A prosa poética de Khalil Gibran

No começo da pandemia, quando estava na moda incentivarmo-nos mutuamente a ficar em casa, ganhei da minha sogra uma coleção de livros do famoso escritor libanês Khalil Gibran (1883-1931). São dez exemplares já amarelados e gastos da década de 1980, com tradução para o português de Mansour Challita. Raridades que hoje só se encontram nos melhores sebos. Calhou dessa dádiva chegar na mesma época em que finalmente terminei minha dissertação de mestrado. Depois de mais de dois anos de intensa pesquisa acadêmica, minha mente estava tão habituada à rigidez dos tratados analíticos de Aristóteles e ao rigor dos artigos científicos que julguei ser uma boa ideia permitir que ela devaneasse e se deleitasse, por algumas semanas, na leveza da literatura árabe de Gibran. Com o comércio, as praias e tudo que envolve lazer e vida social fechados por decreto, li quase todos os livros em poucas semanas, como um detento que lê por redução de pena. Como de costume, li com uma caneta na mão – pois como disse certa vez Ariano Suassuna: “se me tirarem a caneta, fico analfabeto”. A seguir, compartilho com vocês os trechos grifados, aqueles que me tocaram ou geraram insights e reflexões.


FILHOS

Vossos filhos não são vossos filhos. São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. Embora vivam convosco, não vos pertencem. Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos, porque eles têm seus próprios pensamentos. Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas, pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a Sua força para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe. Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria, pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estável. (O Profeta)


CASAMENTO

Vós nascestes juntos, e juntos permanecereis para todo o sempre. Juntos estareis quando as brancas asas da morte dissiparem vossos dias. Sim, juntos estareis até na memória silenciosa de Deus. Mas que haja espaço na vossa junção e que os ventos do céu dancem entre vós. Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão: Que haja antes um mar ondulante entre as praias de vossas almas. Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça. Dai de vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço. Cantai e dançai juntos, e sede alegres, mas deixai cada um de vós estar sozinho, assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto, vibram na mesma harmonia. Dai vossos corações, mas não os confieis à guarda um do outro. Pois somente a mão da vida pode conter vossos corações. E vivei juntos, mas não vos aconchegueis em demasia; pois as colunas do templo erguem-se separadamente. E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro. (Khalil Gibran, O Profeta)


SOLIDÃO

Vieste só, e só passarás para o nevoeiro. Portanto, bebe tua taça sozinho e em silêncio. Os dias de outono deram a outros lábios outras taças e encheram-nas com vinho amargo e doce, tal como encheram tua taça. Bebe tua taça sozinho, embora ela tenha o sabor de teus próprio sangue e lágrimas, e bendiz a vida pela dádiva da sede. Porque sem sede teu coração seria a praia de um mar dissecado, sem canções e sem marés. Bebe tua taça sozinho, e bebe-a alegremente. Ergue-a bem alto acima de tua cabeça e brinda a todos os que bebem sozinhos. (Khalil Gibran, O Jardim do Profeta, pp. 45-46)


ALEGRIA E TRISTEZA

Quanto mais profundamente a tristeza cavar suas garras em vosso ser, tanto mais alegria podereis conter. Não é a taça em que verteis vosso vinho a mesma que foi queimada no torno do oleiro? E não é a lira que acaricia vossas almas a própria madeira que foi entalhada à faca? Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constituiu vosso deleite. Alguns dentre vós dizeis: “A alegria é maior que a tristeza”, e outros dizem: “Não, a tristeza é maior”. Eu, porém, vos digo que elas são inseparáveis. Vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama. Em verdade, estais suspensos como os pratos de uma balança entre vossa tristeza e vossa alegria. (O Profeta)


CORPO E ALMA

Vós sois espíritos, embora vos movais em corpos; e, como o óleo que queima na escuridão, sois chamas, embora contidas em lâmpadas. Se fôsseis somente corpos, então minha presença diante de vós e minhas palavras dirigidas a vós seriam mera futilidade, tal como um morto chamando os mortos. Mas não é assim. Tudo o que é imortal em vós é livre para o dia e a noite, e não pode ser confinado em casas ou atado a grilhões, pois tal é a vontade do Altíssimo. Vós sois seu hálito, tal como o vento, que não pode ser nem agarrado nem engaiolado. (Khalil Gibran, O Jardim do Profeta, pp. 36-37)


APARÊNCIAS

Somos fascinados pelas aparências e cegos às essências. (…) Não, meu amigo, não ates as aparências às realidades. E não julgues da essência de um homem pelas suas palavras e seu comportamento. (…) Não, a vida não vale pelas suas aparências, mas pelas suas essências. Os frutos não valem pelas suas cascas, mas pela sua polpa. Os homens não valem pelos seus rostos, mas pelos seus corações. E a religião não vale pelo que se manifesta nos templos e pelos ritos e tradições, mas pelo que se esconde nas almas e nas intenções. (Khalil Gibran, Cascas e Polpas, pp. 80-82)


COMIDA

Pudésseis viver do perfume da terra e, como uma planta, nutrir-vos da luz. Mas, já que deveis matar para comer e roubar do recém-nascido o leite de sua mãe para saciar vossa sede, fazei disso um ato de adoração. E que vossa mesa seja um altar onde os puros e os inocentes da floresta e da planície são sacrificados àquilo que é ainda mais puro e mais inocente no homem. Quando matardes um animal, dizei-lhe no vosso coração: “Pelo mesmo poder que te imola, eu também serei imolado e servirei de alimento, pois a lei que te entregou às minhas mãos me entregará a mãos mais poderosas”. (O Profeta)


GENEROSIDADE

Vós pouco dais quando dais de vossas posses. É quando dais de vós próprios que realmente dais. Pois, o que são vossas posses senão coisas que guardais por medo de precisardes delas amanhã? E que trará o amanhã ao cão prudente que enterra ossos na areia movediça enquanto segue os peregrinos para a cidade santa? E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade? Não é vosso medo da sede, quando vosso poço está cheio, a sede insaciável? Há os que dão pouco do muito que possuem, e fazem-no para serem elogiados, e seu desejo secreto desvaloriza suas dádivas. E há os que pouco têm e dão-no inteiramente. Esses confiam na vida e na generosidade da vida, seus cofres nunca se esvaziam. E há os que dão com alegria, e essa alegria é sua recompensa. E há os que dão com pena, e essa pena é seu batismo. E há os que dão sem sentir pena nem buscar alegria sem pensar na virtude: Dão como, no vale, o mirto espalha sua fragrância no espaço. Pelas mãos de tais pessoas, Deus fala; e através dos seus olhos, Ele sorri para o mundo. É belo dar quando solicitado; é mais belo, porém, dar sem ser solicitado, por haver apenas compreendido; e para os generosos, procurar quem recebe é uma alegria maior ainda que a de dar. Existe algo que possais guardar? Tudo que possuís será um dia dado. Dai agora, portanto, para que a época da dádiva seja vossa e não de vossos herdeiros. Dizeis muitas vezes: Eu daria, mas somente a quem merece. As árvores de vossos pomares não falam assim, nem os rebanhos de vossos pastos. Dão para continuar a viver, pois reter é perecer. Certamente, quem é digno de receber seus dias e suas noites é digno de receber de vós tudo o mais. E quem mereceu beber do oceano da vida, merece encher sua taça em vosso pequeno córrego. (Khalil Gibran, O Profeta)


ALEATÓRIAS

“E não vos esqueçais que a terra se rejubila de sentir os vossos pés desnudos e que os ventos anseiam por brincar com o vosso cabelo.” (Khalil Gibran, O Profeta)

“Não vos posso ensinar a rezar com palavras. Deus não escuta vossas palavras, exceto quando Ele próprio as pronuncia através de vossos lábios.” (Khalil Gibran, O Profeta)

“Afastai-me da sabedoria que não chora, da filosofia que não ri e da grandeza que não se inclina diante das crianças.” (Khalil Gibran, Curiosidades e Belezas, 1927, p. 16)

“Um só ramo em flor tem mais futuro que toda uma floresta seca; e numa só semente de trigo há mais vida que num montão de feno.” (Khalil Gibran, Curiosidades e Belezas, p. 60)

“O que não tem forma está sempre procurando uma forma, assim como as incontáveis nebulosas se transformariam de bom grado em sóis e luas.” (O Jardim do Profeta, p. 8)

“A Vida é mais velha que os seres vivos, a Beleza existia antes que o belo nascesse na Terra, e a Verdade era verdade antes de ser enunciada.” (O Jardim do Profeta, p. 14)

“O espaço que se estende entre ti e o teu vizinho com quem não te dás é sem dúvida maior do que o espaço que se entende entre ti e teu bem-amado que mora além das sete terras e dos sete mares.” (Khalil Gibran, O Jardim do Profeta, p. 31)


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