Estudo científico recente revela que viajar para o espaço altera a consciência humana ao suprimir a gravidade. Sem este estímulo, a mente sofre uma profunda transformação neuronal. É o que mostra a matéria a seguir, de Rubén Badillo para a revista National Geographic de Portugal. Veja também: Pálido Ponto Azul.

O “overview effect” ou “efeito perspectiva” é uma profunda mudança cognitiva que os astronautas experimentam ao observar a Terra a partir do espaço. Ao verem o nosso planeta a flutuar na imensidão, compreendem a fragilidade da vida e a ausência de fronteiras, o que lhes costuma proporcionar paz e uma consciência ambiental avassaladoras. Embora já fosse conhecido anteriormente, o termo foi cunhado oficialmente pelo escritor Frank White em 1987, com a publicação do seu livro The Overview Effect – Space Exploration and Human Evolution.
Até agora, este efeito experimentado pelos astronautas era explicado somente através da psicologia, mas uma pesquisa científica recente revela que isso não é tudo. A análise, divulgada na revista acadêmica Frontiers in Psychology, defende que o nosso cérebro utiliza inconscientemente a força gravitacional da Terra como um suporte biológico essencial para estruturar a consciência. Sem este estímulo constante, o cérebro se vê obrigado a realizar uma profunda reconfiguração da realidade, privando o indivíduo das suas referências perceptivas mais ancestrais.
Os astronautas que experimentam a ausência de gravidade costumam descrever uma intensa sensação de desconexão e uma expansão invulgar da mente. Historicamente, estes testemunhos tinham sido interpretados como reflexões poéticas ou místicas, como aconteceu, por exemplo, com o tripulante da missão Apollo 14, Edgar Mitchell, que afirmou que contemplar o planeta azul a partir da Lua reduzia a política internacional a uma questão insignificante. No entanto, os dados atuais mostram que este fenômeno responde a um processo neurocognitivo real provocado pela desconexão do ambiente terrestre.
Os sensores do sistema vestibular, localizados no ouvido interno, enviam continuamente informação ao cérebro para indicar onde se encontra o solo num ambiente de 1G. No âmbito da neurociência, a atração terrestre funciona como uma expectativa interna automática e muito sólida que confere estabilidade à nossa localização corporal e à percepção do ambiente. A relevância deste mecanismo preditivo é tão elevada que nós, seres humanos, mal nos apercebemos do seu funcionamento constante no cotidiano até que este desapareça por completo.
Efeitos da microgravidade
A supressão da âncora gravitacional introduz a mente humana num território biológico totalmente desconhecido, onde surgem importantes desequilíbrios dinâmicos. As primeiras missões ao cosmo já registaram quadros agudos de desorientação espacial e vertigens cinéticas, que representam os esforços iniciais do cérebro para se adaptar ao ambiente. A nova análise aprofunda o problema e compila evidências de intensas mudanças emocionais e existenciais, caracterizadas pela dissolução dos limites habituais do “eu”.
Este cenário de confusão perceptiva funciona como uma via de acesso ao referido “overview effect” ou efeito de perspectiva. Quem contempla a fragilidade do planeta a partir da órbita experimenta uma reestruturação imediata dos seus valores pessoais, um aumento da consciência ecológica e um forte sentimento de ligação global. A medicina atual corrobora essas descrições com estudos de neuroimagem que confirmam alterações físicas objetivas após missões prolongadas. Os exames médicos revelam que os fluidos internos do organismo sofrem uma redistribuição para a zona craniana, os ventrículos cerebrais dilatam-se e a massa cinzenta sofre uma remodelação estrutural em várias regiões. A nível funcional, as redes neuronais reorganizam-se para que as áreas motoras se adaptem à ausência de gravidade.
Semelhanças com psicodélicos
A pegada neuronal deixada pela ausência de gravidade apresenta semelhanças muito surpreendentes com os efeitos que substâncias como o LSD produzem no organismo. Ambos os estados mentais conseguem relaxar as restrições hierárquicas do pensamento, permitindo que as diferentes áreas sensoriais se interliguem de forma muito mais livre. “A microgravidade constitui uma perturbação não farmacológica que relaxa temporariamente os princípios hierárquicos da mente”, explicam os autores do artigo científico.
Essa transformação nos princípios organizacionais do sistema nervoso faz da exploração espacial um laboratório ideal para estudar os mecanismos da consciência. Os pesquisadores propõem utilizar essas variações gravitacionais através de simulações de realidade virtual na Terra para desenvolver terapias médicas destinadas a corrigir o pensamento rígido em pessoas com depressão. A descoberta reveste-se, além disso, de grande relevância face ao auge do turismo espacial comercial, cujos utilizadores civis necessitarão de apoio psicológico.
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