Artigo de Alexandre Versignassi para a revista Superinteressante.
A ideia era levar um pedaço de carne recém-caçada até o outro lado de um descampado. Eram dez, onze caras com esse intuito. No meio do caminho, porém, havia uma pedra. Mais do que uma pedra: era outro bando, igualmente numeroso, de homens secos para roubar a comida. Os membros do grupo, então, passavam a carne um para o outro, de modo a confundir os ladrões. Mais hora, menos hora, porém, a outra turma lograva surrupiar o alimento, e os papéis se invertiam: agora era o segundo bando que tentava levar a carne na direção oposta, enquanto o primeiro fazia de tudo para tê-la de volta. Nesse vaivém, às vezes um grupo conseguia frustrar todas as tentativas de assalto do outro, atravessava magistralmente o campo e depositava a carne do outro lado. Aí começavam tudo de novo, com outro pedaço de carne.
Aconteceram 64 contendas desse tipo na Rússia entre junho e julho. Eram 32 bandos. Cada um vestindo a camisa de uma nação diferente. No papel do pedaço de carne, uma bola. Um jogo de futebol, afinal, não passa de um simulacro de conflitos ancestrais – por alimento, por território, por sobrevivência. Quando o futebol é o americano, nem há tanta simulação assim: a “caça” corre de mão em mão, e o objetivo é chegar ao fim do campo abraçado a ela. No nosso futebol, há a sofisticação de usar só os pés, e o objetivo um tanto mais complexo de depositar a bola dentro de uma rede. A essência, porém, é a mesma: emular batalhas. Batalhas tão profundamente gravadas em nosso DNA que só o ato de assistir às simulações delas basta para bombar a produção de adrenalina, cortisol, endorfinas. Mas claro: tudo não passa de um exercício de imaginação.
2500 a.C., China – Tsu-chu
Foi desenvolvido por Yang-Tsé, um dos guardas do imperador Huang-ti e era disputado por soldados. A bola era o crânio de um inimigo derrotado. Sem deixá-lo cair no chão, os jogadores tinham de passá-lo entre duas balizas (ou traves). O tsu-chu chegou à Coreia, Japão e Vietnã. Na Dinastia Tang (618-907), os postes ganharam uma rede.
900 a.C., México – Pok ta pok
Entre os Maias da Península de Yucatan, no atual território do México, o jogo era questão de vida ou morte. O líder da equipe derrotada era oferecido em sacrifício aos deuses. Simbolizando o sol e feita de borracha, a bola era jogada, com os pés ou as mãos, em um buraco circular no meio de placas de pedra.
800 a.C., Grécia – Episkyros
O esporte foi citado pelo poeta Homero no livro Sphairomachia. Era disputado em um campo que podia receber até 17 jogadores de cada lado. O objetivo era cruzar a meta adversária com a bola, feita de bexiga de vaca, areia e ar. Não foi tão popular quanto o arremesso de disco ou a corrida, mas teve praticantes.
146 a.C., Império Romano – Harpastum
Quando os romanos invadiram a Grécia, adaptaram o episkyros a um exercício militar. A partida podia durar várias horas. O imperador Júlio César era um entusiasta da atividade, pois gostava de ver seus soldados treinando força e habilidade ao mesmo tempo. Os romanos levaram o esporte à Europa, Ásia Menor e norte da África.
58 a.C., França – Soule
Por influência dos romanos, os gauleses criaram um jogo parecido com o harpastum. As regras, que não eram muitas, variavam em cada região. Às vezes a prática desse esporte descambava para a violência. Até que, já na Idade Média, o rei Henrique II o baniu. Quem insistisse em sua prática era condenado à prisão.
644, Japão – Kemari
Era disputado por seis ou oito jogadores e tinha um caráter cerimonial, sem que fosse apontado um vencedor. Antes do jogo, os atletas abençoavam a bola em um templo. Um ancião, o Edayaku, rezava por prosperidade. Os jogadores formavam uma roda e passavam a bola um para o outro, sem deixá-la cair no chão e apenas com o pé direito.
1580, Itália – Calcio Fiorentino
O nome “cálcio”, como os italianos chamam o esporte, surgiu em Florença, com esta versão. As regras teriam sido estabelecidas pelo músico e escritor local Giovanni Bardi. Ele instituiu a necessidade de usar 10 juízes, por causa da longa extensão do campo. A bola, levada com as mãos ou os pés, era introduzida em uma barraca armada no fundo de cada campo. Da Toscana, o “cálcio”espalhou-se por todo o país.
1175, Grã-Bretanha – Schrovetide Football
Desse ano vem o primeiro registro de um esporte parecido com o futebol entre os bretões, provavelmente uma adaptação das versões romana (harpastum) e francesa (soule). Ele era jogado durante a Schrovetide, que coincide com o nosso carnaval, festa na qual os ingleses comemoram a expulsão dos dinamarqueses. Para tanto, eles saíam à rua chutando uma bola de couro, que simbolizava a cabeça do invasor. Muitas pessoas participavam ao mesmo tempo, sem obedecer nenhuma regra. O resultado era violência descabida, com alguns praticantes cheios de fraturas, sem alguns dentes e até mortos.
1710, Londres – Football
Após estabelecer algumas regras, que variavam conforme a instituição, as escolas londrinas de Covent Garden, Strand e Fleet Street adotaram o futebol como atividade física. Em uma delas, só o uso dos pés era permitido.
1863, Inglaterra – Football
A Football Association unificou as regras do esporte, determinando, por exemplo, o número de participantes e o tamanho do campo tal como se pratica até hoje. Com a expansão do Império Britânico, estudantes, missionários, marinheiros e colonos divulgaram a “invenção inglesa” e suas 17 regras pelo mundo.
Da formação tática no futebol
Crônica de Luis Fernando Veríssimo, publicada no Estadão do dia 23/08/1993.
O melhor momento do futebol, para um tático, é o minuto de silêncio. É quando os times ficam perfilados, cada jogador com as mãos nas costas e mais ou menos no lugar que lhes foi designado no esquema e parados. Então o tático pode olhar o campo como se fosse um quadro-negro e pensar no futebol como uma coisa lógica e diagramável. Mas aí o jogo começa e tudo desanda. Os jogadores se movimentam e o futebol passa a ser regido pelo imponderável, esse inimigo mortal de qualquer estrategista. O futebol brasileiro já teve grandes estrategistas, cruelmente traídos pela dinâmica do jogo. O Tim, por exemplo, tático exemplar, planejava todo o jogo numa mesa de botão. Da entrada em campo até a troca das camisetas, incluindo o minuto de silêncio. Foi um técnico de sucesso, mas nunca conseguiu uma reputação no campo a altura de sua reputação de vestiário. Falava um jogo e o time jogava outro. O problema do Tim, diziam todos, eram que seus botões eram mais inteligentes do que seus jogadores.


