A pré-história do futebol

Artigo de Alexandre Versignassi para a revista Superinteressante.

A ideia era levar um pedaço de carne recém-caçada até o outro lado de um descampado. Eram dez, onze caras com esse intuito. No meio do caminho, porém, havia uma pedra. Mais do que uma pedra: era outro bando, igualmente numeroso, de homens secos para roubar a comida. Os membros do grupo, então, passavam a carne um para o outro, de modo a confundir os ladrões. Mais hora, menos hora, porém, a outra turma lograva surrupiar o alimento, e os papéis se invertiam: agora era o segundo bando que tentava levar a carne na direção oposta, enquanto o primeiro fazia de tudo para tê-la de volta. Nesse vaivém, às vezes um grupo conseguia frustrar todas as tentativas de assalto do outro, atravessava magistralmente o campo e depositava a carne do outro lado. Aí começavam tudo de novo, com outro pedaço de carne.

Aconteceram 64 contendas desse tipo na Rússia entre junho e julho. Eram 32 bandos. Cada um vestindo a camisa de uma nação diferente. No papel do pedaço de carne, uma bola. Um jogo de futebol, afinal, não passa de um simulacro de conflitos ancestrais – por alimento, por território, por sobrevivência. Quando o futebol é o americano, nem há tanta simulação assim: a “caça” corre de mão em mão, e o objetivo é chegar ao fim do campo abraçado a ela. No nosso futebol, há a sofisticação de usar só os pés, e o objetivo um tanto mais complexo de depositar a bola dentro de uma rede. A essência, porém, é a mesma: emular batalhas. Batalhas tão profundamente gravadas em nosso DNA que só o ato de assistir às simulações delas basta para bombar a produção de adrenalina, cortisol, endorfinas. Mas claro: tudo não passa de um exercício de imaginação.


2500 a.C., China – Tsu-chu

Foi desenvolvido por Yang-Tsé, um dos guardas do imperador Huang-ti e era disputado por soldados. A bola era o crânio de um inimigo derrotado. Sem deixá-lo cair no chão, os jogadores tinham de passá-lo entre duas balizas (ou traves). O tsu-chu chegou à Coreia, Japão e Vietnã. Na Dinastia Tang (618-907), os postes ganharam uma rede.


900 a.C., México – Pok ta pok

Entre os Maias da Península de Yucatan, no atual território do México, o jogo era questão de vida ou morte. O líder da equipe derrotada era oferecido em sacrifício aos deuses. Simbolizando o sol e feita de borracha, a bola era jogada, com os pés ou as mãos, em um buraco circular no meio de placas de pedra.


800 a.C., Grécia – Episkyros

O esporte foi citado pelo poeta Homero no livro Sphairomachia. Era disputado em um campo que podia receber até 17 jogadores de cada lado. O objetivo era cruzar a meta adversária com a bola, feita de bexiga de vaca, areia e ar. Não foi tão popular quanto o arremesso de disco ou a corrida, mas teve praticantes.


146 a.C., Império Romano – Harpastum

Quando os romanos invadiram a Grécia, adaptaram o episkyros a um exercício militar. A partida podia durar várias horas. O imperador Júlio César era um entusiasta da atividade, pois gostava de ver seus soldados treinando força e habilidade ao mesmo tempo. Os romanos levaram o esporte à Europa, Ásia Menor e norte da África.


58 a.C., França – Soule

Por influência dos romanos, os gauleses criaram um jogo parecido com o harpastum. As regras, que não eram muitas, variavam em cada região. Às vezes a prática desse esporte descambava para a violência. Até que, já na Idade Média, o rei Henrique II o baniu. Quem insistisse em sua prática era condenado à prisão.


644, Japão – Kemari

Era disputado por seis ou oito jogadores e tinha um caráter cerimonial, sem que fosse apontado um vencedor. Antes do jogo, os atletas abençoavam a bola em um templo. Um ancião, o Edayaku, rezava por prosperidade. Os jogadores formavam uma roda e passavam a bola um para o outro, sem deixá-la cair no chão e apenas com o pé direito.


1580, Itália – Calcio Fiorentino

O nome “cálcio”, como os italianos chamam o esporte, surgiu em Florença, com esta versão. As regras teriam sido estabelecidas pelo músico e escritor local Giovanni Bardi. Ele instituiu a necessidade de usar 10 juízes, por causa da longa extensão do campo. A bola, levada com as mãos ou os pés, era introduzida em uma barraca armada no fundo de cada campo. Da Toscana, o “cálcio”espalhou-se por todo o país.


1175, Grã-Bretanha – Schrovetide Football

Desse ano vem o primeiro registro de um esporte parecido com o futebol entre os bretões, provavelmente uma adaptação das versões romana (harpastum) e francesa (soule). Ele era jogado durante a Schrovetide, que coincide com o nosso carnaval, festa na qual os ingleses comemoram a expulsão dos dinamarqueses. Para tanto, eles saíam à rua chutando uma bola de couro, que simbolizava a cabeça do invasor. Muitas pessoas participavam ao mesmo tempo, sem obedecer nenhuma regra. O resultado era violência descabida, com alguns praticantes cheios de fraturas, sem alguns dentes e até mortos.


1710, Londres – Football

Após estabelecer algumas regras, que variavam conforme a instituição, as escolas londrinas de Covent Garden, Strand e Fleet Street adotaram o futebol como atividade física. Em uma delas, só o uso dos pés era permitido.


1863, Inglaterra – Football

A Football Association unificou as regras do esporte, determinando, por exemplo, o número de participantes e o tamanho do campo tal como se pratica até hoje. Com a expansão do Império Britânico, estudantes, missionários, marinheiros e colonos divulgaram a “invenção inglesa” e suas 17 regras pelo mundo.


Da formação tática no futebol

Crônica de Luis Fernando Veríssimo, publicada no Estadão do dia 23/08/1993.

O melhor momento do futebol, para um tático, é o minuto de silêncio. É quando os times ficam perfilados, cada jogador com as mãos nas costas e mais ou menos no lugar que lhes foi designado no esquema e parados. Então o tático pode olhar o campo como se fosse um quadro-negro e pensar no futebol como uma coisa lógica e diagramável. Mas aí o jogo começa e tudo desanda. Os jogadores se movimentam e o futebol passa a ser regido pelo imponderável, esse inimigo mortal de qualquer estrategista. O futebol brasileiro já teve grandes estrategistas, cruelmente traídos pela dinâmica do jogo. O Tim, por exemplo, tático exemplar, planejava todo o jogo numa mesa de botão. Da entrada em campo até a troca das camisetas, incluindo o minuto de silêncio. Foi um técnico de sucesso, mas nunca conseguiu uma reputação no campo a altura de sua reputação de vestiário. Falava um jogo e o time jogava outro. O problema do Tim, diziam todos, eram que seus botões eram mais inteligentes do que seus jogadores.

O papel tem futuro

Para o escritor americano Nicholas Basbanes, que pesquisou a história dos meios de conservar a escrita, o papel continuará a ser importante para a humanidade, porque jamais será substituído. É o que mostra a matéria a seguir, da revista Época.


“A sociedade sem papel está se aproximando, queiramos ou não. Podemos escolher ignorar o mundo eletrônico, mas isso não fará diferença”, escreveu o cientista da informação Frederick Wilfrid Lancaster em 1978. Ao lado de outros entusiastas do futuro digital, ele previa um mundo maravilhoso com grande variedade de obras à disposição dos estudantes, menos impressões e redução de custos. Quem não se adaptasse a tempo e abandonasse o papel viveria uma transição caótica. Muito do futuro imaginado por ele se concretizou, mas o papel ainda persiste. As bibliotecas continuam abarrotadas. Os livros impressos convivem com a popularização dos e-readers e tablets.

“Usar um não significa descartar o outro”, afirma o escritor Nicholas Basbanes, autor do livro recém-lançado On paper (No papel), sem edição no Brasil. Num momento em que se discute o futuro do papel e até sua eventual extinção, o livro de Basbanes tenta explicar sua importância e a maneira como ele influenciou o curso da história. Bibliófilo, ele investigou a origem do papel e seus diferentes usos. Conversou com pesquisadores, donos de indústrias, bibliotecários e até pessoas que ainda fazem papel à mão, como há dois mil anos. A longa jornada pela história do papel convenceu Basbanes de que a supremacia do papel tem raízes profundas – e será impossível substituí-lo. Basbanes diz que os livros impressos não se tornarão obsoletos tão cedo, porque são os mais simples e confiáveis meios de preservação da escrita. Dispositivos eletrônicos e softwares estão em constante mudança. Aquilo que foi registrado num formato específico hoje pode não ser lido amanhã. “Já segurei nas mãos um livro com mais de 500 anos. Você pode dizer, com segurança, que o mesmo acontecerá com uma obra criada digitalmente?”, diz.

Grandes acervos históricos não abrem mão do papel. Nos Estados Unidos, o Arquivo Nacional encomendou folhas super-resistentes para ajudar a preservar documentos originais, como a Declaração da Independência, a Constituição e a Carta dos Direitos. O responsável pelo trabalho foi Timothy Barrett, do Centro do Livro da Universidade de Iowa, que registra e resgata técnicas milenares de fabricação de papel à mão. “Estamos nos movendo em direção a um mundo digital holográfico maravilhosamente fascinante, mas, ironicamente, nesse ambiente, os documentos em papel em certos casos se tornarão mais importantes, e não menos”, diz. É inegável que a tecnologia altera hábitos, mas as características únicas do livro tradicional dão a ele muitos anos a mais de vida. A tecnologia não conseguiu substituir algumas das vantagens do papel. Nos livros, há o contato com textura mais macia. É possível manipular as páginas. As palavras não competem com alertas de aplicativos, mensagens que sempre pulam nas telas ou com o link para o filme sobre a obra no YouTube, como acontece nos tablets e smartphones.

A demanda por papel tem caído em regiões como a América do Norte e a Europa. As grandes indústrias atribuem isso à estagnação econômica e ao avanço da tecnologia. As preocupações com o meio ambiente também resultam no menor uso de papel. Mas não é possível dizer que o setor viva um retrocesso. Foram produzidos 400 milhões de toneladas de papel em 2012, em comparação com os 399 milhões no ano anterior. Esses milhões de toneladas têm os mais variados destinos. A Associação Britânica de Historiadores do Papel registra mais de 20 mil usos atualmente. Há empresas que investem em papéis especiais, selos, cartões-postais, jogos de cartas e outros nichos de mercado. Há usos tradicionais que perduram. Em qualquer parte do mundo, ninguém consegue se identificar oficialmente sem usá-lo. É uma tradição que começou nos tempos medievais. As pesquisas de Basbanes revelam que o papel, tão barato, abundante e portátil, tornou a burocracia possível e contribuiu para a expansão dos árabes pelo Oriente Médio, pelo Norte da África e parte da Europa. A papelada cresceu ainda mais com a Revolução Francesa, em 1789, quando o poder deixou de ficar concentrado no rei e foi distribuído aos funcionários públicos, que deviam dar provas escritas dos serviços.

Ainda hoje, os governos exercem seu poder de controle por meio de uma série de regras, cumpridas apenas com a apresentação de documentos, protocolos e termos impressos. A burocracia criou duas classes de pessoas: as que têm papéis e as que não têm. Na França, os imigrantes ilegais são justamente conhecidos como sans papiers (sem papéis). Os Estados também não conseguiram reduzir o uso do papel em suas atividades diárias. Em mais de dois séculos de atividade, o Arquivo Nacional americano acumula 80 bilhões de papéis oficiais – e apenas 5% de todo o volume produzido no último ano foi para as prateleiras. Nas empresas, o inconfundível barulho das impressoras não deixa dúvidas de que o amplo uso de computadores e e-mails não livrou os profissionais das folhas. No início dos anos 2000, os pesquisadores Abigail Sellen e Richard Harper publicaram o livro The myth of the paperless office (O mito do escritório sem papel). Diziam que a internet aumentou as impressões em 40%. Para quem previa que a tecnologia acabaria com o papel, é um dado embaraçoso.

Previsões sobre o mundo digital também já mostraram que nossas carteiras ficariam sem notas. É verdade que o papel-moeda perdeu importância. Dá para notar no dia a dia que é possível comprar praticamente tudo com transferências bancárias e cartões de débito e crédito. Num futuro próximo, os celulares cumprirão boa parte dessa função. No entanto, números de Bancos Centrais mostram que a fabricação de notas e moedas não começou a cair. Na Zona do Euro, elas representam 9% das transações, mas o total em circulação sobe ano após ano. Em 2012, havia E 876,8 bilhões fora dos bancos, cerca de 2% a mais que em 2011, segundo o Banco Internacional de Compensações. Em alguns países,  como a Suécia, há esforços para acabar com as notas. Alguns estabelecimentos não aceitam notas, como pubs e pequenos negócios.

O mesmo vale para os Estados Unidos. Segundo o empresário Douglas Crane, que fornece papel para as notas de dólares, 20% dos americanos não têm conta bancária. O papel-moeda também é fundamental para imigrantes. Mesmo com grandes inovações relacionadas à carteira eletrônica, é difícil imaginar algo tão simples e anônimo quanto um pedaço de papel, que permite operações fora do sistema bancário. As altas taxas cobradas pelos bancos também desestimulam o uso do crédito e débito para compras pequenas. O avanço das moedas eletrônicas esbarra ainda na segurança. A quebra de um código poderia significar a reprodução de dinheiro indefinidamente. Até agora, não foi inventado nenhum sistema infalível. Mesmo que um novo sistema surja e convença todos (inclusive os excluídos) a trocar as carteiras por celulares, isso acabaria com apenas uma utilidade do papel. Restariam ainda 19.999.

A filosofia na época trágica dos gregos

Excertos extraídos do livro A Filosofia na Época Trágica dos Gregos, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), sobre os filósofos pré-socráticos.


Vou fazer a narração de uma versão simplificada da história desses filósofos: de cada sistema quero apenas extrair o fragmento de personalidade que contém e que pertence ao elemento irrefutável e indiscutível que a história deve guardar: é um começo para reencontrar e recriar essas naturezas através de comparações. É também a tentativa de deixar soar de novo a polifonia da alma grega. Esta tentativa de contar a história dos filósofos gregos mais antigos se distingue de outras tentativas semelhantes pela sua concisão. Esta conseguiu-se porque, em cada filósofo, se mencionou apenas um número muito limitado das suas teorias, em virtude, portanto, de não apresentar uma imagem completa. Mas escolheram-se as doutrinas em que ressoa com maior força a personalidade de cada filósofo, ao passo que uma enumeração completa de todas as teses que nos foram transmitidas, como é costume nos manuais, só leva a uma coisa: ao total emudecimento do que é pessoal. É por isso que esses relatos são tão aborrecidos: pois em sistemas que foram refutados só nos pode interessar a personalidade.

Os gregos justificaram a filosofia de uma vez para sempre, pelo simples fato de terem filosofado; e mais do que todos os outros povos. (…) Os gregos souberam começar na altura própria, e ensinam mais claramente do que qualquer outro povo a altura em que se deve começar a filosofar. Não só na desgraça, como pensam aqueles que derivam a filosofia do descontentamento. Mas antes na felicidade, na plena maturidade viril, na alegria ardente de uma idade adulta corajosa e vitoriosa. Que os gregos tenham filosofado nesse momento [da sua história] informa-nos tanto sobre o que é a filosofia e sobre o que ela deve ser como sobre os próprios gregos. Se eles tivessem então sido homens práticos, brincalhões sóbrios e precoces, como os imagina o filisteu erudito dos nossos dias, ou se tivessem vivido apenas num luxurioso transporte, ressoar, respirar e sentir, como supõe o fantasista inculto, a fonte da filosofia nunca teria vindo à luz no meio deles. Quanto muito, teria surgido um regato que rapidamente desapareceria na areia ou se evaporaria em nevoeiro, mas nunca aquele rio largo de ondulação majestosa, que conhecemos como a filosofia grega.

Nada é mais tolo do que atribuir aos gregos uma cultura autóctone: pelo contrário, eles sorveram toda a cultura viva de outros povos e, se foram tão longe, é precisamente porque sabiam retomar a lança onde um outro povo a abandonou, para arremessá-la mais longe. São admiráveis na arte do aprendizado fecundo, e assim como eles devemos aprender de nossos vizinhos, usando o aprendido para a vida, não para o conhecimento erudito, como esteios sobre os quais lançar-se alto, e mais alto do que o vizinho. As perguntas pelos inícios da filosofia são completamente indiferentes, pois por toda parte o início é o tosco, o amorfo, o vazio e o feio, e em todas as coisas somente os níveis superiores merecem consideração. Quem, em lugar da filosofia grega, prefere dedicar-se à egípcia ou persa, porque essas são talvez mais “originais” e, em todo caso, mais antigas, procede com desatenção.

Outros povos têm santos, os gregos têm sábios. Disse-se, com razão, que um povo não é só caracterizado pelos seus grandes homens, mas sobretudo pela maneira de os reconhecer e de os honrar. (..) …gênio helênico… (…) …gênios mais elevados… (…) …velhos mestres gregos, Tales, Anaximandro, Heráclito, Parmênides, Anaxágoras, Empédocles, Demócrito e Sócrates (…) viviam votados ao conhecimento. Todos possuem a energia virtuosa dos antigos, pela qual superam todos os que vêm depois, e que lhes permite encontrar a sua forma própria e dar a esta o seu desenvolvimento pleno. (…) O juízo desses filósofos sobre a vida e sobre a existência em geral é muito mais significativo do que um juízo moderno, porque tinham diante de si a vida numa plenitude exuberante. (…) A tarefa que o filósofo tem de realizar no âmbito de uma civilização autêntica e possuidora de uma grande unidade de estilo não se adivinha a partir da nossa condição e da nossa experiência, porque não temos uma tal civilização. Pelo contrário, só uma civilização como a grega pode responder à pergunta relativa à tarefa do filósofo, só ela pode, como eu dizia, justificar a filosofia em geral.

Propus-me narrar deste elevado diálogo espiritual o que a nossa surdez moderna dele pode ouvir e compreender: isto quer, com certeza, dizer o mínimo. Parece-me que, neste diálogo, os velhos sábios, de Tales a Sócrates, falaram, se bem que da forma mais geral, sobre aquilo que aos nossos olhos constitui a essência do espírito helênico. Manifestam nos seus diálogos, como também já nas suas personalidades, os grandes traços do gênio grego, do qual toda a história grega é uma impressão vaga, uma cópia difusa e que, por isso; nos fala em termos pouco claros.

É uma grande desgraça que tenhamos conservado tão pouco destes primeiros mestres da filosofia e que só nos tenham chegado fragmentos. Por causa desta perda, aplicamos-lhes, involuntariamente, medidas erradas e somos injustos para com os antigos, em virtude do fato puramente casual de nunca terem faltado nem admiradores nem copiadores a Platão e a Aristóteles. (…) É provável que tenhamos perdido a parte mais grandiosa do pensamento grego e da sua expressão em palavras. (…) É tão raro que a humanidade produza um bom livro em que se entoe com liberdade audaz o canto de guerra da verdade, o hino do heroísmo filosófico: e, no entanto, é dos acasos mais miseráveis, de obscurecimentos repentinos das cabeças, de convulsões supersticiosas e de antipatias, e, em última análise, também dos dedos de escribas preguiçosos ou até dos insetos e da chuva, que depende se este livro vive mais um século ou se volta à podridão e à terra. (…) …espíritos cultos que se queixam de obras perdidas…

Depois destas considerações, ninguém ficará chocado por eu falar dos filósofos pré-platônicos como se formassem uma sociedade coerente, e por pensar em dedicar só a eles este critério. Com Platão, começa uma coisa completamente nova; ou, como com igual razão se pode dizer, em comparação com aquela República de gênios que vai de Tales a Sócrates, falta aos filósofos, desde Platão, algo de essencial. (…) Todo o filosofar moderno é restringido a uma aparência de erudição, politicamente e policialmente, por governos, por igrejas, por academias, por costumes, por modas e pelas covardias dos homens: fica-se pelo suspiro “se” ou pela constatação “era uma vez”. A filosofia já não tem razão de ser e, por isso, o homem moderno, se fosse corajoso e honesto, deveria rejeitá-la e bani-la.Continuar lendo “A filosofia na época trágica dos gregos”

Cálculos cerebrais – Rubem Alves

Minha neta parecia absorta, lendo seu caderno de biologia. 16 anos, idade tão bonita, o mundo inteiro a ser compreendido – especialmente em se tratando de biologia. Haverá coisa mais fascinante que a vida? Toda moça de 16 anos quer compreender a vida, pois a vida está borbulhando dentro dela. Olhei para o caderno: ilustrações coloridas, tudo tão organizado! Mas não havia entusiasmo no seu rosto. Nem nada que se parecesse com curiosidade. Era mais uma expressão de tédio. Sei o que é isso. Há textos que reduzem o leitor a uma panqueca que se arrasta pelo chão, porque tem de ler, mas não quer.

Perguntei o que ela estava lendo. Ela me mostrou um parágrafo com o dedo. Era isso que estava escrito: “Além da catálase, existem nos peroxissomos enzimas que participam da degradação de outras substâncias tóxicas, como o etanol e certos radicais livres. Células vegetais possuem glioxissomos, peroxissomos relacionados com a conversão das reservas de lipídios em carboidratos. O citosol (ou hialoplasma) é um coloide… No citosol das células eucarióticas existe um citoesqueleto constituído fundamentalmente por microfilamentos e microtúbulos, responsável pela ancoragem de organoides… Os microtúbulos têm paredes formadas por moléculas de tubulina…”. Encontrei ainda palavras que nunca lera: retículo sarcoplasmático, complexo de Golgi, pinocitose, fagossomo, fragmoplasto… E esta frase: “O padrão do axonema é constituído por 9+2, uma referência aos nove pares de microtúbulos em torno de um par central”. Parece-me que essa afirmação tem a ver com o rabo do espermatozoide, mas, naquele momento, meus pensamentos estavam tão confusos que não posso garantir.

Fiquei curioso acerca da cabeça da pessoa que escreveu isso. Teria de ser um biólogo, cientista, pessoa competente na sua ciência. Se assim não fosse, a editora que imprimiu e vendeu o referido caderno não o contrataria como autor do texto. Todas as informações que ali se encontram são, assim, cientificamente corretas. Mas todo texto é escrito pensando-se numa pessoa que vai lê-lo. Nesse caso específico, essa pessoa será um estudante que terá de aprender as informações que o texto contém. Trata-se, portanto, de conhecimentos essenciais. Se o estudante não aprender, sofrerá a punição devida. Não saberá colocar o “x” no lugar certo. Não colocando o “x” no lugar certo, terá uma nota má. Tirando uma nota má, poderá ser reprovado na escola ou no vestibular. Os conhecimentos do texto, assim, têm um caráter obrigatório. O jovem não pode refugar.

O autor do texto, cientista e pedagogo (pedagogo sim, porque seu texto dirige-se a alunos), tem de ser inteligente. Deve pensar no sentido do texto para o estudante. Pelo menos é assim comigo. Não me parece que o referido texto seja uma entidade da caixa de brinquedos. Ao lê-lo, não consegui encontrar nem beleza nem humor. Deve, portanto, ser uma entidade da caixa de ferramentas: um conhecimento que vale pelo seu uso prático. Aí fiquei atrapalhado: por mais que me esforçasse, não consegui imaginar nada de prático que eu pudesse fazer com aquele parágrafo e muito menos a minha neta. Alfred Whitehead criou a expressão “ideias inertes”. Ideia inerte é uma ideia que, além de não servir para coisa alguma, pesa e produz dor. Dificulta os saltos do pensamento, que é obrigado a se arrastar. Percebi, então, que além da caixa de ferramentas e da caixa de brinquedos de que lanço mão frequentemente, é preciso criar uma “caixa de torturas”.

A vesícula, vez por outra, desenvolve cálculos, pedras dolorosas que ela tem de carregar até que uma cirurgia as extraia. Ideias inertes são cálculos que se desenvolvem no cérebro. Doem e não servem para coisa alguma. Compreendi então o rosto da minha neta. Não era tédio. Era dor. Seus cálculos cerebrais doíam. E doíam mais por não servirem para nada. Senti então uma indignação crescendo dentro de mim, indignação maior que aquela causada pelas corrupções políticas. Porque as corrupções políticas têm a ver só com dinheiro e homens adultos. Mas coisas como aquele texto que minha neta tem de aprender têm a ver com crianças e adolescentes. Fico a pensar nos cálculos cerebrais que irão carregar pelo resto da vida e que fazem o pensamento doer. Fiquei com dó dela. Biologia é tão bonito! O absurdo é óbvio, mas parece que ninguém se dá conta. É preciso que se faça algo para proteger a inteligência dos jovens.

A arte de produzir fome – Rubem Alves

Adélia Prado me ensina pedagogia: “Não quero faca nem queijo; quero é fome”. O comer não começa com o queijo. O comer começa na fome de queijo. Se não tenho fome, é inútil ter queijo. Mas se tenho fome de queijo e não tenho queijo, dou um jeito de arranjar queijo. Sugeri, faz muitos anos, que, para se entrar numa escola, os professores deveriam passar por uma cozinha. Os cozinheiros podem dar lições aos professores. Bons cozinheiros sabem que os banquetes não começam com a comida que se serve: eles se iniciam com a fome. O melhor cozinheiro é aquele que sabe a arte de produzir fome.

Quando vivi nos EUA, minha família e eu visitávamos, vez por outra, uma parente distante, nascida na Alemanha. Seus hábitos germânicos eram rígidos e implacáveis. Não admitia que uma criança se recusasse a comer a comida que era servida. Meus dois filhos, movidos pelo medo, comiam em silêncio. Mas lembro de uma vez que, voltando para casa, foi preciso parar o carro para que vomitassem. Sem fome, o corpo se recusa a comer. Forçado, ele vomita. Toda experiência de aprendizagem se inicia com uma experiência afetiva. É a fome que põe em funcionamento o aparelho pensador. Fome é afeto. O pensamento nasce do afeto, da fome. Mas não confundam afeto com carinho. Afeto, do latim affetare, quer dizer “ir atrás”. É o movimento da alma em busca do objeto da fome. É o eros platônico, a fome que faz a alma voar em busca do fruto sonhado.

Eu era menino. Ao lado da pequena casa onde morava, havia uma casa com um pomar enorme que eu devorava com os olhos, olhando sobre o muro. Pois aconteceu que uma árvore cujos galhos chegavam a dois metros do muro se cobriu de frutinhas que eu não conhecia. Eram pequenas, redondas, vermelhas, brilhantes. A simples visão daquelas frutinhas vermelhas provocou o meu desejo. Eu queria comê-las. E foi então que, provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar se pôs a funcionar.

Anote isso: o pensamento é a ponte que o corpo constrói a fim de chegar ao objeto do seu desejo. Se eu não tivesse visto e desejado as ditas frutinhas, minha máquina de pensar teria permanecido parada. Imagine se a vizinha, ao ver os meus olhos desejantes sobre o muro, com dó de mim, tivesse me dado um punhado das ditas frutinhas, as pitangas. Nesse caso, também minha máquina de pensar não teria funcionado. Meu desejo teria se realizado por meio de um atalho, sem que eu tivesse tido necessidade de pensar. Anote isso também: se o desejo for satisfeito, a máquina de pensar não pensa. Assim, realizando-se o desejo, o pensamento não acontece. A maneira mais fácil de abortar o pensamento é realizando o desejo. Esse é o pecado de muitos pais e professores que ensinam as respostas antes que tivesse havido perguntas.

Provocada pelo meu desejo, minha máquina de pensar me fez uma primeira sugestão criminosa: “Pule o muro à noite e roube as pitangas”. Furto, fruto, tão próximos… Sim, de fato era uma solução racional. O furto me levaria ao fruto desejado. Mas havia um senão: o medo. E se eu fosse flagrado no momento do furto? Rejeitei o pensamento criminoso pelo seu perigo. Mas o desejo continuou e minha máquina de pensar tratou de encontrar outra solução: “Construa uma máquina de roubar pitangas”. McLuhan nos ensinou que todos os meios técnicos são extensões do corpo. Bicicletas são extensões das pernas, óculos são extensões dos olhos, facas são extensões das unhas. Uma máquina de roubar pitangas teria de ser uma extensão do braço. Um braço comprido, com cerca de dois metros. Peguei um pedaço de bambu. Mas um braço comprido de bambu, sem uma mão, seria inútil: as pitangas cairiam. Achei uma lata vazia, amarrei-a com um arame na ponta do bambu e lhe fiz um dente, que funcionasse como um dedo para segurar a fruta. Feita a minha máquina, apanhei todas as pitangas que quis e satisfiz meu desejo.

Anote isso também: conhecimentos são extensões do corpo para a realização do desejo. Imagine agora se eu, mudando-me para um apartamento no Rio de Janeiro, tivesse a ideia de ensinar ao menino meu vizinho a arte de fabricar máquinas de roubar pitangas. Ele me olharia com desinteresse e pensaria que eu estava louco. No prédio, não havia pitangas para serem roubadas. A cabeça não pensa aquilo que o coração não pede. E anote isso também: conhecimentos que não são nascidos do desejo são como uma maravilhosa cozinha na casa de um homem que sofre de anorexia. Homem sem fome. O fogão nunca será aceso. O banquete nunca será servido. “Saber por saber é inumano”, dizia Miguel de Unamuno. A tarefa do professor é a mesma da cozinheira: antes de dar faca e queijo ao aluno, provocar a fome. Se ele tiver fome, mesmo que não tenha queijo, acabará por criar uma máquina de roubá-los. Toda tese acadêmica deveria ser isso: uma máquina de roubar o objeto que se deseja.

Cartas de Amor – Rubem Alves

Woman reading a letter, by Johannes Vermeer“Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.” (F. P.)

Tenho no meu escritório a reprodução de uma das telas mais delicadas que conheço: “Mulher lendo uma carta”, de Johannes Vermeer (1632-1675). Uma mulher, de pé, lê uma carta. O seu rosto está iluminado pela luz da janela. Seus olhos leem o que está escrito naquela folha de papel que suas mãos seguram, a boca ligeiramente entreaberta, quase num sorriso. De tão absorta, ela nem se dá conta da cadeira ao seu lado e lê em pé mesmo. Penso ser capaz de reconstituir os momentos que antecedem este que o pintor fixou. Pancadas na porta interromperam as rotinas domésticas que a ocupavam. Ela vai abrir e lá estava o carteiro, com uma carta na mão. Pela simples leitura do nome no envelope, ela identifica o remetente. Ela toma a carta e, com este gesto, toca uma mão muito distante. Para isto se escrevem as cartas de amor. Não para dar notícias, não para contar nada, não para repetir as coisas por demais sabidas, mas para que mãos separadas se toquem.

Barthes cita estas palavras de Goethe: “Por que me vejo novamente compelido a escrever? Não é preciso, querida, fazer pergunta tão evidente, porque, na verdade, nada tenho para te dizer. Entretanto tuas mãos queridas receberão este papel”. Será esta a razão do ridículo das cartas de amor – o descompasso entre o que elas dizem e aquilo que elas realmente querem fazer? Pois o propósito explícito de uma carta é dar notícias, e é por isto que elas são feitas de palavras. Mas o que elas realmente desejam realizar está sempre antes e depois da palavra escrita: elas querem realizar aquilo que a separação proíbe: o abraço. Quem quer que tente entender uma carta de amor pela análise da escritura estará sempre fora de lugar, pois o que ela contém é o que não está ali, o que está ausente. Qualquer carta de amor, não importa o que se encontre nela escrito, só fala do desejo, da dor da ausência, da nostalgia pelo reencontro.

Aquela carta fez tudo parar. A mulher fecha a porta e caminha pela casa sem nada ver, buscando uma coisa apenas, a luz, o lugar onde as palavras ficarão luminosas. Que lhe importa a cadeira? Esqueceu-se de que está grávida. Seus olhos caminham pelas palavras que saíram das mesmas mãos que a abraçaram. Seu corpo está suspenso naquele momento mágico de carinho impossível que aquele pequeno pedaço de papel abriu no tempo do seu cotidiano. Uma carta de amor é um papel que liga duas solidões. A mulher está só. Se há outras pessoas na casa, ela as deixou. Bem pode ser que as coisas que estão nela escritas não sejam nenhum segredo, que possam ser contadas a todos. Mas, para que a carta seja de amor, ela tem de ser lida em solidão. Como se o amante estivesse dizendo: “Escrevo para que você fique sozinha…”. É este ato de leitura solitária que estabelece a cumplicidade. Pois foi da solidão que a carta nasceu.

Olho para o céu. Vejo a Alfa Centauro. Os astrônomos me dizem que a estrela que agora vejo é a estrela que foi, há dois anos. Pois foi este o tempo que sua luz levou para chegar até os meus olhos. O que eu vejo é o que não mais existe. E será inútil que eu me pergunte: “Como será ela agora? Existirá ainda?”. Respostas a estas perguntas eu só vou conseguir daqui a dois anos, quando a sua luz chegar até mim. A sua luz está sempre atrasada. Vejo sempre aquilo que já foi. Nisto as cartas se parecem com as estrelas. A carta que a mulher tem nas mãos, que marca o seu momento de solidão, pertence a um momento que não existe mais. Ela nada diz sobre o presente do amante distante. Daí a sua dor. O amante que escreve alonga os seus braços para um momento que ainda não existe. A amante que lê alonga os seus braços para um momento que não mais existe.

“Ainda bem que existe o telefone”, retrucarão os namorados modernos, que não mais têm de viver o amor no espaço das ausências. Engano. Um telefonema não é uma carta falada. Pois lhe falta o essencial: o silêncio da solidão, a calma da caneta pousada sobre a mesa que espera e escolhe pensamentos e palavras. O telefone põe a solidão a perder. Num telefonema a gente nunca diz aquilo que se diria numa carta. Por exemplo: “Eu ia andando pela rua quando, de repente, vi um ipê-rosa florido que me fez lembrar aquela vez…”. Ou: “Relendo os poemas de Neruda encontrei este que, imagino, você gostará de ler…”. A diferença entre a carta e o telefone é simples: o telefone é impositivo. A conversa tem de acontecer naquele momento. Falta-lhe o ingrediente essencial da palavra que é dita sem esperar resposta. E, uma vez terminado, os dois amantes estão de mãos vazias. Mas a mulher tem nas mãos uma carta. A carta é um objeto. Se não tivesse podido recolher-se à sua solidão, ela poderia tê-la guardado no bolso, na deliciosa espera do momento oportuno. O telefonema não pode esperar. A carta é paciente. Guarda as suas palavras. E, depois de lida, poderá ser relida. Ou simplesmente acariciada. Uma carta é mais que uma mensagem. Mesmo antes de ser lida, ainda dentro do envelope fechado, tem a qualidade de um sacramento: presença sensível de uma felicidade invisível.

Estes pensamentos me vieram depois de ler as cartas de um jovem cientista, Albert Einstein, à sua amada, Mileva Maric. Foram elas que me fizeram ir ao poema do Fernando Pessoa: ridículas. Todas as cartas de amor são ridículas. Acho que os editores pensaram o mesmo. E como desculpa para o seu gesto indiscreto de tornar público o ridículo que era segredo de dois amantes, escreveram uma longa e erudita introdução que transformou as ridículas cartas de amor em documentos da história da ciência. Valem porque, misturadas ao ridículo de que os amantes se alimentam, se encontram pistas que dão aos historiadores as chaves para a compreensão das “fontes do desenvolvimento emocional e intelectual dos correspondentes”. Não sabendo o que fazer com o amor que era ridículo, colocaram-nas na arqueologia da ciência. Foi então que o quadro de Vermeer me fez ver a cena que as cartas escondem. Que razões poderia ter uma pessoa para guardar cartas ridículas? O seu rosto absorto e os lábios entreabertos nos dão a resposta: para aqueles que amam, as ridículas cartas de amor são sempre sublimes. Volto ao poema do Fernando Pessoa e encontro lá o que faltava para fechar a cena: “Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor são ridículas”.

Sobre o casamento – Rubem Alves

Depois de muito meditar sobre o assunto, concluí que os casamentos são de dois tipos: tênis e frescobol. Casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e costumam ter vida longa. Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente: “Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a velhice?’. Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar”.

Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme “O império dos sentidos”. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar “mil e uma noites”. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre depois de morrer.

Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo, eu te amo…”. Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada”. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma”.

O tênis é um jogo feroz. Seu objetivo é derrotar o adversário. E a derrota se revela no erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir. E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo.

A bola são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá… Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão. O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde. Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem, cresce o amor… Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim.

Filosofia do humor

Artigo de Desidério Murcho para o portal Crítica.

O que é o humor? O que nos faz rir? Vários filósofos tentaram responder. Deixo aqui apenas um esboço das três principais teorias filosóficas sobre a natureza do humor: a teoria da superioridade, a teoria da incongruência e a teoria da libertação da tensão. Antes, uma nota: há filósofos que, em bom rigor, não falam do humor, mas do riso, que é diferente. Talvez não haja humor sem riso, mas há certamente riso sem humor, o que significa que o riso talvez seja uma condição necessária do humor, mas não suficiente. Por exemplo, podemos rir de alegria por ganhar na loteria, o que não descreveríamos como uma situação humorística. De qualquer modo, muito do que se possa dizer do riso também é aplicável ao humor. Vamos às três teorias:

A teoria da superioridade é a mais antiga. Começa a ser delineada por Platão e Aristóteles, mas é a Hobbes que costuma ser associada. Hobbes defende que o humor consiste na expressão de superioridade em relação ao objeto do nosso riso. A ideia é que o humor elege sempre alguma vítima ou aponta para algum defeito alheio, como é o caso das anedotas sexistas e racistas. Mesmo quando o humor, como frequentemente acontece, funciona como uma espécie de crítica social ou política, está a exprimir alguma forma de superioridade moral, intelectual ou de outro tipo. Há várias objeções a essa teoria. Uma das mais fortes é que, se a teoria fosse verdadeira, não faria sentido rir de nós próprios. Mas há humor em rir de nós próprios ou do grupo a que pertencemos.

A teoria da incongruência, associada a Kant e a Schopenhauer, defende que o riso é a expressão de uma incongruência percebida por aquele que ri. Isso acontece, por exemplo, quando somos surpreendidos com alguma impossibilidade lógica que tomamos como natural; ou quando somos tentados por ideias irrelevantes; ou quando são geradas expectativas que conduzem a um impasse; ou quando somos persuadidos a aceitar o que aparentemente é inaceitável. Uma objeção a essa teoria é que há incongruências que não são percebidas como humorísticas. Assim, a incongruência por si só não explica por que certas histórias ou situações são consideradas humorísticas.

A teoria da libertação da tensão, desenvolvida sobretudo por Freud, defende que o humor é um escape e tem uma função muito semelhante à dos sonhos: libertar instintos e desejos sexuais e agressivos socialmente reprovados e reprimidos. A tensão gerada pela repressão social desses instintos é simbolicamente libertada através das piadas e anedotas. Daí o fato das piadas de teor sexual serem tão populares. Freud admite que há outro tipo de piadas, que dependem apenas da técnica como são construídas ou apresentadas. Mas chama “inocentes” a essas piadas, prestando-lhes pouca atenção. A teoria de Freud parece ser refutada pelos fatos. De acordo com Freud, as pessoas que gastam mais energias a reprimir os seus instintos e desejos agressivos e sexuais seriam as que mais deviam rir com as piadas. Contudo, há investigações empíricas que apontam precisamente no sentido contrário: as pessoas com uma educação mais austera e punitiva em termos sexuais não são os que mais sentido de humor costumam ter.

50 tons de sexo

Era tudo muito fácil. Só havia homens e mulheres. Agora, quem resolve criar uma conta no Facebook precisa escolher entre 52 opções de gênero. É o que mostra a matéria a seguir, publicada na revista Época.


Para quem escreveu o Gênesis era fácil. Deus fez Adão e Eva – e pronto. A humanidade toda se restringia a dois sexos. Desde então o mundo mudou, mudou, mudou, veio a revolução sexual, o feminismo, o movimento LGBTQIAPN+… Até que surgiu o Facebook. E nem as mentes mais abertas para a diversidade da sexualidade humana estavam preparadas para isso. Ao criar uma conta na rede social, o usuário informa dados pessoais como data de nascimento, idioma, cidade natal e um item que, para muitos, passa quase sempre despercebido: gênero. Pois bem, no começo de 2014, o Facebook anunciou mais 50 novas opções de gêneros, além das duas tradicionais (masculino e feminino). Somando tudo, o usuário agora tem de escolher quem ele é entre 52 tons de sexo.

“Estamos orgulhosos de oferecer uma nova opção de customização de gênero para ajudar você a expressar melhor sua própria identidade”, diz o comunicado oficial. Na longa lista de 50 novas opções de gênero, há algumas opções conhecidas, como “transgênero” (alguém que não se identifica com o seu gênero biológico) e termos totalmente misteriosos, como “dois espíritos” (definição usada por tribos indígenas da América Norte para quem se sente, ao mesmo tempo, homem e mulher). A seleção dos termos durou um ano e foi feita em parceria com líderes de organizações LGBTQIAPN+ dos Estados Unidos.

Os psicólogos e psiquiatras ouvidos por ÉPOCA dizem que é importante que as pessoas possam se definir sexual­mente de acordo com sua própria percepção. O psicólogo mineiro Klecius Borges diz que os termos são “diferentes tentativas” de definição da própria identidade. “A escolha de um desses termos ajuda a quebrar a forma binária como nossa cultura e sociedade tratam a questão do sexo”, afirma. Mesmo ele, porém, acha 52 opções um pouco demais. “Quando se especifica demais, perde-se o foco e passa-se a concentrar em detalhes que não importam”, diz Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Transtornos de Identidade de Gênero do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. Ao mesmo tempo, Saadeh afirma que a decisão do Facebook gera discussão e pode servir para expor os preconceitos. Mas será que alguém se tornará mais tolerante ao ser informado das 50 novas opções de gênero do Facebook?

São Paulo será 6ª cidade mais rica do mundo até 2025

A cidade de São Paulo deve se tornar a sexta mais rica do mundo até 2025, segundo ranking compilado pela consultoria econômica internacional PwC. De acordo com o estudo, a capital paulista, atualmente na décima posição, deve crescer em média 4,2% ao ano até 2025, ultrapassando cidades como Paris, Osaka e Cidade do México. Com um crescimento semelhante, o Rio de Janeiro deve passar da 30ª para a 24ª posição. Outras sete cidades brasileiras (Brasília, Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba, Recife, Fortaleza e Salvador) devem figurar entre as 150 cidades com maior PIB no mundo em 2025.

O estudo destaca ainda o crescimento acelerado das economias emergentes, que deve elevar de 39 para 48 o número de cidades de países em desenvolvimento entre as 100 mais ricas do mundo. “Se olharmos para a projeção de crescimento do PIB de 2008 para 2025 das maiores cidades de países emergentes e de países desenvolvidos, a comparação é impressionante. Cidades como Xangai, Pequim e Mumbai, por exemplo, têm um crescimento projetado de 6% a 7% ao ano em termos reais, enquanto cidades como Nova York, Tóquio, Chicago e Londres devem crescer somente em torno de 2% ao ano em média”, observa John Hawksworth, diretor do setor de macroeconomia da PwC.

A cidade de Mumbai, centro financeiro da Índia, deve ser, entre as 30 primeiras, a que mais posições subirá no ranking, segundo o levantamento, saindo da atual 29ª posição para a 11ª em 2025. No mesmo período, a capital da China, Pequim, deve saltar do 38º para o 17º lugar, enquanto Xangai, o centro financeiro chinês, deve subir da 25ª para a 9ª posição. O ranking das cidades com o maior crescimento estimado do PIB até 2025 é liderado por duas cidades do Vietnã (Hanoi e Ho Chi Min), com uma elevação média de 7% no período. Entre as 30 cidades com o maior crescimento econômico no período estão ainda 12 indianas e 9 chinesas. As três primeiras posições do ranking (Tóquio, Nova York e Los Angeles) devem se manter inalteradas até 2025. O estudo da PwC foi baseado nas estimativas de população e crescimento das Nações Unidas, da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e de governos locais.


As 45 cidades mais ricas das Américas:

Segundo ranking da PwCdas 45 metrópoles com maior PIB do continente americano, mais da metade (23 delas) ficam nos Estados Unidos. Fora dos EUA, a cidade mais bem colocada no ranking é São Paulo, na quarta colocação, atrás apenas das americanas Nova YorkLos Angeles e Chicago. A segunda cidade brasileira melhor colocada é o Rio de Janeiro, na 18ª posição. Brasília, Porto Alegre, Belo Horizonte, Curitiba, Recife, Fortaleza e Salvador também aparecem entre as 45 mais ricas do novo mundo. Veja:

Posição Cidade País PIB (bi US$) capital nacional
1 Nova York  EUA $ 1406
2 Los Angeles  EUA $ 792
3 Chicago  EUA $ 574
4 São Paulo  Brasil $ 477
5 Filadélfia  EUA $ 388
6 Cidade De Mexico  México $ 388
7 Washington DC  EUA $ 375
8 Boston  EUA $ 363
9 Buenos Aires  Argentina $ 362
10 Dallas  EUA $ 338
11 Atlanta  EUA $ 304
12 São Francisco  EUA $ 301
13 Houston  EUA $ 297
14 Miami  EUA $ 292
15 Toronto  Canadá $ 253
16 Detroit  EUA $ 253
17 Seattle  EUA $ 235
18 Rio de Janeiro  Brasil $ 201
19 Phoenix  EUA $ 200
20 Minneapolis  EUA $ 194
21 San Diego  EUA $ 191
22 Denver  EUA $ 165
23 Montreal  Canadá $ 148
24 Baltimore  EUA $ 137
25 St. Louis  EUA $ 126
26 Tampa  EUA $ 123
27 Santiago  Chile $ 120
28 Cleveland  EUA $ 112
29 Brasília  Brasil $ 110
30 Portland  EUA $ 110
31 Lima  Peru $ 109
32 Monterrey  México $ 102
33 Bogotá  Colômbia $ 100
34 Pittsburgh  EUA $ 99
35 Vancouver  Canadá $ 95
36 Guadalajara  México $ 81
37 Porto Alegre  Brasil $ 66
38 Belo Horizonte  Brasil $ 61
39 Medellín  Colômbia $ 50
40 Curitiba  Brasil $ 44
41 Puebla  México $ 42
42 Caracas  Venezuela $ 41
43 Recife  Brasil $ 35
44 Fortaleza  Brasil $ 25
45 Salvador  Brasil $ 10

PIB de São Paulo comparado ao de países:

Todos os países vizinhos da América do Sul, além de grandes nações europeias como Suécia, Noruega, Bélgica, Polônia, Áustria, Dinamarca, Grécia, Finlândia, Portugal e Irlanda ficam no chinelo comparadas à cidade de São Paulo. Segundo o Wikipedia, o PIB atual da capital paulista é de 1,4 trilhões de reais. Feita a devida conversão, isso equivale a aproximadamente 537 bilhões de dólares. A tabela a seguir traz uma lista de países que têm um PIB menor do que isso e informa a posição de cada país no ranking do PIB e o seu respectivo valor (em milhões de dólares). Repare que apenas a cidade de São Paulo possui um PIB mais de três vezes maior que o de todo o Uruguai!

21  Suécia 520.256
22  Noruega 499.827
23  Irã 483.780
24  Bélgica 476.796
25  Argentina 474.812
26  Polónia 470.354
27  Taiwan 466.054
28  Áustria 391.469
29  África do Sul 390.919
30  Tailândia 376.989
31  Colômbia 365,402
32  Emirados Árabes 361.912
33  Venezuela 337.979
34  Dinamarca 309.180
35  Malásia 307.178
36  Nigéria 272.550
37  Chile 268.278
38  Singapura 267.941
39  Hong Kong 260.471
40  Egito 255.001
41  Grécia 254.978
42  Finlândia 247.189
43  Israel 246.780
44  Filipinas 240.664
45  Paquistão 230.525
46  Portugal 210.620
47  Argélia 206.545
48  Irlanda 204.710
49  Cazaquistão 200.642
50  Peru 200.292
51  República Checa 193.513
52  Catar 184.566
53  Ucrânia 180.174
54  Kuwait 174.628
55  Romênia 171.401
56  Nova Zelândia 166.923
57  Vietnã 137.681
58  Iraque 130.574
59  Hungria 129.959
60  Bangladesh 118.639
61  Angola 114.833
62  Marrocos 97.173
63  Eslováquia 91.186
64  Líbia 85.109
65  Equador 80.927
66  Azerbaijão 71.043
67  Omã 79.974
68  Sri Lanka 59.773
69  República Dominicana 59.133
70  Bielorrússia 58.125
71  Croácia 57.493
72  Luxemburgo 55.287
73  Myanmar 54.049
74  Uzbequistão 51.622
75  Sudão 51.583
76  Bulgária 50.806
77  Guatemala 50.296
78  Uruguai 49.716


Com informações de: PwCBBC Brasil e Wikipedia.