Saudades de vovó Socorro

Veja também: Saudades do velho Chico

No último sábado sepultamos a matriarca da família Andrade, minha saudosa vovó Socorro, que vagarosamente desceu do alto dos seus 81 anos, deixando uma penca de filhos, netos e bisnetos espalhados por esse mundão. Reza a lenda que uma velha sertaneja raiz não morre: ela vai encolhendo, murchando e arqueando a corcunda até, um dia, sumir. Os últimos anos de voinha não foram muito diferentes disso. A bateria foi acabando, ela foi entrando em modo noturno, modo economia de bateria, modo avião, travou o sistema e finalmente desligou. Quem conviveu de perto sabe bem do que estou falando.

Em torno dela, mais ou menos a cada dois anos – mas sem tanta regularidade –, se reunia gente de João Pessoa, Natal e Brasília durante as férias de janeiro para confraternizar. O último registro desses encontros é esta fotografia de 2020, que nunca mais irá se repetir. É estranho como, no momento de juntar todo mundo para “bater um retrato”, a gente nunca imagina que aquele pode ser o último. Dessa vez foi.

Morei na casa dela os três primeiros anos da minha vida, e continuei convivendo lá com muita frequência durante toda a infância. Foi lá que aprendi a andar empurrando as cadeiras da cozinha. Foi lá que fiz muito serão e dei muito trabalho pra dormir a noite, revelando desde cedo a minha condição de notívago e vespertino. Foi lá meu primeiro emprego informal quando, nos idos dos anos 90, eu tomava conta do armarinho dela, que levou o meu nome: Charles Magazine (a semelhança com o nome deste blog não é mera coincidência, é inspiração mesmo: apenas juntei as palavras). Em época de carnaval, era para debaixo da cama dela que eu corria e me escondia toda vez que escutava o bater das latas na rua e sabia que era a “ala ursa” chegando.

Desde minhas primeiras lembranças da infância, “Socorro” nunca foi só um nome ou só um pedido de ajuda: sempre foi as duas coisas juntas, inseparáveis. Hoje, quando chamo por Socorro, minhas palavras se perdem no vento e só encontram destinatário na memória.

Não sei se isto aqui é uma despedida, um obituário, uma nota de pesar, uma homenagem póstuma ou sei lá o que; mas resolvi encerrar com uma das lembranças mais gostosas, confortantes e acalentadoras de vovó Socorro: a canção que ela cantava para eu dormir, de um artista cego lá de Mossoró, no sertão do Rio Grande do Norte, onde ela morou por uns anos quando minha mãe ainda era criança. Senhoras e senhores, com vocês, “Serenata nas Montanhas” de Elizeu Ventania.

Socorro, que saudade!

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