A arte de envelhecer

O tema da velhice foi objeto de brilhantes filósofos ao longo dos tempos. Um dos melhores livros já escritos sobre o assunto foi A arte do envelhecimento, de Cícero. Ele nota, primeiramente, que todas as idades têm seus encantos e suas dificuldades. E depois aponta para um paradoxo da humanidade. Todos sonhamos ter uma vida longa, o que significa viver muitos anos. Quando realizamos a meta, em vez de celebrar o feito, nos atiramos em um estado de melancolia e amargura. “Todos os homens desejam alcançar a velhice, mas ao ficarem velhos se lamentam”, escreve. Para Cícero, “os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a idade, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade”.

Um  ótimo exemplo disso foi a francesa Jeanne Calment, que morreu aos 122 anos, em 1997. Jeanne foi a pessoa mais velha de que se tem notícia em tempos modernos. “Deus deve ter se esquecido de mim”, brincava. Em seu 110º aniversário, a francesa disse bem humorada: “Eu só tenho uma ruga, e estou sentada em cima dela neste momento”.

Permanecer intelectualmente ativo é uma forte recomendação de Cícero. “A memória declina se não a cultivamos ou se carecemos de vivacidade de espírito”, disse. Cícero lembra que Sófocles em idade avançada ainda escrevia suas tragédias. No fim da vida, Sócrates aprendeu a tocar lira. Catão, na velhice, descobriu a literatura grega. Machado de Assis, para citar um brasileiro, aprendeu alemão também na velhice, língua na qual escreveu seus melhores romances. “A vida segue um curso preciso e a natureza dota cada idade de suas qualidades próprias”, escreveu Cícero. “Por isso, a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos e a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo.” Sem dúvida, ler as palavras de Cícero sobre o envelhecimento pode ajudar a aceitar melhor a passagem do tempo. Em outras palavras: ler Cícero dá mais resultado do que Botox!

Com informações de: Revista Época.

parabola da vida


Faces perdidas no espelho

Tom Hussey é um premiado fotografo americano. Em uma série intitulada “Reflexões”, Hussey mostra idosos olhando no espelho e enxergando-se com a aparência de quando eram jovens. Ele mesmo alega que a ideia surgiu quando estava conversando com um veterano da 2ª Guerra Mundial, chamado Gardner. À beira de seu aniversário de 80 anos, Gardner disse que ainda se sentia como um jovem. A conversa inspirou Hussey a fotografar Gardner olhando para um espelho no banheiro, onde, depois de algumas edições usando fotografias antigas, a montagem mostraria ele vendo a si próprio na juventude. A imagem resultante fez parte de seu portfólio durante algum tempo, até ser lembrada para compor uma peça publicitária para uma marca de remédio contra o mal de Alzheimer. Veja as fotos e, logo abaixo, o poema “Retrato”, de Cecília Meireles:

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RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles

A morte como ela é

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Não é tão simples quanto parece: quando morremos, milhares de partes do nosso corpo estão na ativa tentando reverter o processo. E muita coisa ainda acontece depois que damos o último suspiro. É o que mostra esta matéria da Superinteressante.


Quando Steven Thorpe chegou ao Hospital Universitário de Coventry, no Reino Unido, a equipe médica disse à família que não havia mais nada a fazer. O adolescente de 17 anos havia sofrido ferimentos gravíssimos na cabeça em um acidente de carro e os danos no seu cérebro eram irreversíveis. O diagnóstico era morte encefálica. Mas a família não perdeu as esperanças. O procedimento que comprova a ausência total de atividade cerebral foi realizado mais três vezes, até que o quinto exame revelou ondas cerebrais fraquíssimas – o que significava uma chance de sobrevivência. Duas semanas depois, Steven acordou do coma e começou a se recuperar. O caso, que chamou a atenção da medicina em 2008, mostra que o limite entre a vida e a morte é mesmo tênue. Se um procedimento errado quase acabou com a vida de um jovem em pleno século 21, dá para imaginar por que a morte ainda assusta até mesmo os médicos.

Duzentos anos atrás, quando não existiam aparelhos que identificam os sinais vitais, os diagnósticos errados para o fim da vida eram frequentes. Em 1846, a Academia de Ciências de Paris aceitou que a morte significa a ausência de respiração, de circulação e de batimentos cardíacos. Mas mais de um século depois, outro francês, Paul Brouardel, concluiu que o coração não sustenta a vida sozinho. Uma pessoa decapitada pode ter batimentos cardíacos por uma hora, o que não quer dizer que ela esteja viva. Quando surgiram os respiradores artificiais nos anos 1950, os critérios para definir o fim da vida ficaram ainda mais confusos. Ficou decidido que ele acontece quando as células do cérebro param totalmente de funcionar e desligam o encéfalo, a parte do sistema nervoso central que controla funções automáticas, como a respiração e a circulação. Geralmente, isso acontece depois de acidentes ou AVCs. A morte cerebral permite a doação de órgãos – já que o resto do corpo continua em pleno funcionamento e imune à dor (embora ainda existam relatos de reações parecidas com às da dor na hora da retirada dos órgãos, como batimentos cardíacos acelerados e pressão alta).

Na teoria, o cérebro é como a placa mãe de um computador. Quando ela queima, a máquina não funciona mais, mesmo que todas as outras peças ainda estejam em bom estado. A explicação parece simples. Mas daí a identificar com precisão quando isso acontece é outra história. De certa forma, a primeira definição de morte, a da ausência de circulação e respiração, não está totalmente errada. Estima-se que em 99% dos casos são as falhas no coração e no pulmão que encerram de vez a vida (só 1% dos casos tem origem na morte cerebral). Pense de novo na analogia do computador. O sistema coração-pulmão é a bateria da máquina, que garante o funcionamento das outras peças. Quando essa bateria descarrega, você pode continuar usando o computador ligado à tomada. É o que acontece com grávidas que não têm mais sinais cerebrais, mas que são mantidas “vivas” por aparelhos até dar à luz. De acordo com Dick Teresi, autor do livro The Undeath, desde 1981, pelo menos 22 mulheres tiveram bebês mesmo estando mortas clinicamente. Seus corpos estavam vivos – mas o cérebro já não os controlava mais.

Para compreender a morte, é preciso entender como trabalha a nossa “bateria”. O coração funciona com estímulos elétricos que provocam a contração (que joga o sangue para frente) e o relaxamento (que o enche novamente). É muito importante que esses movimentos sejam sincronizados. Se o coração bater rápido demais, não dá tempo de enchê-lo totalmente e a quantidade de sangue bombeada para o corpo diminui. Bater devagar demais também não é bom sinal, pelo mesmo motivo: vai faltar sangue para manter as condições vitais. Isso é especialmente perigoso para os pulmões. Sem sangue por lá, eles não levam mais oxigênio para as células. Sem oxigênio não há metabolismo e, bem, sem metabolismo as células morrem. Para um médico, a ausência de batimentos cardíacos é uma corrida contra o tempo. “Depois de 8 minutos, a chance é extremamente pequena”, diz o cardiologista Diego Chemello, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Em 2012, porém, o jogador de futebol congolês Fabrice Muamba ficou 78 minutos com o coração parado, e até hoje ninguém sabe como ele retornou a bater. O mais provável é que a atividade elétrica do coração dele nunca tenha zerado totalmente e o oxigênio que ele recebeu por aparelhos tenha garantido sua sobrevivência. Além das batidas irregulares, a parada cardíaca pode ser causada por um infarto, responsável por 70% das mortes súbitas no Brasil. O sangue que chega ao coração pela artéria coronariana vem cheio de glicose, ácidos graxos e sais minerais que controlam a atividade elétrica do músculo. Se essa artéria é obstruída por gordura, o suprimento de nutrientes é interrompido e acontece uma pane elétrica. De fato, o infarto é um problema elétrico. Por isso que o aparelho preferido dos paramédicos de séries de TV se chama desfibrilador. O impacto do choque é de 200 joules, o suficiente para acender uma lâmpada de 100 watts por dois segundos – e para botar nosso coração no ritmo.

Se o coração parar de bater, a circulação é interrompida na mesma hora. Nos três primeiros minutos, a recuperação é quase certa porque o organismo tem reserva de oxigênio e nutrientes (sim, toda a nossa vida só deixa três minutos de economias). Mas isso logo acaba e as células param de funcionar. As do cérebro puxam a fila. É nos neurônios que são feitas as reações químicas e elétricas mais complexas do corpo, que mais precisam de oxigênio. Para se ter uma ideia, o tecido cerebral recebe 10 vezes mais sangue que o muscular, que realiza uma função mecânica e bem menos complicada. “Depois de cinco minutos, pode haver danos permanentes”, diz o cardiologista Guilherme Fenelon. A consequência pode ser perda da fala ou dos movimentos, por exemplo. Mas também pode ser bem mais esquisita: em 2011, a escocesa Debbie McCann acordou de um derrame com um problema que fez sua fala ficar parecida com sotaque italiano. E teve também o caso do jogador de rúgbi que saiu do armário depois de um AVC. No fim das contas, seu corpo não foi feito para viver para sempre. No fim, o coração vai parar de bater, a respiração vai cessar e, como uma lâmpada, o cérebro vai se apagar.


Uma nova morte

Ela era a única certeza que tínhamos na vida. Agora, os avanços da ciência estão criando dúvidas que nunca tivemos antes e revolucionando o jeito como encaramos a morte


Em 1993, a assaltante Trisha Marshall, de 28 anos, foi internada num hospital da Califórnia com um tiro na cabeça e grávida de 17 semanas. Na UTI, a falência do seu cérebro foi diagnosticada. Seguindo os padrões médicos e legais, Trisha foi considerada morta. Mas o corpo demoraria a sair do hospital. A pedido da família, os médicos optaram por mantê-lo respirando por aparelhos até que o filho nascesse. E ele nasceu. Foi dado à luz por mulher clinicamente morta havia 3 meses. A história de Trisha mostra um avanço espetacular da ciência. Graças a aparelhos que reproduzem a função dos órgãos vitais, a medicina consegue manter funcionando, por tempo indeterminado, um corpo com quadro irreversível. Quanto mais olhamos para as conseqüências dessa novidade, porém, mais fica claro que ainda não aprendemos a lidar com ela. Como a pesquisa em células-tronco e o aborto exigem uma resposta sobre quando começa a vida, assunto da edição de novembro da Super, os avanços da medicina atingem a outra ponta do debate: um corpo que funciona é um corpo vivo? Quando exatamente morremos?

Basta lembrar as polêmicas que esquentaram 2005 para perceber os problemas causados pela dificuldade de responder a essa pergunta. Em março, a decisão sobre manter ou não a alimentação de Terri Schiavo, que vivia em estado vegetativo havia 15 anos, parou os EUA e envolveu do presidente Bush à Suprema Corte. Em Franca, interior de São Paulo, Jeson de Oliveira tentou na Justiça autorização para a eutanásia do filho, inconsciente e desenganado pelos médicos por causa de uma doença degenerativa. No cinema, os ganhadores do Oscar de melhor filme e melhor filme estrangeiro, Menina de Ouro e Mar Adentro, falam sobre a vontade de morrer. E dão a dica: a postura que adotamos diante da morte está passando por uma profunda e barulhenta transformação.

Dúvidas sobre o momento da morte surgiram no século 18, quando relatos de pessoas enterradas vivas assustavam a Europa. Em 1740, o anatomista francês Jacques-Bénigne Winslow publicou artigo levantando dúvidas sobre como comprovar que alguém estava de fato morto. E em 1785, o médico britânico William Tossach provou que um homem afogado (e dito morto) poderia ser ressuscitado ao encher seus pulmões de ar. Nesse período foram inventados os mais bizarros métodos para verificar o óbito. A técnica do médico francês Jean Baptiste Vincent Laborde consistia em puxar a língua do defunto por 3 horas. Mais tarde, ele inventaria uma máquina à manivela que executava a tarefa. Para a elite da época, o medo de ser enterrado vivo justificava qualquer esforço.

Hannah Beswick, que morreu no final do século 18, deixou uma generosa quantia para que seu médico não deixasse que a enterrassem por 100 anos. Todos os dias, ele e duas testemunhas examinavam o corpo embalsamado à procura de sinais de vida. Como nada acontecia, o médico transferiu o cadáver para um caixote, que ele abria uma vez por ano. E, quando morreu, passou a missão a outro médico. Somente em 1868 o corpo da senhora Beswick foi sepultado. Mas a maioria dos médicos da época mantinha-se fiel à antiga técnica de verificação de morte: a putrefação. Na Alemanha, cidades construíam câmaras mortuárias onde os cadáveres eram vigiados e mantidos até começarem a apodrecer. Apenas em 1846 começaram a ser estabelecidos os critérios para determinar o fim da vida. Naquele ano, o francês Eugene Bouchut ganhou um prêmio da Academia de Ciências de Paris pelo “melhor trabalho sobre os sinais da morte e as formas de prevenir sepultamentos prematuros”. Sua proposta: observar durante 10 minutos 3 sinais da morte – ausência da respiração, dos batimentos cardíacos e da circulação. “Essa ficou conhecida como a tríade de Bouchut e passou a ser adotada pela medicina de um modo geral”, diz Marcos de Almeida, professor de medicina legal e bioética da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Foi assim que o coração ganhou status de órgão principal da vida; e sua parada se tornou uma indicação definitiva da morte.

Mas já no final do século 19 o legista Paul Brouardel verificou que o coração de pessoas decapitadas continuava a bater por até uma hora. Concluiu, então, que a morte não era uma questão de coração e pulmão, mas de sistema nervoso central. Ou seja, é impossível que um indivíduo sobreviva sem cabeça, ainda que seu coração funcione. A observação de dano ao sistema nervoso central foi somada à tríade: se, sob um forte feixe de luz, a pupila estiver dilatada, quer dizer que as funções neurológicas não existem mais. É sinal de morte. O último suspiro do batimento cardíaco como critério de vida aconteceu nos anos 50, com a fabricação dos respiradores artificiais. Ninguém duvida da importância do respirador: ele reduziu a mortalidade de recém-nascidos de 70% para 10% e foi o primeiro passo para a criação das Unidades de Terapia Intensiva, as famosas UTIs, concluídas na década de 1970 com equipamentos que reproduzem a função de órgãos. Aparelhos de diálise substituíram os rins, aspiradores deram conta das secreções. As batidas do coração passaram a ser controladas por estímulos elétricos do marcapasso e reanimadas pelo desfibrilador. O conceito de morte ficou ainda mais bagunçado.

“Os médicos se deram conta de que poderiam manter quase indefinidamente os pacientes com os aparelhos”, diz Marcos de Almeida. Mas a medicina sabia também que quem tivesse danos irreversíveis no cérebro ficaria para sempre na cama, inconsciente e dependente das máquinas. Por isso, alguém precisava determinar o que fazer com aquelas pessoas meio mortas, meio vivas. Em 1957, um grupo de médicos franceses foi ao Vaticano pedir ajuda. O papa Pio 12 respondeu 3 dias depois. “A morte não é território da Igreja”, afirmou no texto O Prolongamento da Vida. “Cabe aos médicos dar sua definição”. Em 1968, um comitê foi formado na Universidade de Harvard para estabelecer critérios mínimos de morte. O grupo determinou que a parada total e irreversível das funções encefálicas equivale à morte total. A ideia é que existe um ponto a partir do qual a destruição das células do tronco cerebral é de tal ordem que o indivíduo não tem mais como se recuperar. Esse momento engloba toda a atividade encefálica, não apenas lesões que deixam uma pessoa em coma ou inconsciente para sempre. Desde então, o padrão de Harvard vem sendo adotado pela maioria dos países, inclusive o Brasil.

A formação do comitê em 1968 não foi por acaso. Além da evolução dos aparelhos de suporte de vida, transplantes de rins estavam sendo realizados com sucesso e, meses antes, o primeiro transplante de coração havia sido feito na África do Sul. Diagnosticar a morte com o máximo de antecedência, portanto, possibilitaria manter tecidos e órgãos intactos. E viabilizaria os transplantes. Para entender o porquê, o melhor é acompanhar uma pessoa clinicamente morta desde sua chegada a um hospital até seu corpo ficar rígido e gelado. Um jovem chega à UTI de um pronto-socorro com trauma de crânio causado por um acidente de carro. É um caso parecido com o que matou Ayrton Senna, em 1994. O paciente respira por aparelhos desde que foi atendido pela ambulância, mas os médicos logo se dão conta de que seu caso é irrecuperável. Mesmo assim, ninguém se atreve a dar o diagnóstico de morte cerebral. “Somente profissionais da neurologia podem protocolar esse tipo de óbito”, diz a neurocirurgiã Margarida Conceição, que diagnosticou mais de 300 casos assim. Quando entra na sala, o neurocirurgião começa a buscar algum reflexo cerebral. O primeiro exame consiste no velho teste da sensibilidade das pupilas, seguido de uma puxada suave do tubo de respiração do paciente. Em pessoas com o cérebro ativo, essa ação provoca tosse ou vômitos. Depois, o médico faz o teste dos “olhos de boneca”, virando a cabeça para o lado para ver se os olhos acompanham o movimento ou ficam parados, como se fossem de brinquedo.

Outro exame é ainda mais estranho: colocar soro gelado em um dos ouvidos do paciente. Se os olhos desviarem para o lado contrário da água, ainda existe algum sinal de vida cerebral. Se nenhuma das tentativas der resultado, passa-se ao teste de apneia: o médico desconecta o ventilador que mantém a respiração para ver se há tentativa de buscar ar por conta própria. Se a taxa de oxigênio no sangue começa a baixar, os médicos rapidamente reconectam o aparelho. Mas certos de que o tronco encefálico, responsável pelo ato involuntário da respiração, não funciona mais. Apesar de realizado em todo o mundo, o teste de apneia é contestado por algumas vozes. O exame, exigido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) para a comprovação de falência encefálica, é apontado como capaz de causar a morte em vez de diagnosticá-la. Diversos estudos, como o trabalho publicado por uma equipe da Universidade do Estado de Nova York na revista Archives of Neurology, apontam os riscos da apneia, que poderia provocar queda de pressão, reduzindo o fluxo sanguíneo no cérebro e, eventualmente, matando pacientes recuperáveis. E mesmo defensores do teste de apneia reconhecem que não há consenso sobre o exame, como mostrou estudo do holandês Eelco Wijdicks publicado na revista Neurology. Mas os argumentos são contestados pelo CFM. “Os critérios em uso correspondem aos conhecimentos científicos atuais”, diz Solimar Pinheiro da Silva, coordenador da comissão que elaborou a resolução sobre morte encefálica. “O teste é o último a ser feito. O paciente é monitorado todo o tempo e recebe oxigênio na traqueia.”

Além da apneia, há exames toxicológicos: é preciso ter certeza que o sistema nervoso não está em pane pela ingestão de álcool, barbitúricos ou analgésicos. Também é feita uma angiografia, a radiografia de quatro vasos cerebrais em busca de algum fluxo sanguíneo. Se as respostas são negativas, o trabalho do neurocirurgião está encerrado, mas não, ele ainda não pode assinar o óbito dizendo que o jovem do carro está morto. Pela lei, todo o procedimento tem de ser repetido pelo menos seis horas depois. Enquanto isso, a polêmica continua. “O único propósito do atual diagnóstico de morte cerebral é obter órgãos viáveis para transplante”, diz o anestesista britânico David Hill, que participou do encontro Sinais da Morte, promovido pela Academia Pontifícia de Ciências, no Vaticano. O simpósio patrocinado pela Igreja aconteceu como parte de uma tentativa de discutir o conceito de morte cerebral criado pelo comitê de Harvard. Para Hill, os atuais critérios de diagnóstico não são benéficos ao paciente, mas apenas para o receptor dos órgãos – ele preferiria ver a apneia substituída pela hipotermia, que resfria o corpo para 33 ºC por até 24 horas na tentativa de recuperar alguma atividade cerebral. Esse tratamento, porém, é considerado caro, pode deteriorar a qualidade do órgão que será doado e tem a eficácia colocada em dúvida pela maioria dos médicos.

Quando a repetição do exame também apontar morte encefálica, um grupo especializado em falar com famílias sobre a doação de órgãos é destacado para o caso. Se os parentes concordarem, médicos voltam para a UTI, onde o corpo, legalmente morto há algumas horas, respira por aparelhos, tem o coração batendo e órgãos vitais perfeitos. Aquela pessoa nunca mais vai sentir, ver ou ter algum traço de pensamento racional, mas, quando o bisturi penetrar na pele, é possível que ela dê um pulo. Parece filme de terror, não? Trata-se do “efeito lazaróide” (de Lázaro, aquele que Jesus ressuscitou). Não significa que a pessoa teve alguma dor: é apenas um reflexo da medula espinhal. Por isso, alguns médicos costumam aplicar anestesia geral antes da operação.

Mas se a pessoa já está morta, por que anestesiá-la? Em 2000, a revista do Royal College of Anaesthetists, de Londres, recomendou usar anestesia em pacientes com morte encefálica. No Brasil, entretanto, essa prática não é costume. “Doadores de órgãos não precisam de anestesia, pois estão em coma aperceptivo, arreativo e irreversível”, diz Maria Cristina Ribeiro de Castro, vice-presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos. Quando um anestesista participa da operação, é para manter a saúde dos órgãos. “Ele se concentra na hidratação, oxigenação, pressão arterial e sobretudo nos hormônios que ativam os órgãos e que, com a morte encefálica, a hipófise deixou de produzir”, diz Elias David Neto, supervisor da equipe de transplante de rins e pâncreas do Hospital das Clínicas de São Paulo. “É como operar um paciente comum, mas que não sente dor”. Após a retirada dos órgãos, os aparelhos são finalmente desligados. O sangue começa a parar, o coração dá as últimas batidas, as células deixam de se reproduzir. Depois de três horas, ainda é possível fazer um braço se contrair com estímulos elétricos. Só então o corpo do jovem que se acidentou com um carro fica duro, pálido e frio, aquilo que as pessoas geralmente aceitam como morte.

A discussão para determinar a morte existe também quando não há órgãos em jogo, mas o fim da vida é apenas questão de tempo. Trata-se da antiga polêmica da eutanásia. Mas em casos assim, as questões técnicas viram um difícil dilema moral. É correto deixar de socorrer um bebê que ainda respira? O valor sagrado da vida existe mesmo quando só possibilita mais sofrimento? Devo ajudar a matar meu irmão que não quer ficar para sempre imóvel numa cama? A questão é especialmente difícil para os médicos. São profissionais que passam sete anos aprendendo a lutar contra a morte para descobrir, na UTI, que às vezes devem agir a favor dela. “Ficamos entre duas opções: sermos assassinos ou torturadores”, diz Almeida, da Universidade Federal de São Paulo.

A lei no Brasil encara como homicídio a eutanásia, o ato deliberado de apressar o fim de quem está morrendo. A ortotanásia, a “morte no momento certo”, é considerada omissão de socorro e tem pena de 1 a 6 meses de prisão. Apesar disso, a ortotanásia é frequentemente praticada. O médico retira os aparelhos e deixa o doente seguir seu curso de morte. Trata-se do modo mais comum de se morrer nas UTIs pediátricas do país. Dois estudos publicados em março pela Revista Brasileira de Pediatria, sobre 167 casos ocorridos em 2002 nas principais UTIs pediátricas do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, mostram que pelo menos 36% das crianças morreram após a “limitação do suporte de vida”, expressão que reúne decisões como não entubar, não reanimar e até retirar o suporte vital. O estudo observou que pelo menos 30% desses casos são omitidos ou reportados contraditoriamente nos registros dos hospitais. Mas há quem veja na própria legislação fundamentos para apressar a morte quando o tratamento só prolonga o sofrimento. “O 1º artigo da Constituição assegura a dignidade da pessoa humana”, afirma Lívia Pithan, professora de Direito da PUC-RS. “Esse direito deve ser estendido até os últimos momentos. Casos como o de Terri Schiavo poderiam ter esse tratamento legal.” A chamada “obstinação terapêutica”, ato de prolongar o tratamento sem benefícios ao paciente, é condenado até pela Igreja. Na mesma alocução de 1957, Pio 12 afirmou que, “quando houver desesperança, os médicos não devem se valer de instrumentos extraordinários para prolongar indefinidamente a vida”.

Mesmo com amparo legal e religioso, ainda faltam critérios para estabelecer quando é lícito suspender o suporte de vida. Em julho, o Conselho Regional de Medicina de São Paulo propôs resolução considerando ético limitar ou suspender procedimentos que prolonguem a vida do doente terminal. “Queremos que os médicos discutam com a família, assim como quando vão realizar uma cirurgia, a questão da morte”, diz Reinaldo Ayer de Oliveira, conselheiro responsável pela resolução. Hoje, em somente 9% dos casos a família é informada antes do desligamento dos aparelhos. Como ainda não se sabe direito o que é certo ou não, a questão acaba sendo resolvida por um fator bem prático: grana. Dependendo se o plano de saúde estiver ou não pagando a diária da UTI, a recomendação da família pode mudar de “doutor, faça o possível para mantê-lo vivo” para “só queremos que ele não sofra mais”. O dinheiro também influencia a decisão dos médicos. Se o paciente atendido por um convênio estabiliza em estado vegetativo, é comum ser encaminhado para casa, o que a família nem sempre recebe como boa notícia. Será preciso alguém sempre por perto para dar banho, retirar as fezes e secar a pele com lâmpadas para evitar escaras. “A época em que os pacientes em coma mais infeccionam, precisando voltar ao hospital, é o Natal”, diz Margarida. “Muitas pessoas largam o paciente no hospital, desligam os telefones e só voltam depois do Ano Novo.”

Imagine a cena. Desenganado pelos médicos, sabendo que tem câncer por todo o corpo, você adquire doses letais de barbitúrico. Vai para casa e espera o tempo passar. Quando a dor ficar insuportável, antes de não conseguir mais ficar em pé, você reúne família e amigos, coloca as músicas preferidas e desfruta um bom jantar. Depois, toma o veneno que guarda há meses e dá adeus ao mundo. Mortes assim já acontecem três vezes por mês no estado de Oregon, nos Estados Unidos. Desde 1997, uma pessoa em estado terminal pode receber instruções sobre como praticar suicídio quando a dor for insuportável. Esse caso é exemplo de um debate que cresce: a qualidade de vida do paciente e da família durante a morte. “Saber que a morte está próxima pode, sim, ser encarado como uma vantagem”, afirma o psicólogo hospitalar Cedric Nakasu. Se conseguir aceitar o prognóstico dos médicos e parar de lutar desesperadamente contra a morte, a pessoa pode aproveitar o tempo que lhe resta resolvendo problemas pendentes e se despedindo. Tendo uma morte serena. “O paciente tem chance de recordar, reviver e ressignificar seu passado. Esses três ‘erres’ definem uma boa morte”, diz Nakasu.

A ideia de qualidade de vida nos momentos finais também foi influenciada por outra constatação. Baseada em entrevistas com dezenas de pacientes terminais, a psiquiatra americana Elisabeth Kübler-Ross concluiu que a maioria deles sofre, além da dor física, com a separação da família, problemas financeiros, vergonha e até inveja de quem não está doente. “Num hospital, a pessoa deixa de ser ela mesma, de ter suas coisas, roupas e funções para se tornar apenas um paciente, tendo que obedecer regras, horários para dormir e comer que não são os seus”, diz Nakasu. É por isso que muita gente prefere ficar em casa com a família a ganhar uns dias ao lado de outros doentes, equipamentos e enfermeiras. No Brasil, alguns estados já traçam leis nessa direção. Em São Paulo, o paciente terminal pode decidir quando e onde quer morrer. Uma lei sancionada pelo então governador Mário Covas em 1999 estabelece o direito de um doente recusar o prolongamento de sua agonia e optar pelo local da morte. O próprio Covas, que morreu de câncer, beneficiou-se dessa lei. O papa João Paulo II fez a mesma escolha. Silenciado pelo mal de Parkinson, morreu em seu apartamento no Palácio Apostólico.

Enquanto a retirada de aparelhos e o direito de arbitrar sobre a própria morte começam a ser considerados normais, a eutanásia permanece um tabu no Brasil. Não que ela não aconteça. “Muitos médicos, diante de pacientes terminais que sofrem dores atrozes, aplicam sedativos acima do limiar tóxico, sabendo que isso resultará em morte”, diz Almeida. “Mas isso, é claro, nunca aparece nos registros.” Em alguns casos, a ação de matar o paciente produz menos sofrimento que o ato de não prestar socorro. O caso da americana Terri Schiavo é o melhor exemplo. Após os tribunais americanos decidirem pela retirada dos tubos de alimentação, Terri levou 13 dias para morrer de fome e sede. “Seria bem mais ético aplicar uma injeção letal para reduzir o sofrimento”, diz Almeida.

Essa opinião toca num ponto crucial da ética cristã: sempre preferimos omissões a ações. Em vez de aplicar uma injeção letal para acabar com a vida de um doente irreversível, achamos mais ético retirar seus aparelhos e deixar que ele siga seu curso “natural”. “Qual a base ética dessa distinção?”, pergunta o filósofo australiano Peter Singer, no livro Rethinking Life and Death (“Repensando a Vida e a Morte”, sem edição brasileira). “Tendo optado pela morte, devemos nos certificar de que ela se dê da melhor maneira possível”. Publicado em 1994, o livro defende que nossos fundamentos éticos não estão adaptados ao mundo real. E que o valor sagrado atribuído a qualquer vida humana, um dos traços mais forte da nossa cultura, está se diluindo em favor de uma vida com menos sofrimento. Por exemplo: costumamos afirmar que a vida começa se não na concepção, algumas semanas depois dela. Mas podemos concordar com interromper essa vida para evitar o sofrimento de um feto anencéfalo e de sua mãe ou com a pesquisa de embriões se a pesquisa com células-tronco fizer aleijados andar.

Segundo Singer, esse jeito de pensar está fazendo parte das decisões diárias sem nos darmos conta. Em vez das regras tradicionais como “não matar” ou “crescei e multiplicai-vos”, médicos, doentes e familiares estão preferindo “responsabilize-se pelas consequências de seus atos” e “respeite o desejo de viver e morrer”. Ou seja: o caráter sagrado da vida pode estar ruindo. Se Singer estiver certo, discussões sobre o começo e o fim vão continuar. Mas ao menos será mais fácil entender por que vida e morte, as duas questões fundamentais do ser humano, estão causando tanta polêmica.


Seu coração vai parar de bater

Crônica de Rodrigo da Silva.

Chegará um dia em que o seu coração parará de bater. A sua pupila dilatará. A sua pele ficará pálida e a sua temperatura corporal esfriará. Você ficará inteiramente esquálido; e então roxo. O seu sangue se tornará mais ácido com o acúmulo de dióxido de carbono. E as suas células começarão a se dividir, esvaziando as enzimas dos tecidos. O cálcio endurecerá os seus músculos. E o seu corpo passará a exalar um odor acre, fruto de uma mistura química constituída por mais de quatrocentos compostos orgânicos.

Tudo o que constitui a sua existência entrará em colapso – o que significa dizer que a sua linha do tempo chegará ao derradeiro ponto final. A partir destes preciosos segundos você não deixará mais qualquer rastro nesta bola azul gigante perdida no espaço. Não haverá mais nenhum som. Nem qualquer imagem. Nem tato. Nem cheiro. Restará apenas o inadiável: carne em processo de decomposição, um fenômeno da natureza conhecido como morte, óbito, falecimento, perecimento, fim.

E não se engane, o mundo permanecerá no mesmo lugar. As partidas de futebol não farão um minuto de silêncio em homenagem à sua história. Nas ruas os carros continuarão buzinando aleatoriamente, e nas emissoras de TV os apresentadores de telejornal prosseguirão dando notícias que você jamais ouvirá. Nas esquinas os pedestres insistirão em atravessar as ruas como se você nunca tivesse existido.

No seu círculo social, a implacável indiferença tomará conta do tempo. Os seus amigos permanecerão dedicando vastas horas ao consumo dos milhões de vídeos de gatinhos disponíveis na internet. E nas redes sociais os seus inimigos pleitearão longas batalhas retóricas sobre política com pessoas que eles nunca viram. Os seus entes mais próximos padecerão de sofrimento nas primeiras semanas, mas paulatinamente voltarão a executar os processos naturais da vida, adaptando-se à sua ausência.

Tudo permanecerá intocado: as baladas, os bares, os programas de auditório, o carnaval, os shows de humor, os barulhos ensurdecedores dos carros rebaixados. Virá a primavera, o verão, o outono, o inverno. E então tudo se repetirá num novo ciclo. Você deixará de ser carne para virar memória. E o tempo não falhará em transformar sua existência numa vaga lembrança, um túmulo abandonado no meio de um cemitério, uma refeição ordinária numa quarta-feira entediante para uma porção de bactérias e insetos.

Dentro da gente habita uma bomba relógio invisível. Ninguém sabe exatamente o prazo dela, mas o artefato abstrato atravancado é religiosamente pontual. Cada instante da vida é uma escolha sobre como gastar o tempo que o tempo tem. Mesmo a decisão que levou à leitura deste texto até aqui. Pode parecer clichê de empreendedor de palco, melodrama de parachoque de caminhão, mas você é literalmente a única pessoa no mundo capaz de administrar cada minuto que resta entre o término desta frase e o seu túmulo.

Nesse caminho, tentarão até prometer vagas soluções, parceladas em doze vezes sem juros. Mas acredite: não há outro indivíduo neste planeta apto a salvá-lo da apatia e da improdutividade. Nem quem tenha a capacidade de libertá-lo dos relacionamentos tóxicos, dos subempregos e dos vampiros emocionais. Há um monte de gente bacana lá fora esperando encontrar gente bacana. E há um monte de babaca tentando sugar cada gota da sua energia. Há um monte de coisas grandes prontas para serem conquistadas. E há o tempo perdido. É você quem determina o que fazer com o que resta desse relógio.

Chegará um dia em que o seu coração parará de bater.

Mas não hoje. Não agora.


Sobre a morte e o morrer – Rubem Alves

Celebra-se hoje no Brasil o Dia de Finados, uma data em que milhões de pessoas, muitas delas em visitas aos cemitérios, relembram e homenageiam entes queridos que já se foram. Aproveitando a ocasião, compartilho a crônica abaixo, escrita por Rubem Alves e publicada no jornal Folha de S.Paulo do dia 12 de outubro de 2003.


Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: “Morrer, que me importa? O diabo é deixar de viver”. A vida é tão boa! Não quero ir embora. Como ia dizendo, não tenho mais medo da morte, mas temo ainda porque o morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo. E pela solidão, já que ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte. E medo também de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza. Mas a medicina não entende.

Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: “O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?”. O médico olhou-o com olhar severo e disse: “O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?”. Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava.

Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que conseguia com esforço movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: “Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei”. Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusaram, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.

Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama. De repente um acontecimento feliz: o coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias.

Dirão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a reverência pela vida é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais? Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais.

A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia. Muitos dos chamados “recursos heroicos” para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da reverência pela vida. Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: “Liberta-me!”.

Dizem as escrituras: “Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer”. A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A reverência pela vida exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a morienterapia, o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs, aparelhos invasivos e hospitais.

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É possível morrer de velhice?

Reportagem de Roberta Jansen para o Estadão.

O atestado de óbito da rainha Elizabeth II, do Reino Unido, trouxe como causa da morte a idade avançada da monarca. Aos 96 anos, ela não apresentava nenhum problema de saúde. Quando alguém muito idoso morre sem nenhuma doença aparente, os médicos precisam necessariamente apontar uma causa? Ou é aceitável dizer que a pessoa “morreu de velhice”? Com a população mundial cada vez mais longeva e os avanços da medicina, o debate cresce em todo o mundo.

A velhice não é listada no Código Internacional de Doenças (CID). Trata-se da lista da Organização Mundial de Saúde (OMS) usada no mundo todo como ferramenta de diagnóstico que reúne mais de 17 mil condições. No início do ano, houve uma discussão sobre a inclusão do termo, mas prevaleceu o entendimento de que velhice não é doença e, por isso, não poderia ser listada no CID.

Entre parte dos médicos, também há uma interpretação de que atribuir a morte à velhice é como se o profissional de saúde não tivesse investigado detalhadamente o que levou o paciente ao óbito. A praxe é que a causa da morte seja alguma condição da lista. Independentemente disso, alguns países aceitam que se use o termo no atestado de óbito. É o que ocorre no Reino Unido e no Japão, por exemplo.

No Reino Unido, é possível assinalar no atestado de óbito que alguém morreu de “old age”. Foi o que aconteceu com a rainha e seu marido, Philip, morto aos 99 anos em abril do ano passado. Mas essa anotação é aceitável apenas quando o documento é assinado por um médico que acompanha o paciente há muitos anos e não há registro de nenhuma doença. No Japão, a morte por velhice também é aceita no atestado de óbito e é a terceira mais comum no país, perdendo apenas para câncer e problemas cardíacos. Mas é preciso que nenhuma outra causa identificável exista para que o termo seja usado. No Brasil, prevalece o entendimento de que velhice não é doença, por isso não deve figurar como causa de morte.

Especialistas apontam alguns problemas em se usar “velhice” como causa do óbito. Além da interpretação que velhice seria uma enfermidade, o uso do termo pode gerar preconceito contra aqueles que têm mais idade. Pode ainda atrapalhar estatísticas de doenças infectocontagiosas (que comumente causam a morte de idosos). “Não é que haja proibição, mas uma recomendação para que isso não ocorra, que não se coloque causas vagas no atestado de óbito”, explica a geriatra Elisa Franco de Assis Costa, professora da Universidade Federal de Goiás (UFG) e integrante do Conselho Federal de Medicina (CFM). “Precisamos de informações mais precisas para planejar nosso sistema de saúde, por exemplo, para gerar dados estatísticos importantes. Temos de tentar ser o mais precisos possível.”

Mas independentemente do entendimento oficial, do ponto de vista médico, é possível morrer de velho? A questão também gera controvérsia. Alguns médicos acham que a idade avançada por si só não causa a morte, mas sim alguma outra condição subjacente ao envelhecimento. Outros especialistas, no entanto, pensam de forma diferente. Eles acreditam que o organismo se desgasta conforme o tempo passa e, num determinado momento, começa a falhar. Para eles, essa morte poderia ser considerada de velhice.

“Não usaria velhice como causa de morte, como se velhice fosse uma doença”, afirma a geriatra Roberta França, professora da Universidade Cândido Mendes. “Todos vamos nascer, crescer, nos desenvolver e morrer. É a ordem natural da vida. Ninguém vai ficar para semente. Há um declínio funcional trazido pela idade, os órgãos vão perdendo sua capacidade, mas não significa que seja doença, um processo patológico”. Coordenadora da Câmara Técnica de Geriatria do CFM, a médica Helena Maria Carneiro Leão concorda com a colega. “Toda a geriatria entende que o envelhecimento é uma fase da vida, não uma doença. Então, não se coloca velhice como causa principal da morte. Em geral, colocamos a intercorrência que gerou a parada cardiorrespiratória ou a morte encefálica”.

Os japoneses, por sua vez, têm interpretação diferente. “Não é uma doença, mas algo natural”, afirmou o médico japonês Kazuhiro Nagao, especialista em cuidados paliativos, em entrevista ao Wall Street Journal na semana passada. “Não é um fim trágico. É o tipo de morte considerada ideal no Japão. É parte da nossa cultura.”


Arrependimentos terminais

Artigo de Marcelo Coelho para o jornal Folha de S.Paulo de 2 de janeiro de 2013.

Em Antes de Partir, Bronnie Ware, uma cuidadora especializada em doentes terminais fala do que eles mais se arrependem na hora de morrer. Poderia ser uma boa ideia para o final de ano. A época, como se sabe, é boa para arrependimentos e resoluções. Infelizmente, Antes de Partir acaba se revelando um livro de autoajuda, não muito diferente das dezenas que existem por aí. Às vésperas da morte, as pessoas com quem a autora conversou não têm muito de notável a dizer. Há cinco arrependimentos básicos, cada um dos quais explicado em capítulo próprio. “Não deveria ter trabalhado tanto”, diz um dos pacientes. “Desejaria ter ficado em contato com meus amigos”, lembra outro. “Desejaria ter a coragem de expressar meus sentimentos”, confessa um terceiro. Outro alerta: “Não deveria ter levado a vida baseando-me no que esperavam de mim”. Por fim, a chave de ouro: “Desejaria ter-me permitido ser mais feliz”. Claro que, nesse nível de generalidade, tudo se equivale. Mas esses arrependimentos também dizem um bocado sobre o tipo de personalidade mais comum em nossa época.

Se tivesse sido escrito há 100 anos, ou 50, quem sabe, sem dúvida seriam outros os arrependimentos terminais. “Gostaria de ter sido mais útil à minha pátria”, diria alguém. “Gostaria de ter deixado um patrimônio maior para meus herdeiros”, poderia suspirar o pai de família. “Deveria ter sido mais obediente a Deus”, confessaria um terceiro. Ideias de auto-sacrifício, de dever, de empenho na construção do futuro da comunidade, tudo isso compunha um tipo de personalidade sem dúvida mais rígido e convencional, para quem os conceitos de honra, de virtude e de disciplina ainda faziam sentido. É o que desaparece nos arrependimentos contemporâneos. Menos do que morrer com a sensação do nome limpo e do dever cumprido, morre-se com a sensação de um ego insatisfeito.

A insatisfação existe porque o ego, afinal, é insaciável. Por mais que eu me dedique a ser feliz em cada momento, a ser sincero com meus desejos, a fugir das obrigações, sempre vou achar que não me dediquei o bastante a mim mesmo. A vida autocentrada será, desse modo, inevitavelmente frustrante. Mais que isso, vida e frustração se tornam sinônimos. Quando o paciente terminal reclama de não ter pensado mais em si mesmo, ele no fundo está reclamando apenas de não estar podendo viver mais. Não digo, é claro, que seja fácil morrer em qualquer circunstância. Mas o problema dos pacientes de Bronnie Ware, e dos leitores de seu livro, não é a falta de autoajuda. É o excesso de autoajuda; quem só se preocupa em atender a si mesmo sempre se sentirá desatendido.

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Passagens imorais da Bíblia

Veja também: Quem dividiu a Bíblia em capítulos e versículos?

À medida que leio a Bíblia, vou reunindo passagens do Velho Testamento que me chocam e causam grande repulsa. Elas contém ordens explícitas de Deus para a prática de escravidão, torturas, estupros, sequestro e abuso de escravas sexuais, apedrejamentos, chacinas cruéis, massacres de recém-nascidos e inúmeros outros crimes de guerra abomináveis a qualquer ser humano decente.

Embora também sejam, segundo a grande maioria dos ramos do cristianismo, “Palavra de Deus”, “regra de fé e prática” etc., essas passagens costumam ser, por motivos óbvios, propositalmente ignoradas, esquecidas e quase nunca são pregadas ou lidas publicamente nas igrejas (tampouco nas sinagogas).

A maldade presente nessas passagens é tão evidente que eu não vou gastar tempo comentando cada uma delas, apenas menciono a referência e um brevíssimo contexto para situar o leitor. Também não quero dizer nada com isso. Explicar ou tentar justificar tais passagens é tarefa dos teólogos. Apenas apresento aqui aquilo que me deixa perplexo e enojado. Uma certeza que tenho é que tais mandamentos e práticas são objetivamente errados em qualquer época, lugar ou circunstância; e qualquer tentativa de justificá-los é fruto de fanatismo religioso.

Detalhe técnico importante: todas as vezes que se menciona “O Senhor” nas traduções modernas, como a NVI que você lê abaixo, o que está no original em hebraico é o tetragrama, nome próprio do Deus de Israel: יהוה (YHWH). Sua pronúncia é incerta, mas, em português, esse nome é geralmente transliterado como Javé, Jeová ou Yahweh. Seguindo uma tradição que remonta à Septuaginta, a maioria das traduções modernas prefere a palavra “Senhor”.


Êxodo 21: 1-6, 7-11, 20-21, 26-27. Contexto: ordens de Javé (Deus) dadas a Moisés, logo após a instituição dos dez mandamentos.

São estas as ordenanças que você estabelecerá para o povo: Se você comprar um escravo hebreu, ele lhe servirá por seis anos, mas, no sétimo ano, será liberto sem pagar nada. Se chegou solteiro, solteiro receberá liberdade; se, porém, chegou casado, a mulher será liberta com ele. Se o senhor dele lhe tiver dado uma mulher, e esta lhe tiver dado filhos ou filhas, a mulher e os filhos pertencerão ao senhor; somente o homem sairá livre. Se, porém, o escravo declarar: ‘Eu amo o meu senhor, a minha mulher e os meus filhos, e não quero receber liberdade’, o senhor dele o levará diante dos juízes. Terá de levá‑lo à porta ou à lateral da porta e furar‑lhe a orelha. Assim, ele será seu escravo por toda a vida.

Se um homem vender a filha como escrava, ela não será liberta como os escravos homens. Se ela não agradar ao senhor que a escolheu para si como mulher, então deverá permitir que ela seja resgatada. Não poderá vendê‑la a estrangeiros, pois isso seria deslealdade. Se o senhor dela a escolher para o seu filho, deverá tratá‑la de acordo com os direitos de uma filha. Se o senhor tomar uma segunda mulher para si, não poderá privar a primeira de alimento, de roupas e das relações sexuais. Se não lhe prover essas três coisas, ela poderá ir embora sem precisar pagar nada.

Se alguém ferir o seu escravo ou a sua escrava com um pedaço de pau e, como resultado, o escravo morrer, será punido; contudo, se o escravo se restabelecer em um ou dois dias, não será punido, visto que é propriedade sua. Se alguém ferir o seu escravo ou a sua escrava no olho e o cegar, terá de libertar o escravo como compensação pelo olho. Se quebrar um dente de um escravo ou de uma escrava, terá de libertar o escravo como compensação pelo dente.


Êxodo 32: 27-29. Contexto: ordem de Javé (Deus) dada a Moisés, logo após o episódio da adoração ao bezerro de ouro.

Moisés disse ao povo: “Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Cinja‑se cada um com a sua espada, percorra o acampamento, de uma extremidade a outra, e mate o seu irmão, o seu amigo e o seu vizinho”. Os levitas fizeram conforme Moisés ordenou, e naquele dia morreram cerca de três mil do povo. Então, Moisés disse: “Hoje vocês se consagraram ao Senhor, pois cada um se pôs contra o seu filho e o seu irmão, de modo que ele os abençoou neste dia”.


Números 15: 32-36. Contexto: relato de punição por apedrejamento pela quebra do quarto mandamento, sobre guardar o sábado.

Certo dia, quando os israelitas estavam no deserto, encontraram um homem recolhendo lenha no dia de sábado. Aqueles que o encontraram recolhendo lenha levaram‑no a Moisés, a Arão e a toda a comunidade, que o prenderam, porque não sabiam o que deveria ser feito com ele. Então, o Senhor disse a Moisés: “O homem deverá ser executado. Toda a comunidade o apedrejará fora do acampamento”. Assim, toda a comunidade o levou para fora do acampamento e o apedrejou até a morte, conforme o Senhor tinha ordenado a Moisés.


Números 31: 17-18. Contexto: ordem de Javé (Deus), por intermédio de Moisés, ao exército de Israel, que estava em guerra contra os midianitas.

Matem todos os meninos pequenos. Matem também todas as mulheres que se deitaram com homem, mas, entre as crianças pequenas, poupem para vocês as meninas que nunca se deitaram com homem.


Deuteronômio 20: 10-16. Contexto: ordem de Javé (Deus) ao povo de Israel.

Quando vocês avançarem para atacar uma cidade, enviem‑lhe primeiro uma proposta de paz. Se os habitantes aceitarem e abrirem as suas portas, serão seus escravos e se sujeitarão a trabalhos forçados. Se, porém, eles recusarem a paz e entrarem em guerra contra vocês, sitiem a cidade. Quando o Senhor, o seu Deus, entregá‑la nas suas mãos, matem à espada todos os homens que nela houver. Contudo, poderão ficar com as mulheres, as crianças, os rebanhos e tudo o que acharem na cidade; vocês poderão ficar com os despojos dos seus inimigos que o Senhor, o seu Deus, lhes deu. É assim que vocês tratarão todas as cidades distantes que não pertencem às nações vizinhas de vocês. No entanto, nas cidades das nações que o Senhor, o seu Deus, dá a vocês por herança, não deixem vivo nenhum ser que respira.


Juízes 21: 10-24. Contexto: crimes de guerra cometidos pelo exército de Israel em nome de Deus.

Então, a assembleia enviou doze mil homens de guerra com instruções para irem a Jabes-Gileade e matarem à espada todos os que viviam lá, incluindo mulheres e crianças. “É isto o que vocês deverão fazer: separem para destruição todos os homens e todas as mulheres que não forem virgens”. No meio de todo o povo que vivia em Jabes-Gileade, encontraram quatrocentas moças virgens e as levaram para o acampamento de Siló, em Canaã. Depois, a assembleia toda enviou uma oferta de comunhão aos benjamitas que estavam na rocha de Rimom. Naquela ocasião, os benjamitas voltaram e receberam as mulheres de Jabes-Gileade que tinham sido poupadas. Não havia, no entanto, mulheres suficientes para todos eles.

O povo pranteou por Benjamim, pois o Senhor tinha aberto uma lacuna nas tribos de Israel. Os líderes da comunidade disseram: “Mortas as mulheres de Benjamim, como conseguiremos mulheres para os homens que restaram? Os sobreviventes precisam ter herdeiros, para que uma tribo de Israel não seja destruída. Não podemos dar‑lhes as nossas filhas em casamento, pois fizemos este juramento: ‘Maldito seja todo aquele que der mulher a um benjamita’.” Há, porém, a festa anual do Senhor em Siló, ao norte de Betel, a leste da estrada que vai de Betel a Siquém, e ao sul de Lebona.

Então, mandaram para lá os benjamitas, dizendo: “Vão, escondam‑se nas vinhas e fiquem observando. Quando as moças de Siló forem para as danças, saiam correndo das vinhas e cada um de vocês apodere‑se de uma das moças de Siló e vá para a terra de Benjamim. Quando os pais ou irmãos delas se queixarem, diremos: ‘Tenham misericórdia deles, pois não conseguimos mulheres para eles durante a guerra, e vocês são inocentes, visto que não lhes deram as suas filhas’.” Foi o que os benjamitas fizeram. Quando as moças estavam dançando, cada homem tomou uma para fazer dela a sua mulher. Depois disso, voltaram para a sua herança, reconstruíram as cidades e se estabeleceram nelas. Na mesma ocasião, os israelitas saíram dali e voltaram para as suas tribos e para os seus clãs, cada um para a sua própria herança.


1 Samuel 15: 2-3. Contexto: ordem de Javé (Deus) ao exército de Israel, dada por intermédio do profeta Samuel.

Assim diz o Senhor dos Exércitos: “Castigarei os amalequitas pelo que fizeram a Israel, barrando‑lhe o caminho quando subia do Egito. Agora vão, ataquem os amalequitas e separem ao Senhor tudo o que lhes pertence para destruição. Não os poupem; matem homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, bois, ovelhas, camelos e jumentos”.

Quem dividiu a Bíblia em capítulos e versículos?

Veja também: Passagens imorais da Bíblia

Nos manuscritos originais dos textos bíblicos não havia a atual divisão em capítulos e versículos, tal como estamos familiarizados. Também não havia separação entre as palavras, sinais de pontuação e, no caso do Antigo Testamento, nem mesmo as vogais. A necessidade de dividir o texto sagrado surgiu sobretudo para facilitar a localização de passagens bíblicas. Historicamente foram propostos diversos sistemas, tanto entre os cristãos como entre os judeus.

A atual divisão da Bíblia em capítulos deve-se ao trabalho do clérigo inglês Stephen Langton, que foi chanceler da Universidade de Paris, em 1206, e se tornou Arcebispo da Cantuária, na Inglaterra, em 1207. Ele publicou uma versão da Vulgata (tradução da Bíblia para o latim feita por Jerônimo) com a divisão dos capítulos que temos hoje. Algumas divisões anteriores já haviam sido feitas, mas foi a versão em capítulos de Langton, conhecida como “Bíblia Parisiense”, que vingou até hoje. Foi com essa divisão, inclusive, que a tradução de Lutero foi impressa no século 16.

Já a divisão em versículos veio três séculos mais tarde pelo trabalho do redator, editor e impressor francês Robert Estiénne, também conhecido como Stephanus. Estiénne foi um homem erudito, conhecedor do latim, do grego e do hebraico, que se empenhou em revisar e editar uma versão crítica da Vulgata. Nestas edições da Bíblia, apontava erros de manuscritos, de tradução, entre outras notas. Por causa de seu trabalho, foi considerado um herege pela igreja católica e, diferente de outros colegas de profissão, conseguiu escapar da fogueira muitas vezes. Em 1550, se tornou ilegal a impressão de outras versões da Bíblia senão a Vulgata. Por isso, Stephanus foi residir em Genebra, na Suíça. Estiénne reeditou uma divisão feita por Pagnino de Lucca, um monge dominicano que, em 1541, havia repartido a Bíblia em 1527 versículos. O editor retocou os versículos do Antigo Testamento e reelaborou todo o Novo Testamento. Depois disso, aproveitou a divisão em capítulos de Langton e, em 1553, publicou, pela primeira vez, em francês, toda a Bíblia com as divisões que temos atualmente. Em 1555, fez a versão latina.

Ter capítulos e versículos numerados é uma ideia simples e prática. Com isso, cada versículo bíblico tem um “endereço” único. Essa divisão torna mais fácil citar e encontrar uma passagem específica. Por isso mesmo, é realmente uma pena que esse trabalho tenha sido tão mal feito. Os capítulos e versículos muito frequentemente dividem o texto bíblico em lugares estranhos. É irritantemente comum que certos versículos sejam divididos aleatoriamente bem no meio de uma frase ou que capítulos terminem ou comecem cortando no meio uma história ou episódio que claramente deveria continuar no mesmo capítulo.


Sobre a ordem dos quatro Evangelhos

Há um grave erro na ordem com que os quatro evangelhos foram convencionalmente dispostos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Ficasse eu responsável por dispô-los, faria assim: João, Mateus, Marcos e Lucas. Repare que eu apenas mudei a posição do evangelho de João, que, em vez de último, passa a ser o primeiro. Essa pequena mudança carrega consigo duas vantagens extraordinárias de que a humanidade tem sido privada. Em primeiro lugar, os dois livros do apóstolo Lucas (o evangelho e Atos dos Apóstolos) ficariam dispostos em sequência, como claramente queria o autor, haja vista serem um a continuidade do outro. Por fim, a abertura do Novo Testamento coincidiria de uma forma maravilhosamente bela com a do Antigo Testamento (“No princípio criou Deus” e “No princípio era o Logos”). Quanta beleza e significado foi perdido!


Os 10 idiomas mais falados

Segundo a última edição do livro Ethnologue: languages of the world, o número de línguas faladas no mundo hoje é 6912. Confira na lista abaixo as dez línguas mais faladas no mundo, com seu respectivo número de falantes e alguns países e regiões onde ela é o idioma oficial. Note que o Inglês, considerada hoje a língua franca, o idioma universal, é apenas o terceiro do mundo em número de falantes, atrás do Mandarim e do Hindi, que o superam devido à enorme população da China e da Índia, respectivamente. O nosso querido Português aparece em sexto colocado, com cerca de 218 milhões de falantes.

 

LÍNGUA

FALANTES

   PRINCIPAIS PAÍSES E REGIÕES

Mandarim

1 bilhão

   China, Malásia, Taiwan

Hindi

565 milhões

   Índia (regiões norte e central)

Inglês

545 milhões

   EUA, Canadá, Reino Unido, Austrália

Espanhol

450 milhões

   Espanha, América Latina

Árabe

246 milhões

   Oriente Médio, norte da África

Português

218 milhões

   Brasil, Portugal, Angola, Moçambique

Bengalês

171 milhões

   Bangladesh, nordeste da Índia

Russo

145 milhões

   Rússia, Ásia Central

Francês

130 milhões

   França, Canadá

10º

Japonês

127 milhões

   Japão


As capitais linguísticas do mundo

Substituindo, na lista acima, os idiomas Hindi e Bengali pelo Alemão e o Italiano, acredito obter a lista das 10 línguas mais importantes do mundo (primeira coluna a esquerda na tabela abaixo). Essa escolha não foi arbitrária: embora possuam um maior número de falantes, especialmente na Índia e em Bangladesh, os idiomas Hindi e Bengali não têm a mesma importância cultural que o Alemão e o Italiano têm para o resto do mundo. Tendo obtido essa lista, escolhi, para cada um desses 10 idiomas, por ordem de importância política, econômica, histórica, cultural e demográfica, as três cidades mais influentes nas quais esse idioma é a língua oficial. Chamei-as de “capitais linguísticas do mundo”.

INGLÊS

Nova York (EUA)

Londres (ING)

Los Angeles (EUA)

ESPANHOL

Madri (ESP)

Cid. do México (MEX)

Buenos Aires (ARG)

FRANCÊS

Paris (FRA)

Montreal (CAN)

Bruxelas (BEL)

ALEMÃO

Berlim (ALE)

Frankfurt (ALE)

Munique (ALE)

PORTUGUÊS

São Paulo (BRA)

Rio de Janeiro (BRA)

Lisboa (POR)

ITALIANO

Roma (ITA)

Milão (ITA)

Nápoles (ITA)

RUSSO

Moscou (RUS)

São Petersburgo (RUS)

Kiev (UCR)

ÁRABE

Cairo (EGI)

Teerã (IRÃ)

Dubai (EAU)

MANDARIM

Shangai (CHI)

Pequim (CHI)

Hong Kong (CHI)

JAPONÊS

Tóquio (JAP)

Osaka (JAP)

Nagoia (JAP)

.

As grandes civilizações do mundo

Este mapa mostra o domínio territorial das principais civilizações do mundo, divididas por cores. Clique no mapa para vê-lo em tamanho maior e use a legenda abaixo para entender melhor qual civilização está representada por cada cor.

Clash_of_Civilizations

Azul escuro: Ocidente, conhecido como “primeiro mundo”, composto em sua maioria por países desenvolvidos, de economia fortemente capitalista e religião majoritariamente cristã protestante. Destaque para os Estados Unidos, Canadá, Austrália e Europa.

Roxo: América Latina, composta por países da América central e do sul com línguas de origem latina (especialmente português e espanhol) e religião católica majoritariamente. Destaque para o México, Colômbia, Brasil, Argentina e Chile.

Azul claro: Antiga União Soviética (URSS), composta em sua maioria por cristãos ortodoxos. Destaque para a Rússia, maior país do mundo em extensão territorial.

Verde: Mundo árabe, composto por países muçulmanos de língua árabe, geralmente concentrados no norte da África, Oriente Médio, Ásia Central e sudeste asiático.

Marrom: África subsaariana (países ao sul do deserto do Saara), composta em sua maioria por países pobres e com população predominantemente negra.

Vermelho, VinhoLaranja: Japão, China e Índia, respectivamente. Civilizações orientais muito antigas, compostas por países muito populosos, de religião predominantemente budista e hindu, com identidades culturais muito próprias e peculiares. Amarelo: Demais países asiáticos, fortemente influenciados pelas culturas japonesa, chinesa e indiana.


Semelhanças entre o Oriente e o Ocidente

ocidente-oriente

Apesar das diferenças fundamentais entre essas duas grandes civilizações do mundo, dei-me conta de certa simetria entre esses dois lados do planeta, de modo que em cada um deles podemos encontrar o mesmo padrão. O papel geopolítico, e cultural de um país no ocidente tem seu respectivo correspondente no oriente, como que refletido num espelho. Com essas ideias na cabeça, criei a tabela a seguir. Faz sentido?

CARACTERÍSTICAOCIDENTEORIENTE
Principal potência econômica, com grande extensão territorialEstados UnidosChina
Grande potência econômica de pequena extensão territorial, formada basicamente de ilhasReino UnidoJapão
País muito frio e de grande extensão territorial situado no extremo norteCanadáRússia
Países emergentes com grande população e clima tropicalMéxico, BrasilÍndia, Indonésia
Pequeno país sob regime comunista, excluído e fechadoCubaCoreia do Norte
Arquipélagos de clima tropical constituindo vários países pequenosCaribeSudeste asiático

Os três maiores impérios de todos os tempos

Para definir quais foram os maiores impérios, não basta levar em conta apenas a extensão territorial. “Existiram os muito grandes, mas que foram também muito efêmeros”, diz o Pedro Paulo Funari, doutor em História e professor da Unicamp. Segundo ele, a duração e o legado de cada um deles também são fatores importantes. É a partir desses critérios que são apontados o romano, o russo e o britânico como os três maiores impérios da história. “O mongol teve extensão maior que o romano, por exemplo, mas sua duração foi muito curta. Já o de Alexandre, o Grande, durou somente dez anos e chegou ao fim com sua morte. O império romano, por sua vez, além de ser muito extenso, existiu por quase oito séculos e deixou consequências muito duradouras, como as estradas construídas na época e que são usadas até hoje, e as leis, que foram transmitidas para diversas civilizações. Já os britânicos expandiram a língua inglesa e difundiram aquilo que caracteriza o mundo de hoje, que é a industrialização e a globalização.”

Embora tenham ocorrido em épocas diferentes, os três impérios carregam algumas características em comum. “Eles conviviam com um poder central e a diversidade cultural dos povos dominados – porém, de maneiras diferentes em cada um deles. Além disso, nos três casos fazia-se uso de uma língua de comunicação entre as elites: o latim, no romano; o inglês, no britânico; e o russo. Não é à toa que esses idiomas se tornaram tão importantes mundialmente”, explica Funari. Mas as semelhanças não vão muito além dessas. Individualmente, cada um possuía características muito peculiares, desde a forma de conquista e administração até na sua relação com os povos dominados.

Império Romano

É o mais antigo entre os três. Teve suas origens no século 4 a.C. O poder centralizado não era tão forte, mas utilizavam-se mecanismos que garantiam a dominação dos povos conquistados. “O exército romano era poderosíssimo, baseado na tecnologia do ferro. Havia uma organização militar bem consolidada. Além disso, os colonizados eram aceitos como cidadãos romanos. Isso foi muito importante”, afirma o professor Funari. Sua administração também era bastante organizada. “Era um tipo de império fundado em cidades, onde a vida girava em torno delas. Havia um excelente sistema viário – o melhor até a invenção dos trens – que fazia a comunicação entre elas, permitindo o transporte das tropas”. O império teve seu fim entre os anos de 410 e 480, quando diversas áreas começaram a se desmembrar no ocidente e deixou de existir um governo centralizado, dando origem à formação de reinos bárbaros.

Império Russo

Teve início no século 16 e terminou com a Revolução Russa em 1917. “Formalmente, ele acabou, mas de certa forma continuou existindo como União Soviética até 1989”, diz Pedro Funari. “Hoje em dia, a Rússia ainda mantém características de império. Sua extensão não é mais tão ampla como foi no passado, porém, ela chega até a China e ainda possui várias regiões que falam línguas diferentes”. Essa foi, aliás, uma marca importante do poder russo: ao conquistar povos tanto do oriente quanto do ocidente, permitia-se que eles mantivessem suas línguas e culturas. Isso porque o poder político era fortemente centralizado na figura do czar. “Era um governo teocrático, e o principal elemento de aglutinação foi a igreja ortodoxa. Os chefes locais eram mantidos prestando tributos ao czar”, explica o historiador. Foi o maior em continuidade geográfica, diferentemente do romano, que se organizava em torno do Mar Mediterrâneo, e do britânico, que teve colônias espalhadas por todos os continentes.

Império Britânico

Foi o maior império da história. Já no século 16, conquista a Irlanda, formando seus primeiros embriões. Mas foi só nos séculos 18 e 19 que os britânicos se consolidaram como grande império, ao dominar parte do continente africano e países como Índia, Austrália e Canadá. “Havia uma frase que dizia: ‘O sol nunca se põe no império britânico’, porque ele se espalhou por todo o mundo”, comenta Funari. Suas principais características foram a fortíssima marinha e o domínio econômico sobre as colônias, que forneciam matéria-prima para a Inglaterra e consumiam seus produtos industrializados. “Era um império capitalista, enquanto o romano era escravista, e o russo era feudal”, destaca. O desenvolvimento da indústria no país foi o fator chave que permitiu um acúmulo de capital para investir em frotas marinhas e, com isso, conquistar suas colônias. Suas formas de controle também eram eficazes. “Eles fizeram alianças com elites locais, beneficiando-as, como, por exemplo, os marajás indianos”, explica Pedro. O fim pode ser datado a partir da independência da Índia, em 1947. “Foi o primeiro grande golpe contra a coroa, em que sua maior joia foi perdida. As colônias na África também foram conquistando sua independência nos anos 1950, e, já em 1970, a Inglaterra já não formava mais um império – embora ainda hoje englobe as comunidades britânicas de suas ex-colônias”, diz o professor.

Mais uma curiosidade: segundo matéria da revista Mundo Estranho, a nação que mais invadiu outros países na história foi a Inglaterra. Talvez isso explique a força que o inglês tem como idioma universal. Dos 193 países reconhecidos hoje pelas Nações Unidas, 171 (ou seja, 88,6% do total) foram invadidos pelos britânicos em algum momento de sua história. Vale ressaltar que nem todos os países invadidos chegaram a fazer parte do império britânico. Os dados incluem até invasões feitas por exploradores privados e piratas, desde que as aventuras tivessem o consentimento do governo. O Brasil está na lista: em 1591, sob o comando do corsário inglês Thomas Cavendish, os britânicos invadiram, saquearam e ocuparam, por quase três meses, as cidades de São Vicente e Santos. Veja no mapa mundi a seguir quais foram os países que a Inglaterra já invadiu (em vermelho) e os que nunca foram invadidos (em branco):

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Inglaterra, Reino Unido e Grã-Bretanha: entenda a diferença

Está aí uma dúvida que me acometia desde a infância. Nenhum adulto generoso se deu ao trabalho de explicar isso ao pequeno Charles – nem mesmo as professoras de geografia! Somente depois de adulto – com uma ajudinha do Google – é que essa dúvida me foi esclarecida. Compartilho a descoberta por entender que muita gente sente a mesma dificuldade quando ouve falar em Brasil x Grã-Bretanha numa modalidade qualquer dos Jogos Olímpicos; ou em Brasil x Inglaterra numa partida de futebol. Às vezes parece ser tudo uma coisa só e, às vezes, coisas diferentes.


Inglaterra

É um país que tem como capital a cidade de Londres. Ao longo da história, a Inglaterra conseguiu se impor politicamente sobre alguns países vizinhos e passou a controlar um Estado batizado de Reino Unido (veja abaixo). No século 19, com a Inglaterra à frente, o Império Britânico se tornou, em extensão territorial, o maior império de todos os tempos.

Grã-Bretanha

É a grande ilha onde ficam três países: Inglaterra, Escócia e País de Gales. O termo muitas vezes é usado como sinônimo de “Reino Unido”, o que não é correto, pois um dos países que formam o Reino Unido não fica nessa ilha: a Irlanda do Norte.

Reino Unido

O Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte (esse é o nome oficial completo), é um Estado formado por quatro países: Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. A chefe de Estado é a rainha Elizabeth II, e o chefe do governo é um primeiro-ministro eleito por um Parlamento central em Londres. Mas Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte também possuem assembleias nacionais, com certa autonomia para tratar de questões locais.

Ilhas Britânicas

É um arquipélago formado por cerca de 5 mil ilhas. As duas maiores são a Grã-Bretanha e a ilha da Irlanda. Nesta última ficam dois países: a Irlanda do Norte (que faz parte do Reino Unido) e a República da Irlanda (um Estado independente). Além das duas “grandalhonas”, fazem parte desse arquipélago milhares de ilhas menores, como as Órcades, Shetland, Hébridas, Man e ilhas do Canal (como Jersey).

Resumindo:

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História da bandeira britânica:


Mapa político do Reino Unido:

Clique na imagem para ver em tamanho maior.

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Americano, norte-americano ou estadunidense?

Qual é a nacionalidade de quem nasce nos Estados Unidos da América? Americano, norte-americano ou estadunidense? Eu mesmo convivi com essa dúvida por muito tempo. Somente agora tive a disposição de pesquisar, ler, comparar opiniões e finalmente me posicionar. As três formas são muito comuns no Brasil, muito embora no resto do mundo a primeira seja o padrão. Vejamos as principais objeções suscitadas por brasileiros acerca de cada um dos termos, bem como os melhores argumentos em favor de cada um deles:

Estadunidense

Quem defende o uso da expressão “estadunidense” geralmente está motivado politicamente e influenciado pela ideologia anti-americana. Dizem que “americano” é quem nasce na América; e “norte-americano” é quem nasce na América do Norte. De acordo com esse ponto de vista, qualquer imposição cultural que use outro termo mais abrangente, que não seja “estadunidense”, para referir-se àquele país é de caráter imperialista e deriva do egocentrismo característico desse povo. Segundo essa posição, os próprios “estadunidenses” usurparam o termo e se autodenominaram “americanos” por se considerarem a parte mais importante da América. Por que só eles teriam o direito de usar como emblema a sonoridade de América, se nós também somos América?

Norte-americano

Numa tentativa de estreitar o uso do termo “americano”, muito por conta das críticas citadas acima, surgiu a expressão “norte-americano”. Obviamente ela não resolve muita coisa, já que norte-americano claramente se refere à América do Norte. Não há um argumento forte que sustente tal uso: ele cristalizou-se no Brasil aparentemente apenas por conta do uso frequente. Esta é, portanto, uma maneira pouco precisa de se referir a esse povo. Algo como chamar brasileiros de sul-americanos ou latino-americanos.

Americano

O termo mais comum e mais usado em documentos oficiais ao redor do mundo é “americano”. Esta discussão sobre qual dos três termos usar é uma peculiaridade brasileira – que, certamente, surgiu após as objeções anti-imperialistas explicadas acima. Essa discussão é também muito recente, haja vista que “americano” é a forma mais enraizada na história de nossa língua. De Machado de Assis a Caetano Veloso, existe uma tradição cultural séria a legitimar “americano” como termo preferencial para designar o que se refere aos EUA no português brasileiro. Isso sem mencionar que, no passaporte ou no documento de identidade de uma pessoa dos EUA, está sempre escrito “americana” no campo “nacionalidade”.

No entanto, sempre houve quem se incomodasse com isso, por acreditar que essa escolha aparentemente inocente traz embutida uma concordância com o sequestro que os ianques supostamente fizeram do termo que deveria ser propriedade de todo o Novo Mundo. O problema é que o principal argumento contra o uso de “americano” – o de que o termo está errado porque se refere ao continente todo – é ingênuo. De acordo com a grande maioria dos dicionários de língua portuguesa, a palavra “americano” é usada para se referir à pessoas do continente americano e/ou pessoas que são dos EUA. Ou seja, tem os dois usos – assim como “mineiro” pode designar tanto um trabalhador de minas, seja ele búlgaro, indonésio ou cearense, quanto uma pessoa natural do estado de Minas Gerais, e o contexto resolve qualquer possível ambiguidade.

Existem críticas muito consistentes aos termos alternativos. A expressão “estadunidense” é a que menos faz sentido. Quem está um pouco familiarizado com a História do Brasil deve se lembrar que nosso país, antes de se chamar oficialmente “República Federativa do Brasil”, chamava-se “Estados Unidos do Brasil”. Mas nem por isso nosso povo foi, naquela época, chamado de “estadunidense”: éramos, ainda assim, “brasileiros”. Isso porque o termo “Estados Unidos” diz respeito à forma de organização política, e não ao nome do país propriamente dito. “Estados Unidos”, nesse caso, equivale a “República Federativa”. Chamar um americano de “estadunidense” seria o equivalente a chamar um brasileiro de “republicano-federativo”. O mesmo vale para as pessoas que nascem no Reino Unido da Grã-Bretanha. Seguindo a mesma lógica que querem os defensores do termo “estadunidense”, os súditos da rainha deveriam ser chamados de “reinunidenses” em vez de “britânicos”. Ora, se o povo dos Estados Unidos do Brasil sempre foi chamado de “brasileiro”, o povo da República Federativa do Brasil continua sendo chamado de “brasileiro” e o povo do Reino Unido da Grã-Bretanha é chamado de “britânico”, devemos, por coerência, chamar o povo dos Estados Unidos da América de “americano”.


Comentário de um leitor que merece ser anexado ao post (por Divino Marroquini):

Digamos que o nome do novo continente fosse dado em homenagem a Cristóvão Colombo e não a Américo Vespúcio. Então teríamos um continente chamado Colômbia, dividido em Colômbia do Norte e Colômbia do Sul. Haveria um país aqui vizinho chamado Estados Unidos da Colômbia e seus cidadãos seriam os colombianos. Lá na Colômbia do Norte, haveria um país, Washingland, cuja capital seria Washington; seus cidadãos seriam os washinglandeses, que seriam colombianos também, mas isso daria uma confusão… Haveria discussão e mais discussão a respeito; os washinglandeses encheriam os fóruns se contrapondo à usurpação do gentílico colombiano pelos cidadãos dos Estados Unidos da Colômbia, os quais estariam poco se jodendo.

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