Saga de um mestrando

No começo de 2018, mudei para São Paulo a fim de realizar um sonho que alimentei desde o início da graduação: cursar o mestrado em filosofia sobre a teoria da demonstração científica de Aristóteles no melhor lugar onde isso poderia ser feito: na UNICAMP, junto ao grupo de aristotélicos que chamei na dissertação de “escola de Campinas”, sob orientação de um dos maiores especialistas vivos na obra de Aristóteles, o professor Dr. Lucas Angioni. Juntando a isso o fato da UNICAMP ter recebido o título de melhor universidade da América Latina nos rankings da revista Times Higher Education de 2017 e 2018, e o fato do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UNICAMP ser conceito 6 na Capes (excelência internacional), eu tinha motivos mais que suficientes para dedicar a esse projeto minha atenção e meus esforços. Mas, como toda grande empreitada, essa veio acompanhada de muitos desafios.

O desafio da mudança foi o primeiro de muitos. Vendi carro, eletrodomésticos, doei alguns móveis, empacotei tudo, fiz as malas e viajei para São Paulo. Morei por dois meses na casa do amigo Titao Yamamoto, na Vila Mariana, pertinho do Parque do Ibirapuera, enquanto procurava um teto para chamar de lar em Campinas. Nesse tempo rodei de moto praticamente toda a região central de São Paulo, e viajava 100 km até Campinas duas vezes por semana, algumas vezes debaixo de tempestades assustadoras, para participar das atividades do mestrado. Depois disso mudei para Campinas de fato e morei num quitinete bem aconchegante a poucos metros do campus. No ano seguinte mudei para uma casa perto do campus que abriga simultaneamente uma república de estudantes e uma igreja cristã de tradição reformada: a Comunidade do Estudante Universitário – ou CEU, para os íntimos.

O nível de exigência do mestrado na UNICAMP foi outro grande desafio. Cheguei com aquele inglês básico e safado que a gente aprende nas escolas públicas (pelo menos na minha época e na minha escola), e tive que encarar no mestrado 80% da bibliografia e 100% dos eventos em inglês! Foi como aprender a nadar sendo jogado na água: ou eu nadava ou morria afogado. Fui me virando e, após dezenas de papers e muitas conferências com professores estrangeiros, meu inglês evoluiu “na tora”, como se diz aqui na Paraíba. Além do inglês, tive que estudar muito grego clássico, duas vezes por semana, para conseguir ler Aristóteles no original. Como se isso fosse pouca coisa, ainda precisei abortar meu projeto de pesquisa inicial e recomeçar outro praticamente do zero. Confesso que algumas vezes cheguei à exaustão mental e quis desistir.

Mas o maior desafio mesmo foi, sem dúvida, de caráter íntimo e pessoal. Depois de minha vida virar de cabeça pra baixo com um divórcio, tive que aprender a viver longe da minha filha, Catarina, de quem sempre fui muito apegado. Quando fui pra São Paulo ela era um bebê de apenas dois anos; quando voltei, já estava com quatro. Alguns dirão que perdi a melhor fase da vida de uma criança, e eu tendo a admitir que talvez isso seja verdade. Meu maior desejo sempre foi estar perto dela, mas como a UFPB estava me bancando financeiramente com um afastamento remunerado do trabalho, desistir do mestrado e voltar pra casa nunca foi uma opção. Com exceção das férias que passei em João Pessoa, todo o resto do tempo tive que matar a saudade dela com frias e distantes chamadas de vídeo. Ao mesmo tempo em que doía, a saudade era mais um fator motivador para que eu me dedicasse e concluísse o mestrado. Essa é a razão da dedicatória da minha dissertação ser tão curta: “a Catarina”.

E por falar em dissertação, sei que muitos de vocês devem estar curiosos para lê-la (ou pelo menos dar uma olhadinha, já que quase ninguém hoje em dia se interessa pelo que disseram filósofos mortos há mais de dois milênios), então resolvi compartilhar aqui o arquivo PDF, é só clicar no link abaixo:

A TEORIA ARISTOTÉLICA DA DEMONSTRAÇÃO CIENTÍFICA

Hoje sei que todo sacrifício valeu a pena, e só tive certeza disso após ouvir na defesa, depois de quase três horas de arguição, estas palavras dos membros da banca:

2 comentários em “Saga de um mestrando

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s