O colonialismo cognitivo da comunidade brasileira de filosofia

Artigo de Murilo Seabra, Doutor em Filosofia pela La Trobe University, publicado originalmente no portal da ANPOF.

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A comunidade acadêmica brasileira de filosofia tende a conferir, numa escala de 0 a 10, em média 0,96 ponto a mais para o mesmo texto quando ele é assinado por um autor fictício francês ao invés de um autor fictício brasileiro. A pesquisa foi realizada com professores e pós-graduandos de sete universidades brasileiras e está detalhada no capítulo “Colonialismo cognitivo”, do meu livro Oftalmopolítica: um problema com a visão da filosofia, que acabou de ser lançado pela editora Ape’Ku.

O método que utilizei na pesquisa não foi complexo. E não foi muito original (só um pouco). Já é bastante conhecida a tática de investigar o preconceito de gênero (e de raça) no mercado de trabalho por meio de currículos idênticos, com a única diferença de que um deles é atribuído a uma mulher (ou uma pessoa negra) e o outro é atribuído a um homem (ou uma pessoa branca). A novidade da minha pesquisa foi que, ao invés de me debruçar sobre o problema do preconceito no mercado de trabalho (tema já bastante discutido), elaborei meu instrumento de coleta de dados para verificar se havia ou não preconceito de nacionalidade no universo acadêmico (mais especificamente, nos departamentos de filosofia brasileiros).

“De jeito nenhum!”, escreveu um professor de uma universidade federal, com letras garrafais, no item que perguntava se o texto assinado por um autor brasileiro deveria ser publicado. Nenhum dos respondentes fez uma avaliação tão severa quando o mesmo texto apareceu assinado por um autor francês. Apesar de sua hostilidade a Marcos Teixeira, o autor brasileiro fictício que criei para a pesquisa, ter atingido a estratosfera, o fato é que ela não saiu do padrão.

Quando estava desenhando o instrumento de coleta de dados, eu achava que Marc Thévenet, o meu autor francês fictício, seria mais bem avaliado do que Marcos Teixeira em praticamente todos aspectos; eu achava que ele seria considerado mais coerente, mais atual, mais original, e, claro, mais digno de ser publicado. Para minha surpresa, porém, em itens como coerência e atualidade, a diferença nas avaliações foi apenas marginal. Os grandes divisores de águas foram a “publicabilidade” e a originalidade. Marc Thévenet não foi julgado mais coerente nem mais atual do que Marcos Teixeira. Mas ele foi julgado mais digno de ser publicado e mais original.

Esses resultados aparentemente desbalanceados têm uma explicação. Todo mundo pode ser coerente (não é difícil). Todo mundo pode estar a par das últimas novidades (também não é difícil). Os predicados epistêmicos “coerência” e “atualidade” não destacam ninguém na esfera do saber. Não lemos os autores e as autoras que lemos simplesmente por serem coerentes ou atuais. Pelo contrário, lemos os autores e as autoras que lemos por terem dado contribuições substantivas ao nosso entendimento do mundo, isto é, por terem sido originais. Todo mundo pode ser coerente e estar atualizado. O difícil é ser original.

O item “publicabilidade” me foi sugerido por Rowan Ireland, sociólogo que fez uma série de pesquisas sobre o Brasil. Por que ele dividiu as águas de maneira tão forte? A resposta é relativamente simples. Duas pessoas podem julgar um texto como sendo de baixa ou alta qualidade por motivos diferentes. Apesar dessas diferenças, elas tenderão a convergir em sua rejeição ou em sua aprovação. Houve mais pessoas que acharam que Marc Thévenet merecia ser publicado do que pessoas que o acharam original. Houve mais pessoas que acharam que Marcos Teixeira não merecia ser publicado do que pessoas que acharam que ele só estava repetindo o que todo mundo já sabia.

A comunidade acadêmica brasileira de filosofia considera seus agentes epistêmicos suficientemente competentes para serem coerentes e atuais, mas não para serem originais. Eles podem, sim, escrever sobre Wittgenstein, Heidegger, Arendt ou Butler. Eles só não podem propor ideias novas e ser originais.

Talvez o resultado mais perturbador da pesquisa seja que a comunidade acadêmica brasileira de filosofia utiliza rotineiramente dois pesos e duas medidas. Quando um texto que escapa aos limites disciplinares da filosofia acadêmica é assinado por um francês, ele é percebido como original. Quando o mesmo texto é assinado por um brasileiro, ele já não é mais percebido como original e sim como erro de percurso. É como se uma mesma obra de arte fosse considerada bela quando atribuída a um artista europeu e feia quando atribuída a um artista latino-americano. Ou como se um juiz decidisse pela inocência do acusado quando ele é branco e pela sua culpa quando é negro. Ou ainda como se o cálculo “9.685+4.651=14.336” fosse considerado certo quando realizado por um alemão e errado quando realizado por um mexicano.

O que surpreende é que a pesquisa não foi realizada com pessoas do público leigo, mas com professores e pós-graduandos (mestrandos e doutorandos), isto é, com pessoas altamente treinadas que um observador externo julgaria capazes de avaliar um texto apenas pelo seu conteúdo, desconsiderando a nacionalidade de quem o escreveu.

Na matemática, pode-se fazer um cálculo para saber se a soma “9.685+4.651=14.336” está certa. As proposições filosóficas, ao contrário, estão muito mais para propostas de como ver o mundo. Não existe um procedimento padrão para avaliar se Descartes estava certo ao dizer que “Penso, logo existo”. A filosofia se movimenta, em grande medida, no âmbito da incerteza. É possível que sua abertura a torne especialmente suscetível ao uso de dois pesos e duas medidas. Se a lei não deixasse espaço de manobra para o juiz, ele não poderia favorecer os brancos em detrimento dos negros.

O mundo é assimétrico, por assim dizer. A sua assimetria permite que apliquemos regularmente dois pesos e duas medidas em nossas avaliações sem termos a menor consciência de que o estamos fazendo. É por isso que experimentos controlados – com currículos idênticos e textos pareados – são importantes. Porque todo mundo se acha imparcial e racional. Ninguém se acha preconceituoso. E até certo ponto, é perfeitamente compreensível que ninguém se ache preconceituoso. O preconceito, via de regra, não é acessível à introspecção. Mas ele é acessível. Ele transborda do mundo interno para o mundo externo. Aliás, sua força sociomorfológica pode ser observada por todos lados: vivemos em uma sociedade segregada onde as pessoas de pele escura (e as pessoas nascidas em países periféricos) têm menos oportunidades do que as pessoas de pele clara (e do que as pessoas nascidas nos países que estão no centro do capitalismo mundial). Com instrumentos adequados e suficientemente sensíveis, o preconceito pode ser detectado, pois ele deixa rastros na realidade.

A filosofia, ao contrário da matemática, é uma disciplina aberta. É de se esperar, portanto, que o mesmo texto suscite avaliações diferentes por parte de diferentes membros da comunidade acadêmica de filosofia. No entanto, essas diferenças, que existiram, não foram aleatórias. Elas seguiram um padrão específico: o autor fictício francês foi favorecido em detrimento do autor brasileiro. Então não sofremos apenas de colonialismo cultural, acadêmico ou epistêmico. Também sofremos de colonialismo cognitivo. Isto é, o eurocentrismo afeta nosso raciocínio. Ele está mal calibrado. Como já havia antecipado no meu livro Metafilosofia, de 2014, tendemos a ser condescendentes demais com os europeus e críticos demais com nós mesmos.

É importante frisar que não utilizei, na minha pesquisa, currículos pareados e sim textos teóricos pareados. A diferença pode parecer pequena, mas ela tem uma consequência importante. A comunidade brasileira de filosofia não acha que os pensadores franceses simplesmente possuem um potencial maior do que os pensadores brasileiros. O que ela acha é que os pensadores brasileiros são inferiores aos franceses até mesmo quando apresentam exatamente o mesmo desempenho.

Infelizmente, não há como conciliar esse resultado com a visão otimista que os acadêmicos costumam ter das próprias capacidades cognitivas. Não é que não sejam inteligentes; é muito trabalhoso entender autores como Kant e Hegel. Mas em um determinado momento a inteligência se transforma no seu inverso, desembocando no que poderia ser chamado de “erosão cognitiva”. A erosão cognitiva não deve ser confundida com a racionalização. Tipicamente, a racionalização consiste em uma explicação plausível e aparentemente coerente que, não obstante, mascara uma pulsão inconsciente. A marca distintiva da erosão cognitiva, ao contrário, é a incoerência e a irracionalidade aparentes; é a paralização temporária das faculdades cognitivas.

Pode parecer deselegante colocar em questão o funcionamento do aparelho cognitivo de pessoas altamente treinadas. Mas se você calcula “9.685+4.651” e chega no primeiro dia a “14.336”, no segundo dia a “13.556” e no terceiro dia a “15.756”, o fato é que, apesar de seu semblante compenetrado e da sua certeza íntima de que sempre faz seus cálculos com rigor, alguma coisa muito estranha está acontecendo. A inteligência pressupõe um mínimo de imparcialidade e um mínimo de consistência.

O mistério pode ser desfeito quando analisado com cuidado. A sensação de que se está pensando com rigor não implica que se está pensando com rigor. E as coisas só pioram quando você diz que o francês está certo e o brasileiro está errado ao dizer que “9.685+4.651=14.336”. E quando o brasileiro diz “9.685+4.651=14.336” e mesmo assim você finca o pé no chão e até “demonstra” que ele está errado, temos uma ilustração perfeita da erosão cognitiva. Já passei por isso (mais de uma vez). Se você desafiar a divisão internacional do trabalho intelectual, você também será colocado de volta no seu lugar (inclusive por argumentos reluzentemente incoerentes).

Veja também este artigo sobre o mesmo assunto publicado pelo Murilo Seabra, juntamente com Luke Prendergast, para a revista moçambicana de filosofia O Curandeiro: Colonialismo Cognitivo: As Preferências Implícitas da Comunidade Acadêmica Brasileira de Filosofia.

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