O curioso efeito bouba-kiki

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Olhe as figuras acima e diga: qual se chama “bouba” e qual se chama “kiki”? Assim como cerca de 95% das pessoas que ouvem essa pergunta, você provavelmente parece saber instintivamente a resposta: a pontiaguda é “kiki” e a arredondada é “bouba”. Não se trata de um truque nem uma mera curiosidade, mas de um fenômeno que parece se manifestar em diferentes culturas, mesmo aquelas sem escrita, e entre pessoas de todas as idades.

Tudo começou em Tenerife, uma ilha da Espanha, em 1929, quando o psicólogo alemão Wolfgang Kohler fez experimentos apresentando às pessoas duas formas, uma com pontas e outra com curvas, e pedindo que elas as nomeassem como “takete” ou “baluba”. A maioria disse que a figura pontiaguda era “takete” e a curvilínea era”baluba”.

O experimento de Kohler não chamou muita atenção nem foi levado a sério pela comunidade científica, permanecendo como uma mera curiosidade até 2001, quando dois pesquisadores americanos publicaram pesquisas sobre sinestesia, um fenômeno que faz as pessoas misturarem experiências sensoriais, inclusive sons e imagens. Acredita-se que ele se manifeste em uma a cada 20 pessoas. Vilayanur Ramachandran e Edward Hubbard, da Universidade da Califórnia, suspeitavam que as conexões sensoriais cruzadas eram uma característica do cérebro humano. E o melhor meio de testar a hipótese era o experimento feito quase oito décadas antes pelo psicólogo alemão.

O teste de Kohler mostra como, por meio dos sons e formas apresentados por ele, as pessoas vinculam sentidos diferentes. Usando figuras similares, mas alterando ligeiramente seus nomes, os dois cientistas as apresentaram a um grupo que incluía estudantes americanos e falantes do idioma tamil: um índice assombroso de 95% dos participantes identificaram o desenho com pontas como “kiki” e o curvo como “bouba”.

Desde que foi confirmado o resultado de Kohler, várias áreas científicas têm explorado o efeito bouba-kiki e realizado mais estudos para entender suas implicações. Linguistas desconfiam que esse seria o “elo perdido da linguagem”, e destacam que talvez haja uma ligação entre os nomes de objetos e os sons e formas que fazemos com os lábios para pronunciar uma palavra. Ainda que, no início do século 20, o linguista suíço Ferdinand de Saussure tenha apresentado um sólido argumento que convenceu a maioria de seus pares da arbitrariedade da linguagem, o efeito bouba-kiki fez renascer a ideia de que o som de uma palavra pode estar vinculado a algum tipo de significado inerente.

Outros cientistas notaram que o efeito bouba-kiki não se manifesta apenas com a visão e a audição, mas também com outros sentidos, tais como paladar, olfato e tato. Pense, por exemplo: entre uma água com gás e uma sem, qual é “bouba” e qual é “kiki”? E entre o chocolate ao leite e o amargo? A ciência indica que nossos sentidos estão interconectados. Nossos cérebros formam vínculos entre formas, sons e sabores.

Estudos como o de Merle Fairhust e seus colegas na Universidade de Londres revelaram que a comida nos parece mais doce quando servida em um prato redondo em comparação com um quadrado ou triangular. Outros experimentos mostraram que os sabores picantes – como o do gengibre e do wasabi – são percebidos de forma mais intensa se servidos em recipientes “kiki” (ásperos e pontiagudos) enquanto a comida parece ficar mais cremosa em recipientes “bouba” (suaves e redondos). Como explicar que possamos usar sons e formas sem significado para cruzar as fronteiras dos sentidos? Ainda não sabemos exatamente, mas estamos cientes de que isso ocorre.

“Temos todo um mundo por descobrir: se você escreve ‘vinho’ com uma letra pontiaguda e, depois, com uma arredondada e toma o mesmo vinho, você sente gostos distintos”, disse à BBC o chef Heston Blumenthal, que tem testado esse universo. Quem já teve a chance de desfrutar um banquete de Blumenthal pôde viver essa aventura sensorial. Poucos exploram nossas percepções como ele. O chef usa o efeito bouba-kiki para intensificar sabores e surpreender, como quando apresentou pratos que se parecem com doces, mas têm gosto salgado.

Fonte: BBC Brasil.

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