Sobre a notável prevalência de judeus no prêmio Nobel

Reflexão de Adonai Sant’Anna no blog Matemática e Sociedade.

Cerca de 32% da população mundial é de cristãos, de acordo com o Status of Global Christianity da Gordon-Conwell Theological Seminary. Cerca de 65% dos Prêmios Nobel concedidos desde 1901 foram para pessoas que se identicam como cristãos, fossem católicos, protestantes ou ortodoxos. Cerca de 0,2% da população mundial é de judeus. Assumimos como judeu aquele que abraça a cultura e/ou a religião judaica, seja por hereditariedade, ancestralidade ou conversão. Cerca de 22% dos Prêmios Nobel concedidos desde 1901 foram para judeus ou indivíduos em que pelo menos um dos pais era judeu. Ou seja, enquanto cristãos ocupam o dobro de ganhadores do Nobel relativamente à sua proporção mundial, judeus ocupam 110 vezes essa proporção. Por fim, apesar de representarem um quarto (25%) da população mundial, pouco mais de uma dúzia de muçulmanos foram agraciados com o Nobel: 8 da Paz, 4 em ciências e 2 em literatura.

Muitos cristãos renomados se destacaram com o Nobel da Paz. Judeus, por outro lado, se destacaram mais em áreas científicas, como física, química e economia. Além disso, quase 30% dos ganhadores da Medalha Fields (considerada o “Nobel” da matemática) são judeus ou têm ascendência judaica. Judeus correspondem também a 30% dos ganhadores do Prêmio Abel, 40% dos ganhadores do Prêmio Wolf, e 50% dos ganhadores do Nevanlinna, hoje chamado de Medalha IMU Abacus. Ou seja, é indiscutivelmente marcante a presença de judeus em atividades científicas de grande destaque. Essas informações levantam uma questão inevitável: Por quê? O que há de tão especial entre os judeus?

A religião em si é um fator determinante? Afinal, estima-se que 15% da população mundial é de ateus, agnósticos ou simplesmente indivíduos não filiados a qualquer religião organizada. No entanto, apenas 10% dos ganhadores do Nobel identificaram-se como uma dessas categorias. Logo, cristãos e judeus estão melhor representados entre os premiados, se compararmos com pessoas sem qualquer religiosidade. Mas judeus… esses sim parecem “o povo escolhido” para o conhecimento. Há uma expressiva literatura sobre o tema, principalmente entre historiadores e sociólogos. Os principais motivos apontados para o enorme destaque de judeus em áreas científicas são os seguintes:

I) Tradição milenar de valorização do intelecto. Todos os homens judeus sempre foram obrigados a ler e estudar textos sagrados como a Torá e o Talmude. Historicamente as mulheres eram mais focadas em obrigações domésticas, mas os homens sempre foram direcionados ao engajamento em atividades intelectuais.

II)  Tradição milenar de debate e análise crítica. O estudo do Talmude é baseado em questionamentos, nunca aceitando respostas prontas.

III) Perseguição religiosa. Judeus sempre enfrentaram perseguições que frequentemente os impediam de possuir terras e bens materiais. Isso forçou muitos deles a preferirem atividades ligadas ao conhecimento, como medicina, direito, finanças e ciências. Tais atividades podem, em princípio, ser exercidas em qualquer parte do mundo. Ou seja, judeus investiram em patrimônio intelectual.

IV) Resiliência. Judeus nunca se isolaram, apesar das perseguições. Sempre buscaram grandes centros urbanos, os quais facilitam o acesso a universidades e bibliotecas. Na vida acadêmica europeia e dos Estados Unidos eles encontraram formas de ascenção  independente de classe social ou religião.

Um sacerdote católico é chamado de “padre”, termo cunhado do latim pater, que significa, literalmente, “pai”. Um sacerdote protestante é chamado de “pastor”, o que significa, bem, “pastor” mesmo, aquele que cuida do rebanho. Um sacerdote muçulmano é chamado de “imã” que, em árabe, significa “condutor” ou “guia”. Mas um sacerdote judeu é um “rabino”. O que é um rabino? Um “professor”, nada além disso. Um rabino não guia, não adota filhos ou ovelhas. Um rabino ensina. Mais importante, um rabino ensina a questionar. Um rabino provoca. A provocação é, entre outras coisas, o questionamento de caminhos, de ideias, de autoridades.


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Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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