Como ressuscitar um dinossauro

Artigo de Caroline Barrueco para o blog Noosfera.

O DNA é uma estrutura muito complexa e frágil, e jamais permaneceria intacto por 65 milhões de anos. Nem dentro de fósseis e muito menos dentro de um mosquito preso em um pedaço de seiva. Mas existe uma maneira de manter o DNA vivo durante todo esse tempo, e é a maneira que a natureza usa: a autorréplica. E é por isso que o paleontólogo Jack Horner afirma que ainda hoje podemos ressuscitar um dinossauro, usando seu próprio DNA, que vem se autorreplicando por milênios. Isso porque nem todas as espécies de dinossauros foram extintas, algumas continuaram evoluindo e hoje estão vivas na forma dos nossos queridos pássaros modernos. Pensando nisso, Horner está encontrando formas de reativar traços no DNA de galinhas comuns, que estão lá desde a época em que elas eram dinossauros.

A evolução dos seres vivos acontece basicamente através de mutações em genes. Por exemplo, todos os genes que comandam o crescimento e movimento de braços e dedos ainda existem nas galinhas; mas acontece que, em um estágio muito inicial do desenvolvimento do embrião, outros genes desligam o desenvolvimento deles. É muito mais simples para a natureza fazer isso do que “jogar fora” um monte de genes. Não é assim que a evolução funciona. Então Horner quer recuperar quatro principais características que fariam uma galinha comum se tornar oficialmente um frangossauro:  bracinhos com dedos, rabo comprido, focinho e dentes.

Uma galinha com mãozinhas, dentes e rabo seria extremamente parecida com um velociraptor, um dos dinossauros mais populares do mundo. Não se iluda com os velociraptors gigantes e verdes mostrados no Jurassic Park, na verdade eles mediam cerca de 50cm e tinham o corpo coberto por penas. Em sua defesa, Horner, que foi um dos consultores para a saga Jurassic Park (e também inspirou o personagem do Dr. Alan Grant) disse em uma entrevista para o Google que bem que tentou convencer Spielberg que os dinossauros do filme deveriam ser coloridos e ter penas, mas Spielberg alegou que ninguém sentiria medo deles, e vetou: “Quando começamos, [Steven Spielberg] me disse que não queria criar monstros, mas eu tinha que ficar afastando ele de monstros, porque no fundo era isso que ele queria.”

Outros cientistas estão testando a possibilidade de reativar características ancestrais em aves. Em 2006 Matthew Harris e John Fallon descobriram que seria possível ativar o crescimento de dentes em galinhas. Ao suprimir a atividade de apenas um gene, os embriões começaram a desenvolver dentes redondos, como os de crocodilos, mas que nunca se desenvolveram completamente porque o bico impediu o seu crescimento total. Ano passado um outro grupo de biólogos de Harvard liderado por Arkhat Abzhanov descobriu como transformar os bicos de galinhas em focinhos. Eles perceberam que, ao se bloquear a atividade de uma determinada proteína, decodificada por dois genes na cabeça das galinhas, elas desenvolvem estruturas mais parecidas com focinhos do que com bicos.

Com metade do caminho andado, o time de Horner agora foca em reativar o crescimento de mãozinhas e rabo em galinhas. Segundo Horner, nenhuma dessas duas tarefas é muito difícil. Primeiro porque bem no início da gestação os embriões de quase todos os animais têm rabo (até dos seres humanos), mas muito cedo o rabo para de crescer e é reabsorvido. Então é preciso basicamente desativar o gene que suprime o crescimento do rabo em embriões de galinha. Se o rabo que surgir não for tão imponente quanto o de um dinossauro, que é o que Horner suspeita, eles terão que adicionar vértebras, e isso é possível controlando a temperatura do embrião. Essa pesquisa em particular é o que faz a ideia de Horner ter um pouco mais de relevância para o meio científico. Porque se descobrirmos como ativar o crescimento de vértebras poderemos usar essa técnica para tratar diversas malformações em humanos. O processo para transformar asas em mãozinhas é ainda mais fácil, porque a estrutura óssea já é quase igual. Em um momento da gestação as galinhas têm mãos. Só é preciso encontrar o gene que manda os três dedos se fundirem em uma asa e desativá-lo. E assim, usando somente o DNA da própria galinha, teremos um “frangossauro”. Ou seja, uma galinha já tem potencialmente tudo o que é preciso para se tornar um mini dinossauro!

Vale lembrar que tudo isso foi feito até o momento apenas a nível embrionário. Nenhum pintinho com focinho chegou a nascer, e Horner defende que só vai realmente chocar um “frangossauro” quando todas as características estiverem bem controladas e em harmonia. E para deixar essa história ainda mais improvável, adicionamos o fato de que o maior financiador do projeto até agora é ninguém menos do que George Lucas. Se o financiamento continuar, Horner promete que teremos o primeiro “frangossauro” em cerca de sete anos.

Se você ainda precisa de um motivo para aceitar a ideia de se criar um dinossauro de verdade, pense que isso ajudará a entender muito mais sobre engenharia reversa em genética e utilização de atavismos (características ancestrais que temos no nosso DNA) que poderão ser usadas em inúmeras pesquisas no futuro. Além disso, Horner espera que o “frangossauro” ajude a engajar crianças no estudo de genética, além de dar mais uma prova irrefutável da evolução das espécies. E para aqueles que acham tudo isso uma abominação, Horner relembra que os humanos já transformaram um lobo em um chihuahua, e ninguém reclama disso.


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Publicado por Charles Andrade

Filósofo (PhD), amante do saber, da estrada e da natureza. Pai de Catarina e Matias, casado com Mila.

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