Os 10 mandamentos da lógica

10-logic

Tradução livre de uma imagem que circulou pela web em inglês:

1) Não atacarás a personalidade ou o caráter da pessoa,
mas apenas o seu argumento. (ad hominem)

2) Não modificarás ou exagerarás o argumento de uma pessoa
para torná-lo mais fácil de atacar. (falácia do espantalho)

3) Não usarás números pequenos para representar o todo.
(generalização apressada)

4) Não defenderás vosso argumento por assumir automaticamente
que uma de suas premissas está correta. (petição de princípio)

5) Não alegarás que só porque uma coisa ocorreu antes da outra,
a primeira obrigatoriamente é a causa da segunda. (post Hoc)

6) Não reduzirás toda a complexidade da argumentação
a apenas duas possibilidades. (falsa dicotomia)

7) Não argumentarás que, por causa de nossa ignorância, certa alegação é obrigatoriamente verdadeira [ou falsa]. (ad ignorantium)

8) Não imporás o ônus da prova de teu argumento àquele que questionas.
(inversão do ônus da prova)

9) Não assumirás que “isto” se segue a “aquilo” quando na verdade não há essa conexão lógica. (non sequitur)

10) Não alegarás que uma premissa está correta por ser popular.
(falácia da popularidade)


Hierarquia dos argumentos

Não lembro onde achei essa pirâmide. Estava entre meu arquivos. Ela mostra, pelo menos em teoria, quais tipos de argumentos deveriam ter mais peso em um debate e quais deveriam ser evitados ou ignorados por serem irrelevantes. Achei belo.

hierarquia dos argumentos


Opinião não é argumento

Não é fácil vencer uma discussão. Especialmente em um contexto inflamado, em que as opiniões se polarizam, notícias falsas se proliferam, debatedores recorrem a ofensas e sarcasmo e festas de fim de ano criam ambientes propícios para a briga. Uma boa discussão, ao contrário do que a maior parte das pessoas pensa, não serve para a disputa – e, sim, para a construção do conhecimento. Nesse sentido, saber sustentar uma boa argumentação é fundamental. É o que defende Walter Carnielli, professor de lógica da Unicamp e autor de Pensamento crítico – o poder da lógica e da argumentação (Editora Rideel), livro escrito em parceria com o matemático americano Richard Epstein. Veja a seguir trechos da entrevista concedida pelo professor Carnielli ao jornal Nexo:


Um argumento é uma viagem lógica que vai das premissas à conclusão. Conforme a definição dada no nosso livro, um bom argumento é aquele em que há boas razões para que as premissas sejam verdadeiras, e, para além disso, as premissas apresentam boas razões para suportar ou apoiar a conclusão. Em outras palavras, as premissas que você apresenta devem ser precisas e verdadeiras, e devem produzir uma razão para se pensar que a conclusão é verdadeira. Desse modo, há duas maneiras em que um argumento pode falhar: Se as premissas forem falsas, ou se não apoiarem a conclusão. Em geral as pessoas erram mais na segunda: parece mais difícil decidir se as premissas apoiam ou suportam a conclusão do que verificar se elas são verdadeiras ou falsas.


Existe um princípio metodológico importante na argumentação que é o Princípio da Acomodação Racional, também conhecido como Princípio da Caridade, e que foi tratado por filósofos de peso como Quine e Davidson. O princípio exige que devemos tentar entender o ponto de vista do oponente em sua forma mais forte e persuasiva antes de submeter sua visão à nossa avaliação. Dessa forma, devemos primeiro fazer todos os esforços para esclarecer as premissas e a conclusão do oponente, inclusive ajudando-o a reparar os pontos fracos. Só então, após essa atitude respeitosa, é que devemos gentilmente apontar a ela ou a ele onde suas premissas são falhas ou duvidosas, e/ou porque tais premissas não apoiam a conclusão. Em outras palavras, o Princípio da Acomodação Racional impõe que interpretemos as afirmações dos outros de forma a maximizar a verdade ou racionalidade do adversário, tanto quanto isso seja possível. É a maneira mais respeitosa e produtiva de manter uma discussão honesta.


Há centenas de falácias conhecidas e estudadas, mas a lista é potencialmente infinita. Há falácias lógicas, falácias estruturais, falácias de analogia, falácias emocionais, etc. Uma falácia é basicamente um mau argumento. As pessoas gostam das falácias com rótulos em latim, que soam poderosas, são usadas por advogados e impressionam o oponente.


Crenças não são argumentos, embora possam influir neles. Os mecanismos para formar opiniões podem não ser racionais, mas até nesse ponto a investigação lógica é essencial. Por exemplo, existe uma racionalidade de como revisar suas próprias crenças – a teoria de revisão de crenças – que são essenciais para computação teórica, por exemplo. Como podemos “explicar” a um computador como ele deve rearranjar seus dados frente a novas informações? Ainda mais, as pessoas podem manter crenças verdadeiras por razões irracionais, ou manter crenças falsas por decisões racionais. Some-se a tudo isso o fato de que o conhecimento é tradicionalmente visto como um tipo especial de crença, e que o problema das contradições na razão é também um importante tema da lógica. A lógica formal, e a informal (presente na linguagem comum, que não utiliza nenhum tipo de técnica para ser apresentada), são importantíssimas para se investigar a razão humana.


Nós, brasileiros, temos uma péssima educação argumentativa: confundimos discussão com briga, e vemos críticas como inveja ou falta de amizade. Pior ainda: quando começa uma discussão, muitas vezes vem o seguinte: “tenho o direito de ter minha opinião”. Claro que todos têm o direito de manter sua opinião, mas opinião não é argumento. A democracia também é feita de opiniões – ninguém precisa argumentar para votar no candidato que preferir, basta manifestar sua opinião nas urnas. Mas quando o candidato quer nos convencer, ou quando queremos convencer os outros sobre nossa posição política, nossas crenças não bastam.

2 comentários em “Os 10 mandamentos da lógica

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