Platão nos alertou sobre o ChatGPT

Muito antes da invenção da imprensa, da internet ou das inteligências artificiais (IAs) generativas, Platão já estava preocupado com o que as novas tecnologias da informação poderiam fazer conosco. A crítica de Sócrates à invenção da escrita no trecho final do diálogo Fedro (274c – 278b) se aplica com muita propriedade ao debate contemporâneo em torno do advento das IAs generativas ou Grandes Modelos de Linguagem (LLMs, na sigla em inglês para Large Language Models) — como o ChatGPT —, e seus possíveis efeitos nas nossas habilidades e funções cognitivas. Veremos neste breve artigo como a solução encontrada por Platão para o problema da escrita pode ser útil e aplicável às discussões atuais sobre esse tema. Mas antes, precisamos entender qual seria esse tal “problema da escrita”.

A crítica socrática à escrita

Embora tenha sido considerado o mais sábio dentre os homens de sua época, Sócrates não deixou nada escrito. Mais do que isso: ele era um crítico voraz da escrita. No trecho final do Fedro (274c – 278b), Platão registra que, ao ser questionado sobre esse fato, Sócrates propõe o seu argumento recorrendo a uma antiga lenda egípcia. Diz essa lenda que o deus a quem os egípcios chamavam Thoth certa vez apareceu ao rei – ou faraó – Thamus apresentando-lhe muitas invenções úteis, dentre elas a escrita. De acordo com Thoth, essa invenção em particular teria o poder de potencializar sobremaneira a memória, a inteligência e o acúmulo de conhecimento dos seres humanos.

Thamus, porém, teria recebido com bastante receio e desconfiança toda essa empolgação de Thoth. Segundo ele, o efeito mais provável dessa invenção poderia muito bem ser exatamente o oposto daquele que era esperado pelo deus: justamente por dispor de um meio externo onde guardar suas memórias e conhecimentos – e recuperá-los sempre que quisessem –, os homens se tornariam intelectualmente preguiçosos, com memória mais fraca e menos inteligentes (Fedro, 275a). Dessa perspectiva, a invenção da escrita seria uma espécie de pharmakón: termo grego que pode significar “remédio”, mas também “veneno”. A escrita aparece, portanto, como uma tecnologia ambígua: ao mesmo tempo uma ferramenta poderosíssima de preservação da cultura humana e possível causa de atrofia e empobrecimento intelectual.

Ora, é indubitável que a invenção da escrita representa uma das maiores revoluções tecnológicas da história da humanidade. Mais do que isso: ela é o marco que divide a nossa história da nossa pré-história. A escrita, nesse sentido, pode ser entendida como uma ampliação da capacidade simbólica humana. Ela permitiu a organização de arquivos, bibliotecas, sistemas jurídicos e tradições literárias complexas. Ao fixar a palavra falada em um suporte material relativamente permanente, ela possibilita a conservação do conhecimento, sua transmissão às gerações futuras, a expansão da memória coletiva e o surgimento de formas complexas de investigação racional, como a filosofia e a ciência. Contudo, exatamente por externalizar certos processos mentais, a escrita também levanta a questão de até que ponto os instrumentos técnicos externos substituem ou transformam as nossas capacidades cognitivas internas. É nesse ponto que a crítica socrática se torna filosoficamente relevante.

A relevância atual dessa crítica

A empolgação e Thoth e o receio de Thamus no mito egípcio sobre a invenção da escrita se manifesta nos debates contemporâneos em torno do advento das inteligências artificiais generativas ou grandes modelos de linguagem (LLMs). Há, por um lado, aqueles que estão deslumbrados com todo o potencial dessas novas tecnologias, assim como Thoth. E naturalmente também há, por outro lado, aqueles que, tais quais Thamus, estão temerosos quanto aos seus impactos negativos na educação, na memória, na linguagem, nas habilidades cognitivas, no pensamento crítico etc. É claro que nenhum dos dois lados desse debate está totalmente com a razão. As novas possibilidades trazidas à tona pelas IAs generativas, assim como aconteceu com a invenção da escrita, de fato carregam consigo maravilhas e desafios, prós e contras, vantagens e desvantagens.

E tem sido assim desde sempre. Cada nova tecnologia revolucionária da informação que surgiu na história da humanidade provocou preocupações semelhantes àquelas expressas por Sócrates no Fedro de Platão. A imprensa de Gutenberg no século XV, por exemplo, gerou receios de que a abundância de livros produzisse superficialidade intelectual. No século XX, o surgimento da internet suscitou debates sobre a fragmentação da atenção e a confiabilidade das fontes. Agora, no século XXI, o advento das IAs generativas representa um novo estágio dessa transformação e recoloca essa problemática em novos termos.

LLMs como o ChatGPT são novas tecnologias que prometem nos tornar mais sábios, ler, escrever e pensar em nosso nome. Mas, assim como a escrita em seu momento inicial, ameaçam corroer as habilidades que imitam, e suscitam tanto expectativas de ampliação do saber quanto receios de empobrecimento intelectual. A questão que se impõe, portanto, é se tais tecnologias promovem mais o aperfeiçoamento ou o enfraquecimento das capacidades intelectuais humanas. Essa pergunta ecoa de maneira surpreendente a crítica socrática no Fedro. A preocupação fundamental permanece a mesma: a externalização de funções cognitivas pode gerar tanto expansão quanto atrofia das faculdades mentais.

Ao mesmo tempo em que têm o potencial de aumentar sobremaneira a nossa produtividade no trabalho e nos estudos, existe o receio de que o advento dessas novas tecnologias seja para o nosso cérebro aquilo que o advento das tecnologias automatizadas de locomoção — automóveis, elevadores, escadas rolantes, controles remotos etc. — foi para o nosso corpo. O automatismo acabou levando ao sedentarismo, de tal modo que hoje as pessoas não precisam mais caminhar longas distâncias, subir escadas e realizar muitos trabalhos braçais. Por isso, precisam reservar um momento do seu dia para conseguir ir a uma academia fazer exercícios físicos, a fim de minimizar os males do sedentarismo e não adoecer o corpo. De modo semelhante, teme-se que o advento das IAs generativas levem a um “sedentarismo cognitivo”, a um “emburrecimento” geral da população. Afinal, o caminho natural do nosso cérebro é sempre o de poupar energia — por isso, inclusive, temos vieses e preconceitos. Como superar ou contornar esse problema?

A solução de Platão

Ironicamente, só temos conhecimento da crítica de Sócrates à escrita porque Platão a escreveu. E Platão, diferente de Sócrates, escreveu muito. Isso indica que a sua posição diante da crítica socrática não é uma rejeição absoluta da escrita, como teria preferido o seu mestre, mas antes uma certa adequação da escrita visando minimizar os seus males intrínsecos e maximizar o que ela pode trazer de bom.

Apesar de ter concluído que o valor e as vantagens da escrita compensam e superam em muito as suas desvantagens, Platão estava ciente dos seus riscos e, nesse sentido, o registro da crítica socrática serve como um alerta. Em suas palavras, a escrita tem um enorme potencial de se tornar uma espécie de “fala morta” (Fedro, 276a–277a) quando mal utilizada, ou seja, quando o escritor não está seguro daquilo que escreveu, quando não é capaz de dar conta de seus argumentos sem ter de recorrer ao texto escrito. Nesses casos, o texto escrito funcionaria como uma “muleta”, um atalho ou um substituto para o pensamento.A crítica não se dirige simplesmente ao ato de escrever, mas ao risco de que o conhecimento seja reduzido a um depósito de informações externas. Quando tratada assim, ela pode induzir à ilusão de sabedoria — aquilo que Sócrates chama de “aparência de sabedoria sem sua verdade” (Fedro, 275b). Para Sócrates, o verdadeiro saber não consiste na posse de textos, mas na capacidade de compreender e justificar racionalmente aquilo que se afirma. Um discurso escrito, diferentemente do diálogo vivo, é propenso a mal-entendidos, indiferente às reações do seu público e não pode defender-se nem responder às perguntas de seu interlocutor.

Por outro lado, quando o autor está seguro daquilo que escreveu e é capaz de dar conta de seus próprios argumentos sem o auxílio do texto escrito, a sua escrita se assemelha a uma “fala viva”, capaz de reagir a objeções e contra-argumentos, capaz de oferecer ao leitor diálogo e interlocução. Isso explica a predileção platônica por escrever na forma de diálogos. Mais do que mero estilo literário, escrever diálogos foi a melhor maneira que Platão encontrou de usar a escrita como uma “fala viva”. Platão escreveu diálogos porque eles podiam ganhar vida na mente do leitor, porque convidam à reflexão, questionamento e interação, porque obrigam os seus leitores a pensarem por si mesmos. Essa “fala viva” aprimora as faculdades do leitor e até discrimina entre os leitores, recusando uns e recompensando outros. Sócrates, por exemplo, frequentemente apresenta argumentos medíocres. Isso é deliberado. Uns ficarão satisfeitos e seguirão em frente, enquanto os mais perspicazes se oporão e investigarão mais fundo. Nesse sentido, todo diálogo platônico é composto por duas conversas: a que Platão escreveu e a que se desenrola entre Platão e o leitor.

A leitura atenta do Fedro sugere que a questão decisiva ali não é escolher entre aceitar ou rejeitar a tecnologia, mas determinar como ela deve ser recebida e utilizada. Em outras palavras, o problema não está na tecnologia em si, mas na maneira como ela é integrada à nossa rotina, incorporada à nossa vida. Para Platão, o verdadeiro conhecimento nasce do diálogo vivo, da investigação racional e da formação da alma — processos que nenhuma tecnologia pode substituir. Nessa direção, seu alerta precisa continuar ecoando: não podemos permitir que a escrita se torne uma “fala morta”. O texto escrito não pode substituir o pensamento original do autor; antes, deve cumprir seu papel de ser mero registro de ideias que estão vivas na sua alma e prontas a responder e dialogar.

Aplicação às inteligências artificiais

Com tecnologia digital e chats online, a comunicação escrita agora é interativa e em tempo real, superando assim aquelas limitações que antes eram inerentes à própria natureza da escrita — ainda mais na era das IAs generativas ou LLMs. Nesse sentido, a solução encontrada por Platão no que diz respeito à escrita se mostra surpreendentemente atual e vigente também no que diz respeito às novas ferramentas de IA. O desafio continua sendo o mesmo: usá-las de maneiras que aprofundem, em vez de diminuir, nosso próprio pensamento.

Os chatbots de IA de hoje tornam a prática dialética, tão valorizada pelos filósofos, facilmente acessível. Na sala de aula, a IA pode se tornar uma espécie de “fala viva”, professora, editora e interlocutora. Como professor, por exemplo, posso incentivar meus alunos a tratarem esses chatbots como se fossem parceiros socráticos: para desafiar e testar suas opiniões, ajudá-los a descobrir o que não sabem, identificar falhas nos argumentos, expor pontos cegos no raciocínio, vícios de linguagem etc. Você pode literalmente interrogá-los, pedir motivos, exigir fontes e avaliar seus argumentos. Isso é muito mais parecido com um diálogo platônico do que com uma escrita estática que não pode responder. Lembre-se, por exemplo, da preocupação de Sócrates sobre como a escrita é uma comunicação unidirecional que não se adapta ao seu público. E como até os melhores professores dispõem de pouco tempo com os seus alunos, podemos mostrar a eles como usar um LLM como editor pessoal de linha — não para substituir a escrita deles, mas para oferecer sugestões frase por frase que os ajudem a se tornarem melhores escritores.

As aplicações são variadas e ainda inimagináveis. Mas nunca devemos perder de vista o alerta de Platão. Não podemos terceirizar nosso próprio pensamento, seja para a escrita, seja para as IAs. Não podemos nos acostumar a delegar funções cognitivas importantes para as IAs. Pelo contrário, devemos fazer um uso inteligente delas, utilizá-las não como muletas, atalhos ou substitutas, mas como importantes impulsionadoras para o nosso próprio pensamento. Afinal de contas, essas novas tecnologias – como a escrita, a imprensa, a internet ou os “ChatGPTs” da vida – não possuem intrinsecamente o poder de serem “vilãs” ou “mocinhas”, prejudiciais ou proveitosas, muletas ou impulsionadoras: todo esse poder somos nós quem damos a elas, de acordo com o uso que delas fazemos.

Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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