Sobre “O Nome da Rosa”

A resenha a seguir foi entregue como requisito parcial de avaliação da disciplina “Filosofia da Comunicação”, ministrada pelo professor Dr. Giuseppe Tosi no curso de graduação em Jornalismo da UFPB, em 2011.


Assisti três vezes ao filme antes de começar a escrever. E escrever não foi uma opção: foi, antes, algo que eu não podia deixar de fazê-lo. Uma necessidade que surgiu enquanto eu me perdia numa fascinante aventura ao lado de William de Baskerville e seu discípulo Adso de Melk na grande biblioteca-labirinto de um mosteiro nas montanhas do norte da Itália, no final do outono (quase inverno) de 1327. Esse é o cenário para onde o cineasta francês Jean Jacques Annaud nos leva com admirável talento por pouco mais de 2 horas. E por “nos leva” entenda que estou falando sério: realmente me senti dentro da história, como que vivendo as experiências dos personagens. Experiências estas que, de tão marcantes e prazerosas, eu, como amante da literatura que sou, já cogito a compra do livro homônimo do qual o filme derivou. O filme traz à tona discussões importantes sobre como a comédia (o riso), as riquezas ou a ciência afetaram a cristandade.

O enredo começa a ganhar forma quando monges franciscanos de várias partes da Europa se reúnem com representantes do papa no mosteiro para uma conferência. Mas a missão deles é ofuscada por um grande “desconforto espiritual” devido a uma série de assassinatos misteriosos dentro do mosteiro, que os religiosos passam a atribuir aos “ardis do demônio”. Entra em cena, então, as habilidades do monge franciscano William de Baskerville (Sean Connery), que, auxiliado pelo seu noviço Adso de Melk (Christian Slater), começa a investigar as causas das mortes.

“A única prova que vejo do demônio é o desejo de todos de vê-lo atuar”, diz William. “Não vamos nos deixar influenciar por boatos irracionais. Em vez disso, vamos exercitar os nossos cérebros e tentar solucionar este torturante enigma”, completa. Com uma brilhante capacidade de dedução que chega a lembrar Sherlock Holmes, William passa por grandes apuros, que vão desde a acusação de heresia pela Inquisição até a acusação de ser o autor dos assassinatos, passando por um incêndio, até conseguir desvendar este intrigante mistério de uma forma que eu, para não contar o desfecho do filme e lhe estragar a emoção, prefiro omitir.

Em vez disso, considero muito útil fazer uma análise crítica de uma ideia predominante e de um costume muito comum na Idade Média, em torno da qual o filme se constrói. Me refiro à ideia de que o conhecimento, a sabedoria, a piedade e a espiritualidade está ligada diretamente à tristeza, beirando o mau humor. Diversas vezes é apregoado que “um monge não deve rir”, pois “para isso existe o bobo, que levanta a voz em risos”. O problema do riso para a Igreja, na Idade Média, baseava-se em uma lógica muito simples, representada no filme pelas palavras de um dos monges mais conservadores, o venerável Jorge: “O riso mata o temor. E sem temor não pode haver fé. Se não há temor no demônio, não é necessário haver Deus”.

Finalmente, por “costume”, me refiro à prática da Igreja de censurar livros que eles mesmos consideravam “espiritualmente perigosos”, ou seja, livros que apresentavam ideias capazes de pôr em dúvida os dogmas da Igreja. Ou, nas palavras do próprio William: “É porque contêm uma sabedoria diferente da nossa”. Sentindo por admitir que tamanha intolerância ainda vigora, disfarçadamente, nos nossos dias, concordo totalmente com William quando ele, eufórico por ter descoberto uma das maiores bibliotecas de sua época, composta apenas por livros proibidos pela Igreja, diz: “Ninguém deveria ser proibido de consultar estes livros!”.


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Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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