Uma voz dissidente na pandemia

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A crise do Coronavírus, por Yuval Harari

Na média, intelectuais e acadêmicos tendem a ser menos céticos quanto aos perigos da pandemia de COVID-19 e menos críticos às medidas de prevenção do contágio. Tendem portanto a apoiar mais os decretos de isolamento social e a obedecer mais o imperativo sanitário: “fique em casa”. É claro que eles também são mais abastados, têm poupanças e investimentos, a geladeira e a dispensa mais abastecidas e moram em casas maiores e mais confortáveis que a média da população. É claro também que eles possuem cargos públicos, geralmente em Universidades, o que lhes permite trabalhar em home office – ou simplesmente não trabalhar – mantendo a renda intacta. Tudo isso facilita muito o discurso do “fique em casa”. Mas por ora vamos deixar esse fator de lado e ficar somente com este: eles geralmente são mais engajados e propensos a apoiar e obedecer o imperativo sanitário em grande parte porque acreditam mais na ciência. E o que diz a ciência? Que ficar em casa, fechar o comércio, evitar aglomerações e impor medidas radicais de isolamento social reduzem o contágio. E embora o povão, cada vez mais distante do debate acadêmico, desconfie disso, sabemos que é um fato.

Alguns intelectuais e acadêmicos, porém, soam como vozes dissidentes. É o caso do renomado filósofo italiano Giorgio Agamben. Desde o início dessa “onda de pânico que paralisou o mundo”, Agamben tem criticado duramente os abusos de poder, o aumento da vigilância e a legitimação do estado de exceção nas medidas de isolamento e lockdown, com restrição e cerceamento das liberdades individuais, inclusive de ir e vir. Mas não pense em Agamben como um negacionista desinformado: ele está inteirado das mais recentes publicações científicas atualizando o andamento das pesquisas e as estatísticas da pandemia; e ele não duvida dessas publicações, das estatísticas, dos resultados e do método científico. Mesmo assim, é um notável crítico das medidas e decretos governamentais de isolamento e lockdown, especialmente na Itália, onde vive. Por quê? Não se trata de ignorar a ciência, se trata de não considerar apenas a ciência, de ter uma visão de mundo mais ampla, de considerar todas as variáveis.

Em um artigo de opinião intitulado L’invenzione di un’epidemia, o filósofo de 78 anos diz o seguinte: “Diante de medidas de emergência frenéticas, irracionais e completamente desmotivadas para uma suposta pandemia do novo coronavírus, é necessário começar pelas declarações do CNR (Conselho Nacional de Pesquisa da Itália), segundo as quais ‘a infecção, a partir de dados epidemiológicos disponíveis hoje em dezenas de milhares de casos, causa sintomas leves e moderados (um tipo de gripe) em 80-90% dos casos. Em 10-15%, a pneumonia pode se desenvolver, cujo curso é benigno na maioria absoluta. Estima-se que apenas 4% dos pacientes necessitem de internação na UTI’. Se essa é a situação real, por que a mídia e as autoridades se esforçam para espalhar um clima de pânico, causando um estado real de exceção, com sérias limitações de mobilidade e uma suspensão do funcionamento normal das condições de vida e trabalho?”

Agamben argumenta que essas medidas desproporcionais se devem “à tendência crescente de usar o estado de exceção como um paradigma normal de governo”: “Parece que, uma vez esgotado o terrorismo como causa de medidas excepcionais, a invenção de uma pandemia poderia oferecer o pretexto ideal para estendê-los além de todos os limites. Outro fator, não menos perturbador, é o estado de medo que nos últimos anos se espalhou claramente na consciência dos indivíduos e que se traduz em uma necessidade real de estados de pânico coletivo, aos quais a pandemia ainda oferece o pretexto ideal. Assim, em um perverso círculo vicioso, a limitação da liberdade imposta pelos governos é aceita em nome de um desejo de segurança que foi solicitado pelos próprios governos que agora estão intervindo para satisfazê-lo.”

O filósofo denuncia que, sob o pretexto da pandemia, as autoridades passaram a tratar cada indivíduo como um potencial transmissor do vírus, assim como a chamada “guerra ao terror” passou a tratar cada cidadão como um potencial terrorista no início do século. Se diz chocado com as cenas dantescas de pessoas sendo presas nas ruas, praças, praias, comércios sendo fechados, vias públicas sendo interditadas e pessoas sendo agredidas pela polícia pelo simples fato de estarem exercendo seu direito fundamental de ir e vir. “Se o governo pode suspender seus direitos a qualquer momento por considerar que algo é uma crise, então você não tem direitos, tem permissões”, diz.

Agamben critica o fato de que as pessoas parecem dispostas a sacrificar tudo – ou quase tudo – para não ficarem doentes. “Nossos mortos não têm direito a cerimônias fúnebres e não sabemos o que pode ter acontecido com os cadáveres de pessoas queridas. (…) Qual o significado das relações humanas numa sociedade que se habituou a viver dessa maneira por um período que não se sabe quanto tempo irá durar? Que sociedade é essa que só reconhece a sobrevivência como valor?”, questiona. Lamenta ainda o fato de que “as pessoas parecem não se dar conta de que suas vidas foram reduzidas a uma condição meramente biológica, que perderam qualquer dimensão social e política, e até mesmo humana e afetiva”, e de que “a sociedade sacrificou a sua liberdade em nome de supostas ‘razões de segurança’ e, por isso mesmo, está condenada a viver num estado de medo e insegurança perenes”. Em suma, defende que um governo ou uma autoridade que queira enfrentar bem a pandemia com políticas públicas acertadas e sensatas não pode olhar apenas para os artigos médicos e epidemiológicos, ela precisa olhar também para a vida afetiva e financeira das pessoas.


Nota que talvez vire post no futuro: O melhor legado dessa pandemia foi fazer as pessoas, empresas, instituições e governos perceberem que já temos tecnologia e meios viáveis de fazer muita coisa remotamente, que é obsoleto e arcaico exigir a presença física de pessoas ou de informação (documentos) para resolver o que pode facilmente ser resolvido à distância. Nesse sentido – e somente nesse –, é positivo e desejável que a noção de “distanciamento social” persista mesmo após o fim da pandemia e adquira novo significado: dessa vez não sobre saúde ou segurança, mas sobre eficiência, sobre economia de tempo e recursos, sobre um mundo com menos burocracia.

Um comentário em “Uma voz dissidente na pandemia

  1. Uma conta simples: Se a taxa de hospitalização por COVID-19 está em 4% e se tomarmos metade da população brasileira (excluindo uma boa parte de crianças e jovens), teremos um potencial de uso do sistema hospitalar em 4 milhões de pessoas. Nossa capacidade instalada de leitos de uti é de menos de 100 mil unidades no país. Com isso, me parece que fica complicado esse discurso do Agamben, sabe?

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