Crônicas sobre nossa percepção do tempo

Veja também: Sobre os nomes dos meses e dias da semana

Reuni todas essas crônicas em um único post porque elas tratam de um assunto em comum: a nossa percepção do tempo. Não são sobre o tempo propriamente dito, enquanto categoria da física, da cosmologia ou da metafísica. São sobre a maneira como nós o percebemos no cotidiano, como lidamos com ele no dia a dia. Em tempo, é justamente por isso que os textos enquadram-se no gênero crônica, sem trocadilho.


Uma crônica sobre o tempo – Antonio Prata

O bem mais valioso de nossa época não é o diamante, o petróleo ou a fórmula da Coca-Cola: é o tempo. Obedecendo à lei da oferta e da procura, quanto mais escasso ele fica, mais caro nos é. A seca temporal é geral e irrestrita, tão democrática quanto a calvície, a saudade e a morte: eu não tenho tempo, você não tem tempo, o Eike Batista não tem tempo, o cara que está vendendo bala no farol, em agônica marcha atlética para recolher os saquinhos dos retrovisores antes que abra o sinal, também não tem. Como vocês devem saber, o principal sintoma desta doença crônica – sem trocadilho – é a ansiedade. Toda manhã, flagro-me aflito, escovando os dentes com pressa. Vejo-me batendo os pés no hall, enquanto o elevador não chega. Até o segundo que o cursor do celular leva para piscar, permitindo-me digitar outra letra da mesma tecla, deixa-me aflito.

Antigamente não era assim. Na minha infância, os dias tinham 30 horas, alguns chegando mesmo a 40, se bem me lembro. Não, não é que eu faça hoje mais coisas do que antes. Já pensei nisso, mas veja só quantas obrigações eu tinha no passado: cinco horas na escola, lição de casa, inglês, bateria, natação, jantar com os pais toda noite, sem contar outras horas ao vivo ou ao telefone tentando convencer alguma menina a beijar-me na boca. E, mesmo assim, ainda sobravam infinitos latifúndios improdutivos, impossíveis de se ocupar, por mais que assistisse televisão, tirasse cochilos vespertinos, lesse livros, fosse às casas dos amigos jogar videogame, falar mal dos outros ou simplesmente juntar nossos tédios. Das duas, uma: ou as horas eram mais abundantes do que hoje, ou então tinham uma incrível capacidade regenerativa que perderam: a cada duas ou três horas mortas, uma nova hora nascia, fresquinha como as células de uma pele jovem.

Acho que foi lá pelo ano 2000 que e o dia começou a encolher, chegando a essas míseras 24 horas – com sensação térmica de 16. Talvez tenha sido esse o verdadeiro bug do milênio: na virada de noventa e nove para o zero zero, todos os ponteiros, vendo-se livres do velho milênio e admirando o vazio que se abria adiante, como um retão num circuito de fórmula um, resolveram meter os pés no acelerador, de modo que acabamos assim, espremidos entre prazeres e obrigações, aflitos, andando em círculos no hall do elevador.

Há quem diga que a culpa é da melhora das comunicações e, consequentemente, do envio de dados. Com a informação viajando tão rápido, desaprendemos a arte da espera. Antigamente, aguardar era normal. Estávamos sempre esperando alguma coisa chegar. Uma carta pelo correio. Um disco do exterior. Uma foto, um texto ou um documento via portador. Esses hiatos eram tidos como normais, uma brecha saudável, pausa para o cigarro, o café, a prosa, a leitura de uma revista, o devaneio, a conversa na janela, a morte da bezerra. Hoje, não. Está tudo aqui e, se não está, nos afligimos.

Enquanto não descobrimos a cura para este mal, a única saída é aprender a lidar com ele. Há que cercar com muros altos certas horas do relógio, para que nada as possa roubar de nós. Fazer diques de pedra em torno da hora de ficar com nosso amor, de trabalhar no projeto pessoal, do esporte, de ler um livro, de encontrar um amigo. Mesmo assim, vira e mexe, vêm as obrigações, como um tsunami, ou os eventos sociais, como meteoros, e derrubam as barragens. Não há nada a fazer senão reconstruir os muros.


A percepção do tempo no passado – Carlos Bacellar

Há quase 20 anos, observo uma norma sagrada em minhas férias: esconder o relógio de pulso na gaveta, já no primeiro dia, e assim fazer questão de não saber as horas. Acordar quando passar o sono, comer quando der fome, fazer tudo livremente, sem as amarras do tempo. Este hábito, simples na aparência, é na realidade difícil e quase impossível para muitos. Implementá-lo é verdadeiramente uma operação de guerra, de tal modo que estamos pautados pelo controle do tempo. Tempo é dinheiro, já se diz por aí, mas eu penso que o tempo e seu controle é umas das razões para vivermos estressados.

Temos certa dificuldade em imaginar como nossos antepassados se viravam sem relógio, seja ele de pulso, bolso, parede ou na tela informatizada do celular e dos computadores. “Como nossos antepassados agendavam seus compromissos?”, perguntou-me certa vez um aluno. Bem, antes de tudo, não podemos imaginar que, no passado, as pessoas vivessem no mesmo ritmo alucinado de nossos tempos. Esse tempo corrido, curto, sempre insuficiente é coisa recente na civilização humana. Se tentarmos imaginar o dia-a-dia de nossos antepassados, podemos chegar à conclusão de que o tempo deles era de outra magnitude. Não tinham compromissos em série, necessidade de controlar as horas do dia. Para eles, os compromissos se davam no âmbito dos dias da semana, e olhe lá.

Na rotina repetitiva de pequenos lavradores, os compromissos eram preparar a terra, plantar e colher, tarefas que não ocupavam horas, mas sim dias ou semanas. Essa era a referência básica: saber-se o dia da semana, para se lembrar com precisão quando seria o domingo, dia de se ir para a vila mais próxima, para fazer compras, participar da missa e tratar de assuntos que exigiam a coletividade. O dia da semana ou do mês também era fundamental para identificar os compromissos impostos pela Igreja, como a quaresma e a semana santa. Esse controle do tempo era fundamental para se garantir a observância dos ritos católicos. A interdição de se comer carne na semana santa e a interdição do sexo na quaresma eram obrigações temporais impostas pela Igreja que, nas sociedades do Velho Mundo, estavam intimamente relacionadas ao calendário da lavoura.

No entanto, ao se mudarem para o Novo Mundo, os colonos europeus depararam com um calendário agrícola invertido, por se estar, agora, no hemisfério sul. Como bons católicos, mantiveram a estrita observância do calendário religioso, a despeito de seu conflito com as datas do campo. A Igreja venceu este desafio. Mantinha, assim, o controle do tempo, manifestado claramente pelos sinos das igrejas, que, ao soarem, indicavam aos fiéis os horários das missas e, por tabela, referenciavam o tempo da vida cotidiana. Mas, como se sabe, o Brasil era um país eminentemente rural há até poucas décadas e, portanto, poucos podiam ouvir, de seus sítios, os badalares marcadores do tempo.

De qualquer maneira, estas populações do passado não tinham relógios, que somente foram se tornar usuais no século 20. Com o início do processo de modernização capitalista, essa realidade era um problema óbvio. Como implementar, por exemplo, a ferrovia, com seus trens devendo sair a horários firmemente pré-estabelecidos? Ainda hoje, os ingleses, inventores da ferrovia, têm verdadeira obsessão pelo tempo, obrigando-nos a acreditar que aquele trem marcado para as 18h03 efetivamente sairá, sem atrasos, nesse horário quebrado. Mas a grande solução para garantir os passageiros na estação na hora certa foi construir grandes torres com um formoso e grande relógio no topo. Hoje, com nossas cidades tomadas de edifícios altos, fica um tanto difícil imaginar tal preocupação. Mas se imaginarmos a São Paulo de casario baixo de finais do século 19, é fácil entendermos que o relógio da Estação da Luz poderia ser visível de muito longe.

Mas talvez a mais impressionante faceta da despreocupação com o tempo que caracterizava nossos antepassados era a idade. Número fatídico e cambiante, a nós atrelado ao nascermos, que aumenta de maneira perversa e irreversível ao longo dos anos e que leva muitas mulheres a ocultá-lo em verdadeira operação de guerra. Quem não sabe sua idade, afinal de contas? Esta óbvia constatação é recente em termos históricos: a maioria das pessoas efetivamente não sabia, ou sabia muito mal, quantos anos tinha.

Mas afinal, para que necessitamos saber nossa idade? O mundo contemporâneo exige o controle de nossa idade para que nossos direitos e obrigações sejam observados. São as idades que regulamentam o acesso à escola, bem como à série de vacinas que nos são dolorosamente reservadas. Precisamos alcançar certa idade para sermos legalmente aptos para casar. E é a idade que nos define a maioridade e o momento em que podemos alcançar a sempre sonhada carteira de habilitação. Para os rapazes, completar 18 anos representa, também, o sempre temido risco de servir às Forças Armadas.

Os tempos do passado eram muito distintos de nosso tempo afoito e estressante. Mas vale a pena tentar cumprir o desafio de, nas próximas férias, viver sem seu relógio. Abra mão mesmo que ele seja aquela fortuna que você coloca no pulso mais para exibir do que para marcar o tempo. Liberte-se do controle do tempo por alguns dias: o temor e a insegurança logo será substituída por uma sensação de libertação única. Vale o esforço.


Mais rápido, mais rápido! – Alexandre Rodrigues

Primeiro, quase não havia o tempo. Ainda que o avanço do dia pudesse ser medido pelos relógios de sol e da noite pelos de água, os horários mais confiáveis ainda eram a alvorada, o sol a pino e o anoitecer. Por milênios, para as civilizações, medir o tempo – exceto os responsáveis pelos sinos das igrejas que anunciavam as missas – nunca foi propriamente uma obsessão. Então, em algum ponto entre os séculos 18 e 19, a história mudou. Máquinas e fábricas e, mais tarde, trens e cabos telegráficos lançaram o mundo em um ritmo de vida com relógios, horários e pressa, muita pressa – revolução industrial.

Dois séculos depois, a humanidade vive uma doença do tempo, afirma o sociólogo alemão Hartmut Rosa. Fazendo eco a uma reclamação generalizada, ele aponta que o excesso de atividades anulou os ganhos que a tecnologia trouxe ao tempo das pessoas. O resultado é uma epidemia mundial de estresse, ansiedade e insônia. “Vivemos para realizar tantas opções quanto possível da paleta infinita de possibilidades que a vida nos apresenta. No fim do dia, nunca fizemos todas as coisas que deveríamos ter feito. Não trabalhamos o suficiente, não nos importamos o suficiente com as nossas crianças e pais, não estamos em dia com as notícias. O número de dimensões em que é suposto ‘otimizar’ a nossa vida, literalmente, explodiu nos últimos anos e não importa o quão rápidos e eficientes somos, nunca é o suficiente”, diz Rosa.

Rosa aponta que nosso atual ritmo de vida é fruto de três tipos de aceleração: mecânica, da mudança social e do passo da vida. Iniciada com a revolução industrial, a aceleração mecânica modificou as comunicações, a produção e os transportes. Como consequência, provocou mudanças nas sociedades que alteraram o ritmo da vida. Resultado: mais aceleração. Se de Júlio César a Napoleão a velocidade máxima para alguém ir de um lugar a outro continuou a mesma (a de um cavalo), os motores, primeiro nos trens e navios no século 19, depois nos aviões e automóveis 100 anos depois, encurtaram distâncias e aproximaram o mundo. O mesmo ocorreu nas comunicações a partir da invenção do telégrafo. As fábricas adotaram os horários para organizar a produção e a humanidade ganhou uma companhia: os relógios. Os operários agora precisavam morar perto do trabalho e isso os agrupou nas cidades, criando as metrópoles modernas.

Vistas na época, essas mudanças traziam a promessa de que seres humanos finalmente seriam capazes de moldar sua vida em comum e criar sociedades que os pensadores clássicos e da Renascença tinham imaginado. O resultado deveria ser uma era de razão em que a felicidade, a prosperidade e a liberdade deveriam ser para todos. No entanto, desde o início, quanto mais a tecnologia economizava tempo, mais ocupados todos se tornaram. “A lógica da competição militar e dos Estados teve um papel nisso, e a ideia de que podemos ter algo parecido com uma ‘vida eterna antes da morte’ se a gente for rápido o bastante para fazer um número indefinido de coisas antes de morrer, também”, explica Rosa. Mas o papel mais importante é do capitalismo. “Para crescer, economias capitalistas precisam acelerar e inovar incessantemente. Se param de crescer e acelerar, perdem empregos, empresas fecham as portas, as receitas do Estado entram em declínio e, como consequência, o sistema político perde legitimidade”.

Esse processo, que já seguia em ritmo forte desde a revolução industrial, adquiriu uma velocidade alucinante a partir dos anos 1970, com a revolução dos computadores. Cada nova tecnologia passou a ser anulada pela produtividade. E com a globalização, não só trabalhadores, mas também países, entraram em competição. “Como o trabalho cada vez mais especializado aumenta a produção, aumenta a quantidade de produtos e serviços que precisam ser consumidos”, diz a dupla de sociólogos americanos John Robinson e Geoffrey Godbey. O resultado é um impulso para o consumo constante, seja de produtos, serviços ou viagens. Em resposta, a própria percepção do tempo começou a mudar.

James Tien e James Burnes, professores de matemática aplicada do Instituto Politécnico Rensselaer, nos Estados Unidos, analisaram o crescimento das estatísticas de produtividade e emissão de patentes em 1897 e 1997 para concluir que a percepção da passagem do tempo para um jovem de 22 anos é 8% mais rápida do que para alguém da mesma idade um século atrás. Para alguém com 62 anos, a vida hoje se passa 7,69 vezes mais rápida. A aceleração, dizem outros estudos, continua aumentando essa sensação. As consequências são conhecidas de médicos desde quase o surgimento das máquinas. No fim do século 19, denunciava-se uma epidemia de neurastenia, causada pelo ritmo de vida nas cidades. Com o avanço dos estudos, Larry Dossey, médico americano, criou, nos anos 1980, a expressão “doença do tempo” para descrever a crença obsessiva de que o tempo está passando e a única solução é acelerar o ritmo de vida.

Dois psicólogos americanos, Diane Ulmer e Leonhard Schwartzburd, da Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, concluíram que a pressa extrema e constante pode afetar a personalidade e as relações sociais, levando também a estresse, insônia, problemas cardíacos e de concentração. A sensação de pressa também cria um estado de busca de ganhos imediatos, mesmo se há chance de uma recompensa maior no futuro, e reduz a propensão para fazer economia. “Descobrimos que até mesmo a exposição a símbolos de fast-food pode aumentar automaticamente a pressa, mesmo sem a pressão do tempo”, diz Chen-Bo Zhong, psicólogo canadense da Universidade de Toronto, que conduziu o estudo “Fast-Food e Impaciência”. No Japão, onde a pressa se junta à pressão social, colapsos são tão comuns que há no vocabulário uma palavra, “karoshi“, para os casos de trabalhadores que morrem por sobrecarga de trabalho.

Economistas se deram conta do fenômeno depois que o sueco Staffan Linder publicou, nos anos 1970, “A Classe Ociosa Atormentada”, prevendo que os trabalhadores se tornariam atarefados demais para o lazer. Décadas depois, não só as previsões se confirmaram (segundo a socióloga americana Juliet Schor, 37% do tempo de lazer foi perdido nas nações industrializadas desde meados dos anos 1970) como a aceleração tecnológica mudou drasticamente a economia. “Tem sempre um mercado aberto. Tem que estar sempre ligado no celular”, comenta Gabriel Franke, operador de mesa da corretora XP Investimentos. Com o “home broker” e as bolsas eletrônicas, cotações mudam a cada segundo, afetando todos, e as negociações nos mercados podem seguir em qualquer hora ou lugar. “Às vezes tem cliente que está posicionado numa operação que tem influência de mercado lá fora e aí fico de olho mesmo. E alguns mercados, como o de moedas, nunca fecham”. Tempo para o lazer? “Acabo tendo algum no domingo”, diz.

Os efeitos são ainda mais sentidos no mundo digital. Segundo Eric Schmidt, CEO do Google, o volume de informação produzida desde o início das civilizações até o ano de 2003 equivale ao que é produzido hoje a cada 2 dias! A capacidade de processamento dos computadores, seguindo a chamada Lei de Moore, continua a dobrar a cada 18 meses. Mas também há aceleração drástica no crescimento da população: O número de pessoas nascidas desde 1950 é o mesmo dos primeiros 4 milhões de anos da humanidade! Houve crescimento até no número de doenças descobertas (28 novas infecciosas desde os anos 1970, de acordo com a Organização Mundial de Saúde).

A aceleração, porém, não é a mesma para todos. Em um estudo chamado “A Geografia do Tempo”, o psicólogo social americano Robert Levine, da Universidade da Califórnia, pesquisou a maneira como os habitantes de 31 cidades pelo mundo vivenciam o tempo. Em um exercício curioso, os pesquisadores mediram a velocidade das pessoas para percorrer um trecho de 18 metros. Os japoneses caminham mais apressados. Os brasileiros ficaram com o 28º lugar. Em um trabalho parecido, pesquisadores da Universidade de Hertfordshire, na Inglaterra, concluíram que a cada 10 anos as pessoas faziam o mesmo trecho, em média, um segundo mais rápido.

Movimentos pela desaceleração acompanham a própria história da aceleração. Sua versão moderna desde os anos 1990 prega a opção pela lentidão. O pioneiro, o movimento slow-food (comida lenta), foi fundado pelo italiano Carlo Petrini em 1986 em reação à presença de uma filial do McDonald’s no centro histórico de Roma e reage ao fast-food. Inspirados nos viajantes-escritores do século 19, os praticantes do slow-travel (viagem lenta) advogam o envolvimento dos turistas com os locais visitados. Artistas do slow-art (arte lenta) produzem – e também defendem que seja assim a apreciação das obras – com todo o tempo do mundo. Há ainda a slow-fashion (moda lenta), que rejeita as roupas produzidas em massa, preferindo as costuradas à mão.

E, como tudo começou com a tecnologia, por que não reduzir o ritmo da ciência? “Precisamos ter tempo para pensar muito cuidadosamente sobre cada avanço científico – a fim de descobrir a melhor maneira de usá-lo no mundo real”, afirma Carl Honoré, escocês radicado no Canadá, autor do best-seller “Devagar”. Em 1990, ele esperava um voo no aeroporto de Roma, quando leu um texto chamado “A História de Dormir de um Minuto”, em que autores condensavam clássicos das histórias infantis para pais sem tempo. Foi o ponto de partida para se tornar um militante pela desaceleração. “Eu não acho que devemos reduzir a ciência. Pelo contrário. Eu acho que precisamos usar a ciência de forma mais sensata. E a sabedoria e a lentidão andam de mãos dadas”.

Resta ainda a pergunta: até onde a aceleração nos levará? Alguns estudiosos como Raymond Kurzweil, otimistas, apontam para a singularidade tecnológica, um grande salto científico, previsto para o século 21, capaz de resolver quase todos os problemas.


O tempo parece mais acelerado? – Sergio Gwercman

Você deve demorar uns 6 minutos para ler as 1679 palavras desta reportagem. Um pouco mais, um pouco menos, dependendo do seu ritmo, mas estima-se que a velocidade de leitura de um adulto chegue a 350 palavras por minuto. Convenhamos, 6 minutos não é muito – mal dá para lavar a louça do jantar. Mas procure na banca de jornais quantas revistas fazem reportagens como esta, e você verá que a Super ocupa um espaço cada vez menor – o das revistas de “leitura longa”. “Existe um consenso entre editores do mundo todo de que os leitores têm cada vez menos tempo – e paciência – para ler. Por isso, a solução é fazer revistas, jornais e livros cada vez mais acelerados”, diz o jornalista canadense Carl Honoré. Para ele, a leitura rápida é sintoma de uma epidemia que assola todas as sociedades industrializadas: o desejo de viver em velocidade.

Carl é uma espécie de porta-voz do “movimento pela lerdeza” – hábito que ele jura não ter adquirido quando viveu por 6 meses nas tranquilas praias brasileiras. Seu livro Devagar (que sai em junho no Brasil) é best seller na Europa, advogando que poderíamos viver melhor trocando lanchonetes por banquetes caseiros, fazendo longas horas de sexo e parando de dirigir como pilotos de Fórmula 1. Ironicamente, o trabalho só começou por causa da leitura rápida. “Estava no aeroporto e me interessei por um livro com histórias de ninar de um minuto”, diz Carl. “Percebi que estávamos indo longe demais”. Naquele momento ele decidiu escrever um livro pregando que você deve passar muito mais de um minuto lendo para o seu filho antes de ir dormir.

O tempo está acelerando. Um dia continua tendo 24 horas, 1 hora tem 60 minutos e cada minuto ainda tem 60 segundos – nem tudo está perdido. Mas há uma sensação generalizada de que não conseguimos fazer tudo o que queremos. Falta tempo. Pagamos fortunas por engenhocas tecnológicas que deveriam facilitar nossa vida e continuamos com uma pressa insaciável. Você já deve ter sentido os efeitos desse fenômeno. Lembra quando a internet surgiu? Da maravilha que era saber que trocaríamos mensagens instantâneas e teríamos a biblioteca de Harvard ao alcance, bastando um clique no mouse. Agora pense na última vez que você recebeu um arquivo eletrônico pesado; e nos segundos que esperou para abri-lo, amaldiçoando a velocidade do computador, do provedor de internet, da placa multimídia e do modem. Esses incompetentes que nos obrigam a esperar insuportáveis segundos para baixar um livro.

Essa histeria provavelmente começou na revolução industrial, com máquinas que trabalhavam mais rápido que os homens. Muitas atividades rotineiras foram agilizadas. Entre elas, uma vital: a capacidade de deslocamento. Dos tempos de Julio César, no século primeiro, aos de Napoleão, no século 19, nossa velocidade de movimentação foi quase sempre a mesma: a que o cavalo permitisse. A invenção dos motores, colocados em trens, mudou tudo. E o impacto provocou a organização sólida do tempo. Os fusos horários ganharam importância – antes, era indiferente a alguém que levava semanas para atravessar os Estados Unidos se, ao chegar a seu destino, houvesse um desnível de algumas horas em relação ao ponto de partida. Com os trens, a vida cotidiana passou a conviver não só com a hora certa, mas com o minuto exato em que a composição sai da estação e os segundos que podem descarrilar vagões num desvio fechado.

A tecnologia então disparou a oferecer velocidade a quem quiser consumi-la. “Todo o desenvolvimento tecnológico tende a deixar os processos mais rápidos”, diz Edward Tenner, especialista em história da tecnologia da Universidade Princeton, nos Estados Unidos. Uma volta no shopping mostra como essa pressão ocorre: é praticamente impossível encontrar um produto (de telefones celulares a espremedores de laranja) que seja mais lento do que a sua versão anterior.

boom seguinte é mais recente. Aconteceu no final do século 20 e transfigurou nossa capacidade de nos comunicar. “A tecnologia e a internet provocaram uma revolução na troca e na quantidade de informações”, diz o jornalista James Gleick, autor de Acelerado, livro que debate causas e efeitos da velocidade. “Uma coisa acelera a outra e nos vemos num círculo vicioso aparentemente inquebrável: a tecnologia gera demanda por velocidade, que empurra o desenvolvimento de novas tecnologias que precisam ser mais rápidas” diz. Assim, logo estamos desesperados para ter o chip que aumenta a memória RAM de 128 para 256 megabytes – mesmo sem saber o que fazer com os poucos segundos que lucramos com a mudança. Antigamente, quem colocasse uma carta no correio sabia que ela iria demorar semanas para chegar ao destinatário. E, acredite, o mundo e os escritórios funcionavam. Hoje, os serviços de entrega devem ser imediatos.

O resultado dessa avidez para “ganhar” tempo é que temos cada vez mais a sensação de perdê-lo. Pesquisadores afirmam que uma pessoa hoje sente que ele passa mais rápido do que para alguém que viveu há 100 anos. E dão até uma estimativa de quanto: de 1,08 vez, para quem tem 24 anos, a 7,69 vezes, para quem tem 62 anos – a diferença seria causada pelo período de exposição à vida em alta velocidade. James Tien e James Burnes, professores de matemática aplicada do Instituto Politécnico Rensselaer, nos Estados Unidos, chegaram à essa conclusão analisando o crescimento das estatísticas de produtividade e emissão de patentes entre os anos de 1897 e 1997 – esses índices foram escolhidos por serem indicativos de desenvolvimento tecnológico e também por estarem entre os poucos com dados centenários confiáveis.

Há também uma explicação bioquímica para nossa percepção do ritmo em que horas e dias passam. À medida que envelhecemos, acredita-se, cai a produção cerebral de dopamina, um neurotransmissor responsável pela sensação de energia e disposição. Esse processo pode desacelerar nosso relógio biológico. Uma experiência apresentada pelo neurocientista americano Peter Mangan mostrou como isso ocorre. Ele dividiu voluntários em três grupos etários que deveriam lhe avisar quando 60 segundos houvessem passado. Os jovens levavam, em média, 54 segundos. Os mais velhos, 67 segundos. Ou seja, os idosos eram surpreendidos pela informação de que um minuto inteiro transcorrera antes que eles se dessem conta. Isso explicaria, por exemplo, por que avós reclamam que “o ano passou rápido e já é Natal novamente” enquanto as crianças sofrem com a longa e demorada espera pela chegada dos presentes.

Pressa, ansiedade e a sensação de que nunca é possível fazer tudo – além da certeza de que sua vida está passando rápido demais. Essas são as principais consequências de vivermos num mundo em que para tudo vale a regra do “quanto mais rápido, melhor”. Psiquiatras já discutem a existência de um distúrbio conhecido como “doença da pressa”, cujos sintomas seriam a alta ansiedade, dificuldade para relaxar e, em casos mais graves, problemas de saúde e de relacionamento. “Para nós, ocidentais, o tempo é linear e nunca volta. Por isso queremos ter a sensação de que estamos tirando o máximo dele. E a única solução que encontramos é acelerá-lo”, afirma Carl Honoré. “É um equívoco. A resposta desse dilema é qualidade, não quantidade”. Para especialistas como James Gleick, Carl está lutando uma batalha invencível. “A aceleração é uma escolha que fizemos. Somos crianças descendo uma ladeira de skate. Gostamos da brincadeira e queremos mais”, diz.

O problema é que nem tudo ao nosso redor consegue atender à demanda. Os carros podem estar mais rápidos, mas as viagens demoram cada vez mais por culpa dos congestionamentos. Semáforos vermelhos continuam testando nossa paciência, obrigando-nos a frear a cada quarteirão. Mais sorte têm os pedestres, que podem apertar o botão que aciona o sinal verde – uma ótima opção para despejar a ansiedade, mas com efeito muitas vezes nulo. Em Nova York, esses sistemas estão desligados desde a década de 1980. Mesmo assim, milhares de pessoas o utilizam diariamente na esperança de reduzir seu minuto de espera. É um exemplo do que especialistas chamam de “botões de aceleração”. Na teoria, aceleram as coisas. Na prática, só servem para ser apertados.

Confesse: que raios fazemos com os dois segundos, no máximo, que economizamos ao acionar aquelas teclas que fecham a porta do elevador? E quem disse que apertá-la, duas, quatro, dez vezes vai melhorar a eficiência? “É um placebo, sem outra função que distrair os passageiros para quem segundos parecem uma eternidade”, escreve Gleick. Elevadores, aliás, são ícones da pressa em tempos velozes. Os primeiros modelos se moviam a 20 centímetros por segundo. Hoje, o mais veloz sobe 12 metros por segundo. E, mesmo acelerando, estão entre os maiores focos de impaciência. Engenheiros são obrigados a desenvolver sistemas para conter nossa irritação, como luzes ou alarmes que antecipam a chegada do elevador e cuja única função é aplacar a ansiedade da espera.

Até onde isso vai? Um dos fatores que podem frear a corrida pela velocidade é o poder de consumo. “Hoje trocamos de computador a cada 2 anos. Logo vai ser a cada 6 meses. E depois? Não acredito que vamos comprar um computador novo por dia”, diz James Tien, do Instituto Rensselaer. A dúvida é saber se o que vai mudar é a velocidade com que novos produtos são colocados à venda ou o sistema de consumo, que se reinventará mais rápido ainda. Neste caso, talvez a única solução será aderir à “batalha invencível” do movimento pela lerdeza. Entre as atividades propostas pelo movimento estão a organização de banquetes que demoram horas (um contraponto aos fast-foods) e propostas de mudanças profundas nas atitudes do dia-a-dia.


O ritmo do tempo – Desconhecido

Em alguns lugares, se você levantar no meio da madrugada e ficar em silêncio poderá ouvir um barulho. Se for muito alto pode dar nos nervos, caso contrário apenas preencherá o ambiente. Pode aumentar ou diminuir de volume, mas com alterações raramente perceptíveis. É um som contínuo, quase sempre despercebido. Um ruído muito monótono, sem começo nem fim. O mesmo ruído ecoa a noite toda. São apenas grilos.

Agora outro tipo de ruído. Neste exato momento estou ouvindo “As Quatro Estações” de Vivaldi. Também cheio de ruídos. Barulhos que começam e param, vêm e vão. Algumas notas sustentam uma melodia por segundos. Os violinos tocam, agora o piano, as cordas ressoam… Todos aqueles sons trabalham juntos para criar algo atraente, inspirador, belo, que evoca e propicia muitos estados de espírito. Dois tipos de ruído, duas variações. Um desses sons chamamos de música erudita e o outro são apenas grilos.

O tempo é muito parecido com o som. A música acontece porque os ruídos, tons e acordes estão arranjados em uma percepção exata do tempo. A medição do tempo é que divide a música em batidas, dando-lhe um fluxo, um padrão, um ritmo. Todos nós experimentamos o desespero que se instala na alma quando um dia parece igual ao outro, e a vida parece ser o equivalente existencial do ruído dos grilos.

Isso lembra o Êxodo. A história dos escravos hebreus resgatados das mãos do Faraó não é apenas sobre Deus salvar pessoas de precisarem fazer tijolos todos os dias. Ela fala sobre Deus também salvar pessoas de outros tipos de escravidão: daquela que envolve o tempo. A vida no Egito era apenas fazer tijolos para o Faraó, o tempo todo. Tijolos, tijolos, tijolos, comer, dormir, mais tijolos e tijolos. Amanhã será como hoje: tijolos, tijolos…

Quando os israelitas foram resgatados, Deus deu-lhes ordens. Uma das mais urgentes foi separar um dia do resto da semana e fazer dele um dia diferente. Seis dias trabalharás, mas no sétimo não. Deus lhes dá ritmo! Não o ritmo do som, mas o do tempo. A vida antes era uma sucessão interminável de dias iguais, como o barulho perturbador de um grilo. Mas agora seu tempo é dividido, medido: seis e um, seis e um, seis e um…

Precisamos de ritmo em nosso tempo. É isso que faz um momento ser diferente do outro. Nossos antepassados compreenderam que o tempo, assim como o som, é melhor quando é separado, dividido e organizado em padrões e ritmos. Então eles criaram o calendário e o relógio: Uma maneira de organizar o tempo, uma forma de trazer variação aos nossos dias, uma maneira de encontrar música durante a passagem do tempo.

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