Os diálogos de Gabriel

Crônica de Gabriel Perissé para a revista Educação.

A leitura apaga os limites entre espaços e épocas. Subitamente, eu me vi numa praça ateniense ao lado de várias pessoas mais ou menos reconhecíveis. Rostos estranhos e familiares ao mesmo tempo, rostos que aparecem em todos os sonhos, compostos por traços e linhas de semblantes que vemos misturados no cotidiano. E nessa praça híbrida havia um filósofo que só poderia ser o velho Sócrates, com seu eterno sorriso de ironia. Para variar, ele estava dialogando com um grupo de discípulos e adversários:

— O que é a leitura, Gabriel?

Ele estava se dirigindo a mim. De repente, eu havia aparecido dentro de um diálogo socrático. E Platão estava lá também. Como eu sabia que era Platão, esta é outra pergunta tão difícil quanto aquela, que Sócrates repetia:

— Afinal, o que é a leitura?

— Prezado Sócrates, sou tentado a dizer que não sei, porque sei muito bem que este é o objetivo inicial de suas perguntas: levar o interlocutor a duvidar de seu próprio saber.

— Uma resposta engenhosa, mas dessa forma você está apenas se esquivando da pergunta. Parece que você andou lendo os sofistas…

— Verdade, existem alguns autores por aí que podemos chamar de sofistas. Mas não foi a eles que pedi ajuda. É sempre difícil atingir a essência das coisas. Ainda mais de algo como a leitura, que não é uma “coisa”, e que eu imagino saber o que é…

— Vou ajudá-lo a superar o nível imaginário, pois tenho conhecimento de que você vive escrevendo sobre esse tema. Inclusive neste momento, para a coluna intitulada LEITURAS EDUCADORAS.

Enquanto conversávamos, percebi que o jovem Platão fazia anotações. Outros ali presentes olhavam atentamente para mim, como se eu fosse uma estátua grega.

— Gabriel, recomecemos a pensar a partir da expressão “leituras educadoras”. Você considera que toda leitura educa?

— Acho que sim.

— Esperava eu que você, como professor, tivesse certeza do que pensa. Educa ou não?

— Bom, sendo honesto com você, nem todas as leituras educam, prezado Sócrates. Tenho encontrado nas livrarias dezenas de textos desnorteadores.

— Entendo. Você diria, portanto, que uma leitura educadora indica o norte da existência.

— Sim, esta ideia me agrada.

— E lhe agrada porque você sabe qual é o “norte”? De que mapa estamos falando?

— O “norte” indica que a pessoa sabe para onde está indo. Não necessariamente para o norte. Uma pessoa orientada no mapa de sua vida sabe onde fica o Oriente. Sabendo onde fica o Oriente, sabe também caminhar para o Ocidente. Paulo Freire falava que os países do Sul tinham de aprender a “sulear” os países do Norte.

— Sei que Paulo Freire escreveu sobre a importância do ato de ler.

— Exatamente, Sócrates. Existem centenas de livros que elogiam a arte de ler. Eu diria, aliás, que todo livro bem escrito é uma forma de incentivar a lermos mais.

— Uma coisa me deixa intrigado. A leitura precisa ser elogiada? Não seria natural que os educadores formassem leitores e que estes educassem seus filhos para a leitura, e que estes por sua vez, ao crescerem, conti­nuassem a formar novos leitores para a sociedade?

— Em que mundo você vive?

— Boa pergunta, Gabriel!

— Sócrates, não sei por quanto tempo vamos ficar conversando nessa praça onírica. Não posso, por isso, jogar fora essa oportunidade. Gostaria de lhe fazer uma outra pergunta.

— Fique à vontade, o texto é todo seu.

— Quais são as suas leituras preferidas? Como qualificar o seu modo de ler, Sócrates?

— Meu amigo, você fez duas perguntas, mas talvez elas sejam uma só, realmente. Meu modo de ler é ler aquilo que eu prefiro ler.

— E…?

— E isto significa que tudo o que eu escolho ler fala sobre o mundo e sobre a alma. Minha leitura é sempre autoconhecimento e conhecimento da realidade.

— Quais foram as suas últimas leituras?

— É engraçado você falar em “últimas” leituras. A última coisa de que me lembro não tem muito a ver com leitura. Eu estava há poucos minutos tomando uma taça de cicuta, e apareci aqui nesta praça. Estarei sonhando com você e meus amigos? Estarei delirando, às portas da morte? Ou aqui é o céu dos filósofos?

— Sócrates, estamos literalmente juntos!

— Mas se eu procuro minhas lembranças em torno de leituras antigas e recentes, começo a descobrir muitos livros em minha memória. Dentro de mim há uma biblioteca imensa, infinita, labiríntica.

— Talvez todos estejamos dentro dessa biblioteca. Um autor disse, certa vez, que toda a cultura ocidental cabe dentro de uma nota de rodapé da obra completa de Platão.

Platão me olhou e acenou.

— A leitura não é mero divertimento, ainda que seja prazerosa. É um pão cotidiano. Sem alimentar-se, a pessoa não pode andar, seja para o norte, seja para o leste ou o oeste, seja para o sul. E toda vez que alguém opta por uma direção, em dado momento descobre que a Terra é redonda. Sem alimentar-se, porém, ficará sem forças para a caminhada.

Quando fui responder, a figura de Sócrates começou a sumir, e, com ele, todo o cenário e os demais personagens. Antes que tudo desaparecesse, arranquei das mãos de Platão o rascunho do Diálogo que agora transcrevo.

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