Passagens imorais da Bíblia

À medida que leio a Bíblia, vou reunindo aqui passagens do Velho Testamento que me chocam e causam grande repulsa. Elas contém ordens explícitas de Deus para a prática de escravidão, torturas, estupros, sequestro e abuso de escravas sexuais, apedrejamentos, chacinas cruéis, massacres de recém-nascidos e inúmeros outros crimes de guerra abomináveis a qualquer ser humano minimamente ético. Embora também sejam, segundo a grande maioria dos ramos do cristianismo, “Palavra de Deus”, “regra de fé e prática” etc., essas passagens costumam ser, por motivos óbvios, propositalmente ignoradas, esquecidas e quase nunca são pregadas ou lidas publicamente nas igrejas (tampouco nas sinagogas). A maldade presente nessas passagens é tão evidente que eu não vou gastar tempo comentando cada uma delas, apenas menciono a referência e um brevíssimo contexto para situar o leitor. Também não quero dizer nada com isso. Explicar ou tentar justificar tais passagens é uma tarefa para os teólogos. Apenas apresento aqui aquilo que me deixa perplexo e enojado. Uma certeza que tenho é que tais mandamentos e práticas são objetivamente errados em qualquer época, lugar ou circunstância; e qualquer tentativa de justificá-los é fruto de puro fanatismo religioso.

Detalhe técnico importante: todas as vezes que se menciona “O Senhor” nas traduções modernas, como a NVI que você lê abaixo, o que está no original em hebraico é o tetragrama, nome próprio do Deus de Israel: יהוה (YHWH). Sua pronúncia é incerta, mas, em português, esse nome é geralmente transliterado como Javé, Jeová ou Yahweh. Seguindo uma tradição que remonta à Septuaginta, a maioria das traduções modernas prefere a palavra “Senhor”.


Êxodo 21: 1-6, 7-11, 20-21, 26-27. Contexto: ordens de Javé (Deus) dadas a Moisés, logo após a instituição dos dez mandamentos.

São estas as ordenanças que você estabelecerá para o povo: Se você comprar um escravo hebreu, ele lhe servirá por seis anos, mas, no sétimo ano, será liberto sem pagar nada. Se chegou solteiro, solteiro receberá liberdade; se, porém, chegou casado, a mulher será liberta com ele. Se o senhor dele lhe tiver dado uma mulher, e esta lhe tiver dado filhos ou filhas, a mulher e os filhos pertencerão ao senhor; somente o homem sairá livre. Se, porém, o escravo declarar: ‘Eu amo o meu senhor, a minha mulher e os meus filhos, e não quero receber liberdade’, o senhor dele o levará diante dos juízes. Terá de levá‑lo à porta ou à lateral da porta e furar‑lhe a orelha. Assim, ele será seu escravo por toda a vida.

Se um homem vender a filha como escrava, ela não será liberta como os escravos homens. Se ela não agradar ao senhor que a escolheu para si como mulher, então deverá permitir que ela seja resgatada. Não poderá vendê‑la a estrangeiros, pois isso seria deslealdade para com ela. Se o senhor dela a escolher para o seu filho, deverá tratá‑la de acordo com os direitos de uma filha. Se o senhor tomar uma segunda mulher para si, não poderá privar a primeira de alimento, de roupas e das relações sexuais. Se não lhe prover essas três coisas, ela poderá ir embora sem precisar pagar nada.

Se alguém ferir o seu escravo ou a sua escrava com um pedaço de pau e, como resultado, o escravo morrer, será punido; contudo, se o escravo se restabelecer em um ou dois dias, não será punido, visto que é propriedade sua.

Se alguém ferir o seu escravo ou a sua escrava no olho e o cegar, terá de libertar o escravo como compensação pelo olho. Se quebrar um dente de um escravo ou de uma escrava, terá de libertar o escravo como compensação pelo dente.


Êxodo 32: 27-29. Contexto: ordem de Javé (Deus) dada a Moisés, logo após o episódio da adoração ao bezerro de ouro.

Moisés disse ao povo: “Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Cinja‑se cada um com a sua espada, percorra o acampamento, de uma extremidade a outra, e mate o seu irmão, o seu amigo e o seu vizinho”. Os levitas fizeram conforme Moisés ordenou, e naquele dia morreram cerca de três mil do povo. Então, Moisés disse: “Hoje vocês se consagraram ao Senhor, pois cada um se pôs contra o seu filho e o seu irmão, de modo que ele os abençoou neste dia”.


Números 15: 32-36. Contexto: relato de punição por apedrejamento pela quebra do quarto mandamento, sobre guardar o sábado.

Certo dia, quando os israelitas estavam no deserto, encontraram um homem recolhendo lenha no dia de sábado. Aqueles que o encontraram recolhendo lenha levaram‑no a Moisés, a Arão e a toda a comunidade, que o prenderam, porque não sabiam o que deveria ser feito com ele. Então, o Senhor disse a Moisés: “O homem deverá ser executado. Toda a comunidade o apedrejará fora do acampamento”. Assim, toda a comunidade o levou para fora do acampamento e o apedrejou até a morte, conforme o Senhor tinha ordenado a Moisés.


Números 31: 17-18. Contexto: ordem de Javé (Deus), por intermédio de Moisés, ao exército de Israel, que estava em guerra contra os midianitas.

Matem todos os meninos pequenos. Matem também todas as mulheres que se deitaram com homem, mas, entre as crianças pequenas, poupem para vocês as meninas que nunca se deitaram com homem.


Deuteronômio 20: 10-16. Contexto: ordem de Javé (Deus) ao povo de Israel.

Quando vocês avançarem para atacar uma cidade, enviem‑lhe primeiro uma proposta de paz. Se os habitantes aceitarem e abrirem as suas portas, serão seus escravos e se sujeitarão a trabalhos forçados. Se, porém, eles recusarem a paz e entrarem em guerra contra vocês, sitiem a cidade. Quando o Senhor, o seu Deus, entregá‑la nas suas mãos, matem à espada todos os homens que nela houver. Contudo, poderão ficar com as mulheres, as crianças, os rebanhos e tudo o que acharem na cidade; vocês poderão ficar com os despojos dos seus inimigos que o Senhor, o seu Deus, lhes deu. É assim que vocês tratarão todas as cidades distantes que não pertencem às nações vizinhas de vocês. No entanto, nas cidades das nações que o Senhor, o seu Deus, dá a vocês por herança, não deixem vivo nenhum ser que respira.


Juízes 21: 10-24. Contexto: crimes de guerra cometidos pelo exército de Israel em nome de Deus.

Então, a assembleia enviou doze mil homens de guerra com instruções para irem a Jabes-Gileade e matarem à espada todos os que viviam lá, incluindo mulheres e crianças. “É isto o que vocês deverão fazer: separem para destruição todos os homens e todas as mulheres que não forem virgens”. No meio de todo o povo que vivia em Jabes-Gileade, encontraram quatrocentas moças virgens e as levaram para o acampamento de Siló, em Canaã. Depois, a assembleia toda enviou uma oferta de comunhão aos benjamitas que estavam na rocha de Rimom. Naquela ocasião, os benjamitas voltaram e receberam as mulheres de Jabes-Gileade que tinham sido poupadas. Não havia, no entanto, mulheres suficientes para todos eles.

O povo pranteou por Benjamim, pois o Senhor tinha aberto uma lacuna nas tribos de Israel. Os líderes da comunidade disseram: “Mortas as mulheres de Benjamim, como conseguiremos mulheres para os homens que restaram? Os benjamitas sobreviventes precisam ter herdeiros, para que uma tribo de Israel não seja destruída. Não podemos dar‑lhes as nossas filhas em casamento, pois nós, israelitas, fizemos este juramento: ‘Maldito seja todo aquele que der mulher a um benjamita’.” Há, porém, a festa anual do Senhor em Siló, ao norte de Betel, a leste da estrada que vai de Betel a Siquém, e ao sul de Lebona.

Então, mandaram para lá os benjamitas, dizendo: “Vão, escondam‑se nas vinhas e fiquem observando. Quando as moças de Siló forem para as danças, saiam correndo das vinhas e cada um de vocês apodere‑se de uma das moças de Siló e vá para a terra de Benjamim. Quando os pais ou irmãos delas se queixarem a nós, diremos: ‘Tenham misericórdia deles, pois não conseguimos mulheres para eles durante a guerra, e vocês são inocentes, visto que não lhes deram as suas filhas’.” Foi o que os benjamitas fizeram. Quando as moças estavam dançando, cada homem tomou uma para fazer dela a sua mulher. Depois disso, voltaram para a sua herança, reconstruíram as cidades e se estabeleceram nelas. Na mesma ocasião, os israelitas saíram daquele local e voltaram para as suas tribos e para os seus clãs, cada um para a sua própria herança.


1 Samuel 15: 2-3. Contexto: ordem de Javé (Deus) ao exército de Israel, dada por intermédio do profeta Samuel.

Assim diz o Senhor dos Exércitos: “Castigarei os amalequitas pelo que fizeram a Israel, barrando‑lhe o caminho quando subia do Egito. Agora vão, ataquem os amalequitas e separem ao Senhor tudo o que lhes pertence para destruição. Não os poupem; matem homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, bois, ovelhas, camelos e jumentos”.

Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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