Algumas dicas práticas sobre como ler, planejar e escrever um artigo de filosofia

Série de três artigos de Jeff McLaughlin, professor de filosofia da Thompson Rivers University, no Canadá. A tradução do original foi feita por Maria Clara Cescato, da UFPB.

Veja também: Breve definição de filosofia


Como ler um artigo de filosofia

Como aluno, talvez novo, de filosofia, o que vai lhe preocupar de forma mais imediata é como lidar com os textos sem se ver completamente desencorajado. Para quem começa a se familiarizar com a filosofia, muitas vezes é difícil compreender alguns dos artigos que devem ser lidos. As dificuldades que talvez você encontre muitas vezes são simplesmente devidas à sua pouca familiaridade com os estilos de escrita dos filósofos acadêmicos. Vou apresentar algumas sugestões de como ler um artigo de filosofia. Antes, duas pequenas recomendações. Primeiro: não leia de maneira relaxada, descansando num sofá ou cama. Segundo: você terá de ler cada texto mais de uma vez. Eis aqui algumas dicas de como melhorar sua compreensão de textos de filosofia.

Em primeiro lugar, dê uma lida rápida no artigo, a fim de obter uma ideia geral do que o autor está tentando dizer. Preste atenção no título e subtítulos, pois eles muitas vezes informam sobre a área de investigação. Preste atenção nos parágrafos de abertura, uma vez que os autores muitas vezes apresentam sumários ou sinopses de seus artigos. Ao compreender em que direção se encaminha a conclusão, você vai querer anotá-la: ela é justamente aquilo que o autor está tentando convencer você a aceitar. Sublinhe ou destaque (desde que a cópia utilizada seja sua e não da biblioteca). Experimente anotar a conclusão num pedaço de papel, empregando suas próprias palavras.

Retorne ao início do texto e, com a conclusão em mente, tente perceber como o autor procura encaminhar a argumentação rumo a ela. Em outras palavras, pense no desafio como algo próximo à releitura de um romance policial: foi divertido tentar descobrir quem era o assassino, você percebeu pistas aqui e ali e talvez tenha conseguido dar solução a algumas delas, mas outras escaparam a você. Agora que sabe quem é o culpado, pode ser divertido examinar como todas as pistas que lhe escaparam se encaixam na trama. Em cada parágrafo, a primeira e a última sentença muitas vezes podem oferecer os elementos chave envolvidos no processo de pensamento do autor; você pode, por exemplo, encontrar uma conclusão ou premissa de um argumento ou sub-argumento.

Vou explicar alguns desses termos. Um argumento é constituído por pelo menos uma premissa e pelo menos uma conclusão. Esse argumento, por sua vez, pode ser empregado para defender uma outra conclusão. A conclusão é a tese que o autor está tentando convencer você a aceitar. As premissas são as razões que ele oferece para tentar levar você a aceitar sua conclusão. O importante é que o autor de fato oferece ao leitor uma razão para a conclusão, caso contrário ele estaria apenas expressando uma opinião. Se eu dissesse: “O serviço público de saúde é bom”, tudo que você poderia fazer seria sorrir ou dizer algo como: “Isso é ótimo”. O que ofereci a você foi nada mais que uma simples declaração daquilo em que acredito. Apresentei apenas uma declaração sem justificação. Assim, você pode concordar ou discordar de mim, mas como não forneci nenhuma justificação para minhas opiniões, você não sabe o que fazer com elas.

É preciso que eu apresente uma defesa de minha posição para que você possa determinar racionalmente se a aceita ou rejeita. Mesmo que você concorde com minha opinião, você não vai querer se antecipar e concordar comigo, uma vez que pode ser que você não concorde com meu raciocínio, e isso é tão importante quanto concordar com meu ponto de vista. As pessoas podem concordar sobre as mesmas questões, mas por razões diferentes e algumas dessas razões podem ser boas, outras más. Por exemplo, suponha que você e eu concordamos que a soma de 2 + 2 não é 5. Você, com razão, acredita que 2 + 2 não é igual a 5 porque de fato é igual a 4, mas eu, equivocadamente, acredito que 2 + 2 não é igual a 5 porque é igual a 17. Portanto, você deve considerar tanto as premissas quanto a conclusão antes de chegar a sua decisão final.

Palavras que indicam premissas e conclusões muitas vezes (mas nem sempre) irão ajudá-lo a distinguir as diferentes partes dos argumentos, assim como a distinguir os argumentos dos não-argumentos. Entre as palavras que indicam ou sinalizam que há uma razão (premissa) sendo apresentada em apoio a um ponto de vista (conclusão) estão: porque, uma vez que, devido a, segue-se que, etc. Entre os indicadores da conclusão estão: portanto, dessa forma, assim, consequentemente, etc. Se não há palavras indicadoras, tente inserir uma de sua escolha para verificar se faz sentido.

Fazer anotações à margem é útil. Você pode acrescentar uma ou duas palavras ao lado de cada parágrafo, destacando seu conteúdo. Não sublinhe indiscriminadamente várias frases, uma vez que nem tudo que o autor diz é importante ou relevante para a tese principal. Ele pode estar apresentando a você informações factuais básicas, comentários introdutórios, digressões pessoais, etc. Verifique se ele oferece distinções entre suas próprias concepções e as de outros autores. Em seguida, tente formular os principais argumentos (premissas e conclusões) do texto em suas próprias palavras.

Observe o que aconteceu: (1) Você leu rapidamente o artigo, a fim de obter uma ideia geral do assunto. (2) Você formulou a conclusão (ou o que você acredita ser a conclusão) em suas próprias palavras. (3) Você retornou ao início e releu cuidadosamente o artigo, a fim de extrair os vários argumentos que o autor levanta ou rejeita em seu texto (lembre-se de que nem tudo que o autor diz vai ser uma tese por ele defendida; muitas vezes ele estará ao mesmo tempo argumentando contra outras pessoas, tentando mostrar por que a concepção do adversário é insatisfatória e, em seguida, por que suas próprias concepções estão corretas). (4) Você selecionou esses pontos (muitos dos quais você anotou à margem do texto) e os relacionou numa folha de papel.

Agora você dedica um momento ao exame do caminho percorrido. Você consegue acompanhar o fluxo do texto? Talvez você possa traçar setas e diagramas conectando os vários pontos. Você compreende o que o autor disse e por que o disse? Caso não, adivinhe o que você precisa fazer. Sim, você precisa ler o texto novamente e, se isso não resolver suas dúvidas, faça perguntas bem elaboradas a seu orientador ou a colegas. Por exemplo, tente formular a pergunta da seguinte forma: “Na página 34, o autor afirma x, mas não entendo como isso se encaixa na conclusão z. O autor está dizendo que x leva a y e y leva a z?”. Somente após compreender o artigo você poderá retornar e avaliá-lo.

Em benefício do argumento, vamos supor que você compreendeu bem o que o autor está tentando em última análise convencer você a aceitar. Agora a questão é: o autor teve êxito nessa tarefa? Ninguém está dizendo que você deve aceitar ou rejeitar cada um dos argumentos apresentados. Alguns argumentos podem ainda se manter, mesmo você tendo colocado em questão algumas de suas premissas. Talvez você tenha gostado do argumento em geral, mas tenha encontrado algumas áreas pouco convincentes. Talvez você ache que o argumento é precário e está seriamente comprometido desde o início.

Seja qual for sua avaliação, você em última análise deverá convencer outras pessoas disso. Para tanto, você precisará saber como escrever um texto de filosofia. Mas não vamos nos adiantar precipitadamente. Eis aqui uma abordagem que você pode utilizar para avaliar a posição do autor. Em primeiro lugar, você precisará isolar as premissas que ele apresenta em defesa de suas conclusões, assim como precisará avaliar se elas são racionalmente aceitáveis ou não. Isso significa, entre outras coisas, que você terá de determinar se a justificativa ou premissa é defendida por meio de um sub-argumento dedutivamente coerente ou indutivamente consistente. Por exemplo, a premissa é defendida com êxito pelo autor em um sub-argumento em alguma outra parte do texto, ou mesmo num outro artigo, ou por alguma outra pessoa? Trata-se de uma questão de conhecimento geral, ou ela é sustentada pelo recurso apropriado a uma autoridade?

Se você não sabe se a premissa é aceitável e não tem indicações que sugiram que ela é inaceitável, então você pode aceitá-la provisoriamente e passar ao exame dos outros argumentos utilizados pelo autor. Mas se você não compreende o argumento, por favor, não empregue a aceitação provisória como uma forma de justificar sua preguiça.

Às vezes a leitura de um texto específico sobre um tema filosófico exige que você tenha um pouco de leitura de base. Assim como é inapropriado entrar na conversa de outras pessoas e começar a discutir com elas, é também intelectualmente inapropriado iniciar uma discussão contra um autor antes de ter todos os dados da questão. Faça um pouco de pesquisa. A pesquisa não precisa se limitar à tarefa de localizar outros livros volumosos. Você pode tentar uma enciclopédia filosófica, para uma boa visão geral. Você pode tentar um dicionário de filosofia, para ajuda com a terminologia. Você pode conversar com colegas, pode pedir ajuda diretamente a seu orientador e assim por diante. A pesquisa, nesse sentido, consiste simplesmente em descobrir o que você precisa saber para poder tomar decisões bem justificadas quanto ao texto que está avaliando.

O estágio seguinte de sua avaliação envolve examinar se as premissas são relevantes para a conclusão. Para ser relevante, a verdade de uma premissa deve contribuir para a verdade da conclusão. Em outras palavras, as premissas são relevantes quando apresentam alguma prova em apoio à conclusão. Somente após identificar o argumento e suas partes e após determinar se as razões apresentadas nas premissas são relevantes para a conclusão é que você pode avaliar se o autor apresentou provas suficientes ou não para você racionalmente aceitar a conclusão. Para isso, você precisa empregar seu “pensamento crítico”. Infelizmente, o pensamento crítico não é algo que você pode aprender apenas lendo a respeito dele, em especial num artigo curto como este. Você não pode simplesmente ler sobre como desenvolver habilidades de pensamento crítico porque, para aprender filosofia, você precisa fazer filosofia.


Como planejar um artigo de filosofia

Suas aulas de filosofia mal começaram e seu professor já está falando sobre o primeiro texto que deve ser entregue em semanas. Você talvez se veja tentado a esperar até o último minuto para começar de fato a escrever, mas a essa altura, você terá mais outras cinco tarefas de outras disciplinas a serem também entregues. Não é uma atitude sábia, mas é compreensível. Faz parte da natureza humana evitar fazer coisas de que não gostamos, seja a tarefa do curso, seja ir ao dentista. No entanto, qual a consequência de se esperar até o último minuto? Você vai perder muito sono, faltar algumas aulas matinais, ficar de mau humor, estressado, e apresentar um trabalho cheio de falhas que não representa de modo adequado sua capacidade nem o que você de fato pensa.

Os guias de escrita se destinam a ajudar você a expressar seus pontos de vista e argumentos com clareza e força filosófica. Erros gramaticais e pensamento acrítico aliados a fracas habilidades de pesquisa e exposição vão interferir em suas tentativas de convencer o leitor de suas afirmações. Seu leitor quer se esclarecer com seu texto – e não ser confundido. Sobretudo, ele não vai querer ter de lidar com seu texto como uma espécie de quebra-cabeça, sem clara direção ou objetivo. Os leitores não devem ter de trabalhar pesado para decifrar sua intenção. Na verdade, você não precisa realmente gastar mais tempo escrevendo seu texto, você precisa gastar mais tempo planejando-o.

Nesta segunda parte, você aprenderá como planejar seu texto de filosofia. Antes de começar, vamos nos certificar de que estamos falando da mesma coisa. Com muita frequência, um texto de filosofia é um texto que toma posição, um texto argumentativo. Não é um texto de pesquisa. Um texto de pesquisa pura envolve, entre outras coisas, o estabelecimento ou a descoberta de fatos. Um texto argumentativo é, ao contrário, um texto em que você toma posição ou explica um ponto da vista. Você está tentando convencer seu leitor da tese que você propõe. Para saber se você tem meios de convencer seu leitor de seus próprios pontos de vista, seu professor irá verificar se você compreende adequadamente o assunto e suas implicações, se consegue analisar e avaliar criticamente as questões e se pode defender com plausibilidade sua tese.

Um texto de posicionamento não deve ser considerado como uma oportunidade para meramente afirmar suas próprias opiniões (opiniões não têm interesse filosófico, uma vez que são apenas afirmações sem o apoio de justificativas). Embora estejamos comparando esse processo com um “texto de pesquisa” padrão, não estamos afirmando que você não deve fazer nenhuma pesquisa para seu projeto. A pesquisa é um elemento chave para descobrir mais sobre seu tópico, bem como posições e argumentos diferentes que outras pessoas apresentaram sobre ele. Você precisará fazer pesquisa para entender o tópico, assim como as questões e implicações a ele vinculadas. Depois você precisará fazer pesquisa para descobrir o que outros pensam. Em seguida você precisará fazer pesquisa para justificar sua própria posição. Fazer tudo isso exige tempo. Algo que irá desesperadamente faltar, se você adiar o texto até o último minuto.

Quero enfatizar a necessidade de ter tempo suficiente para dedicar a seu projeto. Dê a sua tarefa, a seu tópico e a seu leitor o tempo que eles merecem. Você precisa de tempo para refletir, realizar a pesquisa, refletir um pouco mais e colocar suas ideias no papel. Você precisa de tempo para se distanciar dessas ideias e tempo para retornar a elas. Você precisa de tempo para procurar materiais em bibliotecas e na internet e para, então, munido com esse material adicional, alterar, reelaborar e revisar seu trabalho. Você precisará de mais tempo para executar tarefas mecânicas como revisão e correção. E uma vez que o tempo é importante, passemos aos tópicos principais.

Entenda a natureza da tarefa. Seu tópico pode ser sugerido por seu professor ou você pode receber a incumbência de escolher um tópico dentro de certos parâmetros. Independentemente de qual abordagem seu professor adote, você deve entender o tópico e os requisitos da tarefa, pois embora você possa escrever um texto com competência, ele pode estar completamente fora do tema! Assegure-se de que entendeu corretamente as instruções. Trata-se de analisar uma determinada obra ou conceito? O que está sendo pedido é um resumo, sem emitir sua avaliação? A tarefa é comparar e contrastar as posições de filósofos diferentes? Quantas laudas são necessárias? Trata-se de um texto curto ou mais longo? Seja qual for o tamanho, preste atenção para permanecer dentro dos limites estabelecidos. Um texto demasiado curto indica que você não dedicou tempo suficiente para desenvolver e explorar ideias complexas. Um texto excessivamente longo pode ser repetitivo e simplesmente não cumprir o objetivo da tarefa.

Se você tiver pouca clareza sobre o tópico escolhido ou se tiver pouca familiaridade com o contexto em que ele se situa, ou se tiver dúvidas quanto à terminologia filosófica, pesquise num dicionário de filosofia ou enciclopédia na seção de referências de sua biblioteca. Essa leitura também irá ajudar a situar o tópico no contexto mais amplo e pode fornecer informações que ajudarão na hora de efetivamente iniciar o processo de escrita formal. Não recorra simplesmente a um dicionário padrão, uma vez que as definições que você obterá estarão irremediavelmente incorretas ou incompletas. Se o tópico for baseado em materiais de aula, releia os artigos à luz das novas informações de que você dispõe. Procure nos artigos os elementos vinculados ao tópico que você tem em mãos. Agora que você sabe o que está procurando, compreender o material deve ficar mais fácil. Se tiver que escolher seu próprio tópico, considere as seguintes diretrizes.

(1) Escolha algo que seja relevante. Parece óbvio, mas os estudantes às vezes perdem o rumo com facilidade e terminam por escolher um tópico que está longe do que o professor espera. Isso talvez se deva a uma falta de compreensão da natureza da tarefa ou devido à escolha de um tema demasiado genérico ou vago. É aconselhável pelo menos discutir o tema escolhido com seu professor para verificar se você está na pista correta. Ele poderá então fornecer orientação adicional sobre o que fazer. (2) Escolha algo que te interesse. Dizem que o tempo voa quando você está se divertindo. Embora alguns tópicos possam parecer mais fáceis que outros, não deixe suas impressões iniciais ser o fator principal. Se você não tiver interesse pelo tema, o processo efetivo de escrita se tornará mais difícil, uma vez que você não tem muita coisa investida no projeto.

(3) Escolha um tema que seja executável. Temas como “A filosofia de Aristóteles”, “O que é a Verdade?”, ou “Ciência e Religião”, são demasiado amplos. Ao refletir sobre seu tópico, é preferível que o poço seja pequeno e profundo, em vez de amplo e raso. Essa é uma metáfora obscura, mas basicamente significa: não abocanhe mais do que você pode mastigar. Você não vai querer abordar 50 pontos diferentes e desarticulados, sem dizer nada de substancial sobre qualquer um deles. Ao contrário, você vai querer escolher um tópico que seja possível abordar e que permita explorar com profundidade uma questão específica. (4) Escolha algo sobre o qual você pode encontrar materiais. Ao encontrar um tema de seu interesse, você precisa verificar que recursos estão disponíveis. Você poderá se ver em dificuldades com os argumentos e ideias se não encontrar mais de dois ou três textos que apenas mencionam seu tema de passagem.

Faça observações preliminares sobre o tema. Uma vez escolhido o tópico e tendo alguma compreensão dele, anote alguns pensamentos próprios. Faça observações que podem servir como áreas em potencial para talvez ser exploradas mais tarde. O mero fato de ter selecionado um tópico não significa necessariamente que você tem claro o que pensa sobre ele e, menos ainda, o que quer dizer sobre ele. Tente responder às seguintes perguntas: O que você pensa sobre? O que pretende dizer? O que lhe incomoda nesse tópico? O que você gosta nele? O que você acha interessante ou confuso? Você acha que ele conduz a determinadas consequências? Você consegue imaginar algum exemplo que põe em destaque algum dos aspectos discutidos ou que põe em destaque as afirmações apresentadas pelos que defendem essa posição específica? Você acredita ser favorável a uma posição mais do que a outra? Você se inclina para uma direção, mas não tem absoluta certeza? Apenas coloque seus pensamentos no papel. A essa altura, não precisa ser uma apresentação formal e de forma alguma esses comentários iniciais precisam ser bem desenvolvidos ou mesmo coerentes entre si. O desafio é apenas começar. O processo mecânico de escrita, mesmo ser ter certeza do que pretende dizer, vai ajudar.

Depois de escolher seu tema e registrar alguns de seus pensamentos sobre ele, você precisa descobrir o que existe lá fora. Embora você possa achar que a internet é o melhor lugar para procurar e descobrir que tipos de recursos estão disponíveis, ela não é o melhor lugar para começar. Examine primeiro seus próprios materiais de aula. Eles podem conter uma bibliografia ou uma lista de “leituras recomendadas”. O autor ou editor apresentam uma introdução ao texto ou a cada capítulo? Nela pode haver referências explícitas a outras obras ou pelo menos algumas questões propostas para discussão que podem fornecer alguns termos chave que você poderá usar em sua busca. O livro ou artigo talvez mencionem outras fontes como periódicos ou outros textos que você pode buscar na biblioteca de sua universidade. Pesquise nas notas de rodapé que acompanham os diferentes recursos. Elas também indicarão outras fontes.

Lembre-se: cada fonte, seja uma enciclopédia, um periódico, um livro, uma antologia, um índice, um glossário de termos ou uma nota de rodapé, tem o potencial de conduzir a outras fontes. Curiosamente, esse processo de usar uma referência para conectar a outra é exatamente o mesmo procedimento que usamos nos hiperlinks da web. Assim, sente-se em meio à coleção de sua biblioteca e comece a folhear as várias revistas e textos que encontrar nas prateleiras. Você terá uma agradável surpresa com o que vai descobrir apenas passando uma hora procurando. Se não tiver sorte em encontrar algo sobre seu tema, você pode pedir orientação ao bibliotecário ou ao seu professor. Talvez seja necessário escolher outro tópico, para o qual haja material mais abundante disponível.

Se você ainda não fez uma visita oficial à biblioteca, é preciso fazer. Descubra onde estão as coisas. Descubra como procurar os materiais. Descubra onde se encontram as obras de referência, os periódicos, as máquinas de copiar e digitalizar. Faça perguntas. Peça ajuda. Explore o local, antes de desperdiçar mais tempo, caso contrário, você vai fazer isso toda vez que tiver de retornar à biblioteca para pesquisar para um texto. Com relação à internet, é importante ser capaz de buscar com eficácia e de forma crítica, de modo a poder distinguir entre um site duvidoso e o que é uma mina de ouro em potencial.

Agora é o momento de reunir suas leituras. Você pode descobrir que algumas das fontes não são adequadas ou exatamente o que você precisa, mas por ora, reúna uma pequena coleção e comece a examinar sua utilidade. Muitas vezes não vai levar muito para avaliar se um determinado artigo é relevante ou inútil para o que você quer. Leia o índice por assunto, dê uma olhada na introdução do autor, examine o índice em busca dos termos chave que são mencionados com frequência. Utilize esses termos chave para procurar outras fontes. Ao procurar um livro numa prateleira, dê uma olhada em todos os outros da mesma prateleira. Ao encontrar um artigo útil num periódico, procure nas edições anteriores e posteriores (talvez alguém tenha escrito uma crítica ao artigo).

Se houver informação publicitária na sobrecapa do livro, leia, pois o nome do resenhista na sobrecapa do livro pode ser o de alguém que você queira investigar. Após percorrer um setor da biblioteca e encontrar suas fontes em potencial, vá a uma máquina de xérox e faça suas cópias para uso pessoal (sempre verificando as regras de direitos autorais). Embora você possa, em princípio, confiar no fato de que os livros ou periódicos da biblioteca são obras de “qualidade”, uma vez que foram selecionados por alguém para ser incluídos na coleção da universidade, lembre-se de avaliar criticamente toda e qualquer obra que você está pensando em utilizar como base para suas próprias posições. Isso é ainda mais necessário se você está recorrendo à web, onde qualquer pessoa pode publicar online o que quer que seja. Felizmente, muitos dedicaram seu tempo a montar sites fornecendo listas com vários recursos que você pode utilizar.

Leia os artigos que você selecionou. Entenda e reflita sobre eles. Você deve compreender o material antes de avaliá-lo. Faça notas em suas cópias, resuma ideias ou citações que deseja utilizar (mas não plagie!). Retorne agora às ideias que você anotou anteriormente. Há algum fio condutor em comum? Você pode reunir algumas delas de modo a formar uma direção rumo à qual você pode querer ir? Os artigos que você encontrou oferecem novas ideias e pistas? Eles respondem algumas questões ou levam a novas perguntas? Como os artigos que você leu estão ajudando? Pense nesse processo como um trabalho de equipe. Muitos outros percorreram o caminho em que você está e podem oferecer sugestões sobre em que rua virar e com que tomar cuidado. Tente elaborar a partir das bases que eles construíram. Agora é o momento de criar um esboço de seus argumentos e elaborar um diagrama informal ligando um ponto a outro.

Fique longe! Você precisa de algum tempo para ser capaz de bloquear sua mente voltada para a meta e reexaminar seu texto. Isso porque, quando se escreve por longos períodos de tempo, pode-se perder a objetividade. Por exemplo, você já leu alguma vez um de seus próprios textos repetidas vezes e pediu a um amigo para dar uma olhada para encontrar erros de digitação que você nunca percebeu? Isso acontece porque você se habituou de tal forma ao que você escreveu e tem tanta intimidade com as ideias que você passa batido por todos os erros. É por isso também que, quando você lê o texto, ele pode estar claro para você, mas não fazer nenhum sentido para outra pessoa. A razão disso é que você sabe o que quis dizer e você sabe o que pensa e para onde está indo, mas essas coisas podem não estar apropriadamente refletidas no que de fato aparece em seu texto.

Depois de um tempo afastado, retorne ao texto não como o autor, mas como um leitor desinteressado. Ao dar um tempo para esvaziar sua cabeça (pelo menos uma boa noite de sono), você pode retornar a seu texto com um ponto de vista mais objetivo. Você vai perceber o que pode ter escapado, ou o que precisa ser reescrito, ou suprimido, ou um pouco mais fundamentado. Muitas vezes a leitura do texto em voz alta pode revelar lapsos de lógica, incongruências, digressões e problemas básicos de apresentação.

Aqui vão algumas coisas que você deve verificar: Você apresenta uma tese clara e informa ao leitor para onde pretende levá-lo? Você leva seu leitor para onde disse que estava levando e da forma mais eficiente? Você oferece argumentos? Você apresenta uma defesa persuasiva de sua tese – fornecendo não apenas suas próprias justificativas, mas também as justificativas de outros? Alguma das afirmações que você utiliza como justificação também requer, por sua vez, justificação? Você oferece e considera pontos de vista de outros? O que outros disseram tanto a favor quanto contra os pontos de vista que você está apresentando? Por que o leitor deve aceitar seus argumentos em vez de outros que estão disponíveis? Você examina as consequências deles para sua própria posição? Você pode fornecer argumentos convincentes colocando em questão outras posições que são incompatíveis com a sua? Você pode perceber as implicações de sua posição? Você aceita essas implicações? Você percebe alguma fragilidade em sua teoria? Você reconhece explicitamente alguma crítica em potencial e tenta se confrontar com ela? Essas críticas são sérias o suficiente para exigir uma revisão geral de seu argumento ou você pode lidar com essa fragilidade alterando sua posição dentro de limites razoáveis? Existem pontos que estão ambíguos ou vagos? Há inconsistências?

Finalmente, você está quase no fim. Após revisar seu texto, faça uma verificação mecânica. Aplique um corretor ortográfico. Imprima e revise manualmente o texto. Muitas vezes, os estudantes apenas passam o corretor ortográfico, mas ele não detectará erros como distinguir entre “filósofo” e “filosofo”, do verbo “filosofar”. Ao ler seu texto no papel e não na tela do computador, você pode perceber erros óbvios, saltos na lógica, parágrafos desconexos e transições mal feitas que você talvez ignore se examinar o texto apenas na tela do computador. Agora repita os dois últimos passos até que você esteja satisfeito.


Como escrever um artigo de filosofia

Embora seja a primeira coisa vista pelo leitor, talvez seja melhor que a escolha do título seja feita por último. Isso porque um título deve dar uma boa indicação da natureza do trabalho – e você terá uma ideia melhor disso quando seu texto estiver terminado. O título deve indicar por que o leitor deve ler o seu texto e não o de outra pessoa qualquer. Faça com que o título seja informativo, sem ser específico demais – é um título, não a declaração prolixa de uma tese. Sinta-se à vontade para personalizar seu título, mas cuidado com os exageros. Vamos supor que você está escrevendo um trabalho sobre epistemologia. Um título possível seria: “A Verdade”. Problemático? Definitivamente sim. “Verdade” é genérico demais, além de ser um pouco pretensioso. Que tal “A teoria da correspondência da verdade”? Bem melhor, mas continua demasiado abrangente e não dá ao leitor uma ideia do objetivo do texto. “A teoria da correspondência da verdade: uma defesa” – esse é ainda melhor, pois dá ao leitor uma indicação a respeito do assunto que você está abordando e sugere qual será o seu ponto de vista. É claro que ainda não está muito atraente, mas essa parte nós deixamos para você mesmo decidir.

Seus parágrafos introdutórios devem situar o contexto para o restante do texto. Neles você está inteirando seu leitor a respeito do conteúdo de seu trabalho. Isso dá subsídios para que ele perceba por que o assunto é importante, a definição do problema e qual será sua tese. Se tiver espaço, você pode querer fazer um pequeno resumo com os principais pontos a serem abordados – mas tome cuidado, você não vai querer gastar um terço de um pequeno ensaio apenas para explicar do que ele vai tratar. Assim como o título, talvez você queira escrever o primeiro parágrafo por último. Isso porque pode ser que você não esteja totalmente seguro com respeito ao rumo que o trabalho vai afinal tomar ou quais serão os argumentos que você vai empregar. Assim, evite tentar forçar seu texto a se adequar aos limites que você estabeleceu em um mero parágrafo introdutório, trace apenas um plano para começar a escrever e vá direto ao texto propriamente dito.

A primeira sentença de cada parágrafo deve conter uma nova ideia ou a expansão de uma ideia anterior; e deve fluir naturalmente a partir da última sentença do parágrafo anterior. Tome cuidado para não pular de um ponto a outro sem antes avisar o leitor, senão ele ficará perdido e não saberá para onde você está indo e o que você quer demonstrar. É claro que há muitas maneiras diferentes de se escrever um ensaio e às vezes depende apenas do que funciona melhor para você, para o assunto e para o que seu professor deseja. Por exemplo, você pode querer descrever a questão e os pontos de vista a seu respeito, para depois abordar os possíveis contra-argumentos e suas respostas; ou você pode querer desenvolver todas essas questões ponto a ponto, isto é, apresentar um argumento e uma objeção possível, para depois resolver a crítica e seguir adiante.

As sentenças centrais do parágrafo devem dar detalhes e ampliar a discussão que está sendo desenvolvida, enquanto a sentença final deve deixar o leitor com uma percepção clara de qual o ponto chave da questão, ao mesmo tempo em que deve situar o parágrafo seguinte. Além disso, os parágrafos não devem ser demasiado longos. Como regra geral, os argumentos mais fortes devem ser reservados para o final de seu trabalho. Comece com os mais fracos ou menos relevantes e então desenvolva seu argumento. Você não quer terminar seu trabalho num tom fraco, já que as últimas coisas que você disser serão as primeiras coisas de que o leitor vai se lembrar logo após a leitura. Não tenha medo de apresentar um ponto aparentemente fraco – desde que você consiga reconhecer que se trata de uma dificuldade e tenha condições de responder a ela com êxito.

A conclusão deve reunir todas as partes de seu texto num argumento final. Essa é a última chance que você terá para cativar o leitor. A conclusão é usada para reafirmar sua tese e os principais argumentos referentes tanto aos tópicos específicos de seu texto quanto ao assunto em geral. Ela deve terminar o que você começou de forma a permitir que o leitor siga adiante, tendo compreendido algo do que você quis comunicar.

Notas de rodapé ou notas de fim podem ser usadas para duas finalidades diferentes. Uma delas é fornecer informações sobre a fonte que você está citando, a outra é utilizar as notas para os comentários que não se encaixam no corpo do texto, apesar de serem relevantes e merecer alguma atenção. Por exemplo, numa nota de rodapé você pode fornecer na íntegra uma passagem da qual você citou uma parte ou então introduzir uma observação geral sobre o autor ou a fonte utilizada. Muitos professores permitem a inclusão de citações de referência no corpo do texto. Em minha opinião, no entanto, as citações incluídas no corpo do texto podem interromper seu fluxo argumentativo. Se estou pensando no argumento do autor, a inserção de referências pode romper o fluxo visual do argumento e, em consequência, minha concentração. Além disso, se o autor que você está citando tiver mais de um artigo publicado no mesmo ano, isso pode ocasionar confusão, a menos que você inclua parte do título do artigo em sua citação. Isso, em minha opinião, somente afasta ainda mais a atenção do leitor com relação ao fluxo do texto. Posto isso, em geral procuro utilizar notas de rodapé para ambos: comentários e referências. Prefiro usar notas de rodapé para tudo – mas essa é uma mera preferência pessoal. Você deve verificar com seu orientador qual formato ele espera no seu trabalho.

Algumas considerações finais:

  • Os números de referência devem ser fornecidos em ordem sequencial: 1, 2, 3, 4, 5…
  • Os números devem ficar “sobrescritos” (números pequenos, posicionados acima da linha do texto). Todos os programas de edição de texto (Word, etc.) fazem isso, basta digitar o número pressionando a tecla “Alt Gr” (exemplo¹).
  • As citações longas devem ser separadas do corpo do texto, com recuo de parágrafo e em espaço simples. Aspas são desnecessárias nesse caso e as passagens devem ser seguidas de um número de citação.
  • Se você quiser omitir alguma parte do texto citado por achar irrelevante, use três pontos entre colchetes […] para indicar que parte do texto foi excluída.
  • Se precisar adicionar ou mudar uma palavra para deixar mais claro o sentido da frase ou enfatizar, use colchetes [ ].
  • Lembre-se de que e.g. (uma abreviação do latim exempli gratia) é usada para dar exemplos (em português, geralmente se usa p. ex.) e que i.e. (uma abreviação do latim id est) é usada para explicar ou esclarecer o significado de um termo em outras palavras (em português, geralmente se usa i.é., com o sentido de “isto é”).
  • Nunca use “acho” quando você de fato quer dizer “penso” ou “acredito”. O termo “acho” sugere que você tem apenas uma intuição ou hesita quando pensa sobre o que é a verdade. Você não conseguirá persuadir ninguém a aceitar suas concepções com base em algo que você sente. Tente evitar por completo o uso de “acho”, uma vez que o uso da primeira pessoa num trabalho escrito muitas vezes é redundante. Se você escreve: “acho que a prática do aborto é errada”, isso não dá ao leitor nenhuma informação além da afirmação de que “a prática do aborto é errada”. O leitor já sabe que você acha que a prática do aborto é errada, porque você é o autor do texto! Não há necessidade alguma de lembrá-lo desse fato. Além disso, omitir o “acho” valoriza sua afirmação. Você está tentando persuadir alguém de que o aborto é errado e não apenas de que você acredita que é errado. Fazer essa última afirmação deixa seu texto vulnerável à crítica óbvia de que “o que você escreve pode levar você a acreditar que o aborto é errado, mas isso certamente não me convence”.
  • Assegure-se de que o tamanho de seu trabalho esteja o mais próximo possível do estabelecido. Parte do exercício está em perceber se você consegue desenvolver seus argumentos com propriedade dentro dos limites estabelecidos. Se o trabalho ficar muito pequeno, muito provavelmente o assunto não terá sido abordado de forma apropriada. Se ficar muito longo, ele não estará tão conciso quanto deveria estar. Esses dois extremos estão sujeitos a penalidades.
  • Use o bom senso quando for imprimir e encadernar seu trabalho. Se ainda não tem grampeador, compre um amanhã! Não use papéis pautados ou decorados com flores que você encontrou na gaveta só porque “foram os únicos que sobraram”. Não use tinta de cores estranhas ou ainda margens ou tipos de fonte impróprios. O fato de não levar a sério a aparência de seu trabalho indica o quanto você se importa ou não com o que está fazendo.

Filosofia se estuda escrevendo

Artigo de opinião do professor de filosofia Alexandre Machado, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), publicado no blog Problemas Filosóficos.


É muito comum ouvir que no curso de filosofia devemos ler muito, que é um curso para quem gosta de ler, e coisas semelhantes. Isso é verdade, é claro. Todavia, a ênfase que se costuma dar à leitura, principalmente para aqueles que estão iniciando seus estudos em filosofia, ofusca a importância primordial que outra atividade tem nesses estudos: a escrita. Mas por que a escrita é importante? Por mais de uma razão. É muito comum ouvir coisas como: “Eu entendi, mas não sei explicar” ou “Eu sei, mas não sei dizer”, como se tudo estivesse correndo bem no âmbito dos pensamentos e o problema fosse apenas uma inabilidade linguística de expressar os pensamentos de maneira clara e ordenada. Os pensamentos estariam lá, todos claros e bem ordenados. Mas na hora de colocá-­los no papel, as palavras parecem fugir. Não vou dizer que um fenômeno semelhante a esse nunca ocorra. Mas na maioria esmagadora dos casos, o que ocorre é simplesmente a ilusão de entendimento. A pessoa acha que entendeu, mas de fato não entendeu.

Para se desfazer dessa ilusão, pergunte-se: como eu sei que entendi? A certeza de que entendeu não pode ser suficiente para justificar a alegação de entendimento. Que outro critério poderia haver para o entendimento se não a habilidade de explicar o que foi lido, de colocar em palavras de forma clara e ordenada? A escrita funciona no estudo como uma espécie de experimento ou teste para verificar o entendimento. Essa é a razão pela qual, em provas discursivas de filosofia, o que se pede é que o aluno explique problemas e teorias filosóficas, que expresse em palavras o entendimento que se tem delas.

A ilusão de entendimento não ocorre apenas nos níveis elementares de estudo. Mesmo pós-­graduados estão sujeitos a ela. Essa ilusão ocorrerá, então, num nível não elementar do trabalho filosófico, mas é o mesmo fenômeno. O exercício da escrita serve para que nosso modo de expressão se torne mais claro, preciso, não ambíguo. Uma razão menos importante é o fato de que escrever é uma maneira de memorizar o que foi lido ou ouvido. Memorizar coisas certamente não é tudo o que se faz ao estudar. Todavia, é certamente uma condição necessária para um bom estudo. Memorizar não significa aceitar de forma acrítica, mas antes de criticar uma teoria, devemos memorizá-la. Se não temos a capacidade de lembrar a teoria ou problema, como vamos ter a capacidade de criticar?

Mas como deve ser esse exercício de escrita? A escrita deve expressar nosso entendimento do que foi lido ou ouvido. Mas o que tentamos entender quando lemos um texto de filosofia ou assistimos uma aula? Um texto de filosofia é um texto em que se procura apresentar e lidar com problemas filosóficos. Boa parte desse trabalho consiste em analisar definições, teses e argumentos. Portanto, o que se deve exercitar escrevendo é a capacidade de explicar definições, teses e argumentos. Para isso, às vezes é necessário ler o mesmo texto várias vezes. Se for uma exposição oral, às vezes é necessário fazer muitas perguntas. Dado que se trata de entender definições, teses e argumentos, a qualidade desse entendimento é proporcional à sua competência lógica.

Na busca de uma forma de expressão mais clara, precisa e não ambígua, alguma regras bem gerais são úteis. Uma delas consiste em não multiplicar o vocabulário sem necessidade. É melhor ser repetitivo do que perder clareza em função da substituição de uma palavra por um suposto sinônimo apenas para evitar a repetição. Não se deve inventar novas palavras para o que já tem nome, exceto se houver uma boa razão para isso. O uso de frases curtas é sempre preferível. Frases mais longas, cheias de vírgulas e parênteses, geralmente são menos claras e o risco de se cometer erros gramaticais na sua redação é maior. Deve-­se colocar a clareza sempre à frente da beleza. Um texto ideal é um texto claro e belo. Mas nem sempre isso é possível. Entre uma formulação bela porém obscura e outra feia porém clara, esta última é preferível. Um bom texto geralmente é resultado de muitas revisões.


Ler como um filósofo

Artigo de David Concepción, publicado originalmente em The Philosopher’s Magazine.
Tradução de Rodrigo Canal e Breno Santos para o portal Crítica.


Ao lado do grande “D” vermelho, na parte inferior do trabalho final que escrevi para um curso de ciência política durante o segundo semestre da faculdade, estava escrito assim: “Você pensa como um filósofo, não como um cientista político”. Tomei alegremente este comentário como um conselho sábio, em vez de um insulto desdenhoso, e me inscrevi para fazer o curso “Teorias da Natureza Humana” no departamento de filosofia, no semestre seguinte. Lembro-me de ter uma sensação profunda, mas vaga, que foi uma mistura de alívio e de alegria durante a primeira semana. “Encontrei meus iguais”, pensei. Eu não sabia que existia um campo de estudo que considerava sensatas as questões que estavam sempre na minha cabeça. Ainda mais surpreendente é que o tipo de ideias que eu oferecia como respostas, ainda que desorganizadas, era o mesmo tipo de respostas que os filósofos fornecem. Mudei de curso antes do final do semestre.

Mas tinha um problema. Eu não sabia como ler filosofia. Não sabia como conectar razões a conclusões, acompanhar mudanças na expressão, decifrar sutilezas, avaliar argumentos ou usar o texto para criticar as minhas próprias opiniões. Eu sabia como ler a fim de extrair informações que poderiam me ser solicitadas a regurgitar em algum momento posterior, mas não sabia ler como os filósofos liam. Embora a destilação precisa de informações básicas seja necessária para uma experiência significativa de leitura filosófica, é infelizmente insuficiente. No meu primeiro curso de filosofia, li cada texto lentamente, com um dicionário de filosofia e um dicionário geral ao meu lado. Com exceção de Kant — que eu sabia que não entendia —, descobri e redescobri todos os dias, em sala de aula, que o que eu havia feito, da maneira como havia lido, não me preparava para me engajar com as ideias da maneira como era esperada de mim. Como um entusiasta novo da filosofia, andava em círculos. O que segue é uma lista das 10 coisas que eu gostaria de saber quando comecei a ler filosofia.

1. Não existe leitura sem qualificação

Em vez disso, há o ler como filósofo, como historiador, como cartógrafo, como jornalista e assim por diante. Mesmo dentro de uma disciplina, não há uma única maneira de ler. Em parte, isso ocorre porque há muitos subtipos de escrita em cada campo. Talvez a forma de escrita que predomina entre os filósofos seja a escrita argumentativa. Nesta forma, o autor defende uma tese pela tentativa de mostrar que determinadas inferências, de algo incontroverso a algo surpreendente, são plausíveis. Também é provável que o autor tente mostrar que não foram bem-sucedidas as tentativas de mostrar que as suas inferências não se sustentam. Mas alguns filósofos se aproximam da intersecção entre filosofia e crítica literária, onde a frase “eu defendo que…” simplesmente significa “eu acredito que…”, e poucas inferências podem ser oferecidas. Outros filósofos trabalham perto da intersecção entre filosofia e física, onde sentenças como “∀n (Q(n) → P(n))” podem ocorrer. Alguns filósofos citam muito, na tentativa de mostrar que uma interpretação de um texto é superior a uma interpretação alternativa, enquanto outros filósofos tentam defender uma ideia de modo que as citações e notas de rodapé são apenas para salientar que outros disseram algo sobre o tópico. E uma recente explosão em filosofia experimental deu origem a outra forma de escrita filosófica. Menciono essa variedade para deixar claro que o que se segue deve ser entendido como incompleto. Reflete minha formação como um eticista que trabalha sobretudo com artigos e com capítulos, escritos em inglês, dos séculos XX e XXI, numa tradição pluralista, mas analítica.

Além das diferenças nos tipos de escrita filosófica, existem diferenças nos objetivos que se pode ter ao ler a filosofia. Os objetivos que se têm influenciam como se deve ler. O que mais me entusiasma em ler filosofia é a oportunidade de ter minhas crenças e meus valores desafiados. Leio filosofia para identificar, esclarecer e testar minhas crenças e valores atuais. Como tal, a leitura filosófica é um ato de criação, autocriação de sabedoria perspícua sobre como viver bem com os outros. Como um passo em direção a essa sabedoria, espero que os alunos do primeiro ano em meus cursos de filosofia se tornem mais intelectualmente humildes e menos dogmáticos, como resultado da leitura filosófica. Para a maioria das pessoas, esses objetivos são inatingíveis, a menos que se entreguem à estranheza e à inquietação que tantas vezes vêm com a leitura de filosofia.

2. A experiência de ler filosofia é amiúde estranha

É estranha, em parte, porque o assunto da filosofia é imaterial. Isso não deve sugerir que fatos não importam em filosofia. Um mantra de um professor de ética meu foi “A boa ética começa com bons fatos”. Ele estava certo. Em vez disso, dizer que o assunto da filosofia é imaterial é dizer que questões como “O que é a justiça?”, “O Deus de Abraão existe?” e “O que eu posso saber?” não são respondidas pela sondagem das profundidades de objetos empíricos, ou mesmo de objetos sociais. Elas são respondidas por meio de inferências para aumentar a coerência em um conjunto de crenças e, no caso incomum, derivar corolários de verdades (aparentemente) autoevidentes. O que é estranho nisso é que a filosofia é ostensivamente uma prática de busca da verdade. No entanto, busca a verdade sem presumir fundamentos doutrinários nem o uso do método científico; a filosofia tenta alcançar um fim sem usar nenhum um dos meios de pensamento centenários apropriados para essa tarefa. Para piorar, amiúde a tentativa não logra êxito. A filosofia mostra que muitas coisas que são consideradas verdadeiras não o são, mas ela não estabelece muitas verdades. A filosofia é estranha porque é mais um empreendimento de estabelecimento de falsidades do que construção de verdades. Essa estranheza confirma para mim que a filosofia diz respeito sobretudo ao ganho de sabedoria, e não ao ganho de verdade, embora não se deva desprezar a verdade, se ela for encontrada. A estranheza da filosofia tem implicações para o leitor de filosofia. O leitor de filosofia não deve procurar por fatos estabelecidos, ou mesmo por provas concebidas para confirmar uma hipótese a respeito de um fato empírico (ou social). Em vez disso, em um texto, um leitor de filosofia deve procurar inferências ou conexões entre suposições altamente plausíveis e conclusões surpreendentes que são difíceis de rejeitar.

3. A experiência da leitura de filosofia é amiúde inquietante

Ao ler filosofia, os valores em torno dos quais alguém organizou, até então, sua vida, podem parecer provincianos, categoricamente errados ou mesmo malignos. Quando as crenças previamente mantidas como verdades são tornadas implausíveis, novas crenças, novos valores e modos de vida podem ser necessários. Esse ferimento filosófico no núcleo dos modos de vida, dos valores e das crenças, por si só, já é bastante difícil. Para piorar, os filósofos ainda recomendam que não se costure a ferida, até o momento em que seja encontrada ou revelada uma nova resposta defensável. Às vezes, a escrita filosófica é até mesmo estritamente crítica, na medida em que nem sequer tenta fornecer uma alternativa, depois de derrubar uma cidadela cultural ou conceitual. O leitor de filosofia deve estar preparado para a possibilidade dessa experiência. Embora a leitura de filosofia possa ajudar a esclarecer os valores de uma pessoa, e até mesmo a torná-la autoconsciente pela primeira vez do fato de que há boas razões para acreditar no que se acredita, ela também pode gerar dúvidas incorrigíveis com as quais é difícil viver.

4. Para ler bem filosofia, é preciso coragem

Por fim, antes de passar para práticas de leitura mais concretas, vamos lembrar que, quando bem feita, a leitura filosófica é um exemplo do fazer filosófico. Se alguém usa os argumentos encontrados em um texto filosófico como a oportunidade para avaliar a plausibilidade de suas próprias razões para acreditar no que se acredita, faz, em razão disso, filosofia. Depois de ler filosofia, frequentemente reunimos algumas informações e ficamos entretidos. Mas ler filosofia é, no fundo, um ato de criação. Ler filosofia é mais excitante quando o leitor se coloca em risco por estar aberto à persuasão. Às vezes, nada menos do que a identidade de alguém está em jogo. Assim, os filósofos leem corajosamente, avaliando a plausibilidade de inferências, com uma abertura para a autorrecriação extraída de uma dissipação e reconstrução da verdade. Mas como se lê desse jeito? Existem dois passos principais: compreender e avaliar.

5. Delimite o cenário

Antes de ler um ensaio sobre o qual sei muito pouco, às vezes acho útil ler um resumo da Wikipédia. Mas frequentemente a Wikipédia não é detalhada o suficiente. Quando preciso de mais conhecimento básico, recorro à Enciclopédia de Filosofia da Stanford ou à Enciclopédia de Filosofia da Internet. A Enciclopédia da Internet é geralmente um pouco mais acessível, enquanto que a Enciclopédia da Stanford é geralmente mais completa. Ao adquirir alguma compreensão do terreno conceitual dentro do qual o ensaio que estou lendo reside, geralmente consigo entender melhor a discussão refinada do ensaio.

6. Localize a estrutura e a voz da argumentação

Textos filosóficos têm conclusões, razões, críticas e respostas. Primeiro, discirna o que o autor espera defender. Embora a conclusão seja geralmente declarada bem no início, pode ser que esteja no final da primeira seção, bem como pode não ser declarada com clareza até a seção final do ensaio. Segundo, descubra por que o autor acha que está certo. Tipicamente, o argumento inicial deve aparecer no início no ensaio, mas pode ser que não seja mobilizado por completo até o final. Ao longo do artigo, é provável que o autor considere objeções às asserções que faz. É importante notar a mudança na voz que procede a explicação de uma objeção. Por exemplo, um leitor pode ver “críticos dessa ideia podem argumentar…” Essas mudanças, frequentemente breves, e às vezes apenas implícitas, para a voz do crítico são cruciais para localizar o argumento. Em quase todos os casos, uma objeção será seguida por um retorno à voz do autor: “Como resposta…”. Marcar onde os movimentos do argumento, da crítica e da resposta ocorrem, torna muito mais fácil reunir todo o argumento.

7. Avalie e registre o progresso

Algumas passagens são particularmente espinhosas. Por conseguinte, é muito comum ler filosofia muito mais devagar do que ler outros textos. De fato, muitos filósofos principiantes param no final das seções e, às vezes, dos parágrafos, ou mesmo frases, para verificar se podem reconstruir as ideias em suas próprias palavras. Se for difícil fazê-lo, é necessária alguma releitura antes de prosseguir. Para os textos mais difíceis, crio resumos a cada parágrafo à medida que escrevo uma oração ou uma frase que é uma paráfrase do conteúdo central de um parágrafo. Ao me certificar de que entendo um parágrafo bem o suficiente para exprimir seu ponto principal com minhas próprias palavras, sei que estou pronto para seguir em frente.

8. Junte tudo

Acho muito útil escrever um resumo do argumento quando chego ao final de um ensaio. Esse resumo compila as suposições e inferências que o autor acredita levar à conclusão, bem como as objeções e as respostas consideradas ao longo do caminho. Normalmente, esses resumos são bastante abreviados; eles contêm marcadores e listas. O objetivo desse resumo não é gerar um resumo em prosa acessível, mas sim captar, apenas para meu uso, os principais movimentos argumentativos do ensaio. Sem os movimentos argumentativos prontamente disponíveis, seria difícil fazer a parte divertida: seria difícil avaliar o texto.

9. Avalie

À sua vontade, pense nas razões adicionais que poderia haver para pensar que o autor está correto ou incorreto. Pondere se: nossa experiência de vida fornece alguma revelação sobre os méritos dos argumentos? Caso o autor esteja correto, quais são as consequências? Para a verdade? Para as suas crenças? Para como você deve viver? Discuta com amigos sobre os argumentos, especialmente com aqueles que provavelmente discordarão de você. Elabore críticas adicionais e veja se consegue imaginar respostas em nome do autor.

10. Decida

Depois de um tempo suficiente, passe da avaliação dos argumentos para as suas próprias conclusões. O autor está certo, errado ou, mais provavelmente, parcialmente certo e parcialmente errado? Sobre o que, se alguma coisa, você deveria mudar de ideia? Depois de decidir o que pensa sobre as ideias do ensaio, escolha outro que contenha novos argumentos que possam fazê-lo mudar de ideia novamente. Quanto ao que ler, quem é que sabe? Leia o que instiga você. Acredito que as pessoas que estão no início de uma carreira de leitura de filosofia estão bem providas ao se dedicarem a artigos e capítulos, até encontrarem um autor ou tópico que realmente gostem. Se você não sabe quais são seus interesses, procure algo diferente do que normalmente lê, então comece pela navegação da Enciclopédia de Filosofia da Stanford. Se tiver sorte, haverá um livro que coleta ensaios sobre um tema que lhe provoca. Se você for realmente sortudo, um autor favorito terá um livro que reúna os ensaios dele, de modo que você obtenha versões revisadas que tenham algo como uma pista, mesmo que continuem independentes.

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