A ousadia dos sabiás

Em São Paulo, passarinho canta e gente reclama. Como melhorar esse humor? Cristiane Segatto responde em sua coluna no site da revista Época.


Os sabiás de São Paulo ousam cantar. Não estão nem aí para as reclamações que circulam nas redes sociais. Paulistanos piam contra tudo. E agora também contra os passarinhos. Segundo os incomodados, a cantoria durante a madrugada atrapalha o sono. Nesta semana, a discussão esquentou. Os bichos seguem cantando. Não sabem que a cidade se tornou uma fábrica de implicantes compulsivos. Talvez saibam, mas não perdem tempo com eles. Se gastarem energia com bate-bico morrem de fome ou na bocarra do gato vira-lata. No território dos passarinhos, aquele que usurpamos descaradamente, vale um ditado bem conhecido entre nós: “os incomodados que se mudem”. Sábios sabiás. Devíamos aprender com eles. Devíamos ouvi-los mais.

Ouço um agora mesmo, enquanto escrevo este texto. Mais de um. Não só sabiás. Volta e meia um beija-flor me surpreende na sacada do meu apartamento, atraído pelas plantas. Moram nos míseros e últimos nacos de verde que nos cercam. Aqueles raros quintais que ainda não cederam espaço a monstruosidades de 20 andares com 5 vagas de garagem por apartamento. A presença dos passarinhos é um privilégio. Eles cantam e eu caio no sono. Incomodam tanto quanto uma chuvinha fina batendo na janela. Desconfio que a maioria das pessoas considera que o som das aves seja relaxante – e não perturbador.

Uma experiência interessante aconteceu recentemente no Forth Valley Royal Hospital, na Escócia. Para ajudar pacientes com extrema dificuldade de dormir, o artista Mark Vernon criou uma trilha sonora especial para a estação de rádio interna. O objetivo era fazer adormecer o mais desperto dos insones. Para isso, Vernon pesquisou uma série de sons suaves e fez uma mistura poderosa. Ouvi um trecho e, quando percebi, estava bocejando em frente ao computador. Precisei levantar, dar uma volta, pegar uma xícara de café. Quase adormeci com a mistura de piano, água corrente e… pássaros. Muitos pássaros.

Parece ser o caso do sabiá-laranjeira que, a partir do final de inverno, se reproduz. Os machos andam cantando à beça em São Paulo. Cantam para mostrar às fêmeas que são um bom partido. O canto vigoroso é entendido como uma demonstração da capacidade de alimentar os filhotes e de defender o território nas disputas com outros machos. Segundo um especialista consultado pela Folha de S.Paulo, é de madrugada que o macho ensina a melodia aos filhotes. Ele fica a até 5 metros de distância do ninho. Se fizesse isso durante o dia, os filhotes ficariam na mira dos predadores.

São boas as razões do sabiá. O levante contra ele pode ser fruto de rabugice crônica. Sabe aquele tipo de pessoa que num dia reclama da chuva, no outro do sol, durante a semana pragueja contra o barulho da capital e, num feriadão prolongado, diz que não suporta o tédio da cidade vazia? Quando o mau humor é constante e vem acompanhado de outros sintomas (falta ou excesso de apetite, insônia ou sono excessivo, fadiga, baixa autoestima, dificuldade de concentração), a pessoa pode estar sofrendo de distimia – um tipo de depressão com sintomas menos graves. O mau humor (crônico ou circunstancial) é agravado pelas noites mal dormidas. Ou provocado por elas. Dormir bem é fundamental para a manutenção do equilíbrio geral do organismo, para a consolidação da memória e do aprendizado, entre outras funções. Algumas dicas para melhorar a qualidade do sono:

• Evitar dormir de dia
• Praticar atividade física
• Ter horários regulares para dormir e despertar
• Dormir num ambiente limpo, escuro, confortável, sem ruído de TV
• Não consumir álcool, café e refrigerantes perto do horário de dormir
• Realizar atividades repousantes e relaxantes preparatórias para o sono
• Não usar medicamentos para dormir sem orientação médica
• Jantar com moderação e em horário regular
• Não levar problemas para a cama

Quem sabe assim o sabiá deixe de ser um problema.

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