A arte esquecida de perguntar

Coluna de Marcelo Cabral para a revista Unus Mundus.

Ano passado tive uma daquelas raras oportunidades que às vezes temos a graça de topar. Estava na universidade de Birmingham, na Inglaterra, para a apresentação de um trabalho, quando um caro amigo que ali também estava propôs a mim e a outro amigo: “Hoje à noite será a última aula de Alister McGrath como professor de Ciência e Religião em Oxford. Vamos lá assistir?” A logística não era trivial, mas, ao fim da tarde, corremos (na verdade, andamos rápido, porque na Inglaterra, descobri, correr é pecado mortal) até a estação de trem e… fomos para Oxford!

Foi um curto e inesquecível “bate-e-volta”. Entre as várias memórias guardadas, lembro-me que, no momento das perguntas, uma estudante perguntou à McGrath sobre sentimentos. Tanto a ciência como a religião envolvem sentimentos ou emoções: naquela, o arrebatamento por uma nova descoberta, ou o frio na barriga ao realizar um experimento decisivo, ou mesmo a frustração ao sentir-se em um beco-sem-saída em uma pesquisa; nesta, o arrebatamento de uma experiência mística e talvez a frustração por orar e não obter respostas. Claro, muitos outros sentimentos são evocados tanto na vida científica como na religiosa. Contudo, ela perguntou: “Os sentimentos científicos são fundamentalmente distintos dos religiosos? Ou são os mesmos sentimentos, mas direcionados a objetos e fenômenos diferentes? Se forem distintos, o que fundamenta tal distinção?”

Admito que fiquei espantado com a pergunta. Quão profunda! Quão inteligente! Quão instigante! Após refletir sobre esse episódio, ainda outra coisa me chamou a atenção. Independentemente da resposta que McGrath tenha dado – e, garanto, foi uma curta e elusiva resposta – a própria pergunta foi uma fonte de conhecimento. Eu aprendi com aquela pergunta. Ela fez conexões que eu não enxergava, e apontou possíveis níveis de distinção que eu não havia apreciado até então. Além disso, me ensinou algo sobre a própria forma de uma boa questão: virtudes como clareza, foco em um objeto definido, perscrutar novos possíveis caminhos cognitivos. “Quando eu crescer, quero aprender a fazer perguntas como ela”, pensei.

Perguntar é uma das atividades mais ordinárias da vida humana. Quem tem crianças por perto chega até cansar dos “porquês” sem fim, e boa parte de nossa vida mental envolve perguntas que fazemos a nós mesmos. Sócrates estabeleceu como ponto de partida da filosofia a questão “o que é isto?” – o “isto” sendo os vários temas que ele e seus companheiros investigavam. Assim como as crianças, Sócrates às vezes cansava aqueles à sua volta com suas perguntas incessantes. Não é à toa que Chico Buarque cantou: “Te perdoo… Por fazeres mil perguntas”.

Lani Watson, filósofa de Oxford, ao fazer um tipo de genealogia funcional da prática de perguntar, defende que essa é uma atividade necessária para o funcionamento das comunidades humanas. Comunidades precisam promover o intercâmbio de conhecimento e informações, e as perguntas são um dos melhores mecanismos para efetivar isso: quando eu não sei alguma coisa ou preciso de uma certa informação, procuro alguém de minha comunidade que, penso eu, saiba a resposta, e pergunto: Que horas são? Existem extraterrestres? Há alguma distinção fundamental entre sentimentos religiosos e científicos?

É para lá de óbvio que nem todas as perguntas cumprem a mesma função. Existem perguntas simples e aquelas complexas, perguntas diretas e outras mais abstratas, perguntas pontuais e umas mais abertas. Perguntamos sobre o tempo e sobre Deus, sobre opinião política e preferência futebolística, sobre tudo que cabe entre os céus e a terra e, às vezes, até sobre o que não cabe. Mas, contra o que afirma alguma sabedoria popular, nem toda pergunta é uma boa pergunta. A competência de perguntar bem é a virtude da “inquisitividade”, que Lani Watson define assim: “A pessoa virtuosamente inquisitiva é caracteristicamente motivada e capaz de realizar boas questões” (“Curiosity and Inquisitiveness” in The Routledge Handbook of Virtue Epistemology, 2019, p. 161). Há nessa virtude dois componentes.

O primeiro é a habilidade de fazer boas perguntas. Assim como aquela estudante de Oxford, tal habilidade envolve clareza e capacidade de explicitar exatamente o que se quer saber (e não dizer meramente “não entendi bulhufas”, embora, às vezes, seja exatamente assim que nos sentimos após uma aula confusa). Envolve também saber a hora certa de perguntar (com cuidado para não interromper o fluxo argumentativo do professor, por exemplo) e o tom apropriado. Uma boa pergunta pode abrir novos caminhos de investigação, apontar conexões entre o tema presente e outros autores ou conceitos, apresentar furos de argumentação, falhas de apresentação e temas que precisam de mais desenvolvimento. A resposta nem sempre entregará o que dela se espera, mas uma boa pergunta promove uma ocasião ímpar para que toda a comunidade melhore sua posição epistêmica.

O segundo componente, tão essencial quanto o primeiro, é uma certa motivação. Isto é, para que alguém possua a virtude de ser inquisitivo, é necessário que esteja adequadamente motivado. Alguns perguntam para humilhar, outros para se envaidecer, e ainda outros apenas para ganhar pontos com o professor. Mas o questionador virtuoso pergunta porque quer saber, quer aprender o que não sabe, quer entender o que está confuso, quer a verdade que ainda lhe escapa. Assim como Sócrates, ele ousa perguntar porque não pode se omitir da verdade.

Acrescento ainda um outro elemento à virtude de ser inquisitivo. Em uma era na qual nossa capacidade atencional tem sido dilacerada pelas mídias sociais, por novos padrões comunicativos e afins, perguntar é uma prática que sempre envolve disciplinar o nosso foco. Só é capaz de perguntar bem quem presta atenção, seja na aula, na palestra, nos seus entornos ou suas ideias. E a disciplina da atenção precisará continuar ativa enquanto ouve a resposta, pois, caso contrário, a pergunta será efêmera. Concordo com a filósofa da Universidade de Chicago Agnes Callard, que propõe a todos nós que, às vezes, pratiquemos a antiga e quase esquecida atividade de conversar um longo tempo sobre uma única pergunta, e sobre perguntas que dela derivam, em vez de ficar pipocando por mil assuntos diversos.

Ao longo de toda sua carreira, Alister McGrath nunca se cansou de enfatizar o que ele acredita ser o fundamento do diálogo entre ciência e religião: as “grandes questões”. É outra disciplina que não podemos perder de vista. Enquanto a academia contemporânea, talvez com seus justos motivos, foque em pequenas e estreitas perguntas, precisamos continuar buscando, ponderando e postulando as grandes questões da existência. Por que precisamos?


“A qualidade de suas perguntas determina a qualidade de suas respostas.” – Maxwell

“Na dúvida, faça uma pergunta. Na certeza, faça duas.” – Edgar Allan Poe


Martha Gabriel no FLOW sobre saber perguntar

Martha Gabriel é escritora, palestrante, engenheira e futurista. Neste trecho de um episódio do Flow Podcast, ela fala sobre a importância de saber perguntar, isto é, saber formular bem as perguntas e os prompts em contextos de busca na internet e chatbots de inteligência artificial, como o ChatGPT. Num mundo cada vez mais tecnológico e conectado, ela argumenta que, mais do que saber responder, é fundamental saber perguntar e avaliar criticamente as respostas obtidas.


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Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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