Meritocracia não é um conceito capitalista

Neste breve artigo, Rodrigo da Silva argumenta que a meritocracia não é um conceito capitalista, como geralmente se pensa. Pelo contrário, a meritocracia seria um conceito anticapitalista. Uma tese bastante incomum, mas que faz muito sentido.


Meritocracia não é um conceito capitalista. Pelo contrário. Esse é provavelmente o maior mito econômico de nosso tempo. Por mais estranho que isso soe para você, meritocracia é um conceito que reina dentro da mentalidade exatamente oposta: a anticapitalista. No capitalismo, esforço nunca foi motivo para alguém enriquecer. Você pode ganhar dinheiro fazendo letras de músicas bem ruins, pintando quadros toscos, fazendo vídeos bobinhos pro YouTube, contando piadas sem graça… Você pode até pensar que há um certo mérito em atender aquilo que as pessoas estão interessadas em adquirir (que é o que de fato enriquece alguém), mas nem essa é uma verdade incontestável. Há pessoas que fazem sucesso no capitalismo sem mérito algum. Caem nas graças de um público consumidor sem querer, muitas vezes por modismos que ninguém previa. Outros tantos ainda dão sorte, ganham uma mãozinha de pessoas influentes ou enriquecem graças a atalhos que têm pouca relação com o tal do esforço ou do mérito. Você pode até ganhar muita grana através da ótica do esforço. Mas no capitalismo, não existe uma regra: faça isso, se comporte desse jeito e ganhe dinheiro no final do mês. Qualquer outro discurso é lenda.

A meritocracia é um conceito bastante presente na mentalidade esquerdista – ainda que ela a condene sem saber disso. É a esquerda quem se escandaliza por que Neymar ganha mais que um professor ou por que uma banda de pagode fatura mais que um sociólogo. Dentro de seus padrões, deve haver uma lógica que premia quem se esforça mais. Em geral, empresários ganham muito de forma injusta porque se esforçam pouco, enquanto intelectuais ganham pouco de forma injusta porque se esforçam muito. Na mentalidade anticapitalista, se você tem um food truck, definitivamente não deveria ganhar mais que um antropólogo que estuda os costumes dos índios tupinambás. Afinal, por anos ele sentou a bunda numa cadeira, comeu um zilhão de livros chatos, foi testado em inúmeras provas e agora pode nos agraciar com seu conhecimento libertador. Não é justo que todo esse esforço seja bem recompensado? No capitalismo, nem sempre.

Enquanto qualquer iletrado pode ganhar dinheiro no capitalismo dançando “tá tranquilo, tá favorável”, é de forma meritocrática que se organizam os concursos públicos e os vestibulares para as instituições públicas de ensino. É essa tal meritocracia também que invade a organização hierárquica dos partidos políticos, dos sindicatos, das associações de moradores e de muitos dos serviços públicos. Nos regimes socialistas, sempre houve grandes promessas para os partidários que mais se esforçam por uma causa, de posições de destaque dentro do partido à realocação nos melhores empregos. No capitalismo, muita gente que se esforçou mais do que nós jamais seríamos capazes, morreu pobre. Lembrem disso na próxima vez que virem uma juíza dizer que se esforçou pra burro para trabalhar dentro do Estado. Não se esqueçam disso da próxima vez que virem alguém ganhar dinheiro da forma mais fácil possível no capitalismo.


O capitalismo fair play

Na economia, como no futebol, o cidadão até aceita perder para um rival mais bem preparado. O que ele não tolera é o apito amigo do Estado a favor de certas pessoas ou empresas. Esta é a opinião de Fernando Schüler, publicada na revista Época.


O economista italiano Luigi Zingales argumenta que o senso de justiça das pessoas não requer necessariamente que a distribuição da renda na sociedade seja mais ou menos igualitária. A exigência dos cidadãos diz respeito ao fair play. Todos querem ganhar, mas antes de tudo querem que o jogo seja limpo. Isso requer não apenas regras iguais, mas certa equivalência nas condições de partida de cada um. Numa analogia com o futebol, ficamos furiosos com os 7 a 1 para a Alemanha na Copa, mas ninguém reclamou que o resultado foi injusto. É como funciona a meritocracia: aceitamos que o resultado se defina pelo talento, ou mesmo pelo acaso. O que não vale é o roubo, o jogo comprado.

Vem daí a ideia de um certo nivelamento do sistema de oportunidades. Esse é o foco de Zingales. E não é pouca coisa. Isso requer, por exemplo, o acesso de todos a uma escola de qualidade. De cara, rodaria no teste o modelo que vigora no Brasil, em que os mais ricos estudam nas melhores escolas particulares e os mais pobres nas escolas públicas de qualidade inferior. O que diferencia os dois modelos é, essencialmente, a existência ou não de competição. As escolas públicas funcionam como um monopólio: não podem ser “descontratadas” pelos estudantes e não podem descontratar seus piores professores. O modelo funciona como uma máquina de gerar desigualdade social.

A proposta de Zingales é que o Estado continue financiando a educação, mas deixe de fazer a gestão das escolas; ofereça um vale-educação e permita que os estudantes mais pobres estudem nas mesmas escolas em que estudam os alunos de famílias com maior renda. Fair play nos pontos de partida. Uma forma de fazer isso é evitar a expansão contínua do aparato estatal. Ao cidadão interessa um Estado enxuto, porém rigoroso na defesa igualitária de direitos. Garantidor de equidade, e por isso avesso à miríade de vinculações, monopólios, privilégios funcionais, subsídios e incentivos fiscais.


Um experimento socialista em sala de aula

Crônica publicada originalmente no blog Engenharia é.

Um professor de economia em uma universidade americana contou que nunca havia reprovado um só aluno, até que certa vez reprovou uma classe inteira. Esta classe em particular havia insistido que o socialismo funciona: com o governo intermediando a riqueza, ninguém seria pobre nem rico, tudo seria igualitário e justo. O professor propôs: “Tudo bem, vamos fazer um experimento socialista nesta classe. Ao invés de dinheiro, usaremos suas notas nas provas. Todas as notas serão concedidas com base na média da classe, e, portanto, serão ‘justas’. Todos receberão as mesmas notas, o que significa que em teoria ninguém será reprovado, assim como também ninguém receberá um A”.

Depois de calculada a média da primeira prova, todos receberam B. Quem estudou com dedicação ficou indignado, mas os alunos que não se esforçaram ficaram muito felizes com o resultado. Quando a segunda prova foi aplicada, os preguiçosos estudaram ainda menos, já que esperavam tirar notas boas de qualquer forma. Aqueles que tinham estudado bastante no início resolveram que também se aproveitariam da situação. Como resultado, a segunda média das provas foi D. Ninguém gostou. Depois da terceira prova, a média geral foi um F. As notas não voltaram a patamares mais altos, mas as desavenças entre os alunos, buscas por culpados e palavrões passaram a fazer parte da atmosfera das aulas daquela classe. A busca por “justiça” dos alunos tinha sido a principal causa das reclamações, inimizades e senso de injustiça que passaram a fazer parte daquela turma. No final das contas, ninguém queria mais estudar para beneficiar o resto da sala. Portanto, todos os alunos repetiram aquela disciplina, para sua total surpresa.


HQ sobre igualdade de oportunidades

O ilustrador australiano Toby Morris, em um quadrinho intitulado On a Plate (De Bandeja), mostra como não existe meritocracia sem que haja igualdade de oportunidades. Veja abaixo a versão em português traduzida pelo portal Catavento.

igualdade de oportunidades 1 igualdade de oportunidades 2 igualdade de oportunidades 3 igualdade de oportunidades 4

2 comentários em “Meritocracia não é um conceito capitalista

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