Vivendo e desaprendendo

Crônica bem-humorada de Luis Fernando Verissimo, extraída do livro Comédias para se ler na escola (Rio de Janeiro: Objetiva, 2008).


Eu sabia fazer pipa e hoje não sei mais. Duvido que se hoje pegasse uma bola de gude conseguisse equilibrá-la na dobra do dedo indicador sobre a unha do polegar, quanto mais jogá-la com a precisão que tinha quando era garoto. Outra coisa: acabo de procurar no dicionário, pela primeira vez, o significado da palavra “gude”. Quando era garoto nunca pensei nisso, eu sabia o que era gude. Gude era gude.

Eu sabia a fórmula de fazer cola caseira. Algo envolvendo farinha, água e muita confusão na cozinha, de onde éramos expulsos sob ameaças. Hoje não sei mais. Juntando-se as duas mãos de um certo jeito, com os polegares para dentro, e assoprando pelo buraquinho, tirava-se um silvo bonito que inclusive variava de tom conforme o posicionamento das mãos. Hoje não sei mais.

Começando a contar depois de ver um relâmpago, o número a que chegasse quando ouvia a trovoada, multiplicado por outro número, dava a distância exata do relâmpago. Não lembro mais dos números. Espremendo a mão entre o braço e o corpo, tinha-se o chamado trombone axilar, que muito perturbava os mais velhos. Não consigo mais tirar o mesmo som. É verdade que não tenho tentado com muito empenho, ainda mais com o país nessa situação.

Lembro o orgulho com que consegui, pela primeira vez, cuspir corretamente pelo espaço entre os dentes de cima e a ponta da língua de modo que o cuspe ganhasse distância e pudesse ser mirado. Com prática, conseguia controlar a trajetória elíptica da cusparada com uma mínima margem de erro. Era puro instinto. Hoje o mesmo feito requereria complicados cálculos de balística, e eu provavelmente só acertaria a frente da minha camisa. Outra habilidade perdida.

Na verdade, deve-se revisar aquela antiga frase. Não é vivendo e aprendendo. É vivendo e desaprendendo. Não falo daquelas coisas que deixamos de fazer porque não temos mais as condições físicas e a coragem de antigamente, como subir em bonde andando – mesmo porque não há mais bondes andando. Falo da sabedoria desperdiçada, das artes que nos abandonaram.


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Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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