Por uma política da racionalidade

Desidério Murcho para O Estado da Arte.

Estudos recentes de psicologia cognitiva, popularizados sobretudo por Daniel Kahneman no livro Thinking, Fast and Slow (2011), parecem mostrar que os seres humanos têm como que uma alma dividida: dois sistemas cognitivos que não trabalham propriamente em harmonia, em parte porque um deles é chamado a fazer o que não é tarefa sua, evolutivamente falando. Os nomes nada sugestivos que é costume dar a esses dois sistemas cognitivos é apenas Sistema 1 e Sistema 2, sendo o primeiro responsável por computações incrivelmente complexas, mas realizadas sem consciência nem controle da nossa parte; quanto ao segundo, é o que nos permite fazer matemática e ciência, mas também conversar, e é objeto de controle voluntário do agente.

Reconhecer um rosto humano, ou a emoção expressa num rosto, ou saber caminhar e subir escadas, exige uma capacidade monstruosa de computação; contudo, fazemos isso sem qualquer esforço precisamente porque o fazemos com um sistema cognitivo que evoluiu para fazer precisamente isso. O preço a pagar é que o fazemos sem saber como, pelo que programar máquinas para fazer o mesmo é extremamente difícil e só muito recentemente estamos conseguindo algum sucesso nessa área. Em contraste, quando nos dispomos a usar o Sistema 2 para fazer uma coisa tão simples como uma multiplicação de 398 por 223, temos uma extrema dificuldade; só conseguimos fazê-lo voluntariamente, precisamos de ajuda extrassomática — papel e caneta — e temos de conseguir concentrar-nos e de fazer um esforço consciente. O mesmíssimo Sistema 2 é usado sem esforço para fazer as computações muitíssimo mais complexas que são exigidas para compreender o discurso humano — porque é de supor que foi precisamente para isso que esse sistema cognitivo evoluiu. Porque usar o Sistema 2 para fazer outras coisas que não conversa fiada exige um esforço consciente, os seres humanos tendem a não o ativar quando o Sistema 1 parece dar respostas apropriadas, ou quando assinala que não vale a pena o esforço porque não há respostas apropriadas.

Várias experiências científicas, narradas por Kahneman e outros autores, mostram a estupidez humana radical: problemas elementares de estatística, lógica ou seja do que for são armadilhas constantes em que quase todo mundo cai desde que sejam formuladas na linguagem do dia-a-dia. Um dos casos mais gritantes narrados por Kahneman diz respeito ao conhecido teste da Linda, que exige a aplicação dos conhecimentos mais elementares do cálculo de probabilidades; estudantes de doutorado precisamente na área de teoria da decisão erram sistematicamente no teste. É de prever que num contexto de exames escolares, eles não errariam — porque ativariam o Sistema 2, que exige esforço e controle. Mas se a pessoa está descontraidamente a fazer um teste para um psicólogo, usa precisamente os recursos epistêmicos da vida cotidiana — e cai que nem um pato.

A primeira lição importante aqui é que a fragilidade epistêmica humana tem aspectos que dizem respeito especificamente à nossa arquitetura cognitiva; não se trata apenas de limites epistêmicos gerais, que é de prever que sejam comuns a qualquer agente epistêmico, por mais desenvolvido que seja. A desgraçada da arquitetura cognitiva humana faz-nos evitar o esforço intelectual e adorar as conversas frívolas, e faz-nos imaginar que temos intuições certeiras que nos poupam o trabalho de estudar a realidade cuidadosamente. Quando se vê a maneira como as decisões políticas são tomadas, com base exclusivamente numa tagarelice frívola que consiste em ver quem marca mais pontos e mais ganha vantagens, compreende-se que a suposta dificuldade da pós-verdade é algo muitíssimo mais profundo e antigo do que os superficiais meios de comunicação — que são parte do problema, pois cultivam precisamente a falta de cuidado epistêmico — querem fazer crer.

A segunda lição é que tanto os aspectos gerais como os específicos da nossa fragilidade epistêmica apontam para o que certeiramente o filósofo Joseph Heath afirma que mais falta nos faz, no seu livro Enlightenment 2.0 (2014): uma “política da racionalidade”. Já seria suficientemente mau não ter uma política da racionalidade, mas as coisas são ainda piores do que ele pensa: temo-la, num certo sentido, mas de pernas para o ar. Uma política adequada da racionalidade baseia-se na admissão da nossa fragilidade epistêmica e na importância de cultivar um ambiente epistêmico que promova o exercício cuidadoso da racionalidade. Da mesma maneira que não se consegue multiplicar 9355 por 2976 sem papel e lápis, nem se toda a gente à nossa volta estiver a berrar palpites sobre qual é o resultado, também não se consegue pensar cuidadosamente sobre a moralidade da eutanásia quando as pessoas vão para a rua gritar palavras de ordem ou quando se alimenta debates televisivos com quem nunca estudou o tema, mas tem opiniões cavalares muito firmes, exclusivamente baseadas no preconceito — ou, pior, naquela malícia ideológica que faz tanta gente defender ou atacar uma ideia não devido à ideia em si, mas devido à vitória que pretende obter para a sua tribo ideológica.

Uma política da racionalidade adequada tem por finalidade instituir as regras e instituições que promovam um ambiente epistêmico que permita o uso cuidadoso da racionalidade humana; o que temos é o oposto disso: quase todos os agentes e instituições atuais usam todos os truques que conseguem imaginar para explorar as fraquezas cognitivas humanas. Não se trata de não ter uma política da racionalidade, mas de ter uma terrível: a lei da selva. Publicidade enganosa, notícias enganadoras, palavreado sem fim baseado em nenhum estudo — tudo conta e tudo é usado para explorar as fraquezas cognitivas humanas, fazendo os seres humanos tomar decisões e ter opiniões que os prejudicam gravemente e tornam muitíssimo mais difícil o seu próprio florescimento. Que empresas privadas deitem mão de todos os truques é chocante, mas que os estados, governos e instituições públicas façam sistematicamente o mesmo está para lá de chocante; é um crime contra a humanidade.

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