Ortodoxia – Chesterton

Trechos extraídos do livro Ortodoxia, de Chesterton (1874-1936),
publicado no Brasil em 2008 pela editora Mundo Cristão.


Da dificuldade de explicar algo de que
estamos completamente convencidos

Fica muito difícil defender algo de que se está inteiramente convencido. Se alguém está convencido apenas em parte porque descobriu esta ou aquela prova da coisa, consegue facilmente explicá-la. Mas ninguém se sente realmente convencido acerca de uma teoria filosófica quando apenas descobre alguma coisa para prová-la. A pessoa fica realmente convencida quando descobre que tudo prova aquela teoria. E quanto mais numerosas forem as razões apontando para essa convicção, tanto mais confusa ela ficará se de repente for solicitada a resumi-las. Assim, se alguém perguntasse a um homem de inteligência comum, de supetão, por que ele prefere a civilização em vez da barbárie, ele olharia desesperado ao redor contemplando um objeto depois do outro, e só saberia responder vagamente: “Bem, existe esta estante de livros… e pianos… e a polícia”. Toda a argumentação em defesa da civilização consiste no fato de que a argumentação em sua defesa é complexa. A civilização fez tantas coisas! Mas essa mesma multiplicidade de provas que deveria tornar a resposta irrefutável torna-a impossível. Toda convicção completa, portanto, está envolvida numa espécie de desamparo. A crença é tão enorme que se exige muito tempo para colocá-la em ação. Essa hesitação surge sobretudo de uma indiferença acerca do ponto por onde se deveria começar. (pp. 138-139)


Da refutação da loucura

A explicação oferecida por um louco é sempre exaustiva e muitas vezes, num sentido puramente racional, é satisfatória. Ou, para falar com mais rigor, a explicação insana, se não for conclusiva, é pelo menos incontestável. É o que se pode observar especialmente nos dois ou três tipos mais comuns de loucura. Se um homem disser, por exemplo, que os homens estão conspirando contra ele, você não pode discutir esse ponto, a não ser dizendo que todos os homens negam que são conspiradores; o que é exatamente o que os conspiradores fariam. A explicação dele dá conta dos fatos tanto quanto a sua. Se um homem disser que ele é, de direito, o rei da Inglaterra, não é uma resposta completa dizer que as autoridades existentes o chamam de louco; pois, se ele fosse o rei da Inglaterra, essa poderia ser a maneira mais sábia de agir para as autoridades existentes. Ou se um homem disser que ele é Jesus Cristo, não é uma resposta adequada dizer-lhe que o mundo nega a sua divindade; pois o mundo negou a de Cristo. Apesar de tudo, ele está errado. Mas se tentarmos descrever seu erro em termos exatos, não acharemos a tarefa tão fácil como havíamos imaginado. (pp. 34-35)


Do dogma materialista contra os milagres

Surgiu de algum modo a ideia extraordinária de que os céticos analisam os milagres com frieza e justiça, ao passo que os crentes os aceitam apenas em conexão com algum dogma. O fato é totalmente o contrário. Os que creem em milagres os aceitam (com ou sem razão) porque possuem evidências deles. Os que não creem neles os negam (com ou sem razão) porque têm uma doutrina contra eles. A atitude óbvia, democrática, é acreditar numa velhinha que vende maçãs quando ela dá testemunho de um milagre exatamente como se acredita numa velhinha que vende maçãs quando ela dá testemunho de um crime. A tendência popular pura e simples é confiar na palavra de um camponês sobre ele ter visto um fantasma exatamente na mesma medida em que se confia na palavra dele acerca do seu senhorio. Rejeitando os testemunhos em favor de um milagre, você só pode dar a entender uma de duas coisas. Você rejeita a história do camponês sobre o fantasma ou por ele ser camponês, ou por se tratar de uma história de fantasmas. Isto é, ou você nega o princípio fundamental da democracia, ou afirma o princípio fundamental do materialismo — a impossibilidade abstrata de milagres. Essas coisas sobrenaturais nunca são negadas exceto com base ou na antidemocracia ou no dogma materialista. O cético sempre assume uma destas duas posições: ou não se deve acreditar num homem comum, ou não se deve acreditar num evento incomum. Você tem todo o direito de agir assim; mas neste caso você é que é dogmático. (pp. 246-250)


Da diferença entre o cristianismo e o budismo

Há um jargão muito popular e corriqueiro de que “as religiões da terra diferem em ritos e formas, mas são a mesma coisa naquilo que ensinam”. Isso é absolutamente falso; é exatamente o contrário dos fatos. As religiões da terra não diferem muito em ritos e formas; elas diferem muito é naquilo que ensinam. Elas concordam no mecanismo: quase todas as grandes religiões da terra funcionam com os mesmos métodos externos, com sacerdotes, escrituras, altares, irmandades, festas especiais, etc. Concordam no método de ensino, mas diferem precisamente naquilo que ensinam.

Não há dois ideais que se oponham mais do que a representação de um santo cristão numa catedral gótica europeia e a de um monge budista num templo chinês. A oposição existe em cada ponto; mas talvez a maior demonstração disso seja o fato de o monge budista ter um corpo harmonioso e luzidio, mas olhos pesados e cerrados pelo sono. O corpo do santo medieval é desgastado e exibe seus estranhos ossos, mas os olhos estão assustadoramente vivos. Não pode haver nenhuma real comunhão de espírito entre as forças que produziram símbolos assim tão diferentes.

Concebendo-se que as duas imagens são extravagâncias, perversões do credo puro, é certo que pelo menos a divergência capaz de produzir extravagâncias tão opostas deve ser real. O budista está olhando com uma atenção peculiar para dentro. O cristão fixa os olhos com desvairada atenção para fora. Insistindo especialmente na imanência de Deus, temos como resultado introspecção, auto-isolamento, quietismo, indiferença social — Tibete. Insistindo especialmente na transcendência de Deus, temos deslumbramento, curiosidade, aventura moral e política, indignação justa — cristianismo. Insistindo que Deus está no interior do homem, o homem está sempre no interior de si mesmo. Insistindo que Deus transcende ao homem, o homem tem de transcender a si mesmo.

Além do mais, o budismo é centrípeto, enquanto o cristianismo é centrífugo: ele se propaga. O círculo é perfeito e infinito em sua natureza; mas é fixo para sempre em seu tamanho; ele nunca pode ser maior ou menor. Mas a cruz, embora tendo no seu centro uma contradição, pode estender seus quatro braços eternamente sem alterar sua forma. Por ter um paradoxo no seu centro, ela pode crescer sem mudar. O círculo retorna sobre si mesmo. A cruz abre seus braços aos quatro ventos. (pp. 49, 212-222)

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Da diferença entre o cristianismo e o islamismo

Das duas grandes religiões do mundo, uma é essencialmente pacífica, enquanto a outra é essencialmente violenta. Numa, o seguidor radical vira mártir. Noutra, vira terrorista. Uma tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Não maltrata, não se ira facilmente, não guarda rancor. A outra parece fazer exatamente o contrário. Isso é tão evidente que eu nem preciso mencionar os seus nomes para que todos entendam a quais religiões me refiro. A diferença mais vibrante está posta: enquanto eles imaginam que matando encontrarão com Alá, nós encontramos Cristo ao morrermos. Nós morremos para gerar vida, eles vivem para espalhar morte.


Do ódio anticristão que destrói a civilização

Este é o fato mais aterrador envolvendo a fé: que seus inimigos usarão qualquer arma contra ela, as espadas que cortam os próprios dedos e as tochas que queimam as próprias casas. Homens que começam a combater o cristianismo em benefício da liberdade e da humanidade terminam jogando fora a liberdade e a humanidade só para poderem com isso combater o cristianismo. Há homens que destroem a si mesmos e destroem a própria civilização se também puderem destruir essa fantástica história.

Não é exagero. Eu poderia encher um livro com exemplos disso. O sr. Blatchford iniciou, como um demolidor bíblico comum, querendo provar que Adão não teve culpa em seu pecado contra Deus. Manobrando para defender essa ideia, ele admitiu, como mera questão secundária, que todos os tiranos da história não tiveram culpa em nenhum de seus pecados contra a humanidade. Conheço um homem que tem tal paixão por provar que ele não terá uma existência pessoal depois da morte que recorre à tese de que ele não tem uma existência pessoal agora. Invoca o budismo e diz que todas as almas desaparecem uma na outra. Conheci pessoas que protestavam contra a educação religiosa com argumentos contra qualquer tipo de educação, dizendo que a mente da criança deve crescer livre ou que os mais velhos não devem ensinar aos jovens. Conheci pessoas que demonstraram que não poderia existir nenhum julgamento divino mostrando que não pode haver nenhum julgamento humano, nem mesmo em prol de objetivos práticos. Elas queimaram o próprio trigo para atear fogo no cristianismo; qualquer pedaço de pau era bom para bater nele, mesmo que fosse o último pedaço de sua mobília.

Não admiramos, mas desculpamos o fanático que destroça este mundo por amor ao outro. Mas que devemos dizer do fanático que destroça este mundo pelo ódio ao outro? Sacrifica a própria existência da humanidade à não-existência de Deus. Oferece suas vítimas não para o altar, mas simplesmente para afirmar a inutilidade do altar e o vazio do trono. Está disposto a destruir até mesmo aquela ética primária pela qual todas as coisas vivem, em prol de sua estranha vingança contra alguém que sequer existe. (pp. 228-230)


Sobre acertar a regra e as exceções

Suponhamos que um alienígena matemático examinasse o corpo humano. Ele imediatamente veria que o fato essencial nesse caso é que o corpo é simétrico, duplicado. Um homem contém dois homens: um à direita que se parece exatamente com outro à esquerda. Depois de notar que há um braço do lado direito e outro do lado esquerdo, uma perna à direita e outra à esquerda, ela poderia ir adiante e ainda encontrar de cada lado o mesmo número de dedos nas mãos, o mesmo número de dedos nos pés, olhos geminados, orelhas geminadas, narinas geminadas e até lobos do cérebro geminados. No mínimo ele tomaria o fato como lei e, depois, quando encontrasse um coração de um lado, deduziria a presença de outro coração do outro lado. Exatamente nesse momento, no ponto em que se sentisse mais seguro de estar certo, estaria errado.

É esse silencioso desvio milimétrico de precisão que constitui o elemento misterioso presente em tudo. Parece uma espécie de traição secreta do universo. A verdadeira percepção ou inspiração é mais bem testada quando observa-se se ela detecta essas malformações ou surpresas ocultas. Se o nosso alienígena matemático visse dois braços e duas orelhas, ele poderia deduzir as duas metades do cérebro. Mas se ele adivinhasse que o coração do homem estava no lugar certo, então eu deveria chamá-lo de algo mais que um matemático. Ora, essa é exatamente a reivindicação que venho fazendo para o cristianismo. Não simplesmente que ele deduz verdades lógicas, mas que quando de repente se torna ilógico, ele encontrou, por assim dizer, uma verdade ilógica. Ele não apenas acerta em relação às coisas, mas também “erra” (se assim se pode dizer) exatamente onde as coisas saem erradas. Seu plano se adapta às irregularidades ocultas e espera o inesperado. É simples no que se refere à verdade sutil. Admite que o homem tem duas mãos, mas não admite a dedução óbvia de que tenha dois corações.

Seguindo o mesmo raciocínio, quando sentimos a existência de algo estranho na teologia cristã, geralmente vamos descobrir que existe algo estranho também na realidade. Isso é o que chamei de adivinhar as excentricidades ocultas da vida. Isso é saber que o coração do homem está à esquerda e não no meio. Isso é saber não só que a Terra é redonda, mas também exatamente onde ela é achatada. A doutrina cristã detectou as esquisitices da vida. Ela não apenas descobriu a lei, mas previu as exceções. (pp. 135-137; p. 164)


Da origem religiosa da moralidade

A moralidade não começou com um homem dizendo a outro: “Eu não vou bater em você se você não bater em mim”; não há vestígio de uma transação semelhante. Há, sim, um vestígio de que ambos disseram: “Nós não devemos bater um no outro no lugar sagrado”. Eles conquistaram a moralidade vivendo a religião. Eles não cultivaram, de início, a coragem: lutaram pelo santuário e descobriram que se haviam tornado corajosos. Eles igualmente não cultivaram o asseio: purificaram-se para o altar e descobriram que estavam asseados. (…) Foi somente quando os hebreus criaram um dia santo para Deus que eles descobriram que criaram um feriado para os homens. (p. 113)


Da arquitetura gótica das catedrais medievais

Cristo profetizou toda a arquitetura gótica. Disse ele: “Se eles se calarem, as pedras clamarão”. Sob o impulso do seu espírito surgiram como em clamoroso coro as fachadas das catedrais medievais, apinhadas de rostos gritando e bocas abertas. A profecia se cumpriu: as próprias pedras gritam. (pp. 169-170)


Do crime e do pecado

Há uma tendência moderna de tratar o crime como uma doença, sobre transformar a prisão num mero ambiente higiênico como um hospital, sobre curar o pecado por meio de lentos métodos científicos. A falácia de todo esse caso é que o mal moral é uma questão de escolha ativa, ao passo que a doença não é. Se você diz que vai curar um criminoso como se cura um asmático, minha resposta fácil e óbvia é esta: “Apresente as pessoas que querem ser asmáticas uma vez que muitas querem ser criminosas”. Um homem pode ficar deitado inerte e curar-se de uma enfermidade. Mas ele não pode ficar deitado inerte se quiser curar-se de um pecado. A questão toda de fato está expressa à perfeição na própria palavra usada para quem está hospitalizado: “paciente” tem um sentido passivo; “pecador” ou “criminoso” tem um sentido ativo. Se um homem quiser se salvar de uma gripe, ele pode ser paciente. Mas se quiser se salvar de uma falcatrua, ele não pode ser paciente, tem de ser impaciente. Ele deve sentir-se impaciente com a falcatrua. Toda reforma moral começa na vontade ativa, não na passiva. (pp. 225-226)


Da coragem

A coragem é quase uma contradição em termos. Significa um forte desejo de viver que toma a forma de uma disposição para morrer. “Quem perder a sua vida, salvá-la-á”. Nesse paradoxo está todo o princípio da coragem; mesmo da coragem totalmente terrena ou totalmente brutal. Um soldado cercado por inimigos, se quiser achar uma saída, precisa combinar um forte desejo de viver com uma estranha despreocupação com a morte. Ele não deve simplesmente agarrar-se à vida, pois então será covarde — e não escapará. Ele não deve simplesmente aguardar a morte, pois então será suicida — e não escapará. Ele deve buscar a vida num espírito de furiosa indiferença diante dela; deve desejar a vida como água e, no entanto, beber a morte como vinho. (pp. 154-155)


Do suicídio

O suicídio não só constitui um pecado, ele é o pecado. É o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo. Seu ato é simbolicamente pior do que qualquer estupro ou atentado a bomba, pois destrói todos os prédios, insulta a todas as mulheres. O ladrão se satisfaz com diamantes, mas o suicida não: esse é seu crime. Ele não pode ser subornado, nem com as cintilantes pedras da Cidade Celestial. O ladrão elogia os objetos que furta, quando não elogia o dono deles. Mas o suicida insulta a todos os objetos da terra ao não furtá-los. Ele conspurca cada flor ao recusar-se a viver por ela. Não existe nenhuma criatura no cosmos, por mínima que seja, para quem a sua morte não é um escárnio. Quando alguém se enforca numa árvore, as folhas poderiam cair de raiva e os pássaros fugir em fúria, pois cada um deles recebeu uma afronta direta.

Li uma solene bobagem de algum livre-pensador. Dizia ele que um suicida era o mesmo que um mártir. A patente falácia desse texto ajudou-me a esclarecer a questão. Um suicida é obviamente o oposto de um mártir. Um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal. Um suicida é um homem que se preocupa tão pouco com tudo o que está fora dele que quer ver o fim de tudo. Um quer que algo comece; o outro, que tudo acabe. Em outras palavras, o mártir é nobre, exatamente porque, embora renuncie ao mundo ou execre toda a humanidade, ele confessa esse supremo laço com a vida; coloca o coração fora de si mesmo: morre para que alguma coisa viva. O suicida é ignóbil porque não tem esse vínculo com a existência: ele é meramente um destruidor. Espiritualmente, ele destrói o universo.


Do sofrimento de Cristo no Getsêmani

Dizendo isso, de fato estou abordando uma questão que não é fácil discutir porque é obscura e terrível; e peço desculpas de antemão se algumas de minhas frases não forem bem entendidas ou se eu parecer irreverente no tocante a um assunto que os maiores santos e pensadores com razão recearam abordar. Mas naquela história terrível da Paixão há uma distinta sugestão emocional de que o autor de todas as coisas (de algum modo impensável) não apenas passou pela agonia, mas também pela dúvida. Está escrito: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Não, mas o Senhor teu Deus pode tentar-se a si mesmo; e tem-se a impressão de que foi isso o que aconteceu no Getsêmani. Num jardim Satanás tentou o homem; e num jardim Deus tentou Deus. De alguma forma sobre-humana ele passou pelo horror humano do pessimismo. O mundo foi abalado e o sol desapareceu do céu não no momento da crucificação, mas no momento do grito do alto da cruz: o grito que confessou que Deus foi abandonado por Deus. (…) A questão torna-se difícil demais para a fala humana, mas deixemos que os próprios ateus escolham um deus. Eles encontrarão apenas uma divindade que chegou a expressar a desolação deles; apenas uma religião em que Deus por um instante deixou a impressão de ser ateu. (pp. 227-228)


Religião no mundo moderno

Uma sátira sobre a pós-modernidade e uma paródia de como deve ser uma aula de ensino religioso politicamente correta nos dias atuais.


http://charlezine.com.br/a-prosa-poetica-de-khalil-gibran/

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