não é livre enquanto padre e não tem o direito de sê-lo, pois ele executa uma missão alheia à sua pessoa. Em contrapartida, enquanto erudito que, por meio de seus escritos, fala ao verdadeiro público, isto é, ao mundo, por conseguinte no uso público de sua razão, o padre desfruta de uma liberdade ilimitada de servir-se de sua própria razão e de falar em seu próprio nome. Pois, querer que os tutores do povo (nas coisas eclesiásticas) voltem a ser menores, é um absurdo que contribui para a perpetuação dos absurdos.
Entretanto, uma sociedade de eclesiásticos, um sínodo, por exemplo, ou uma classe(como são chamados entre os holandeses), não deveriam ter o direito de comprometer-se mutuamente por juramento sobre um certo símbolo imutável, para assim manter sob tutela superior permanente cada um de seus membros e, graças a eles, o povo, e desse modo perenizar tal tutela? Digo que é absolutamente impossível. Tal contrato, concluído para proibir para sempre toda extensão do Esclarecimento ao gênero humano, é completamente nulo e para todos os efeitos não ocorrido, tivesse sido implementado mesmo pelo poder supremo, pelas Dietas do Império e pelos mais solenes tratados de paz. Uma época não pode se aliar e conspirar para tornar a seguinte incapaz de estender seus conhecimentos (sobretudo tão urgentes), de libertar-se de seus erros e finalmente fazer progredir o Esclarecimento. Seria um crime contra a natureza humana, cuja vocação original reside nesse progresso; e os descendentes terão pleno direito de rejeitar essas decisões tomadas de maneira ilegítima e criminosa.
A pedra de toque de tudo o que pode ser decidido sob forma de lei para um povo se encontra na questão: um povo imporia a si mesmo uma tal lei? Ora, esta seria possível, por assim dizer, na espera de uma melhor, e por um breve e determinado período, a fim de introduzir uma certa ordem; sob condição de autorizar ao mesmo tempo cada um dos cidadãos, principalmente o padre, em sua qualidade de erudito, a fazer publicamente, isto é, por escrito, suas observações sobre os defeitos da antiga instituição, sendo enquanto isso mantida a ordem introduzida. E isso até que a compreensão de tais coisas esteja publicamente tão avançada e confirmada a ponto de, reunindo as vozes de seus defensores (nem todos, com certeza), trazer diante do trono um projeto: proteger as paróquias que se julgassem a respeito de uma instituição da religião modificadas segundo suas concepções, sem prejudicar contudo aquelas que quisessem manter-se na situação antiga. Mas é simplesmente proibido acordar-se sobre uma constituição religiosa imutável, a não ser contestada publicamente por ninguém, mesmo que fosse o tempo de duração de uma vida, e anular literalmente, desse modo, todo um período da marcha da humanidade em direção à sua melhoria, e torná-la não só estéril, mas ainda prejudicial à posteridade. Um homem pode, a rigor, pessoalmente e, mesmo então, somente por algum tempo, retardar o Esclarecimento em relação ao que ele tem a obrigação de saber; mas renunciar a ele, seja em caráter pessoal, seja ainda mais para a posteridade, significa lesar os direitos sagrados da humanidade, e pisar-lhe em cima.
Mas o que um povo não é sequer autorizado a decidir por si mesmo, um monarca tem ainda menos o direito de decidir pelo povo; pois sua autoridade legislativa repousa precisamente sobre o fato de que ele reúne toda a vontade popular na sua. Se ele propõe apenas conciliar toda verdadeira ou pretensa melhoria com a ordem civil, ele só pode, por outro lado, deixar a cargo de seus súditos o que eles estimam necessário para a salvação de sua alma; isto não lhe diz respeito. Em contrapartida, ele deve velar para que ninguém impeça a outro pela violência de trabalhar com todas suas forças para a definição e promoção de sua salvação. Ele prejudica à sua própria majestade quando intervém nesses assuntos, como se concernissem à autoridade do governo os escritos nos quais seus súditos tentam esclarecer sua ideia, ou quando age por sua própria vontade e se expõe à censura de Caesar non est supra Grammaticos3 . É também, e mais ainda, o caso quando ele rebaixa seu poder supremo defendendo contra o resto de seus súditos o despotismo eclesiástico de alguns tiranos em seu Estado.
Quando se pergunta, portanto: vivemos atualmente numa época esclarecida? A resposta é: não, mas numa época de Esclarecimento. Muito falta ainda para que os homens, no estado atual das coisas, tomados conjuntamente, estejam já num ponto em que possam estar em condições de se servir, em matéria de religião, com segurança e êxito, de seu próprio entendimento sem a tutela de outrem. Mas que, desde já, o campo lhes esteja aberto para mover-se livremente, e que os obstáculos à generalização do Esclarecimento e à saída da menoridade que lhes é auto-imputável sejam cada vez menos numerosos, é o que temos signos evidentes para crer. A esse respeito, é a época do Esclarecimento, ou o século de Frederico II, o Grande [rei da Prússia]. Um príncipe que não julga indigno de si mesmo que ele considere como um dever nada prescrever aos homens em matéria de religião, que lhes deixa sobre esse ponto uma liberdade total, e recusa, no que lhe diz respeito, o orgulhoso termo de tolerância, é ele mesmo esclarecido, e por ter sido o primeiro a libertar o gênero humano de sua menoridade, pelo menos no que concernia ao governo, e por ter deixado a cada um livre de se servir de sua própria razão em todas as questões de consciência, merece ser louvado pelo mundo que lhe é contemporâneo, e pelo futuro agradecido. Sob seu reinado, honoráveis eclesiásticos, a despeito de seu dever de função, têm a permissão, em qualidade de eruditos, de apresentar-se livre e publicamente ao exame de todos os juízos e pontos de vista que se afastam aqui ou ali dos símbolos adotados. Melhor ainda, esse direito é concedido a todos que não se encontram limitados por seu dever de função. Esse espírito de liberdade estende-se também ao exterior, mesmo onde deve lutar com os obstáculos externos de um governo que ignora sua verdadeira missão. Pois mostra a este, por seu exemplo brilhante, que ali onde reina a liberdade nada há a temer para a tranquilidade pública e unidade do Estado. Os homens procuram libertar-se de sua grosseria, por pouco que não se esforcem para mantê-los artificialmente em tal condição.
Situei o alvo principal do Esclarecimento, a saída do homem da menoridade da qual ele próprio é culpado, principalmente no domínio da religião: pois, em relação às ciências e às artes, nossos soberanos não se interessaram em desempenhar o papel de tutores de seus súditos. Além disso, essa menoridade à qual me referi, além de ser a mais nociva, é também a mais desonrosa. Mas a reflexão de um chefe de Estado que favorece o Esclarecimento vai mais longe e vê bem que, mesmo a respeito da legislação, não há perigo em autorizar seus súditos a fazer publicamente uso de sua própria razão, e em expor ao mundo suas ideias sobre uma melhor redação das leis, mesmo que seja com ajuda de uma crítica franca das já existentes; é disso que temos um exemplo brilhante, que nenhum outro monarca a não ser aquele que veneramos forneceu ainda. Mas somente aquele que, além disso, ele mesmo esclarecido, não teme as trevas, mas ao mesmo tempo tendo sob o comando um exército numeroso e bem disciplinado, garantia da tranquilidade pública, pode dizer o que um Estado livre não ousa dizer: raciocinai o quanto quiserdes, e sobre o que desejardes, mas obedecei! Revela-se assim uma marcha estranha, inesperada das coisas humanas; de todo modo, aqui como em todo lugar, quando se considera globalmente, quase tudo o que há nisso é paradoxal. Um grau mais elevado de liberdade civil parece ser vantajoso para a liberdade de espírito do povo, e lhe impõe todavia barreiras intransponíveis; um grau menos elevado daquela proporciona a este, em contrapartida, a possibilidade de estender-se de acordo com suas forças. Quando, portanto, a natureza libertou de seu duro envoltório o germe sobre o qual ela vela mais ternamente, isto é, a inclinação e a vocação para pensar livremente, então essa inclinação age por sua vez sobre a sensibilidade do povo (graças à qual este se torna cada vez mais capaz de ter a liberdade de agir) e, finalmente, também sobre os princípios do governo, que encontra o seu próprio interesse em tratar o homem, que doravante é mais do que uma máquina, na medida de sua dignidade.
Notas do tradutor
O termo “Esclarecimento” foi preferido ao termo “Iluminismo” para traduzir a palavra alemã Aufklärung. O termo tem sido adotado em traduções brasileiras, como na obra Dialética do Esclarecimento, traduzida por Guido Antonio de Almeida (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985). À pergunta: “Vivemos em uma época esclarecida?”, Kant responde: “Não, vivemos em uma época de Esclarecimento”! A substituição por Iluminismo faria perder essa conotação. A tradução foi feita a partir do alemão, e apoiou-se em tradução anterior de Floriano de Souza Fernandes (Kant, I. Textos seletos. Petrópolis: Vozes, 1974) (N.T.).
“Ousa saber!” (Horácio, Epistulae, livro 1, carta 2, verso 40).
Texto do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860),
extraído do livro A Arte de Escrever (Porto Alegre: L&PM, 2012).
A mais rica das bibliotecas, quando desorganizada, não é tão proveitosa quanto uma bastante modesta, mas bem ordenada. Da mesma maneira, uma grande quantidade de conhecimentos, quando não foi elaborada por um pensamento próprio, tem muito menos valor do que uma quantidade bem mais limitada, que, no entanto, foi devidamente assimilada. Pois é apenas por meio da combinação ampla do que se sabe, por meio da comparação de cada verdade com todas as outras, que uma pessoa se apropria de seu próprio saber e o domina. Só é possível pensar com profundidade sobre o que se sabe, mas também só se sabe aquilo sobre o que se pensou com profundidade.
No entanto, podemos nos dedicar de modo arbitrário à leitura e ao aprendizado; ao pensamento, por outro lado, não é possível se dedicar arbitrariamente. Ele precisa ser atiçado, como é o fogo por uma corrente de ar, precisa ser ocupado por algum interesse nos assuntos para os quais se volta; mas esse interesse pode ser puramente objetivo ou subjetivo. Este último se refere apenas às coisas que nos concernem pessoalmente, enquanto o interesse objetivo só existe nas cabeças que pensam por natureza, nas mentes para as quais o pensamento é algo tão natural quanto a respiração. Mas mentes assim são muito raras, por isso não se encontram muitas delas em meio aos eruditos.
O efeito que o pensamento próprio tem sobre o espírito é incrivelmente diferente do efeito que caracteriza a leitura, e com isso há um aumento progressivo da diversidade original dos cérebros, graças à qual as pessoas são impelidas para uma coisa ou outra. A leitura impõe ao espírito pensamentos que, em relação ao seu direcionamento e disposição naquele momento, são tão estranhos e heterogêneos quanto é o selo em relação ao lacre sobre o qual imprime sua marca. Desse modo, o espírito sofre uma imposição completa do exterior para pensar, naquele instante, determinados assuntos aos quais ele não tinha na verdade nenhuma propensão ou disposição.
Em contrapartida, quando alguém pensa por si mesmo, segue seu mais próprio impulso, tal como está determinado no momento, seja pelo ambiente que o cerca, seja por alguma lembrança próxima. No caso das circunstâncias perceptíveis, não há uma imposição ao espírito de determinado pensamento, como ocorre na leitura, mas elas lhe dão apenas a matéria e a oportunidade para pensar o que está de acordo com sua natureza e com sua disposição presente. Desse modo, o excesso de leitura tira do espírito toda a elasticidade, da mesma maneira que uma pressão contínua tira a elasticidade de uma mola.
O meio mais seguro para não possuir nenhum pensamento próprio é pegar um livro nas mãos a cada minuto livre. Essa prática explica por que a erudição torna a maioria dos homens ainda mais pobres de espírito e simplórios do que são por natureza, privando também seus escritos de todo e qualquer êxito. Como disse Pope, eles estão sempre lendo para nunca serem lidos. Os eruditos são aqueles que leram coisas nos livros, mas os pensadores, os gênios, os fachos de luz e promotores da espécie humana são aqueles que as leram diretamente no livro do mundo. No fundo, apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. Pensamentos alheios, lidos, são como as sobras da refeição de outra pessoa. Em comparação com os pensamentos próprios que se desenvolvem em nós, os alheios, lidos, têm uma relação como a que existe entre o fóssil de uma planta pré-histórica e as plantas que florescem na primavera.
A leitura não passa de um substituto do pensamento próprio. Trata-se de um modo de deixar que seus pensamentos sejam conduzidos em andadeiras por outra pessoa. Além disso, muitos livros servem apenas para mostrar quantos caminhos falsos existem e como uma pessoa pode ser extraviada se resolver segui-los. Mas aquele que é conduzido pelo gênio, ou seja, que pensa por si mesmo, que pensa por vontade própria, de modo autêntico, possui a bússola para encontrar o caminho certo. Assim, uma pessoa só deve ler quando a fonte dos seus pensamentos próprios seca, o que ocorre com bastante frequência mesmo entre as melhores cabeças. Renegar os pensamentos próprios, originais, para tomar um livro nas mãos é semelhante a fugir da natureza e do ar livre para visitar um herbário ou contemplar belas regiões em gravuras.Continuar lendo “Pensar por si mesmo”
Texto do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860),
extraído do livro A Arte de Escrever (Porto Alegre: L&PM, 2012).
Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de ensino e de aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância à instrução e à verdade. Entretanto, nesse caso, as aparências também enganam. Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes.
A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração: pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas do que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração frequenta a universidade e se aferra aos livros, sempre aos mais recentes, os de sua época e próprios para sua idade. Só o que é breve e novo! Assim como é nova a geração, que logo passa a emitir seus juízos.
Em geral, estudantes e estudiosos de todos os tipos e de qualquer idade têm em mira apenas a informação, não a instrução. Sua honra é baseada no fato de terem informações sobre tudo, sobre todas as pedras, ou plantas, ou batalhas, ou experiências, sobre o resumo e o conjunto de todos os livros. Não ocorre a eles que a informação é um mero meio para a instrução, tendo pouco ou nenhum valor por si mesma. No entanto, é essa maneira de pensar que caracteriza uma cabeça filosófica.
Diante da imponente erudição de tais sabichões, às vezes digo para mim mesmo: Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ter lido tanto! Até mesmo quando se relata, a respeito de Plínio, o Velho, que ele lia sem parar ou mandava que lessem para ele, seja à mesa, em viagens ou no banheiro, sinto a necessidade de me perguntar se o homem tinha tanta falta de pensamentos próprios que era preciso um afluxo contínuo de pensamentos alheios, como é preciso dar a quem sofre de tuberculose um caldo para manter sua vida. E nem a sua credulidade sem critérios, nem o seu estilo de coletânea, extremamente repugnante, difícil de entender e sem desenvolvimento contribuem para me dar um alto conceito do pensamento próprio desse escritor.
Assim como as atividades de ler e aprender, quando em excesso, são prejudiciais ao pensamento próprio, as de escrever e ensinar em demasia também desacostumam os homens da clareza e profundidade do saber e da compreensão, uma vez que não lhes sobra tempo para obtê-los. Com isso, quando expõe alguma ideia, a pessoa precisa preencher com palavras e frases as lacunas de clareza em seu conhecimento. É isso, e não a aridez do assunto, que torna a maioria dos livros tão incrivelmente entediante. Pois, como podemos supor, um bom cozinheiro pode dar gosto até a uma velha sola de sapato; assim como um bom escritor pode tornar interessante mesmo o assunto mais árido.
Para a imensa maioria dos eruditos, sua ciência é um meio e não um fim. Desse modo, nunca chegarão a realizar nada de grandioso, porque para tanto seria preciso que tivessem o saber como meta, e que todo o resto, mesmo sua própria existência, fosse apenas um meio. Pois tudo o que se realiza em função de outra coisa é feito apenas de maneira parcial, e a verdadeira excelência só pode ser alcançada, em obras de todos os gêneros, quando elas foram produzidas em função de si mesmas e não como meios para fins ulteriores. Da mesma maneira, só chegará a elaborar novas e grandes concepções fundamentais aquele que tenha suas próprias ideias como objetivo direto de seus estudos, sem se importar com as ideias dos outros.
Entretanto os eruditos, em sua maioria, estudam exclusivamente com o objetivo de um dia poderem ensinar e escrever. Assim, sua cabeça é semelhante a um estômago e a um intestino dos quais a comida sai sem ser digerida. Justamente por isso, seu ensino e seus escritos têm pouca utilidade. Não é possível alimentar os outros com restos não digeridos, mas só com o leite que se formou a partir do próprio sangue.
A peruca é o símbolo mais apropriado para o erudito. Trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de cabelo alheio porque carecem de cabelos próprios. Da mesma maneira, a erudição consiste num adorno com uma grande quantidade de pensamentos alheios, que evidentemente, em comparação com os fios provenientes do fundo e do solo mais próprios, não assentam de modo tão natural, nem se aplicam a todos os casos ou se adaptam de modo tão apropriado a todos os objetivos, nem se enraízam com firmeza, tampouco são substituídos de imediato, depois de utilizados, por outros pensamentos provenientes da mesma fonte.Continuar lendo “Sobre a erudição e os eruditos”
Texto do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860),
extraído do livro A Arte de Escrever (Porto Alegre: L&PM, 2012).
Antes de tudo, há dois tipos de escritores: aqueles que escrevem em função do assunto e os que escrevem por escrever. Os primeiros tiveram pensamentos que lhes parecem dignos de ser comunicados; os outros precisam de dinheiro e por isso escrevem. Pensam apenas para exercer sua atividade de escritores. É possível reconhecê-los tanto por sua tendência de dar a maior extensão possível a seus pensamentos e de apresentar meias-verdades, pensamentos enviesados, forçados e vacilantes, como por sua preferência pelo claro-escuro, a fim de parecerem ser o que não são. É por isso que sua escrita não tem precisão nem clareza. Desse modo, pode-se notar logo que eles escrevem para encher o papel. Assim que alguém percebe isso, deve jogar fora o livro, pois o tempo é precioso. No fundo, o autor engana o leitor sempre que escreve para encher o papel.
Só produz o que é digno de ser escrito quem escreve unicamente em função do assunto tratado. Seria uma vantagem inestimável se, em todas as áreas da literatura, existissem apenas alguns poucos livros, mas obras excelentes. Só que nunca se chegará a tal ponto enquanto houver honorários a serem recebidos. Pois é como se uma maldição pesasse sobre o dinheiro: todo autor se torna um escritor ruim assim que escreve qualquer coisa em função do lucro. As melhores obras dos grandes homens são todas provenientes da época em que eles tinham de escrever sem ganhar nada. A condição deplorável da literatura atual tem sua raiz no fato de os livros serem escritos para se ganhar dinheiro. Qualquer um que precise de dinheiro senta-se à escrivaninha e escreve um livro, e o público é tolo o bastante para comprá-lo. Uma grande quantidade de escritores ruins vive exclusivamente da obsessão do público de não ler nada além do que foi impresso recentemente, do que é atual. A consequência disso é a deterioração da língua.
Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros. Aquele escritor do segundo tipo, que adia o pensamento até a hora de escrever, é comparável ao caçador que busca ao acaso sua presa: dificilmente ele trará muita coisa para casa. Em compensação, a escrita dos autores do terceiro tipo, o mais raro, é como uma batida de caça em que a presa foi previamente cercada e encurralada, para depois ser conduzida a um outro lugar igualmente cercado, onde não pode escapar ao caçador, de modo que agora se trata apenas de apontar e atirar (expor). Esse é o tipo de caça que dá resultado.
No entanto, mesmo entre os escritores pouco numerosos que realmente pensam a sério antes de escrever, é extremamente reduzida a quantidade daqueles que pensam sobre as próprias coisas, enquanto os demais pensam apenas sobre livros, sobre o que outros disseram. Ou seja, para pensar, eles precisam de um forte estímulo de pensamentos alheios já disponíveis. Esses pensamentos se tornam seu próximo tema, de modo que os autores permanecem sempre sob a influência dos outros, sem nunca alcançarem a originalidade. Em contrapartida, aqueles que são estimulados pelas próprias coisas têm seu pensamento voltado para elas de modo direto. Apenas entre eles encontram-se os que permanecerão e serão imortalizados. Evidentemente, trata-se aqui de assuntos elevados, não de escritores que falam sobre a destilação de aguardentes.
Apenas aqueles que, ao escrever, tiram a matéria diretamente de suas cabeças são dignos de serem lidos. Mas os fazedores de livros, os escritores de compêndios, os historiadores triviais, entre outros, tiram sua matéria diretamente dos livros. É dos livros que ela é transferida para os dedos, sem ter passado por qualquer inspeção na cabeça, sem ter pagado imposto alfandegário, nem muito menos ter sofrido algum tipo de elaboração. (Como seriam eruditos alguns autores se soubessem tudo o que está em seus próprios livros!) Por isso, seu texto costuma ter um sentido tão indeterminado que os leitores quebram em vão a cabeça na tentativa de descobrir o que eles pensam afinal. Eles simplesmente não pensam. O livro a partir do qual escrevem muitas vezes foi resultado do mesmo processo. É por isso que se deve ler só raramente algum dos compiladores, já que evitá-los por completo é muito difícil.
Não há erro maior do que acreditar que a última palavra dita é sempre a mais correta, que algo escrito mais recentemente constitui um aprimoramento do que foi escrito antes, que toda mudança é um progresso. As cabeças pensantes são exceções. A regra, em toda parte do mundo, é a corja de pessoas infames que estão sempre dispostas, com todo empenho, a piorar o que foi dito por alguém após o amadurecimento de uma reflexão, dando a essa piora um aspecto de melhora. Por isso, quem quer se instruir a respeito de um tema deve se resguardar de pegar logo os livros mais novos a respeito, na pressuposição de que as ciências estão em progresso contínuo e de que, na elaboração desse livro, foram usadas as obras anteriores. De fato elas foram, mas como?
Com frequência, o escritor não entende a fundo os livros anteriores, além do mais não quer usar exatamente as mesmas palavras, de modo que desfigura e adultera o que estava dito neles de modo muito mais claro e apropriado, uma vez que foram escritos a partir de um conhecimento próprio e vivido do assunto. Muitas vezes, esse escritor deixa de lado o melhor do que tais obras revelaram, seus mais precisos esclarecimentos a respeito do assunto, suas mais felizes observações, porque não reconhece o valor dessas coisas, não sente sua relevância. Só tem afinidade com o que é superficial e insípido. Já ocorreu muitas vezes de um livro anterior excelente ser substituído por novos, muito piores, escritos apenas para ganhar dinheiro, mas que surgem com aspirações pretensiosas e são louvados pelos camaradas dos autores.
Nas ciências, cada um quer trazer algo novo para o mercado, com o intuito de demonstrar seu valor. Com frequência, o que é trazido se resume a um ataque contra o que valia até então como certo, para pôr no lugar afirmações vazias. Às vezes, essa substituição tem êxito por um breve período, em seguida todos voltam às teorias anteriores. Os inovadores não levam nada a sério no mundo, a não ser sua preciosa pessoa, cujo valor querem provar. Só que isso deve acontecer depressa e de uma maneira paradoxal: a esterilidade de suas cabeças lhes aconselha o caminho da negação, e então verdades reconhecidas há muito tempo são negadas. Assim, o curso da ciência muitas vezes é um retrocesso.
O mesmo vale para os tradutores que pretendem, ao mesmo tempo, corrigir e reelaborar seus autores, o que sempre me parece uma impertinência. Escreva seus próprios livros dignos de serem traduzidos e deixe as outras obras como elas são. Sempre que possível, é melhor ler os verdadeiros autores, os fundadores e descobridores das coisas, ou pelo menos os grandes e reconhecidos mestres da área. E é melhor comprar livros de segunda mão do que ler conteúdos de segunda mão. Assim, em geral vale aqui, como em toda parte, a regra: o novo raramente é bom, porque o que é bom só é novo por pouco tempo.Continuar lendo “Sobre a escrita e o estilo”