Em “Começo conjectural da história humana”, Kant concilia o Gênesis e Darwin

Neste artigo escrito em 1786, o já renomado filósofo Immanuel Kant examina o momento em que o homem passa do estado de rudeza animal para o de ser racional. Usando como guia o relato bíblico da queda de Adão e outras passagens do Gênesis, supõe que a ruptura entre o instinto e a razão marca o começo da história humana. Considero genial a maneira como Kant interpreta os relatos do Gênesis a partir de um ponto de vista darwinista, de modo a superar o infrutífero debate entre criacionismo e evolucionismo. Com um estilo cativante, ele mostra como aquele momento singular no qual o homem toma consciência da liberdade que o distingue de todos os outros animais é, ao mesmo tempo, uma queda e um progresso. Da perspectiva da biologia e da espécie, é um progresso do pior para o melhor. Da perspectiva da moral e da relação com Deus, porém, é uma queda do melhor para o pior, pois o homem passa de um estado de inocência para um estado de culpa, visto que “antes da razão despertar não havia ainda mandamento ou proibição e, portanto, nenhuma transgressão”.

Leia abaixo um trecho do artigo e leia ele completo neste link (PDF, 16 páginas). Se interessar, a Editora Unesp lançou em 2010 uma versão comentada em português.


Se não queremos vaguear em conjecturas, então temos de tomar por começo a existência do homem; e, para ser preciso, em sua idade adulta, porque ele tem de passar sem o auxílio materno; e como um casal, para que reproduza sua espécie; e, ainda, como apenas um único casal, para que não surja de pronto a guerra entre homens que estariam próximos uns dos outros e, no entanto, seriam estranhos uns aos outros. Eu situo este casal em um lugar assegurado contra o ataque de animais selvagens e provido ricamente pela natureza com todos os meios de alimentação, portanto, por assim dizer, em um jardim sob um clima ameno constante. E, mais ainda, eu o considero apenas após ele ter dado um passo importante quanto à habilidade de servir-se de suas forças, e não começo, portanto, da completa rudeza de sua natureza; pois se eu quisesse preencher essa lacuna, que presumivelmente compreende um grande espaço de tempo, as conjeturas poderiam facilmente tornar-se excessivas para o leitor, enquanto as verossimilhanças muito poucas. Portanto, o homem podia falar e conversar, isto é, falar a partir de conceitos coerentes, portanto pensar. Já o suponho dotado dessas habilidades, de modo a tomar em consideração apenas o desenvolvimento do que há de moral em seu fazer e deixar de fazer, o qual pressupõe necessariamente aquelas habilidades.

O instinto, esta voz de Deus a que todos os animais obedecem, teve inicialmente de conduzir esse novato. O instinto lhe concedia algumas coisas para alimentação, outras lhe proibia. Para esse propósito, porém, não é necessário supor um instinto particular hoje perdido; pode ter sido meramente o sentido do olfato e seu parentesco com o órgão do paladar, a conhecida simpatia deste último pelos instrumentos da digestão e também, por assim dizer, a capacidade de sentir antecipadamente se uma comida está apta ou não para o consumo, a qual podemos perceber até hoje. Tampouco se tem de supor que esse sentido fosse mais acurado no primeiro casal do que é hoje. Enquanto obedecia a este chamado da natureza o homem inexperiente se encontrava bem. Mas logo a razão se fez notar e, por meio da comparação do já experimentado com aquilo que um outro sentido que não aquele ligado ao instinto – tal como o sentido da visão (Gênesis 3:6) – apresenta-lhe como semelhante, tentou alargar o seu conhecimento dos alimentos para além das barreiras do instinto. Ainda que o instinto não recomendasse, essa tentativa poderia talvez ser bem sucedida, desde que ela não o contradissesse.

Entretanto, é uma característica da razão ser capaz de, com a contribuição da imaginação, inventar desejos não só sem um impulso natural a eles voltado, como até mesmo opostos a este último – no início eles recebem o nome de lascívia –, mas através dos quais são engendradas, pouco a pouco, toda uma multidão de inclinações supérfluas e até mesmo antinaturais – as quais recebem o nome de luxúria. A ocasião para renegar o impulso natural pode ter sido apenas uma trivialidade; porém, o sucesso da primeira tentativa, a saber, tornar-se consciente de sua razão enquanto uma capacidade de estender-se para além dos limites aos quais todos os animais estão confinados, foi muito importante e decisivo para o seu modo de vida. Que tenha sido, pois, um fruto cujo aspecto, por meio de sua semelhança com outros frutos agradáveis já experimentados, convidou para a tentativa; que para isso tenha servido de exemplo um animal cuja natureza se adequasse a esse desfrute, ainda que este fosse prejudicial ao homem e, consequentemente, um instinto natural a ele se opusesse: isso pôde dar à razão a primeira ocasião para zombar da voz da natureza e, a despeito do seu protesto, fazer a primeira tentativa de uma escolha livre, a qual, por ser a primeira, provavelmente não se deu conforme à expectativa. O dano pode ter sido tão insignificante quanto se queira, mas abriu os olhos do homem (3:7). Este descobriu em si uma capacidade de escolher por si mesmo um modo de vida e não, como os outros animais, estar ligado a um único.

Ao prazer momentâneo que essa descoberta possa ter-lhe causado devem-se ter seguido imediatamente medo e apreensão em relação a como ele, que ainda não conhecia as coisas segundo suas propriedades latentes e efeitos longínquos, deveria pôr em obra a sua capacidade recém descoberta. Ele se deteve, como que à beira de um abismo; pois, a partir dos únicos objetos de seu desejo, para os quais até agora o instinto lhe havia conduzido, abriu-se-lhe uma infinidade de objetos a cuja escolha ele não sabia como chegar; ao mesmo tempo, uma vez experimentado esse custoso estado de liberdade, tornou-se-lhe então impossível retornar ao estado de servidão, sob o domínio do instinto.

Depois do instinto de alimentação, por meio do qual a natureza preserva cada indivíduo, o mais relevante é o instinto para o sexo, por meio do qual ela cuida da conservação de cada espécie. Uma vez tornada ativa, a razão não tardou em provar sua influência também sobre este último. O homem descobriu em seguida que o estímulo sexual, que nos animais se baseia em um impulso passageiro e em grande parte periódico, nele é capaz de ser prolongado e até mesmo aumentado por meio da imaginação, a qual de fato exerce sua função com mais moderação, mas ao mesmo tempo o impulsiona de modo tanto mais duradouro e uniforme quanto mais o objeto é afastado dos sentidos. Assim ele descobriu também que através disso se pode evitar o fastio a que conduz a satisfação de um desejo meramente animal. As folhas da figueira foram, portanto, produto de uma manifestação da razão muito maior do que ela mostrara nos primeiros estágios do seu desenvolvimento. Pois tornar uma inclinação mais intensa e duradoura afastando-se dos sentidos o seu objeto mostra já a consciência de algum domínio da razão sobre os impulsos e não simplesmente, como no primeiro passo, a capacidade de estar a serviço delas em maior ou menor extensão. O recato, uma inclinação para, por meio das boas maneiras – ocultando aquilo que poderia causar desprezo –, insuflar nos outros o respeito para conosco, ofereceu, enquanto verdadeira base de toda sociabilidade, o primeiro indício da formação do homem como uma criatura moral. Um pequeno começo que deu uma direção totalmente nova ao modo de pensar e é mais importante do que toda a série indeterminada dos desenvolvimentos posteriores da cultura.

O terceiro passo da razão, depois que se misturou às primeiras necessidades básicas imediatas, foi a espera refletida do futuro. Esta capacidade de gozar não meramente os momentos presentes da vida, mas também de tornar presente o tempo futuro, é o mais decisivo sinal da prerrogativa humana de, em conformidade com sua destinação, preparar-se para fins mais distantes. Mas ela é, ao mesmo tempo, a mais inesgotável fonte de preocupações e cuidados, evocados pelo futuro incerto e dos quais todos os outros animais estão dispensados. O homem, que tinha de alimentar a si mesmo, a uma esposa e às futuras crianças, anteviu o caráter penoso, sempre crescente, de seu trabalho; a mulher anteviu as dificuldades às quais a natureza sujeitou seu sexo e também aquelas que o homem, mais poderoso, lhe infligiria. No cenário desse quadro, ambos anteviram com medo aquilo que, após uma vida penosa, atinge inevitavelmente a todos os animais sem que estes se preocupem, a saber, a morte, e pareceram reprovar a si mesmos pelo uso da razão, que lhe causou tantos males, considerando-o um crime.

O quarto e último passo dado pela razão, elevando o homem completamente acima da sociedade com os animais, foi ter concebido que ele é verdadeiramente o fim da natureza e que nada que vive sobre a Terra pode competir com ele nesse aspecto. A primeira vez que ele disse à ovelha “a pele que você carrega a natureza não deu a você, mas a mim”, tomou a pele para si e vestiu-a (3:21), ele se deu conta do privilégio que, em virtude de sua natureza, possui sobre todos os outros animais, os quais ele passou a considerar não mais como seus companheiros na criação, mas sim como meios e instrumentos disponíveis à sua vontade para a realização de suas intenções, quaisquer que sejam elas. Esta representação implica, ainda que obscuramente, a ideia do seu oposto: ele não deve dirigir-se de tal modo a nenhum homem, mas tem de considerá-lo como participante igual nas dádivas da natureza; uma preparação distante para as limitações que a razão deve impor futuramente à vontade em relação a seus próximos, e que é muito mais necessária para o estabelecimento da sociedade do que a simpatia e o amor.

Este abandono do seio materno da natureza foi uma mudança honrosa, mas ao mesmo tempo perigosa, na medida em que o impeliu para fora da situação inofensiva e segura de uma infância sob proteção, como que para fora de um jardim a ele provido sem seu esforço, e lançou-o no vasto mundo onde tantas preocupações, esforço e males desconhecidos o aguardam (3:23). Futuramente, as dificuldades da vida lhe despertarão muitas vezes o desejo por um paraíso, criação de sua imaginação, onde em calma ociosidade e paz duradoura ele possa passar sua existência. Mas a incansável razão, posicionando-se entre ele e esse lugar imaginário de delícias, impulsiona irresistivelmente o desenvolvimento das capacidades nele postas e não permite o retorno ao estado de rudeza e simplicidade de que o arrancou (3:24). Ela o impulsiona a aceitar pacientemente o esforço odiado por ele, a perseguir as falsas joias que ele despreza e, diante das trivialidades cuja perda ele teme ainda mais, a esquecer a própria morte que o apavora.

Dessa exposição da primeira história humana resulta o seguinte: a saída do homem do paraíso, representado pela razão como a primeira morada da espécie, não foi outra coisa senão a passagem da rudeza de uma mera criatura animal para a humanidade, da muleta do instinto para a condução da razão, em uma palavra, a passagem da tutela da natureza para o estado da liberdade. Se o homem ganhou ou perdeu com essa mudança deixa de ser uma questão quando consideramos a destinação de sua espécie, que consiste em nada mais do que no progredir para a perfeição, por mais que as primeiras tentativas de alcançar essa meta, mesmo em uma longa série de membros sucessivos, tenham sido errôneas e mal sucedidas. Entretanto, se para a espécie esse curso é um progresso do pior para o melhor, para o indivíduo não é exatamente o mesmo. Antes da razão despertar não havia ainda mandamento ou proibição e, portanto, nenhuma transgressão; mas tão logo ela começa sua empreitada e entra em conflito com a animalidade em toda a sua força, surgem males e, o que é pior, na razão mais cultivada surgem vícios que eram completamente estranhos ao estado de ignorância e, portanto, de inocência.

O primeiro passo para fora desse estado foi, portanto, do lado da moral uma queda; do lado físico, a consequência dessa queda foi uma quantidade de males jamais conhecida, logo, uma punição. Assim, a história da natureza começa do bem, pois é uma obra de Deus; a história da liberdade começa do mal, pois é uma obra do homem. Para o indivíduo, que no uso de sua liberdade olha apenas para si mesmo, tal mudança foi uma perda; para a natureza, que direciona o seu fim à espécie, foi um ganho. Por isso o indivíduo tem motivos para atribuir a si mesmo a culpa por todos os males que o afligem e por todo mal que perpetra. Ao mesmo tempo, enquanto membro de uma espécie, tem também motivos para admirar e exaltar a sabedoria e conformidade a fins da ordenação.

O início do período seguinte foi: o homem passou do período da comodidade e da paz para o do trabalho e da discórdia enquanto prelúdio da união em sociedade. Aqui temos de dar novamente um grande salto e colocá-lo de súbito em posse dos animais domesticados e dos vegetais que, semeando e plantando, ele mesmo podia produzir para a sua alimentação (4:2), mesmo que a passagem da selvagem vida de caçador para a posse de animais domesticados, e da inconstante coleta de raízes ou frutas para a posse dos vegetais que ele produzia, tenha se transcorrido de maneira consideravelmente lenta.

Aqui devem ter-se iniciado as rixas entre homens que, até então, viviam pacificamente uns ao lado dos outros, e a consequência disso foi a sua separação segundo os diferentes modos de vida e sua dispersão pela terra. A vida pastoril é não apenas agradável, mas oferece também o sustento mais seguro, pois não falta pasto em um solo inabitado, vasto e distante. Inversamente, a agricultura é muito trabalhosa e dependente da inconstância do clima, portanto incerta. Ela exige também residência permanente, propriedade do solo e poder suficiente para defendê-lo. O pastor, entretanto, detesta essa propriedade, que limita sua liberdade de apascentar. No que se refere à vida pastoril, pode parecer que o agricultor inveja o pastor como mais bem aquinhoado pelos céus (4:4); de fato, porém, este lhe é bastante incômodo, pois o gado não poupa suas plantações quando pasta. Ora, posto que é fácil para o pastor, junto com seu rebanho, afastar-se para longe depois que causou o estrago, escapando de qualquer ressarcimento – já que ele não deixa para trás nada que não encontraria de modo igualmente fácil em qualquer outro lugar –, então foi certamente o agricultor quem primeiro teve de usar a força contra tais prejuízos, e quem, se não quisesse perder os frutos de seu longo labor, teve também de afastar-se o mais que podia (4:16). Essa separação inicia a terceira época.

Um terreno de cujo trabalho e plantio depende o sustento exige residência permanente, e a defesa do mesmo contra todas violações carece de um grande número de homens dispostos a prestar auxílio uns aos outros. Consequentemente, nesse modo de vida os homens não podiam mais se dispersar em famílias, mas tinham de se manter unidos e construir aldeias e cidades (4:17), de modo a proteger sua propriedade contra caçadores selvagens ou hordas de pastores nômades. As primeiras necessidades da vida, cuja aquisição exige um modo de vida diferente, podiam agora ser trocadas entre si. A partir daí teve de surgir a cultura e o começo da arte, do passatempo assim como do labor (4:20-22); mas o mais importante é que teve também de surgir a instituição de alguma constituição civil e justiça pública, primeiro decerto em relação apenas aos maiores atos de violência, cuja vingança não mais era deixada aos indivíduos, como no estado selvagem, mas a um poder legal que unifica o todo, isto é, a uma forma de governo contra a qual nenhum exercício da violência tinha lugar. A partir dessas primeiras e rudes disposições puderam desenvolver-se gradualmente todas as artes humanas, dentre as quais a mais vantajosa é arte da sociabilidade e segurança civil. O gênero humano pôde multiplicar-se e espalhar-se como colmeias, por meio do envio para todos os lados de colonos já formados. Com essa época começou também, e daí em diante cresceu, a desigualdade entre os homens, essa rica fonte de tanto mal, mas também de todo bem.

Os povos de pastores nômades, que reconhecem apenas Deus como seu senhor, cercavam os agricultores e habitantes das cidades, os quais têm um homem por senhor e autoridade (6:4). Como inimigos declarados de toda propriedade da terra, maltratavam aqueles e, inversamente, eram por eles odiados. Houve portanto guerra contínua entre ambos, ou ao menos ameaça de guerra. Com o tempo, o luxo crescente dos moradores da cidade, e sobretudo a arte de agradar, por meio da qual as mulheres das cidades ofuscam as sujas meretrizes dos desertos, deve ter sido um poderoso chamariz para que aqueles pastores estabelecessem relação com os primeiros e se transferissem para a reluzente miséria das cidades (6:1-2). Aí, então, por meio da mistura de dois povos que de outro modo seriam inimigos, com o fim de toda ameaça de guerra e ao mesmo tempo de toda liberdade, o despotismo de tiranos poderosos, de um lado, e uma cultura recém começada, de outro, misturada a todos os vícios do estado de rudeza, imersa em opulência sem alma e na mais abjeta escravidão, desviaram irresistivelmente o gênero humano da progressão do desenvolvimento de suas disposições para o bem tal como a natureza lhe traçara; e com isso ele mesmo se tornou indigno de sua existência (6:17).

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