A partir de estudos com primatas no início da década de 1990, o antropólogo Robin Dunbar, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, estabeleceu uma relação entre o tamanho do neocórtex, a área do cérebro responsável pelo pensamento consciente, e o número máximo de indivíduos com quem é viável manter relações sociais. Evidências estatísticas, como o número de habitantes de comunidades primitivas e a quantidade de soldados em uma unidade do exército, serviram de base para que o britânico calculasse que é possível interagir de maneira mais profunda com, no máximo, 150 pessoas. De acordo com as últimas pesquisas do antropólogo, esse “teto social” evolutivo imposto pelo cérebro continua o mesmo apesar das mudanças de comportamento causadas pelas redes sociais. “Pedimos aos usuários para enumerar quantas pessoas da lista de contato eles viram ao menos uma vez no ano e observamos que as redes não conseguem expandir o número de relações pessoais”, diz Dunbar. Leia a seguir um artigo do biólogo Átila Iamarino sobre esse assunto, publicado originalmente no blog Papo de Homem em 2010:
O número de Dunbar e seus contatos no Facebook
Uma das questões mais intrigantes da história humana é o tamanho de nosso cérebro. Claro, não é só o tamanho que importa, mas o que ele é capaz de fazer. E a área que mais cresceu em nosso cérebro durante a evolução dos primatas foi o neocórtex, região responsável pelos pensamentos mais complexos como interação com outros e teoria da mente. Dentre as várias hipóteses do motivo pelo qual ganhamos tanta capacidade mental está a proposta de que nossa vida social foi importante para isso. A ideia é reforçada pelo fato de que outras espécies animais, como a hiena, também têm um cérebro maior quando convivem em grupos sociais grandes. E foi o que o primatologista inglês Robin Dunbar estudou: o tamanho do cérebro de primatas em relação ao grupo que eles formam.
Quanto maior o tamanho do grupo, maior o tamanho do cérebro dos indivíduos que nele convivem. Chimpanzés e babuínos, por exemplo, vivem em grupos de até 60 animais, o maior entre primatas não humanos, e também têm os maiores cérebros. Projetando o tamanho de grupo deles para o nosso volume de cérebro, chegamos ao número de Dunbar, algo entre 100 e 230 indivíduos, mais provavelmente 150.
O número de Dunbar significa que nós interagimos mais intimamente com cerca de 150 pessoas ao longo de nossa vida. Isso não quer dizer que você não possa conhecer mais gente, mas sim que você não vai ser próximo de todos eles. Mesmo que tenha uma lista de 2 mil contatos, dificilmente você vai conversar com mais de 50 regularmente. Este número de 150 pessoas é frequente em agrupamentos. O número de pessoas em grupos de caçadores da Nova Guiné costuma ser esse, bem como o de soldados na maioria das companhias militares. Muitas empresas pautam o tamanho de divisões nesta medida. E tão ou mais importante do que o número em si é uma consequência que nos acompanha até hoje. A fala.
O que mantém os primatas unidos é o comportamento de catar e alisar os pelos uns dos outros. Familiares, parceiros, companheiros de aliança, todos se alisam e se catam. Mas isso consome muito tempo. Um chimpanzé passa em média 20 a 25% de seu dia alisando outros, e se nós fôssemos manter contato desta forma, gastaríamos quase metade do nosso período acordado assim, deixando de caçar e fazer outras coisas. Em algum momento durante nossa evolução, enquanto o cérebro foi ficando maior — bem como a capacidade de manter relação com mais indivíduos —, sofremos uma pressão crescente para nos comunicarmos mais por grunhidos e sinais do que catando pelos. A consequência foi a evolução da fala, por meio da qual podemos manter um contato constante com mais gente ao mesmo tempo. De fato, uma pessoa passa em média 20% do seu dia conversando e entre 60 e 70% deste tempo falando de outras pessoas. Puro contato de grupo.
Um grupo maior abriu novas possibilidades. Com mais pessoas convivendo juntas, e agora falando, conseguimos desenvolver uma cultura. Alguns se especializam em certas atividades, outros podem discutir e planejar grandes ações, e, o mais importante, agora podem transmitir esta capacidade adiante. Cada nova etapa em nossa evolução trouxe uma propriedade emergente. O desenvolvimento da cultura trouxe novas ferramentas, que permitiam uma caça muito mais eficiente, que talvez tenha extinto vários animais nos últimos 10 mil anos. A agricultura permitiu uma população maior e mais densa do que qualquer outro animal de grande porte. E a propriedade emergente mais inovadora e inédita, a escrita, permitiu uma acumulação absurda de cultura e acelerou ainda mais o processo.
Agora, aceleramos o tempo até os últimos 4 ou 5 anos. Nossa cultura agora nos permite criar enormes redes sociais por meio da internet. Ao mesmo tempo, cada previsão feita sobre qual delas vai dar certo ou errado, ou para que será usada, falha. O Twitter foi criado para ser uma maneira de trocar SMS entre várias pessoas ao mesmo tempo, nenhum de seus criadores foi capaz de prever o que ele se tornaria. E por quê? Novamente, propriedades emergentes. Com o grande grupo de contatos que somos capazes de manter, e o aumento do acesso à internet, cada vez mais pessoas entram nestas redes e criam o espaço para que propriedades emergentes apareçam. Novas funções, serviços associados, integração e muito mais que ninguém imagina. Justamente por que não se pode saber, novas funções aparecerão apenas quando o número de pessoas permitir.
O melhor que você pode fazer agora? Esqueça aquele papo de que estamos cada vez mais distantes e que as pessoas não se falam. Pelo contrário, estamos cada vez mais próximos. Sente, relaxe e assista de camarote, pois nem eu nem você podemos saber o que vem pela frente. E só tende a melhorar.
Fonte: De Waal, Frans (2001): Tree of Origin: What Primate Behavior Can Tell Us about Human Social Evolution, Cambridge, Mass., Harvard University Press.
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