Já é possível modificar memórias e apagar medos

Artigo de Caroline Barrueco para o blog Noosfera.

Em um experimento feito na Universidade de Amsterdã, a professora de psicologia Merel Kindt encontrou uma maneira eficaz de “apagar” medos sem danificar a estrutura do cérebro. Para entender a pesquisa, primeiro precisamos entender como as memórias funcionam. Muitos neurônios estão envolvidos na formação de uma determinada memória, e o mais interessante é que uma lembrança não é como um filme para sempre gravado no cérebro, imutável. Pelo contrário: toda vez que nos lembramos de um evento, ele se torna instável e pode ser modificado.

O que normalmente acontece é que nós apenas reforçamos as ligações envolvidas nesse momento em que a memória está oscilante, deixando a lembrança e os sentimentos associados a ela mais fortes. Ou seja, a cada vez em que nos lembramos de algo, o caminho neuronal conectado àquele evento fica mais forte. E é um ciclo vicioso: quanto mais nos lembramos de alguma coisa, fica cada vez mais fácil se lembrar dela novamente. O que a Dra. Merel e o seu time fizeram foi bloquear quimicamente a reconsolidação de uma memória instável.

O experimento funcionou assim: foram selecionadas 45 pessoas com forte medo de aranhas. Em um primeiro momento, cada participante encontrou uma enorme tarântula dentro de um terrário aberto e foi instruído a tocá-la. Nenhum deles conseguiu, de fato, tocar a aranha. Mas tudo bem, porque esse momento serviu somente para reativar a memória de medo. Ao enfrentar a aranha, o participante era levado a acessar os seus medos e as suas memórias traumáticas. Nessa hora, a memória associada ao medo de aranha se tornava instável. Logo depois disso, os participantes receberam uma dose de propranolol, um betabloqueador que é usado para o tratamento de condições cardíacas e hipertensão.

Essa droga perturba a reconsolidação da memória, porque, no momento em que a lembrança está instável, o propranolol bloqueia um receptor chamado beta-adrenérgico, que é associado à metabolização de sensações de medo e ansiedade. E assim a memória é reconsolidada — mas, dessa vez, sem associação com o medo. Os participantes do experimento não esqueceram o que são aranhas, mas deixaram, quase que imediatamente, de sentir medo quando olham ou pensam nelas. Além do grupo que recebeu a droga, outros dois grupos participaram da pesquisa: um grupo recebeu propranolol mas não enfrentou a aranha, e por isso não acessou a memória de medo, e o outro grupo recebeu uma dose de placebo.

Uma semana depois, todos os participantes encontraram a tarântula novamente. Quando incentivados a tocar a aranha, todos os participantes do primeiro grupo conseguiram fazê-lo, enquanto os participantes dos outros dois grupos mal conseguiram se aproximar do terrário onde ela estava. E agora eles estavam associando um novo sentimento às aranhas: o triunfo. Um ano depois do experimento, os pacientes continuam sem apresentar medo de aranhas.

Merel está muito satisfeita com o resultado: “Nós mostramos que uma droga amnésica, quando ingerida em conjunto com a reativação de uma memória, transforma um comportamento de repulsa em pessoas com medo real de aranha”, comenta. “Esse novo tratamento mais parece cirurgia do que terapia”. Realmente é um “tratamento mágico”, que apaga o medo completamente e para sempre depois de apenas uma dose de um pequeno comprimido. Agora, acredita-se que essa técnica possa ser muito útil para casos de ansiedade e de estresse pós-traumático, mas tratamentos desse tipo seriam bem mais complexos, já que as conexões relacionadas a medos mais abstratos — como o medo da morte — provavelmente seriam mais difíceis de serem encontradas e acessadas.

O filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças (2004) mostra uma técnica muito semelhante à da Dra. Merel Kindt para apagar memórias. Experimentos desse tipo já haviam sido feitos em ratos na época em que o filme foi lançado. O artigo da Dra. Merel, relatando todo o processo, pode ser lido na íntegra aqui.


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Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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