Reflita comigo sobre a fonética das letras. Consoantes soam como sólidas, concretas, palpáveis, tangíveis, quase corpóreas e materiais. Vogais soam como fluidas, maleáveis, abstratas, incorpóreas e imateriais. Você consegue “tocar” com os lábios no bê, no pê ou no eme, assim como consegue “tocar” com a língua no éle, no dê ou no tê. Mas você não consegue “tocar” uma vogal, assim como não consegue segurar com as mãos o vento ou o fluxo de um rio.
Veja, por exemplo, a riqueza simbólica da palavra αει (translitera-se “aei” e traduz-se como “sempre”) no grego antigo. Ela não tem nenhuma consoante delimitando início e fim, começo e término, limite, ruptura, quebra de continuidade. Ela flui dos lábios sem obstáculos. Não se sabe ao certo em que momento a pronúncia passa do alpha (α) ao épsilon (ε) e do épsilon ao iota (ι), já que marcar essa separação seria justamente o papel das consoantes. Talvez por isso ela remeta com tanta literalidade e beleza ao que é eterno e atemporal.
Além do mais, a fonética das consoantes é breve, fugaz e efêmera. Elas não podem se demorar além da conta na pronúncia. Com exceção do “R” de Galvão Bueno ao gritar “Ronaldinho” e casos similares, geralmente os sons capazes de se demorar e se estender indefinidamente na fala são os das vogais. Vide por exemplo a vaia, o grito de “gol”, o uivo do lobo ou o refrão de “Galopeira” (Chitãozinho e Xororó, 1970).
Consoantes são também facilmente distinguíveis, ao passo que vogais possuem mais nuances, sutilezas e são geralmente mais difíceis de distinguir. Não importa o idioma, quer se escreva com a letra éfe, com pê-agá ou com o phi grego, essa consoante tem a mesma pronúncia (como em filosofia, philosophy, Φιλοσοφία). Já o ípsilon, úpsilon ou ýpsilon tem uma maneira peculiar de se escrever e pronunciar em cada língua. Em alemão é o “ü”, com trema; em francês tem que fazer biquinho (-yeux); em grego antigo há quem translitere como “y” ou como “u” — e sequer se sabe ao certo o jeito mais correto de pronunciar, se devemos puxar mais para o “i” ou para o “u”. E mesmo as vogais mais simples variam muito a sua fonética pela mera presença ou não de um mísero acento (ó, ô, õ).
O tetragrama hebraico
Feitas essas observações, vejamos o exemplo do tetragrama hebraico: יהוה
(ou 𐤉𐤄𐤅𐤄 na forma arcaica). Em grego antigo, “tetragrama” significa literalmente “quatro letras”. Em hebraico antigo, era a forma escrita do nome de Deus nos textos sagrados — especialmente na Torá, mas também em toda a Bíblia hebraica, que os cristãos conhecem por Velho Testamento, no qual o tetragrama ocorre 5.410 vezes. Obviamente, esse nome era escrito (da direita para a esquerda) com uma sequência de quatro letras hebraicas (na verdade três, porque uma se repete): yod, he, wav, he. A transliteração mais usual para o alfabeto latino é: YHWH.
Como já deu para notar, as quatro letras do tetragrama são todas consoantes, como é a regra na escrita hebraica. Para os falantes nativos do hebraico antigo, que já conheciam a pronúncia usual, ler o tetragrama era algo trivial. Mas para nós, sem o auxílio de letras ou sinais vocálicos, a pronúncia correta do nome é incerta. Hoje, a maioria dos estudiosos especula que a pronúncia original do tetragrama era “Yahweh” (lê-se “Iarrue”). Versões mais antigas da Bíblia em língua portuguesa usaram o termo “Jeová” ou “Javé” para traduzir o tetragrama. Já as traduções mais recentes geralmente usam o termo “SENHOR”, escrito assim mesmo, em letras maiúsculas, seguindo uma tradição que vem desde a Septuaginta. Segundo essa tradição, pronunciar errado o tetragrama seria uma quebra do mandamento de não tomar o nome de Deus em vão. Por esse motivo, o tetragrama passou a ser traduzido pelo hebraico “Adonai”, pelo grego “Kyrios” ou pelo latim “Dominus”, que significam a mesma coisa em português: “Senhor”.
Veja também: Passagens imorais da Bíblia
Mas o que o tetragrama hebraico tem a ver com aquele papo sobre vogais e consoantes com o qual começamos? É que me ocorreu que as quatro consoantes do tetragrama são justamente as consoantes menos consoantes que existem, ou seja, são as consoantes que mais se parecem com vogais. De acordo com a norma culta da língua, tanto em hebraico antigo como nas línguas modernas, o yod ou ípsilon é oficialmente uma consoante, muito embora, na prática, soe muito mais como uma vogal (semelhante ao “i”). De igual modo o wav ou dáblio oficialmente é uma consoante, muito embora tenha em vários contextos som de “u”. Na verdade, “dáblio” significa justamente “double u”, ou seja, “duplo u”, algo que está claro já na sua forma tipográfica. Por fim, o he ou agá é, em muitos contextos, uma consoante apenas na teoria, uma vez que, na prática, sequer costuma ser pronunciada.
A conclusão que tiramos disso é que o nome próprio de Deus (Yahweh) devia ser pronunciado — suponho — da maneira mais vocálica possível: algo como “IAUE”, fluindo das cordas vocais sem tocar os lábios ou a língua, de maneira contínua, sem interrupções consonantais, de modo que a simples pronuncia do nome já seria capaz de comunicar alguns de seus atributos. Tal como a fonética das vogais indicam aos ouvidos mais atentos, Deus é sutil, incorpóreo e imaterial, bem como eterno e atemporal. Quem tem ouvidos ouça. Espero não ter usado o santo nome de Deus em vão com esta breve reflexão.
“O vento sopra onde quer, você consegue ouvi-lo, mas não sabe de onde vem nem para onde vai.” (Jesus de Nazaré, Evangelho segundo João 3:8)
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Algumas curiosidades
Curiosidade 1: 4Q120 é um manuscrito fragmentado de papiro, do livro de Levítico na versão grega da Septuaginta (LXX). É do primeiro século a.C. e foi encontrado na Caverna nº 4 de Qumran, no atual território da Cisjordânia. Em dois dos fragmentos, fr. 6 (Lv 3:12) e fr. 20 (Lv 4:27), o tetragrama hebraico YHWH é traduzido pelo nome ΙΑΩ (IAO). É curiosa a presença das letras alfa e ômega juntas (primeira e última do alfabeto grego) precedidas por um iota (menor letra do alfabeto grego).

Curiosidade 2: Segundo a tradição hebraica, a primeira revelação do tetragrama como nome próprio de Deus aparece em Êxodo 3:13-15 e significa “EU SOU”:
Moisés perguntou: “Quando eu chegar diante dos israelitas e lhes disser: ‘O Deus dos seus antepassados me enviou a vocês’, e eles me perguntarem: ‘Qual é o nome dele?’, o que lhes direi?”. Deus disse a Moisés: “Eu sou o que sou. É isto que você dirá aos israelitas: ‘Eu sou me enviou a vocês. (…) YHWH, o Deus dos seus antepassados, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó, enviou‑me a vocês. Este é o meu nome para sempre, nome pelo qual serei lembrado de geração a geração’.”
Curiosidade 3: O nome “Jesus”, que no grego do Novo Testamento é Ἰησοῦς (Iēsous), deriva do hebraico Yeshua e é um nome teofórico (um nome que contém ou deriva do nome de Deus ou de alguma divindade), que contém em sua raiz o tetragrama. Significa “Yahweh salvador”, “Yahweh salva” ou “salvação de Yahweh“.
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